A Homecoming Seguir história

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Luisa Nascimento


Anos após ter se mudado com os pais para outro país, Anna Torres volta para sua cidade natal para o último ano de colégio, e ela não está feliz com isso. Tinha demorado muito para se recuperar do trauma que tinha sido ser afastada de tudo que conhecia, principalmente dos seus melhores amigos, e não tinha certeza se era a mesma pessoa de quando foi embora. Sabia que não era. E isso dificultava as coisas. Agora, além de lidar com a pressão do último ano, Anna terá que reaprender a se sentir parte do seu antigo grupo de amigos, brigar com as paredes que contruiu ao redor de si e descobrir como lidar com a enxurrada de sentimentos que a deu boas-vindas. Isso porque ela ainda não sabe o que esse ano em Haywood Bay guarda para ela.


Romance Para maiores de 18 apenas.

#violencialeve #amizade #highschool #comedia
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Capítulo 1

Durante muito tempo, o maior sonho de Anna era voltar para Haywood Bay.


Por meses ela esperou que seu pai entrasse em seu quarto e falasse "arrume suas coisas, estamos indo embora", da mesma forma que havia feito quando ele e sua mãe forçaram a garota a se mudar para outro país. Anna esperou pelo déjà vu, e dessa vez ela prometeu que faria suas malas com um sorriso no rosto. Ela esperou até não poder se permitir sentir mais saudades do seu lar, até ter sentido tanta dor ela finalmente se viu obrigada a abrir mão de tudo que ela conhecia, e começar de novo.


Não é preciso dizer que não é fácil para alguém de apenas doze anos se mudar para um país completamente diferente. Anna detestou todos os mínimos detalhes da sua vida por semanas, desde o momento em que seu pai a ajudou a apertar seu cinto no avião. Ela chorou e implorou para sua mãe largar seu trabalho, que era toda a razão da mudança. Ela se rebelou contra seu novo quarto, desenhando e escrevendo o que brotava em sua mente nas paredes recém pintadas. Uma vez ela até cuspiu que preferia estar morta, isso bem no meio do jantar, fazendo seu pai se engasgar com o frango que comiam.


Anna nunca teve muita dificuldade em fazer amigos, principalmente porque havia mantido o mesmo grupo de amigos desde o jardim de infância. Amizades novas iam e vinham, mas ela sempre teve as mesmas de sempre por perto. Anna sentia falta deles como se ela tivesse sido deixada sozinha no mundo. O que era verdade, de uma certa forma. Ela não tinha se dado conta do quão sozinha ela realmente estava até o momento em que pisou no corredor da escola nova. Ela não conhecia uma pessoa sequer naquele lugar. Não sabia nenhum nome. Ela estava perdida, e era a pior sensação na merda do mundo.


Mas ela não demorou muito para aprender que o tempo, bem, ele realmente muda tudo.


Tempo a forçou a se tornar mais dura, masesperta. A crescermais rápido. Tempo a ajudou a encontrar suas pessoas na multidão de rostos desconhecidos, e ao mesmo tempo a ensinou quem ela realmente precisava era de si mesma, forte e independente - Anna repetiu esse mantra até não sentir mais saudade de Matthew, de James ou de Olivia, que já foi a irmã que ela nunca teve. Tempo mudou quem ela era, o jeito que ela se via, o jeito que ela via os outros. Tempo mudou seu relacionamento com seus pais, que ela ainda amava, mas não deixava mais controlar sua vida; não como antes e não como pais normalmente controlam seus filhos adolescentes.


Isso até eles decidirem que Anna já estava bem crescida e que, de repente, eles precisavam de um tempo sozinhos. Um ano viajando era o plano. Um ano de férias, lua de mel, aventura, eles usaram muitos nomes diferentes. O caso era que eles estavam deixando Anna por um ano inteiro, e não, eles não podiam esperar até ela ir para a universidade, e não, eles não podiam deixá-la sozinha na casa.


Ela ia voltar para Haywood Bay.


"Vocês estão de brincadeira comigo, né?" Foi tudo que Anna conseguiu dizer quando eles deram a notícia para ela. Seus pais estavam sentados no sofá confortável da sua sala de estar cuidadosamente decorada, mas as paredes cor de creme poderiam muito bem começar a desmoronar e a sala inteira poderia pegar fogo naquele momento, Anna não ligaria. Ela não iria embora. Não daquele jeito.


Ela não entendia por que eles não confiavam nela o suficiente para deixá-la sozinha enquanto viajavam. Não é como se ela não fosse se mudar para os dormitórios da universidade em um ano. Mas não, por enquanto, ela era muito jovem, e era muita responsabilidade, então sim, eles estavam mandando ela de volta para sua antiga cidade para morar com a tia. Que ela só via duas vezes ao ano.


Simplesmente não fazia sentido.


Anna ficou deitada em na cama enquanto sua mãe, Christine, colocava todas as roupas da garota nas malas. Ela se recusava a mover um dedo sequer. Sabia que estava agindo como uma criança e que ela era melhor que isso, mas ela não ligava. Fazia horas que não tocava em seu celular, desde que contou aos amigos que estava indo embora. Ela não podia lidar com os sentimentos, não quando ainda tentava controlar os seus próprios.


Era a última semana de verão, e Anna tinha esperado até o último minuto para avisá-los que eles provavelmente nunca mais a veriam. Ela não estava arrependida; estava de saco cheio. Tão cheio que quando sua mãe ficou em pé no meio do quarto, rodeada de malas, e ofereceu a filha um sorriso de desculpa, Anna apenas se virou na cama, encarando a janela. O suspiro profundo que sua mãe soltou ao sair do quarto não a tocou nem um pouco.


Na manhã seguinte, ela acordou com o alarme do celular, tomou um banho frio e vestiu roupas confortáveis para o seu vôo de dez horas. Seu pai, Joseph, a ajudou a levar as malas para o andar de baixo, e depois os dois se sentaram na cozinha para tomar café. Anna podia sentir seus pais se entreolhando, como se tentassem descobrir algo legal para dizer, e ela também podia sentir que eles estavam falhando. Não havianada legal para ser dito. Palavras não mudariam o que eles estavam fazendo com ela. Não mudariam coisa alguma.


"Meu amor..." Christine finalmente reuniu coragem para falar, depois que o marido suspirou da mesma forma que ela havia feito na noite anterior.


"Para, por favor," Anna a interrompeu, colocando sua torrada mordida de volta no prato. Ela bebeu o resto café em sua xícara e empurrou sua cadeira para trás com os pés. "Não precisa falar nada. Tá tudo bem."


Ela voltou para o quarto que nem era mais seu e terminou de se arrumar. Anna pegou sua mochila, a última coisa a prendendo naquela cidade, e voltou para o primeiro andar. As malas já estavam entaladas dentro do SUV ridiculamente grande do seu pai. Ela sentou no banco de trás, trazendo sua mochila consigo, e esperou. Era hora de ir, e ela esperava.


Anna estava pronta para a ir antes que seus pais estivessem prontos para deixá-la.


Eles a abraçaram. Eles choraram. Ela ainda esperava. Eu também te amo, ela disse. Sim, eu vou ligar. Ela não ia ligar. Ela iria atender, mas não iria ligar. A distância não era culpa dela, de qualquer forma.


"Ok, mãe, eu tenho que ir agora," ela insistiu quando Christine se recusou a soltá-la. Era a última chamada para entrar no avião.


"Tudo bem, tudo bem," disse sua mãe, deixando a filha escapar do seu abraço. Ela limpou as lágrimas no rosto. "Meu bebê. Vamos sentir tanto sua falta."


Ah, certo, Anna pensou.


"Fique segura,ok?" Disse Joseph, colocando o braço sobre os ombros da esposa.


"Vou sim." Anna pendurou a alça da mochila no ombro. "Tchau."


Ela deu as costas para o casal e, mais uma vez, começou a sair da sua própria vida. Olhou para trás apenas para oferecer um sorriso falso e um breve aceno para sua mãe, que sentiu que precisava berrar "Vamos sentir sua falta!" de novo. Anna não ia responder.


Cinco minutos depois, ela estava apertando o cinto de novo. Esse era o déjà vu pelo qual ela havia esperado tanto, chegando um pouco tarde demais.


*****


Valerie, irmã de Christine e tia de Anna, esperava no portão de desembarque segurando um grande cartaz com o nome da garota, obviamente feito pelos seus alunos de seis anos. Valerie usava um vestido de verão amarelo, e seus cachos selvagens, cor de chocolate, balançavam livremente, tão animados quanto a dona.


"Anna, ai meu deus!" Ela guinchou quando pode - literalmente - correr para abraçar a garota. Anna não pode evitar sorrir para o quão diferente Valerie era da irmã.


"É bom te ver, tia Val," Anna conseguiu dizer enquanto sua tia a apertava. Não era tão desconfortável quanto ela havia antecipado; havia algo muito calmo, mas também muito animador em Valerie. Talvez essa deva ser a vibe certa quando se trabalha cinco dias na semana com um monte de crianças.


Valerie finalmente largou a sobrinha, olhando para ela com um sorriso largo e brilhante que tomava conta do seu rosto. Ela arrumou uma mecha do cabelo curto e ondulado de Anna atrás da orelha da garota.


"Dá pra acreditar que vamos morar juntas por um ano inteiro? Isso vai ser incrível."


Anna suspirou e respondeu com um sorriso curto. "Com certeza."


"Ótimo! Então..." Valerie juntou suas mãos e olhou ao seu redor, como se tivesse perdido sua linha de pensamento em algum lugar. "Vamos pegar suas malas e ir pra casa. Você deve estar cansada, e espero que esteja com fome também, porque eu fiz um bolo. Na verdade eu fiz dois. Nervosismo, sabe como é."


Ela tagarelou durante todo o caminho até retirada da bagagem. E depois tagarelou um pouco mais no caminho até o carro. E depois continuou tagarelando enquanto dirigia para casa. Anna não estava incomodada com tanta conversa; era bom que Valerie preenchesse o silêncio, porque assim a garota não teria que fingir. E, além disso, Anna já estava muito ocupada se afogando em nostalgia.


Elas estavam passando por uma parte conhecida da cidade. Anna conhecia aquelas ruas: ela havia brincado nelas, tinha caído e se levantado ali, tinha corrido e rido até a barriga doer. Ela assistiu um filme da sua infância bem diante dos seus olhos, e sentiu-se tão distante daquilo tudo. Tão distante, como se fossem memórias de outra pessoa.


E ela odiava aquilo. Deus, ela odiava tanto.


"Chegamos!" Valerie anunciou, puxando a garota dos seus devaneios.


O carro estava estacionado em frente a uma casa de estilo vintage, com dois andares e um pequeno gramado. Juntas, tiraram todas as malas do carro e as arrastaram para dentro. A decoração era colorida, e não havia outra palavra para descrevê-la. As almofadas no sofá tinham diferentes cores e estampas. Haviam vasos com diferentes tipos de plantas no chão, nas mesas e até penduradas no teto. Haviam também obras de arte espalhadas, e aparentemente algumas delas haviam sido presentes dos seus alunos. As melhores ganharam até molduras e um espaço na parede.

Levaram dois minutos para subir todas as malas para o segundo andar. Valerie olhou para a sobrinha e sorriu, fazendo um pouco de suspense antes de abrir uma das portas no pequeno corredor. Elas empurraram as malas para dentro do quarto, e então a mulher colocou as mãos nos quadris.


"Era pra ser um escritório, mas eu usava pra guardar, hm... um monte de porcaria, pra ser sincera. A maioria das coisas que eu deixava aqui foram direto pro lixo. Acho que você me salvou de ter me tornado uma acumuladora." Ela soltou uma risada curta. "Enfim, eu fiz uma boa faxina. Esse quarto é até maior do que eu lembrava."


Anna assentiu, olhando ao seu redor. O quarto tinha um armário, que até parecia ser bem espaçoso, embutido na parede, uma escrivaninha e uma cadeira de escritório. Os olhos da garota zeraram no colchão tamanho queen size que estava no chão, contra a parede. Valerie tinha o forrado com um edredom roxo e colocado almofadas coloridas junto ao travesseiro, provavelmente para compensar o fato de que o quarto não tinha cama.


"É, a cama não chegou a tempo. Era pra ter chegado ontem, mas..." Valerie jogou as mãos pra cima e suspirou.


"Não tem problema," Anna falou. Realmente não se importava em dormir no chão, mas isso meio que aumentava a sensação de que ela era uma visitante, e não uma moradora.


"Posso te ajudar a decorar se você quiser, colocar um pouco de cor nessas paredes."


As paredes eram brancas, o chão de madeira estava manchado e arranhado. A única coisa que não era padrão naquele quarto era a janela enorme, virada para a rua pouco movimentada. Ela inundava o quarto com luz natural, e Anna ficou aliviada por ter encontrado algo que realmente a agradava ali.


"Não, não precisa," ela recusou, jogando sua mochila no colchão. Anna não fazia ideia de como poderia deixar aquele quarto mais a sua cara, e ela não sentia muita vontade de descobrir o que fazer. "Eu só vou focar em desarrumar as malas agora. Já vai demorar o suficiente."


Valerie bufou. "Entendo totalmente. Vou deixar você trabalhar," ela disse, e Anna ficou grata por ela não ter se oferecido para ajudar. E ela também estava grata por Valerie não iria ficar para tagarelar um pouco mais. "Vou estar lá embaixo se precisar de mim. Tem bolo na cozinha se estiver com fome, e... Ah, já está tudo certo com sua escola. Você começa na segunda com todo mundo."


Anna mordeu o lábio inferior e assentiu novamente. Valerie, com toda sua experiência lidando com pessoas que não são muito boas em verbalizar, imediatamente entendeu o desconforto da garota. Ela foi até a sobrinha e pousou um beijo no topo da sua cabeça.


"Vai ficar tudo bem, Anna," murmurou, como se fosse um segredo. Anna continuou quieta; ela já sabia que tudo ia ficar bem. Só não sabia quanto tempo demoraria até ficar tudo bem.


Valerie deixou a garota com suas malas e seus pensamentos, fechando a porta atrás de si. Assim que se encontrou sozinha em seu novo quarto, Anna abriu o zíper da mochila e pegou sua cartela de cigarros e seu isqueiro. Ela abriu a janela, suspirando quando o vento fresco e o sol morno encontraram sua pele, e se apoiou no parapeito, acendendo seu vício secreto. E enquanto enchia seus pulmões de fumaça, ela esperava.


Só não sabia mais quando parar de esperar.

1 de Novembro de 2019 às 18:54 0 Denunciar Insira 0
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