A Noiva fugiu, o Noivo também! Seguir história

asheviere Jupiter L

Forçada a se casar com o herdeiro do reino vizinho, que nunca conheceu, Marjorie de Ravensthorns está decidida a escapar. Marjorie prepara sua fuga através da janela, mas parece que o seu noivo planejou exatamente a mesma coisa.


Conto Todo o público.

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Único - Cordas de lençóis e bolinhos de bruxas.

Um casamento arranjado! Marjorie não conseguia acreditar! Não tinham notícias de casamentos arranjados há séculos, pensou até que esse costume bárbaro havia cessado completamente em Ravensthorns. Agora seu pai aparecia com uma ideia dessas. O que ele estava pensando? Certo, tudo bem que ele é o rei, mas existem alguns limites, não é mesmo? Se não existem, deveriam existir. Nem mesmo havia uma boa explicação para essa sandice. Ravensthorns e Silverrain era fortes e independentes, e as relações entre ambos eram estáveis há décadas. O último conflito entre os dois reinos acontecera antes mesmo de seu pai ter nascido. Qual era a necessidade dessa união?

Ainda assim, o casamento nem era a pior parte. O que realmente irritava Marjorie eram os dois guardas na frente de seu quarto. Certo, certo, ela não era a mais disciplinada das princesas, mas o rei tentava prendê-la no quarto? Sério? Antes, o plano de Marjorie era apenas resmungar de modo antissocial até que Silverrain desistisse da união. Ah, mas agora Marjorie acabaria com o casamento com suas próprias mãos. Literalmente, seu plano estava bem em suas mãos: uma longa corda feita com seus lençóis, na qual ela atava os nós enquanto sorria malignamente.

Marjorie ainda estava elegantemente vestida, devido à reunião com seu pai e o representante de Silverrain. Sabia que a família de seu noivo já havia chegado, e a reunião deveria ser entre ambos os reis, mas houve um problema com o Príncipe Kassian, que estava de repouso agora no quarto em que estava hospedado. Ela saíra da sala de reunião tão afoita que colocara seu plano em prática imediatamente, sem nem mesmo se trocar. Ainda tinha sobre os cabelos a ornamentada tiara dourada que a reconhecia como herdeira. Sem intenção de prolongar mais, lançou a corda de lençóis pela janela, atravessou o parapeito e começou a descida.

Não havia descido muito ainda quando percebeu que não teria sido uma má ideia trocar de roupa, o vestido chique dificultava um pouco, mas sua pressa a fez esquecer qualquer detalhe. Felizmente, Marjorie estava acostumada com a descida. Como já dito, ela não era a mais disciplinada das princesas. O que realmente a surpreendeu foi a segunda corda, arremessada de um quarto a poucos metros do seu. Um rapaz jovem e bem-vestido, com um aro prateado na cabeça, começou a descer por ela. Marjorie ficou tão curiosa que até parou de descer por um momento. Ele parecia familiar, e, apesar de nunca ter visto o herdeiro de Silverrain antes, Marjorie tinha certeza que aquele era o Príncipe Kassian, seu noivo.

O jovem príncipe ainda não a notara. Ele parecia estar com dificuldades para firmar os pés enquanto descia pela corda, então estava muito concentrado. Marjorie esperou até que estivessem mais ou menos na mesma altura para dizer:

– Sua corda é muito curta.

Não foi uma boa ideia, pois o príncipe assustou-se com a companhia inesperada e quase perdeu a concentração no que fazia, precisando se agarrar com firmeza para não cair. Ele a encarou com um sorriso nervoso, seus olhos focando na tiara dourada de Marjorie, com um brilho de reconhecimento ao constatar, na sua frente, a noiva prometida. Kassian era conhecido por ser muito educado e respeitoso, e ser pego em sua fuga parecia tê-lo envergonhado. Seus olhos deixaram Marjorie, subindo até a janela do quarto do qual fugia, voltando em seguida para ela novamente.

– Não é o que parece, quero dizer… Olá, Vossa Alteza, bom revê-la. Isso aqui… não é nada pessoal.

– Jura? – Marjorie franziu as sobrancelhas em um olhar acusador, continuando sua descida, pois seus braços já reclamavam do esforço. – Fugir do nosso casamento pela janela não é nada pessoal? – Kassian empalideceu, sem responder, até que Marjorie deixou a seriedade de lado e riu, tranquilizando-o. – Querido, estamos na mesma situação aqui. Não se preocupe, Príncipe Kassian. Sua corda é muito curta, terá que descer pela minha quando chegar na metade do caminho.

– Erro de cálculo, é minha primeira vez – respondeu, abrindo um sorriso tímido.

– Bem-vindo ao clube!

Marjorie chegou ao chão afundando os sapatos na areia solta da praia. Se realmente queria impedi-la de fugir, seu pai não deveria ter permitido que ficasse em seu quarto. O castelo de Ravensthorns fixava-se nas falésias à beira-mar. O pátio, voltado para o interior do continente, era severamente vigiado pelos guardas, mas o quarto de Marjorie dava vista para o mar e uma área da praia, assaz insignificante para atrair a atenção da segurança do castelo. Aquele lugar era seu refúgio desde a infância. Era um banco de areia um pouco mais alto que o mar, então, na maior parte do ano, quando a água subia, ficava isolado do resto da costa pela água e pelas rochas das falésias, e Marjorie sentava-se ali, ouvindo a brisa e as ondas quebrarem-se nas rochas que se erguiam mar adentro, enquanto o castelo inteiro entrava em pânico pelo sumiço da pequena princesa. Lembrando disso, Marjorie constatou que tinha sido um pesadelo de criança. Felizmente, não era essa época do ano, e havia uma estreita faixa de terra seguindo junto as rochas, e que, se ela estava se lembrando direito, deveria levar à praia verdadeira, de onde saía uma estrada até a cidade.

Príncipe Kassian finalmente terminou a descida, mas ele não conhecia os mistérios da costa de Ravensthorns. Olhou hesitante para a água, imaginando a profundidade do mar naquela região.

– É água, príncipe das montanhas. – Ele a encarou fingindo estar ofendido.

– Sabe, Marjorie, eu a imaginei mais gentil.

– Oh, meu noivo decidiu parar com as formalidades? Estamos nesse nível, Kassian? – questionou, inclinando-se em uma postura efusiva e um sorriso provocador. A menção ao casamento o deixou desconfortável novamente, porém, agora que seus pés estavam firmes em terra e essa era sua única preocupação, ele disfarçava melhor os sentimentos.

– Por que não? Somos tão íntimos que minha noiva, conhecendo-me tão bem, já me esperava aqui antes mesmo de saber da minha fuga – retribuiu com um olhar cúmplice, e Marjorie riu, compreendendo que tinham as mesmas opiniões sobre aquela tolice de casamento.

– Nossos pais vão amar essa surpresa. Teremos um casamento sem a noiva nem o noivo.

– Sim, mas acho melhor sairmos logo daqui, ainda podem nos ouvir. Quanto tempo o mar leva para baixar?

– Não é necessário esperar, venha por aqui. – Marjorie o guiou pela faixa de terra meio escondida, até que a areia se alargou deixando-os em uma praia ampla cercada pelas rochas. Marjorie levantou um pouco as saias e correu até uma escadaria escavada nas pedras, seguida por Kassian. No topo, encontraram uma estrada que posteriormente se dividia em duas, uma na direção do castelo de Ravensthorns e outra na direção da cidade. Obviamente, pegaram esta última direção. – Quais seus planos a partir daqui, Kassian?

– Marjorie, acho que já deu para notar que eu não tinha plano nenhum e tudo aconteceu em um paroxismo do meu desespero.

– Uau! Se você acha que estar casado comigo seria tão terrível assim… está certíssimo, desesperou-se com razão, príncipe esperto!

– Não é preciso tanta acidez comigo, princesa mordaz. Como disse, não era pessoal. A noiva não era o problema, o casamento era.

– Deixe-me adivinhar, seus pais o separaram de seu verdadeiro amor? Há uma jovem doce, gentil e matrimoniável esperando por vossa alteza nas montanhas? Uma genuína rosa de Silverrain?

– Ela não precisaria ser uma rosa, basta apenas que não tenha os seus espinhos – rebateu. – Não tente adivinhar, Marjorie, nós não nos conhecemos o bastante.

– É justo por isso que preciso adivinhar. Então, sem rosas gentis esperando seu retorno?

– Nem mesmo uma única margarida.

Já haviam entrado na cidade, cujo movimento era constante desde o primeiro raio de sol até o último. Era uma grande cidade, de ruas largas nas quais charretes enfeitadas transportavam as pessoas importantes, e um mar de gente comum enchia as ruas. Kassian parou na vitrine de uma doceria, observando os doces com interesse. Marjorie também tinha fome. Ela tomara café da manhã, mas Kassian mal tinha chegado à cidade quando decidiu fugir.

– Por que não entramos e você me explica melhor os seus motivos?

– Eu não estou com dinheiro, e creio que meus motivos são os mesmos que os seus.

– Sorte que alguém aqui pensa em vez de pular da janela por impulso. – Ergueu uma bolsinha de moedas, fazendo-as tilintar. Não se incomodara nem um pouco por ter sido chamada de mordaz. Marjorie relevou o fato de ela mesma não ter pensado assim tão bem, já que descera com aquele vestido que a atrapalhou bastante. – E mesmo que os motivos sejam iguais, poderemos ao menos dizer que nos tornamos conhecidos.

A doceria era um ambiente adorável. Marjorie nunca tinha estado ali, apesar de gostar de passear pela cidade. Parecia ser um estabelecimento recente, talvez fosse por isso que não reconhecia nem a vitrine. Era um espaço pequeno, porém aconchegante. O piso de madeira era limpo e brilhante, o balcão e os móveis tinham um leve tom rosado e eram abarrotados de doces de aparência muito atrativa. Marjorie e Kassian se sentaram em uma das seis mesas destinadas aos clientes, e logo um jovem rapaz de cabelos castanhos-claros apareceu, com um sorriso gentil e um cardápio.

– Bom dia. Precisam do cardápio? – Ele os entregou a folha. Marjorie deixou Kassian analisar primeiro. Os nomes dos doces eram bem interessantes, como Nuvens de Açúcar, Ursinhos Caramelizados e Marshmagos. Nenhum dos dois ouvira falar daqueles doces antes. Kassian recusou o cardápio e apontou para a vitrine.

– O que são aqueles?

– Ahn… – O atendente parecia desconfortável, mas disfarçou e respondeu. – São bolinhos Boa-Fé…

– Parecem deliciosos – disse Marjorie. – Vocês estão aqui há muito tempo?

– Não muito… – O atendente se aproximou de uma porta nos fundos, murmurando para que os clientes não ouvissem. – Coco, você pode vir aqui? Acho que estão interessados nas suas receitas, pode vir explicar para eles?

– Estou ocupada, Kevin. Se não for nada perigoso, apenas venda! – Uma voz aguda respondeu do topo da escada.

– Se der problema, a culpa não é minha!

Assim, Kevin entregou aos clientes dois bolinhos Boa-Fé, mas recusou vender mais do que um para cada pessoa. Após receber de Marjorie a bolsa de moedas, Kevin preferiu deixá-los sozinhos. Às vezes as conversas que surgiam após aquele doce se tornavam bastante constrangedoras, e ele preferia não estar por perto. Entre mordidas ao delicioso bolinho, Marjorie e Kassian começaram a conversar devidamente, sem perceberem a leve energia que os impelia à completa sinceridade.

– Então… – Marjorie começou. – O que fez você decidir se atirar da janela?

– Eu não me atirei da janela! Imagino que você tenha descoberto sobre o casamento tão repentinamente quanto eu, então deve ter sentido o mesmo. Eu fiquei… genuinamente magoado. Ainda é prática comum em Silverrain, infelizmente, mas eu achei que… – Sem saber o que o impedia de parar de falar, Kassian apenas continuou. Já queria colocar certas coisas para fora há tempos, e quem melhor do que alguém que sentia o mesmo? – Achei que meus pais me respeitassem mais. Me respeitassem como uma pessoa, entende? Não estou pedindo grande coisa, apenas me revolta que eles… que eles…

– Que eles ajam como se fôssemos marionetes – completou Marjorie, num tom de voz também magoado. – Reis e rainhas não têm filhos, têm bonecos, brinquedos que eles podem mover ao bel-prazer.

– Não estou certo de que apenas reis e rainhas agem assim com os filhos. Eu fiquei ressentido. Aceitei tanto deles sem reclamar, mas isso? É demais! Talvez eu devesse ter sido mais como você. – Marjorie ergueu uma sobrancelha, curiosa com o comentário. Kassian logo respondeu: – Pois é, você construiu uma fama pelo continente.

– Que grande fama! – Ela bufou, contrariada. – De qualquer modo, não teria adiantado você agir como eu. Eu nunca aceitei nada dos meus pais sem reclamar, e ainda assim me tornaram uma noiva. – Marjorie puxou a gola, indicando de leve a bela peça que era seu vestido, que ganhara apenas para receber a família de seu noivo. – Um brinquedo perfeitamente embalado para presente, entregue à Silverrain por seu grande amigo, rei Leodore! Que brincadeira de mal gosto!

– Sabe o que meu pai me disse quando eu o questionei? “Você passa toda noite com uma mulher diferente, que diferença faz não conhecer sua noiva?” Ele falou do meu irmão! Ele nem se importa com qual dos filhos está sacrificando nesse acordo!

– Ah, não… – Marjorie murmurou, compreendendo subitamente por que Kassian lhe parecia familiar. – Acho que conheço seu irmão!

Encararam-se por um minuto, em silêncio, com completa atonicidade no olhar. Mas não durou mais que segundos, ambos caíram na risada. Não deveriam rir sobre isso, seus sentimentos eram conflitantes e o assunto era sério. Mesmo assim, Marjorie cobria a boca com as mãos tentando segurar o riso e Kassian nem tentava disfarçar. Pouco a pouco, o ar voltava para seus pulmões e eles puderam voltar a conversar calmamente.

– Realmente não é nada relacionado a você, Marjorie.

– Eu já entendi, Kassian, não se preocupe! Não estou ofendida! Você percebeu que eu estava fugindo também, não percebeu?

– Eu só… Achei que meus pais tivessem me compreendido. Eu nunca consegui me imaginar nesse tipo de relacionamento, achei que eles entendiam isso.

– Espera, mas você já namorou, né? – Kassian negou, e Marjorie pareceu chocada. – Não acredito! Mas você tem certeza?

– Como assim? E tem como não ter?

– Tem!

Kassian balançou a cabeça, descrente.

– Os livros na minha biblioteca são tentação muito maior para o meu tempo livre do que as outras pessoas. Durante meus deveres, estou sempre cercado de pessoas, então não quero ter de ver ninguém quando estou livre.

– Ah, nisso concordamos! – Marjorie deu mais uma mordida, limpando com o dorso da mão o glacê rosa que sujara seu nariz. Ela apreciava o isolamento sempre que possível, o silêncio que encontrava na calmaria da solidão representavam rara paz naquele castelo.

Mas o silêncio não era mais bem-vindo, agora que seus pensamentos fluíam com a corrente, e quando o silêncio se instalou entre ambos, havia algo nele de inquietante. Apenas o ansioso tamborilar dos dedos de Marjorie na mesa marcava o ambiente, ela nem mesmo estava olhando para Kassian agora, então ele perguntou:

– Nós temos que voltar, não é?

– Nós temos…? – Os olhos castanhos dela encontraram os seus, firmes apenas por um momento, desviando-se logo em seguida. – Desculpe, eu não devia dizer isso… Eu sempre volto, mas nada nunca muda. Acho que a mudança precisa partir de mim. Ou talvez eu que precise partir. Mas isso não tem nada a ver com você, então me desculpe por questioná-lo assim. Você tem uma responsabilidade.

– Você também.

– Acredita sinceramente que eu seria uma boa rainha, por tudo que já ouviu falar de mim? – Kassian não respondeu, novamente preso naquele desconforto que sua transparência não sabia disfarçar. Marjorie sorriu tranquilamente. – Eu não seria uma boa rainha, Kassian. Nem sei se quero ser uma rainha. É injusto que essa responsabilidade tenha caído sobre mim só porque eu nasci. Minha irmã, Morgana, ela sim seria perfeita. Parece ter sido feita para isso, e porque não deveria se tornar rainha? Apenas por ter nascido com um ano de atraso?

– Marjorie…

– Desculpe, desculpe! – falou, desejando impedir-se de falar, mas, por outro lado, a sensação era tão boa. Nunca sentira tamanha intimidade com alguém em tão pouco tempo. Talvez seus pais tivessem acertado em algo e Marjorie e Kassian fossem mesmo almas gêmeas, mas de um tipo diferente do que eles queriam que fossem. – Eu acho que estou dizendo isso… estou dizendo porque tenho a impressão de que você sente o mesmo…

Marjorie falava baixo, sem encará-lo. Abrir o coração não era tão fácil quanto parecia. Era deixar uma ferida à mostra, expor um ponto fraco, reconhecer que, apesar da atuação, as mágoas ainda a atingiam.

Kassian segurou sua mão para que voltasse a encará-lo.

– Será que não nos conhecíamos antes? Como é possível que, desde a primeira palavra trocada, você pareça conhecer meus pensamentos?

Marjorie deixou surgir um tímido sorriso. Talvez expor as feridas não fosse algo assim tão ruim, quando o outro a compreendia, em vez de apenas repreendê-la como se suas dúvidas não tivessem importância ou significado.

– Mas o que isso quer dizer?

– Quer dizer que você tem razão! Vamos embora!

– O quê? – riu, mas de incredulidade por seu devaneio ter sido considerado. – É sério?

– Sim! Vão dizer que fomos egoístas com nossos irmãos e os reinos, mas, veja, nossos pais não seriam tolos de tentar isso de novo depois da nossa fuga, então nossos irmãos não seriam condenados a uma união caprichosa. E tanto eu como você seríamos péssimos governantes, temos que reconhecer – falou, fazendo Marjorie sorrir. – É sério, mergulharíamos nossos reinos no caos!

– É verdade…

– Então?

– Não quer pensar melhor nisso? Sabe, antes de agir por impulso como…

– Não fale da janela, Marjorie, por favor! Não se preocupe com isso, eu nunca tive tanta certeza de algo. – Decididos, eles chamaram por Kevin novamente. – Precisamos de ajuda… Teria como você nos arranjar dois cavalos?

– E roupas comuns – lembrou Marjorie.

– Isso, e comida e água suficientes para chegarmos até a próxima cidade, no mínimo.

Kevin hesitou em responder, pois já tinha reconhecido as presenças na sua frente como a realeza, e Kevin não se dava muito bem com a realeza.

– Eu até posso conseguir, mas as moedas não pagam por tudo.

Trocando olhares determinados, Marjorie e Kassian simultaneamente deixaram suas tiaras sobre a mesa. Kevin reprimiu um revirar de olhos. Por que príncipes e princesas tem noções tão desproporcionais sobre o sistema monetário?

– Eu não posso aceitar, isso é muito mais do que o necessário. E se vocês vão fugir, eu não quero estar com nada que me incrimine quando vierem procurá-los.

– Aceite como uma garantia. Vou deixar uma carta para meu pai, e ele virá recuperar as coroas e pagar o que devemos. – Kevin duvidava muito da última parte, mas aceitou.

Enquanto ele saía para conseguir o que tinham lhe pedido, Marjorie começou a escrever a carta. Subitamente, ela ergueu o rosto para Kassian.

– Como devo me referir a você? – perguntou, com diversão. – “Noivo” nunca foi adequado. Conhecido? Amigo?

Pensando por alguns segundos, Kassian respondeu com um sorriso.

– Parceiro de crimes.

– Brilhante – admitiu.

– Oh, isso foi um elogio? Achei que fosse biologicamente incapaz de elogiar alguém.

– Não vá se acostumando. Terminei!

Olá, pai e mãe, ops! Vossas Majestades! Primeiramente, peço perdão. Perdão por não ter fugido – definitivamente – antes e, assim, ter prolongado uma situação que só causou estresse e perda de tempo a todos os envolvidos. Pela fuga em si, não vou me desculpar. Talvez não reconheçam, mas muitas vezes tentei me aproximar do senhores genuinamente em busca de conciliação e fui duramente repreendida e excluída de volta ao “meu lugar”. Não sei porque ainda tento abrir seus olhos, vocês verão isso como mais uma insubordinação impensada e egoísta, mas para mim, após tantas tentativas, uso meu último recurso. Deixo essa carta porque não quero que pensem que não os considero, pelo contrário. Estarei sempre enviando notícias para que saibam que estou bem. Desconfio que nunca as lerão, mas não me importo. Minha parte eu faço para tranquilizar seus corações da maneira que posso, sem comprometer minha individualidade. Se vocês guardarão essas cartas ainda lacradas ou se as queimarão sem o mínimo de interesse pela pária que uma vez foi sua filha, é uma liberdade de vocês. Eu sei que minha vida não será fácil a partir de agora, mas não estarei sozinha. Eu e meu noivo parceiro de crimes, Kassian, saberemos tirar disso alguma diversão. Por favor, comuniquem aos pais dele. E digam ao irmão mais velho de Kassian que ele pode nos encontrar quando quiser. Ah, estamos devendo um pouco de dinheiro para a doceria da cidade, deixamos nossas coroas de garantia, podem pagar por favor? Eu sei o que isso parece, ok? Não se preocupe, não será frequente. Essa será a última coisa que pedirei de vocês. Apesar de tudo, não os odeio. Espero que um dia, quando eu estiver novamente de passagem por Ravensthorns, possamos nos encontrar sem rancor.

Apenas Marjorie.”

Quando Kevin retornou, Marjorie e Kassian estavam ainda mais determinados do que antes. Quanto mais esperavam, mais aquela decisão parecia correta, e as poucas dúvidas haviam cessado completamente. Trocavam sorrisos cúmplices e a presença de um tranquilizava o outro. Haviam trocado de roupa, a comida que precisavam já estava nas sacolas. Eles observavam a cidade da entrada da doceria com uma crescente empolgação. Agora que haviam descoberto o desejo de partir, o mundo fora de Ravensthorns parecia chamá-los, atraí-los com potente magnetismo.

– Tem certeza disso? – perguntaram em uníssono um ao outro. Não precisaram responder. Eles tinham certeza sobre o que queriam, a pergunta era apenas pelo receio de que o outro se arrependesse da decisão.

Marjorie estendeu a mão para Kassian.

– Então vamos. – Kassian segurou sua mão sem hesitar. Era explícito que a mais forte das amizades surgiria entre eles, ainda há pouco completos desconhecidos.

Kevin observava silenciosamente os ex-príncipes afastarem-se nos cavalos que arranjara. Ouviu o som de passos saltitantes descendo as escadas, e Coco surgiu, ajeitando seu chapéu pontudo roxo, estampado de estrelas.

– Terminei de organizar minha prateleira de poções! Oh, eles já foram?

– Já. E acho que nós podemos ter bagunçado a linha de sucessão ao trono de dois reinos simultaneamente.

– Mas já? Só estamos aqui há duas semanas! – Coco bufou, já imaginando o inconveniente de ter um outro reino a culpando por seus problemas. É claro, a culpa é sempre da bruxa. Ela só queria vender doces em paz! – Então, eram clientes interessantes?

– Não mesmo – Kevin deu de ombros, no seu tédio habitual. – Só dois jovens reclamando da difícil vida na realeza.

– O que eles pediram? – Kevin respondeu sobre os bolinhos. – Hm, não é nada perigoso, que bom. Mas realmente pode causar confusões. Mesmo assim, acho que eles ficaram satisfeitos. Nunca serão capazes de mentir um para o outro. Como você e eu! – Coco sorriu, satisfeita. Kevin deu um de seus raros sorrisos também.

– Mas nós não temos esse elo por causa de magia.

– O que não quer dizer que o elo deles será mais fraco. Amizades começam de maneiras diversas. Todas são preciosas.

– Eu concordo com a princesa em algo. Não é justo que ela seja rainha só porque nasceu. Mesmo que digam que ela nasceu na realeza por destino, isso é besteira.

– É verdade, Destino nunca é fácil. Nem sempre está nítido à nossa frente. Mas aposto que, aonde quer que eles estejam indo, encontrarão o destino deles.

Kevin revirou os olhos retornando ao ceticismo que lhe era característico.

– Não dou cinco dias para voltarem para seus palácios depois de passarem os perrengues de plebeus!

Dessa vez, porém, Kevin estava enganado. Marjorie e Kassian não retornaram. Eles viram como um sinal que a cidade mais próxima se chamasse Liberdade e seguiram o caminho dela. Passaram três dias em uma estalagem, e no quarto tiveram um dos cavalos roubado por um garoto arruaceiro, mas conseguiram recuperá-lo. O menino não saberia montar um pônei, muito menos controlar um cavalo daqueles, e logo foi derrubado, felizmente, sem ferimentos. Decidiram não ficar mais tempo ali. Aquela sensação no âmago, de que ainda havia muito para se ver no mundo, permanecia insistentemente. Marjorie e Kassian seguiram caminho, cidade após cidade, montanha após montanha. Às vezes procuravam confusão, outras vezes a confusão os procurava.

Na última carta que Marjorie escreveu para seus pais, eles estavam em Porto Azul das Terras Gélidas. Tinham ido muito além daqueles dois pequenos reinos pelos quais nunca conseguiram realmente se envolver. Na carta, ela pediu desculpas por não poder continuar enviando notícias, mas Marjorie e Kassian pensavam seriamente em ir além. Haviam conhecido tantas pessoas interessantes e tantas histórias de aventuras ainda maiores do que as pequenas confusões em sarjetas. Eles queriam explorar além dos mares, procurar pelas terras perdidas do quinto continente. Ali, com Kassian, que se tornara seu melhor amigo, e as outras companhias que agregaram durante a jornada, cruzando o bravo oceano em um singelo navio, parecia que tudo estava devidamente acertado.

O destino era realmente uma coisa engraçada. Marjorie crescera olhando para o mar, sem nunca imaginar que encontraria nele o seu destino. Em suas aventuras, eles quase se esqueciam que tinham sido realeza. Enquanto isso, em Ravesthorns e Silverrain, as novas canções contavam a história dos noivos que fugiram juntos do próprio casamento.

16 de Novembro de 2019 às 01:06 2 Denunciar Insira 3
Fim

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Lola Bach Escritora Lola Bach Escritora
Me pareció una historia muy interesante. ¡Enhorabuena!

  • Jupiter L Jupiter L
    Que bom que achou interessante! Muito obrigada por ler <3 1 week ago
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