kztironi Karina Zulauf Tironi

Eu nunca invejei a beleza das pessoas. Para mim, é natural pensar no conceito de beleza como algo amplo: pisca-pisca de árvores de natal e flores são lindas, ainda que não tenham nada em comum. Borboletas são desse jeito, nenhuma exatamente igual a outra. E, ainda assim, com uma beleza incomparável. Eu, também, sou uma borboleta.


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Liberdade e Beleza

Meu pai e eu costumávamos nomear borboletas.

Eu era muito pequena para ter qualquer noção do ridículo em questão de nomes, então muitas das minhas borboletas tinham nomes como “Flordecida” “Moranga” e “Gio Roxa”, enquanto as do meu pai eram consideravelmente normais.

Ele nunca pensara em me avisar sobre o irrealismo dos nomes que eu dava para as borboletas e acho até que ele se divertia um bocado com eles. Nós passávamos os fins das tardes no quintal de casa, nos jardins da minha mãe, onde as borboletas pareciam sempre se encontrar em grandes grupos.

– Podemos levar elas para dentro? – Eu lembro de sempre perguntar para meu pai, imaginando como eu teria o melhor quarto do mundo se transportasse todas para lá.

– As borboletas pertencem à natureza, Camile. A casa delas é aqui fora, se as levarmos para dentro elas vão morrer. – Meu pai tinha a calma para me explicar, colocando uma mecha de meu cabelo (já rebelde naquela época) para detrás da orelha – Você ficaria feliz se viesse alguém e lhe tirasse de casa sem mais nem menos, para te levar para um lugar desconhecido e longe da sua família?

Imediatamente balançava a cabeça, pensando na história do Homem do Saco que mamãe sempre me contava quando eu fazia algo digno de reprimenda.

– Não, papai.

Ele sorria, fazendo um carinho gostoso em minha bochecha.

– Cada animalzinho e cada pessoa tem seu lugar nesse mundo, minha filha. Assim como você tem seu quartinho, as borboletas têm os jardins. A casa delas é aqui, seria muita crueldade exigir que fossem felizes em qualquer outro lugar, não acha?

Eu assentia com a cabeça, olhando para as borboletas que se revezavam nas flores mais próximas de nós, dançando em um ritmo suave e delicado como só coisas da natureza são capazes de o fazer.

Meu pai era assim; calmo, tranquilo e normalmente de uma sabedoria instigante. Por mais que fosse muito distraído na maior parte do tempo e não visse certas coisas que passavam bem debaixo do seu nariz, ele era um cara incrível e sempre muito compreensível comigo, desde meus pedidos para enfeitar meu quarto com borboletas vivas até minhas notas baixas na escola.

– Sabe, Camile, o legal de observar as borboletas está em justamente não podermos leva-las para casa. Nós podemos sair, sentar aqui e observá-las a tarde toda, mas no final, só podemos nos despedir e retornar outro dia. As borboletas têm esse tipo de beleza; intocável. E é melhor que seja assim.

Eu pensei no que ele dizia por um tempo, mas então cheguei à conclusão que não conseguia entender sozinha.

– Como assim, pai?

– A beleza selvagem deixa de ser tão hipnótica se a domamos. Vira algo... normal. E isso acaba com a magia dela.

Eu pensei muito nisso nos anos que se seguiram, e por algum motivo sempre me liguei às borboletas nesse sentido: uma beleza que não poderia nem deveria ser domada. Ela somente era e ponto final.

– Você pode notar que nenhuma borboleta é igual à outra, todas têm suas cores e tamanhos diferentes e, ainda assim, não deixam de ser belas. Algumas chamam mais atenção que as outras, mas todas serão sempre, inegavelmente, borboletas.

Eu ergui o rosto para olhar para meu pai, espremendo os olhos por causa da forte luz do sol que me impedia de ver claramente sua feição afável.

– Pai, você acha que um dia vou ser tão bonita como uma borboleta?

Ele riu, surpreso com a minha pergunta infantil.

– Ora, eu espero que não, ou vai sempre haver um colecionador atrás de você para conservá-la ao lado de outras borboletas. Eu prefiro minha menininha assim, livre.

Fiz uma careta. Assim que meu pai viu que não fiquei contente com a resposta, ele adicionou:

– Eu espero que você seja bonita como Camile. E, principalmente, espero que você esteja feliz sendo assim.

1 de Dezembro de 2019 às 22:56 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Karina Zulauf Tironi Como escrever sobre mim, quando me torno tantas outras pessoas enquanto estou escrevendo? Só uma menina tentando transformar seus monstros em histórias que possam entreter.

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