Sua Sombra Seguir história

yui-kawachima1575938847 Yui Garbe

Essa história, conta sobre uma jovem solitária e ansiosa, que descobre que até mesmo o contato entre duas sombras, pode lhe revelar um grande amor.


Conto Todo o público.

#romance #conto #comédia
Conto
0
704 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Sua Sombra

Em uma noite iluminada apenas pela luz da lua, estava dirigindo pelas ruas da cidade, buscando algo que fizesse me sentir bem, ou ao menos, fizesse me sentir útil pra alguém, pois não é fácil ser vista como um peso. Vaguei a noite toda, por lugares, olhando pessoas, que me olhavam de volta e sentia no olhar de cada uma, que estava ali, que não pertencia a estes lugares. Não sei quando que resolvi sair e voltar pra casa, mas foi nessa hora que aconteceu.

Saindo cabisbaixa, pela angústia de meus próprios pensamentos, esbarrei em alguém, que não pude ver, porém, vi apenas sua sombra. Uma sombra tão grande, quando minha depressão.

- Me desculpe. - disse para a pessoa, que ao julgar por sua sombra, era um homem adulto, bastante alto.

- Tudo bem, mas olhe por onde anda. – disse-me ele com certa frieza, mas mantendo a educação.

- Sinto muito, não consigo erguer meus olhos, estão muito pesados. – disse, enquanto me dirigia para meu carro.

Cheguei onde havia estacionado meu Lancer prata, quatro portas, que comprei usado, a uns quatro ou cinco anos atrás. Quando vou abrir a porta, onde está a chave? Havia perdido. Procuro em todos os compartimentos da bolsa preta de couro falso, tamanho médio que sempre uso, e nada de encontrar a chave. Nessa hora, só pensei em voltar ao bar, de onde havia saído e tinha esbarrado com aquele homem.

Volto ao bar e para minha surpresa, um rapaz, usando roupas largas e escuras, estava na porta, perguntando de quem era aquela chave, com chaveiro de unicórnio lilás. Chego até ele digo:

- Com licença, essas chaves, são minhas. São do meu carro que está estacionado logo ali – apontando pra direção onde estava meu Mitsubishi.

No momento em que ele entrega minhas chaves, escuto um estrondo forte, como o som de uma batida, e quando me viro em direção ao barulho, eis que vejo que alguém batera no meu carro. Meus olhos ficam marejados e então corro na direção.

Lá estava meu carro, com a porta traseira do lado esquerdo, afundada, por causa de um carro preto importado, aparentemente zero quilômetros.

Quando chego até o acidente, o dono do carro importado desce do veículo e vem até mim, com um bafo de álcool, que só consigo pensar, que ele deva ter bebido mais que um opala ano 82. Ele vem falando, com a voz um pouco distorcida, devido à embriaguez:

- Poxa dona, você deveria ter parado seu carro melhor e não no meio da avenida. – disse ele, cambaleando.

Nessa hora não consegui me conter e falei:

- O quê? O senhor está bêbado, bate no meu carro e ainda por cima quer falar que a culpa é minha? O senhor não tem vergonha não? – falo isso, enquanto esbravejo e sacudo os braços gesticulando indignada.

Nessa hora, vem se aproximando algumas pessoas, mas uma em especial, que não pude deixar de notar. Era um homem alto, usando trajes bastantes formais, de coloração chumbo, com uma camisa clara de colarinho impecável e uma gravata muito bem alinhada com lista diagonais da direita pra esquerda que combinam perfeitamente com seu terno. Ele vai em direção ao homem bêbado e sussurra algo em seu ouvido, enquanto me olha de canto de olho e esboça um leve sorriso. Imediatamente o dono do carro importado se volta para mim e diz, parecendo até que ficou sóbrio:

- Senhora, peço mil desculpas pelo transtorno que causei. Aqui, pegue meu cartão, amanhã entre em contato comigo, para acertarmos o conserto do seu carro e é claro que pagarei até o último centavo do conserto, então pode ficar despreocupada.

- Tudo bem, tudo bem. Amanhã de manhã, entro em contato com o senhor, para acertarmos tudo isso. – digo isso com aquele famoso sorrisinho amarelo no rosto, enquanto na minha mente está rolando aquela cena de sequência de socos e chutes, digna de filmes de luta de Bruce Lee.

Olho para o homem, que aparentemente, me ajudou e digo:

- Obrigada, senhor... er... – olhando pra ele, esperando que dissesse seu nome.

- Eiji, Eiji Yoshida e o seu? – diz ele com tom educado, mas nada receptivo.

- Me chamo Yui, Yui Kawashima. Muito prazer em conhecê-lo senhor Yoshida e obrigada por me ajudar com essa situação. – fazendo uma breve e leve reverência.

Volto pra casa após o incômodo acidente, por volta das quatro e meia da manhã. Por sorte, não trabalho às segundas-feiras, então poderei resolver essa situação o mais breve possível.

Me jogo na cama, com o vestido curto azul escuro que estava usando, não tinha forças nem pra trocar de roupas. Em segundos, durmo como uma pedra, porém, como se tivesse piscado, acordo de repente e pego meu celular para ver às horas. São dez horas da manhã. Penso em voltar a dormir, mas me lembro que tenho que resolver a batida no meu carro. Pego o cartão do homem, que guardei na bolsa e vejo o número de seu telefone e entro em contato. Uma mulher atende:

- Alô. – atendendo educadamente;

- Alô, bom dia. – respondo da mesma forma e continuo – Gostaria de falar com o senhor Aiji Saito, for gentileza;

Ela, no mesmo instante, se torna uma pessoa pouco cordial e indaga, com uma leve irritabilidade em sua voz:

- E o que você quer com ele?;

- Diga para ele, que é sobre o conserto do carro que ele bateu ontem em frente ao bar Dragões do Metal;

- O QUÊ!? – exclama, surpresa e exaltada e continua – O que aquele verme estava fazendo lá? Ah! Já sei, você deve ser alguma mulher que ele me trai e agora está ligando pra ele com essa desculpa de carro, pois não vou deixar que fale com ele não. E se eu descobrir, que ele está vendo você, vou matar vocês dois!;

- Senhora, por favor, escute, estou ligan... – paro de falar imediatamente após ouvir o som telefone desligando.

Fico sentada um pouco, olhando para o celular e para o cartão, porém nada passa pela minha mente, não sei o que fazer. A porta do meu Lancer está amassada e bem amassada e não consegui falar com o senhor Saito. Solto aquele suspiro fatigado e sussurro pra mim mesma:

- Ahn! Agora que se vão minhas economias. – falo enquanto mais uma vez, fico cabisbaixa.

Passam-se algumas semanas, desde o acidente e por algum motivo, a cena daquele homem olhando e sorrindo pra mim, voltou a minha mente, mas não posso pensar nisso agora, pois estou no meu do trabalho e rapidamente dou aquela balançada na cabeça e volto a me concentrar em atender os clientes da loja de departamento em que trabalho.

Vão passando às horas, até que, quase na hora de fechar, entra um homem alto, que reconheci de imediato e em seguida, tudo o que havia acontecido aquele dia, voltou de uma vez só. Não entendi o motivo de começar a sentir meu coração palpitar mais forte, afinal, nem ao menos o conhecia, apenas sabia seu nome. Tentei controlar minhas emoções e a ansiedade, mas ficou difícil, porém por sorte, estávamos nos preparando pra fechar, atendendo os últimos clientes que ainda estavam no interior do estabelecimento.

Quando vejo que ele está fila do caixa em que atendo, minhas mãos começaram a suar e tremer, fico ansiosa e na minha mente, aquela vozinha que temos, começa a me questionar:

- Você vai ficar assim até quando? Você mesma disse que não o conhece e vai ficar aí, toda cheia de tremedeira? Acha que ele não vai perceber? Se controla mulher! No mesmo instante, eu sussurro:

- Shhh, quieta, deixa eu fazer me trabalho.

- Desculpe-me. – disse o homem, sem entender nada.

- Ahh... errr... eu que peço desculpas – gaguejando pelo nervosismo e pela vergonha da situação, e continuo – Estou cansada e acabei falando bobagens, mas não foi pro senhor não, estava falando comigo e... Nessa hora, ouço aquela vozinha de novo:

- Boa, agora, além dele te achar estranha, vai achar que você é louca. Se queria chamar a atenção, conseguiu, mas não foi uma boa impressão.

Começo a suar frio, minha mente já está longe, muito longe, quase chegando a Netuno, quando escuto:

- Senhorita? Oi, senhorita, está aí? – ele pergunta com ar de preocupação e continua – Creio que esteja muito cansada, mas poderia cobrar essas toalhas, por gentileza?

- Ah! Sim, agora mesmo senhor. – continuo, tentando passar um ar que está tudo bem e que não estou nervosa – E como um pedido de desculpas, dei um desconto especial, para que o senhor volte sempre. – falando enquanto coloco as três toalhas de banho de cor verde, numa sacola.

Ele paga, agradece e se dirige até a saída, enquanto se despede dos outros funcionários que estavam perto da porta. Não sabia mais o que fazer, só de pensar na vergonha que passei, começo a tremer e fico imaginando que ele nunca mais vai querer vir à loja e que posso perder o emprego por causa disso. Me levanto abruptamente e exclamo:

- NÃO! – Todos me olham assustados e eu mais vermelha ainda peço pro meu chefe, me deixar sair um pouco mais cedo. Ele olha para mim e pergunta:

- Yui, onde vai? Você está muito estranha hoje. O que aconteceu?;

- Chefe, preciso muito sair agora, prometo que amanhã te conto tudo. – olhando pra ele com olhar aflito. Ele solta um suspiro de conformidade e diz:

- Arf! Ok, mas amanhã quero a senhora aqui 40 minutos mais cedo, entendido?;

- Sim chefe, entendido. – saindo correndo e dizendo – Obrigada chefe, o senhor é o máximo.

Saio correndo pelo estacionamento e olho para os lados, na vã esperança de ele ainda estar por perto, mas infelizmente, minha sorte não é tão grande assim e ele já não estava mais.

- Agora, tudo o que posso fazer é ir pra casa. – dizendo como se estivesse conversando com alguém.

Quando chego ao meu carro, lá está ele, encostado na porta do motorista, com dois copos de uma lanchonete que há ali por perto. Vou andando em direção ao carro e o homem, com um sorriso simpático, vem à minha direção e entregando um dos copos diz:

- Tome, não sei se você gosta de cappuccino, mas comprei um para você, pois achei que estivesse precisando.;

- Ãh..., bem, eu... errr... – gaguejando muito, pego o copo e digo – O... obriga... da. – meu rosto estava pegando fogo, minhas pernas tremiam mais que bambu em terremoto. Então ele fala:

- Estou vendo que você está bem cansada, acho que vou te deixar em paz, outro dia conversamos, afinal, agora já sei onde trabalha. – diz isso enquanto se dirige para seu carro. Então, digo:

- Espere!;

- O quê? – diz ele, se voltando para mim.

- Estou muito nervosa, não sei porquê, mas estou. – com a voz trêmula continuo – Mas mesmo assim preciso lhe agradecer, pela ajuda de outro dia, pelo cappuccino e pedir desculpas, pela forma que te atendi. Prometo que não acontecerá novamente. – falando isso, enquanto me curvo perante ele.

Escuto seus passos vindo em minha direção, e como ainda estou curvada, consigo ver apenas sua sombra e me vem à cabeça, a sombra daquela pessoa em quem esbarrei no dia do acidente e falo baixo, mas em tom audível:

- Foi você, não foi?;

- Eu, o quê? – questiona ele.;

- Foi em você que esbarrei naquela noite, na porta do Dragões do Metal, não foi?;

Ele então diz:

- Você precisa olhar por onde anda. – enquanto da um tapinha sutil no topo da minha cabeça.

Com esse gesto, me assusto e acabo olhando para ele com olhar de surpresa, enquanto sinto meu rosto ficando extremamente ruborizado, afinal de contas, jamais imaginaria que alguém faria isso, ainda mais alguém que “acabei” de conhecer. Então, ele olhando pra mim, diz em tom alegre:

- Viu? É muito melhor olhar pra frente, não acha? – e sorri, e da mesma forma, acabo sorrindo também, deixando todo aquele mal-estar que estava sentindo, de lado.

Chegando em casa, vou em direção ao banheiro, que fica a direita do quarto de hóspedes (que transformei em um escritório, já que quase nunca recebo visitas), pois o banheiro da minha suíte, está com o chuveiro quebrado e sempre esqueço de mandar arrumar. Saio do banho, vou para a cozinha, fazer algo para jantar, pois já é tarde da noite e meu estômago começa a doer. Faço algo rápido para jantar, nada muito pesado, afinal, não gosto de ingerir nada gorduroso à noite, e vou me deitar, pois amanhã preciso chegar bem mais cedo ao trabalho.

Chegando ao trabalho, na manhã seguinte, fui procurar o senhor Akira Watanabe, para esclarecer, como prometido, o que havia acontecido. Quando termino de contar, ele:

- Você saiu mais cedo, por causa de homem? É isso mesmo? – exclama, enquanto esbraveja e gesticula.;

- Não é bem assim chefe. – falando em tom baixo e tentando acalma-lo. – Ele é um cliente aqui da loja e ele me ajudou muito no dia do acidente.

- Que acidente? – pergunta ele;

- O senhor não esta sabendo que bateram no meu carro? – pergunto;

- Claro que não. Não fico bisbilhotando a vida dos meus funcionários. O que fazem da porta pra fora, é assunto de vocês, só me preocupa o que acontece da porta pra dentro – diz ele, um tanto quanto irritado;

Então chefe – continuo a explicação. – Esse homem, de quem lhe falei, me ajudou muito e desde então, não tive chance de agradecê-lo. Por isso que precisava desesperadamente sair mais cedo ontem, além do que chefe, ele disse que gostou da loja e pediu pra dizer para o encarregado, que a organização está impecável. – falando enquanto sorrio.

O senhor Watanabe, olha para o alto, se sentindo orgulhoso de si, respira fundo e diz:

- Senhorita Kawashima, dessa vez, vou deixar como está, mas da próxima vez, é melhor... quero dizer, que não haja uma próxima vez. Entendido?

- Sim! – falando com entusiasmo.

- Agora, vá, já está quase no horário de abrirmos a loja. – se afastando e indo em direção aos fundos do corredor. Mas pude ouvir bem baixinho “... organização impecável” e quando ele se afasta, solto um suspiro de alivio e vou para meu local de trabalho.

O dia segue tranquilo, nada de anormal, nenhum surto de ansiedade ou alguma “conversa individual”, porém, quando penso que o dia está tranquilo demais, eis que entram na loja, o senhor Eiji Yoshida, com aquele seus quase 2 metros de altura, um corpo esguio e bem longilíneo e uma bela estrutura muscular, de pele levemente bronzeada pelo sol, um rosto belíssimo, lábios delineados, seus cabelos impecavelmente penteados, cor castanho médio e seu incrível olhar marcante e penetrante e também logo em seguida, um homem de estatura mediana, semi-calvo, que reconheço, pois foi quem bateu no meu carro, acompanhado por uma mulher de estatura quase baixa, loira, com um olhar de “poucos amigos” e ambos acima do peso. E como a vida adora nos surpreender, eles acabaram se encontrando justamente no meu guichê. Então, o senhor Yoshida diz:

- Ora, ora, se não é aquele cavalheiro que conversei um outro dia, sobre um “incidente” na porta de um carro. – dizendo isso com uma dose de sarcasmo.;

O homem, imediatamente se vira para trás, surpreso e fala levemente exaltado:

- Oh! Nossa, que coincidência, vocês aqui. – tentando parecer surpreso. – Estava justamente pensando nisso. Achei até que você iria me ligar, para que resolvermos esse infeliz acidente. – diz ele todo sem jeito, se voltando para mim, e perante a mulher que o acompanha e esta se pronuncia escandalosamente:

- Então, é essa ‘zinha’ aqui, que vocês está me traindo, Aiji?;

- O quê? – indaga Saito, confuso.;

- Ela ligou para você outro dia, eu atendi e quando ela disse seu nome, já pressenti que era sua amante! Seu calhorda! – dando-lhe vários tapas nos ombros.

Por favor, senhora, acalme-se, não somos amantes e... – falo, tentando acalma-la.;

A mulher, tomada pela fúria, se vira para mim e simplesmente começa a me dar bolsadas, enquanto me xinga de vários nomes, nada educados, que não valem a pena ser repetidos. Nisso, chega meu chefe e a segurança, mas a situação já havia sido “controlada” pelo senhor Yoshida que suavemente afastou a furiosa megera... quero dizer, mulher a levando para um canto. Percebi que mais uma vez ele estava falando algo em seu ouvido, enquanto olhava para mim. Em segundos, ela retorna, pedindo mil desculpas e obrigando o marido, a pagar por todos os danos causados em meu carro e dizendo que me pagasse uma estadia de três dias no spa Cerejeira da Montanha. Imediatamente digo, ficando sem graça pela situação:

- Não precisa se preocupar com isso, apenas quero resolver o assunto da porta amassada do meu Lancer. Não precisa pagar nenhum spa. – dizendo isso, mais uma vez com um aquele falso sorriso, pois por dentro estou: “Isso mesmo! Deve pagar mesmo, porque apanhei de graça dessa megera, que merecia uns “sopapos” nessa fuça entojada!”.

Após toda a confusão e tudo acertado, o senhor Yoshida me aguarda até que feche o estabelecimento e convida:

- Creio que não esteja tão tarde, para não aceitar jantar comigo, ou está? – diz com aquela voz de arrepiar as pernas.;

- Claro que não é tarde, mas não será um incômodo para você ou para a senhora Yoshida? – esperando que não exista nenhuma senhora Yoshida.;

- Posso perguntar para a senhora Yoshida, se ela vai se zangar se eu sair pra jantar com uma mulher. – dizendo enquanto pega o celular.;

- Sabia! – pensei comigo. – Sabia que ele tem alguém! Homens, são mesmo todos iguais! – esbravejando internamente e ficando perdida em meio aos meus pensamentos e sentimentos, até que.;

- Senhorita, está me ouvindo? – pergunta ele. – Alô, senhorita Yui. – chamando e acenando para mim.;

Volto a mim, num susto repentino e digo:

- Bom, acho que sua esposa não permitiria que você saísse com outra mulher, ainda mais para jantar, por isso, agradeço por sua ajuda e... e... – virando as costas e me afastando, quando escuto ele perguntar:

- Antes de ir, pode falar o número do seu celular?;

- E para que quer meu número? – questiono indignada.;

- Por favor, apenas passe-o para mim.;

- Uhm, ok. – relutante, mas mesmo assim o passo. – Pronto, agora com licença.;

Em segundos, meu telefone toca, é um número estranho, mas acredito que seja dele, então, atendo o telefone, com uma voz irritada:

- Alô.;

- Olá, boa noite senhora Yoshida, aqui é o senhor Yoshida, iria te ligar para saber, se podia levar uma bela mulher pra jantar, mas acho que não é mais necessário, pois ela já foi embora.;

Fico atônita, não sei o que responder, meu coração acelera, minhas mãos suam muito, começo a sentir minha boca seca e minha cabeça girar e o escuto através do celular:

- Alô? Esses celulares de hoje em dia, sempre ficando mudos. Alô, senhora Yoshida, está aí? Sei que está, pois estou te vendo, então, poderia responder minha pergunta, por gentileza?;

- Se... senhor Yoshida, se o senhor quer mesmo leva-la para jantar, pode, mas acho melhor ser rápido, pois ela pode estar chegando em seu carro nesse momento. – e desligo o telefone.;

- Yui! Espere, por favor! – ele exclama, como se estivéssemos a muitos metros de distância.;

Me viro para ele, com cara de que não sei de nada e digo:

- Sim, senhor Yoshida, o que precisa?;

- Preciso que seja minha senhora Yoshida.;

- Sério?;

- Sim, seja minha esposa, minha companheira para vida toda. – dizendo e se ajoelhando perante mim.

Começo a suar frio, meu sorriso e tão grande, que sinto até doer minhas bochechas. Estendo minhas mãos em direção a ele, que por sua vez diz:

- Yui, você está bem? Vai ficar parada aí por muito tempo? Vamos, antes que fique muito tarde, pois, você precisa trabalhar amanhã, não é? – diz ele.;

- Ah! É verdade. – falando e rindo, sem graça. – Desculpa, me perdi em mais um de meus devaneios.;

- Acho que deve ser parte de você, se perder em seus pensamentos né? – indaga ele.;

- Pois é. – falando com semblante envergonhado.

Entramos em nossos respectivos carros. Vou até minha casa, ele me segue em seu carro, um Toyota vermelho metálico, quatro portas, com rodas de liga leve, aerofólio de fábrica, twin turbo e impecavelmente limpo e brilhante.

Antes de chegar em casa, muitas coisas pairavam pela minha mente:

- E pensar que tudo aquilo, foi apenas uma ilusão da minha cabeça. Droga. Mas ao menos, vou sair para jantar e espero ter a chance de poder conhecê-lo melhor. Isso. Vou me concentrar para saber mais sobre ele. – falando e fazendo a pose da vitória.

Chegamos em casa, uma casa simples, nada luxuosa, a faixada era bastante comum, cor branco gelo, com duas luminárias acima da porta, uma janela que dava pra visualizar um pouco da sala, um pequeno gramado na frente, a esquerda, ficava a garagem, com o portão que abre de baixo para cima e dois pequenos caminhos com pedras que se ligam da garagem até a porta e o outro que vem da calçada até a porta. Guardo meu Mitsubishi na garagem e entro no carro do senhor Eiji, que da a partida e vamos em direção a um restaurante que ele disse ser muito bom.

Conversamos um pouco durante o caminho até o local, nada muito importante, apenas rimos de algumas situações que passei e ele me contando algumas de suas peripécias passadas. Chegamos ao restaurante por volta das oito horas da noite e olha, que restaurante. Estava me sentindo bastante desconfortável, pois o lugar aparentava ser um ambiente bastante fino e requintado e eu, com minhas roupas surradas por mais um dia de trabalho, pois não tive tempo para me arrumar, apenas consegui guardar meu carro e viemos para cá. Ele, percebendo a situação chama o maitre e sussurra algo em seus ouvidos, enquanto olhava para mim, com aquele sorriso de sempre que imediatamente se vira para mim pedindo mil desculpas e faz um sinal com as mãos e em segundos, chega à nossa mesa, uma garçonete, que segurava um pacote, mas não era um pacote qualquer, era um embrulho com um papel prateado, desenhado com pequenas estrelas douradas, um enorme laço de cetim vermelho, com duas listas douradas percorrendo toda sua extensão. O embrulho não era muito grande, mas era bem maior que uma caixa convencional que usamos para embalar as roupas que vendemos na loja de departamento. Olho para o senhor Eiji e este me olha de volta, com um sorriso tão bonito, que até me esqueci do presente e ele então diz:

- Vejo que gostou muito do pacote, mas não seria melhor abri-lo?;

- Oh, sim, tem toda razão. – digo surpresa e maravilhada.;

Coloco o embrulho sobre a mesa, após ter afastado pratos, talheres e copos. Vou desfazendo aquele laço, incrível e já imaginando o que poderia ter ali dentro. Com todo o cuidado e delicadeza, vou desembrulhando aquele pacote. E entre vários “rasg” “rasg” e uma pitada de ansiedade, termino de desembrulha-lo. A caixa que surgiu, era a caixa mais linda que havia visto em toda minha vida. Uma caixa de madeira toda trabalhada, com pequenos detalhes feitos com quadradinhos de espelho. Não sei se foi meu psicológico, mas quando vi aquela caixa, ou melhor, aquela obra de arte em forma de caixa, ficou mais pesada. A apoiei novamente sobre a mesa e retirei a tampa, nesse momento, quase cai de costas. Não podia acreditar no que estava vendo, era algo que estava além da minha realidade.

Tomada por um impulso de histeria, me virei pra ele e perguntei, tentando me controlar ao máximo, pois estávamos em um ambiente público:

- É sério?;

- Sim, é sério. – disse ele com um sorriso maravilhoso.;

- Mas... mas... por quê? – perguntei gaguejando, ainda atônita com o que estava vendo.;

- Pode parecer estranho o que direi, mas peço que acredite em mim. – olhando para mim com seriedade e passando uma grande sinceridade em seu olhar e em suas palavras. – No passado, deixei que meu medo me dominasse e por causa desse medo...;

Não conseguia tirar os olhos de sobre ele, estava maravilhada com suas palavras, encantada por sua história. Eu o admirava como homem, como pessoa. Ele foi me contando o que houve em seu trágico passado, mas eu não conseguia dizer uma única palavra, pois ele estava se abrindo para mim, de uma forma tão pura e verdadeira, que me sentiria um monstro se o interrompesse agora.

- Hoje, tenho 42 anos, uma casa grande, porém vazia, uma sala grande, com uma grande lareira ao centro, mas mesmo assim fria, tenho vários carros, mas nenhum deles me agrega emoções. Então, decidi que quando acontecesse novamente, não perderia a oportunidade, pois dessa vez, estaria preparado para assumir os riscos e finalmente percebi que era isso que deveria fazer. – disse isso de forma intensa, pura e verdadeira.

Em momento algum, enquanto ele falava, ele desviou seu olhar do meu. Enquanto ele falava, pude sentir que nossos corações estavam batendo na mesma frequência, pude ver em seus olhos, algo tão intenso e vívido que quase podia tocar seus sentimentos. Sentia que poderia segurar suas emoções e foi nessa hora que desmaiei.

Acordei em um leito de um hospital, não sei quanto tempo fiquei desacordada, mas o vi, dormindo em uma poltrona marrom, que aparentava ser bastante antiga e surrada, além de nada confortável. Não sabia se o acordava, se estaria dormindo por muito tempo, ou se acabara de fechar seus olhos, então, tentei me mexer, sem fazer barulho, mas o colchão de molas preso a armação de ferro da cama, não me permitiu, rangendo tão alto que ecoou pelo quarto e por parte do corredor. Ele acorda de supetão, dando um salto da poltrona e instantaneamente se vira, caminha afobado até mim, segura minha mão e aliviado diz:

- Não imaginei que o que fiz, tivesse sido tão ruim a ponto de você ter desmaiado. Sinto muito, prometo nunca mais...;

Olho para ele, já entendo o que queria dizer e rapidamente coloco por sobre sua boca, meu dedo indicador, não deixando que termine o que diria e então eu:

- Sei o que vai dizer, mas não é essa a realidade da situação. Não sei quanto tempo fiquei desacordada, mas agora, é a sua vez de acreditar em minhas palavras.

Ele olha em meus olhos, ao mesmo tempo em que se ajeita num espaço que há entre a beirada do colchão e minha perna e ali se senta, esperando silenciosamente o que tenho para dizer.

- Confesso que, não esperava por isso, mesmo desejando muito. Pode parecer loucura, até mesmo um passo incerto para a insanidade de nossas mentes, mas naquele dia, naquele primeiro dia, onde esbarrei em você, onde aconteceu de baterem no meu carro e você olhando para mim, enquanto conversava com aquele senhor, meu coração palpitou bastante. Achei que fosse apenas pela situação e que estava sendo gentil, mesmo ao primeiro instante, sendo educado, mas nada receptivo às minhas palavras, porém, não consegui tirá-lo da cabeça e mesmo após várias semanas, aquela cena voltava e se repetia, não a cena do acidente e sim aquela cena, a sua cena, você me olhando e sorrindo, com aquele sorriso incógnito para mim.; - nós nos olhando fixamente e da mesma forma que estava maravilhada com sua história, ele por sua vez, maravilhado em ouvir minha versão do acontecido.

Ele segurando minhas mãos, pude sentir que suas mãos tremiam, pude sentir sua pulsação, nas costas das minhas e pude perceber que ele também, assim como eu, ficava ansioso por estar na minha presença e isso, apenas me deu mais coragem para continuar:

- Não sei explicar, o que senti quando te vi aquela primeira vez que entrou na loja e ainda por cima foi direto ao guichê em que estava. Para mim, era apenas uma ilusão, um sonho que jamais poderia ser real, afinal, você, lindo, charmoso, elegante, poderia ter a mulher que quisesse, a hora que quisesse, então apenas fiquei sonhando com um encontro, mas no momento em que abri aquela caixa e ouvi sua história e recebi seus sentimentos, o choque de realidade foi tamanho, que não consegui suportar, era uma mistura de felicidade com êxtase, com uma pitada de surreal, porém, aqui estamos nós, numa cama de hospital, nos olhando e segurando nossas mãos. – seguro suas mão um pouco mais forte e prossigo. – Que posso acreditar cem por cento no que me disse e minha resposta é...; - nesse momento entra o médico e diz:

- Com licença, os resultados dos exames saíram e ela está bem, sua...;

Aaaah, obrigado doutor, ela já vai se arrumar em quanto isso, vou acertar a conta. – interrompendo o médico abruptamente.

O doutor sai do quarto, após dar alta para mim e ele me olhando, agora não mais com aquele olhar selvagem e sim com um olhar puro e tímido diz:

- Enquanto você se arruma, vou acertar a conta, tá bom?;

- Tudo bem. Quando terminar de me arrumar, te encontro na saída... meu marido. – soltando um risinho tímido, mas sincero.

Ele sai do quarto, mas pude perceber que ele ficou levemente ruborizado. Quando termino de me arrumar, ele está na porta, mais lindo e elegante do que nunca, com aquele cabelo bagunçado, suas vestes amarrotadas, sua gravata frouxa, o colarinho de sua camisa, impecavelmente torto. Nunca havia visto mais lindo e maravilhoso homem antes, mas de uma coisa eu sei, que nossas sombras nos ligaram para sempre.

No dia seguinte, após varias e várias explicações para o senhor Watanabe, vou para meu guichê e para minha surpresa, ele está lá e está trazendo consigo, aquela caixa. Meus olhos se enchem de lágrimas, meu coração acelera como nunca, minhas mãos suam e minhas pernas tremem. Lá está ele, de pé, com um terno branco, uma lindíssima camisa azul bebê, sua gravata de listas finas brancas e azuis amarrada com um nó perfeito, entrando na loja e olhando direto para mim. Me levanto do meu banco, onde fico sentada várias horas do meu dia, e fico esperando ele vir até mim. Ao chegar, ele se ajoelha perante mim, me entrega aquela caixa. Eu a pego e a seguro firme, a apoio sobre o guichê que está a minha esquerda, a abro e de lá tiro, o vestido de noiva, mais incrível que já vi. Algo que jamais poderia imaginar que um vestido daquele pudesse ser feito. Um vestido tão branco quanto à neve, tão brilhante quanto o sol e tão delicadamente costurado em seus mínimos detalhes. Ele então, olha para mim e pergunta:

- Está preparada?;

- Dessa vez estou. – soltando uma risada tímida, mas que apenas ele e eu entendemos.;

- Então... – ele respira fundo e. – Yui Kawashima, você me daria a honra de ser minha esposa, para todo o sempre?;

Olho para ele, olho ao meu redor, vejo minhas colegas de trabalho, algumas maravilhadas pela cena, outras com uma inveja tão grande, que poderia se construir outra muralha da China. Na minha cabeça passa um milhão de coisas e dezenas de milhares de incertezas e a que mais persiste é: “Como podemos nos casar, se mal nos conhecemos?”, porém, todas essas incertezas vão caindo uma a uma, quando me lembro de suas mãos tremulas e suadas que seguraram minhas mãos aquele dia no hospital. E após três segundos, que para mim, foram quase como três anos, respondo em alto e bom tom:

- Nos casamos aquele dia em que nos esbarramos, nossas sombras nos ligaram, depois nossos sonhos, depois os olhares e por fim, nossas mãos, então meu amor, para você, o meu mais sincero ‘Sim, aceito ser a senhora Yoshida, de todo o meu coração’.

Ele se levantou, me abraçou tão carinhosamente, que pude sentir seu coração batendo na mesma frequência que o meu. Ele me deu um beijo na testa e como se eu não tivesse peso algum, me ergueu ao ar pela cintura e naquele momento o mundo parou, tudo a minha volta sumiu, só existia ele, nada mais. Todos que estavam lá aplaudiram, como se tivessem acabado de assistir a um grande espetáculo, claro que ali havia todos os tipos de aplausos, mas para mim, o único aplauso que me importava, era a salva de palmas de nossos corações. Saímos de lá alguns minutos depois e cada um seguiu para sua casa, onde naquela noite, por uma longa conversa pelo celular, foi combinado o dia da semana, o mês e a hora em que seria realizada a cerimônia mais aguardada por nós.

Não queria nada extravagante, até porque, não estava casando para os outros e sim para nós, porém, mesmo que tenha sido algo simples, apareceram muitas pessoas, nos casamos em uma pequena fazenda que alugamos especialmente para a ocasião. Nosso primeiro beijo, de casados, calhou no mesmo instante em que o sol se punha, parecia que o céu estava nos dando uma memória inesquecível, uma visão única em nossas vidas, algo que nos faria lembrar sempre do nosso amor.

Após nossa comemoração, fomos viajar para um incrível país, onde pudemos ficar vários dias em um grande hotel sete estrelas. E entre várias conversas algo que sempre indaguei, porém nunca tive coragem de perguntar, mas agora não tenho mais esse medo e perguntei:

- Amor, me responde uma coisa?;

- Claro minha querida, respondo tudo o que quiser. – disse ele, docemente.;

- Então, me responde o que você falava para as pessoas, para que elas em segundos, viessem me pedir mil desculpas?;

Ele ri, e após alguns segundos sussurra em meus ouvidos:

- ...;


Historia criada por

Yui Garbe Pires

09/10/2019

10 de Dezembro de 2019 às 23:16 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~