Fragmentada Seguir história

alarinrin Alarinrin .

A escuridão me acolhe no descanso da inconsciência e dos lençóis brancos, enquanto minha finita vida diária arquiva-se a si mesma em lápides de sonhos esquecidos.


Conto Todo o público.

#Fragmentada #vida #original #crônica
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Fragmentada



Quando apago a última vela do bolo de aniversário, a fumaça dos pavios me embaça a visão. Foram quantos anos mesmo...? Não importa. Nunca serão suficientes, pois se diz que a vida é uma só. Mas uma vida só não basta.

Após recolher os pratos com doces meio comidos, copos com bebidas amargas meio sorvidas, impregnada eu dos mais diversos perfumes exalados de abraços ora sinceros, ora complacentes e ora falsos, fecho os olhos para morrer mais uma vez. A escuridão me acolhe no descanso da inconsciência e dos lençóis brancos, enquanto minha finita vida diária arquiva-se a si mesma em lápides de sonhos esquecidos.

A claridade do sol – ao som de uma bucólica sirene de despertador - me resgata do não-ser. Cá estou eu mais uma vez para esta realidade. Mas... é a mesma? Só porque tudo no mundo está no mesmo lugar que se deixou, não significa que é o mesmo mundo. Sou igual a que se deitou, quando emerjo do nada para uma teia de eventos que sobrevivem à minha ausência? O trabalho está lá. O parceiro atual e os anteriores fazem residência dentro de mim. As contas vencidas que me espreitam esquentam a amparador. As feiuras do mundo e os meus reflexos distorcidos me encaram diante do espelho.

Porém eu, desintegrada entre as estrelas do sono sem sonhos, agrego-me outra vez infinitamente a cada manhã. Meus átomos novamente se conectam para enfrentar uma história já conhecida com uma atriz nova na velha personagem. Perpasso pelas situações como se delas não pertencessem. Talvez, na verdade, elas não me possuam. Nada me possui. E nada eu possuo. No entanto, elas me pressionam a me tornar outro alguém. E, antes de morrer novamente, eu decido se renasço ou se crio

As vidas dentro de minha vida se ordenam em um colar brilhante dessa existência, cada qual a cintilar diferentemente. Posso ser outra a cada amanhecer. Posso ser muitas nas miríades coloridas versões de mim mesma. Pois, se eu adormecer e permanecer igual àquela que cerrou os olhos diante das estrelas, realmente estarei morta.


9 de Novembro de 2019 às 18:32 2 Denunciar Insira 4
Fim

Conheça o autor

Alarinrin . É estranho me adjetivar. Melhor que as histórias que escrevo falem de mim e por mim.

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Mari Costa Mari Costa
A primeira cena descreve muito como foram todos os meus aniversários. Incrível ^^

  • Alarinrin . Alarinrin .
    OI, Mari! Sim, é muita vida para se ter apenas uma só vida. Obrigada pelo comentário. :) 2 weeks ago
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