Uma Vida Antes Da Minha Seguir história

filhade_saturno Catheryn Esnarriaga

Elisa havia acabado de completar 16 anos e recebeu um inesperado presente de uma conselheira tutelar, duas caixas abarrotadas de cartas e pequenos objetos endereçados à ela. Sem saber mais do que seu nome a garota deveria tomar coragem para descobrir quem era e que vida havia existido antes da sua própria, ela precisava decidir se seria capaz de perdoar alguém que sequer pode conhecer.


Ficção adolescente Todo o público.

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Prólogo

Elisa não poderia ser comparada as outras garotas, não era a mais bela ou mais inteligente e nem foi uma criança que chamava atenção de possíveis famílias adotivas, mas com certeza em seus olhos havia algo indecifrável que Marta, a conselheira tutelar que a acompanhava ao longo da vida podia perceber.

No dia em que supostamente faria 16 anos a Elisa foi acordada mais cedo que de costume e Marta estava a sua espera na pequena sala de espera do prédio onde ela e mais 9 jovens viviam, sua conselheira era uma espécie de fada madrinha um tanto menos glamorosa que poderia desejar e desde o dia em que nasceu até aquele momento aquela mulher a acompanhava sem jamais fraquejar, era até mesmo estranho que Marta não tivesse feito algo para que a garota fosse adotada ao longo daqueles anos e muito menos a adotado já que demonstrava tanto amor e carinho pela garota.

- Bom fia, Elisa.

A voz de Marta parecia preencher a pequena sala apática onde estava aguardando pela garota, as duas janelas que davam diretamente para a rua estavam com suas cortinas abertas e presas por fitas brancas um tanto puidas quase que notificando a necessidade de uma reforma em todo lugar. Elisa apesar de sua idade ainda costumava usar o uniforme da forma adequada como se fosse uma recém chegada, seus olhos esverdeados pareciam um pouco cansados e encaravam quem quisesse com um misto de curiosidade e audácia, ela sabia que Marta gostava da forma com que ela se comportava e talvez esse fosse um dos pontos fortes em sua personalidade, ela não parecia abatida completamente pela condição de ser uma órfã.

- Você poderia ter vindo na hora do almoço. Queria poder dormir um pouco mais hoje, é meu aniversário, poxa!

- Eu também queria te dar essa colher de chá só que eu tenho muito trabalho e muitas crianças precisando de ajuda, então... Vim o mais cedo que pude porque queria te levar em um lugar.

Elisa balançou a cabeça pensativa enquanto cruzava os braços em cima das pernas escondidas sob a calça azul escuro de seu uniforme, ela poderia reclamar e ser repreendida ou então abrir um de seus sorrisos e questionar qual seria o lugar. Ela odiava ir as lojas do centro da cidade, ela não conseguia se concentrar na escolha do que comprar se existia sempre um vendedor no seu pé analisando seus movimentos.

- Dessa vez você não tem escolhas, vai vir comigo e vai curtir a viagem.

- Se é o que diz... Posso ir no banco do carona?

- Pode, mas sem fazer caretas para os motoristas dos outros carros. Você é uma garota encantadora quando se comporta!

Depois de avisar sua tutora Elisa se encaminhou junto de Marta até o estacionamento do outro lado da rua, era um terreno vazio e malcuidado que qualquer pessoa com ligação ao conselho tutelar usava, apesar de não estar muito disposta a sair naquele dia Lis concentrou toda sua atenção na determinação de sua conselheira em fazer daquele dia um dia especial. Faltava tão pouco para sua maioridade, agora era preciso esperar que mais 730 dias passassem para que a garota pudesse pela primeira vez se sentir dona de si.
O carro de Marta era na verdade uma picape anos 90 que Elisa considerava a coisa mais feia que ja tinha visto, no entanto, era um automóvel muito confortável e tinha cheiro de batata frita e Hamburger apesar de saber que sua conselheira pregava a ideia de que esse tipo de comida deveria ser abolida de seu cardápio de alimentação.

O caminho que as duas percorriam parecia um tanto familiar, constatou Elisa ao perceber que haviam passado pela avenida comercial e seguiam para a área industrial, não existia muitas coisas interessantes para aquele lado da cidade e tudo que Elisa podia lembrar era que seguindo aquela direção iriam chegar na praia de São Valentim onde os casais apaixonados da cidade e dos arredores gostavam de frequentar. Lis não tinha muito interesse em ver pessoas se abraçando ou se beijando de forma fofa e cômica, principalmente no dia de seu aniversário.

- Estamos perto? Estamos?

- Quase lá, é só virar a direita e achar um lugar pra estacionar protegido do sol.

- Sabia! A gente tá indo pra praia dos balões... Vai tentar achar um namorado pra mim, só pode.

Marta achou graça e deixou que sua risada fosse a única resposta para aquela pergunta um tanto boba, ela era a pessoa que mais incentivava Elisa a concentrar toda sua vida em seu futuro e só então pensar em relacionamentos, sabia que Lis não tinha planos de encontrar o príncipe encantado.

- Chegamos!

Marta parou o carro na calçada onde havia uma grande placa sinalizando que poderia estacionar sem restrições, antes que a garota pudesse abrir sua porta a mulher virou metade do corpo para trás como se estivesse procurando algo. Só então Elisa notou a quantidade de pertencer jogados de forma descuidada em cima dos bancos traseiros, uma caixa abarrotada de fichas de órfãs oscilando em cima de duas caixas menores lacradas, era algo bem incrível, o equilíbrio que os objetos tentavam manter apesar de toda instabilidade visível.

- Aquelas duas são pra você. Preciso sair do carro e abrir a porta de trás pra pegar as caixas e então podemos dar uma caminhada.

Assim que a mulher se viu livre do cinto de segurança encarou pela primeira vez Elisa diretamente, a garota mantinha uma expressão de curiosidade e receio que não parecia combinar com ela. Enquanto Marta organizava os objetos dentro do carro Lis tentou descobrir alguma pista sobre as misteriosas caixas, elas pareciam velhas e estavam bem fechadas com fita adesiva já amarelada.

- Que tal a gente sentar em algum quiosque perto do centro da praia?

- Que tal você me dizer o que é isso e não fingir que a gente ta dando uma volta pela floresta?

Tentando manter a paciência a mulher encarou firmemente a garota, não iria admitir aquele tipo de atitude.

- Assim que a gente encontrar um lugar legal pra sentar eu te digo o que isso significa, você vai querer me escutar sem interrupções.

Conformada com a reposta Elisa seguiu a conselheira tutelar pela calçada até chegarem ao limite da praia e estrada, a areia que era trazida com o vento batia levemente contra as pernas da mulher que estava usando uma saia social cinza até os joelhos não parecendo a incomodar, nada parecia atrapalhar Marta. Depois de alguns minutos caminhando pela orla da praia as duas encontraram um dos vários quiosques do local vazio, havia apenas uma atendente caminhando pelo loca e um cliente comendo um lanche matinal em uma pequena mesa bem próxima da areia.

A conselheira parecia conhecer o lugar e não demorou muito no balcão de pedidos, indicou uma mesa próxima a janela do local de onde poderiam olhar o mar e estar em afastadas da porta. Sentada de frente para Marta a garota esperou, paciente, não ajudaria nada ela fazer mais perguntas ou ficar aborrecida por todo aquele mistério a respeito das benditas caixas, talvez fosse um monte de documentos indicando que na verdade Elisa estava fazendo 18 anos e ela não era mais responsabilidade do estado, ou alguma coisa do tipo.

- Quando você nasceu... Você não nasceu em um hospital nem nada, a casa onde sua mãe estava era alugada por um homem mais velho que era próximo dela e quando chegou a hora acabou que sua mãe teve ajuda dele, a ambulância foi chamada depois e os paramédicos encontraram somente você e o homem na casa. - Marta fez uma pausa bebericando seu suco de laranja, os olhos de Elisa estava fixados nos seus de uma forma comovente. Era estranho estar ali, sendo a pessoa que revelaria quem de fato Elisa era. - Quando o conselho tutelar foi acionado eu fui mandada até lá pra falar com aquele homem, ele me disse que sua mãe fez as malas e pegou um ônibus pra outra cidade assim que pode, só que você não era responsabilidade dele e não conseguindo alegar que ele poderia ser um parente de sangue seu acabou que tive de cuidar para que você fosse levada embora para algum orfanato. Mais tarde recebi essas duas caixas, a dona da casa só explicou que antes da sua mãe ir embora pediu que a senhora enviasse isso pra quem estivesse com sua filha e que desse pra ela quando fosse certo. Só que eu nunca soube quando chegaria a hora, pensava que a família que acabasse te adotando faria isso ou então jogariam fora e colocariam uma pedra em cima de tudo...

- Acho que não tivemos essa sorte, não sou uma das premiadas.

Elisa falou com certo sarcasmo, ela nunca se considerou com muita sorte nem mesmo quando pequena. Marta sentia pena da garota, tinham sido incontáveis famílias ao longo dos anos fazendo entrevistas para adotar Lis e quase sempre depois de uma semana convivendo com a garota ou a visitando no orfanato eles acabavam escolhendo outra menina ou menino, a conselheira não conseguia entender como aquilo acontecia, Elisa não era o tipo de criança grosseira e sem modos que fazia com que os casais desistissem da adoção, pelo contrário, a garota tinha todos pontos positivos para ser escolhida...

- Fui eu que lacrei as caixar com fita adesiva tinha medo que alguma das cartas caísse de dentro delas, são tantas que nem sei como conseguem caber tudo aqui. Só pra você saber, eu li todas da primeira caixa e então achei que era errado mesmo eu sendo uma pessoa que precisa saber de tudo o que puder sobre uma criança órfã, não quero te obrigar a ler elas nem nada só acho que você tem o direito de saber da vida antes de você nascer.

Elisa sentiu a ponta dos dedos formigarem, estava apertando com muita força seu copo de suco entre as mãos enquanto escutava sua conselheira era como se ela tivesse sido transportada para um mundo desconhecido, como se fosse outra pessoa sendo apresentada para alguém que deveria conhecer. Ela estendeu sua mão sobre a mesa até tocar as caixas empilhadas, eram ásperas e pareciam pesadas só de olhar.
Sem precisar pedir a garota puxou as caixas mais para perto e retirou a fita adesiva que estava ao redor da tampa de uma delas, abrindo só um pouco a tampa conseguiu ver uma pilha de cartas organizada e separadas apenas por alguns objetos que não conseguia identificar.

- Você tem todo o tempo do mundo pra ler.

Marta declarou um pouco nervosa.

- Todo tempo... A gente pode voltar? Sei que você deve querer que eu aproveite o passeio e espera dar uma volta pela praia, mas eu queria voltar pra casa.

Marta concordou, foi pega de surpresa pela atitude da garota no entanto não queria demonstrar, parecia importante que Elisa sentisse que a conselheira parecesse alguém sem nenhum sentimento.

A volta para o pequeno apartamento pareceu mais lenta, o trânsito estava começando ficar tumultuado e Marta teve que pegar uma das ruas de desvio para não ficar presa no semáforo. Ela precisava falar com a tutora do local onde Elisa vivia, ninguém além dela sabia a respeito daa cartas e seria necessário ela explicar para a mulher que Elisa poderia ter uma pequena mudança em sua vida depois de ler aquelas cartas.

Assim que chegaram ao prédio Elisa pediu licença e subiu as escadas para o andar dos dormitórios, parecia que havia uma pedra presa em torno do seu pescoço a puxando para baixo e ela mau podia sentir seu coração batendo contra seu peito. Será que aquilo era o início de uma crise de ansiedade, será que aquele "presente" tinha mexido tanto com ela ao ponto de ficar tão desestabilizada, começou se perguntar enquanto fechava a porta do dormitório com cuidado usando a chave que havia roubado de sua tutora.

23 de Novembro de 2019 às 00:00 0 Denunciar Insira 0
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