A Terra de Aradus - A Pretensão dos Cavaleiros Seguir história

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O humilde Vilarejo Erban do Reino de Asmabel passou pela mais produtiva das primaveras e a adolescente Eurene vê seus dias tornando-se mais atarefados com sua família. No entanto, tudo muda quando a expansão territorial do Reino de Vordia chega ao vilarejo. Desorientados, Eurene e seu pequeno irmão Devin são ajudados por um andor mendigo que os guia até a fabulosa Cidade de Asmabel onde eles acabam por se unir a um grupo de quatro cavaleiros intitulados Cavaleiros Irmãos cujo objetivo consiste em conseguir o auxílio militar do Rei Grival para acabar com a tirania do Rei de Vordia de uma vez por todas. No outro lado da Terra de Aradus, o andor estudante Derion se prepara para os desafios que está prestes a disputar para enfim se tornar o Chefe da Ordem dos Ejions e assumir a governança de Nerendor. No entanto, ele descobre fatos históricos que mostram que nem tudo é o que parece ser.


Fantasia Medieval Todo o público.

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Mais um Belo Dia em Asmabel

O fresco vento da manhã esvoaçava seu manto marrom como se estivesse no topo de uma montanha. Os raios do sol que surgiam timidamente no leste começavam a aquecer a madeira do pequeno balde em sua cabeça. Seus olhos castanhos estavam fixos no horizonte da verde planície coberta por capim úmido e a coragem que emanava de seu coração resplandecia em sua face.

Este confiantemente segurou o cabo da espada de madeira em sua cintura e ao puxá-la, ergueu-a para o céu e determinou sua vitória em um alto pronunciamento triunfal:

- Em nome da Ordem dos Cavaleiros; eu, Devin, o Destemido, sentencio você, perversa criatura, a morrer pela lâmina da minha espada.

Segurando o punhal de madeira com as duas mãos, cortou o ar com um único golpe e fez jus a sua declaração. Sua imaginação não foi suficiente para formar detalhadamente a criatura que acabara de combater mas foi suficiente para lhe fazer sentir a satisfação de empunhar uma espada, colocar um elmo e vestir um manto.

- Devin! Vem aqui e dê-me o balde!

Ao ouvir o chamado da irmã, o mundo fantástico do menino de apenas sete anos se desfez. Teve de se virar e abandonar sua curta espada de madeira na carroça para que atendesse ao chamado. Ao retirar o pequeno balde de madeira da cabeça, revelou cabelos castanhos ondulados que seguiam o vento para o oeste. Não perdeu tempo em se afastar da carroça e caminhar em direção à porteira do curral, sempre se desviando dos estercos espalhados pelo solo terroso para não sujar suas botas de couro. Assim, ele logo chegou à porteira do curral onde sua irmã ordenhava os vorgos.

- Brincando de novo com a toalha da mamãe? - perguntou Eurene sentada ao lado de um vorgo.

- Eu gosto dela. Faz eu parecer um cavaleiro de verdade.

- Não existe cavaleiro de verdade com a sua altura, Devin.

A menina estendeu o braço para pegar o balde que o menino trazia.

- Sua chata. - proferiu o pequeno irmão.

Os vorgos não se incomodavam com a movimentação dos dois jovens dentro do curral. Poupavam-se em apenas mastigar o capim e observar com seus miúdos olhos negros o horizonte à frente.

Vorgos eram grandes animais cobertos por uma espessa camada de grossos pêlos castanhos escuros que estendiam-se para baixo cobrindo todo seu corpo e parte de suas curtas pernas. Uma grande corcunda era notável em suas costas e grossas galhadas negras saíam de sua cabeça. Devin nunca deixava de se incomodar com o fétido odor exalado pelo animal mas poupava-se de reclamar pois todos os dias era sua responsabilidade ajudar a irmã a ordenhá-los. Mesmo possuindo uma mente inocente, ele tinha a maturidade de tentar evitar deixar as coisas mais desagradáveis por suas palavras.

Eurene mantinha-se sentada num banquinho ao lado do animal para tirar o leite das negras e rechonchudas tetas. A atividade nunca lhe agradou, mas sabia que era mais racional fazê-la do que deixá-la nas mãos de seu irmão que estava mais interessado em brincar com o toalha de sua mãe e a espada de brinquedo.

Ao fim da manhã, quatro baldes estavam cheios de leite e Devin era encarregado de levá-los e posicioná-los adequadamente na carroça. Eurene libertou os animais do curral embora eles não apresentassem sinais de insatisfação e guardou as varas e o banquinho que usou durante a atividade. Subiu na carroça ao lado de Devin e puxou as rédeas para que os burros seguissem pela estrada de terra rodeada por capim. O pasto mantinha vinte e dois vorgos saudáveis incluindo os filhotes. Embora os dois irmãos viessem todas as manhãs para ordenhá-los, os animais não pertenciam a seu pai nem a sua mãe mas sim ao seu vizinho, o Senhor Borgers. Todos os animais eram marcados no couro com um número que o identificava e cada família do vilarejo tinha a permissão de ordenhar determinado animal e desfrutar de seu leite mediante pagamento. As famílias que não conseguiam adquirir um vorgo com o Senhor Borges eram obrigadas a comprar litros de leite que os comerciantes traziam diariamente.

- Conseguimos quatro baldes cheios hoje - comentou Eurene. - Mamãe vai ficar satisfeita.

- É, mas do que adianta tanto leite se tudo vai virar pães para vender na padaria.

- Não é verdade. Mamãe sempre faz uns bolinhos para nós dois.

- Acha que ela pode fazer hoje os bolos cobertos com mel?! - Devin demonstrou grande esperança em sua pergunta.

- Talvez ela faça, papai também gosta muito dos bolos cobertos de mel, lembra?

- É o melhor bolo que existe.

- Quantos tipos de bolos você já comeu? Três? Quatro?

Não foi difícil para o menino responder.

- Tirando o bolo coberto de mel? Um. Eu acho.

- Te garanto que existem bolos tão deliciosos quanto. Mamãe já fez muitos bolos com sabores que eu nem sabia que existiam. Principalmente com legumes e verduras.

- Eca. Não gosto de legumes e verduras.

Os dois burros cinzentos puxavam a carroça pela estreita estrada de terra e seguiam para fora do pasto. Ao atravessar a porteira aberta, viam-se à caminho do vilarejo em que moravam.

A estrada era de terra seca batida e a carroça balançava aos passos pesados dos burros mas, como sempre, Devin certificou-se de encaixar os baldes nos encaixes de madeira construídos especialmente para impedir que os baldes virem ou caiam. O espesso leite balançava no interior do balde mas felizmente não chegava ao ponto de pular para fora.

À medida que avançavam, as casas tornavam-se maiores e logo eles passaram pela pequena placa de madeira em forma de seta pregada num pau que anunciava a chegada ao agradável Vilarejo Erban.

As casas eram muito semelhantes entre si. Eram construídas de blocos de tijolos revestidos por uma lisa massa branca com a função de esconder os defeitos dos encaixes dos tijolos. Toras de madeira ajudavam a sustentar os andares superiores e segurar a cerâmica do telhado. Todas as casas possuíam dois andares e uma extensão para o lado direito ou esquerdo; estes vinham a ser a cozinha ou o banheiro. No telhado de cerâmica que geralmente era vermelha, erguia-se uma ou duas chaminés onde todas as casas liberavam a fumaça de suas lareiras e fornos.

As casas eram alinhadas fazendo com que o vão entre elas fossem as ruas para a locomoção. Cerca de cinquenta casas e dez estabelecimentos formavam o vilarejo por completo e todas estavam na área delimitada por uma cerca de madeira que os separava dos pastos e das plantações de grãos ao redor. Um estreito rio corria à menos de três quilômetros ao norte da última casa e servia de abastecimento para os moradores que dependiam dos carroceiros que traziam galões cheios de água todas as manhãs. Também havia um poço no centro do vilarejo mas os moradores por diversas vezes duvidavam da pureza de sua água.

Eurene e Devin passaram todo o percurso dialogando sobre as massas e sobremesas que eram especialidades de sua mãe. Mas no momento que passaram em frente da primeira casa, tiveram de parar para cumprimentar os gentis moradores que saíam de suas residências.

- Um ótimo dia, crianças. - cumprimetou o bigodudo Senhor Medrin que saía para iniciar seu dia de trabalho nas plantações de trigo.

Os burros pareciam já saber o caminho onde seguir pois curvavam as ruas sem a necessidade dos comandos das rédeas. Andavam calmamente mesmo estando constantemente rodeados por irritantes crianças que corriam e brincavam com varas e brinquedos nas mãos.

Os asmabelianos costumavam gabar-se de serem o povo mais feliz da Terra de Aradus. De fato era difícil ter o azar de encontrar um asmabeliano ranzinza por natureza. Era necessário grande sofrimento para mudar de tal forma a personalidade de uma pessoa nativa do dito maravilhoso Reino de Asmabel.

Os moradores exibiam coloridas roupas com as mais diversas combinações de cores fazendo com que cada vestimenta fosse única. As mulheres eram mais contidas do que os homens no comportamento. Caminhavam uma ao lado da outra carregando baldes e cestos e sempre demonstravam gentileza e esbanjavam sorrisos. Todas usavam coloridos vestidos rodados com chapéus que viessem a combinar com todo o resto. Por baixo das longas saias usavam longas meias brancas que cobriam suas pernas e coxas. Tinham de ser brancas pois o intuito era não tomar a belezura dos vestidos. As que trabalhavam carregando cestos ou baldes evitavam usar mangas em seus braços pois era um terrível infortúnio sujar os trabalhados vestidos de lã. Elas prendiam firmemente os cabelos em coques e penteados para não lhes atrapalhar durante as tarefas. Era comum dos asmabelianos terem os fios de cabelos na cor castanho estes sendo homens e mulheres.

Os homens, por sua vez, preservavam-se em cultivar delicados bigodes e barbas bem aparadas e somente os paletós exibiam cores vivas. Suas calças costumavam ser de cores escuras para não chamar atenção e todos usavam calçados fechados. Os mais velhos apoiavam-se em bengalas e alguns cobriam suas cabeças com pequenos chapéus de cores que combinassem com seus paletós. Estes contavam histórias entre si e, ao contrário das mulheres, riam em alto e bom som.

A carroça avançava curvando à direita e à esquerda e os irmãos cumprimentavam as senhoras que plantavam flores em seus quintais e os senhores que consertavam as cercas que demarcam sua propriedade. As casas estavam distribuídas entre lojas e estabelecimentos que abasteciam as necessidades dos moradores. Cada estabelecimento levava o nome de seu proprietário na placa.

Um dos mais frequentados era o Açougue de Jurion pois a carne suína fornecida era provida de um cuidadoso trato com gordos e saudáveis suínos na propriedade do Senhor Jurion. Havia outros vendedores de carne como a Senhora Lennie que era especialista no criadouro de galinhas e outras aves para o abate; essas se mostravam barulhentas e rechonchudas. O Alfaiate de Cortennis era o mais privilegiado entre todas as costureiras do vilarejo pois era dito que a Senhora Cortennis possuía um encantamento nas mãos que a fazia costurar as mais duráveis e belas vestimentas principalmente as que eram solicitadas para festejos. A Carpintaria de Morence era responsável por fabricar e consertar os mais diversos móveis para atender às necessidades dos moradores e o serviço sempre incluía uma polida para um óleo deixar as peças de madeira bem reluzentes.

Embora todos esses lugares fossem de grande importância para o conforto na vida de Eurene e seu irmão Devin, nenhum se equiparava à importância da Padaria de Eugus, o estabelecimento de seus pais. Em seu trajeto para casa eles não passaram diante da padaria pois ela se encontrava à várias casas de distância, próximo à Residência do Senhor Erban, o governante do vilarejo.

Após alguns minutos balançando sobre as rodas da carroça, eles avistaram a faixada de sua casa. Eurene e Devin estavam na esperança de parar o veículo de tração em frente à cerca de casa e entrar com os baldes de leite finalizando o trabalho desta manhã, mas o que eles temiam estava prestes a acontecer.

Na casa ao lado, a enfadonha Senhora Molline estava ajoelhada e de costas para a rua enquanto cortava com uma tesoura algumas ervas miúdas. Como sempre estava vestida com seu clássico vestido rodado colorido em tons de roxo e laranja e também usava um grande chapéu para poupá-la do sol da manhã.

Os irmãos não pararam. Se esforçaram em manter toda a atenção no caminho à diante mas era inevitável. Ao ouvir o som das rodas da charrete, a ávida Molline levantou-se em um pulo e gritou com sua aguda voz:

- Crianças!

Eurene imediatamente puxou as rédeas e parou a carroça.

- Bom dia, Senhora Molline. - cumprimentaram os irmãos forçando um agradável sorriso.

- Ah, graças aos céus eu os encontrei - A mulher puxou a rodada saia e aproximou-se de sua cerca em passos afastados para não pisar em suas flores. - Faz dois dias que estou tentando lhes entregar um pedido que a mãe de vocês me encomendou.

Os irmãos se entreolharam buscando uma resposta apropriada.

- Nós... Temos ajudado muito nossos pais nesses últimos dias.

- Ah, imagino que sim. Sem dúvida Eugus deve estar louco para retornar ao ofício de padeiro. Deve estar sendo terrível para ele ficar dentro de um quarto sozinho com o pé enfermo. Vocês, duas pequenas crianças tendo que fazer todo o trabalho pesado durante esses dias, isso não está certo. Mas digam-me, Nirene continua fazendo os bolinhos mesmo não tendo onde vendê-los?

Por algum motivo Eurene não estranhou a curiosidade da vizinha. De certa forma ela já esperava que em algum momento eminente Molline procuraria saber sobre os movimentos de sua mãe. Especialmente nesse momento em que seu pai se encontrava adoentado.

- Han... Sim. Ela faz ainda alguns para nosso próprio consumo.

A mulher com olhos curiosos fitou os irmãos por alguns segundos avaliando a resposta lhe dada. Estes por sua vez, não se esforçaram em dar continuidade ao assunto pois estavam apressados demais para sair da presença da vizinha.

- Ah, quase me esqueci - Molline inclinou-se e pegou um pequeno cesto no degrau que dava acesso à porta de sua casa. - Sua mãe me pediu algumas ervas para cuidar da enfermidade de seu pai - Devin esticou o braço para pegar o cesto. - Aí tem folhas de moleira, galhos de enduto e flores de manticoria.

- Han... obrigada.

- E diga a ela que não se preocupe com o pagamento, sei que ela deve estar muito ocupada cuidando do marido e limpando a casa todo santo dia. Ah, acreditem em mim, eu sei o que é isso. Já tive que passar dias extremamente atarefada quando meu querido marido Esmonde sofreu um terrível acidente enquanto consertava a faixada de nossa loja. Na verdade não foi um acidente muito grave mas deixou-o incapacitado de trabalhar por quase quarenta dias...

Essa era sempre a pior parte para os irmãos. Molline não podia terminar um diálogo sem contar algumas das infelicidades de sua confortável vida no vilarejo. Felizmente a história não se prolongou e na primeira oportunidade Eurene se despediu e puxou as rédeas para que os burros seguissem em frente. A tagarelice não era o único motivo responsável por fazer os dois irmãos evitarem a presença da vizinha, por diversas vezes Eurene já fora afortunada com sugestões de um possível relacionamento com o único filho de Molline. Albrian era um rapaz franzino e tímido que vez ou outra era a dito como a melhor opção para uma bela moça com Eurene se casar. Embora fosse forçada a manter uma compostura afável quando era necessário dar-lhes uma resposta à maldita sugestão, Eurene nunca sequer cogitou tal possibilidade.

Após cerca de cinco minutos curvando ruas à direita e à esquerda, eles pararam em frente à uma casa de dois andares e desceram ligeiramente da carroça. Segurando em suas alças eles retiraram cuidadosamente os baldes dos buracos em que estavam encaixados, todos os quatro aparentando possuir a mesma quantidade de leite desde que foram enchidos. Devin saiu à frente da irmã e abriu o pequeno portão de madeira da cerca que determinava o espaço do quintal e o manteve aberto para que Eurene passasse primeiro.

O quintal era todo coberto por uma baixa grama que ainda era aquecida pelos tímidos raios de sol. Ao contrário de muitas outras famílias que compunham o vilarejo, o casal Nirene e Eugus não cultivavam plantas em seu quintal pois acreditavam não possuir o dom de fazê-las crescer saudavelmente. De fato todas as plantas que tentavam cultivar seja comestível ou não, morriam antes de atingir uma beleza considerável. Por certo tempo, foi dito que Eugus e Nirene possuíam mãos ruins pois era improvável que houvesse um asmabeliano na história que fora rejeitado pelas plantas. Felizmente essa acusação enfraqueceu-se depois que o casal começou a vender suas guloseimas em seu próprio estabelecimento. Nirene e Eugus talvez não possuíssem o dom de cultivar plantas, mas certamente sabiam como usá-las na cozinha.

Uma estreita trilha de cascalhos guiava os visitantes para um degrau onde encontrava-se a bem trabalhada porta de madeira com uma grande argola de ferro no centro. Eurene pôs-se a bater a argola contra a porta e logo ouviu-se um barulho de destrancamento por dentro. Ao ser aberta, uma mulher com a fisionomia idêntica à de Eurene veio recepcioná-los.

- Ah, que bom que chegaram.

Nirene mostrou-se contente com a chegada dos filhos. Apanhou os dois baldes de leite que Eurene trazia consigo e levou-os para dentro. Devin lhe trouxe os outros dois o que levou duas viagens para cumprir a curta tarefa. Por último trouxe-lhe a cesta com as ervas que Molline lhes deu.

- Eurene, querida - chamou a mãe - Por favor leve a carroça para o Estábulo de Enorius.

- Devin se esforçou muito menos do que eu hoje, mãe - argumentou a menina - Peça para ele ir levá-la.

- Eu pedi para você ir levá-la. Vá depressa. O Senhor Enorius vai saber onde guardá-la.

- Sim, mãe. - Essa foi a única resposta que veio à boca de Eurene vendo que sua mãe já lhe dava as costas antes de terminar suas ordenanças.

A menina não demorou em subir novamente no veículo e seguir o caminho em direção ao estábulo que pertencia ao Senhor Enorius; este era o responsável por fornecer animais e veículos de tração para os moradores. Além de possuir um extenso estábulo para mantê-los. Sempre cobrava uma considerável quantia em moedas tendo em vista que era o único a trabalhar na específica área.

- Quantos baldes conseguiu hoje? - Perguntou o alto e corpulento Senhor Enorius que se aproximava da carroça.

- Quatro baldes cheios. - Respondeu Eurene enquanto descia do veículo.

- Quatro, han? Esses vorgos estão cada dia mais produtivos. E perdeu alguma quantidade durante o percurso?

- Acho que não. - Instintivamente Eurene virou a cabeça para ver se a carroça ainda estava exatamente como era antes.

- Isso é bom. Me poupa do trabalho de ter que martelar mais pregos.

Eurene deu-lhe um sorriso e logo virou-se para seguir seu caminho.

- Ei, moça - chamou o homem que tomava as rédeas para recolher seus burros. - Tenha um bom dia.

- Igualmente. - Respondeu Eurene com um sorriso lembrando-se do costume da cortesia presente no seu povo.

Ela retornou em passos apressados. Suas botas de couro estavam desgastadas e por vezes apertavam seus dedos. Sua calça de tecido marrom já exibia falhas na costura. Sua blusa de tecido vermelho não era mais bela como quando a ganhou uma estação atrás. Talvez fosse porque era a única que usava. Na verdade, Nirene havia lhe dado um vestido vermelho que estendia-se até abaixo dos joelhos, mas Eurene cortara-o com uma longa tesoura reduzindo a saia do vestido à dez centímetros abaixo da cintura. Esta era presa com um cinto de couro em sua cintura.

Mesmo não demonstrando um comportamento extrovertido, seu nome era conhecido em todo o vilarejo. Não somente por ser a filha dos donos da Padaria de Eugus mas pelos seus constantes dias atarefados. Os vorgos no pasto eram seu destino nas manhãs, a limpeza da padaria que permanecia fechada era sua tarefa das tardes, e as noites antes do jantar era o tempo que tinha para praticar sua leitura e escrita baseando-se nos livros que o Senhor Erban disponibilizava para a compra dos moradores. Embora não gostasse de realizar as monótonas atividades, Eurene não desafiava sua mãe pois conhecia os afazeres destinados a ela. Enquanto Eugus permanece adoentado, é Nirene quem mantém a casa visualmente exuberante aos olhares dos vizinhos; tarefa que exige um esforço diário. Além do mais, não há outra pessoa naquela casa que saiba cozinhar tão bem. O pequeno Devin admitira uma vez que morreria de fome se sua mãe não estivesse mais entre eles. Comentário inesperado vindo de uma mente tão inocente, pensara Eurene. Mas avaliando as experiências que tivera em sua confortável vida no vilarejo pelos últimos quinze anos, a própria Eurene percebera que não podia julgar o irmão pela falta de conhecimento, afinal, tudo que havia aprendido da realidade do mundo limitava-se aos cinco livros que seus pais haviam comprado do Senhor Erban. E no fundo, ela sabia que aquilo não poderia lhe ensinar nada.

Eurene era uma bela moça de quinze anos. Seu rosto arredondado de pele clara despertava o interesse dos rapazes que moravam no vilarejo. Seu cabelo castanho ondulado nunca estava preso como o da mãe e fazia questão de exibí-los balançando ao vento. Orgulhava-se deles. Embora percebesse alguns olhares desejosos dos adolescentes que passavam ao seu redor, ela poupava-se em apenas dar-lhes um leve sorriso sem mostrar os perfeitos dentes brancos.

Ao atravessar o pequeno portão de madeira em seu quintal, ela rapidamente entrou para dentro de casa. O interior da casa não era muito espaçoso, o maior cômodo era a sala que recebia os visitantes pela única porta de entrada e saída. Uma mesa quadrada de esculpida madeira ocupava a maior parte do cômodo e sobre ela havia um açafate com algumas frutas frescas. Em cada um dos quatro lados da mesa estava uma cadeira todas muito bem posicionadas. Uma grande lareira feita de blocos era usada para iluminar a casa na tenebrosidade das noites e para aquecer a gelidez dos dias frios. Um armário não muito alto exibia a louça de cerâmica branca através de um espelho quadrado e os talheres eram guardados em gavetas. O chão de madeira era coberto por um extenso tapete vermelho e as toras quadrangulares que sustentavam o teto eram lustrosas pelo óleo que Nirene certificava-se de passar. Logo via-se que não havia uma teia de aranha ou resquício de poeira nos móveis da casa.

- Quatro baldes cheios, hein? - comentou Nirene saindo de uma entrada no lado esquerdo da sala e com as mãos cobertas de farinha de trigo. - Há seis dias nos preocupávamos em encher apenas três.

Eurene puxou uma cadeira para sentar-se e começou a retirar suas botas.

- Os vorgos deram trabalho hoje? - o silêncio da menina levou a mãe a compreendê-la. - Qual é o problema, Eurene?

- Você é o problema, mãe. A cada dia está redobrando minhas tarefas.

- Está brava porque eu pedi que levasse a carroça para os estábulos? - a menina não respondeu. - Foi tão ruim assim? Por acaso o Senhor Enorius foi grosseiro com você?

- Não se trata de só levar a carroça. A cada dia você muda as tarefas que eu tenho de cumprir.

- Está levando essa história a sério demais, querida. Seu pai não devia ter criado essa baboseira de lista de tarefas para vocês dois. Você está ficando igualzinho a ele, seguindo demais as regras.

- Acha melhor que eu quebre as regras? Tipo uma adolescente levada? - O tom da ironia era claro.

- Todo mundo precisa quebrar as regras de vez em quando. Se eu tivesse seguido todas as regras que eram impostas pelos meus pais, hoje eu não estaria casada e não seria sua mãe.

- Talvez eu devesse deixar as regras de lado mesmo. Fazer o que eu quiser e não me importar com consequências. Afinal, o que nós temos que poderia ser prejudicado? Ah, é, a padaria. Nossa fonte de sustento.

Nirene não se atreveu a rebater os argumentos. Por um momento ficou parada do outro lado da mesa observando-a. Não com desprezo, mas com certo orgulho. Na verdade, a mãe não se surpreendera com esse curto debate que acabara de travar com a filha, afinal já estava se tornando comum que Eurene discordasse de suas opiniões e que contestasse suas ordens. Embora ambas fossem muito parecidas fisicamente, suas personalidades eram extremamente distintas.

Assim como a filha, Nirene demonstrava apreço pela cor vermelha. A parte de baixo de seu vestido era de tecido branco simples mas o resto era de um vermelho que aos poucos estava perdendo sua clareza. Manchas de farinha branca podiam ser vistas em sua longa saia mas nada que prejudicasse sua postura aos olhos das demais mulheres. Por algum motivo, um simples desleixo na roupa de uma mulher asmabeliana casada poderia comprometer o seu respeito social. Uma mulher mal vestida, ou com roupas desgastadas transmitia a impressão de desleixo independente do que causasse tal problema. De fato, as senhoras bem vestidas sempre demonstraram grande apreço social no Reino de Asmabel.

Mesmo que não conseguisse evitar algumas manchas, Nirene não desleixava-se com sua aparência. Seu rosto era magro e fino mas ainda sim era mais cheio que o da filha. Seus olhos eram castanhos assim como seus cabelos ondulados que estavam presos num penteado que era comum entre as senhoras casadas.

Embora fosse condenada pela mãe por seu comprometimento exagerado em seguir as regras, Eurene percebia que entre elas, era a mãe quem seguia estritamente as leis da Crença Alial impostas na sociedade.

- Então, como foi o serviço hoje, Senhora Segue-Regras?

- Esses vorgos estão cada dia mais gordos, mãe.

- E mais fedorentos, eu imagino.

- Eu e você somos os únicos que pensam assim. Tem dias que Devin chega a montar neles achando que são cavalos.

Nirene dava ligeiros sorrisos para a filha enquanto fazia seus deveres freneticamente. Eurene esfregava seus dedos dos pés pois estes possuíam incômodos calos causados pelas botas.

- Viu a cesta que a Senhora Molline lhe deu? - Perguntou a menina para a frenética mãe.

- Vi sim. Todas as ervas enfileiradas de acordo com as que eu a pedi dias atrás. Belas e perfumadas. Talvez eu até use-as como cosméticos ao invés de chá para seu pai.

O comentário arrancou um leve sorriso da menina.

- Ela foi mais gentil do que o normal desta vez. Disse que você não precisa se preocupar com o pagamento.

- Hum, não se engane, meu bem. Essas vizinhas fofoqueiras nos enchem de elogios em nossa presença mas nos criticam quando estão longe de nós.

- Ela também perguntou se você continua fazendo os bolinhos desde que papai não está mais trabalhando na padaria.

- E o que você a respondeu?

- Disse que ainda faz alguns.

- Isso não é bom. Lembre-se que ela é amiga íntima da Senhora Lolene, a esposa do dono daquela padaria na mesma rua da nossa.

- Acho que não há problema. A Senhora Lolene nunca vai fazer doces tão bons quanto os seus.

Nirene não pôde esconder o sorriso pelo elogio da filha.

- Devin passou todo o caminho da volta me perguntando quando você vai fazer aqueles bolinhos cobertos de mel. - Comentou enquanto mastigava uma pêra que estava entre várias frutas no açafate no centro da mesa.

- Eu não devia ter feito tantos daqueles bolinhos no aniversário dele. Certamente ficou viciado neles. Tem vezes que ele chora para eu fazer mais desses bolinhos quando vou preparar qualquer outro doce.

- Ele chora? Isso é uma boa oportunidade para eu chantageá-lo. - Disse a menina para si mesma.

- Já te disse que não gosto dessas competições entre vocês dois.

- Por que não os faz para vender na padaria? Os bolinhos? Quando nós formos abrí-la novamente. - Nirene parou por um momento o que estava fazendo e olhou para a menina. Eurene pôde perceber o incômodo que a pergunta lhe causara. - O que? Nós vamos abrir a padaria de novo, não vamos?

- É claro - confiança não acompanhou a resposta. - Quer dizer, talvez. Depende do quanto seu pai melhorar e mostrar-se disposto. Você sabe que eu sozinha não posso fazer os pães, bolos, doces e atender os clientes ao mesmo tempo.

- Eu posso ajudar. - Respondeu a menina de imediato.

- Há mais deveres do que isso. É preciso negociar a entrega dos grãos com os agricultores lá das plantações, certificar-se que eles não estão tentando nos enganar com um preço menor por ser mercadoria de baixa qualidade. Três pessoas seriam necessárias.

- Sei que Devin ajudaria sem reclamar.

- Devin tem sete anos de idade, não entende nada de números. Nem eu sou boa nisso. Por isso seu pai é essencial para aquela padaria funcionar e não posso reabrí-la até que ele melhore.

- Enquanto isso a Senhora Lolene lucra com nossos clientes. - Comentou a menina mastigando a pêra.

- Você não disse que ela nunca vai fazer doces tão bons quanto os meus?

Embaixo da escada, no interior direito da casa encontrava-se o banheiro com uma baixa porta de madeira. Devin saiu de dentro do cômodo com um súbito empurro da porta chamando a atenção das duas mulheres que conversavam entre si. O menino usava somente sua calça marrom e seu corpo ainda estava por secar.

- Deixe-me ver se está cheiroso - Nirene puxou gentilmente o filho para perto e aproximou o nariz em seus cabelos encaracolados úmidos.

- Ele está fedendo menos? - Perguntou Eurene que acabou por receber uma careta do pequeno irmão.

- Nunca se esqueça de ensaboar a cabeça, sim? - O menino assentiu com um repentino aceno da cabeça.

- Não pense que a sujeira dele é pelo esforço com os vorgos, mãe. Esse pirralho passa a maior parte da manhã correndo pelo pasto com a sua toalha amarrada no pescoço.

- Para mim não há problema contanto que sempre traga minha toalha de volta. Agora vá vestir uma camisa para poder almoçar.

Devin correu em direção à escada de madeira no interior direito da casa que levava para o andar de cima onde encontrava-se o quarto destinado à ele e à irmã.

Nirene voltou à cozinha no interior esquerdo da casa e preparou um chá com as ervas que a Senhora Molline lhe deu. A cozinha era um cômodo retangular pequeno com uma janela quadrada com minúsculas aberturas entre suas linhas verticais de fina madeira. Uma pequena mesa quadrada era destinada ao amasso de massas e cortes de pedaços de carne. Pedaços estes que ficavam pendurados em ganchos nas toras de madeira do teto baixo e eram todos conservados em sal. Havia duas longas tábuas finas horizontais em paralelo que estendiam-se pela parede à um metro do chão destinadas a sustentar potes contendo grãos e as mais diversas especiarias. Um forno quadrado de metal escuro com alguns resquícios de ferrugem era o responsável pelo preparo das refeições. Este tinha a capacidade de manter a lenha queimando em seu interior e duas aberturas redondas liberavam o fogo necessário para o cozimento dos alimentos.

Após a fervura do chá, Nirene colocou-o numa leiteira ao lado de uma xícara numa bandeja de metal e pediu que Eurene a levasse até o pai no andar de cima. Quando terminou de subir as escadas, encontrou-se diante da porta entreaberta do quarto pertencente aos pais. Aproximou-se segurando a bandeja com as duas mãos e anunciou sua entrada:

- Pai? Posso entrar?

Uma tosse seca antecedeu a resposta.

- Claro. Entre, Eu.

Eurene abriu a porta entreaberta com seu cotovelo e silenciosamente entrou no cômodo segurando a bandeja. O local estava iluminado pelos raios de sol que entravam pela janela quadrada e Nirene havia certificado-se de retirar as cortinas para não haver o risco de a luz ser impedida de entrar. De fato este dia caminhava-se para ser um dos mais ensolarados do ano.

Pequeno mas confortável, o cômodo detinha uma grande cama de casal com grossos cobertores e travesseiros; estes eram estufados por plumas de ganso. Dois ornamentados baús no chão guardavam as vestimentas do casal. Um baixo guarda-roupa com um espelho quadrado e gavetas enfileiradas verticalmente ocupava um largo espaço no canto esquerdo ao lado da cama e a iluminação para as noites provinha de velas em um rústico lustre negro no centro do teto. Eurene sentiu um lúgubre ar quando adentrou o quarto. Não sabia dizer se era originado da presença do adoentado pai ou se fosse alguma feitiçaria lançada pelas vizinhas maliciosas.

Sentado na ponta do colchão; era como Eugus permanecia a maior parte do dia. Em sua frente uma pequena mesa quadrada ornamentada ajudava-o a apoiar seu livro e evitar a necessidade de ter que dar passos para pegá-lo. Usava as roupas que Nirene lhe deixou sobre o colchão antes de acordar; uma camisa branca com as mangas dobradas no cotovelo e um colete fino marrom com todos os botões abotoados o que acabava por exibir dobras por causa de sua visível barriga.

- E aí? Como vai o pé de gigante? - Perguntou Eurene depositando a bandeja sobre a mesinha diante do pai que imediatamente retirou seu livro.

- Pé de gigante? É assim que vocês chamam meu pé agora?

- Foi o Devin quem falou isso hoje de manhã. Não faço ideia de onde ele tira esses nomes.

- Certamente dos livros de contos fantásticos dele. Devin tem uma imaginação muito fértil.

- Três dias atrás ele tinha me dito que tinha imaginado geleia de cereja dentro do seu pé. Confesso que ri mas agora acho meio nojento.

- Ah, tenho certeza que o cheiro seria muito mais agradável se houvesse geleia de cereja dentro do meu pé. A cada dia sinto que isso aqui está ficando pior.

De certa forma, Eurene não se preocupava com os eventuais comentários tristes do pai pois estava muito familiarizada com sua jovial personalidade. Puxou para perto de si uma cadeira que estava no canto do quarto e sentou-se na frente da mesinha. Ao encher a xícara com o aromado líquido fervente, levou-o de encontro à trêmula mão do homem e teve a oportunidade de estudar seu rosto mais detalhadamente.

Eugus possuía trinta e dois anos de idade mas por muitas vezes foi dito que era muito mais novo devido sua personalidade eufórica. Seu rosto era redondo devido as cheias bochechas rosadas e sua barba estava recém feita. Ao contrário dos demais senhores, era incomum que ele deixasse sua barba crescer. Seus cabelos castanhos encaracolados estavam emaranhados e necessitavam de um aparo. Seus olhos eram fundos contrariando-se a como eram antes de adoecer. Suas mãos por diversas vezes foram notadas trêmulas e segundo ele, a tosse era o sintoma mais irritante da doença.

- Hum, de quê é esse chá? - Perguntou enquanto tomava um gole.

- Folha de moleira, galhos de... - seria impossível para ela lembrar todos os nomes que Molline lhe disse momentos mais cedo. - Algumas outras ervas esquisitas que a Senhora Molline deu para a mamãe.

- A Senhora Molline? Sem dúvida ela deve estar tentando me envenenar.

Eurene sorriu.

- Mamãe também diz esse tipo de coisa. Claro que eu também desconfio da extrema bondade dessas vizinhas mas envenenar você talvez seja exagero.

- Bom, sua mãe faz os melhores pães e bolos desse vilarejo, disso não tenha dúvida. Eu já provei alguns bolinhos da Senhora Lolene e te garanto que não são melhores dos que seu irmão é capaz de fazer.

- Parece que as pessoas daqui não se importam muito com isso. Todos vão na padaria deles todas as manhãs e todas as tardes antes do sol se pôr.

- Claro, aproveitam de minha incapacidade para finalmente erguer seu próprio comércio. Mas eu faria a mesma coisa se também tivesse envenenado meu concorrente.

Eugus acreditava profundamente que essa seria a razão de sua atual condição e Eurene não ousava duvidar. Eugus contava que, um dia antes de começar a se sentir mal, a Senhora Lolene veio em sua presença na bancada da padaria lhe perguntar sobre as condições que os senhores agricultores impunham em relação a seus grãos. Eugus por cortesia lhe forneceu um assento em uma das decoradas mesas para os clientes e a serviu uma xícara de chá a fim de tornar a conversa mais agradável. Lolene por sua vez, coincidentemente trazia dois pães em uma atrativa cestinha e ofereceu-lhe o mais chamativo. Eugus lembrava-se de saborear uma agradável doçura na massa do confeitado pão. Um dia mais tarde sentiu-se mal. Embora tivesse ingerido outros alimentos no mesmo dia, a explicação de ter sido envenenado pelos concorrentes era indiscutível.

- Noites atrás - iniciou inesperadamente a menina - , enquanto eu estava tentando dormir, por um momento pensei sobre o que nós teremos que fazer para recuperar os clientes perdidos.

- O que quer dizer? - Eugus assoprou levemente a xícara e levou-a aos lábios. Sua primeira reação ao beber o líquido foi uma careta pelo amargo gosto do chá. - Falta açúcar nesse chá.

- Quero dizer que nós teremos que mostrar algumas coisas diferentes, coisas novas, que atraiam o interesse desse pessoal.

- De fato estive pensando em uma pintura nas paredes por que se me lembro bem elas estavam com alguns buracos.

- Talvez devesse pensar em algo novo para vender. Um novo tipo de...

- Torta! - Concluiu o homem barrigudo antes de a menina completar sua sugestão.

- Torta? Por que torta?

- Por causa deste livro aqui, Eu. - Eugus virou-se e pegou o livro que estava lendo antes da filha ter chegado. - "Açúcar e Suas Doçuras" - leu o pai em alto e bom som - Este livro foi escrito por uma cozinheira chamada Melina da corte do Rei Erlurios de Asmabel, dizem que foi a melhor cozinheira da história.

- Nunca ouvi falar.

- Também nunca tinha ouvido a respeito dela até eu pedir que Devin comprasse este livro na biblioteca do Senhor Erban. Mas aqui está escrito várias receitas de bolos e tortas e, adivinha? Tortas são mais lucrativas que bolos! Além de mais saborosas, é claro.

- Você quer vender tortas ao invés dos nossos tradicionais bolos? Não acho que alguém nesse vilarejo esteja familiarizado com tortas.

- Pois essa, minha decidida filha, é a inovação que estamos precisando.

- Não sei se essa era a inovação que eu esperava...

- Deixe disso, Eu. Você está seguindo demais as regras. - Ele tomou outro gole do chá e tornou a fazer careta.

- Regras que foram impostas por você, se lembra? Mamãe me disse a mesma coisa.

- Ora, não seja por isso. As regras acabam de ser alteradas. Tortas serão a nova especialidade da Padaria de Eugus.

- E quanto a mamãe? Ela saberá preparar essas tortas?

- É para isso que temos este fabuloso livro - ele ergueu-o com a mão. - Todos os ingredientes e processos necessários para a preparação estão aqui. Além do mais, se sua mãe consegue fazer um bolo em forma de colméia de abelha, o que ela não poderá fazer?

De fato, o bolo em forma de colméia com mel escorrendo pelas fofas paredes era uma das coisas mais extraordinárias que os moradores do Vilarejo Erban haviam visto em suas vidas. Essa foi a receita que tornou a Padaria de Eugus única entre as poucas outras que haviam antes dela.

Enquanto conversava com o pai, Eurene notava de relance os constantes movimentos que ele fazia com o pé direito debaixo da mesinha.

- Percebi que você não tossiu desde que começou a beber esse suposto chá envenenado - o rápido olhar que o homem lançou na xícara revelou que nem ele havia percebido isso. - Ainda dói?

- O quê? Isto aqui? - O homem empurrou cuidadosamente a mesinha para o lado e revelou um pé direito totalmente anormal. Uma vermelhidão agregado a grossas veias escuras se estendiam do joelho até a ponta dos dedos inchados. Uma substância amarelada saltava pelos cantos das unhas e escorriam para baixo chegando ao polido chão como espessas gotas gosmentas. - Não entendo o porquê mas está mais dolorido agora.

- Acha que poderá voltar logo para a padaria? A mãe diz que não podemos reabrí-la sem você.

- Agradeço a atenção, Eu. - ele levou a xícara aos lábios e tomou o último gole - Mas parece que não vou sair desse quarto tão cedo.

- Eurene! - chamou Nirene no pé da escada. - Ajude seu pai a descer para o almoço, por favor.

- Bom, acho que terá de sair agora.

Eurene levantou-se da cadeira e andou até o lado direito da cama a fim de pegar as duas muletas de madeira destinadas a auxiliar o homem a manter-se de pé enquanto arrisca seus passos.

Por um momento Eugus ficou inquieto. Sua perna formigava fortemente mas ele resistia à tentação de coçá-la descontroladamente. Seus dedos dos pés contorciam-se involuntariamente e as veias pulsavam como se estivessem vivas. Olhou de esguio para o membro avermelhado e não compreendia o que estava acontecendo.

- O que acha que sua mãe preparou para o almoço de hoje, Eu? - Eugus perguntou para tentar tirar a atenção da anomalia.

- Han... Ela disse algo como peito de pato assado e farofa de castanhas.

- Peito de pato? Oh, a Senhora Lennie deve estar vendendo apetitosos patos no momento.

Eurene pegou a muleta que estava embaixo da cama e estendeu-a para seu pai tomá-la.

- Pode deixar, Eu - disse o pai antes dela segurar em seu braço para ajudá-lo a levantar-se. - Eu consigo ir para a cozinha sozinho.

- Mas e a escada? Vai acabar por cair se descer aqueles degraus sozinho.

- É, aqueles degraus são mesmo tortuosos, de fato. Mas estou com um excelente pressentimento nesse exato momento.

Eurene não o contestou mais, via que ele já tinha conseguido colocar-se de pé diante de si e achou que seria melhor não aborrecê-lo. Decidiu desobedecer o pedido da mãe e seguiu sozinha para a cozinha a fim de preparar o que tivesse de ser preparado para a chegada do pai na mesa de almoço. Ela desceu hesitante, virava a cabeça para trás para certificar-se de que seu pai ainda estava de pé. Uma queda brusca poderia trazer situações complicadas naquela hora o que ela nem gostava de imaginar.

Quando chegou ao último degrau, se deparou com sua mãe terminando de colocar a mesa para o almoço. Havia quatro pratos em cada lado da mesa quadrada e todos eram seguidos com um conjunto de talheres. Uma bandeja de metal exibia o peito de pato assado com batatas ao seu redor. Uma vasilha mantinha a farofa de castanhas e, por último, uma jarra com suco de limão. Devin já estava sentado e devidamente pronto para a refeição. Seus olhos estavam atentos ao pato e o delicioso cheiro lhe deixava mais faminto.

- Seu pai não vem? - Perguntou Nirene.

- Sim, eu acho.

A mulher não compreendia. Estaria ele pensando em comer mais tarde? Ou será que queria que ela levasse a comida até ele e estava com vergonha de dizer na presença da filha?

- Vou lá em cima ver o que ele quer.

Antes de Nirene passar pela filha para chegar no pé da escada, os pesados passos já podiam ser ouvidos pela sala.

- Não se preocupe, querida. Já estou descendo.

A feição dos três na sala mudou de imediato quando olharam para a escada. Eugus vinha descendo devagar apoiando-se no corrimão. Mas desta vez ele não usava as muletas, desta vez ele não usava nada. Com um passo atrás do outro, ele pisava firmemente nos degraus e segurava o corrimão de madeira com as duas mãos. Via-se que ele estava fazendo um grande esforço, mas era uma visão surpreendente para quem mal conseguia vestir as próprias roupas deitado numa cama. Nirene era a mais surpresa entre os três, ela é quem passara a maior parte do tempo com o homem adoentado e, vendo sua situação nessa mesma manhã, nunca imaginaria tal melhoria em apenas um dia.

- Olha, mamãe! - comentou Devin - O papai está andando.

19 de Novembro de 2019 às 17:04 0 Denunciar Insira 0
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Fabricio Prudente Um iniciante a criador de mundos

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