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hallostar Haru Filgueiras

Em um mundo em que humanos não são nada além de servos, um rapaz de 17 anos descobre as terríveis intenções de seu mestre sobre sua irmã mais nova. Após revelar à sua mãe, eles tentam descobrir uma forma de escapar desse destino e manter sua família unida, contando com uma ajuda inesperada. ----- Essa história, assim como o mundo retratado e todos os seus personagens, são completamente de nossa autoria e está sendo postada em mais 3 plataformas além dessa, das quais duas tem versões em inglês. A imagem de capa foi uma commission feita por Nana Dagger, que pode ser encontrada no twitter (@Nanadagger) ou instagram (@nana_dagger). TRIGGER WARNING: Essa história trata de assuntos como racismo, escravidão, prostituição, estupro e neurodivergências apenas para fins de desenvolvimento do enredo, não apoiando qualquer tipo de discriminação ou violência.


Fantasia Todo o público.

#família #258 #original #prostituição #341 #escravidão #racismo #aliens
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Como um dia qualquer

Era um belíssimo dia. O sol não estava muito forte, o céu tinha poucas nuvens, uma leve brisa corria pela grama de cor rosada e pelas raras peônias verdes que haviam sido minuciosamente plantadas no jardim junto com uma variedade mais comum daquela flor delicada, de cor branca. As árvores de folhas roxas e azuis, podadas diariamente para manter uma forma arredondada, também adicionavam à sofisticação daquele lugar. Tudo era belo, de fato. Não apenas o jardim como também a mansão de dois andares com paredes beges, acentuadas por adornos em mármore marrom e pelo telhado salmão, com uma grande varanda na qual uma mesa de café-da-manhã estava sendo posta.

– Obrigado pela ajuda, Igor. – Disse o rapaz de olhos verdes que servia a mesa. Ele usava um típico uniforme de chef, uma camisa preta com gola mandarim e botões brancos combinada com uma calça preta e um avental branco amarrado em sua cintura, parecendo muito maduro para seus dezesseis anos de idade. – Agora vai se arrumar pra escola.

– Por que eu tenho que ir pra escola? – Um menino de cabelo castanho escuro perguntou, uma pergunta típica para crianças como ele.

– Pra aprender, é claro!

– Por que eu tenho que aprender se nada vai mudar? – O garoto disse, fazendo biquinho. – Eu só quero ficar cozinhando com você, Leon, porque é assim que sempre vai ser.

O adolescente ficou aflito com as palavras do mais novo. Ele sabia que era verdade, não tinha como fugir do destino em sua atual e permanente situação. Nada mudaria em suas vidas. Indo à escola ou não, suas funções na sociedade seriam sempre as mesmas. Ele passou os dedos por seu topete bagunçado, tentando pensar em uma frase motivacional para convencer seu irmão mais novo.

– Sabe… Até pra aprender a cozinhar, você precisa ir à escola. Pode ser que te ensinem algo que nem eu mesmo sei, já que eu terminei meus estudos ano passado e tem sempre novidades por aí. Daí você pode me ensinar depois, né? – O menino suspirou, nem um pouco convencido. Mas ele era um bom menino e não queria incomodar mais seu irmão.

– Tudo bem, eu vou então… Mas só porque já faltam dois anos pra eu terminar.

– Vai passar rapidinho, você vai ver!

O garoto correu em direção a uma pequena casa atrás da mansão para se vestir para ir à escola. A casa não era tão bela nem tão grande, mas tão bem cuidada quanto a mansão à sua frente. Tudo estava limpo e organizado. O jardim também era bem cuidado, mesmo não tendo flores tão nobres quanto as do jardim principal, apenas uma variedade comum de margaridas de pétalas brancas e cabo e miolo tão rosas quanto a grama.

– Para com isso, sua pirralha! – Gritou um homem loiro com barba curta enquanto puxava os cabelos cor de mel de uma garotinha que gritava e se esperneava. Atrás deles, um velho homem calvo, de pele negra, com uma pá de jardim em sua mão ria da cena. – Eu só quero prender essa merda que você chama de cabelo!

– Eu não quero! Se é pra prender, melhor cortar!

– Você sabe muito bem o que acontece se você tentar cortar, então se comporta ou eu vou te bater! – Ele ameaçou, levantando a mão.

– Keith e Kacey! Parem com isso, vocês dois! – Uma mulher de pele morena clara em um longo vestido de empregada repreendeu enquanto saía da porta de trás da mansão. Ela parecia quase exatamente como o rapaz que servira o café da manhã, uma versão feminina de meia idade. Talvez com seu longo cabelo castanho, que era sempre preso em uma trança holandesa, sendo de um tom um pouco mais escuro. – O mestre já está acordado, ele não vai querer ouvir esse barulho!

– Sim, mãe! – Ambos responderam, envergonhados.

– E você, Dyogenes, é melhor voltar ao seu trabalho ao invés de ficar aí se divertindo!

– Sim, senhora. – O velho respondeu, enfiando sua pá na terra.

Ela era rigorosa, todos sabiam disso. Mas também sabiam que ela estava certa e que o que ela fazia, além de seu trabalho, era para o bem deles. O mestre se irritava fácil e seus métodos de correção eram muito piores. Kacey sabia bem disso já que ela sempre fazia algo para incomodá-lo. Não era culpa dela, era apenas natural que ela se comportasse mal mesmo sem notar. Keith, diferentemente, era para seu mestre com um cão adestrado e jamais faria algo para desagradá-lo. Quando a mulher voltou para dentro da casa, ouviu risos e sussurros vindo da cozinha. Prontamente, chegou lá e encontrou seu filho adolescente tendo uma conversa íntima com uma menina de pele negra, com olhos tão escuros quanto seus cabelos que estavam presos em um penteado similar ao da outra mulher. Sua expressão se suavizou por um momento, mas logo voltou à face rígida e os interrompeu antes que fossem além daquilo.

– Quantas vezes eu tenho que dizer para não serem íntimos dentro da mansão? – Eles quase pularam de susto por não terem notado sua presença.

– Desculpa, mãe…

– Desculpa, senhora Gertrude, não vai acontecer de novo. – A garota disse, ajeitando o avental de seu uniforme de empregada.

– Se você tem tempo livre, por que não vai limpar o vidro da porta de trás, Gigi? Eu acabei de vir de lá e estava cheio de marcas de dedo. E me chame de mãe.

– Sim, senho… Mãe. Já estou indo! – Ela se curvou para os dois e correu para fora da cozinha, ainda envergonhada pelo flagrante.

– Sabe, é estranho ela te chamar de mãe sendo…

– Ainda assim, a considero minha filha. Tudo certo com o café da manhã, Leon? Não esqueceu nada, né?

– Sim mãe, Isaac já está servindo os dois. Eu verifiquei duas vezes e estava tudo perfeito como sempre. – Ela sorriu aliviada. Tudo o que ela desejava era seu filho sendo tão responsável quanto ela. Mesmo sabendo que sua personalidade era diferente e que ele ainda era um pouco imaturo, ela estava feliz por ele conseguir fazer tudo perfeito sem precisar de sua supervisão.

– Isso é ótimo, agora comece a preparar o almoço. Já pensou no menu? Se precisar de algo peça ao Keith pra trazer.

– Não, tá tudo bem. Temos todos os ingredientes pro almoço de hoje.

– Perfeito. – Ela olhou para o relógio da cozinha, que marcava quase sete. – O ônibus da escola já deve estar chegando, vou levar as crianças.

– Ok. – Leon respondeu mas ela já estava correndo para a porta de trás.

– Já limpei, mãe! – Gigi, que havia limpado o vidro da porta, disse quando viu Gertrude chegando.

– Agora as janelas. – Ela correu para a porta e parou quando viu Keith encostado à parede ao lado. O que diabos você está fazendo aí?! – Ele sorriu.

– Só tava olhando ela, pra ver se ela sabe limpar. – Se ela não tivesse criado aquele rapaz, provavelmente teria acreditado mas só pelo olhar em seu rosto ela sabia que não era nada disso. Ela sabia que ele estava incomodando aquela garota, como sempre fez desde que percebeu o interesse de seu irmão nela. Era apenas ciúmes, quase infantil, mas era o dever dela tentar domá-lo para que ele não fosse além, mesmo sendo mais difícil agora que ele já tinha trinta anos.

– Eu te conheço muito bem, Keith. Você deveria estar checando os carros pra que não haja nenhum problema quando o mestre tiver que sair para o trabalho ao invés de assediá-la. – Ele logo retomou sua compostura. Era fácil fazer ele levar as coisas a sério, apenas uma menção de algo que pudesse desagradar seu mestre era o suficiente para colocá-lo na linha.

– Tô indo agora mesmo.

– É melhor. Mas primeiro me dê a chave do portão de trás. – Ele procurou em seu bolso pela chave certa, entregou a ela quando encontrou e ela correu para a casa de trás, procurando as crianças. – Vocês estão prontos?

– Sim! – Kacey e Igor responderam, pulando do sofá da sala e correndo para pegar suas mochilas no armário perto da entrada.

– Então vão para o portão de trás. Cadê o George?

– Se escondendo no banheiro. – Igor disse. – Eu tentei falar com ele mas…

– Vou dar uma olhada. Vão pra lá! – Gertrude se dirigiu à primeira porta à esquerda e bateu duas vezes. Como não obteve resposta, girou a maçaneta para abri-la. – George, estou entrando. – Quando abriu a porta, ela viu o garoto encolhido no chão, com lágrimas escorrendo em suas bochechas. Com uma voz suave, perguntou. – O que houve?

– Eu não quero ir...

– Por quê? O que te faz não querer ir pra escola?

– Eles riem de mim por causa da minha pele, dizem que eu sou burro e não devia estar lá.

Ela sabia exatamente do que ele estava falando pois já tinha passado por essa situação antes, com Gigi, quando esta tinha oito anos como ele. Ela mesma também passou por coisas parecidas quando ainda ia à escola por causa de sua pele pouco mais escura que de outras crianças, o que não parece ter acontecido com seu outro filho com o mesmo tom de pele que ela. Mesmo que ultimamente mais crianças negras eram capazes de frequentar a escola, o preconceito contra elas não parecia melhorar, e para George era ainda pior. Sua pele não era cor de avelã como a de Gigi, era bem mais escura, um tom mais para chocolate amargo, e seu cabelo não era cacheado e sim crespo. Gertrude segurou os braços do menino, fazendo-o se levantar, e colocou as mãos em seus ombros.

– Você não deve chorar por causa disso, aproveite a oportunidade que você tem. Você é sortudo. Entre várias outras crianças negras, você teve a chance de estar em uma ótima família, com um bom mestre que nos dá condições que outros mestres não dão aos seus criados. Vovô Dyogenes não teve tanta sorte quanto você, sabia? Quando ele tinha a sua idade, ele não podia ir pra escola como você pode. Olha pra sua família, olha a nossa diversidade e olha como te amamos e te tratamos bem. Essa é a única coisa que deve importar pra você.

– Mas o Keith não me trata bem...

– Keith, de novo… – Ela bufou. – Olha, Georgie, Keith não trata bem a ninguém, não se preocupe com ele. O que estou tentando dizer é que a cor da sua pele não deveria importar. Por exemplo, você gosta do seu irmão Isaac?

– Sim…

– A pele dele tem o tom mais claro que uma pele pode ter e ele te ama como a qualquer outro de seus irmãos.

– É verdade, mamãe. O Isaac é muito legal comigo.

– Viu? Não importa para nós, sua família, a cor da sua pele. Porque deveria importar para outras pessoas que você provavelmente nunca mais verá depois que terminar a escola? Vai lá e aprende tudo o que você precisa aprender, não se incomode com pessoas que não sabem ser legais com outras, ok?

– Tá bom, mamãe. – O menino a abraçou com força. Ela abraçou de volta e beijou sua testa. – Te amo.

– Eu também te amo. Agora vamos pra você não perder o ônibus.

– Sim!

Eles correram para fora da casa, saindo bem na hora que o ônibus buzinou. Gertrude abriu o portão, deixando as crianças saírem, e então o trancou logo após o ônibus partir e foi para a garagem devolver a chave ao Keith. Quando ela chegou, o viu deitado no chão embaixo do carro, coberto de óleo e sujeira. Seu coração quase parou com aquela cena, ele não devia se sujar logo antes de seu mestre sair para o trabalho, ele precisava de Keith para dirigir.

– Você enlouqueceu?! Vai se limpar, agora!

– Ele sai em meia hora, tem tempo. Você tava certa em me mandar checar os carros, essa merda aqui tá vazando óleo.

– Então usa o outro carro e conserta esse depois!

– Tá, eu posso usar o outro carro mas vou ter que levar esse aqui num profissional pois não consigo alcançar o problema. – Ele levantou, revelando seu braço direito todo sujo.

– Meu Deus, você está imundo...

– Qual é? É meu trabalho checar os carros, é óbvio que eu vou me sujar se tiver algo errado. Eu vou tomar banho agora.

– Quer ajuda? Vai ser difícil limpar isso.

– Não fode, que nojo.

– Eu sou sua mãe…

– É, eu sou adotado e você é só quinze anos mais velha, nem me conheceu cedo o suficiente pra trocar minhas fraldas. Que mãezona.

– Ainda te amo como meu filho! – Ela gritou enquanto ele se afastava. Gertrude olhou para a mancha de óleo no chão e colocou a mão na cabeça, desapontada. – Agora eu tenho que limpar essa imundície... – Ela correu para o armário de vassouras, que por sorte era dentro da garagem, pegou um esfregão e detergente e correu para limpar o chão a tempo. Depois de terminar, ela voltou para a casa de trás e pegou uma muda de roupas para Keith, fazendo questão de colocar a chave do portão de trás em seu bolso, depois bateu na porta do banheiro. – Me dê sua roupa suja! – Ela pediu. A porta abriu e Keith estava parado lá, molhado e nu, entregando a ela as roupas sujas.

– Você mudou as toalhas, qual a minha?

– A que tem seu nome bordado.

– Ah. – Ele procurou entre as toalhas penduradas em um porta-toalhas improvisado, feito com uma haste de cortina. Ele mesmo havia feito aquilo quando Igor já tinha idade o suficiente para tomar banho sozinho pois se cansou das toalhas emboladas no porta-toalhas menor que aquele banheiro tinha. – Achei. Você devia ter bordado com alguma cor, branco é difícil de distinguir entre a minha e da Kacey quando eu tô com pressa e eu não quero usar a toalha daquela fedorenta.

– Vou me lembrar que você se importa com a sua irmã. – Ela riu enquanto procurava nos bolsos da roupa do rapaz pelo resto das chaves da casa e dos carros ou qualquer outro objeto que não deveria ir na máquina de lavar.

– Eu não me preocupo, é que ela fede. E não é minha irmã.

– Mãe? – Uma suave voz masculina chamou, vindo da porta. Um rapaz baixo e albino, vestido em um terno preto com uma gravata borboleta e luvas brancas entrou na sala de estar. Seus olhos azuis claros, emoldurados por seus cílios quase brancos, mostravam urgência. – Não consigo achar a gravata do mestre, uma com pied de poule vermelho e azul-marinho. Ele pediu pra usar aquela hoje, especificamente.

– Vermelha e azul-marinho… – Ela olhou para cima, tentando lembrar onde poderia estar.

– Oi Isaac. – Keith disse enquanto saía do banheiro.

– Oi.

– Lembrei, ela tava com uma mancha e eu pedi Gigi pra limpar, pergunte a ela.

– Ok! Se arruma logo, Keith, o mestre já deve estar terminando o banho! – O rapaz saiu correndo. Keith suspirou enquanto abotoava sua camisa.

– Que foi? – Gertrude perguntou.

– Nada. Só lembrando que aquele era meu trabalho até dois anos atrás, antes dele terminar a escola.

– Sente falta?

– Nem, tô numa posição bem melhor agora. Tenho dinheiro, liberdade, tempo livre...

– Muito tempo livre, não acha?

– Também posso andar armado. – Ele disse, pegando a arma que ele havia deixado sobre o armário da entrada e a colocando em seu cinto.

– Tome cuidado, eu sempre me preocupo de você tomar um tiro acidental com essa arma.

– Acidental? Que estúpido.

Podia parecer estúpido mas Gertrude realmente se preocupava com isso. Suas mãos chegavam a suar toda vez que ela via Keith manipular aquela arma de forma descuidada. Podia ser por ela ter ouvido sobre vários casos de tiros acidentais, era isso que ela sempre dizia a si mesma.

– Chega de conversa. – Ela disse, correndo para a porta. – Termine de se arrumar e vá, eu vou lavar as roupas.

Assim que Keith terminou de se arrumar, pegou as chaves e as contou. Duas para os portões, quinze para a mansão, uma para a casa de trás, uma para cada carro e uma para sua motocicleta. Nenhuma faltando. Ele saiu, fumou um cigarro e foi para a garagem, saindo com o carro na hora certa para pegar seu mestre e Isaac na porta da frente. E assim aquela manhã passou, como todas as manhãs. Essa rotina era a norma desde que Leon terminou a escola no ano anterior e para eles continuaria por vários anos seguintes.

Assim chegou a hora do almoço. Keith já havia chegado após deixar Isaac e seu mestre na empresa de engenharia, as crianças haviam voltado da escola e Gigi havia saído para suas aulas. Nem todos estavam em casa mas esta parte da família poderia almoçar junta, mas não antes de servirem o almoço de sua mestra. Leon já estava com tudo pronto e Igor o ajudava a arrumar a moderna mesa de dez cadeiras com uma deliciosa refeição. Mesmo parecendo um prato tão grande para apenas uma pessoa, o apetite de sua mestra não era tão pequeno quanto seu corpo, ela provavelmente comeria tudo e ainda teria espaço para a sobremesa. Já que ninguém mais estava disponível, Gertrude tinha de ir chamá-la em seu quarto e serví-la, ela estava indo fazer isto quando Keith a chamou logo assim que ela subiu o primeiro degrau da escada.

– Tenho um pedido do mestre. – Keith disse.

– Fale logo ou o almoço dela vai esfriar.

– É rápido, e eu tô com pressa pra levar o carro pro mecânico. É sobre a mestra. Ele tem ficado chateado por ser rejeitado, tenta descobrir o motivo pra ela agir assim e quando ela vai ceder.

– Tudo bem. – Ela voltou à sua tarefa, subindo as escadas e virando à esquerda para ir ao quarto de sua mestra. Realmente era estranho que um casal de recém casados dormissem em quartos diferentes, longe um do outro, mas Gertrude podia imaginar a resposta. De qualquer forma, ela teria que ouvir isso diretamente de sua mestra. Assim que ela chegou ao quarto, bateu na porta. – Posso entrar?

– Claro! – A foz feminina e alegre respondeu e Gertrude abriu a porta. Ela viu sua mestra olhando para o espelho de sua penteadeira, sobre a qual haviam maquiagens espalhadas. Sua longa e fina mão esquerda, cheia de manchas de maquiagem colorida sobre a pele cinza esverdeada, segurava um grande tubo de rímel enquanto a outra usava o pincel para passá-lo em seus cílios.

– Desculpe incomodar, mestra.

– Me chame pelo meu nome, Primula.

– Perdoe-me, mestra, mas eu não devo. Vim lhe informar que seu almoço está pronto. – A mestra se virou, revelando seu rosto. Ela usava uma sombra azul perolada e dourada sobre suas dez pálpebras, com uma leve camada de rímel em seus cílios. As cores que ela havia escolhido estranhamente combinavam com seus vários olhos, com íris de cor púrpura e escleras pretas. Sua maquiagem adornava perfeitamente seu vestido bege e azul de estilo medieval. Mas algo faltava. – Mestra, seus lábios estão sem cor. Você vai usar algum batom?

– Depois do almoço, não quero borrar tudo. – Primula saiu do quarto e desceu para a sala de jantar, sendo seguida por Gertrude. A aparentemente jovem mulher sentou na cadeira da ponta e Leon abriu a tampa de seu prato, revelando a refeição: Um grande corte de carne com uma pele grossa e escamosa por cima, adornado com frutas azuis claras e um molho turquesa.

– O menu de hoje é lombo de crocodilo com ameixas brancas. Espero que seja de seu agrado.

– Obrigada, parece delicioso.

Leon se curvou e saiu da sala. Assim que ele fez isso, ela pegou a carne com dois garfos usados especificamente para não sujar suas mãos. Sua mandíbula humanoide se abriu, sendo seguida por sua segunda mandíbula, esta adornada por vinte caninos que ficavam expostos em suas bochechas e muitos outros dentes na parte de dentro. Ela mordeu a carne, ficando com aproximadamente um terço dela dentro de sua boca. Não era uma cena agradável de ser vista, especialmente para um humano. Sua boca abria e fechava enquanto ela mastigava a carne e mesmo que seus dentes internos fossem capazes de ajudá-la a engolir a maior parte e que o que ficava preso em sua gengiva era rapidamente retirado por sua longa e fina língua verde, às vezes escorria molho e descia pelo seu pescoço e era aí que Gertrude estava pronta para limpá-la.

Todos naquela casa, e até mesmo naquele planeta em que eles viviam já estavam acostumados então era como olhar qualquer um comer. Mas ninguém deve estranhar, não é algo comum entre humanos. Já que eles normalmente não desejam desperdiçar comida, comer de boca fechada era senso comum. Eles não precisavam imitar o comportamento da espécie dominante se seu próprio comportamento era o melhor para sua sobrevivência. Ao terminar a refeição, Gertrude acompanhou Primula ao banheiro, ajudando-a a se limpar completamente e a escovar seus dentes, então voltaram para o quarto para terminar a maquiagem.

– Precisa de ajuda? – A serva perguntou.

– Não sei… Talvez com o meu cabelo. Você pode fazer um penteado bonito nele?

– Claro. – Ela pegou a escova sobre a penteadeira e começou a pentear as longas madeixas loiras enquanto sua mestra passava um batom lilás iridescente. – Mestra, nunca a vi tão bela quanto hoje. É possível que esteja se arrumando para o seu marido?

– O que? De jeito nenhum, estou me arrumando pra mim mesma.

– Perdão, devo tê-la ofendido.

– Na verdade, não. Eu sei que você foi enviada pra me perguntar isso pois fazem três meses que me casei e nunca me aproximo de meu marido, então ele quer saber como me sinto quanto a esse relacionamento. Vou te responder o mesmo que já falei para ele: Esse casamento é arranjado, apenas por status. Eu jamais irei dormir no mesmo quarto que ele, muito menos me deitar na mesma cama. Não há necessidade para isso, se ele se casou comigo esperando mais que o combinado, não é problema meu.

– Mas não acha que poderia dar a ele uma chance? Talvez possa aprender a amá-lo…

– Amar? Um homem como ele? Jamais!

– E se ele quiser herdeiros?

– Eu nunca daria isso a ele! – Ela gritou, com raiva. – Olha pra mim, eu tenho apenas 69 anos e ele 162! Pra vocês, humanos, eu pareço velha mas para qualquer Jasih como eu, eu sou muito nova! Meu corpo ainda está se desenvolvendo! Ter que me deitar com um homem com mais que o dobro da minha idade e ainda dar a ele um herdeiro? Isso é um absurdo, o mundo não é mais como antigamente, estamos vivendo em uma sociedade moderna que… – Ela parou abruptamente quando viu pelo espelho a face perplexa de Gertrude. Respirou fundo e voltou à sua expressão serena. – Desculpe, estou falando demais. Acho que você já fez um bom trabalho no meu cabelo, pode sair agora.

– Eu que devo me desculpar, não tive intenção de te chatear. Irei embora, como deseja.

Após sair do quarto, Gertrude acabou almoçando sozinha pois os outros já haviam comido, então voltou ao seu trabalho. Quando questionada por Keith sobre o que havia descoberto, simplesmente respondeu que sua mestra estava mantendo os termos combinados antes do casamento. O resto da tarde passou, novamente como um dia qualquer. A roupa estava lavada e passada, a casa limpa e organizada, o jardim bem cuidado. Gigi já havia voltado da escola e logo a tarde chegou. Keith saiu para buscar seu mestre e Isaac e o jantar estava sendo preparado a tempo para sua volta.

Assim que os sons do motor do carro e do portão atingiram os ouvidos de Gertrude, ela apressou a todos para que esperassem na porta da frente para receberem seu mestre. O carro parou em frente às escadas de mármore marrom e Isaac saiu para abrir a porta. De dentro do carro saiu um homem - ou Jasih, se é preferível diferenciar as espécies - muito alto, com pele cinza-amarelada. Seus seis olhos completamente negros eram impossíveis de decifrar, mas o único com íris de cor vermelha, localizado no meio de sua testa, era suficiente para denunciar que ele estava observando tudo à sua volta enquanto subia as escadas.

– Seja bem-vindo, mestre Oyfar! – Todos os servos que estavam enfileirados próximos à porta disseram. Ele não respondeu, apenas passou por todos, checando cada centímetro de seus corpos. Então parou.

– Que merda é essa? – Ele questionou, com raiva, segurando as mãos da pequena ruiva e suspendendo-a para que pudesse olhar seus dedinhos sem precisar se abaixar. – Como ousa me receber com suas unhas cheias de terra?!

– Perdão, senhor! – Ela chorou. – Eu tava ajudando no jardim e esqueci de limpar, mas não vou fazer de novo, eu prometo!

– Você promete?! Você está sempre me trazendo problemas, sempre prometendo melhorar mas isso nunca acontece! – Ele soltou suas mãos. A menina caiu no chão e, antes que pudesse levantar, foi pisada pelo pé do homem. Ele tirou seu cinto, segurando-o entre seus longos dedos. Todos estavam com medo de dizer qualquer coisa, mas um se pronunciou.

– Espere, senhor! – Dyogenes disse desesperadamente. – Me perdoe, é tudo minha culpa. Eu estava cuidando do jardim com ela e eu deveria ter notado.

– É assim?! – Ele puxou o cabelo da menina, ignorando-o. – Então você é tão estúpida que precisa de supervisão?! Você tá querendo trazer problemas pros outros?

– Senhor, ela é só uma crian…

– Cale a boca! Não quero ouviu uma palavra de nenhum de vocês! Fiquem quietos e observem pra que vocês possam lembrar o que acontece quando não se comportam. – Ele fez a garota deitar no chão, novamente pisando nela. Levantou sua blusa, revelando suas costas cheias de cicatrizes, e começou a chicoteá-la até ver o sangue saindo de suas novas marcas. Era assim que ele lidava com as coisas, tentar defender um ao outro só piorava a situação e por isso eles normalmente não o faziam. Era assim que ele os controlava, destruindo seus vínculos, fazendo-os ter medo de mostrar compaixão na frente dele pois assim eles não poderiam se agrupar para se defender. – Terminei. – Ele deu seu cinto para Isaac. – Limpe. E você, Leon, venha servir meu jantar.

– Sim, senhor.

Leon respondeu, seguindo-o para dentro da mansão. Assim que a porta fechou, as crianças começaram a chorar. Mesmo acostumadas a isso, ainda eram crianças. Isaac também chorou mesmo já sendo quase um adulto, mas ele sempre foi de chorar facilmente. Os que não choraram não foi por frieza e sim por estarem tão acostumados que não tinham mais lágrimas para derramar, mas todos os que faziam parte daquela família tinham em mente que deviam ajudar uns aos outros. Todos menos Keith, que já havia estacionado o carro bem antes da surra e estava parado no pé da escada, fumando, sem se importar com a comoção acima dele. Gertrude pegou Kacey no colo e a levou para a casa de trás para tratar de seus ferimentos. Dyogenes e Gigi tentavam confortar as outras crianças e Isaac correu para fazer o que lhe foi pedido, lutando contra suas lágrimas, para então ir auxiliar seu mestre no jantar e preparar sua cama para que finalmente pudesse descansar.

E assim aquele dia terminou. Não era um dia normal de forma alguma, mas aquela casualidade era recorrente. Eles tomariam bastante cuidado pelos próximos dias e após algumas semanas relaxariam e ficariam confiantes, e então aconteceria novamente. Era a rotina deles, a forma que viviam, que estava longe de ser uma vida perfeita mas era a única vida que podiam ter em um mundo em que humanos não eram nada além de servos. Eles jamais pensariam que aquilo poderia mudar.

15 de Novembro de 2019 às 18:03 0 Denunciar Insira 1
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