S06#20 - PANIC Seguir história

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Mulder e Scully num voo normal até que terroristas se revelam. O ódio religioso e racial entre israelenses e palestinos, alimentado por americanos. O homem, predador da sua própria raça. Mas o que eles não sabem, é que existem predadores da raça humana. Participação: Naveen Andrews, como Abdullah. AVISO: Contém cenas que podem chocar pessoas sensíveis.


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S06#20 - PANIC

"Considero-me estrangeiro em qualquer país, alheio, a qualquer raça.

Pois a terra é minha pátria e a humanidade toda é meu povo".

Khalil Gibran



📷



INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

[Som: Rachid Taha – Ya Rayah]

Aeroporto de Heathrow – Londres – 6:31 A.M.

[Som de turbinas de avião]

O Boeing 737-900 da Global Airlines estacionado e sendo abastecido.

O pequeno caminhão aproxima-se com o contêiner. Na lateral do contêiner a inscrição: Astra Air Food Cathering.O contêiner vai sendo erguido lentamente pelo elevador acoplado ao caminhão.

O Comissário-chefe McCallister está parado na porta do avião, segurando um detector de metais , observando o pessoal da limpeza ali dentro e as colegas comissárias que verificam cobertores e travesseiros nos compartimentos de bagagens e trocam as capas dos assentos.

Foco nos pés que saem do elevador do caminhão entrando pela porta da aeronave.

Foco se ergue revelando Abdullah com seus traços árabes, usando uniforme branco da empresa Astra Air Food. O Comissário olha para as colegas e vê que estão ocupadas, bem como o pessoal da limpeza. Então leva o detector de metais até Abdullah e desliga o botão discretamente. Passa o detector de metais nele. Afirma com a cabeça. Ahmed e Abiah entram. O Comissário faz o mesmo processo nos outros dois, confirmando a liberação.

As caixas contendo gavetas com refeições vão sendo carregadas para dentro do avião por Ahmed e Abiah. Na cozinha, Abdullah acopla as gavetas nos trolleys de metal, cada uma conforme o conteúdo. O Comissário observa atento e nervoso, alternando o olhar entre eles e o pessoal da limpeza e as colegas.

Abdullah tira de dentro do uniforme duas armas. Ahmed se aproxima com uma gaveta na mão, cheia de pacotes de amendoins. Ahmed e Abiah também tiram cada um duas armas de seus uniformes e cartuchos de munição. Entregam para Abdullah que as esconde na gaveta, debaixo dos pacotes de amendoins. Abdullah olha para o Comissário e afirma com a cabeça. Ele fecha os olhos, soltando um suspiro de alívio. Abdullah pega a gaveta e a encaixa no trolley bem mais abaixo dos outros.Abdullah passa a mão na gaveta, fechando os olhos e murmurando uma oração. Então se afasta. O Comissário vai para a cozinha e serve um café, ficando por ali.

Foco na gaveta.

VINHETA DE ABERTURA: A VERDADE ESTÁ LÁ FORA




BLOCO 1:

[Som: Rachid Taha – Ya Rayah]

Aeroporto Internacional de Heathrow – Londres – 8:31 A.M.

O agente alfandegário observa as malas que passam pela esteira.

Yareah, o velho judeu rabino de barbas e suíça longas, terno negro, passa pelo detector de metais.

A longa fila de passageiros aguardando a liberação para embarque.

O jovem inglês Colin, mochila de acampamento nas costas, walkman, fones nos ouvidos, aguarda sua vez, mascando chicletes e lendo sem preconceito uma revista gay. Em sua camiseta a frase: "no discrimination".

Abiah e Ahmed conversam, em trajes ocidentais comuns.

O alto e grandalhão Mike, está impaciente. Ao lado dele seu treinador lendo as notícias do boxe.

Oby, o alto negro angolano, em trajes típicos, lê uma revista sobre computadores. Algumas vezes passa os olhos pelo saguão e acha graça do grupo de jovens estudantes japoneses que riem e fazem brincadeiras uns com os outros enquanto aguardam na fila.

O americano Casey, de seus 35 anos. Ao lado dele a esposa, num semblante de felicidade. Os dois de mãos dadas, em lua de mel.

A australiana grávida afaga a barriga. Algumas vezes ajeita os cabelos para trás das orelhas, mostrando estar nervosa. Mohandas, o hindu careca, com um rabo de cavalo atrás da cabeça, túnica e sandálias, sorri pra ela, tentando acalma-la. Entrega-lhe um incenso. Ela agradece. A conversa se inicia.

Khalil e Abdullah sérios, um longe do outro. Em roupas árabes.

Rasheeda, uma palestina, véu sobre a cabeça, procurando a passagem na bolsa.

Um grupo de judeus conversando ansiosos e empolgados. Josifa faz sinal para falarem mais baixo.

O segurança alfandegário cochicha algo para o outro segurança. Este afirma com a cabeça. O aeroporto parece altamente seguro, repleto de seguranças e policiais.

Também repleto de várias etnias.

Ao fim da fila, Mulder segura a bolsa de viagem a tiracolo. Scully ao lado dele, lendo o jornal.

MULDER: - Essas coisas me irritam. Já chega que esqueci minha credencial em Washington e ficaram enchendo o meu saco na Scotland Yard. Mas ter que deixar minha arma... Eu não sei andar sem arma, Scully. Me sinto nu!

SCULLY: - (LENDO) Logo estará em Washington, com seus brinquedinhos de menino, Mulder. Não pode condenar o sistema por estar agindo pela segurança.

MULDER: - E o que meia dúzia de árabes pode fazer? Levar mercadoria escondida nas roupas para vender "no lojinha"? E o que um bando judeus pode fazer a não ser tentar vender roupas de segunda pelo preço da Macy's e traficar humus? Nunca vi tanto judeu junto! Que eu saiba judeus gostam de Nova Iorque, mas esse voo não faz escalas. Será que vão invadir Washington? Estou ficando com medo de ser convertido! Meus pais já mutilaram a minha masculinidade!

SCULLY: - (OLHA PRA ELE/ SEGURANDO O RISO) Mulder, por favor! Não torne essa viagem mais desagradável do que já está sendo. Convertido... Você é o pior descendente de judeu que eu conheço! Aviso: se ousar comer sanduíche de presunto para provocar essa gente, eu atiro você do avião sem paraquedas, entendeu?

MULDER: -Chata. Minha companhia desagrada você?

SCULLY: - (LENDO) O fato de vir a Londres para um curso de dois dias me desagrada. E o fato de sua amiguinha Phoebe Green aparecer de surpresa cheia de sorrisos pra cima de você também me desagradou. E antes que comece a falar sobre isso novamente, eu não tenho culpa se ela tropeçou no meu pé e quebrou o narizinho empinado dela. Podia ter quebrado os dentes também.

Mulder abre a boca pronunciando um calado "uuhhhh", fingindo espanto.

SCULLY: - É, eu posso ser cruel algumas vezes.

MULDER: -(SORRI) E eu desagrado você?

SCULLY: - (LENDO) Você também me desagrada, Mulder.

MULDER: - Não vai repetir isso às três da madrugada com a minha língua roçando entre as suas pernas numa banheira de hidromassagem.

Scully abaixa o jornal. Olha pra ele, o censurando.

SCULLY: - Mulder, por favor! Pode ser mais cavalheiro?

MULDER: - Daqui pra frente só vou ser cavalheiro pra abrir portas e puxar cadeiras. De resto, Dana Scully, eu serei um animal faminto, sacana, pervertido e imoral.

Vovó Thompson, a velhinha americana que está atrás deles, segurando um enorme urso de pelúcia, vira o rosto rindo. Scully percebe. Coloca o jornal na frente do rosto, encabulada. Mulder segura um riso debochado.

MULDER: - O que me indigna é que mesmo sendo agente federal, não pude trazer minha arma. Qual o problema de viajar armado se você é um agente do FBI?

SCULLY: - (LENDO) Questões de segurança, Mulder. E se alguém toma a arma de você dentro do avião?

MULDER: - Acha que sou pateta? Você sempre tem a mania de achar que sou pateta. Eu não sou pateta!

A fila anda. Mulder tropeça na mala de Scully. Scully ergue a sobrancelha olhando pra Mulder. Mulder finge que nada aconteceu. Scully volta a ler o jornal.

MULDER: - O que diz a seção de esportes?

SCULLY: - (LENDO) Algum time ganhou e outro perdeu.

MULDER: - (DEBOCHADO) Não brinca!

SCULLY: - (LENDO) ...

MULDER: - (PIDÃO) Eu tô sofrendo.

SCULLY: - ... (LENDO) Vá até o banheiro com aquelas revistas que não são suas e alivie o seu sofrimento físico e psicológico.

MULDER: - Como pode caber tanta maldade numa pessoa tão pequena?

SCULLY: - (LENDO) Me deixe ler o jornal, Mulder!

MULDER: - ... Chata.

SCULLY: - (LENDO) ...

MULDER: - ... Vou colocar um piercing no mamilo. O que acha?

SCULLY: - (LENDO) Aproveite e coloque um na sua língua. Se eu tiver sorte inflamará e você calará sua boca por algumas semanas.

Mulder fica quieto olhando pra ela com o rabo dos olhos. Scully continua atenta a leitura. Mulder passa pelo detector de metais. Scully passa. O detector soa o alarme. Mulder olha pro segurança, debochado.

MULDER: - Não ligue pra ela. É apenas um chip de metal extraterrestre implantado na nuca.

SCULLY: - (FURIOSA) Mulder!!!!


9:00 A.M.

Mulder sentado na poltrona ao lado de Scully. Scully observa pela janela. Mulder afivela o cinto de segurança. A Vovó Thompson dirige-se para a poltrona da frente. Oby, o angolano, a ajuda a colocar o urso e a sacola de viagem no compartimento de bagagem. Ela agradece. Oby retira um cobertor e um travesseiro entregando pra velhinha. Ela sorri retribuindo a gentileza. Os dois sentam-se um ao lado do outro, conversando.

Mulder observa Scully.

MULDER: - Que tal um beijo?

SCULLY: - Pra quê?

MULDER: - Eu tô morrendo.

SCULLY: - Mesmo que estivesse morrendo, não beijaria você.

MULDER: - O que vai fazer quando chegar a Washington?

SCULLY: - Tomar banho e dormir.

MULDER: - Podemos fazer isso juntos?

SCULLY: - Mulder! Eu pedi um tempo, tá legal? Pode entender isso?

MULDER: - Eu entendo. Mas podemos tomar banho e dormir juntos?

SCULLY: - Mulder! O que está havendo com você?

MULDER: - Isso se chama 'instinto da natureza'.

SCULLY: - Pra mim isso se chama 'sacanagem'.

MULDER: - (DEBOCHADO) O que importa o conceito, desde que a 'definição' seja compreendida?

Scully o encara, indignada. Mulder fecha os olhos pra dormir.

SCULLY: - E eu que sempre achei você tímido, apesar desse jeito de conquistador barato... Ahn! Você não passa de um molestador de ruivas indefesas.

MULDER: - (DEBOCHADO/ OLHOS FECHADOS) Indefesa? Você? A Scully-Fu? Tá brincando! Eu que não chegue com jeitinho ou você vira a fêmea do louva-a-deus e arranca a minha cabeça numa dentada! Bem, sabe a que cabeça eu me refiro...

Scully dá um beliscão no braço dele.

MULDER: - Au!

SCULLY: - Cala a boca, Mulder. Ou vou arrancar sua cabeça mesmo. As duas!

Mulder faz um beiço. Levanta-se e senta-se na poltrona do corredor, deixando a poltrona vazia entre eles. Scully vira o rosto pra janela, segurando o riso.

MULDER: -(DEBOCHADO) Três lugares, Scully... Estou sentado no lugar de alguém e espero que o alguém seja uma mulher muito interessante, de saias curtas. Vou ficar oito horas sentado entre duas mulheres. Vou ter bastante distração pra olhar enquanto você fica aí olhando para as nuvens.

SCULLY: - Desista de me irritar, Mulder. Vai ser um rabino, daqueles bem ortodoxos.

A menina Audrey se aproxima segurando uma boneca, a comissária com ela. A menina olha pra Mulder. Scully segura o riso.

MULDER: - É o seu assento?

MENINA: - É.

SCULLY: - Quer ficar na janela?

MENINA: - (SORRI) Eu quero!

Scully senta-se no meio e deixa a menina sentar em seu lugar. Scully ajuda-a com o cinto.

MULDER: - (FRUSTRADO)É uma mulher de vestido curto. Não é o que eu queria, mas é uma mulher, não um rabino. Eu acertei.

SCULLY: - É. Você acertou. E mesmo que esteja frustrado, eu gostei da companhia. Pelo menos terei descanso das suas piadinhas infames.

As comissárias se posicionam para explicar as regras de segurança.

PILOTO (OFF): - Bom dia senhoras e senhores, aqui é o comandante Müller, bem vindos ao voo 243, partindo do aeroporto internacional de Heathrow com destino ao aeroporto internacional de Dulles, em Washington D.C.. Nosso tempo estimado de voo é de aproximadamente 7 horas e 52 minutos. Gostaríamos de relembrar algumas regras. O uso dos aparelhos celulares estão permitidos enquanto a aeronave estiver em solo com os motores desligados e com as portas abertas.É proibido fumar dentro da aeronave.

MULDER: -(DEBOCHADO) É, Scully, seu baseadinho vai ficar pra depois.

Scully olha incrédula pra ele. As comissárias simulam as instruções com as mãos.

PILOTO (OFF): -Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente, caso esteja acompanhado de alguém que necessite de sua ajuda, coloque sua máscara primeiro para em seguida ajudá-lo.

MULDER: - E em caso de pane, em que nuvem fica a oficina mais próxima?

SCULLY: - Mulder, agora entendi porque está tão falante! Você está com medo de voar?

MULDER: - Estou é irritado de ficar preso aqui por oito horas sem nada pra fazer. Vou ter que arrumar diversão. E isso não inclui esses filmes reprisados que eles passam.

PILOTO (OFF): -Queremos lembrar que a aeronave possui seis saídas de emergência...

MULDER: - Eu vou explicar pra você o real significado dos gestos das comissárias.

Scully o encara.

PILOTO (OFF): - Duas na parte de trás da aeronave.

As comissárias indicam a parte de trás do avião.

MULDER: -Elas estão dizendo: se essa porcaria der problemas vocês aí morrem.

PILOTO (OFF): -Quatro sobre as asas.

As comissárias abrem os braços.

MULDER: - E nós...

PILOTO (OFF): - Duas na frente da aeronave.

As comissárias apontam para trás.

MULDER: - Caímos fora.

Scully leva a mão no rosto, rindo e acenando negativamente com a cabeça.

PILOTO (OFF): - Seus assentos são flutuantes, em caso de pouso na água retire-o e leve-o para fora da aeronave. Durante a decolagem seus assentos deverão estar na posição vertical, cintos de segurança afivelados e as mesas fechadas e travadas. A Global Airlines agradece sua preferência, tenham um bom dia.

MULDER: - É, vou ter um ótimo dia quando chegar em casa, vestir o meu pijama e assistir Scooby Doo com a nossa filha.

SCULLY: - (SORRI) Victoria gosta do Scooby?

MULDER: - Victoria gosta de qualquer coisa que envolva sobrenatural e comida. Não necessariamente nessa ordem.

SCULLY: - (SORRI)Mulder... Posso ficar com ela esse final de semana?

MULDER: - Até com o pai dela se quiser.

SCULLY: - Programa de meninas.

MULDER: - Eu uso calcinha e lacinho no cabelo.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - Sábado à tarde. Às seis eu pego ela de volta.

SCULLY: - Apenas uma tarde? Só isso? Ainda não confia em mim?

MULDER: - Confio. Mas não gosto de ficar longe da Pinguinho. Sinto falta dela.

SCULLY: - Ah, e eu posso sentir falta, não é?

MULDER: - Sabe como resolver isso. Então tenha todo o tempo que quiser. A pressa é apenas sua. Ou então seja sincera e diga que apesar de me amar não quer mais viver comigo. Porque eu sei que sou um porre completo, mas estou me acostumando com a vida de pai solteiro. E tô começando a gostar mais do que da vida de casado.

Scully emburra, cruzando os braços. A Comissária se aproxima.

COMISSÁRIA: - Audrey, como faltaram dois passageiros, seu avô trocou de lugar pra você ficar com seus pais. Quer?

A menina se levanta. Scully fica frustrada. Mulder segura o riso. A menina vai com a Comissária. Scully volta pra janela.

MULDER: -(DEBOCHADO) Pronto! Agora posso me divertir com você e falar sujeiras a viagem toda. Viu como sou um cara de sorte?

SCULLY: - (DEBOCHADA) Ouse me perturbar, Mulder. E vai descobrir outra utilidade para as máscaras de oxigênio.

PILOTO (OFF): - Atenção tripulação, preparar para a decolagem.


9:57 A.M.

Scully cochila. Mulder lendo uma revista. Rasheeda, a palestina de véu, no banco do lado oposto, observa Mulder. Mulder desvia a atenção pra ela. Ela sorri gentilmente. Mulder devolve um sorriso, voltando a atenção pra revista. Abdullah levanta-se de seu banco mais à frente e passa por Mulder. Mulder ergue o rosto, olhando pra ele. Acompanha-o com os olhos.

RASHEEDA: - Nervoso?

Mulder olha pra ela.

MULDER: - Detesto ficar por horas preso em algum lugar.

RASHEEDA: - Claustrofobia?

MULDER: - Não, inquietação mesmo.

Rasheeda sorri. Mulder volta a atenção pra revista. Scully abre os olhos. Ajeita-se no banco.

SCULLY: - (COCHICHA) Basta fechar os olhos e você começa a importunar as mulheres?

MULDER: - (COCHICHA) Estava querendo aprender a dança do ventre.

SCULLY: - (COCHICHA) É fácil. O mais difícil é você entrar na roupa pra sacudir os quadris enquanto brinca com uma cobra.

MULDER: - (COCHICHA) Você entra com os quadris. Eu com a cobra.

Mulder se levanta.

SCULLY: - Aonde vai?

MULDER: - (DEBOCHADO) Pegar na cobra.

Scully revira os olhos, desanimada. Pega uma revista. Mulder passa por Abdullah. Este senta-se em sua poltrona e abre um jornal. A comissária vem pelo corredor servindo bebidas. Scully larga a revista.

COMISSÁRIA: -Bebida, senhora?

SCULLY: - Não, obrigada.

Rasheeda chama a comissária. Ela vira-se de costas pra Scully, atendendo Rasheeda. Abdullah levanta-se novamente. Scully olha pra ele. Abdullah sério, passa por ela. Scully volta a atenção pra janela. Ahmed e Khalil se levantam. Scully volta a atenção pra eles. A comissária segue servindo os passageiros. Scully os observa com desconfiança.

Corte.


Na cozinha do avião, Abdullah abre a gaveta de lanches. Retira as armas escondidas. Ahmed e Khalil começam a pegar as armas. O Comissário-chefe McCallister vigia através das cortinas.

MCCALLISTER: - Apressem-se. Vou bater na cabine para levar café.

ABDULLAH: - Ahmed e eu renderemos o piloto. Ahmed ficará com ele. Khalil e Abiah vigiam a classe econômica. Mustafá e Taleb ficam na frente com a classe executiva. É apenas um corredor central, não será difícil vigiar.

KHALIL: - (AFIRMA COM A CABEÇA) ...

MCCALLISTER: -Pela causa de vocês e pela minha. Eles vão pagar caro por isso.

ABDULLAH: - Sabe que vai morrer McCallister, não sabe?

MCCALLISTER: -Essa empresa me condenou à morte quando não me afastou do serviço. Eu já estou louco o suficiente pra fazer qualquer coisa, contanto que não sofra mais com esse transtorno do pânico e não precise passar o resto da vida deprimido, trabalhando trancado numa aeronave e tomando medicações que me fazem vomitar e ficar tonto.Depressa, vamos pra cabine.

ABDULLAH: -Alah recompensará você do outro lado, meu amigo. O receberá de braços abertos, por servir a ele e lutar contra os opressores de seu povo. Não haverá mais dor, nem pranto, nem doenças.

Corte.

[Som: Rachid Taha – Ya Rayah]

Scully observando as nuvens pela janela, envolta em seus pensamentos. Abdullah, Khalil e Ahmed passam, segurando os casacos, rente ao lado do corpo. Abdullah segue o corredor, passando por sua poltrona e indo para a frente do avião. Passa pela classe executiva. Discretamente larga duas armas no colo de Taleb sentado numa poltrona. Taleb entrega uma das armas rapidamente para o passageiro ao lado, Mustafá. Os dois se levantam. Abdullah puxa assunto com uma comissária.

Corte.


Khalil e Ahmed ficam em pé no corredor, segurando os casacos e observando os passageiros. Scully fica mais desconfiada. Abdullah aproxima-se, olhando pra eles. Os três puxam rapidamente as armas, aos gritos em árabe. Os passageiros entram em pânico. Abdullah aproxima-se pelo corredor.

ABDULLAH: - (AOS GRITOS) Somos do Movimento de Resistência Islâmica Palestino, Hamas. Não queremos ferir ninguém! É só ficarem quietos e fazerem o que eu mandar!

Scully fecha os olhos, agarrando-se na poltrona.

ABDULLAH: - (AOS GRITOS) Estamos no controle da aeronave! Caso alguém desobedeça minhas ordens, a punição será a morte! Allahu Akbar*!!!(*Alá é grande)

Scully abre os olhos. Leva a mão discretamente até a bolsa, tirando sua credencial e empurrando-a entre o banco e a parede da aeronave, escondendo-a, sem desgrudar os olhos de Abdullah.

Corta pra Mulder saindo do banheiro. Ao ver a confusão, Mulder recua rapidamente, fechando a porta do banheiro. Puxa o celular. Aperta uma tecla. Aguarda nervoso.

MULDER: - (FALANDO BAIXO) ... Quem fala? Eu sei que é do FBI, mas qual das beldades da telefonia está falando? ... (SORRI) Ok, "a mais linda"... Sim, Dorothy, sou eu e só peço que me escute, preciso ser rápido, é uma emergência, grave isso. Estou no voo 243 da Global Airlines, proveniente de Londres com destino a Washington. Temos terroristas armados à bordo, avise Skinner e...

Barulho na porta. Mulder atira o celular dentro do vaso sanitário, puxando a descarga. Abre a porta. Taleb o puxa pra fora, o empurrando pelo corredor.

TALEB: - (AOS GRITOS)Yalla!!! Yalla*!!!(*anda, anda!!!)

Mulder senta-se em seu lugar. Scully olha pra Mulder, tensa. Mulder leva a mão até a dela, a segurando.

Corte.


Os passageiros em silêncio, assustados. Khalil e Abiah os observam, andando pelo corredor. Lá na frenteMustafá e Taleb fazem o mesmo na classe executiva.

SCULLY: - (COCHICHA) Quantos acha que tem? Não vejo daqui.

MULDER: - (COCHICHA) Contei dois aqui e dois lá na executiva. Pode haver mais. Scully torça para que eles não entrem na cabine.

O avião faz uma curva desviando da rota. Scully fecha os olhos.

MULDER: - (COCHICHA) Estamos ferrados, Scully... Pelo menos eu consegui avisar o FBI.

Abdullah sai da classe executiva, segurando uma comissária pelo pescoço, apontando a arma na cabeça dela.

ABDULLAH: - (AOS GRITOS) Quero que coloquem seus passaportes neste saco! (ERGUE O SACO PLÁSTICO). Aviso que tenho a lista de passageiros! Caso falte algum passaporte aqui, eu mato essa mulher!

As pessoas rapidamente começam a procurar os passaportes. A Vovó Thompson, trêmula, parece que vai ter um surto. Khalil passa o saco plástico recolhendo os passaportes. Estende o saco plástico pra velhinha. Ela olha pra ele, chorando.

VOVÓ THOMPSON: -E-eu deixei na minha sacola. (APONTA PRA CIMA) Está aí em cima.

Khalil olha pra Abdullah. Abdullah afirma com a cabeça. Khalil abre o compartimento de bagagem e puxa a sacola da velhinha, entregando rudemente pra ela. Oby, o angolano, o observa com reprovação. A velhinha abre a sacola. Entrega o passaporte, mãos trêmulas. Khalil o lê. Olha pra Abdullah.

KHALIL: - (SÉRIO)Cafir*.Americana.(*infiel/ descrente)

SCULLY: - (COCHICHA) O que querem com os passaportes? Procuram americanos?

MULDER: - (COCHICHA/ FECHA OS OLHOS) Acho que sei o que procuram...

ABDULLAH: - (AOS GRITOS) Informo que o destino agora não é Washington. O destino deste voo é Israel!

Khalil se aproxima de Mulder. Mulder disfarça o nervosismo e entrega o passaporte. Scully entrega o seu, olhando pra Khalil com repulsa. Abdullah anda tenso pelo corredor, segurando a arma. Olha pra um dos judeus sentados. Ergue-o pelo paletó. Aponta a arma na cabeça dele. As pessoas gritam. Oby fecha os olhos.

ABDULLAH: - Todos os judeus aqui dentro se apresentem. Ou vou conferir pelos passaportes e o desgraçado mentiroso vai morrer!!!!! Quero todos os judeus em pé!!!!!

Os passageiros trocam olhares, um analisando o outro. Alguns judeus levantam-se. Mulder toma impulso pra se levantar. Rasheeda olha pra Mulder. Scully o segura pela mão. Mulder olha pra ela.

MULDER: - (COCHICHA) Cada dia que passa agradeço mais por você não carregar meu sobrenome.

SCULLY: - (COCHICHA) Mas você é americano!

MULDER: - (COCHICHA) Quer argumentar com esses caras?

Scully fecha os olhos, mais nervosa ainda. Khalil levanta Mulder pelo braço. Lê o passaporte dele.

KHALIL: - (SÉRIO) Cafir. Americano... (INDECISO) Mulder? Francês?

ABIAH: -Menn uên báyAC*?(*De onde é seu pai?)

MULDER: - Não entendo sua língua.

Abdullah se aproxima. Pega o passaporte. Scully ameaça se levantar, Abiah a empurra.

ABDULLAH: - Soa francês, mas não é francês.Pode bancar o espertinho, mas se eu ficar na dúvida, mato você porque suas feições e seu nariz denunciam sua descendência. "Er" significafilho. Quem fugiu feito rato pra Europa? Rússia? Perto de onde ou no que trabalhavam?

MULDER: - Avós. Alemanha. Perto do rio Mulde. Eu sou americano.

ABDULLAH: - Nasceu na América do demônio, mas tem sangue yahudi*. (SORRI) Duplamente ummaleun*.(*Judeu. *Maldito.)

Khalil com raiva empurra Mulder para o corredor.

ABDULLAH: -(AOS GRITOS) Vocês serão revistados e conferidos. Depois vão fazer o que eu mandar! E se algum outro esperto aqui tiver descendência judia que se acuse agora, porque seus nomes os entregarão!

Abdullah pega um dos judeus pelo paletó. Empurra-o para o fundo da aeronave.

ABDULLAH: - (AOS GRITOS) Quero todos os judeus lá atrás! Agora! Yalla!

O judeu acena negativamente com a cabeça. Abdullah o empurra, ele cai no chão. Abdullah se agacha e mira a arma na cabeça dele. O judeu fecha os olhos.

JUDEU: - (REZANDO) Barukh ata Adonai Eloheinu melekh ha‑olam*...

(*Bendito és tu, ó Eterno nosso Deus, Rei do Universo)

Abdullah aperta o gatilho rente a cabeça do homem. Sangue e pedaços de tecidos se espalham. A gritaria é geral. O judeu está morto.

ABDULLAH: - (AOS GRITOS) Calem a boca ou vou matar um por um de vocês infiéis sendo porcos judeus ou não!!!!! Vamos libertar os demais, portanto fiquem quietos em seus assentos e zelem pela sua vida em nome de Alah!!!!

Os terroristas vão empurrando os judeus para o fundo da aeronave. Mulder entre eles.


FBI – Gabinete do Diretor-Assistente Skinner – 5:59 A.M. – Hora Local

Skinner com cara de sono, em pé, ao lado da escrivaninha, desliga o telefone. Kersh segurando um café e olhando pra ele.

SKINNER: - Carter está vindo pra cá.

KERSH: - Tem certeza de que foi Mulder quem avisou a telefonista?

SKINNER: - (NERVOSO) Sim, ela gravou a conversa. O pessoal checou e os agentes Mulder e Scully estão na lista da Global Airlines, no voo 243, com destino a Dulles.

KERSH: - Pode ser um simples sequestro?

SKINNER: - Mulder foi categórico: terroristas.

KERSH: - Vou ligar para o Pentágono e a Casa Branca. Vamos nos reunir e traçar um plano de ação. Esse avião não pode entrar em espaço aéreo americano.

SKINNER: - O que vão fazer? Abater o avião no ar?

KERSH: - Se preciso for. Não sabe o que esses loucos querem fazer! Talvez o alvo seja a Casa Branca. Meu Deus isso de novo não! E se não for o único avião com problemas? Eu não quero passar por outro pesadelo daqueles que passamos aqui dentro em 2001!

SKINNER: - Ninguém quer.

Kersh sai da sala. Skinner fica mais tenso ainda.


11:03 A.M. - Hora Local

O piloto aparentemente calmo, segurando o manche, tentando ter auto-controle. O co-piloto ao lado dele, quieto e nervoso. O engenheiro de voo está caído por sobre o painel, com um tiro na cabeça. Ahmed com uma arma faz a guarda da cabine.

Abdullah entra na cabine. Joga o corpo do engenheiro ao chão, abre o alçapão e o joga lá dentro. Então senta-se na poltrona e pega o manual do avião.

PILOTO: - Não vamos ter permissão para pousar em Israel.

ABDULLAH: - Quem disse que vamos pousar em Israel?

PILOTO: - Como assim? Você me fez mudar a rota do voo.

ABDULLAH: -Eu disse que iríamos pra Israel. Eu não disse que pousaríamos. Vamos cair em cima de Ariel Sharon. Desligue o transpônder. Yalla!!!

O piloto tenta ficar calmo, mas o suor escorre do rosto. Troca um olhar tenso com o co-piloto. Então leva a mão ao painel desligando o transpônder.

RÁDIO (OFF): - Global Airlines 243, na escuta?

Abdullah olha para o piloto. A voz no rádio tenta contato.

ABDULLAH: - Não responda.

RÁDIO (OFF): - Global 243, na escuta? Confirma mayday?

O piloto olha para o colega.

RÁDIO (OFF): - Global 243, aqui é a torre de Heathrow. Não tem permissão para mudar sua rota. Seu transpônder foi desligado. Você saiu de nossa área, entrando em APP. Aguarde orientações. Confirma mayday?

PILOTO: - Preciso confirmar que estou na escuta.

ABDULLAH: -É o controle aéreo que decide declarar uma situação de emergência, caso haja a perda de contato com o avião. Se tocar nesse rádio, mato uma das suas colegas lá atrás.

RÁDIO (OFF): - Global 243, aqui é a Torre de Paris. Não temos sua visualização no radar.Suba para 25 mil pés, tráfego intenso na região.

PILOTO: - Não quero ser indelicado com o senhor, mas preciso falar com eles. Estamos em outra rota, podemos colidir com alguma aeronave, entende?

ABDULLAH: - Não vamos colidir. Aumentaram sua altura. Vão descer os outros. Mesmo que esteja invisível a Eurocontrol sabe o que fazer.

CO-PILOTO: - (NERVOSO) Mas eles não sabem aonde estamos e nem pra onde estamos indo! Podemos estar nos dirigindo pra qualquer lugar!

Abdullah puxa a arma e encosta na cabeça do co-piloto.

ABDULLAH: - Não preciso de dois dando palpite. Um já basta.

Abdullah encosta a arma na nuca do co-piloto. O piloto aproveita a distração e liga o transpônder. Aciona o código 7500*.

(*Código internacional para aeronave sob interferência ilícita)

CO-PILOTO: - Pelo amor de Deus, eu tenho família...

PILOTO: - Calma, senhor, meu colega não quis ser indelicado e...

Abdullah atira na nuca do co-piloto, que cai morto sobre o manche. O piloto entra em estado de nervos. Abdullah desliga o transpônder.

ABDULLAH: - Se tentar me enganar novamente, querendo dar nossa posição à eles, vai terminar como o seu colega. Eu sei aonde fica o piloto automático. Não me escolheram à toa para essa missão.

Abiah entra.

ABIAH: - Destruí todo os celulares e telefones a bordo. Tem uma americana, insiste em falar com você.

ABDULLAH: - Deixe-a entrar e volte a seu posto. Preciso me divertir.

Scully entra. Ao ver o co-piloto morto corre até ele. Toma seu pulso. Abdullah a observa debochado. Scully olha pra ele com indignação.

ABDULLAH: - Qual o seu nome?

SCULLY: - Dana Scully. Quero saber se pretende chegar a algum lugar? Acredita mesmo que o que está fazendo em nome de sei lá o quê vai resultar na vida de vocês?

ABDULLAH: - Quem aqui se importa com a vida?

SCULLY: - Eu me importo.

ABDULLAH: - Com a vida de quem? A sua? Ou a minha? Quem se importa com a vida dos palestinos a não ser os próprios palestinos, senhora?

SCULLY: - Meu marido está nesse voo, vocês o colocaram lá atrás! Ele não é judeu! É americano.

ABDULLAH: - Então se importa com seu marido. Se ele está com judeus é porque tem sobrenome judeu... Não lembro de nenhum Scully. Isso é irlandês...

SCULLY: - Mulder! O nome dele é Mulder e é americano.

ABDULLAH: - Ah! O filho do rio. Como ousa diante de Alah dizer que é esposa dele? Vocês vivem em pecado, nem tem o sobrenome do seu homem, sua irlandesa vadia e provavelmente católica, abominação que cultua imagens! Ele tem sangue judeu e isto é uma Guerra Santa!

SCULLY: - (O ENCARANDO) Como pode chamar de santa qualquer guerra? Como pode fechar seus olhos à noite e saber que matou dezenas de pessoas?

ABDULLAH: -(REVOLTADO) Uma americana querendo me dar lições sobre pacifismo? Você é muito atrevida, mulher! Seu povo mata descaradamente todos os dias! Gostam de entrar em brigas que não são deles e pensam que são o umbigo da civilização, seus comedores de fast-food com cérebros idiotizados por televisão e batatas-fritas! Com seus governos corrompidos que manipulam vocês com o discurso de país da democracia. Vocês vivem iludidos, como cães domesticados, pois têm direitos democráticos para gritar, uma promessa de vida perfeita e todo o tipo de coisas para consumir, mas não enxergam a manipulação que sofrem, pois estão confortavelmente deitados nas suas camas e comendo suas rações como Lulus do seu governo enquanto ele se vende como prostituta de luxo! Sabe o que acontece no mundo, ahn? Sabe? Ou só sabe o que a CNN quer que você saiba?

O piloto olha nervoso pra Scully. Scully se acalma.

ABDULLAH: - Sabe me dizer aonde fica a Cisjordânia? Sabe a história do meu povo? Não, você não sabe. Você só sabe onde fica o seu maldito país e a maldita história dele, porque é assim que eles querem que você pense, no seu umbigo! Essa é a cegueira do seu povo. Essa será a desgraça dele! Sabia que os israelenses matam palestinos? Sabe o que ter soldados o tempo todo nas ruas? Ahn? Na nossa terra? Que vocês americanos e os europeus com sua ONU tiraram de nós e deram pra eles, os pobrezinhos que sobraram depois que Hitler fez uma faxina! Vá ler a história dos outros, sua marionete americana! Como posso fechar meus olhos e ver os malditos israelenses matando o meu povo? Na minha própria terra? Pois isto é o Jihad! Somos os soldados de Alah e vocês todos vão pagar por oprimirem o meu povo e por dormirem com o demônio, seus infiéis!

Scully olha incrédula pra Abdullah.

SCULLY: - O que vai fazer com os americanos? Vai soltá-los como prometeu?

ABDULLAH: - Como vou libertar uma raça desgraçada que domina o mundo e está ao lado dos judeus? Isto é uma guerra, mulher infiel! Vence a resistência ao caos que vocês criaram. A América é o inferno, o Diabo vive nela! E nós somos os Cavaleiros do Apocalipse.

SCULLY: - Vocês geram o terror!

ABDULLAH: - Abiah, leve esta mulher de volta a seu assento, antes que eu mostre a ela o que é terror. Entregue a ela o jornal e a ensine a ler direito para compreender que o mundo não se resume a América. Que a Palestina não é judia. Que as nossas crianças morrem todos os dias nas mãos de judeus israelenses. Se ela não se calar, faça-a se calar, como toda a mulher muçulmana deve ficar calada e não se envolver com assuntos políticos dos quais nada conhece.

Abiah pega Scully pelo braço. Leva-a pra fora da cabine. Abdullah olha para Ahmed.

ABDULLAH: - Me traz o passaporte desse tal Mulder. Quero o nome completo dele. A mulher dele é muito petulante. Quero saber quem ele é.


11:14 A.M.

Na cozinha da parte de trás da aeronave, os judeus amontoados e sentados no chão. Mulder, pensativo, observa os terroristas no corredor. Josifa ao lado de Mulder. Khalil, armado, os vigia parado na porta.

JOSIFA: - Primeiro os alemães. Agora os árabes. Quero que me provem que Jerusalém é a cidade sagrada muçulmana!

Mulder olha pra ele.

JOSIFA: - Por mais de 3.300 anos, Jerusalém é a capital dos judeus e jamais foi a capital de nenhuma entidade árabe ou muçulmana. Mesmo durante a ocupação Jordaniana, nenhum líder árabe fez alegação.

KHALIL: -(IRRITADO) Akhrasi, yahudi*!!! (*Cale a boca, judeu!)

JOSIFA: - Jerusalém é mencionada mais de 700 vezes na Torá e nenhuma vez no Alcorão! A Cidade Santa dos católicos é o Vaticano, dos muçulmanos é Meca e dos judeus unicamente Jerusalém, construída pelo Rei Davi há mais de três mil anos. Nós judeus rezamos três vezes por dia em direção a Jerusalém, enquanto vocês muçulmanos rezam em direção a Meca, mantendo suas costas para Jerusalém. O que querem com Jerusalém então?

KHALIL: - Saíram os britânicos da minha terra para os judeus a invadirem. Perdemos nossas terras, tivemos de nos dispersar por regiões vizinhas, sermos confinados em territórios ou em acampamentos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, como se fôssemos um expurgo! Se os judeus tiveram que sobreviver ao Holocausto, nós palestinos tivemos que deixar nossa terra para vocês se instalarem com ajuda soviética e americana por causa do que Hitler fez! Pouco importa se é cidade sagrada de vocês, meus filhos querem um lar e comida na mesa!

JOSIFA: - É nossa cidade santa! Já tínhamos sido expulsos há milhares de séculos por outros povos, inclusive o seu! É a nossa Terra Prometida! Para vocês foi deixada sua parte de terra, não precisam de Jerusalém!

KHALIL: - Vocês semeiam a guerra! Vocês tiram nossas terras!

JOSIFA: - Vocês são povos nômades! Não sabem cultivar! Nós que trabalhamos para plantar, colher e fazer do nosso solo uma grande economia! Nós queremos a paz! Mas não ao preço da imposição de Arafat em conduzir as negociações sob pressões, ameaças ou ataques terroristas.

KHALIL: - Nós somos terroristas? Não, vocês são terroristas! Nós apenas lutamos pelo que é nosso! Por direito, estávamos lá! Vocês matam meu povo com seu exército e o mundo, o mundo apenas ignora isso! (ERGUE A ARMA) Saúde para Arafat! Morte a Sharon!

JOSIFA: - Lutar com carros bomba em escolas? É isso o que chama lutar? Isso chama-se terrorismo!

KHALIL: - Sharon constrói bombas, ataca meu povo, mata minhas crianças. Isto é justo pra você? Arafat apenas se defende! Maomé nos ensinou a lutar em nome de Alah!

JOSIFA: - E Moisés nos ensinou a lutar em nome de Deus!

Mulder abaixa a cabeça.

MULDER: - (INDIGNADO) O que eu faço aqui no meio de vocês? Eu nem israelense ou árabe sou, nem judeu e nem muçulmano, nem católico nem evangélico!!! A briga aqui não é apenas racial, é religiosa. O que importa a crença e o Criador que só muda de nome? Se a ONU sacrificou território ocupado por palestinos pra entregar a judeus, se a cidade santa dos judeus é uma, a do islã é outra... Por favor! São apenas cidades, são apenas crenças, cegas, extremistas, olho por olho e o mundo ficará cego! Quantas crianças palestinas e israelenses morrerão por causa dessa guerra? Vocês dois tem razão completa! Os dois povos! Mas não tem boa vontade de acabar com essa guerra! O interesse econômico é maior!

KHALIL: - Cale-se yahudi maleun! Se mais algum de vocês abrir a boca eu vou atirar!

Um judeu se levanta.

JUDEU #1: - Então atire, seu idiota! Atire e caímos agora mesmo!

KHALIL: - Cale a bocayahudi!!!

JOSIFA: - Por que não nos mata e deixa o resto dessas pessoas em paz? O problema somos nós? É entre nós! Liberte o resto! Acabem de uma vez com isso. Vocês podem matar todos os judeus desse voo, mas não podem matar todos os judeus de Israel e do mundo!

Khalil engatilha a arma e mira para atirar.

MULDER: - (DESESPERADO)Não faz isso, idiota!!!

Khalil dispara vários tiros contra Josifa.

Corte.


A aeronave começa a se descontrolar, inclinando para a direita. O piloto apavorado segurando o manche, apertando os pedais, usando de força nas mãos, mas não consegue desvirar. O alarme de despressurização soa intermitentemente. Mais alarmes disparam.

PILOTO: -Estamos com problemas! Despressurização na parte trás, não sei o tamanho do estrago! Não consigo controlar, o leme não responde... Aconteceu alguma avaria na cauda, os equipamentos estão enlouquecidos. Se a cauda se romper, vamos cair!!!

Abdullah se levanta, tentando segurar-se na cadeira do piloto. Ahmed senta-se na cadeira do engenheiro de voo.

As máscaras de oxigênio caem diante dos passageiros. Eles vão colocando sobre o nariz. O avião vai virando lentamente para o lado direito. Os passageiros aos gritos desesperados, alguns choram, alguns rezam, outros abraçam entes queridos. Os compartimentos de bagagem se abrem, sacolas e objetos caem sobre as pessoas. Scully segura-se nos braços da poltrona, fechando os olhos e rezando.

O piloto desliga o piloto automático. Tenta manobrar o manche. Consegue estabilizar a aeronave, ainda assim ela permanece um pouco inclinada para a direita. Ele solta a respiração, num alívio. Mais alarmes começam a disparar na cabine.

PILOTO: -Preciso descer para uma altitude mais segura ou vamos morrer de hipóxia!

Abdullah nervoso sai da cabine, segurando-se pelas paredes.

Corte.

O avião vai descendo bruscamente. Mulder e uma comissária seguram uma sacola de viagem contra a parede da aeronave. Aos pés dele, Josifa morto.

MULDER: - Seu imbecil! Perfurou a estrutura da aeronave!!! Podia ter nos matado!!!

Abdullah entra. O avião sacode muito, perdendo altitude. Abdullah grita em árabe com Khalil. Os dois se xingam. Khalil aponta pra Mulder. Abdullah olha pra ele.

ABDULLAH: - Você! Você vai consertar isso!

MULDER: - Então me diga como!

ABDULLAH: - (APONTA A ARMA NA CABEÇA DE MULDER) Ou quer morrer aqui mesmo, FBI?

Mulder olha espantado pra ele. Todos olham pra Mulder. A aeronave se estabiliza.

PILOTO: - Senhores passageiros, estamos em uma altitude segura, podem dispensar as máscaras de oxigênio e respirem normalmente.

ABDULLAH: - Fox Mulder, FBI. Caso algum avião americano tente nos interceptar, eu vou matar um por um aqui dentro de um em um minuto! A começar por sua vadia irlandesa.

MULDER: - ... (FECHA OS OLHOS)

ABDULLAH: - Há mais algum agente do FBI nesse voo?

MULDER: - Não. Estou sozinho.

ABDULLAH: - Vou descobrir. Se estiver mentindo, mato você. Judeus são mentirosos. Americanos também. Judeus americanos estão além da mentira. São hipócritas!




BLOCO 2:

Abdullah segue pelo corredor. Oby o acompanha com os olhos. A Vovó Thompson treme. Oby tenta acalma-la. Scully nervosa. Rasheeda senta-se ao lado dela.

RASHEEDA: - Vai terminar tudo bem.

SCULLY: - Está com eles?

RASHEEDA: - Não me julgue pelo meu povo, nem pela minha crença. Não concordo com tudo o que alguns fazem em nome da religião. Eles são extremistas. Nem concordo com o que o povo israelense ou o seu povo fazem. Eu prefiro ficar viva a ficar pensando em qual lado tem a razão. Enquanto eu penso, meus filhos podem morrer.

SCULLY: - Desculpe...

RASHEEDA: - Está nervosa por seu marido e eu posso entender. Perdi meu marido num ataque judeu ao meu povoado. Eles criam as guerras e nós pagamos por elas.

SCULLY: - Lamento muito.

RASHEEDA: - ...

SCULLY: - Mora em Washington?

RASHEEDA: - Não. Moro em Londres... Seu país não me deu asilo político por causa da minha origem. Apesar de ser uma mãe de família que quer fugir de uma guerra e dar uma vida melhor aos filhos, eles me consideraram perigosa demais pra morar nos Estados Unidos.

SCULLY: - ... Eu não entendo muita coisa, assim como você. O ódio racial, religioso...

Rasheeda leva a mão ao bolso. Retira uma foto. Mostra pra Scully.

RASHEEDA: - (SORRI) Meus filhos. Este é Amir, tem 12 anos. Esta é Rasheeka, tem 9. E este é o pequeno Samir, de 4 anos.

SCULLY: - (SORRI) São lindos.

Scully leva a mão ao bolso. Retira uma foto de Victoria.

RASHEEDA: - (SORRI) Deve ser hábito materno de todas as mães do mundo carregar foto dos filhos nos bolsos.

SCULLY: - (SORRI) O tempo passa rápido quando os admiramos.

RASHEEDA: - Ela é linda.

SCULLY: - Chama-se Victoria. Tem quase dois anos de idade.

Turbulência. As duas se olham assustadas.

RASHEEDA: -(LÁGRIMAS/ OLHANDO PRA FOTO DOS FILHOS) Sinto que não vou vê-los novamente.

SCULLY: - (FECHA OS OLHOS) Não entendo o que dizem.

RASHEEDA: - Pelo que falam, querem nos atirar sobre a sede do governo, em cima de Ariel Sharon, como retaliação. Há muitos judeus nesse voo, todos estavam indo para Washington, havia um congresso sobre a situação dos conflitos em Gaza e Cisjordânia, e pela paz no Oriente Médio... Eu... Estava indo pra lá.

SCULLY: - (OLHA PRA ELA)

RASHEEDA: - Faço parte de um grupo de mulheres palestinas que moram em Londres. Apenas queremos o direito de enterrar nossos maridos e filhos. Queremos ter o direito de dizer o que pensamos, as mulheres de meu povo não podem falar sobre política. É uma guerra de homens. Mas somos nós quem os enterramos e tentamos prolongar sua descendência. Os homens criam as guerras. As mulheres tentam limpar a bagunça.

SCULLY: - Acredito que se o mundo fosse regido por mulheres, a única disputa seria por homens.

As duas sorriem, tentando se acalmar.

Turbulência.

SCULLY: - Há algo errado. Estamos perdendo altitude.

Abdullah aproxima-se. Ergue a arma.

ABDULLAH: - Há um médico aqui?

Scully passa os olhos pelas pessoas. Então se levanta.

SCULLY: - Sou médica.

ABDULLAH: - (SURPRESO) Você de novo, irlandesa? Venha comigo! Yalla! Yalla!

Corte.


O piloto, braço sangrando. Scully faz um torniquete no braço dele.

SCULLY: - Precisava atirar no piloto? Se ele morrer, morremos todos! E vocês morrem sem cumprirem os objetivos!

ABDULLAH: - Ele estava falando o que não devia pelo rádio!

PILOTO: - (GEMENDO) Estava dando as nossas coordenadas para pousarmos na Bulgária! Não vamos conseguir chegar até a Turquia, o leme está avariado! Precisamos pousar na Bulgária! Não posso ficar na altitude que me deram, estamos com despressurização, entende? Precisei descer a aeronave e isso implica que a qualquer momento podemos nos chocar contra outro avião porque os radares não podem nos ver!

Abdullah começa a dar chutes no ar. Scully o observa com medo.

ABDULLAH: - Cuide dele, mulher! Pare de olhar pra mim!

Scully volta a atenção para o piloto. Olha disfarçadamente para Abdullah, que anda preocupado.

ABDULLAH: - Desvie para a Turquia. Não vai pousar esse avião em país católico!

PILOTO: - Não vamos conseguir! Estamos sobre a Bulgária! A aeronave está avariada, não entende? A cauda pode se desintegrar, eu não sei o estrago que fizeram lá atrás!

Abdullah aproxima-se enfiando a arma na cabeça do piloto, com fúria.

ABDULLAH: - Faça o melhor que puder!!! Porque eu vou cumprir meus objetivos nem que você tenha que morrer pra isso! Desvie para a Turquia! Agora!!!!!!!!!

PILOTO: - Não vamos conseguir chegar!

SCULLY: - Por que não desce na Bulgária e exige outra aeronave? Você está no controle por aqui. Pode fazer isso.

ABDULLAH: - ... Desvie para a Turquia.

O piloto começa a mexer nos controles.

PILOTO: - Estamos mortos. Ninguém sabe aonde estamos, alguma aeronave pode colidir ou podemos cair por causa de danos estruturais no leme. Acho que estamos perdendo fluído hidráulico. Espero não entrar em estol.

Corte.


Abdullah observa o piloto. Ahmed mira a arma na cabeça de Scully que está sentada ao fundo da cabine.

PILOTO: - Ainda estamos sobre espaço aéreo búlgaro. Vou tentar contatar a torre na Turquia. Não garanto que consiga.

ABDULLAH: - Faça o melhor que puder, ou começo a matar sua gente, a começar pela ruiva irlandesa e branquela aqui.

O piloto fala pelo rádio.

PILOTO: -Torre Turquia, aqui é o Global 243. Estou com avarias no leme, aeronave travada em glissada lateral para a direita, provável vazamento de fluído hidráulico e despressurização. Solicito permissão para pousar no aeroporto mais próximo em solo turco.

TORRE TURCA (OFF): -Ligue seu transpônder para verificar posição e fornecer coordenadas.

O piloto olha para Abdullah. Ele afirma com a cabeça. O piloto liga o transpônder.

PILOTO: - Transpônder ligado.

TORRE TURCA (OFF): -Aguarde Global 243. Ainda não tenho você.

TORRE BÚLGARA (OFF): - Global 243, temos vocês. Permissão concedida para pousarem em Nevsehir Kapadokya. Aguarde instruções.

O piloto solta um suspiro de alívio.

ABDULLAH: - Não vai pousar na Bulgária. Continue tentando a Turquia.

Scully olha para Ahmed.

SCULLY: - Não precisa ficar com essa arma apontada pra mim. Eu não ofereço perigo.

Abdullah afirma com a cabeça. Ahmed abaixa a arma.

TORRE TURCA (OFF): -Global 243 você não tem permissão para estar nesta rota. Confirma pam pam?

PILOTO: - Negativo. Confirmo Mayday.

TORRE TURCA (OFF): - Sua solicitação para pousar em solo turco foi negada, Global 243. Não podemos autorizar aterrissagem. Contate a Torre Búlgara.

TORRE BÚLGARA (OFF): - Global 243. Está a seis mil pés. Pode aumentar altitude?

PILOTO: - Negativo. Despressurização.

TORRE BÚLGARA (OFF): -Ok. Desça para cinco mil pés de altitude e mantenha posição.

Scully fecha os olhos. O piloto está em nervos.

ABDULLAH: - Todos eles já sabem que o avião foi sequestrado. Querem nos direcionar pra um aeroporto menor.

TORRE BÚLGARA (OFF): - Global 243, siga em APP para as coordenadas que vou lhe passar.

Abdullah senta-se na cadeira do co-piloto e coloca os fones.

ABDULLAH: - Saia da minha frequência, maldito búlgaro! Vamos descer na Turquia!

PILOTO: -(DESESPERADO) Tenho 178 passageiros e oito... E seis tripulantes... Entre eles alguns árabes. Tenho crianças e jovens aqui dentro! Pelo amor de Deus, estamos com avarias na estrutura da aeronave, retorno pode ser fatal!!!!! Mayday, mayday, pelo amor de Deus!!!

TORRE TURCA (OFF): -São ordens do governo, Global 243... (VOZ TRISTE) Se desobedecer e tentar pousar em solo turco será abatido... Não entre no espaço aéreo turco. Fique com a torre búlgara.

PILOTO: -(DESESPERADO) Eu não posso, entendeu? Precisam tentar negociar com seu governo. Temos... Temos islâmicos aqui dentro, seu país é muçulmano! Situação mayday, compreende?

TORRE TURCA (OFF): - (ANGUSTIADO) Sem negociações... A aeronave é inglesa. Está por sua conta, Global 243. Lamento muito.Deus esteja com vocês.

O piloto olha desesperado para Abdullah que desliga o transpônder.

TORRE BÚLGARA (OFF): - Global 243, perdemos vocês, ainda na escuta?

Abdullah desliga o rádio.

PILOTO: -Senhor, acho que não entende a gravidade da situação. A aeronave está avariada, perdemos estabilidade, pressurização, velocidade e posso entrar em estol!!! Preciso de uma equipe técnica. Acabou, não entende? Não vai conseguir seguir seus planos! Podemos pousar na Bulgária! Pode negociar com eles, mas precisa estar vivo pra fazer isso.

Scully fecha os olhos.

ABDULLAH: -Esqueça a Turquia. Continue nossa rota. Só vamos parar em Israel. Estamos quase lá.

PILOTO: -Então me deixe ligar o rádio e tentar a Síria. Depois vamos passar por cima do Mediterrâneo e se cairmos antes, será na água.

ABDULLAH: - Não. Não vamos descer. Estamos numa das melhores aeronaves já fabricadas. E você é um piloto muito bom. Vai conseguir chegar ao nosso destino, mesmo que isso aqui voe aos pedaços.

O piloto desanima. Tenta se concentrar em manter a aeronave voando.

Os jatos americanos passam rente ao avião. O piloto do jato olha para a cabine da aeronave sequestrada. O piloto olha pra ele, em desespero visível. Abdullah com raiva sai da cabine.

O piloto do jato sinaliza para ele descer. O piloto da aeronave acena negativamente com a cabeça, erguendo as mãos e sinalizando seis. O piloto do jato afirma com a cabeça.

Scully levanta-se. Ahmed a impede de sair, com a arma apontada pra ela. O piloto liga o rádio.

RÁDIO (OFF): -Global Airlines 243, na escuta? Confirma seis problemas dentro da aeronave?

PILOTO: - Global Airlines 243, confirmando seis. Sierra Oscar Sierra*. (SOS*)

RÁDIO (OFF): -Aqui é o esquadrão Charlie do exército dos Estados Unidos em colaboração com o governo da Turquia. Vocês estão sobrevoando território turco. Têm permissão para retornarem sob escolta e pousarem na Bulgária. Em quarenta minutos estarão em espaço aéreo sírio e não poderemos garantir sua segurança. Pode fazer isso?

PILOTO: - (FECHA OS OLHOS) November Oscar Tango*. (NOT*) Destino: India Sierra Romeo Alfa Echo Lima (*ISRAEL)

RÁDIO (OFF): -Ok, Global Airlines 243, entendemos sua situação. Aguarde instruções.

Ahmed arranca os fones do piloto. Scully fecha os olhos.

Corte.

Mulder nervoso, observa a rachadura que aumenta de tamanho e o buraco vedado com fita.

[Som de tiros. Gritaria.]

Mulder levanta-se, preocupado. Dois corpos de passageiros americanos e de uma comissária, são jogados pra dentro da cozinha. Abdullah olha pra eles.

ABDULLAH: - Três. Em três minutos eu mato mais três! E vou matar até que seus aviões saiam daqui!

MULDER: - Me deixe negociar com eles!

ABDULLAH: - Eu devia era matar você, maldito yahudi americano!

MULDER: - Precisa descer esse avião! A estrutura está rachando! Depois em terra você pensa o que vai fazer!

Abdullah fecha a cortina. Mulder põe as mãos no rosto. Respira fundo. Levanta-se e aproxima-se da cortina.

JUDEU #2: - Você vai matar a todos nós!

MULDER: - Vamos morrer do mesmo jeito se eu não tentar!

Mulder espia para fora da cortina. Abiah está de costas pra ele. Mulder percebe Khalil mais à frente, atento nas pessoas. Mulder se afasta.

MULDER: - (MURMURA)Droga! É loucura!

RABINO YAREAH: -(MURMURA) Qual a situação? Podemos ajudar.

Todos concordam.

MULDER: -(MURMURA) Se eu pegar o cara, o outro lá na frente vai atirar e sabe lá quantos tiros ele dará e aonde as balas vão pegar. O avião vai virar uma peneira e vamos cair. O outro idiota já fez isso.

MULHER JUDIA: - Estamos mortos... A verdade é essa.

MULDER: - Não estamos não. Aquela rachadura ali é a menor de nossas preocupações.

Corta para o corredor do avião. Abdullah se aproxima de Khalil. Cochicha alguma coisa. Sinaliza para Abiah, Taleb e Mustafá se aproximarem. Conversam em árabe e baixinho entre si.

Mulder espia pela cortina. Então morde os lábios e olha para os judeus ali com ele.

MULDER: - Como eu falei, aquela rachadura ali é a menor das nossas preocupações. Tem jatos lá fora nos escoltando. E agora, os terroristas estão combinando algo. Só quero dizer que se alguma coisa acontecer com a aeronave, a melhor coisa a fazerem é correr para os assentos e apertarem os cintos. Vamos ser realistas, a situação não está a nosso favor. Então precisamos tentar de tudo para sobrevivermos.

Eles se entreolham assustados.

Corte.

Na cabine, o piloto está exausto de tanto forçar o manche que não volta à posição. O torniquete no braço dele dificulta mais. A aeronave continua voando inclinada mais para a direita. Abdullah observa os jatos americanos que acompanham o avião. Scully sentada, mãos em prece e cabisbaixa.

ABDULLAH: - Aonde estamos?

PILOTO: - Ainda sobre a Turquia. Vão nos abater, sabe disso?

ABDULLAH: - Não. Eles não vão nos vencer, não os malditos americanos!!!

Abdullah pega o interfone. Scully pressente algo ruim. Então se atira em cima dele, tentando impedi-lo. Ahmed agarra Scully pela cintura, ela dá pontapés em Abdullah. Ahmed a afasta, Abdullah volta a atenção para o interfone.

ABDULLAH: -(AO INTERFONE) Allahu akbar*!!!! (*Deus é grande!)

Corte.


No corredor, Khalil e Abiah ao ouvirem a voz de Abdullah erguem as armas e começam a comemorar aos gritos de "Allahu akbar!"

Então começam a disparar nas janelas sobre a asa esquerda. As pessoas se agacham nas poltronas e começam a gritar. Alguns tiros ricocheteiam, acertando passageiros. As balas acabam. Eles começam a recarregar as armas.

O rastro de combustível começa a sair da asa do avião. Turbulência.

A histeria e o desespero dentro do avião é coletivo diante da morte iminente.

Casey abraça a esposa. Ela chora calada com o rosto no peito do marido. Ele segura a mão dela, fortemente contra seu peito e a beija na testa. Close nas alianças.

Os pais se abraçam na filha Audrey. Ela não entende o que está acontecendo, segurando a boneca contra o corpo.

O jovem inglês Colin, coloca os fones no ouvido, fechando os olhos, inclinando-se sobre o travesseiro em seu colo.

Os jovens adolescentes japoneses se agarram uns nos outros, em prantos e solidariedade.

Rasheeda coloca a foto dos filhos contra o peito, derrubando lágrimas e orando em islâmico.

Mohandas, canta em hindu o grande mantra da vitória sobre a morte, de olhos fechados, com o japamala (terço) na mão.

Oby segura num aperto a mão da Vovó Thompson, em solidariedade. Close no contraste da mão negra apertando a mão branca da velhinha.

A grávida australiana afaga a barriga chorando, segurando um rosário contra a barriga.

Mike, o boxeador, se levanta num impulso, saindo da primeira classe e agarrando Khalil por trás. O treinador agarra Abiah.

Mulder e o rabino Yareah saem de trás das cortinas correndo, ajudando os dois a segurarem os terroristas. O avião balança, dificultando. Abdullah aproxima-se com a arma atirando na cabeça do treinador. Mike avança neles, mas a turbulência derruba o grandão no chão, por cima do rabino, ao lado de Rasheeda. Abdullah acerta com força a arma na cara de Mulder, que cai por cima de um banco.

Corte.

O piloto tenta desesperadamente manter a aeronave. Scully empurra Ahmed e sai da cabine, segurando-se pelas paredes. Passa pelo Comissário-chefe, McCallister, que está morto sentado numa poltrona, com a embalagem de remédios aberta e vazia, caída sobre suas pernas.

O avião sacode, bagagens vão caindo pelo corredor, gritos desesperados. Pânico completo.

Scully desesperada, tomada de pavor, segue caindo e se levantando pelo corredor gritando por Mulder, indo em direção à classe econômica, ao fundo do avião.

Corte.


Os terroristas continuam atirando na asa. O rastro de fogo consome o combustível e explode a asa esquerda do avião, as pessoas ainda vivas gritam enquanto seus corpos pegam fogo. Alguns voam pra fora da aeronave, incluindo Mike, o boxeador. Mulder agarra-se no assento de Rasheeda, estendendo a mão para o rabino Yareah, que segura firme em sua mão. Rasheeda segura o pulso de Mulder com força. O avião agora vira mais ainda para o lado direito. Mulder arregala os olhos, olhando para o teto que está rachando. Mulder tenta se segurar enquanto percebe que seu corpo fica suspenso no ar, o avião está inclinando completamente para a direita. O fogo passa por cima deles em labaredas rápidas. Os passageiros do lado esquerdo caem por cima dos que estão à direita.

Corte.


Todos os alarmes na cabine soam. O piloto tenta com a força que já não tem mais, posicionar o manche para endireitar o avião, pisa nos pedais, enquanto observa a floresta à sua frente. Não há como pousar de lado. Ele olha para a foto da esposa e dos três filhos no painel. Enche os olhos de lágrimas.

PILOTO: - (CHORANDO/ DESESPERADO) Senhor Jesus, nos salve!

Khalil sentado na cadeira do co-piloto fecha os olhos.

KHALIL: - (SORRI) Allahu akbar! Hoje estarei contigo e colherei os frutos da minha fidelidade.

O avião se aproxima rapidamente do solo. Bate com a asa direita num elevadiço de pedras, arrancando a asa direita, perdendo os motores que sobravam. A fuselagem vai raspando lateralmente pelas árvores altas.

Corte.

[Som: 7 Seconds - Neneh Cherry e Youssou N'Dour]

Câmera alta da floresta e do rastro de fogo e fuselagem por entre o verde das árvores.

Chuva fina, ainda dia. Os pedaços do avião espalhados entre árvores derrubadas, malas, roupas e pertences pessoais.

Foco na arma ao chão, misturada ao sangue na terra, ao lado da boneca de Audrey.

Corpos de pessoas em pedaços e espalhados pelo lugar. Muitos carbonizados. A morte não tem preconceito social.

Sangue de judeus, árabes e americanos mortos. A morte não tem preconceito racial.

Corpos de homens e mulheres. A morte não tem preconceito sexual.

O corpo da australiana grávida morta presa ao assento. O rosário ainda em suas mãos. A Torá semi-enterrada divide espaço com um exemplar do Alcorão. A morte não tem preconceito religioso.

O corpo do piloto destroçado por sobre uma árvore. A foto da esposa e dos filhos voa com a brisa por sobre o corpo morto de Ahmed, com a cabeça decepada.

Nada restou da cabine e da classe executiva. A cauda do avião inteira. Como um milagre.

Nenhum movimento. Apenas barulho da fuselagem que queima, fazendo estalos por causa da tinta e aço e da chuva fina que não consegue apagar o fogo.

A Vovó Thompson, roupas chamuscadas, arrasta-se pela lama, aos prantos e rezando em gratidão. Ao lado dela o corpo morto de Abiah, todo quebrado.

Casey caminha de um lado pra outro, gritando pelo nome da esposa e chorando, em negação. Leva as mãos ao rosto, sentindo a aliança contra a pele.

Rasheeda presa entre as ferragens, chora de dor e grita em árabe alguma coisa, segurando firme a foto dos filhos.

Oby, o negro, tenta empurrar o corpo sobre o seu, com braços e pernas arrancados. O jovem inglês, Colin, estende a mão pra ele, o ajudando.

Mohandas tenta salvar o judeu que agoniza a seu lado. Mas ele morre.

O Rabino Yareah cambaleando, estende a mão para a islâmica Rasheeda, tentando retira-la da fuselagem.

Scully jogada ao chão, no meio da lama, chorando. Bochecha cortada, escoriações pelo rosto e corpo. As roupas rasgadas. Ela olha para as malas espalhadas e para os pedaços de pessoas mortas. Murmura o nome de Mulder, chorando convulsivamente, enquanto agarra com força a lama entre os dedos, inconsolada.

SCULLY: - (GRITA/ DOR/ CHORANDO) Mulder!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

O grito de Scully ecoa pela floresta densa.

Corte.


Movimento por entre bagagens atiradas ao chão e pedaços de fuselagem. Um braço se estende pra fora. Abdullah, cheio de escoriações, sai do meio dos destroços. Cambaleia, tonto.

Close da arma encostando na nuca de Abdullah.

Mulder em pé, terno chamuscado e rasgado, corte na testa, apontando a arma na nuca de Abdullah.

MULDER: - (AOS GRITOS/ COM RAIVA/ FORA DE SI) Filho da puta!!!! Seu filho da puta desgraçado!!!!

Mulder está em choque. Enlouquecido começa a chutar e socar Abdullah. Oby corre até ele o segurando. Mulder, ensandecido solta um urro. Scully vira-se rapidamente, começa a rir e chorar ao mesmo tempo. Levanta-se, tonta, correndo até Mulder. Abraça-se nele.

Mulder parece cair em si. Scully chora. Começa a beija-lo pelo pescoço e ombros, desesperada, como quem adora algo sagrado. Mulder a envolve nos braços, chorando. Os dois recostam as testas, olhos nos olhos, não acreditando que estão vivos.

MULDER: - (SORRI/ EM CHOQUE) Você está viva! Você está viva, Scully?

SCULLY: -(SORRI CHORANDO) Sim, meu amor. A gente tá vivo.

Os dois se abraçam forte, chorando juntos sob a chuva. Mulder a beija na testa. Olha pra ela com amor, tentando consolá-la.

MULDER: -Os palestinos têm razão, Scully. Os judeus são tão desgraçados que não morrem nem em queda de avião.

Scully sorri e cerra o cenho chorando, contra o peito dele. Abdullah tenta se levantar. Mulder o chuta. Ele cai no chão.

Rasheeda grita de dor. Scully solta-se de Mulder.

MULDER: - Vai, doutora.

Scully corre até Rasheeda. Mulder retira o resto de paletó rasgado num puxão. Retira a gravata. Amarra os pés de Abdullah com a gravata. Com uma tira do paletó, amarra as mãos dele, o imobilizando.

MULDER: -(FURIOSO) Eu devia matar você... Quem aqui se importaria? Ahn? Seu filho da puta, desgraçado, seu merda!!!! Olha o que você fez!!!!

Oby corre até Rasheeda. Tenta ajudar o Rabino Yareah e Casey a erguerem a fuselagem. Não conseguem. O jovem inglês Colin corre até eles, ajudando. Eles forçam a fuselagem pra cima. Scully e Yareah puxam Rasheeda. A perna dela com um corte profundo e sangrando. Scully se agacha rapidamente.

SCULLY: - Você vai ficar bem! Ok? Eu sou médica, vou ajudar.

RASHEEDA: - (CHORANDO/ OLHANDO PRO SANGUE NA PERNA) Não, eu não vou... Estou vendo meu osso!

SCULLY: - Vai ficar sim! Seus filhos estão esperando por você! Resista por eles!

A Vovó Thompson passa as mãos nos cabelos de Rasheeda. Scully procura algo com os olhos. Mulder rasga as mangas da camisa.

MULDER: - Estanque o sangue dela com isso. Precisamos procurar mais sobreviventes.

Mulder entrega a arma para o jovem inglês.

COLIN: - E-eu nem sei como isso funciona, eu sou pacifista e...

MULDER: - Basta mirar e apertar o gatilho se esse desgraçado tentar fugir. Acerta aonde conseguir, ninguém vai ligar.

Abdullah olha com desprezo pra Mulder. Colin aponta a arma pra ele. Mulder sai por entre os destroços. Casey e o Rabino vão com Mulder. Scully e a Vovó cuidam de Rasheeda.

OBY: - Eu vou procurar alguma coisa pra recolher água. Vamos precisar. Não podemos desperdiçar essa chuva.

SCULLY: - Faça isso. Ótima ideia.

VOVÓ THOMPSON: - Não podemos deixar os feridos na chuva.

OBY: - Vovó, a cauda do avião ainda serve pelo menos para abrigo. Sobrou a cozinha. Com sorte teremos comida.

COLIN: - Eu ajudo você a tirar o que der e abrir espaço, mas quem vai vigiar o maluco aqui?

VOVÓ THOMPSON: - Me dê essa arma, garoto. Eu cuido dele.

Scully arregala os olhos, enquanto ainda cuida de Rasheeda.

VOVÓ THOMPSON: - Moro no Kansas e crio patos e galinhas. Estou acostumada a atirar em raposas.

Oby e Colin se afastam.Abdullah amarrado e sentado no chão, indiferente.

SCULLY: - (SORRI) Vovó, só não atire na minha raposa.

VOVÓ THOMPSON: - (OLHA PRA ELA) ... ???

SCULLY: - (SORRI) Meu marido. Ele se chama Fox. Fox Mulder.

A Vovó começa a rir. Rasheeda ri com ela.

VOVÓ THOMPSON: - Aquele que não vai mais ser cavalheiro com você, doutora? O animal faminto?


6:12 P.M.

A chuva fina continua. A escuridão da noite se aproxima. Algumas partes da aeronave ainda queimam.

No que sobrou da cauda do avião, Scully cuida dos feridos como uma médica jogada no meio de uma guerra tendo que improvisar tudo. A Vovó Thompson e Oby a ajudam. Scully agachada termina de fazer um curativo com pedaços de roupas no jovem inglês, Colin.

SCULLY: - Então você está de férias, ia encontrar amigos em Washington...

COLIN: - E depois iríamos pra Califórnia... Ai! Meu ex-namorado vive lá. Somos amigos ainda... Sempre quis conhecer a Califórnia. Eles vão surtar achando que estou morto...Valeu, doutora. É reconfortante ter uma médica aqui.

Scully sorri. Levanta-se e passa as mãos nos cabelos dele. Dirige-se a Khalil. A cabeça dele sangrando. Scully pega o álcool das mãos de Oby. Leva um pano com álcool até a cabeça de Khalil. Ele afasta a cabeça.

KHALIL: - Você é americana. Matei alguns dos seus.

SCULLY: - E você é um palestino. Os meus também mataram alguns dos seus.

Scully leva o pano à cabeça de Khalil, limpando o ferimento.

KHALIL: - Por que me ajuda se sou inimigo?

SCULLY: - Porque é um ser humano, respira, tem alma e é meu semelhante. Ou apenas por ética médica, juramento da profissão ou o que você preferir acreditar.

KHALIL: -... Não sou seu semelhante. Sou palestino. Você é americana.

SCULLY: - Por que a cor da sua pele difere da minha? Por que sua crença difere da minha? Me diga se a desgraça entende algo sobre cor e credo? Pequenos nadas, fios de vida que se vão rapidamente, mais rápidos que o orgulho ou que o ódio. Todos de volta ao mesmo barro.

O jovem Colin olha para Scully, ternamente, como quem concorda.

O Rabino Yareah, Casey e o hindu Mohandas aproximam-se. O Rabino ajuda Mohandas a caminhar. Mulder atrás deles. Carregam algumas sacolas de viagem. Colocam ao chão.

MULDER: -Encontramos apenas... Um sobrevivente.

MOHANDAS: - Meu nome é Mohandas... (INCLINA-SE PRA TODOS) Namastê!

Oby ajuda Mohandas a sentar-se. Scully vai examiná-lo.

CASEY: - Aqui estão suprimentos. Recolhemos tudo o que pudemos, mas está anoitecendo e tem muitos destroços espalhados.

MULDER: - Não encontramos água, apenas alguns biscoitos. E um canivete dentro de uma bolsa. Não me pergunte como isso passou pela alfândega.

OBY: - Estamos coletando água da chuva e encontramos algumas garrafas de água, latas de refrigerante e alguma comida na parte de trás do avião.

Mulder abre uma sacola.

MULDER: - Tem um estojo de primeiros socorros e cobertores. E algumas roupas limpas pra você fazer curativos.

SCULLY: - Preciso de uma agulha para suturar a perna de Rasheeda... (PARA O HINDU) Mohandas, você está bem, não quebrou nada. Apenas escoriações. Colin, você pode me ajudar? Se importa de limpar os ferimentos dele? Preciso cuidar de Rasheeda.

COLIN: - Claro!

Colin se levanta.

MULDER: - Tem mais álcool aqui... Um estojo de costura serve?

SCULLY: - Preciso de um isqueiro.

MULDER: - ... Não temos isqueiro. Algum fumante por aqui?

Casey procura pelos bolsos, nada. Khalil leva a mão ao bolso. Retira um isqueiro, entregando para Scully. Todos olham surpresos para o palestino. Scully se dirige a Vovó.

SCULLY: - A senhora consegue me ajudar?

VOVÓ THOMPSON: -(SORRI) Tive cinco filhos na vida. Isso vai ser moleza!

Scully pega a linha e desenrola, juntando fios para ficarem mais firmes. Mulder olha pra Abdullah amarrado e sentando na chuva.

MULDER: - Eu sei o que vão dizer, mas ele é minha responsabilidade agora. E não vou deixá-lo morrer. Ele tem que ficar vivo e pagar pelo crime que cometeu.

CASEY: - Por mim você podia matá-lo. Ninguém aqui vai dedurar você, FBI.

Scully olha pra Mulder.

MULDER: -Castigo pra ele é ficar vivo. Se matá-lo vai dar exatamente o que ele queria: morrer pela causa.

OBY: - Eu não quero ser chato, mas... Precisamos fazer uma fogueira, estamos numa floresta, está chovendo e certamente vai ficar frio à noite.

COLIN: - Fora os mosquitos e os animais selvagens...

CASEY: -Temos que nos organizar até a ajuda chegar. Quem aqui tem treinamento de sobrevivência?

Todos eles se entreolham. Abdullah sorri.

ABDULLAH: - Eu tenho.

CASEY: - Cala sua boca!!! Você não conta!!!

SCULLY: - Temos algum treinamento no FBI.

CASEY: - Você também é agente, doutora?

SCULLY: - Sim. Mas estou ocupada com os feridos.

Todos olham pra Mulder.

MULDER: - B-bem eu... Eu tenho treinamento, mas confio mais no que assisto no Discovery Channel. Alguém aqui assiste?

CASEY: -Temos um líder? Alguma objeção?

Abdullah debochado ergue o braço.

O Rabino Yareah se aproxima correndo, todo molhado da chuva.

YAREAH: - Doutora venha depressa! Tem algo estranho acontecendo!

Scully levanta-se. Mulder levanta-se também. Seguem o Rabino Yareah que se aproxima da australiana grávida que está morta, ainda afivelada na poltrona, segurando o rosário contra a barriga. Scully olha pra ela. Leva a mão ao pulso.

SCULLY: - Está morta.

YAREAH: - Eu juro que ela se mexeu. Porque vi as contas se mexerem, desse... Não sei o nome disso que ela está segurando.

SCULLY: - Rosário...

Scully num impulso leva a mão à barriga da mulher. Enche os olhos de lágrimas, rindo.

SCULLY: - (GRITANDO) Meu Deus! Está vivo! Está vivo!

Os outros correm até ela. Mulder segura o corpo da mulher. Casey corta com o canivete o cinto de segurança que a mantém presa ao assento. Mulder coloca a mulher no chão, com a ajuda de Oby. O jovem Colin ri sozinho, de felicidade. Scully tira o rosário da mão dela e coloca no bolso.

SCULLY: - Tenho que tirá-lo o mais rápido possível! Preciso do canivete! Alguém pode cobrir aqui? Não quero que o bebê se molhe.

Casey sai correndo. Oby pega um pedaço de fuselagem, segurando sobre a cabeça e protegendo Scully da chuva. Scully leva a orelha até a barriga da mulher.

SCULLY: - (OLHOS EM LÁGRIMAS) Ouço as batidas do coraçãozinho dele!

A Vovó Thompson enche os olhos de lágrimas. Casey volta e entrega o canivete pra Scully.

SCULLY: - Preciso de algo pra aquecê-lo!

A Vovó sai correndo atrás de algum cobertor. Mulder se agacha, ajudando Scully, que leva o canivete ao corpo da mulher. Mulder vira o rosto.

Scully termina a incisão, levando as mãos dentro do corpo branco morto, retirando o pequeno bebê de pele morena e vivo. Mulder começa a rir e chorar, emocionado. Oby abre um sorriso.

SCULLY: - (SORRI) É um menino!

O choro vivo do bebê ecoa pela floresta de mortos.


8:11 P.M.

O silêncio só é quebrado pelos estalos da madeira na fogueira. Onze sobreviventes juntos.

A Vovó Thompson mantém o bebê aquecido em seus braços, dentro da carcaça do avião. Mulder e Casey terminam de fazer um toldo com partes da fuselagem para ampliar a área da cauda da aeronave. Os feridos ficam lá dentro, os outros debaixo do toldo. Mohandas cuida da fogueira. Mulder arrasta Abdullah pelas roupas até debaixo da cobertura.

MULDER: - Esquente-se. E comporte-se. Vou admirar você a noite toda, Habib. Se mexer um dedo, vai tomar tapa. Entendeu?

Abdullah sorri debochado pra ele, com o cabelo caindo pelo rosto.

ABDULLAH: - Yahudi... Bint kalb*. (Judeu. Filho da puta.)

MULDER: -Não sei o que diz, mas provavelmente está elogiando a minha mãe. Entende inglês? Fuck you!

Mulder se afasta e senta-se, cansado. Scully se aproxima dele.

SCULLY: - Vou cuidar desse corte na sua testa.

MULDER: -(DEBOCHADO) Não aponte meu corte na testa com a sua bochecha cortada.

Mulder observa os destroços que ainda queimam. A escuridão. Mulder fecha os olhos, angustiado. Scully começa a cuidar do corte na testa dele.

SCULLY: -Conheço o meu marido. Quando ele começa a fugir da realidade fazendo piadas. Aos poucos a adrenalina vai baixar e acontece o que chamamos de "cair a ficha". É normal, ok?

MULDER: - Eu... Eu não sei de onde estou tirando forças pra agir vendo o que estou vendo. E somos agentes do FBI, temos treinamento pra ver todo o tipo de merda... Lá atrás... (VOZ EMBARGADA) Tem pedaços de gente pra todo o lado, Scully... Nem dá pra reconhecer.

SCULLY: - Mulder, você ainda está em choque. Respira fundo, fecha os olhos. Eu que sou médica não consigo ver isso.

MULDER: - Não entendo... Não sei como estamos vivos. Não depois do que eu vi lá atrás... Tudo se desintegrou praticamente, apenas a cauda do avião... Scully, juro pra você, quando aquela asa explodiu, a aeronave começou a se partir, tudo aconteceu rápido, eu sei, mas parece que o tempo tinha parado... Sabia que os tanques de combustível dos Boeing ficam nas asas e na barriga? Pois bem, estávamos sobre a barriga do avião! O avião inclinou completamente pra direita, caímos por cima dos outros, o fogo se espalhava e podíamos ter explodido ou sido incinerados... E todo aquele fogo passava por mim, você sabe o pavor que eu tenho de fogo, eu... Se o avião entrasse em estol, ninguém ficaria vivo, cairia direto ao chão, mas o piloto... O cara foi herói... E-ele conseguiu manter velocidade o suficiente pra não estolar e nem pra atingir o chão com tudo... Acho que ele usou a desvantagem a seu favor, quando a outra asa partiu, diminuindo a velocidade do choque do corpo da aeronave... Infelizmente a parte frontal levou a pior batendo primeiro contra as árvores, se desintegrando e assim diminuindo a velocidade salvando a gente que estava atrás...

SCULLY: - Mulder, pare. Isso foi um milagre, não tente encontrar respostas. E sim, o comandante Müller foi um herói. Eu vi tudo o que ele fez na cabine. Inclusive se comunicando por códigos para informar quantos terroristas estavam no avião e pra onde estávamos indo. Mesmo com um tiro no braço, ele não desistiu daquele manche...

MULDER: - (SORRI/ CANSADO) Pelo menos eu não travei diante do fogo... Eu... Eu reagi.

SCULLY: - Acho que seu pós está ajudando você também, psicólogo...

OBY: - Quantos passageiros havia nesse avião? Alguém sabe?

Scully senta-se ao lado de Mulder. Mulder recosta a cabeça no ombro dela, fechando os olhos.

SCULLY: - Quando estava na cabine ouvi o piloto falar em 180 passageiros e cinco... Contando com o co-piloto e o engenheiro de voo, sete tripulantes. Havia 187 pessoas a bordo.

Casey começa a chorar. O jovem Colin levanta-se e vai até ele. O abraça. Mulder olha pra Casey, apiedado. Olha para Oby.

OBY: - (FECHA OS OLHOS) Há apenas 11 pessoas aqui. Não encontramos nenhum tripulante vivo. Só achamos o hindu ali.

MULDER: - Então... 176 pessoas morreram.

Todos se calam, cada um na sua dor. Mohandas quebra o silêncio.

MOHANDAS: -Sei que existem muitas crenças diferentes por aqui, mas acho que devíamos nos dar as mãos e orar pelos que partiram para que encontrem seu caminho e para agradecer que estamos vivos.

Eles se dão as mãos entre si. Cada um faz sua oração em silêncio. Até Rasheeda deitada estende as mãos segurando a mão da Vovó e de Oby.

Abdullah e Khalil não participam, apenas olham um pro outro.


09:01 P.M.

Partes do avião ainda queimam, iluminando diversos locais da floresta.

Os onze sobreviventes ao redor da fogueira. Doze agora com o bebê.

Scully mantém o bebê em seus braços, o embalando. O rosário da mãe no pescoço do filho. Mulder, com uma faixa de pano na testa, sentado ao lado dela. Mulder olha pro bebê. Sorri.

SCULLY: - O rabino Yareah encontrou duas caixas de leite. Espero que nos encontrem logo. Ele tem muita fome.

Mulder retira uma carteira do bolso. Abre-a. Scully olha pra ele.

MULDER: - A mãe chamava-se Lorena Sawason. Australiana... Hum, tem uma foto do pai aqui.

Mulder retira a foto do casal abraçado, o pai de pele morena, com a mão na barriga da mãe, os dois num sorriso de felicidade. Atrás da foto escrito dentro de um coração: Lorena e Mohamed.

SCULLY: - (OLHANDO TERNAMENTE PRO BEBÊ/ O EMBALANDO) ...

MULDER: - (VOZ EMBARGADA) ... O pai chama-se Mohamed. Não sei se estava no voo...

SCULLY: - Acho que não. Eu a vi na fila de embarque, estava sozinha. Talvez estivesse voltando pra casa... (OLHANDO PRO BEBÊ) Ele é lindo. Que fofura!

Mulder cerra os olhos e os pulsos. Scully olha pra Mulder. Mulder guarda a carteira, perdendo os olhos na fogueira. Scully mantém os olhos nele, como quem o conhece, já prevendo a próxima reação. Mulder começa a chorar. Scully segura a mão dele.

SCULLY: - Mulder... Mohamed Júnior é a prova de um milagre. A prova de que a vida, assim como a morte, é inevitável. Ela pulsa, Mulder. Ela ainda insiste.

MULDER: - Pra que tanto ódio, Scully? Me diz, por quê? O sangue é vermelho pra todos. Olha pra ele. Ele não sabe de nada do que aconteceu. Ele não sabe que a mãe está morta. Pra ele pouco importa se o pai é árabe e a mãe australiana. Se um é católico e outro islâmico ou sei lá o quê! Agora eu vou fazer a pergunta cruel que ninguém fez ainda. Não haviam jatos americanos nos escoltando? Hum? Cadê eles agora? É lógico que sabem aonde estamos, por que não mandam ajuda?

Scully pressente Mulder desabando, então entrega o bebê pra ele.

SCULLY: -Eu não sei, Mulder... Deve ser porque resgates à noite são difíceis, o local de difícil acesso, amanhã cedo certamente as equipes de resgate estarão aqui. Cuide do Mohamed Junior, tá bom? Acho que não se esqueceu como se cuida de um bebê, não é? Eu preciso ver Rasheeda. A perna dela me preocupa. Mantenha-o aquecido com seu corpo.

Mulder toma o bebê nos braços. O bebê olha pra ele, rindo, levando as mãozinhas à boca. Mulder ri chorando, olhando pro bebê.


10:23 P.M.

A Vovó Thompson anda entre os feridos, ajeitando cobertores, afagando suas cabeças como quem os conforta. Colin e Mohandas a ajudam, entregando um biscoito para cada um deles. Casey não aceita. Fica deitado ao chão, olhos perdidos no nada. Colin senta-se ao lado dele e segura sua mão. Casey o empurra.

CASEY: - Saia daqui sua bicha!

Todos olham pra Casey. O jovem Colin, sem jeito, levanta-se e se afasta. Começa a chorar. Oby levanta-se e vai até Colin. Coloca a mão sobre seu ombro.

OBY: - Ele não quis magoar você. Está inconformado pela morte da esposa. Eram recém-casados. Todos aqui perderam alguém ou alguma coisa dentro de si... Vai passar.

Abdullah começa a rir.

ABDULLAH: - Americano Casey, não é seu povo que diz não ter preconceito de cor, sexo e crença? Não são vocês os amiguinhos dos ingleses? Ocidentais idiotas!

YAREAH: - Seu maldito terrorista islâmico! Consegue rir vendo toda a desgraça que causou?

ABDULLAH: - A desgraça é sua culpa, judeu dos infernos! Que Alah amaldiçoe você!!! Você e toda a maldita civilização ocidental com sua dita sabedoria do demônio!!!

MOHANDAS: - Parem com isso, sejam civilizados! Sabedoria é o que vem de dentro do seu coração, é o que você absorve através de experiências, provas e evoluções que sofre! A sabedoria é o mais importante porque aquele que é sábio sabe redimir-se, sabe perdoar, sabe sentir amor, isto sim é sabedoria, é procurar cada vez mais ajudar o próximo para levar consigo sua sabedoria atingindo cada vez mais sua evolução a cada reencarnação.

ABDULLAH: - Besteira! O que você entende de sabedoria e civilização, hindu habitante de caverna que acredita em mais de 330 milhões de deuses e ainda adora animais! Blasfêmia!

COLIN: - Ele entende mais disso do que você, seu assassino terrorista!

ABDULLAH: - Homem que dorme com homem é aberração, seu inglesinho de merda!!!!

CASEY: - O federal devia matar você e pode apostar que eu o ajudaria a fazer isso! Você não tem direito de viver! Minha mulher morreu, ela é quem deveria estar viva no seu lugar! Por sua culpa minha mulher morreu!!!

Casey levanta-se com ódio. Agarra Abdullah pelo pescoço, o asfixiando. Mohandas o impede. Mulder corre até eles, separando os dois.

CASEY: -Maldito desgraçado! Você matou minha mulher!!!! Me solte! Eu quero matar esse palestino filho de um camelo com uma vaca!!!

Abdullah cospe no chão.

ABDULLAH: -Americano desgraçado! Sua raça é uma praga sobre a terra!

KHALIL: - Vocês e esses judeus desgraçados!

Khalil agarra o rabino Yareah pelo pescoço. Oby corre, afastando Khalil do rabino.

KHALIL: - Me solta, negro idiota! Vou matar esse judeu porco!!!!

YAREAH: - Que Ariel Sharon e Bush acabem com a raça de vocês todos!!!! O mundo ficará aliviado!!!!!

SCULLY: - (AOS GRITOS) Parem!!!

ABDULLAH: -(OLHA PRA SCULLY) O Irã vai acabar com vocês! Vai acabar com o maldito ocidente pervertido, descrente e explorador da miséria humana! Vocês vivem de luxo! Vivem de guerras! Vocês oprimem o mundo, fartam-se em suas mesas enquanto matam com fome os países de terceiro mundo!

SCULLY: - Não pode acusar os americanos por tudo o que a América faz!!!!!!

ABDULLAH: -Sou eu quem escolhe seu governo, irlandesa americana? Aposto que acredita em duendes e trevos de quatro folhas enquanto empina todas pelos bares!

MULDER: - (IRRITADO)Controle sua língua suja quando falar com a minha mulher!

OBY: - Ele tem razão. O mundo inteiro foi forçado a chorar pelos seus mortos em ataques terroristas. Mas quem chora pelas crianças da África que morrem de fome todos os dias? Alguém aqui sabe onde fica a África? Sabem que nem todo mundo lá mora na selva? Nem crio elefantes no quintal de casa e nem moro numa choupana!

ABDULLAH: - Quem manda vocês se matarem em guerras tribais? Venderem suas riquezas para os outros?

OBY: - Tribais? Vocês espalharam sua religião no meu continente! E seu ódio também!

MOHANDAS: - O mundo sempre teve civilizações conquistadoras. Como Romanos e Bárbaros. Sempre precisa haver os dois extremos. O equilíbrio das forças. Yin e Yang. Vocês pensam com a matéria. Deveriam pensar com o espírito.

ABDULLAH: -Para quê? Acabou a era da América! Eles ainda vão ajoelhar sobre os destroços de seu país e comerem merda. A merda que deram aos outros!

CASEY: - Não fale assim do meu país!!! Não somos nós americanos quem explodimos carros bombas e matamos crianças em nome de um maldito Deus!!!

ABDULLAH: - Mas metem seus soldados e bases militares nos países dos outros!!!

Abdullah cospe em Casey. Casey se solta. Oby corre até eles e ajuda Mohandas a segurar Casey.

CASEY: - Eu vou matar esse desgraçado!!!

Mulder dá um grito. Todos param, assustados.

MULDER: - Eu me enchi das culpas e desculpas! Eu estou farto de política e religião! Ninguém aqui está certo e ninguém aqui está errado! Eu só quero saber se há gente aqui, gente humana de verdade, que se sair vivo dessa, vai pensar do mesmo modo que pensa agora! Entre 187 pessoas nesse maldito voo, só nós sobrevivemos!

Todos se calam. Mulder está furioso.

MULDER: - Isso não diz alguma coisa a cada um de vocês? A mim diz muito! Nunca mais vou amaldiçoar a minha vida. Eu vou agradecer todos os dias a qualquer Deus, não importa o nome! Vou olhar para qualquer pessoa ao meu lado e lhe sorrir, não importa sua opção sexual! Vou olhar para a raça de cor diferente da minha e respeita-la pelo fato de estar respirando, porque a vida é frágil e a morte não escolhe quem vai levar! Olhem para os mortos espalhados por aqui quando pensarem em perder um segundo da vida discutindo por preconceito e ódio, política e religião! Pensem na chance que tiveram de estar agora aqui respirando! Façam por merecer a vida que não perderam. Eles lá atrás não tiveram essa chance! Nem mesmo o piloto, porque graças a ele, nós estamos aqui ou não teria sobrado nada dessa porcaria toda!

Mulder se afasta, indignado.




BLOCO 3:

A maior parte deles dorme. Scully sentada no chão, olhos na fogueira. Mulder cabisbaixo.

SCULLY: - (OLHANDO PARA O FOGO) Senti orgulho pelas palavras que disse... Eu sempre tive orgulho de você, que vive dizendo que eu sou o seu lado humano, entretanto, você sempre teve um lado humano, Mulder.

MULDER: - ... (CABISBAIXO)

SCULLY: - Não sinta vergonha de ouvir a verdade da sua essência. Sim, eu sempre tive orgulho da sua amizade, mesmo quando não nos amávamos. Eu sentia raiva de quem ofendia e julgava você pelas suas idéias e teorias, pelo seu jeito, pela sua escolha de vida. Você é meu amigo. O maior amigo que eu já tive na vida. Você é a pessoa mais humana e mais atenta, que doa de si mesma para qualquer um, pouco importa se é magoado, mas sempre está ali, pronto para dizer aquela palavra de juízo e alento. Pronto pra perdoar. Um coração nobre.

MULDER: - ... (CABISBAIXO)

SCULLY: - O que nos salva, Mulder, mesmo falando do nosso falido casamento, é a amizade profunda que temos. Pode desabar tudo entre nós dois, mas nossa amizade nunca desaba. Pode o demônio ter nos separado da cama, nos separado da vida a dois, mas não separou nossa ligação de preocupação, de amizade. Amigo respeita, compreende, critica e luta para manter uma amizade, porque nem sempre é fácil ser amigo. É preciso cultivar o jardim da amizade e olhar muitas vezes, com um certo olhar embaçado para não se magoar com o outro. E a nossa amizade está acima de tudo, sempre presente, mesmo quando tudo desaparece. É ela que nos mantém unidos, que nos aproxima de volta, todas as vezes que nos afastamos. Dizer que você é meu amigo, é mais forte e mais profundo do que dizer cem mil vezes que você foi meu marido. Ou que você é meu amante. Nenhuma dessas palavras tem a força da palavra amigo. Porque nossa amizade é amor. Começou desinteressada, por puro amor. Amor maior que amor de casal. Esse é o nosso segredo. Nosso amor transcende o desejo, o casamento...

MULDER: - ... Dizem que os grandes amores começam na amizade, Scully. Pode ser verdade, porque eu nunca tive uma amiga como você.

SCULLY: -Eu creio que é verdade, Mulder, eu também nunca tive um amigo como você, um amigo que sabe o que dizer na hora certa. Que ainda se importa com as pessoas em um mundo onde a humanidade parece ter perdido sua única certeza: de que é areia diante do universo e suas vidas não passam de segundos diante do tempo infinito. E hoje, sabendo da verdade, agora posso entender o quanto deve ser difícil pra você também sabê-la e não poder compartilhar com as pessoas, justamente pela ignorância delas... Eu fico espantada dentro de mim ao ver como todos são cegos... Como eu também era cega. Como as pessoas não ligam uma coisa à outra, elas simplesmente não conectam todos os pontos, porque acham que não há conexão alguma entre eles! Perdem seu tempo defendendo partes com unhas e dentes, deixando o todo de lado!

MULDER: - Entende agora? Experimente dizer pra todos eles aqui que o criador é um extraterrestre, porque ele não é desse planeta e é um só, não criou religião nenhuma com seus dogmas, que criou nesse planeta apenas uma raça, a humana. Colorida, diversificada como toda a sua criação... Eles não vão aceitar. Vão esfolar você viva com a Bíblia, a Torá ou o Alcorão e até o hindu ali vai se sentir ofendido por seu Shiva. O ser humano não tem capacidade ainda pra compreender a verdade, Scully. Vivem na idade da pedra em matéria de amor e caridade, não sabem o que é respeito e nem empatia. Por isso eles se escondem, não querem se mostrar. Não é porque não existam. Imagine você se neste momento alguma nave alienígena descesse nesse planeta? Ahn?

SCULLY: - Assustador. Não pelos alienígenas, mas pela reação dos seres humanos.

MULDER: - Exato! Governos mentirosos que negaram a existência deles cairiam. Religiões cairiam. As bolsas de valores cairiam. O caos seria inevitável. As pessoas entrariam em catarse, fugindo, depredando, matando umas as outras, saqueando tudo com medo do fim do mundo feito um bando de animais. Não, Scully. O ser humano precisa evoluir muito ainda. A reação de agora não seria muito diferente da de quando Orson Welles leu a Guerra dos Mundos pelo rádio em 1938!

SCULLY: - Mulder... Eu sempre vou contestar suas teorias como forma de aperfeiçoamento delas, isso é fazer ciência. Mas depois do que vi, nunca mais vou debochar de você ou ignorar nada, porque eu acredito em vida inteligente em outros planetas.

Mulder desvia o olhar para Scully. A admira, enchendo os olhos de lágrimas. Scully olha pra ele.

MULDER: - Estou feliz que esteja aqui. Feliz por ver você, por ouvir sua respiração. Saber que seu sangue ainda corre, que seu coração ainda pulsa e que você está viva. (SORRI) Amiga.

SCULLY: - (VOZ EMBARGADA) Achei que... Tinha perdido você... Amigo.

Os dois se abraçam com força. Scully toma os lábios de Mulder, o beijando com amor. Os dois ficam abraçados, um ao outro. Scully chora. Olha pra Mulder, tocando o rosto dele com carinho. Mulder sorri pra ela.

SCULLY: - (CHORANDO) Obrigada por existir.

MULDER: - Por que...

Scully silencia os lábios dele com o dedo indicador.

SCULLY: - (CHORANDO) Só estou aqui, viva e respirando porque corri para a cauda do avião procurando pelo meu amigo, meu parceiro, que acabou sendo o meu tudo na vida. Se estivesse na cabine, eu teria morrido.

Mulder a silencia com o dedo indicador. Scully chora. Mulder a abraça com força.

MULDER: - Volta pra casa. Volta pra mim. Acho que ambos aprendemos uma lição e se hoje estamos aqui vivos, há alguma moral nisso a ser aprendida. A morte nos poupou, Scully. Sinal de que a vida nos abençoa.

SCULLY: - Eu não posso encarar você depois de toda a maldade que eu fiz. Depois das coisas rudes que disse, depois de todo preconceito que eu tive contra você e nossa filha.

MULDER: - Scully, não foi sua culpa, eu já disse isso. Mesmo com todas as coisas que aconteceram, você nunca deixou de ser mãe da Victoria, de defende-la. Nem deixou de ser minha mulher, de me proteger, de se preocupar comigo.

SCULLY: - Eu julguei você. Eu o magoei, eu fiz você chorar... (CHORANDO) Eu desprezei o amor puro que você tem por mim. Eu joguei fora o marido, o homem mais sensível que eu já conheci. E dói ainda mais saber que depois de toda a dor que eu causei a você, você ainda me ama com tanta força ou mais ainda.

MULDER: - Não pode mentir que não me ama. Eu vejo nos seus olhos, nos seus gestos e até na sua irritação com as minhas piadas. Eu conheço você, Scully. Conheço todas as suas reações. E todas elas me dizem que você me ama.

SCULLY: - Sim, eu amo você Mulder. Não posso mentir sobre isso, amo você a cada dia mais, amo tudo que vem de você, tudo que você toca, o ar que você respira, o chão que você pisa. Eu amo você Mulder. Amo você de uma maneira mais madura e mais aberta do que eu amava antes. Mas mesmo com tanto amor, me sinto culpada pelas coisas que fiz. Eu não estou pronta.

MULDER: - Entendo a maneira como está se sentindo, mas eu amo você. Minha vida é a sua vida, sua vida é a minha vida.

SCULLY: - (CHORA MAIS AINDA) Ainda me sinto culpada, eu não posso... Eu quero voltar inteira, como a mulher que você merece. Não em pedaços quebrados como me sinto agora.

MULDER: - Tudo bem, Scully.Eu espero... O tempo que for preciso...

Mulder se deita com a cabeça nas pernas dela, fechando os olhos. Scully faz carinhos nos cabelos dele.

SCULLY: - Agradeço a Deus por ter você ainda. Por estarmos vivos. Por poder ter a chance de ver nossa filha de novo... Meu Deus, parece que estou num pesadelo, que vou acordar e...

MULDER: - Agora é você quem baixou a adrenalina...


12:08 A.M.

Scully aproxima-se de Rasheeda, que dorme. Scully olha pra mão dela. Ela mantém a foto dos filhos contra o peito. Scully sorri. Afaga os cabelos dela. Olha em direção aos outros. Passa os olhos em cada um deles. Ergue a sobrancelha num semblante de dúvida. A Vovó se aproxima.

VOVÓ THOMPSON: -Deveria ter-lhe dito algo.

SCULLY: - O que deveria ter dito?

VOVÓ THOMPSON: -Fui enfermeira na Marinha. Mas tive medo de dizer, há muito tempo não pratico enfermagem. Só em patos e galinhas.

SCULLY: - Saiu-se muito bem, vovó.

Scully sorri. Volta a olhar para os sobreviventes.

SCULLY: - Não éramos em doze?

VOVÓ THOMPSON: -Doze com o demente.

A Vovó olha pra Abdullah amarrado que dorme profundamente.

SCULLY: - (CONTANDO COM OS OLHOS) Apenas onze. Alguém saiu daqui?

Scully observa a floresta, desconfiada. Olha para os sobreviventes.

SCULLY: - Onde está o senhor Casey?

VOVÓ THOMPSON: -Talvez tenha se afastado para chorar.

Scully abaixa a cabeça.

SCULLY: - Posso imaginar a dor que ele sente, que nada neste momento, nenhuma palavra ou gesto poderá calar a dor de perder sua companheira.


12:23 A.M.

Scully deitada contra Mulder, mantendo o bebê aquecido entre eles. Mulder olhos abertos. Scully não consegue dormir. Olha para a floresta escura.

MULDER: - Estavam ao nosso lado.

SCULLY: - ... Do que está falando?

MULDER: - Do nosso povo. Aviões americanos estavam nos seguindo. Ainda estou intrigado. Poderiam ao menos ter sobrevoado mais baixo depois da queda para averiguar os danos...

SCULLY: - ... Isso está me incomodando também, Mulder.

MULDER: - O rastro de fogo ainda está aí. Eles podem avistar lá de cima. Por que não nos resgatam? E não me venha com essa de que resgates são difíceis em florestas. São, mas muitas horas já se passaram. Alguém já deveria ter chegado.

SCULLY: - ...

MULDER: - Sabe aonde estamos?

SCULLY: - Talvez na Turquia... É, eu lembro que o piloto falou em estar sobre a Turquia.

MULDER: - ... Acham que morremos. Cadáveres são problema de quem os encontra. Eu arrisco minha vida todos os dias em nome da minha pátria. Quando preciso dela, aonde está? Matando terroristas? Bombardeando o Iraque por causa do petróleo? Criando mais ódio?

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - Estou com raiva, Scully. Não me culpe por isso. Não me culpe por julgar as coisas, por questionar. Eu não tenho mais fé em nada que seja considerado sistema. Não tenho mais fé na humanidade, em pátrias, bandeiras e crenças. Eu tenho apenas fé na minha família. Só acredito nisto. (OLHA PRO BEBÊ) E nessas coisinhas aqui que podem mudar o mundo.

SCULLY: - (SORRI) Mulder, tente dormir.

MULDER: - Se agentes do FBI são tratados assim, me pergunto como tratam qualquer um. Eles sabem que estávamos no voo. Daria tudo agora por uma televisão ou um rádio pra ouvir o que estão falando sobre nós.

Gritos. Scully levanta-se rapidamente. Mulder também. Mulder pega a arma e corre até os sobreviventes. Olha para Abdullah. Ainda amarrado.

Rasheeda aos gritos histéricos, chorando e apontando pra floresta. Scully se aproxima. Mulder olha pra floresta e vê algo indefinido correndo e sumindo entre as árvores.

SCULLY: - Vovó, tome conta do bebê!

Scully pega rapidamente a lanterna das mãos da Vovó. Ela e Mulder adentram a floresta. Mulder atento com a arma na mão.

MULDER: - O que está havendo?

SCULLY: - Não sei...

Barulho de algo correndo. Mulder e Scully nervosos. Olham pra todos os lados. Scully mira a lanterna pelas árvores.

MULDER: - Não estou gostando disso.

SCULLY: - (MIRANDO A LANTERNA NO CHÃO) Mulder...

Mulder olha pro chão.

Close nas pegadas enormes em forma de pés de ave. Mulder olha pra Scully incrédulo.


12:49 A.M.

Mulder e Scully saem da floresta. Os sobreviventes olham assustados pra eles.

OBY: - Onde está Casey e o Hindu?

MULDER: - Não sabemos. Quero todos juntos. Ninguém deve se afastar sem levar outra pessoa consigo.

YAREAH: - O que está acontecendo?

MULDER: - Não sei. Preciso de mais gente acordada, por turnos, para vigiar os outros. Há alguma coisa solta pela floresta, algum tipo de animal.

COLIN: - Urso??? Leão?

MULDER: - Não sei. Mas precisamos tomar conta uns dos outros, pouco importam as diferenças.

Mulder senta-se ao lado de Scully. Ficam um pouco mais afastados dos outros.

MULDER: - Não vamos causar pânico entre eles porque a situação já está ruim... Mas oque era aquilo?

SCULLY: - E-eu não sei. Pés de aves são extremamente variáveis em forma e tamanho, o que é um reflexo dos respectivos hábitos de vida. Mesmo que seus antepassados répteis tivessem cindo dedos, a maior parte das aves tem apenas quatro ou três e o avestruz dois.

MULDER: - Não era avestruz, tinha três dedos. E não acredito que seja menor do que uma. Pelas marcas tinha garras. E desconheço avestruz com garras.

SCULLY: - Apenas aves de rapina possuem garras. Para segurar as presas.

MULDER: - (PÂNICO) Que ave de rapina teria um tamanho desses e força pra puxar um homem?

SCULLY: - Mulder... Melhor não pensar. Eu faço o primeiro turno. Amanhã cedo, quando o sol surgir, verificamos melhor e vamos procurar ajuda para sair daqui. Está noite, estamos sob circunstâncias de estresse emocional e isso tudo contribui para vermos o que não existe.

MULDER: - Acha que estamos sob efeito de estresse? Eu sei o que vi, Scully!

SCULLY: - Mulder... Durma. Deve haver alguma aldeia, alguma cidade por aqui. O resgate vai chegar amanhã cedo. Eles vão ter que vir, terão de vir, mesmo achando que morremos, para resgatarem os corpos, entende?

Mulder olha pra ela. Deita a cabeça em seu colo. Scully acaricia os cabelos dele. Mulder fecha os olhos.

MULDER: - Ainda sabe cuidar de mim, Scully?

SCULLY: - Está falando com 'Scully Fu', meu 'Bruce Willis, duro de matar'. Quando as circunstâncias exigem, viro até a Mulher Maravilha.

MULDER: - (SORRI DE OLHOS FECHADOS) Você é a mulher maravilha.

Scully sorri ternamente. Continua afagando os cabelos de Mulder, atenta à floresta.


6:42 A.M.

Mulder com as mãos na cintura, observa o local da queda. Corpos, restos de fuselagem, bagagens, espalhados por quilômetros. Casey ao lado dele.

CASEY: - Eu sei que já pensou na sorte que tivemos quando olha pra isso aqui e percebe que não haveria como alguém sobreviver a uma queda dessas.Fala FBI. Eu sei o que está pensando. O mesmo que estou pensando. Aonde está o resgate. Estamos há mais de doze horas aqui e aqueles caças americanos não voltaram nem pra sobrevoar a área destruída.

MULDER: -Talvez não tenham permissão. Estamos em outro país, provavelmente na Turquia.

CASEY: - Ok... E a Turquia não tem força aérea pra verificar isso?

MULDER: - Supondo que pensem que não há sobreviventes. Todos sabiam que o voo foi sequestrado. Sabem que caímos. Sabem aonde caímos, porque nossos jatos estavam lá em cima e devem ter informado o governo turco... Certamente os turcos têm um órgão responsável pela aviação civil, como temos a FAA. Deveriam ao menos vir para recolher os destroços e investigar a queda.

CASEY: - Ou não ligam pra nós, porque a empresa é inglesa?

MULDER: - Boa pergunta. A Global Airlines sabe que perdeu uma aeronave. Existem familiares desesperados nos aeroportos de Washington e Heathrow. Eles vão ter que dar conta dos corpos... Por que a empresa então não se envolveu? Porque não pressiona o governo turco?

CASEY: - E sabemos se não está pressionando? Quem sabe a coisa toda é política e nesse momento estão negociando o resgate dos nossos restos?

MULDER: - Não faz sentido. Mesmo que fosse política, o governo turco teria vindo procurar sobreviventes por conta própria. Ou pelo menos teriam vindo pra checar o estrago. Droga! Nunca valorizei um simples rádio de pilha e agora daria tudo pra ter um!

Colin se aproxima entregando dois copos de café pra eles.

COLIN: - Achei café. Peguem.

Colin sai. Casey abaixa a cabeça.

CASEY: - Fui ignorante com o boiolinha aí... Devo desculpas. Ele é um garoto legal.

MULDER: - É... Só busca aprovação.

CASEY: - Bom, ele não pode esperar que todos concordem com a preferência sexual dele. Pode exigir respeito, mas concordância...

MULDER: - Não falo disso. Com o choque traumático dessa queda, ele deve ter se sentido sozinho, sem referência. Então se apegou em você, tipo o pai dele e na minha mulher como a mãe. Quer agradá-los, ser aprovado, ajudar, ser útil, como um filho faz em troca de atenção e proteção.

CASEY: - (SURPRESO) Isso é sério, FBI? Como sabe disso?

MULDER: - Psicologia é algo muito sério, Casey. Eu também sou psicólogo.

CASEY: - Agora você me deixou culpado, Mulder. Vou lá pedir desculpas ao garoto.


7:32 A.M.

[Som: Rachid Taha - Ya Rayah]

Mulder e Scully andam pela floresta, seguindo as enormes pegadas de três dedos.

MULDER: - Seja o que for é ágil. Bem ágil.

SCULLY: - Extremamente ágil. Veloz. Veja a distância das pegadas, indicando a altura... Eu diria que tem uns dois metros de altura.

MULDER: - Ok, Scully. Sobrevivemos a queda de um avião cheio de terroristas e acabamos numa floresta com algum avestruz de dois metros de altura que não tem hábitos vegetarianos. Por que sempre essas coisas acontecem com a gente? Não deveríamos ser nós a perseguir os Arquivos-X? Então por que eles nos perseguem?

SCULLY: - (OBSERVA AS ÁRVORES) O que acha que estamos procurando? Mulder, não existem aves de rapina de dois metros de altura!

MULDER: - Um pterodátilo?

SCULLY: -(ERGUE OS OLHOS/ SUSPIRA) Anda assistindo Jurassic Park em demasia, Mulder. Não estamos no Elo Perdido. Além do mais, aves de rapina não costumam andar por aí. Elas voam. Algumas aves que raramente vêm a terra, como os pufinos e os andorinhões, possuem pernas tão frágeis que para elas a marcha, além de difícil, pode mesmo ser impossível. Os pés das aves de rapina estão equipados com garras e tão bem adaptados para segurar as presas que as aves têm dificuldade em andar.

MULDER: - Mas a nossa anda, Scully. Pode ser alguma mutação. E caça à noite.

SCULLY: - Não sabemos, Mulder. Existem aves de rapina diurnas.

Mulder para. Olha pro chão, erguendo o pé. Acabara de pisar em uma bola de massa orgânica.

MULDER: - Me diz que isso é caca de elefante.

SCULLY: - Não há elefantes aqui, Mulder.

Scully agacha-se. Observa. Pega um pedaço de graveto, revirando a massa orgânica.

MULDER: - O que está fazendo?

SCULLY: - (OLHA PRA CIMA/ OLHA PRO CHÃO) Mulder, é uma ave de rapina. Não sei como, mas é. Aves de rapina eliminam o alimento não aproveitado pelo organismo em forma de regurgitação, não em forma de fezes.

MULDER: - (PÕE A MÃO NA BOCA/ AFASTA-SE) Isso é vômito?

SCULLY: - São pelotas de fragmentos alimentares. Se eu tivesse equipamento adequado poderia dizer a você qual foi a ultima refeição...

Scully ergue o graveto. Na ponta dele algo que se parece com fios de cabelos humanos. Scully observa incrédula.

SCULLY: - Mulder... Vamos dar o fora daqui.

MULDER: - Isso é cabelo humano? Scully está me dizendo que há uma ave de rapina que se alimenta de carne humana?

SCULLY: - Notou a ausência de animais? Não há ruídos de animais. Não ouvi nenhum ruído à noite, nem mesmo de predadores. Mulder seja o que for, essa coisa é sedentária. Esgotou as reservas alimentares e agora encontrou uma rica fonte de alimento.

MULDER: - Por que não sumiu nenhum cadáver?

SCULLY: - Aves de rapina não comem mortos, Mulder. Comem coisas vivas, que podem caçar.

MULDER: - E os urubus?

SCULLY: - Urubus não são aves de rapina, embora muitos acreditem que sejam.

MULDER: - E-essa coisa caça a noite, guiando-se pela audição. Não é assim que funciona?

SCULLY: - Sim, pois rapinas noturnas possuem olhos tubulares, onde acomodam uma lente córnea muito espessa que reduz o campo de visão, torna os olhos imóveis permitindo apenas um ângulo de visão muito pequeno em comparação aos humanos. Esta deficiência é compensada pelo pescoço muito flexível, que permite rodar a cabeça totalmente para trás. Os ouvidos são extremamente sensíveis às altas frequências.


8:11 A.M.

Scully e Mulder se aproximam do local da queda. Repentinamente, algo acerta a cabeça de Mulder, que deixa a arma cair ao chão. Scully tenta pegá-la, mas Khalil chuta a arma e segura Scully pelos braços. Abdullah pega a arma e mira em Mulder.

ABDULLAH: - (SORRI) Agora eu sou o líder, yahudi do FBI. "Habib" manda, "yahudi" obedece.


8:21 A.M.

Mulder e Scully amarrados, um de costas pro outro. Khalil os vigia, bem como aos outros sobreviventes. Os homens estão amarrados.

MULDER: - Vocês são uns imbecis!

ABDULLAH: - Cala a boca, yahudi!

MULDER: - Eu não sou judeu! Sou americano, não nasci em Israel e não sigo a religião judaica! Não tenho droga nenhuma a ver com a porcaria da guerra de vocês!

SCULLY: - Mulder...

Abdullah sentado ao chão, verificando um mapa. A Vovó o observa, cuidando do bebê. Apenas ela e Rasheeda estão soltas. Rasheeda desacordada.

SCULLY: - Aquela mulher é do seu povo e precisa de cuidados. Temos que organizar um grupo pra buscar ajuda! Ela não vai sobreviver por muito tempo.

ABDULLAH: - Ninguém sai daqui.

Khalil aproxima-se de Abdullah. Os dois falam em árabe, olhando pro mapa.

MULDER: - Sabe aonde estamos? Eu não acredito que esse tempo todo você sabia aonde estávamos! Por que não disse antes?

ABDULLAH: - (IRRITADO) Akhrasi, yahudi! Cale a boca ou vou aí calar pra você!

MULDER: - Seu idiota! Tem uma coisa à solta nessa floresta que se alimenta de homens! Vai matar a todos se nos deixar presos aqui!

Abdullah se levanta e acerta uma coronhada na cabeça de Mulder. Scully grita. Mulder desmaia por cima dela. Scully empurra as costas, tentando suportar o peso de Mulder.

SCULLY: - Seu cretino! Ele tem razão vamos morrer todos aqui!!! Devemos nos unir enquanto seres humanos porque há um predador da nossa espécie naquela floresta!

Abdullah continua falando em árabe. Khalil acena afirmativamente com a cabeça. Coloca o canivete no bolso e toma a floresta.

ABDULLAH: - Não vamos morrer. Logo um grupo de amigos estará aqui. Seu povo os abandonou, mas o meu jamais me abandonará. Khalil vai atrás deles. Eles virão nos buscar.

Scully fecha os olhos.

ABDULLAH: - Vou soltar você, doutora americana irlandesa. Cuide daquela mulher. Se ela morrer, você morre. E se bancar a agente do FBI, eu mesmo terei o prazer de esganar seu pescoço de mulher infiel.


6:17 P.M.

Abdullah caminha preocupado, comendo frutos silvestres. Mulder sentado e amarrado. Os outros estão nervosos.

CASEY: - Como assim uma ave de rapina?

OBY: - Pássaro gigante?

Scully troca os curativos de Rasheeda.

SCULLY: - Parece pegadas de pássaro, mas não sabemos o que é. Mas se alimenta de carne humana e achou um lugar com comida disponível.

COLIN: - Essa coisa come cadáveres?

MOHANDAS: - Rapinas caçam, amigo. Não comem mortos.

ABDULLAH: - Calem a boca!Ou vou amordaçar vocês todos!

Eles se calam. Mulder começa a rir alto.

MULDER: - Idiota. Seu amigo não teve chance com essa coisa.

ABDULLAH: - Cale a boca! Ele vai voltar!

MULDER: - Ele não vai voltar e você sabe bem disso! Está anoitecendo. Aquela coisa vai começar a caçar. Você é um grande idiota, Habib! Somos um banquete disponível!

YAREAH: - Ele tem razão.

ABDULLAH: -Por que vocês judeus não calam a boca? Por que falam tanto? Não há nada na floresta, vocês querem me assustar! Não vão conseguir isso!

SCULLY: - Não entende? Não há motivo algum para o que está fazendo! Precisamos nos unir ou não teremos condições de sobreviver! Precisamos de água e alimentos. Precisa de nós todos pra conseguir isso!

ABDULLAH: - Eu não preciso de judeus e muito menos de americanos!

MULDER: - Scully, desista de falar com esse cara. Ele não entende nada sobre união e amor ao próximo. Em compensação abaixa o rabo todos os dias pra saudar Alah.

Abdullah aponta a arma na cabeça de Mulder.

ABDULLAH: -Pense duas vezes antes de ofender Alah, seu judeu porco!

MULDER: - Não sou judeu porco! Judeus odeiam porcos!

SCULLY: - (ASSUSTADA) Mulder!!!!!!!

ABDULLAH: - Não comem porcos porque não são canibais de sua própria espécie.

Mulder abre a boca pra revidar, Scully mete uma cotovelada nele. Abdullah se afasta.

YAREAH: - (RINDO) ... Mulder, você não é judeu mesmo. Se fosse judeu, teria revidado mesmo sob pena de uma bala.

Scully arregala os olhos, incrédula.

YAREAH: - Mulder... Não conheço nenhum Mulder em Israel. Conheço um ou dois Mulder pelo mundo, mas não são judeus. É judeu russo?

MULDER: - Não tenho nada a ver com esses Mulder. Meus avós se estabeleceram na Alemanha depois da primeira guerra. E pra ficar na Europa eles precisavam de sobrenome para terem direitos civis, coisa que não tinham, viviam em tribos...

YAREAH: - Sim, eu sei. Se conheciam por "sou o filho do fulano, neto do fulano, da casa do fulano"... Só nosso povo pra entender e diferenciá-los.

MULDER: - É. Então precisavam criar um sobrenome. Pegaram o nome do rio que ficava ao lado da propriedade que o governo alemão emprestou em troca de trabalharem a terra. Então não vai encontrar nenhum outro Mulder judeu por aí. Hitler acabou com todos eles.

YAREAH: - Quem escapou da guerra, Filho do rio Mulde?

MULDER: - Meu pai, nasceu na Alemanha no dia em que a guerra acabou.

YAREAH: - Então você tem linhagem judaica direta. Sabe que pode reivindicar seus direitos em Israel? Eu faço voluntariado com isso, sou professor aposentado de arqueologia da Universidade Hebraica de Jerusalém.

MULDER: - (SORRI SURPRESO) Sério?

YAREAH: - Sim. Esse velho aqui encaminha assistência aos descendentes judeus que perderam suas famílias e bens na segunda guerra mundial. E também ajudo a catalogar pertences judeus que encontraram e ainda encontram pela Europa e tento encontrar as famílias a quem pertenciam. Muita coisa acaba nos museus por não encontrarmos os donos. Mas quando encontramos é uma emoção enorme. Como um bisneto que nunca conheceu seus bisavós e de repente tem em mãos uma foto, um relógio que era deles... É sempre comovente. Porque ser israelita não significa ser judeu. Ser judeu é ter o sangue, a crença, os rituais, obedecer as leis de Deus, de Moisés. Quando quiser, fale comigo. Será um prazer apresentar pra você a terra dos seus antepassados.

ABDULLAH: - Minha terra, você quer dizer.

Abdullah olha pra Vovó Thompson.

ABDULLAH: - Vá buscar lenha pra fazermos uma fogueira.

YAREAH: - Me deixe ir com ela. Não pode arriscar a vida de uma mulher. Em alguma coisa nossos povos concordam: cavalheirismo.

ABDULLAH: - Se fugir, eu mato os outros.

YAREAH: - Pra onde um velho como eu fugiria? Nem tenho mais pernas boas pra fazer isso!

Oby ri. Abdullah olha pra ele. Oby fica sério. Colin é quem ri agora. Oby o cutuca. Abdullah solta o Rabino Yareah. Ele levanta-se, saindo ao lado Vovó.


7:31 P.M.

Fogueira acesa. Abdullah sentado ao lado da fogueira, rezando em voz baixa. Scully sentada ao lado de Mulder. Mulder tenta afrouxar as cordas.

MULDER: - (COCHICHA) Quando eu sair daqui vou esganar esse habib. Vou fazer quibe cru desse infeliz.

SCULLY: - (COCHICHA) Mulder, por favor. Deixe sua pontinha de sangue judeu de lado. Aliás, acho que o rabino está tentando converter você.

MULDER: -(COCHICHA/ DEBOCHADO) Lamento, Scully. Não abro mão do bacon. Sem chance.

Scully fica parada olhando pra alguma coisa na floresta. Arregala os olhos, boquiaberta. Mulder continua afrouxando as cordas.

MULDER: - (COCHICHA) Estou amarrado, sabe Deus aonde, com o Bin Laden rezando do meu lado e um falcão de dois metros de altura me espreitando. Eu sou o sujeito mais sortudo do mundo!

SCULLY: - (COCHICHA) Mulder... Não é um falcão.

Mulder para. Scully observa algo, percorrendo os olhos pelas árvores.

MULDER: - (COCHICHA) O que quer dizer com isso?

SCULLY: - (COCHICHA) Olhe para cima. Na árvore mais próxima.

Mulder dirige a atenção para as árvores. Percebe a criatura, pés com garras de águias, forma humanoide, com um bico pronunciado, coloração marrom, agachada e camuflada no galho da árvore.

MULDER: - (COCHICHA/ PÂNICO) Scully...

SCULLY: - (COCHICHA/ IMPRESSIONADA) Não é um pterodátilo.

MULDER: - (COCHICHA/ APAVORADO) Scully... I-isso nem deve ser... da Terra!

Várias criaturas surgem sobre as árvores, saindo do escuro. Agachadas e pousadas sobre os troncos, observando eles com seus olhos vermelhos. Scully olha pra todos e pede silêncio com o dedo sobre os lábios. Eles nada entendem.

MULDER: -(COCHICHA) Habib!

Abdullah continua rezando.

MULDER: - (COCHICHA) Ei, habib!!!!

Abdullah olha pra ele, irritado.

MULDER: - (COCHICHA) Não olhe agora. Tem mais alguém aqui que gosta de quibe cru.

Abdullah olha pra ele. Mulder está pálido, olhando pras árvores. Abdullah olha pras árvores, arregalando os olhos. Grita algo em árabe e começa a atirar nas árvores. As criaturas somem pelos galhos.


7:48 P.M.

Scully solta as pessoas. Mulder esfrega os pulsos, olhando pra Abdullah.

MULDER: - Imbecil, você esvaziou a munição toda naquelas coisas! Agora não temos como nos defender!

Abdullah inclinado no chão reza, ergue o corpo e olha pros céus.

MULDER: - Alah não vai ajudar você. Levanta daí e ajude a manter essa fogueira acesa!

COLIN: - (ASSUSTADO) Atacam à noite. Precisamos sair daqui!!!!

MULDER: - Não vamos encarar essa floresta à noite. Amanhã cedo, partiremos daqui.

SCULLY: - Estamos todos muito abatidos, sem comer e beber direito. E aquelas coisas se escondem na floresta. Não vamos conseguir chegar a lugar nenhum durante a noite. Precisamos ter calma.

CASEY: - (ASSUSTADO) Calma? Há monstros nessa floresta que já devoraram um de nós!

OBY: - Eles têm razão. Não teremos chance contra essas coisas nas condições físicas em que estamos. Melhor ajudarmos a construir uma padiola para a senhora islâmica e juntar cobertores e coisas úteis para sobrevivermos a jornada.

VOVÓ THOMPSON: -Não podemos continuar esperando o resgate e nem ficar nessa floresta. Deve haver alguma cidade por aí.

ABDULLAH: - Cadê seu povo americano? Eles estavam lá em cima, sabem que estamos aqui!

MULDER: - (OLHA PRA SCULLY) Agora entendo porque o resgate não veio. Porque nos abandonaram. Eles devem saber aonde caímos e na companhia de quem estamos.

SCULLY: -(INDIGNADA) Não, espera aí. Mulder, você está dizendo que os americanos e os turcos sabem dessas criaturas e por isso mesmo não vieram nos resgatar?

CASEY: - Concordo com o FBI. Aí está a explicação que a gente não encontrava!

YAREAH: - Mas o que eram aquelas coisas?

MULDER: - Não sei, mas acho que não são desse planeta.

ABDULLAH: - O que quer dizer com isso?

MULDER: - Que precisamos um dos outros. Que essa briga deve parar. Que há apenas a raça humana aqui tentando sobreviver a uma espécie não humana. Ou vocês todos se ajudam ou não sobreviverá ninguém aqui, seja americano, judeu ou árabe! O inimigo real está nessas árvores. Não entre nós.

MOHANDAS: - Concordo.

MULDER: - Você sabe aonde estamos, Habib. Você tem um mapa. Precisamos dele pra dar o fora daqui! Então? Podemos nos ajudar?

O jovem Colin se aproxima.

COLIN: - Preciso que encontrem o rádio. Encontrem o rádio e eu conserto.

MULDER: - Entende algo disso?

COLIN: - Se a minha sexualidade não interferir, porque sou apenas um miserável da raça humana que fez um curso de eletrônica por correspondência.

Abdullah encara Mulder. Então ergue a mão como quem diz "tanto faz".

8:13 P.M.

Todos sentados perto da fogueira. Ninguém diz nada. Assustados, algumas vezes olham para as árvores. Colin observa Scully.

COLIN: - Doutora, o que era aquilo?

SCULLY: -Só posso especular, Colin. Pelo que vimos, só caça à noite. E em bando.

MOHANDAS: - Se são alguma espécie desconhecida ou uma mutação... Como vamos nos defender?

SCULLY: - Pelo que Mulder e eu vimos na floresta, esses animais se assemelham as aves de rapina. Regurgitam alimento não digerido em pelotas. Ouso dizer que rapinas noturnas.

MOHANDAS: - Mas rapinas caçam em bando?

SCULLY: - Existe uma espécie de gavião que faz isso. Eu não sou perita no assunto e nem sei com o que estamos lidando. O que sei é que precisamos ficar juntos. Como um grupo. É mais difícil para o predador caçar um grupo, ele sempre vai tentar separar uma das presas.

Casey abaixa a cabeça, nervoso.

SCULLY: - Rapinas noturnas se guiam pela audição. Portanto, vamos manter o silêncio que for possível, para não nos localizarem. Lógico, estou especulando, não sei se essas criaturas não possuem visão noturna. Não sabemos realmente o que elas são.

MULDER: - Fogo.

SCULLY: - Como assim?

MULDER: - Se essas coisas se guiam por audição, visão, sei lá o quê, todos os animais não gostam de fogo. Precisamos manter essa fogueira acesa. E se vamos sair daqui durante o dia, precisamos levar algo para fazer tochas. Podemos não encontrar a civilização e ter que passar mais uma noite na floresta. O fogo é a única arma que temos.

Abdullah concorda com a cabeça.




BLOCO 4:

Scully constrói uma padiola com a ajuda de Oby.

SCULLY: - Entende bem dessas coisas.

OBY: - Fiquei dois anos no Timor Leste como voluntário. Sou professor de português e africâner, também de informática e algumas vezes preciso ser enfermeiro.

SCULLY: - Mora em Washington?

OBY: -Moro na Angola. Estava em Londres para juntar-me com colegas de movimentos pela paz mundial, que estavam indo para Washington, para a convenção sobre a situação em Gaza. Acho que todos os não-americanos que estavam no voo tinham o mesmo destino... Ironia, não? Você pega um avião para lutar pela paz no mundo e termina morrendo vítima do terrorismo.

Rasheeda cuida do bebê. O Rabino Yareah, Casey, Mohandas e a Vovó vigiam as árvores.

Mulder aproxima-se de Abdullah, sentado ao lado da fogueira. Abdullah retira o mapa das roupas. Abre-o no chão. Mulder agacha-se ao lado dele.

ABDULLAH: - Estamos aqui, neste ponto.

MULDER: -Então estamos mesmo na Turquia.

ABDULLAH: - Na fronteira da Turquia com a Bulgária.

MULDER: - Calcula que a pé caminharemos quantas horas até a cidade mais próxima?

ABDULLAH: - Mais de 24 horas. Estamos nas montanhas. Certamente teremos mais uma noite no meio dessa floresta. Você tem razão, precisaremos levar o que encontrarmos de inflamável para fazer fogo.

MULDER: - (SUSPIRA) ...

ABDULLAH: - Se esse rádio que o inglês está tentando construir funcionar, posso conseguir ajuda com alguns amigos que estão mais perto. Eu conheço a Turquia. Posso guiar vocês pela floresta, claro, se a sua lavagem cerebral patriótica lhe permitir ser salvo por islâmicos.

MULDER: - Dispenso seus amigos. Não vou confiar em você pelo mesmo motivo que usa contra os americanos. A lavagem cerebral patriótica que você acusa em nós é a mesma lavagem cerebral religiosa que fizeram com vocês.

ABDULLAH: - Estamos todos no mesmo barco, yahudi. Com a diferença de que se eu for pra Bulgária, serei preso. Se vocês foram pra Turquia, eu ficarei livre e vocês também.

Mulder levanta-se. Aproxima-se de Scully.

MULDER: - Estamos na Turquia.

SCULLY: - População islâmica.

MULDER: - Como vamos sair de uma floresta com um rabino judeu, um negro pacifista, um inglês gay, três americanos democratas e pedir socorro pra turcos muçulmanos?

SCULLY: - Conhece o dito se correr o bicho pega, se ficar o bicho come?

MULDER: - Como você é animadora, Scully. Seu otimismo me revolta o estômago!

SCULLY: - Vai regurgitar pelotas, Mulder?

MULDER: - Melhor eu ficar quieto. Em outra oportunidade eu digo que tipo de sujeira eu gosto de fazer.

SCULLY: - (MURMURA) Quando chegarmos em Washington, quer tomar banho e dormir comigo?

MULDER: - Acho melhor mudarmos o país. Que tal chegarmos na Bulgária e fazer isso?

SCULLY: - Estamos perto da fronteira?

MULDER: - Não. Calculo que levaremos dois dias até a fronteira búlgara. Um dia até a cidade turca mais próxima. Prefere búlgaros católicos ou turcos islâmicos?

SCULLY: - Voto na Bulgária, Mulder. Mas...

MULDER: - Tenho medo de Abdullah. Não vou confiar no que ele vai contar aos turcos. Ninguém aqui fala árabe, só ele. Temos vidas em nossas mãos, Scully. Um bebê entre elas. Eu não quero que estejam armando uma armadilha pra nós.

SCULLY: - Mulder, essa gente não vai aguentar caminhar dois dias. Esse é o problema. Temos uma mulher ferida conosco.

MULDER: - ...

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - Me acharia louco se eu confiasse nesse terrorista?

SCULLY: - ... Eu diria que você superou um preconceito e arriscou colocar vidas nas mãos de um terrorista islâmico.

MULDER: - E o que isso significa?

SCULLY: - Que colocaremos vidas em perigo rumo à Turquia, Abdullah ficará livre e daremos uma chance a ele. Ou talvez viveremos eternamente com a culpa de termos falado sobre perdoar e não termos praticado o perdão.

MULDER: - ... Ou seguimos dois dias para a Bulgária, colocando a vida de pessoas em risco na longa jornada e Abdullah pagará pelas mortes.

SCULLY: - Não é uma decisão fácil. Acho que não cabe a nós decidirmos. Melhor fazermos um conselho entre todos. O que a maioria decidir, a minoria fará.

MULDER: - E quem consultará a opinião dos mortos, Scully?

SCULLY: - Eles estão mortos, Mulder. Nós estamos vivos. Não é egoísmo. É questão de sobrevivência.

MULDER: - Entendi. Esse é aquele maldito teste que fazem sobre 'você está num barco com outra pessoa, mas o barco vai virar, você salta ou empurra o outro'?

SCULLY: - ...

MULDER: - Nunca soube a resposta desse teste. Jamais pensei que teria de descobrir.


7:45 A.M.

Scully e Yareah caminham pela floresta.

Atrás deles Oby e Colin levando Rasheeda na padiola improvisada. A Vovó carrega o bebê.

Mulder vem atrás, empurrando Abdullah, que está com os pulsos amarrados.

ABDULLAH: - São todos idiotas. Poderiam ir para a cidade mais próxima na Turquia.

MULDER: - Não pode condena-los por não confiar em você.

ABDULLAH: - O que vai fazer quando chegar em território Búlgaro? Me entregar a polícia?

MULDER: - (DEBOCHADO) Yalla! Anda que temos que encontrar um lugar seguro pra passar a noite!

ABDULLAH: - Não há lugar seguro! Essa floresta se estende até a fronteira. Aquelas coisas vão nos jantar!


4:23 P.M.

Casey ajuda Oby a carregar Rasheeda. Scully ao lado de Mulder. Eles caminham pela floresta que parece não ter fim. O Rabino vai acompanhando Abdullah com as mãos amarradas, mas sem tirar os olhos dele, enquanto ajuda a Vovó a andar. Mohandas ao lado de Colin que leva o bebê.

SCULLY: - Sei que está surpreso comigo, Mulder. Mas não poderia votar a favor de Abdullah. Ainda não evoluí tanto para entregar minha vida nas mãos de outra pessoa que não você e para deixa-la sair sem pagar a pena de ter matado 176 pessoas.

MULDER: - Não se preocupe com isso. Foram 6 votos contra 1. Quem pareceu o idiota fui eu.

SCULLY: - Achei que votaria a favor da Bulgária.

MULDER: - Não consegui. Mas vocês estão certos. Nunca saberemos qual teria sido a reação dele.

SCULLY: - Talvez nos matasse.

MULDER: - Ou talvez não.

Scully olha pra trás. Yareah caminha vigiando Abdullah. Mulder para.

SCULLY: - O que foi?

Mulder aproxima-se de uma árvore com a letra X pintada em branco.

MULDER: - Alguém já esteve aqui...

Mulder percebe outras árvores sinalizadas.

SCULLY: - Acha que lenhadores marcaram as árvores...

MULDER: - Não sei. Não quero perder a luz do sol, mas preciso checar isso. Talvez tenha alguma cabana por aqui com lenhadores...

ABDULLAH: - Se lenhadores estiveram aqui já foram comidos por aquelas coisas.

Mulder olha para o grupo.

MULDER: - Se tiver uma cabana por aqui, teremos abrigo certo para passar a noite. Acho melhor sentarem e descansarem enquanto vou averiguar isso.

CASEY: - E se não tiver nada? Perdemos tempo.

MULDER: - Vamos passar a noite na floresta. Isso é certo. Preferem seguir ou tentamos descobrir se existe abrigo?

Eles sentam-se cansados. Mulder olha pra Rasheeda na padiola. Ela sua muito e murmura.

MULDER: - Scully, Rasheeda está suando demais.

SCULLY: - Acabaram os antibióticos que encontramos. Temo uma infecção....

MULDER: - Ok. Scully e eu vamos seguir essas marcas. Vocês descansem.

CASEY: - Se o palestino maluco se mexer, posso matá-lo?

Mulder e Scully se entreolham.

MULDER: - Ele vai conosco. Rabino, você toma conta deles.

Mulder puxa Abdullah e o empurra pela direção que vão seguir.

MULDER: - Vamos, habib. Com sorte são lenhadores. Com azar são seus amigos.

Abdullah vai à frente. Mulder e Scully atrás dele.


4:38 P.M.

[Som: Rachid Taha - Ya Rayah]

Scully, Mulder e Abdullah seguem a trilha de árvores sinalizadas.

ABDULLAH: - Lenhadores marcam árvores, yahudi. Mas isso parece mais uma indicação de trilha. E não é coisa dos meus amigos.

SCULLY: -Lá adiante. Parece uma clareira.

Eles se aproximam, saindo da floresta. Escombros de um prédio destruído. Cercas altas de telas de metal com a indicação de eletrificadas. Há uma placa no portão cadeado.Eles se aproximam.

Close na placa: Propriedade Militar dos EUA.

Scully fica boquiaberta olhando pra Mulder. Abdullah olha pra eles.

ABDULLAH: - (SORRI)Então, americanos? Quem de nossos povos mente? Aposto que isso aqui não consta nos mapas. No meu não constava.

MULDER: - Os turcos certamente sabem disso. Eu sei que a Turquia tem relações diplomáticas com os Estados Unidos, mas cooperação militar? Os turcos dormem com os Sírios, que dormem com os soviéticos! Isso aí não faz sentido!

Mulder observa a cerca, curioso.

MULDER: - Está abandonado...

SCULLY: - Mulder, vamos embora. Não tem nada aí. Apenas escombros. Não nos serve de nada e...

Mulder se agarra na cerca. Scully arregala os olhos. Mulder treme parecendo estar sendo eletrocutado. Scully grita. Abdullah começa a rir. Mulder para.

MULDER: - (RINDO DEBOCHADO)Sem eletricidade, Scully...

Scully louca de raiva acerta tapas nele. Mulder se encolhe.

SCULLY: - (FURIOSA/ AOS GRITOS) Mulder, uma hora dessas você me mata do coração, seu imbecil, idiota, retardado!!!!

MULDER: - Não diga que não está curiosa...

SCULLY: -(INDIGNADA) Não!

ABDULLAH: - Eu estou. Mas... (ERGUE AS MÃOS AMARRADAS) ...

MULDER: - Curiosidade é meu segundo nome. O primeiro é invasor de propriedades do governo altamente suspeitas.

ABDULLAH: - Sabia que você tinha sangue de yahudi terrorista.

MULDER: - (DEBOCHADO)Isso chama-se nem todo americano é um idiota manipulado como pensa o habib. Vigia ele, Scully. Se o habib se mexer, chuta o quibe dele.

Mulder sobe na cerca e atravessa.

ABDULLAH: - Ele sabe que me chama de querido o tempo todo?

SCULLY: - Ahn?

ABDULLAH: - Habib.

Scully alterna os olhos entre Mulder checando os escombros e Abdullah que senta-se no chão.

ABDULLAH: - Ele desconfia do mesmo que eu.

SCULLY: - ...

ABDULLAH: - Aquelas coisas saíram daqui. Seu governo e o governo turco sabiam disso. Por isso não vieram nos resgatar.

Scully cruza os braços numa fisionomia de indignação.


5:14 P.M.

Mulder se aproxima da cerca. Sobe a cerca, passando para o outro lado.

MULDER: - Tô ficando velho pra isso...

SCULLY: - O que tem lá, Mulder?

MULDER: - Muito entulho e nenhuma prova. Vi pedaços de jaulas, restos de laboratório... Criaram aquelas coisas, Scully. Bem aqui, longe dos olhos da civilização. Americanos com ajuda turca. E se duvidar... Até os árabes e soviéticos estão envolvidos.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - Então me explica por que não chegaram no local da queda? Ahn? Por que nem foram! Sabiam o que havia aqui. O tempo inteiro eles sabiam dessas coisas aí fora! E se não criaram aquelas coisas, provavelmente elas nem são daqui, foram capturadas pra alguma experiência bizarra.

ABDULLAH: - Tecnologia de guerra, yahudi. Quantas aldeias ou tribos você mataria silenciosamente usando aquelas coisas? E nas cidades? Seria fácil, ninguém olha pra cima, ninguém mais admira as estrelas e tudo o que Alah criou. Todos olham para seus celulares e umbigos confiando cegamente suas vidas nas mãos dos governos.

MULDER: - Sabe o que é pior, Scully? O pior é que eu concordo com ele! Como escaparam é o mistério! Ei, habib, você que entende de explodir as coisas...

ABDULLAH: -Um míssil. Parece estrago provocado propositalmente. Talvez queriam se livrar da experiência e das provas.

MULDER: - Ou tentaram contê-la. E em ambos os casos... A criatura superou o criador. Droga, precisamos sair dessa floresta o mais rápido possível!

SCULLY: - (NERVOSA) Rasheeda não pode andar. Temos velhos conosco, Mulder. Pessoas famintas, cansadas, esgotadas emocionalmente, sem dormir direito, um bebê... E está anoitecendo! O que vamos fazer?

MULDER: - Voltar e contar aos outros. E montar acampamento. Acender uma fogueira e fazer vigília em turnos.

ABDULLAH: - E rezar... Porque vem chuva.

Scully põe as mãos no rosto, apreensiva.


9:21 P.M.

Fogueira acesa. Todos sentados ao redor dela. Rasheeda deitada. Abdullah finge dormir.

SCULLY: - (OLHANDO PARA ABDULLAH) Não entendo tanto fanatismo religioso.

MULDER: - A palavra islamita significa "submetido a Deus". Não pense que fiéis ao islamismo são fanáticos. Terroristas são fanáticos, usam a desculpa da religião para fazerem o que fazem. Você não pode colocar todos os fiéis de uma crença num saco de gatos. É como dizer que todos os padres católicos torturavam pessoas na idade média.

OBY: - Os antigos árabes, chamados beduínos, acreditavam no politeísmo. Maomé nasceu em Meca e veio trazer o monoteísmo, a crença em apenas um só deus. Maomé pertencia a uma família pobre. Seu pai morreu cedo e ele foi criado pelo avô, que o levou para viver no meio de uma tribo no deserto. Lá, Maomé assimilou as necessidades materiais e espirituais da população do deserto.

Mulder olha pra Oby, impressionado.

OBY: - Quando tinha 15 anos, Maomé entrou para o comércio de caravanas, orientado pelo tio. As expedições com caravanas eram muito perigosas, pois podiam ser atacadas a qualquer momento. Por isso, exigiam de seus condutores habilidade militar. Maomé distinguiu-se como grande caravaneiro. Se casou com uma viúva rica, sua parenta, proprietária de numerosos camelos em Meca. Possuir camelos era símbolo de riqueza. Nessas viagens, ele entrou em contato com diversas religiões.

MULDER: - O casamento deu a Maomé estabilidade material para dedicar-se à organização de seu sistema religioso. Este sistema era um verdadeiro sincretismo, apoiado no cristianismo e no judaísmo, bem como no paganismo árabe.

OBY: - Sim. No início, todos os coraixitas ficaram estupefatos com a pregação. Mas depois passaram a desprezar e, finalmente, a perseguir Maomé e seus seguidores. Porque ao pregar a crença em um só deus, Maomé colocava por terra a atração que Meca exercia sobre os árabes. Com isso, prejudicava os interesses econômicos dos coraixitas. Maomé esperou então á chegada dos beduínos, que não tinham riquezas a defender, e lhe falava sobre o paraíso. Com isso ele conseguiu milhares de adeptos.

MULDER: - A doutrina islâmica ensina a crença em Maomé como único profeta de Alah. Reconhece certas verdades pregadas por Moisés, Cristo, o profeta Ezequiel e outros. Deus é um só, possui uma única natureza, que é a divina e não tem forma humana. A doutrina islâmica afirma também a crença nos anjos, no juízo final, no paraíso e no inferno. A moral é semelhante à do cristianismo, muito parecida à dos Dez Mandamentos, mas fortemente influenciada pelos usos e costumes dos árabes.

OBY: - O crente tem cinco obrigações fundamentais: dar esmolas proporcionais aos bens que possui. Jejuar durante o mês de Ramadã, com total abstinência durante o dia. Ir em peregrinação aos locais sagrados de Meca. Fazer cinco orações diárias voltadas para Meca e fazer a Guerra Santa aos infiéis.

MULDER: - O Alcorão é uma espécie de Bíblia dos muçulmanos e foi inspirado a Moisés pelo anjo Gabriel. Compõe-se de 114 sustas e mais de 6 mil versículos, que tratam de problemas religiosos, políticos e morais. Segundo o Alcorão, somente os parentes de Maomé poderiam substituí-lo no comando dos crentes. Mas o Suna não dizia a mesma coisa. Com isso, surgiram duas seitas rivais: os sunitas, seguidores do Suna, e os xiitas, que renegam o Suna e aceitam apenas o Alcorão.

OBY: - Também estuda religiões, Mulder?

MULDER: - Gosto da filosofia delas. E você?

OBY: - Gosto da diversidade de crenças. Mas todas terminam num único mandamento.

SCULLY: - Amar o próximo.

YAREAH: - Para nós judeus, Israel é a terra dada por Jeová a nós, sendo Jerusalém nossa eterna capital. Ela é a terra da Promissão, o local que Deus apontou a Moisés como o lar definitivo dos judeus logo que eles conseguiram escapar do Egito.

SCULLY: - Para os cristãos, é onde Jesus Cristo anunciou a chegada do Reino dos Céus, sacrificou-se pelo bem da humanidade e morreu nela.

MULDER: -Maomé era muito perigoso para os coraixitas. Era preciso eliminá-lo. Mandaram dez homens à sua casa, para assassiná-lo. Mas ele, avisado a tempo, fugiu. Essa fuga é conhecida como a Hégira, que marca o início do calendário muçulmano. Tendo sido bem recebido em Yatreb, onde já possuía alguns adeptos, Maomé procurou converter também os judeus da cidade, mas nada conseguiu. Numa última tentativa para atraí-los, mandou que as orações fossem feitas em direção a Jerusalém. Como isso também não adiantasse, acusou-os de traição por não ajudarem na defesa de Yatreb, atacada por forças de Meca. Em seguida, mandou assassiná-los em massa. Os que restaram tiveram que fugir. Tendo visto que os meios pacíficos não serviam para converter, Maomé começou a pregar a Guerra Santa. A nova religião devia espalhar-se através das conquistas... Rabino, se a cidade santa dos muçulmanos é Meca, por que os palestinos insistem em Jerusalém?

YAREAH: - Historicamente a região da palestina foi ocupada por cananeus, hebreus, filisteus, assírios, babilônios, egípcios, macedônicos, gregos, romanos, bizantinos, cavaleiros cruzados, mongóis, mamelucos, árabes muçulmanos... Até que a Palestina caiu no controle do Império Turco. Ao final da Primeira Guerra Mundial, os turcos recuaram, e a França e Inglaterra tomaram o território.

ABDULLAH: - Durante trinta anos, ignorando os povos árabes. Judeus e árabes sonhavam com a possibilidade de virem a construir no tempo mais breve possível os seus estados nacionais independentes. Porque como os judeus, que tinham de se dispersar pela Europa, nós também não tínhamos um país para nós, nos dispersando pelo oriente.

YAREAH: -Quando o final da Segunda Guerra Mundial chegou, a França e a Inglaterra não tinham mais forças e recursos para continuar o seu domínio colonial, sendo pressionadas a se retirarem da região. Foi quando a ONU criou ali o estado de Israel, devolvendo aos judeus sua Terra Santa e um país próprio para habitarem.

ABDULLAH: - E nós, tivemos de suportar os novos colonizadores, os judeus.

YAREAH: -A decisão adotada pela ONU em 1947, com o apoio dos Estados Unidos e da União Soviética é confusa. Por causa de Hitler e das atrocidades, eles entenderam que os judeus mereciam um estado independente e o fizeram na região da palestina muçulmana, entregando a cidade santa dos judeus a eles. A Palestina seria partilhada entre judeus e árabes palestinos que formariam uma federação procurando formar um denominador econômico em comum. Ambos os estados se comprometeram ao cumprimento de cláusulas, mas nenhum deles os cumpriu. A ONU ficaria como intermediadora dos impasses que surgissem. Um barril de pólvora.

OBY: - Exatamente. É como o dito desvestir um santo para vestir o outro. A região da palestina é geograficamente uma ponte que liga a África ao Oriente Médio. Por isso a importância econômica que nenhum árabe ou judeu quer abrir mão.

SCULLY: - Agora entendo a raiva que eles têm dos americanos. Praticamente entregamos suas terras para os judeus.

YAREAH: -Politicamente, o ajuste recessivo só complica a situação econômica, pois há uma grande diferença entre trabalhadores israelenses e palestinos. Os palestinos são tratados com menos direitos, não podem participar dos projetos de empresas de governo e são taxados como mão-de-obra desqualificada, ganhando menos. Sim, eu sou judeu e posso admitir isso.

MULDER: - E obviamente com o aumento da crise, o desemprego aumentou mais entre os palestinos, que então têm mais um motivo para entrarem nos grupos terroristas.

Rasheeda geme alto. Scully vai até ela.

SCULLY: - Vou lhe dar o último analgésico que tenho. Você precisa ser forte. Logo sairemos daqui e você encontrará seus filhos, ok?

Ela sorri com a dor estampada no rosto.


10:32 P.M.

Trovoadas. Os sobreviventes dormem. Mulder e Oby vigiam as árvores. Abdullah acordado, nervoso.

OBY: - Quando chegarmos na Bulgária, ele vai pagar pelo crime que cometeu.

MULDER: - Espero chegarmos na Bulgária.

Mulder abre o mapa.

MULDER: - Se continuarmos como estamos andando, conseguiremos chegar ao entardecer na fronteira. Se Colin tivesse conseguido consertar o rádio...

OBY: - (GRITA/ ASSUSTADO) Mulder!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Os pés ágeis e rápidos da criatura, arrastam a Vovó Thompson por entre a floresta, enquanto com os braços vai segurando-se nos galhos.

Mulder pega uma tocha, acende na fogueira e sai pela floresta atrás da criatura.

Scully acorda assustada, sem conseguir visualizar direito o que salta em direção a ela. Scully rola pelo chão, desviando. Ergue-se rapidamente, encostando-se contra a árvore. Olha para o bebê, deitado ao lado de Rasheeda. Olha para a criatura que se lança de cima da árvore, em direção ao bebê.

Scully corre, pegando o bebê. Sente as garras que se cravam em seus ombros. Scully grita.

Oby acerta um pedaço de madeira nas pernas na criatura, que solta Scully e agilmente salta camuflando-se nas árvores. Scully cai ao chão, erguendo o bebê num reflexo rápido. Mulder sai de dentro da floresta.

MULDER: -(GRITA) Fogo!!!!! Acendam as tochas, isso vai espanta-los!!!

Oby e Mohandas acendem as tochas. Um de costas para o outro, observam o alto das árvores, erguendo as tochas. Abdullah encosta-se numa árvore, olhando assustado pra cima.

Silêncio.

MULDER: - (SUSSURRA) Não façam barulho. Essas coisas são cegas, se guiam pelo som.

Scully fica contra uma árvore, protegendo o bebê. Casey protege Rasheeda. Colin fica perto de Oby.

Silêncio completo.

Pânico.

Medo.

Olhos atentos ao alto.

O suor escorre do rosto deles.

Uma grande semente de árvore cai ao chão, aos pés de Abdullah, que está sentado de mãos amarradas. Abdullah olha pra cima. A ágil criatura se atira por sobre Abdullah, erguendo-o pelas pernas e subindo pelos galhos.

Mulder tenta espanta-la com a tocha. A criatura emite um grunhido sem soltar a presa e tenta impulso com os braços para subir. Mulder agarra-se aos braços de Abdullah, o forçando para a baixo.

MULDER: - (GRITA) É forte demais!!!!! Me ajudem!!!!!!!

Oby com a tocha tenta espantar a criatura, que emite mais grunhidos.

A criatura solta Abdullah, que cai sobre Mulder, e some no alto da árvore.

Um barulho de galhos quebrados. Mulder levanta-se do chão. Todos olham para o rabino Yareah. Ele segura uma funda improvisada nas mãos.

YAREAH: - Em tempos de garoto, quem de nós moleques nunca atirou num passarinho? Acho que acertei ele.

Corte.


Oby tenta acalmar Colin que chora contra o ombro dele. Rasheeda cuida do bebê.

COLIN: - (CHORANDO) Pegaram a vovó... Esse monstro matou a vovó! Meu Deus, vamos todos morrer!!!

Scully com as roupas rasgadas nos ombros e costas, sangrando, mira a lanterna na enorme criatura caída ao chão. A criatura agoniza. Mulder, com um pedaço de madeira, acerta a cabeça da criatura várias vezes, histérico, fora de si. Scully vira o rosto.

MULDER: -(RAIVA/ ASSUSTADO) Que diabos é isso? (AOS GRITOS) Droga!!! Droga!!! Essa coisa não tem o direito de existir na minha realidade!!!!!!!!!!!

SCULLY: - Mulder, quer se acalmar?

MULDER: - (AOS GRITOS/ NERVOSO) Se acalmar? Olha pra essa coisa e me diz se já viu algo parecido?

Mulder atira a madeira pra longe. Ofegante, tenso e apavorado. Scully agacha-se e mira a lanterna analisando a criatura.

SCULLY: - (EMPOLGADA) Fascinante...

Mulder olha em pânico pra Scully.

MULDER: - (IRRITADO)É tudo o que tem a dizer, senhor Spock? "Fascinante"? Isso aí é uma galinha gigante cruzada com um macaco?

CASEY: - Ou com um ser humano?

Todos olham assustados pra criatura. Scully continua analisando.

Foco na criatura.Pés de rapina com grandes e grossas garras de três dedos, longas pernas escamadas de ave, corpo marrom de formato humanoide com braços longos e garras nas unhas. A cabeça enorme, olhos grandes e fechados. Um enorme bico projetado. Não tem penas, têm pelos pelo corpo.

Scully abre os olhos da criatura.

SCULLY: - ... Mulder... Tem razão, se guia pelo som para caçar. É completamente cega. Os olhos grandes devem ser para aumentar o campo de luz. Deve viver em ambientes muito escuros, talvez viva em cavernas durante o dia... Age como ave de rapina, mas não deve voar, não têm penas ou asas. Prende-se aos galhos com os longos braços e as garras, move-se e tem pelos como um símio. Extremamente ágil. O que a fez evoluir a isso?

MULDER: - (PÂNICO)Evoluir? Isso não é obra da evolução! Essa coisa aí nem sabe o que é evolução! Se não for de outro planeta, foi criada naquele laboratório lá atrás! E pouco me importa! Eu quero sair daqui!

SCULLY: - Quer se acalmar? ... O bico é serrilhado e em forma de anzol, para rasgar a carne da vítima. Se regurgita o que não aproveita, tem similaridade com o estômago das rapinas.

Mulder se afasta. Senta-se, nervoso e angustiado.

MULDER: - Não temos uma maldita arma!

ABDULLAH: - Sente-se seguro apenas com uma arma?

MULDER: - Como vai matar essas coisas, espertinho? Com o Alcorão?

OBY: - Mulder, vai com calma!

MULDER: - Cale a boca!

ABDULLAH: - Não. Com a Torah.

Mulder ataca Abdullah. Oby o segura.

ABDULLAH: - Fabrique uma arma, americano. Está numa floresta. Tem tudo a sua volta. Materiais disponíveis.

MULDER: - Não sou soldado.

ABDULLAH: - Ajudo você.

MULDER: - E quem me garante que se eu soltar suas mãos você vai ficar sentado aí? Você pode matar a todos nós e dar o fora daqui!

ABDULLAH: - ...

OBY: - Mulder. Vamos fazer lanças. Me ajude a encontrar bons galhos.

Mulder levanta-se, irritado. Passa por Scully, lançando-lhe um olhar mau humorado.

MULDER: - De galhos eu entendo bastante!

Scully lança um olhar fulminante pra ele e um beiço.


11:43 P.M.

Mulder sentado ao longe, observa as árvores, segurando a lança sobre as pernas. Scully se aproxima.

SCULLY: - Por que está agindo feito um animal selvagem?

MULDER: -(IRRITADO) Porque estou virando um animal selvagem! Estou perdido nessa floresta desgraçada, com sono, cansado de comer nada e beber nada!!! E estou com muita raiva!!!

SCULLY: - Também estou, mas nem por isso fico atacando os outros com ofensas! Mais um dia e estaremos longe daqui.

Mulder acerta um tapa em seu próprio braço.

MULDER: - Malditos mosquitos! Eu quero ir embora daqui!

Scully olha pra ele. Mulder começa a chorar de desespero. Scully senta-se ao lado dele. Aperta-o contra si. Mulder se abraça nela.

SCULLY: - Sei que está com medo. Também estou. Pelo menos poderia admitir que está com medo. Isso é humano. Estamos perdidos numa floresta, numa terra que desconhecemos, com o perigo nos espreitando e completamente fracos. É admissível um homem ter medo.

MULDER: - Está me chamando de machista?

SCULLY: - Não. Estou dizendo que desde o início você foi quem tomou a posição de líder. Saiu-se muito bem, Mulder. Agora precisa relaxar. Está cansado. Precisamos da sua lucidez. Hum?

Mulder solta um suspiro. Scully fica olhando pra ele.

MULDER: - Que cara é essa?

SCULLY: - (SORRI) Orgulho de mulher. Você não entenderia.

Scully se afasta.


7:47 A.M.

Chuva forte. Scully vai à frente. Eles caminham cansados pela floresta. Mulder se arrasta, empurrando Abdullah amarrado à sua frente. Colin cansa. Deixa a padiola ao chão. Oby olha pra ele.

COLIN: - Não aguento mais.

Casey assume o lugar de Colin. Colin vigia Abdullah. Eles caminham mais alguns metros e Scully para.

MULDER: - O que foi?

SCULLY: - Escuto barulho de água.

Scully avança mais uns metros. Mulder solta a padiola e vai atrás dela.

Foco na cascata que cai para o vale que surge à frente. Fazendas, animais, plantações.

MULDER: - Me diz que não é miragem...

Mulder cai de joelhos ao chão, rindo e chorando. Colin se abraça em Oby. Yareah olha pra Abdullah e sorri.

SCULLY: - (SORRI) Alguém quer água?


8:49 A.M.

Eles se aproximam pelas árvores, vendo as plantações à frente.

As mulheres de traços búlgaros, ao longe, colhem ervas.

Scully com o bebê nos braços, aperta o passo, adentrando o campo.

Oby e Colin, rindo alto, carregam Rasheeda.

Mohandas sai correndo pelo campo, braços abertos, abençoando a vida. Casey se ajoelha e começa a chorar. O rabino Yareah ergue os braços, saudando a Deus em orações.

As mulheres búlgaras quando os veem em farrapos e cansados, largam os cestos e correm aos gritos em direção a eles.

[Som: Khaled - El Arbi]

Abdullah, cabisbaixo caminha à frente de Mulder em direção ao campo. Mulder o segura pelo ombro. Abdullah vira-se pra ele. Mulder olha pra Abdullah. Solta as mãos dele. Abdullah olha pra Mulder sem entender.

MULDER: - Você matou mais 176 pessoas inocentes. E ajudou a salvar dez com um mapa. Que a culpa seja minha de libertar você.

ABDULLAH: - ???

Mulder segue em direção ao campo.

ABDULLAH: - Matei seu povo!!! Sou palestino, você é judeu e americano!!!

MULDER: - (PARA/ SEM SE VIRAR) ... Somos feitos da mesma poeira.

ABDULLAH: - Por que faz isso, yahudi?

MULDER: - Pela frase que alguém que viveu em sua terra disse uma vez.

ABDULLAH: - ...

MULDER: - Vá e não peques mais.

ABDULLAH: - ... Não vou aceitar piedade de você!!!

Mulder vira-se pra ele.

MULDER: - Não é piedade. Isto chama-se perdão.

ABDULLAH: - Assalam Alaikum wa Rahmatullah wa Barakatuh, yahudi*.

(Deus lhe conceda proteção, segurança, misericórdia e que Ele lhe abençoe, judeu.*).

Mulder segue para o campo. Abdullah olha para a floresta. Corre em direção à ela.

Corte.


Mulder aproxima-se de Scully, que o espera com os outros, no meio do campo.

OBY: - Onde está Abdullah?

MULDER: -... Fugiu. Tentei pegá-lo, mas não consegui. Sumiu na floresta.

Scully olha pra Mulder, em silêncio. Os outros seguem.

YAREAH: - Maldito palestino desgraçado! Depois de tudo ainda saiu livre!

CASEY: - A polícia vai encontra-lo. Ele vai pagar pelos erros que cometeu, pelas mortes que causou.

Eles continuam andando. Scully dá a mão pra Mulder. Os dois de mãos dadas caminham juntos.

SCULLY: -... Admiro o que fez, Mulder.

MULDER: - Não fiz nada... Ele fugiu.

SCULLY: - Ainda não sou tão iluminada para ter uma atitude como a sua. Mas posso ter orgulho de mulher... Aquele que você não entende.

MULDER: - E que orgulho seria esse, Scully? Me faça entender.

SCULLY: -(SORRI) Orgulho de ter um homem como você, Mulder. Esse é o orgulho de mulher.

Mulder abaixa a cabeça num sorriso tímido. Depois olha pra ela.

MULDER: - Homens também tem orgulho de homem, sabia?

Scully sorri. Eles seguem andando pelo campo.

Câmera aérea. As mulheres búlgaras os socorrem.

Residência dos Mulder - Virgínia - 7:06 A.M.

[Som: Neneh Cherry and Youssou N' Dour - 7 Seconds]

Mulder sentado ao computador no sótão.

MULDER (OFF): - Duas semanas se passaram depois da trágica experiência que vivi. Não desejo a ninguém que passe pelas coisas que passamos, pelo horror a que fomos expostos. Mas de tudo isso, uma lição foi aprendida. Todos somos iguais. Aprendemos a comer sementes com o judeu, a fazer armas com o negro, a colher orvalho das folhas com o árabe, a ter sabedoria com o hindu, a ter bondade como a vovó americana, a ter sensibilidade com o inglês. Aprendemos a dor com o sofrimento mútuo. Também aprendemos a compreender uns aos outros. Aprendemos que a morte é a única certeza da vida. Vimos a morte com o canto de nossos olhos. O ser humano tem muito a aprender com o ser humano. Apenas precisa perdoar para conseguir isso.

Corte. (Música permanece).


Soldados turcos reviram a floresta recolhendo os pedaços dos mortos no desastre.

MULDER (OFF): -O laço entre os sobreviventes vai permanecer, porque só sobrevivemos pela união. Mohandas deu um jantar para todos os sobreviventes no restaurante indiano dele, nos fazendo prometer que todo ano vamos estar os nove ali, no dia em que quase morremos, para celebrar a vida. Oramos pelos que se foram e pelos que ficaram. Oby e Colin voltaram para Londres. Me mandaram uma foto, os dois num beijo, sentados num café, junto com um grupo de defesa dos direitos homossexuais. Casey, mesmo com o pesar pela perda da esposa, fundou a Associação das Vítimas do Voo 243 da Global Airlines, nem sabíamos que ele era advogado. Está brigando pelos direitos dos parentes das vítimas e pela verdade revelada. O rabino Yareah foi para a Cisjordânia, onde prega sobre o fim do conflito árabe-israelense e ajuda palestinos carentes com roupas e alimentos. Rasheeda voltou para os filhos. Vai usar um pino na perna esquerda como lembrança amarga daquele dia trágico. Mas ela ainda respira. Isso é o mais importante. Respira e ainda luta a favor dos direitos da mulher islâmica. O bebê Mohamed ficou com o pai e os avós em Nova Iorque.

Corte.(Música permanece).


Mulder sentado observando Victoria dormir em seu berço.

MULDER (OFF): - Há um protesto mundial, milhões de vozes que proclamam pela paz entre os povos. Milhões de pessoas que pensam na paz. No eterno sonho de Lennon. Somos todos iguais em desgraça. Somos diferentes em crenças, tom de pele, sexo, ideais... Mas a natureza é diversa, portanto sábia. É um mundo colorido e cheio de culturas, cheio de conhecimentos que devem ser partilhados e não usados uns contra os outros... Abdullah... Não sei de Abdullah. Mas dentro de mim, fica a dúvida eterna: vá e não peques mais. Será que está pecando? Há esperança para mudar o ódio no coração de um homem? Você deve dar uma chance as pessoas? Naquele dia, as palavras daquele profeta que nasceu em um estábulo de Belém me fizeram novamente sentido. O mesmo sentido que fizeram quando perdoei um russo.

Mulder beija a filha com amor. Levanta-se e sai, fechando a porta.

Corte. (Música permanece).


O jornal é arremessado pelo jornaleiro na porta da casa de Mulder.

Close na manchete do jornal com a foto de Abdullah: 'EX-LÍDER TERRORISTA DO HAMAS INCENDEIA O PRÓPRIO CORPO EM PRAÇA PÚBLICA PEDINDO FIM AO CONFLITO ÁRABE-ISRAELENSE'.


MULDER (OFF): - Há esperança para mudar o ódio no coração de um homem? Você deve dar uma chance as pessoas?



X


Nota: A canção Seven Seconds, de Youssou N'Dour, cantor e compositor senegalês, acompanhado de Neneh Cherry, tem como tema o anti-racismo, o título se refere aos primeiros 7 segundos de vida de uma criança sem saber dos problemas raciais e da violência no nosso mundo. A canção só pede 7 segundos de reflexão em relação a isso.


07/02/2003

19 de Novembro de 2019 às 13:21 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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