Coração Dekassegui Seguir história

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Esta obra narra as profundas transformações vividas pelos membros da família Taniguchi quando no ano de 1998, devido a problemas financeiros vividos no Brasil, eles deixam o país tupiniquim para darem a volta ao mundo e fixarem residência temporária no Japão, trabalhando ali como dekasseguis. Na língua japonesa, o termo dekassegui refere-se a todos aqueles que um dia, deixaram o país de origem para aventurarem-se em um outro, exlusivamente a trabalho. (*2019)


Drama Para maiores de 18 apenas.

#suicídio #dekassegui #estrangeiro #desafios #vida-em-família #viagem #imigração #drama-familiar #dinheiro #confusões-familiares
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* Aeroporto de Narita


A primeira vez que Edgar Taniguchi apeou no aeroporto de Narita no Japão, ficou impressionado com algo que não estava acostumado a ver no Brasil. “Caralho, que tanto de japonês!” Era o que dizia vislumbrado, lembrando-se das repetidas vezes que quando criança, ouvira alguém na rua chamar a atenção de outro, enquanto o desconhecido apontava o dedo em sua direção, como se ele fosse de outro planeta: a cara achatada, os olhos puxados, “rasgados” como diziam, os cabelos lisos a ferro de passar roupa, e pretos como jabuticaba quando chega a hora de ser colhida. Estranhamente ali, naquele aeroporto apinhado de gente “parecida”, apesar dos costumes nipônicos que culturalmente seus pais já praticavam em casa, as palavras em nihongô, as comidas saborosas compostas pelos oniguiris, os sushi, os sashimis, as sopas de missô acebolado, os doces de arroz recheados com feijão adocicados, as músicas japonesas ouvidas de manhã ao varar das madrugadas pela avó doente, apesar de tudo, apesar de tudo isso, mesmo entre outros da mesma “espécie”, Edgar se sentiu voltando aos sentimentos da infância: deslocado, confuso, um peixe fora d'água, um estranho no ninho, sem “lugar” no único “lugar” que ele nunca imaginou ser isso possível.


“Não sou japonês! Sou brasileiro! Ora bolas!” Repetia seguidas vezes, fitando os homens em seus ternos engravatados, pretos ou acizentados, as mulheres elegantes em trajes finos, coloridos, luzentes como seda, os olhares altivos. Alguns sozinhos, no lento caminhar, um copo de café ou refrigerante na mão, o olhar contemplando o horizonte. Outras pessoas em bandos apressados, o sorriso solto, escancarando a brancura dos dentes seguido por gargalhadas frenéticas, o gesticular agitado, fluindo uma energia vibrante enquanto se deslocavam no saguão do aeroporto. Apesar das diferenças não tão sutis, se cadenciando os passos ou os descompassando em trotadas apressadas, todas elas, sem exceção, possuíam uma “aura diferente”, iluminada, segura de si, que só poderia vir “imantada” daquele país do 1° mundo. Para não se “enfastiar” com as impressões estéticas, Edgar reorganizava os pensamentos auxiliado por uma respiração mais longa, duradoura e profunda, quando não era possível se perder entre os “trejeitos daquele povo aparentemente superior” se salvava da “angústia recente”, no recordar silencioso dos “motivos principais” que levaram ele, a irmã e seus pais, a se deslocarem a “trabalho” para o outro lado do mundo. “Juntar dinheiro meu filho! Estamos aqui pra isso! Um homem sem patrimônio não vale nada!” Ouvia na mente as seguidas falas do sr. Noboro Taniguchi, mentalmente gravadas no inconscientemente, sua “herança psicológica” latente na alma, incrustadas desde a infância e intensificadas ainda mais nas vésperas da partida.


Quando recordava dos tios, primos e colegas, sentia logo no peito, saudades eternas do Brasil. Tinha saudades de todos, principalmente da antiga namorada, que deixara com promessas de retorno rápido, ainda sentindo na boca o gosto do beijo que tiveram em pé, segundos após descerem de um coletivo lotado. “Aproveite a oportunidade! Afinal não é todo dia que se muda de continente! Lia e relia as seguidas cartas dos amigos da escola, 1° ano mas especificamente, e que com o passar dos meses, não mais movidas pelo fervor da recente despedida, foram todas rareando, chegando intercaladas, ocupando cada vez menos espaço no interior da caixa do correio.


Sua maior companhia era Emilly Taniguchi, a irmã dois anos mais nova, libriana, calma e sensata, amante de boas conversas, às vezes ficava por horas a fio “ocupando” o irmão com temas relevantes que ouvira na escola ou mesmo lido em algum livro “fascinante” pego na biblioteca. Carinha de anjo, gestos de menina princesa, Edgar a amava profundamente. Emilly era seu porto seguro de alma, o refúgio certeiro para o espírito, o consolo sincero nas tormentas e tempestades juvenis quando assolam a alma pudica. “Tóquio é uma cidade interessante! Novas experiências e novos aprendizados nos aguardam!” O pai dizia a mãe e aos filhos, olhando os letreiros luminosos, o tráfego intenso mas organizado entre os carros, as pessoas, como ele mesmo dizia, seus “semelhantes”, cruzando ruas e avenidas, espalhados como um imenso formigueiro de orientais organizados no centro da principal cidade do Japão. Assim que desceram do carro, o estômago roncando saudoso da última refeição no vôo, eles aportaram na porta de um colorido restaurante japonês. “Rámen” era o que estava escrito em “katakana” na vidraça enfumaçada pelos vapores que vinham da cozinha instalada despudoramente ao lado das mesas, criando uma aura amiga e ao mesmo tempo nostálgica, lembrando os filmes japoneses que a falecida avó tanto acostumara assistir na sala.


Abe, ou Sr. Abe era o nome do empreiteiro brasileiro responsável na transferência das famílias nipo brasileiras a trabalho no Japão. Além do trabalho, ou “shigoto” como ouviram repetir seguidas vezes em seus “transes” de ir trocando o “português” pela língua “japonesa, era ele que organizava a papelada do visto e a acomodação das famílias em apartamentos e casas conjugadas.


“Vocês vão ficar na província de Saitama-Ken! Hospedados em um apartamento de 2 quartos bem em frente a prefeitura. Tem farmácia, supermercado e ponto de ônibus pertinho. Não poderia ser melhor! Apenas a 3km da fábrica!” Ele dirigia até a futura residência enquanto se barbeava com um barbeador elétrico tirado em meio as “bagunças” que recheavam o porta luva do carro _ Aqui no Japão, imagem é tudo! É importante ter boa aparência pessoal! E se possível vistam a melhor roupa quando se apresentarem amanhã na empresa.” Falava com ar seguro, adquirido ao longo de 20 anos como recrutador e tradutor das fábricas locais face ao crescimento econômico do país nos últimos anos.


Já na frente ao apartamento ou apãato como seria dali pra frente mais comum de se ouvir, todos eles, em pé, ficaram parados por alguns instantes à porta de entrada. “Que minúsculo!” “Cabe todo mundo aí? Recordavam saudosos da casa no Brasil, imensa em tamanho e quantidade de cômodos, vagas de garagem, quintal florido, erigida em terreno com mais de 600 metros, acomodando a família inteira, os parentes e amigos todos juntos, nas festas de final de ano aglomerada por um bocado de gente também estranha. Ainda na porta, eles encaravam uma lavadora empoeirada ao lado, os semblantes tímidos e assustados, diante do que seria, por um período ainda não decidido pelo pai, a futura residência dos Taniguchi. Atrás da porta, um piso rebaixado com um sapateiro instalado no canto e um porta- chaves de metal cheio de ganchos acima, que já não emitia tanto “brilho” provavelmente por causa da oxidação gerada no contato com chaves sempre banhadas com o “suor” constante dos últimos moradores. Desgastados também estavam os nichos do sapateiro, visivelmente com lascas arrancadas denunciando através das ferpas pontiagudas o fundo original amadeirado coberto por tinta branca, e enquanto um a um retiravam e guardavam os sapatos nos compartimentos quadrados, aprendiam e assimilavam na prática que tirá-los antes de adentrar o lar, era o “costume higiênico” mais importante do Japão.


O piso de tatame formado por peças de encaixe, era composto por um emaranhado de folhas secas entrelaçadas e emolduradas com madeira maciça e reforçadas com prego e cola nas laterais. Silencioso aos passos e prazeiroso para ser pisado, caminhar sobre o tatame japonês ia delineando a alma conforme iam adentrando a passos lentos, o olhar absorto nos detalhes dos móveis estrategicamente organizados e posicionados para que o ambiente ganhasse mais espaço. A respiração antes frenética e audível, agora ficara silenciosa e intercalada nos suspiros remorados, acompanhando o ritmar das impressões, conforme cada membro desbravava o desconhecido espaço. No coração certezas brotavam sem parar, e de repente expressões de rostos antes pálidos, se tingiam com as cores de uma empolgação precoce. A medida que se situavam tateando com os pés cada cômodo, os abraços mentais ficavam mais apertados, os olhares antes desviados, agora eram trocados com maior frequência, carregados de afirmações mútuas. Mas a “aura positivista” durava um tempo determinado, plausível. Logo os pensamentos ruins, antes temporariamente suspensos pelos ventos da exasperação, tornavam a assentar as velhas roupagens, fibrilando nos corações os medos indicerníveis, as incinuantes dúvidas outrora passageiras, e uma insegurança sem medida ia se instalando no seio daqueles marinheiros de primeira viagem.


“Se ficarmos juntos venceremos!” Era a primeira vez que eles ouviram a voz serena de Sumiko Taniguchi, esposa, amiga, mãe, sincera e lúcida protetora da família. O senhor Noboro já tinha se despedido de Abe, quando ouviu da calçada, adentrando o corredor que o conduzia a porta de entrada, as gargalhadas frenéticas que se misturavam com o ar gelado impregnado no despontar da noite. Em uníssono, os três que ficaram no interior, davam risadas golfadas, sonoras, audíveis e totalmente diferentes das expressões contidas da família que até então, não havia pisado no chão aonde estabeleceriam suas raízes. “A privada é só um buraco mamãe!” Edgar apontava para a cerâmica entalhada no chão, delineando nas bordas os formatos exatos do encaixe dos pês, caso alguém necessitasse aliviar. “Papai, a privada fica separada do local de tomar banho. Olha que caixote engraçado! Isso aí deve ser o ofurô?” Era a vez da filha se surpreender com as “excentricidades” daquele país tão distante dos costumes brasileiros, mas que misteriosamente já ritmava no “coração dekassegui” um “pulsar cadenciado” à procurar dos “verdadeiros significados” naquela empreitada louca de viajarem para o outro lado do mundo.


A mudança brusca de fuso horário, da noites no Brasil virando dias no Japão e vice versa, inflingia aos Taniguchis “tremuras” que ficavam cada vez mais reconhecidas no “revirar insandecido” do corpo sobre o leito amarrotado. A primeira semana foi um inferno de dar dó: para o corpo, alma e pensamentos. Quando a luz despontava no horizonte, clareando paulatinamente a manhã com seus feiches iluminados alcançando cada cubículo dos cômodos da casa, a boca se sequestrava em “bocejos” que nunca tinham fim. Mas quando a noite surgia e as trevas paulatinamente iam engolindo com voracidade os resquícios de luminosidade natural que ainda restavam de uma tarde ensolarada, o espírito ficava desperto, agitava-se, vibrava sem pausas, imbuído de uma energia que “assassinada” o sono, ainda que eles estivessem exaustos da agitação do trabalho.


“Estou na linha de produção com o papai e a mamãe Edgar! Pra onde você foi que não te vimos nem no refeitório?” Emilly, rabiscava um pedaço de papel como fazia inúmeras vezes, espressando sua veia artística, até o despontar de desenhos impressionantes pela qualidade e precisão das formas. “Não estou na filial da FastFood. Fui redirecionado para uma pequena empresa chamada “Bijõogi”, uma das subsidiárias responsáveis pela produção do “gohan”. Quer saber? Aquilo ali é um tédio Emilly! Um galpão sujo, cheio de de gente mal humorada, velhos sem educação, e o que não entendo, gesticulam pra mim nervosos, com a fala alterada, esbravejando palavras em nihongô mesmo sabendo que eu ainda não aprendi falar essa língua idiota! Edgar esbravejava a irmã que o acalmava através do silêncio reconfortante de uma boa ouvinte.


Finalmente ela quebrava o silêncio, os braços ao redor de Edgar diminuindo a distância entre eles, o olhar fixo naquelas recentes fragilidades, buscando compreensão em tudo, nas palavras, nos protestos e nos suspiros alarmados. “Aguenta firme maninho! Logo aparece uma oportunidade de estar com a gente lá na fábrica. Nossos pais estão adorando, e já fizeram amizades diversas entre brasileiros e japoneses”. Um leve ciúme brotava do olhar do irmão, e logo ela reforçava os abraços, os beijos singelos na bochecha rosada do frio intenso da noite, anestesiando o coração já acalmado das recentes preocupações que brotara dos pensamentos do dia. Nunca haviam sido expostos a uma temperatura tão baixa como aquela. Os cobertores, ou “futons” iam sendo duplicados conforme a madrugada adentrava, debaixo da roupa uma espécie de pijama grosso os protegia, mas sempre auxiliados pelos aquecedores ou “estobos” nos cantos dos quartos, ligado com a potência ao máximo, irradiando a luz avermelhada que ia aquecendo vagarosamente o resto do ambiente.


Pela manhã, ainda escuro, após tomarem o café, vestiam rapidamente o uniforme unissex composto pela calça, camisa comprida e boné confeccionados todos em um mesmo tecido: brim na cor branca. Por cima, blusões e cachecóis davam triplas voltas ao redor do pescoço. Esfregavam as mãos e baforavam ar quente sobre elas antes de ajeitarem as luvas de nylon revestido com espuma e que serveriam para proteção contra o frio implacável gerado na batida do vento aos dedos. O que mais demorava era calçar os sapatos de sola dura, motivo este que, para ir acostumando ao formato inflexível do material, iam trotanto, fazendo caretas, buscando apoio nas laterais, em móveis, até conseguirem assentar os pés ao formato do couro. Fechada a porta da casa, trocavam olhares apreensivos, algumas palavras de conforto mútuo, e em seguida adentrando a neblina ou a densidade húmida acumulada durante o varar da madrugada, o senhor Noboro seguia pedalando na frente, o olhar atencioso ao transitar dos carros, guiando cada um em sua própria bicicleta, com as mochilas à costas, e a cestinha na frente do guidom abarrotada de petiscos que seriam consumidos ao longo do dia.


No cruzamento da avenida Fujiwara com a Koyama, com um aceno de mão, Edgar se apartava da família. Seguia pedalando pela rua Ottawa que serpenteava bem abaixo dos trilhos do “Shikansen” e findava exatamente na porta do galpão do seu estabelecimento de trabalho. Chegava exatamente as 07:45 horas em ponto. Todas as manhãs. Recepcionado da pequena janela da cozinha localizada nos fundos da fábrica, sob os olhares curiosos dos 03 funcionários, Edgar estacionava a bicicleta prateada, recém emprestada da firma, e que se comprometera em pagá-la em apenas 12 suaves prestações. “Osoi!” Era o que frequentemente ouvia de Koiti, um dos funcionários mais antigo da firma e que posteriormente veio a descobrir que o significado daquela palavra, no dicionário bilíngue japonês-português significava “lerdo”. O sangue fervia, engrossava nas veias, ele tentava se segurar mas não aguentava. “Osoi dewanai!” Era o que respondia, se defendendo no forçado aprendizado da primeiras palavras daquele dialeto, encarando o velhote de frente, procurando a silhueta ou o brilho dos olhos “assustados” através das grossas lentes dos óculos fundo de garrafa.


Comparado com outros estabelecimentos de trabalho, o “Bijõogi” parecia um chiqueiro. Como eram poucas as inspeções dos responsáveis que raramente vinham da matriz, os parâmetros de limpeza ficavam meio que nas coxas: o piso sempre encardido com o “lodo” de anos, as paredes sebosas de humilhar mendigo velho, as máquinas e ferramentas de trabalho com várias camadas de sujeira impregnada principalmente nas entranhas aonde o “escovão” não conseguia “esfregar” o detergente. Mas ninguém ligava, muito menos se importavam, desde que a quantidade do arroz cozido que ficara acertado, fosse produzido e entregue aos caminhões até o badalar sonoro dos ponteiros do relógio às 18:00 horas da noite. Ali, debaixo das telhas quentes de zinco enferrujada, Koiti, Ishikawa e a Sra. Kaori eram os reis. Koiti, um idoso já na casa dos 78 anos, era o mais antigo funcionário. Responsável pelo recebimento dos pedidos do dia, o segundo na linha de produção, era ele que organizava o estoque dos sacos de arroz, empilhados, amontoados, às vezes esquecidos com a boca aberta no almoxarifado para a alegria dos ratos. Logo pela manhã, após amarrar o avental encardido que sublinhava ainda mais a saliência da barriga acostumada a se entupir de saquê às tardes, ele se diria ao depósito da matéria prima e vinha de lá trotando um ou dois sacos de arroz às costas. Forte pra burro, parecia que a cronologia do tempo não inflingia sobre ele qualquer tipo de desgaste: no corpo, nem nos ossos e muito menos na “aura enérgica” sempre disposta a alcançar as metas do dia.


Ishikawa, na casa dos 65 anos, era o primeiro na linha de produção. Branco igual neve quando cai do céu refletindo os feixes de luzes que insistiam atravessarem as nuvens, era ele o responsável pela temperatura correta do fogaréu ao longo de toda a extensão da linha. A olho nú, os óculos dourados sufocando o nariz avermelhado, ele enchia uniformemente os recipientes de ferro com a água e o grãos, e a medida que cada uma se movimentava sobre a quentura equilibrada que chamuscava abaixo dos trilhos, ele despejava harmoniosamente o sal. Mexia a colher de madeira suspensa entre o indicador e o polegar cerrados, agitava o interior da panela até que o pó branco ficasse todo diluído na água. A rota do equipamento era bem programada. Panela por panela, o rosto indo e vindo no movimentar frenético da cabeça, nada passava despercebido aos seus olhos. A não ser quando a “bexiga” implorava por um rápido abrir de barguia e a urina ao chão que ele “inocentemente” despejava, ficava aglomerada de insetos que sobrevoando o “fedor”, alcançavam vôos mais altos, caiam cozidos em meio ao vapor, e viravam condimentos não industrializados.


Quando o motor paralisava denunciando algum defeito, ele era o único que se aventurava na mecânica da máquina, desmontando, programando e reprogramando os dispositivos eletrônicos coloridos abarrotados na caixinha prateada: com ambas as mãos transbordando fusíveis de amperagens diversas, ferramentas a tiracolo na bolsinha de couro amarrada ao corpo, andava pra lá e prá cá em trotadas descompassadas, os braços indo e vindo em um ritmar que combinava com a espressão preocupada do rosto empaturrado de graxa. Ishikawa não aceitava que ninguém, além dele mesmo, ousasse por as mãos no seu “amor”, na sua “musa”, na sua “mulher”, como frequentemente dizia esboçando sorrisos, emitindo gargalhadas sinistras, e às vezes, quando os “nervos” saltitavam como gazelas sobre a pele encardida, ele emitia “berros estarrecedores” que ecoavam, engolindo e engolfando o silêncio que preenchia os espaços sonoros de cada canto do galpão.


Hoje o Ishikawa tá que tá!” era a voz enérgica da Sra.Kaori, baixinha idosa, troncuda em braços e pernas sempre velozes, com seus 60 anos bem expressados nas rugas que se avolumavam na face cerrada. Mandona por natureza, beata de poucas palavras, quando tinha que obedecer, fazia bico, sambava de um lado pro outro, arfava tempestades, derramando punições nas palavras e nos gestos que sublinhavam ainda mais o olhar expressivo, forte, matador sob a aba do boné sombreando parte do rosto como véu de noiva abandonada.


Quando a Sra. Kaori dizia: “Taniguchi San, kochi, kochi!” ela queria dizer “vem aqui!” em japonês. Por alguns meses, foi a única funcionária que chamava Edgar pelo nome, ou melhor, pelo sobrenome como é costume em todo Japão, e apesar dos seus trejeitos complicados, difíceis de entender para conviver, ele instintivamente se apegou a ela. Com o passar dos dias, a convivência atenuando diferenças culturais antes conflitantes, as difículdades no “nihongô” sendo diluídas no estudo exagerado que Edgar fazia no revirar insandecido dos dedos sobre as páginas do dicionário, a Sra.Kaori abrandou o olhar e passou a ensiná-lo com um “certo” fervor inexplicável: as funções rotineiras que envolviam desde a organização das caixas, o passo-a-passo da forragem do arroz cozido nas embalagens de plástico coloridas que seriam carregados nos caminhões fretados, o cuidado no ligar e desligar dos botões “recheados” com fios “desencapados” da rampa de carga e descarga, entre outras medidas de seguranças aleatórias que nunca deveriam ser “negligenciadas” porta adentro da fábrica.


Além do galpão principal, a esquerda havia um banheiro minúsculo com uma abertura quadriculada simulando uma janela localizada próxima a laje. Dentro do orifício estava acoplada o que parecia ser um pequeno exaustor que quando ligado através do interruptor ao lado da porta, sugava o mal cheiro momentâneo, jogando-o para fora, misturando com o ar do pátio. No centro intermediário, a cozinha. Suas janelas enormes estavam ladeadas por cima com a presença sutil de uma cortina de cor bege que caia gentilmente sobre a geladeira branca de bordas enferrujadas. Na pia de mármore, uma panela elétrica com a tampa sempre aberta, descansava ao lado de alguns poucos talheres como “hashis, tchauwan, conchas de madeiras e pequenos pratinhos preto por fora e avermelhados por dentro, sempre organizados, metodicamente enfileirados sobre um velho escorredor de ferro amassado. A sala de reunião era um pouco mais ampla que os outros ambientes e possuía um ar mais aconchegante. Sobre a maciez do tatame, suspenso no ar e chumbados nas paredes, quatro armários de ferro acomodavam os pertences pessoais a tranco de chave. Naquele ambiente os funcionários ora repousavam deitados no piso macio, palito de dente à boca em bocejos extenuantes após o almoço, outrora degustavam o lanche da tarde, sentados à mesa na altura dos joelhos, conversas e olhares sempre truncados, saboreando os chás e biscoitos amanteigados entre os dois únicos intervalos de descanso no dia.


Quer saber a verdade? Esse trampo me deixa quebrado!” Edgar repetia pra si mentalmente, mãos na lombar, arqueando o corpo, sofrendo as dores acumuladas por causa do peso exagerado das centenas panelas de ferro que era obrigado a empilhar. À medida que o dia passava e a tarde alcançava a penumbra da noite, ele se acalmava, ficava mais sereno, um pouco prestativo talvez, e o coração fibrilando resquícios de alegrias diversas, era inundado pelos pensamentos antigos relacionados a vida no Brasil. Quando o sino tocava, sem pestanejar, Edgar retirava o uniforme, vestia o jeans e a camiseta que ficavam quase encobertos pelo blusão imenso que encobria o corpo. Voava porta a fora, caminhando às vezes, trotando na maioria das vezes, com as mãos sempre no guidon, empurrando a bicicleta “ansioso” como “presidiário feliz” recém libertado da carceragem. A primeira coisa que fazia após alcançar a calçada era absorver os “cheiros gelados” do pessegueiro plantado no outro lado da rua: um ritual durava exatos cinco segundos. Depois subia na “magrela”, pés ansiosos no pedal, com a certeza na mente que as pedaladas de volta pra casa seriam bem mais “prazerosas” quando comparadas às que lhe trouxeram até a firma.


Na volta para casa, passeava por ruas e avenidas, o olhar menos atento ao tráfego e aos transeuntes na calçada, e a endorfina circulando o sangue no compasso das batidas de um coração mais retardado, produzia na aura de Edgar um anestesiamento mais funcional, mais proveitoso, mais compreensivo no corpo e na mente de alguém ainda não acostumado com as labutas do dia. No entanto, mesmo assim, ora e outra, ele sentia no corpo pequenos comichões diversos entre as coxas das pernas, no dorso das costas e seus ligamentos, nos músculos do antebraço até o alto da nuca, sofrendo essas supitações passageiras debandando em forma de calafrios velozes subindo a espinha e que, na maioria das vezes, o pegando despercebido, deixava-o ligeiramente suspenso no ar, dos pés ao calcanhar, parecendo possuído recém liberto em culto de descarrego frente ao Altar.


“Shopping Jusco! Meu lugar de breve descanso!” Agradecia feliz empurrando a bike, o caminhar mais lento adentrando o interior do pátio frente às lojas, e quando se aproximava do local apropriado às bicicletas, olhava sempre ao redor em giros de cabeça de quase 360°, encontrando dessa forma sempre o melhor local para repouso da sua magrela. “Me sinto um idiota vestindo assim!” Suspirava admirando jovens orientais em seus trajes mais inusitados que o tradicional, os blusões de hockey coloridos estampando o corpo e o rosto sob a aba de um boné jogado ligeiramente pro lado, as calças jeans frouxas, com suspensórios ou não, mas sempre extravagantes no larguear das bordas carcomidas pelo arrastar frenético ao chão dos tênis encobertos pelas barras arregaçadas. “Já troquei de país. O quê me custa trocar as vestimentas também? Dizia já desejando parecer mais japonês do que brasileiro, criando ilusões mentais à base de muito entulho acumulado no choque de culturas separadas por imensos vales, e não desejando mais retirar o véu cobrindo o rosto dekassegui, crendo cegamente, à partir dali, que mudanças exteriores feitas de pano, plástico, metal ou qualquer outro material que estampasse a face já envergonhada de “ser” pudessem fornecer algum consolo, algum sentido, algum efeito positivo na alma já amargurada pelas discrepâncias percebidas, latentes e absurdamente visíveis entre dois povos que sutilmente se interconectavam.


Seu maior prazer estava localizado abaixo da cúpula principal do shopping Jusco. Ladeado por flores artificiais e bordeado pela pequena praça com uma imensa cascata jorrando freneticamente jatos de águas que se harmonizavam, bem ali no centro, em frente ao pequeno lago artificial customizado; várias poltronas elétricas de massagens à disposição, totalmente a preço de nada, para quem quer que desejasse imergir na alma e na mente, os prazeres anestésicos de um bom relaxamento automatizado nas fissuras cansadas da própria carne. “Só ficarei quinze minutos!” Pensava, os olhos cerrados, as mãos segurando a latinha de refrigerante em bitocas suaves, evitando a todo o tempo endireitar a cabeça por conta da bola massageadora passeando a coluna em vibrações de subida e descida, liberando toda a tensão acumulada nos músculos do pescoço. Dali, acomodado, acompanhando o movimento frenético dos pés acelerados das pessoas, quinze minutos viravam trinta, quarenta, sessenta minutos de relaxamento parcial até o retorno já escurecido para casa.


“Tadaima!” Adentrando a porta da casa, o gorro levemente umedecido pelo acúmulo de geada, Edgar já no quarto, retirava lentamente o uniforme, os olhos sofrendo o embaço térmico condicionado pelo interior aquecido, enquanto ouvia de longe, lá na cozinha, os risos e gaitadas da irmã e os pais em seus gestos audíveis acompanhando os sons das palavras, provenientes de um sentimento feliz de um dia corroborado de experiências diversas.“Edgar San, Okaeri!” Dona Sumiko dizia “seja bem vindo!” em japonês, incorporando o dialeto a conta gotas entre os diálogos, prolongando seus esforços de acordo com a tenacidade que ela mesma apreendia novas palavras no insistir dedicado que fazia para adentrar as conversas entre as amigas japonesas que trabalhavam na fábrica. Diante daquilo, uma pontinha de inveja nascia no coração de Edgar; estocando aos poucos leves amarguras no peito ficando magoado, a pausa entre as respostas cada vez mais alongada frente às perguntas diretas que recebia, e quando se dirigia aos pais, era com uma voz sempre cansada, ausente dos interesses nipônicos, inevitavelmente envolvida pela película do desinteresse e do excesso do mau humor, tornando assim, rotineira a expressão do descaso ao ouvir os enredos, as histórias, os desfechos finais de todas as experiências da família ao redor da mesa de jantar. “ Não insiste! Estou sem fome!” Quando mais estressado que o normal, Edgar retirava respostas do seu estoque de más respostas, crendo inconscientemente que maltratando em provocações os interessados, era a única maneira de expressar e comprovar a tristeza claudicante presente, de acentuar resquícios de dores vitimizadas, e pacificar entremeio aos maus tratos, a confusão mental e emocional que o prendiam cada vez mais dentro do labirinto de falsas crenças em um possível desprezo parental.


Nos finais de semana, a cor acinzentada que insistia vaguear as emoções e os pensamentos de Edgar, recebia leves toques de um colorido mais específico, alegremente incandescente, mais rudimentar nas estruturas, e que ficavam bem mais notórios nos sorrisos espontâneos estampados na face corada não somente pelo frio característico do mês, mas pela ternura perene entremeando as conversas superficiais, os diálogos aprofundados, e as possíveis confidências sussurradas ao pé de ouvido que um irmão carente poderia compartilhar com uma irmã amorosa. “Ontem no Jusco fiquei quase uma hora explorando as cadeiras de massagens!” Edgar confessava a irmã rindo satisfeito, o rosto serenado apesar do olhar entristecido a medida que encarava cada peça exposta em seu guarda-roupa. “Uai maninho! Seu salário já foi depositado. A gente pode dar uma passeada lá e quem sabe encontrar algo bacana para você?” Emilly suavizando as palavras, atenta às constantes reclamações que ouvia dele, tentava impor a Edgar, um pouquinho mais de empolgação, descanso ou mesmo anestesiamento frente aos desafios diários que percebia cercear o irmão. “Não vai exagerar, meu filho! Compre somente o necessário! Ouvia de longe a voz do pai, sentado na calçada, próximo a janela da cozinha, precavido baforando economias diárias, enquanto a mãe ao lado, cabisbaixa pensativa, remendava um fiapo de pano de prato desgastado, a cor branca já encardida, bordado entremeio ao desenho de uma cesta carregada de frutas, as seguintes palavras: “Meu lar é abençoado!”.


Quando percebia essa energia castradora nas palavras do pai, o tom recém enternecido dos diálogos levemente acalorados com Emilly, esvaziavam o fervor, se assentavam acovardados, produzindo um silêncio momentaneamente perturbador no desânimo já característico das suas expressões verbais de final de tarde. “Papai quer controlar tudo? Eu estou trabalhando tanto pôxa vida! Tenho também o direito de ter minhas farras!” Se exaltava ora abafando as palavras, outrora elevando o tom delas, desejando a medida que os dias avançavam na dor fibrilando mais direitos de liberdades na alma, poder ser ouvido com mais querer, um pouco mais de consideração nas narrativas não teatralizadas que compartilhava utilizando-se de uma razão não superficial, mas para muito além do discernimento das palavras que ele expelia carregadas de reticências angustiantes.”O papai é assim mesmo Edgar! Ele nunca vai mudar maninho! Você também precisa compreendê-lo em suas limitações. Todos os nossos bens no Brasil foram penhorados, e ele carrega esse sentimento de perda no peito só passível de ser suportado por que estamos todos juntos, trabalhando para refazer nossas vidas!” A irmã mais nova dava um pequena amostra do amadurecimento alcançado pelas noites insones perdidas em companhia da mãe preocupada, ansiosa prevendo cenários inevitáveis de serem prorrogados, plantada ao pé da porta ou orquestrando sentada com o gancho do telefone à mão, desculpas esfarrapadas que gentilmente explicitava a cada um de seus credores.


“Tá decidido então! Partimos depois do almoço para o shopping Jusco!” Emilly abraçada ao irmão, o rosto suavizando o ombro de Edgar em olhares carregados de piscadelas recheadas de energia enternurada, sorria satisfeita, a respiração mais equilibrada, comemorando silenciosamente o nivelamento temporário das emoções claudicantes que desde que aportaram no Japão, ora e outra pululavam entremeio a pai e filho. “O Edgar não está satisfeito com o trabalho! Ele reclama de tudo e diz que o serviço é muito pesado, seu olhar está sempre triste, e o espírito frequentemente carregado. Jovem como é, com certeza sente que está perdendo o seu tempo no Bijõogi!” A mãe cochichava com o pai, ambos já debaixo do edredom, buscando entremeio aos pensamentos por algum paliativo, alguma saída, de preferência uma solução definitiva que pudesse de alguma forma aliviar a ardente perturbação ladeando os anseios do filho.


Dos vários desafios que a família teve que enfrentar, ou seja, o clima gelado, a cultura desconhecida, o linguajar pouco treinado agora tão necessário na sobrevivência e no trabalho, ora e outra eram corroídos de saudades pelo que ficou para trás: os entes queridos, a casa aconchegante, os finais de semanas recheados de risadas nos churrascos promovidos em conjunto com parentes e amigos, e os filhos também sentiam falta da escola, da rotina das tarefas e dos trabalhos escolares com os colegas, das brincadeiras de rua ao varar da noite e principalmente do desabrochar da puberdade nos namoros escondidos carregados de prazerosas descobertas ou mesmo do simples dialogar sentados à roda na calçada. Saudades plenas era o que sentiam fibrilando em pesares incômodos na alma cada vez que mergulhavam no vazio nostálgico do passado, mas nenhum sentimento de dor se comparava àquela agora latejante no coração dos pais e da irmã caçula. À procura de melhores condições de trabalho, os olhos marejados de tristezas aparentes na despedida, eles aceitaram pela primeira vez na história da família, que o filho Edgar Taniguchi fosse morar longe de casa.

28 de Outubro de 2019 às 20:17 1 Denunciar Insira 5
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Karimy Lubarino Karimy Lubarino
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