Entre Heróis e Vilões Seguir história

kztironi Karina Zulauf Tironi

Inimigos há décadas, unidos por um objetivo em comum. Mas, quando a luta acaba e o sangue seca, sobram dois homens. E uma história.


Conto Todo o público.

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Última Esperança

Naquela noite sem estrelas, o Herói percorreu aos tropeços o caminho conhecido até o covil do mal. Uma de suas mãos pressionava o profundo ferimento na lateral de seu abdômen na tentativa de estancar o sangramento, embora fosse em vão – o corte havia sido feio, ele precisava de ajuda.

Resmungando em dor na subida dos degraus da varanda da casa de dois andares, Herói começou a ver estrelas. Ele estava perdendo muito sangue. Como havia sido estúpido, partindo para tentar salvar o mundo sozinho, de novo. Dessa vez ele quase não conseguira, por muito pouco. Talvez da próxima vez ele não tivesse tanta sorte. Ninguém consegue vencer para sempre, nem mesmo ele.

Erguendo a mão livre, Herói bateu na porta de madeira com os nós dos dedos. Torcia para que fosse atendido, ele não tinha mais a quem correr; ninguém mais conhecia sua identidade.

Ninguém mais além de...

– O que você está fazendo aqui?

O Vilão olhou com desconfiança para o homem parado na soleira de sua porta, com o semblante abatido. Estava claro que ele havia se metido em alguma confusão, seu olho direito ostentava uma mancha roxa e estava tão inchado que mal abria. Seu nariz provavelmente se quebrara, dado o calombo, e... ele estava sangrando. Muito.

O Herói constatou, por uma breve análise, que Vilão havia sido arrancado de seus afazeres pela sua visita. Ele estava usando roupas casuais, ao invés de seu uniforme, e o cabelo negro estava ligeiramente úmido. Se Herói tivesse chego dez minutos mais cedo, Vilão estaria no banho. O timing não poderia ter sido mais preciso.

– Com quem você arrumou briga dessa vez? – Vilão cruzou os braços, erguendo uma sobrancelha para o ferimento.

– Estavam tentando... explodir uma bomba... na praça. – Herói arfou, seu cenho inteiro formou marolas – Por favor, me deixe entrar.

– Ora, ora. Essa é nova. – Vilão riu, em deleite. Herói sentiu uma pontada forte na lateral do corpo que o fez grunhir e curvar-se noventa graus. O sorriso do Vilão desapareceu – Entre logo, antes que alguém nos veja.

O Herói não conseguiu nem mesmo agradecer, a súbita onda de dor obrigando-o a voar porta adentro e se jogar no chão o mais rápido que pôde. Com o chão gelado em suas costas suadas, Herói fechou os olhos e se concentrou em sua respiração. Ele não sabe quanto tempo ficou assim, talvez até tivesse desmaiado por um momento, quando levou um susto ao escutar o tecido de seu uniforme sendo rasgado.

– O que está fazendo? – Perguntou para o Vilão, de joelhos ao seu lado com um kit médico. Ele havia usado uma tesoura para cortar o uniforme ao redor da ferida e agora a higienizava.

Vilão o olhou como se fosse estúpido.

– Impedindo que sangre até a morte? Dã.

– Você não precisa fazer isso. – Herói sibilou, trincando os dentes com a ardência do álcool em carne viva.

– Você também não precisava desativar a maldita bomba, mas aqui estamos.

Herói ficou em silêncio, deixando Vilão terminar de limpar o ferimento. Quando ele retirou uma agulha do kit, Herói se retraiu minimamente, o que não passou despercebido pelo outro.

– O que? Vai me dizer que tem medo de agulhas agora? – Vilão foi incapaz de esconder o tom de zoação em sua voz, juntamente com o sorriso sarcástico.

– Nunca fui fã de agulhas. – Confidenciou, evitando olhar em seus olhos.

Vilão deu uma risada contida.

– Por Deus. Quando acho que não dá para você ser mais patético. – Ele tocou suavemente na ponta da agulha, testando-a, e, ao mesmo tempo, relembrando de todas as vezes que tivera que se remendar sozinho após os conflitos com Herói, na penumbra e na frieza de sua casa. Quão irônica a vida era – Não se preocupe. Serei gentil.

Herói engoliu em seco, mas assentiu com a cabeça.

Ele tinha suas dúvidas, mas Vilão realmente foi gentil. Ele possuía uma mão leve e Herói mal sentia a picada da agulha.

Herói estudou Vilão trabalhando concentrado, algumas mechas do cabelo preto caindo sobre os olhos espremidos em fendas, e algo lhe ocorreu.

– Você é bastante bom nisso. – Comentou.

Vilão soltou algo meio riso meio rosnado.

– Anos de prática.

Então Herói pensou no que ele havia dito e seu coração pesou como se estivesse se enchendo de água.

– Sinto muito.

A surpresa foi tão grande que Vilão deixou a agulha escapar de seus dedos. Ele ergueu os olhos para o Herói e o que viu o assombrou mais ainda.

– Sente muito pelo quê?

– Ah – Herói deu de ombros, o olhar perdido novamente – Por tudo. Nós somos inimigos há tanto tempo, nunca me permiti pensar em você como uma pessoa, um ser humano como eu, que sofre e sente dor, que merece respeito. Eu sempre o vi como algo a derrotar. Como um desafio.

As sobrancelhas escuríssimas de Vilão somem debaixo de seu cabelo.

– Está se desculpando pelas nossas batalhas? Você tem noção de que eu tenho grande parte nelas, não sabe?

– Ainda assim. Eu não o tratei com o devido respeito. E, por isso, sinto muito.

Os lábios do outro se contorceram em um sorrisinho leve que foi aumentando até se transformar em um sorriso malicioso.

– Que caixinha de surpresas você se tornou. Estaria mentindo se dissesse que esperava por um comportamento assim. Meus parabéns.

Herói resmungou, desviando o olhar para a porta.

– Esqueça que eu disse alguma coisa.

– Ah, não – Vilão ergueu as mãos, ainda sorrindo – Agora não dá para voltar atrás. Me lembrarei desse dia para o resto da minha vida. Sabe, não é muito comum me pedirem desculpas quando sou eu quem causa problemas.

– Eu não pedi desculpas. Disse que sentia muito. – Falou com certa impaciência.

– Claro, claro. – Vilão pegou a agulha novamente para continuar a fazer os pontos – Como quiser chamar, chefia.

11 de Dezembro de 2019 às 22:36 2 Denunciar Insira 1
Fim

Conheça o autor

Karina Zulauf Tironi É aqui que eu me apresento? Não posso fazer feio, a primeira impressão é a que fica! Meu nome é Karina. Eu sangro no papel... hã, quero dizer, eu escrevo. Merda. Apague essa bizarrice que eu acabei de falar. Eu sou escritora, autora, e entrei na plataforma para divulgação gratuita (uhuuu). Espero que isso dê certo.

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Donna Dan Donna Dan
Amei muito a ideia, Karina! Suas histórias são maravilhosas. É sempre um prazer vir verificá-las. Obrigada pela leitura e boa sorte em seu trabalho <3
December 14, 2019, 21:06

  • Karina Zulauf Tironi Karina Zulauf Tironi
    Você por aqui de novo! Muito obrigada pelas gentis palavras. Gosto muito dos seus comentários, hahaha <3 December 15, 2019, 21:44
~