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Ela era magra, alta excessivamente branca e de cabelos lisos cor de ouro. Tinha um busto empinado, enquanto nós todas éramos retas. Como se não bastasse, usava blusas justas. Possuía o que qualquer adolescente devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Ela muito aproveitava. E nós mais ainda: em todos os aniversários nos presenteava com um livrinho. Era livros finos, embora nunca os tinha lido.

Mas que talento tinha para ser bondosa. Era toda doçura, ainda distribuía balas. Como essa menina deveria ser feliz, nós que éramos impecavelmente egoístas de cabelos desgrenhados. Comigo exerceu com calma sua generosidade. Na minha preguiça de ler, eu nem sabia quais os livros ela já tinha me dado: continuava fixada em sua beleza.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim sua repudiante superioridade. Casualmente informou me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro que eu gastaria minha vida toda para ler. É, completamente acima da minha capacidade. Disse-me para passar em sua casa no dia seguinte, que me emprestaria.

Em menos de 24 horas me transformei em fugitiva, não saía de casa, voava pelas ruas, recusava todos os convites.

Passado duas semanas, ela foi à minha casa. Eu morava num sobrado e ela numa casa enorme. Não mandei ela entrar. Olhando bem para meus olhos, disse me que havia levado o livro para mim, e que gostaria de acompanhar me em cada capítulo. Boquiaberta, concordei, mas em breve o desespero tomou conta do meu ser. Segurei me para não cair, apertava gelada aquele livro. Os próximos dias seriam meu verdadeiro tormento.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano da filha do dono da livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte ela estava lá, na porta da minha casa, com seu sorriso meigo. Para ouvir sua pergunta calma: Está gostando do livro? Mal sabia ela que meu coração batia disparado, e não havia lido uma só página.

Quanto tempo? Ela não faltava um só dia. Ás vezes citava episódios da história, toda empolgada.

Até que um dia eu estava na porta de minha casa, ela chegou pedindo me explicação. Minha mãe também apareceu estranhando a visita diária daquela menina magrela e bem vestida à porta de sua casa. Do que se trata tantas visitas? A branquela respondeu: Venho saber de sua filha se está gostando da leitura. Minha mãe voltou se para mim e com enorme surpresa exclamou: Esse livro nunca saiu da gaveta!

E o pior para essa mulher não era descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio, com seus olhos compadecidos e cabelos ao vento. Então minha mãe disse: Filha você vai ler esse livro agora mesmo. A branquela disse: Fique com o livro quanto tempo quiser. Valia mais do que um soco na barriga, tudo o que uma pessoa como eu não gostaria.

Como contar o que seguiu? Eu estava estonteada. Peguei o livro, olhei o fixamente e comecei a ler.

Horas depois me senti envolvida por um sentimento de felicidade. A felicidade sempre seria clandestina para mim. Eu era rainha indelicada.

Às vezes sentava me na rede, balançando-me com o livro aberto, completamente absorvida.

Não era mais uma menina com um estranho, era uma mulher com livro.

17 de Novembro de 2019 às 00:01 1 Denunciar Insira 0
Fim

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Isabel Giarola Isabel Giarola
13 de Novembro de 2019 às 07:58
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