Plaquinhas Seguir história

anjosetsuna Anjo Setsuna

Dizem os antigos que no dia de finados sempre chove... eu devia ter trago um guarda-chuva?


Conto Todo o público.

#despedida #crisântemo #conto #finados
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Plaquinhas

Andando pelo cemitério do pequeno distrito da cidade, vejo vasos com flores murchas de crisântemo. O sol quente me incomodava, ei onde está a chuva que me disseram que ia cair?

Chega a ser engraçado quando penso no significado dessas flores tão baratas em nosso país. Sol e chuva, amor acabado, despedidas-de-verão, enfim, flores que por aqui representam vida e morte. Flores que lá fora que representam a perfeição. Sinceramente elas só me lembram a defuntos e velórios, o cheiro delas me desagrada.

Sigo mais alguns passos e paro em frente a uma das placas restante de identificação no chão. O pequeno cemitério estava abandonado, o último enterro registrado foi no mês de maio, porém o enterro mencionado havia sido feito pelos próprios parentes do morto, já que não havia coveiro. Pra onde vai a porcaria de impostos que pagamos?

Deixei meus pensamentos de lado quando avistei ao lado da placa que visitava uma semelhante, mas a data era antiga, muito antiga. A pessoa que estava ali morrera antes de eu nascer. Estava empoeirada, deixei um dos crisântemos ali, eu não gostava deles, mas meu bolso não podia reclamar muito, o abandono daquela lápide estranhamente me incomodou.

Após deixar o pequeno vaso que havia trazido parei para contemplar o cemitério vazio. Já eram seis horas da tarde, mas com o horário de verão a luz ainda era abundante, assim como o calor. As missas que geralmente organizavam ali eram inexistentes, mesmo pessoas visitando os mortos. Tudo vazio como eu estava por dentro. Um estado de abandono por parte do distrito e das pessoas que moravam por ali eu pensava.

Eu logo teria que voltar pra cidade, mas sentia meus pés cansados. Sentei ali mesmo no chão de terra abraçando meus joelhos e apoiando minha cabeça sobre eles.

Minha mente voltava há alguns anos atrás quando presenciei um enterro na cidade, aquele grito de dor da filha do morto que acontecia naquele dia ainda me traz péssimas sensações. Quando fecharam a vala, sério pensei que aquela garota ia pular no buraco de tanto desespero que ela estava.

O cemitério da cidade é diferente desse do distrito, lá era tudo tão padronizado. Plaquinhas e mais plaquinhas escuras no chão, a única coisa que mudava eram as flores. Agora entendo porque você queria ser sepultada aqui ao ver algumas lápides diferentes, algumas com direito a estátuas de anjos.

Nunca fui uma pessoa religiosa, sabia muito bem que provavelmente agora só restava alguns ossos seus, mas essa é minha maneira de visitar uma amiga que não posso ver mais. Lembro da sua pequena risada quando disse ao chegar daquele enterro que no fim da vida viramos plaquinhas. Você havia me dito que viraria uma plaquinha abandonada.

Eu mesma não sei explicar por que vim aqui, logo nesse dia digamos comemorativo. Você bem sabia que eu era uma preguiçosa para sair de casa, o que dirá quilômetros da cidade até o distrito que sua família morava, agora entendo porque dizia plaquinha abandonada.

Aperto mais meus joelhos e sinto algo molhado, será que já é a chuva? Dizem os antigos que no dia de finados sempre chove... será que eu devia ter trago um guarda-chuva?

Vejo meu jeans molhado na altura dos joelhos, o tempo está esfriando... Acho que as flores me deram alergia, meus olhos estão lacrimejando. Eu não estou chorando, repito isso a mim mesma, eu não estou chorando.

Quando ouço um de meus soluços mais alto meu corpo estremece e sinto mais gotas. Essas agora eram gélidas, se tivesse olhando o relógio veria que eram seis horas, seis minutos e seis segundos. Coincidência patética, aposto que meu lado supersticioso teria amado.

Ao ver que algumas pétalas do pequeno vaso caiam com a chuva me levantei, praguejei contra o barro que destruía meu tênis e dei um pequeno sorriso.

– Obrigada, eu já estava ficando com calor amiga, você sabe, essa mania detestável minha de andar com blusa de frio mesmo com o sol quente.

Levantei deixando marcas de pés no barro e uma carinha feliz, com a terra molhada, na lápide ao lado, enquanto infantilmente deixei escrito para os parentes dela: me lave.

Ri imaginando a cara da mãe da minha amiga, sabe ela daquele tipo que não passa nem embaixo de escada.

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Esse conto tem um conto "irmãozinho" caso se interesse confira "Cata-vento"

2 de Novembro de 2019 às 03:03 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Anjo Setsuna A mesma Anjo Setsuna de sempre, dando uma espiada aqui no Inkspired. Também podem achar meus escritos no Fanfiction Net, Fiction Pres, AO3 e Wattpad. Caso vejam minhas obras em outros sites além desses denuncie por favor. Novata nessa plataforma, sempre aberta a novas amizades :D Amo drabbles de 100 palavras e fanfics.

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