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PARA LEONOR





Agora só me resta escrever esta carta para você, Leonor, mesmo com a triste sensação de que ela nunca chegará até as suas mãos.
Digo isso porque irei enviá-la para o endereço que você vivia cinco anos atrás, e espero que ainda esteja morando no mesmo lugar. Caso não esteja, alguém deverá recebê-la. Talvez algum parente que tenha herdado seu antigo apartamento, ou até mesmo algum novo morador. Pouco importa.
Acho que algumas palavras não servirão para expressar a coisa que sinto. Não sei bem o que é, mas meu coração acredita que não seja nada bom. Você lembra da enorme Figueira que havia no quintal de minha casa?
Aquela onde você e eu rabiscamos nossos nomes e os circulamos com um coração? Bem, ela teve de ser derrubada. Na verdade, um de meus vizinhos acabou ligando para o corpo de bombeiros e informou a situação. Quem compareceu foram apenas três sujeitos, dois com aspecto de veteranos e um rapaz magricela com sardas no rosto. Um deles (talvez o mais velho, usando um capacete e segurando um caderninho de bolso) me disse que se eu não permitisse o corte da árvore, seria o responsável caso uma merda feia acontecesse. Perguntei para ele que merda poderia acontecer, e ele me respondeu o óbvio:
— Derrubar a casa de algum vizinho, ou até mesmo a sua, senhor — ele me disse, pacientemente.
Concordei com as palavras dele e pedi apenas um minuto para me despedir. Tenho certeza que eles ficaram sem entender, mas você sabe muito bem que sempre tive uma ligação muito forte com aquela Figueira.
Me aproximei dela devagar, arrastando as sandálias e encarando o seu tronco robusto, de circunferência invejável. A sombra estava cobrindo boa parte de meu quintal. A primeira coisa que vi, foram os nossos nomes; imediatamente lembrei do dia em que os gravamos na árvore.
Usamos o meu canivete suíço que havia ganhado de aniversário de um tio que já morreu há uns trinta anos. Lembro de escrever o meu nome primeiro, entregar o canivete para você e lhe observar sorrir. Você teve dificuldades quando começou (o L insistia em ficar torto), mas depois acabou pegando o jeito. O coração foi eu quem fiz, e então nos beijamos à sombra da grande árvore e prometemos que nunca iriamos nos separar.
Grande tolice. Quantos anos tínhamos naquela época? 12? 13?
Adolescentes são realmente imaturos. Às vezes me pergunto onde foi que erramos, em que lugar da estrada pegamos o caminho errado, mas não sou capaz de descobrir.
Quando um dos bombeiros ligou a serra-elétrica, fechei os olhos e me atirei na velha poltrona. Foi um trabalho longo, com a árvore sendo destruída aos poucos e com estrondos fortes a cada galho dela que caía.
Acho que acabei pegando no sono, pois dei um salto quando escutei que alguém batia na minha porta. Arrastei os pés até a entrada e descobri que era um dos bombeiros. O mais jovem, suando e com serragem lhe salpicando o rosto.
— Acabamos aqui, senhor — ele me avisou.
— Ok.
— Como pode ver, ficou muito melhor assim. Não há riscos agora.
— Se você diz.
Ele se despediu e se juntou aos outros dois que já estavam dentro do caminhão.
Foi estranho olhar na direção da Figueira e não enxergá-la mais lá. Pude ver a rua facilmente, enxergar a casa do vizinho sem precisar abaixar um pouco a cabeça e até uma coisa que ainda não havia notado; a cor dela era azul.
Procurei pela enorme sombra, mas não a encontrei. Tentei escutar os galhos dela rangendo ou as folhas farfalharem, mas nada aconteceu.
Bem, isso até umas semanas atrás.

Não posso dizer pra você, Leonor, que não senti medo. Se dissesse, estaria mentindo, e isso você sempre soube que não era capaz de fazer.
Começou há um tempo, em uma tarde que o céu passou de azul para preto em questão de minutos. Uma tempestade estava se aproximando, e parabenizei a mocinha do tempo por não ter errado daquela vez. O vento mudou de direção por volta das duas da tarde, e um pouco antes das três a chuva já estava caindo de modo torrencial.
Minha xícara de chá já estava pela metade, e as palavras-cruzadas quase todas decifradas. Muito antes de cortarem a árvore, o único modo de se escutar o vento era quando ele se chocava contra a calha e gemia pelos beirais da casa. Os galhos da Figueira chacoalhavam, e então era possível saber que a ventania estava trazendo chuva. Só que não havia mais árvore. Ainda assim podia ouvi-la, Leonor. Farfalhando alto e cutucando a ponta do telhado com aquele galho que você sempre me pediu para cortar.

Abandonei a caneta sobre a revista e me encaminhei até a janela. Tinha certeza de que não havia outra árvore nas redondezas, mas tive de me certificar para não levantar a suspeita de que estava ouvindo coisas.
Tudo que vi do lado de fora foi o céu negro, alguns carros passando e uma jovem fechando as janelas as pressas antes que o vento lhe arrancasse uma das tampas. Apenas isso. Nada de árvores ou coisas que emitissem ruídos semelhantes.
Olhei na direção da onde a Figueira ficava; tudo horrivelmente limpo, mas ainda assim presente. Havia alguma coisa ali, Leonor. Não podia ser visto, mas escutado, sentido, como se uma coisa morta pudesse soprar.
Permaneci de pé olhando pela janela por mais alguns segundos antes de escutar um galho bater na beirada do telhado. Dei um pulo, olhei para cima e depois para o lado de fora mais uma vez. Pensei em ir até à rua, mas a chuva pareceu aumentar. Achei melhor continuar com as minhas palavras-cruzadas, e assim o fiz, tornando a me sentar diante da mesa onde meu chá já havia esfriado.
Não pude terminar o meu jogo. Minha cabeça não parecia no lugar, e minha atenção não saía daquilo; do ruído que o galho inexistente provocava em meu telhado.

Uns dois dias depois, quando a chuva foi embora e o sol tornou a dar as caras, levantei e fiz o que você provavelmente ainda lembra que eu fazia: omelete com tomates frescos, uma xícara de café sem açúcar e o velho rádio ligado na estação AM.
Acho que o locutor falava alguma coisa sobre os estragos provocados pela chuva quando olhei pela janela e vi que havia uma sombra. Não era de ninguém parado diante da varanda. Era de uma árvore.
De uma Figueira que fora cortada quase até a raiz. Sei que irá sorrir e sacudir a cabeça quando ler esta parte, Leonor, mas é a mais pura verdade.
A sombra dela permaneceu neste mundo, assim como a sua presença, se é que desta maneira que devo mencionar. Escuto ela todos os dias.
Pego minha cadeira de balanço e vou até onde sempre fui, na melhor hora da tarde quando a sombra protege do portão até o primeiro degrau da varanda. As pessoas nem sequer percebem. Estão sempre ocupadas demais, distraídas com as pequenas coisas e ignorando as vidas que as cercam.
Debaixo da sombra, costumo pensar em tudo que pensava antes. Em como é difícil viver sem você, e em como ainda estou vivo mesmo após chegar em casa e encontrar uma carta sua dizendo que havia ido morar com a sua mãe no interior.
Caso leia tudo isso, Leonor, quero que saiba que as coisas até que estão indo bem. Meu colesterol baixou, e aquela tosse seca diminuiu bastante de uns meses para cá.
Ainda me sento na sombra da Figueira sempre que meu medo permite. O outono irá chegar em breve, e ultimamente tenho varrido muitas folhas que caem de lugar nenhum.
A única coisa que lamento nisso tudo, é não poder enxergar os nossos nomes no tronco da árvore; você não faz ideia de como isso dói.
Minhas lembranças estavam gravadas ali, e agora tudo que tenho é apenas o cheiro da madeira, e seus ruídos noturnos que me arrepiam. Acabei descobrindo que sou capaz de tocá-la. Foi por acaso, enquanto varria algumas folhas e me escorei no tronco para descansar. Levei um susto ao perceber que não deveria haver nada por ali, mas de alguma forma ainda havia. Esta carta será destinada a você, Leonor. Embora desconfie que talvez não será lida. De qualquer modo, não terei como saber disso.
Já amarrei a ponta de uma corda em um dos galhos da Figueira. É estranho ver ele balançar, flutuando de um jeito impossível. Logo vou ir até lá fora e me enforcar numa árvore que não existe.

13 de Dezembro de 2019 às 22:51 3 Denunciar Insira 3
Fim

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tiago líreas tiago líreas
Super poético como a própria pessoa que jurou amor eterno a alguém usando uma árvore se matou usando essa mesma árvore, estando ela também morta de certa forma. Talvez a árvore tenha mantido sua essência porque foi muito importante pra alguém durante certo tempo, e o valor que essas pessoas deram à árvore forneceu-lhe uma alma, ou teve a alma dos outros compartilhada com ela, através da marca deixada
Maxuel  A.A Maxuel A.A
mano!mano! sem palavras, que conto foda, qual foram suas inspirações? me fez lembrar Alan poe, principalmente o titulo rs
December 15, 2019, 21:51

  • Edison Oliveira Edison Oliveira
    Olá, obrigado pelas palavras. Que bom que gostou, pois tudo que escrevo só faz sentido quando vocês leitores apreciam. Minhas inspirações são inúmeras (vem de King, passa por Joe Hill até Neil Gaiman) e para este conto veio em uma tarde nublada onde meus olhos não saíam de uma árvore que tenho em meu quintal. Imediatamente pensei: ela é tão viva... Se ela morresse iria se tornar um belo fantasma. Bingo! Cá está a história. Adoro quando as minhas idéias surgem assim. Na verdade, muitas delas nascem desta maneira. Mais uma vez, obrigado por ter lido. Espero que continue me acompanhando. December 16, 2019, 16:22
~