A Mulher no Apartamento Seguir história

guilhermerubido Guilherme Rubido

"Há uma mulher na janela". Esse foi o pensamento de Fábio quando olhou para o prédio do outro lado da rua. Em um estranho relato, Fábio percorre os extraordinários fatos que desencadearam seu colapso. Aflito, ele faz uma confissão terrível. Uma que não pretende levar em segredo para o túmulo.


Horror Histórias de fantasmas Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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A Mulher no Apartamento

Há uma mulher na janela.

Esse foi o pensamento que explodiu em minha mente como a droga de uma granada de um filme americano.

Eu jamais contaria essa história – tão surpreendentemente irreal, mesmo depois de eu mesmo ter vivido o que será relatado a seguir – se não fosse pela bala que estará alojada em meu lobo frontal – se é assim que as coisas acontecem – quando tudo vier à tona.

Começarei citando uma frase não muito conveniente nesse momento: vamos por partes. Foi Jack Ninguém-Sabe-Quem Estripador quem disse isso. Acho que ele estava certo.

De alguma forma.

Sou representante – era, na verdade – de um laboratório farmacêutico. Isso quer dizer que tenho que estudar os remédios que me são fornecidos pela empresa, achar um modo de apresentá-los, marcar um horário com o médico e botar pra quebrar. Na minha época, isso queria dizer que eu tinha que me sair muito bem. Basicamente, tenho que convencer o médico a fazer com que os pacientes que deixam a sala saiam com o nome dos meus remédios escritos em suas receitas. Esse era meu trabalho. Não todo. Mas a parte mais importante, talvez. Era um bom trabalho. Gostava dele. Mas acho que isso tudo não importa, não é? Porque as granadas americanas surgem aos montes e sem aviso. E uma delas fez tudo isso ir pelos ares. Boom! E tudo sumiu sob a poeira. Há! Seria ótimo se fosse uma piada, mas não é.

Talvez eu queira somente me enganar – e enganar algum filho da puta qualquer que talvez esteja lendo isso – jogando um pano de fundo ordinário de homem trabalhador sobre os acontecimentos.

Era uma daquelas noites quentes de dezembro. Aquelas em que você passa boa parte do dia só de cueca agarrado ao filtro de água – e quem sabe uma ou duas cervejas – e às formas de gelo. Então, como era de se esperar, depois de três copos tamanho cinema, a sineta tocou de madrugada: blóin! blóin! blóin! É hora de correr, campeão! E foi o que eu fiz. Não sou velho. Contudo, é certamente cada vez mais difícil recusar esses chamados da natureza. E a natureza não espera. Nunca. Até aí tudo normal. Fiz o que tinha que fazer e voltei pra cama. Dever cumprido. E eu adoro a sensação de dever cumprido. Quem não adora. Acho que faz tudo valer a pena, não acham?

Fiquei rolando na cama um bom tempo. Agora, pensando cá com meus botões, quase acredito que algo queria que eu estivesse acordado. Como se uma mão invisível me chacoalhasse no leito. Tinha perdido o sono ­­­­­– e isso é outra coisa que parece acontecer quando se começa a ficar velho. De repente, sair às 4 da manhã pra caminhar não parece mais uma ideia tão estranha­ – depois de ir ao banheiro, e já não aguentava mais rolar na cama, então aproveitei para ver que horas eram. Eu me lembro bem. Muito bem, na realidade. Porque eu fui até a cozinha pegar um copo d’água (lembra-se? O calor) e aproveitei pra dar uma olhada no relógio na parede: 4h47 da manhã. Tarde demais para dormir, amigão. Parece que alguém dançou.

Deus, como eu queria não ter dado ouvidos a esse conselho.

Mas eu ouvi. Na verdade, eu ri da ideia de voltar a dormir. Há, há, muito engraçado, Fábio, você nem viu a merda toda chegar! Ela entrou sem bater na porta e você nem percebeu quando ela voou em você. Que engraçado.

Com uma xícara em mãos, preparei um belo café expresso para mim. A máquina é das boas. Uma Nespresso vermelha, a melhor que o meu dinheiro podia comprar. Há uns cinco anos atrás, quando Sofia – minha antiga companheira, todos temos uma – ainda fazia parte da minha rotina, talvez ela também não teria conseguido dormir e nós nos sentássemos na mesa da cozinha para beber um café e contar umas piadas manjadas, mas que continuariam boas para sempre. Eu teria preparado duas xícaras, não só uma. E teríamos rido pra cacete, pode apostar. Sempre ríamos, principalmente ela. Pra falar a verdade, ela gargalhava. Uma risada boa, embora às vezes, confesso, um pouco irritante. Tudo isso ficou para trás. Tivemos problemas amorosos. Acho que todos passam por isso cedo ou tarde. Alguns são piores do que outros, mas todos passam. Sim, sim. O nosso não foi dos piores, eu diria. Houve muito choro e o velho blá, blá, blá feminino de sempre em nosso último encontro. Mas houve também muita risada. E ela riu bastante. Morreu de rir. Sofia sempre ria das minhas piadas. Era uma das coisas que eu adorava nela.

Chega de relatos amorosos, vamos às vias de fato. Café em mãos, me dirigi para a sala. Quem sabe um bom filme não estivesse passando, lembro de pensar. Um daqueles antigos, com brucutus como Schwarzenegger matando qualquer um que surgisse na frente. Entretanto, não fiquei sabendo de Arnold e suas matanças. Porque, enquanto eu me dirigia para o sofá, algo fez minhas pernas praticamente desmontarem. Não sei como não cai. Não sei mesmo. Sei que a xícara foi ao chão porque alguns dos pedaços de porcelana vermelha deixaram marcas no meu pé para atestar a realidade dos fatos. Porém, no momento, não ouvi som algum. Nem mesmo senti o toque do café fumegante que saltou para todos os lados (inclusive em minhas pernas). Meus olhos viam apenas uma coisa:

Havia uma mulher na janela.

Não na minha, é claro. Mas sim na do prédio na frente do meu. Ambos eram edifícios pequenos, de três ou quatro andares, e a rua que os separava era estreita. Assim, foi fácil visualizar a cena. Apesar da janela estar fechada e de apenas uma silhueta turva e negra poder ser vista, ainda assim, céus!, ainda assim eu sabia que ela olhava para mim! Diretamente para mim! E, meu deus do céu, eu não sei que merda era aquela, mas ela se debatia e arrastava as palmas da mão contra o vidro feito um peixe no aquário! A pele deixava rastros vermelhos vivos de sangue na vidraça e eu pensei que poderia pular da minha própria janela se aquilo não parasse. Eu pensei mesmo nisso, e talvez devesse ter feito. Teria sido mais fácil. Alguns minutos e teria geleia de Fábio para todos os lados na calçada lá de baixo: boom! Feito uma granada! Nem atrapalharia o trânsito. Mas não pulei. E, de qualquer modo, acho que vai ser melhor com a minha amiguinha aqui. Um tiro e: pá! Foda-se tudo, as luzes se apagam.

Eu conhecia todas as pessoas daquele prédio do outro lado da rua. É claro que sim! Moro nessa droga de bairro há muito tempo pra não conhecer. Seu Luiz – o dono da padaria – mora com a esposa no terceiro andar. Acho que ele é tipo o síndico do lugar. Nada formal, algo que deve ter acontecido naturalmente. Quando começou a perceber que as pessoas batiam à sua porta levando problemas, já era tarde demais para voltar. A matilha o escolhera.

Também tem Lucia – uma velinha que demora 15 minutos para dar dois passos – que mora no térreo. Uma fofoqueira experiente. Nós sempre nos encontramos na rua. Ela passa com o pinscher – ou melhor, eu passo por ela –, o cachorro-rato late e ela fala:

— Boa tarde, seu Fábio. Estou levando o Joaquim para um passeio. O veterinário disse que na idade dele isso é bom pro coração.

Sim, dona Lucia. É ótimo. O veterinário também deveria te contar a verdade sobre quem é que está passeando com quem aqui. E que não é só o coração do Joaquim que agradece a caminhada. Tic-tac. Posso ouvir daqui.

É óbvio que não respondo isso. Apenas o clássico:

— Estou vendo, dona Lucia. Joaquim parece forte como um touro. Fica com deus, garota!

Ela dá uma risadinha e eu a deixo para trás. Isso se repete pelo menos três vezes na semana. Na maioria das vezes ela está armada de informações sobre os incríveis acontecimentos do bairro.

Tem também o Cláudio, do segundo, que é um beberrão inveterado. E mais uns três ou quatro gatos pingados. E por aí vai. É verdade que a rotatividade ali é alta. São muitos idosos. E idosos partem dessa para uma melhor em pouco tempo. Conheci muitos que já se foram. Ainda assim, um dos apartamentos está desocupado há pelo menos cinco anos. Luiz – o da padaria. Cara legal – vivia me contando que os tempos andavam difíceis. Tudo muito caro. Era difícil vender um apartamento daqueles. E as pessoas agora só queriam saber de cubículos chiques com varandas gourmet. Eu sabia disso tudo. Ele sempre me contava a mesma história. Ainda assim: ela estava lá. Tão real quanto a janela que a escondia.

Passado um pouco do choque e voltando a sentir meu corpo, pude finalmente gritar. Cara, foi um susto horrível. Tipo acordar achando que está caindo e descobrir que você realmente tá caindo! Me escondi daquele pesadelo vivo. Tive de me segurar para não ir até o prédio naquele mesmo momento, talvez houvesse algo que Luiz não tivesse me contado. Moradora nova?, eu pensei. Não. Cinco anos desabitado, não era agora que as coisas mudariam, docinho. Lembre-se: os tempos andavam difíceis. Além disso, se esse fosse o caso, você seria o primeiro informado. Viu algum caminhão de mudança ou algo diferente? Não mesmo. E você sempre vê as coisas. Às vezes até demais, cá entre nós.

E eu estava certíssimo. Porque, no dia seguinte, eu fui até a padaria do Luiz. Apenas pra tomar um café com pão na chapa e esclarecer algumas coisas. Nada demais. Mas, se querem saber, não dormi a noite inteira. E, gostem ou não, chorei que nem uma menininha. Fiquei na cama sem me mover, catatônico. As lágrimas secavam em meu rosto e logo outras surgiam para umidificar o caminho, até que a fonte secasse totalmente. Vocês tinham que ver o estado da cama pela manhã. Havia sangue por todo lado. Uma camada seca e vermelha cobria meus pés e os cobertores. O que aconteceu foi que, depois que vi a mulher na janela de madrugada, saí correndo. No caminho, acabei pisando no resto da xícara que tinha se despedaçado pelo chão. Nem senti na hora. De manhã, arranquei vários cacos. Meu pé não parava de latejar, mas a dor era ainda algo muito distante. Porque, quando a luz da manhã pousou sobre meus olhos secos e vermelhos de tanto chorar, minha mente só pensava em uma coisa. E foi nisso que ela pensou a noite toda: havia mesmo uma mulher naquela janela. Mesmo.

Foi difícil ficar apresentável para aparecer na padaria. Meus olhos traziam duas bolsas roxas sob eles. Meu rosto estava cansado e era difícil não imaginar aquela figura feminina surgindo por todos os lados. Por trás de uma porta, no espelho e, o mais terrível: em minha mente. Uma imagem insistente e real.

O pente tremia em minha mão como uma batedeira, mais desarrumando o cabelo do que qualquer coisa. E acho que abri umas duas feridas cutucando a gengiva com a escova de dente. O mais complicado foram os ferimentos no pé. E, mesmo assim, dei meu jeito. Eu sempre dou. Foi assim que sobrevivi.

Até hoje.

Passei pela frente do prédio do outro lado da rua e, com temor, olhei a janela. Não havia nada lá, para meu alívio. Os sete minutos de caminhada foram até bons depois disso. Não os melhores que já tive.

Já na padaria, consegui conversar com Luiz. Acho que meus esforços estéticos não adiantaram muito, porque ele fez uma cara estranha quando me viu e me perguntou se estava tudo bem. Sim, sim, tudo ótimo. Tudo as mil maravilhas. Acho até que virei na esquina errada e acabei parando no País das Maravilhas, e o Chapeleiro Maluco tá avisando que é hora de uma parada para o chá.

Respondi:

— Tudo ótimo. Só um pouco cansado. Noite difícil. Meu ar-condicionado quebrou.

Ele assentiu e pareceu realmente comovido pela minha situação. Homem legal, já disse. Joguei conversa fora e, gradualmente, fui chegando onde queria. Perguntei como estava a situação do apartamento. Ele sabia a qual apartamento eu me referia e disse que estava na mesma de sempre: tão vazio quanto a cabeça dos imbecis que elegeram o presidente. Concordei com um aceno de cabeça e tomei um gole do café. Fraco, mas gostoso. Por dentro, estremeci. Talvez ele até tenha visto meu corpo tremer. Porque eu quase me caguei naquele momento. Vazio. Meu estômago pareceu se dobrar até ficar do tamanho de uma bolinha de gude. Terminei de comer o que restava, me esforçando em cada mordida para não vomitar. Conversamos um pouco sobre o jogo da quinta-feira e fui embora com um sorriso amarelo no rosto. Tive de me apoiar na parede quando me levantei do banquinho em que estava sentado. Acho que alguém segurou meu ombro, porque me lembro de apagar por alguns segundos, mas não senti o chão. Quando voltei a mim, já estava novamente na rua.

O sol estava forte. Meus miolos pipocavam, fritando sob o calor. Lembro de pensar que precisava urgentemente de um Advil. Embora ache que apenas uma martelada bem dada poderia resolver aquela situação.

Quando cheguei perto de casa, passei sem olhar para o pequeno edifício do outro lado da rua. Achei que saberia o que meus olhos encontrariam lá. Quase podia sentir. Acho que senti. E só por isso que, enquanto destrancava o portão da frente, minha cabeça se voltou para trás com rapidez. Um movimento involuntário, acreditem. Quase um espasmo, é o que gosto dizer. É bom parar tirar o peso da culpa. Com a mesma rapidez que foi, minha cabeça voltou para o portão à minha frente, como aquelas molas que saltam de uma caixa surpresa. E eu era o palhaço preso à mola.

Acho que a vi. Não posso confirmar, mas ach... ah, que se dane! A puta tava lá! Tava lá me olhando de cima. “Tão vazio quanto a cabeça dos imbecis que elegeram o presidente” o cacete!

Entrei correndo. Tropecei pelas escadarias do prédio até chegar no meu andar. Entrei em casa e tranquei a porta. Nem ousei olhar pela janela da sala. Sabia que a vadia estaria lá. Só fechei as cortinas e fui deitar. Estava exausto demais para qualquer coisa. Penso que dormi, ou desmaiei, não sei se há diferença. Houve sonhos. E é óbvio que ela estava presente. Porque agora ela estava em todos os lugares. Talvez sempre tenha estado.

Acordei com o som da chuva contra o prédio. Já estava de noite. Eram nove horas. Eu dormi por mais de dez horas e ainda me sentia como se meu corpo pudesse despencar a qualquer momento. Percebi que aquilo não poderia durar mais muito tempo. Eu ou ela, alguém tinha que fazer a última jogada e cair fora do jogo. Ela estava ganhando, mas eu daria a cartada final.

Levantei-me da cama e caminhei até a sala. Eu estava extremamente calmo. Estranhamente... leve. A chuva e o frio que viera com ela amortecia minhas têmporas, aliviando o latejar da cabeça, o que fez meu cérebro emergir do que parecia um coma. Eu estava pronto para fazer o que eu devia. Fazer o que tinha de ser feito, assim como fizera antes.

Apesar de tudo, a aparente calma foi apenas um trem rápido que logo se perdeu no horizonte. Quando descortinei aquilo que me separava da visão do inferno, a insanidade pousou as mãos sobre os meus ombros outra vez. Outra vez aquela antiga sensação. Puxei a cortina da sala e olhei para a janela do outro lado da rua: ela estava lá, me esperando. Naquela hora eu soube que a vadia sorria. Zombava de mim. Ela não ficou parada muito tempo. Quando me viu, saiu andando para dentro do apartamento, deixando a janela para trás e saindo – graças a deus – de minhas vistas.

Como eu havia dito, aquele vislumbre terrível jogou um véu de fúria sobre meus olhos e lançou a alma de um demônio implacável sobre mim. Sai correndo de meu apartamento e desci as escadarias do prédio. Com a raiva que eu sentia, não duvidaria se me dissessem que eu simplesmente havia pulado para o térreo e atravessado as paredes.

Atravessei a rua sentindo a chuva derramar-se em meu corpo. Nem mesmo o contato com a água fria foi o suficiente para arrefecer meus ânimos. Cheguei ao portão do prédio e – seja por sorte ou pelos planos insanos do cosmos – a porta estava aberta. Dona Lucia estava lá, encharcada, provavelmente voltando de mais um dos passeios com Joaquim. O cachorro ainda mais feio com o pelo molhado. Quando ela me viu, começou a falar:

— Nossa, Fábio, essa chuva me pegou de surp... — mas se interrompeu.

Acho que se assustou com meu rosto quando cheguei mais perto. Joaquim começou a latir furioso. Um latido estridente e insuportavelmente irritante! Como eu queria matar aquele rato dos infernos naquele momento. Fazer o coração bater tão rápido até que explodisse. É, campeão, parece que você não passeou o bastante, há, há! Quem sabe na próxima. Contudo, nada fiz. Apenas passei pela porta aberta, deixando os dois para trás. A senhora se afastou quando atravessei. Pobre Lucia. Ela não tinha nada a ver.

Que se foda.

Não sei se eu estava gritando, mas acho que sim, porque os moradores pareciam surgir aos montes pelos corredores. Ou talvez Lucia é que tenha gritado. Sei lá. Não sei de muita coisa agora. Só sei que ignorei todos eles e continuei avançando. Subi as escadas até o segundo andar. Um turbilhão de passos me seguia atrás e, se me chamavam, não ouvi. Tudo à minha volta estava em segundo plano. Eu estava no fundo do mar e os sons que vinham da superfície eram distorcidos e vagos. Todos sem importância. Sem importância alguma.

Parei diante da porta 22. Estava prestes a começar a chutá-la – a abriria com os dentes, se preciso –­ quando alguém me segurou pelo cotovelo. Era Luiz, o maldito padeiro e síndico. Ele tinha as chaves. Eu sabia que tinha. Eu mesmo as deixara com ele.

Ele falou:

— Fábio! Deus do céu, homem. Pare com isso! Você sabe que não tem droga nenhuma aí dentro. Não te falei isso ainda hoje? Que que tá acontecendo com você? Parece até que não se lembra que ela se mudou, você mesmo me disse. — Mais uma vez, a voz soou disforme, sem sentido. Uma pilha de balbucios amorfos em outra língua.

— Dá a porra da chave. — Devo ter cuspido maldosamente as palavras, porque me lembro dos rostos à minha volta se contorcerem horrorizados. — Me dá ou eu chuto até derrubar!

Ele hesitou por um tempo. Para mim, pareceram dolorosos longos minutos. Até que tirou um molho de chaves do bolso e começou a cutucar uma a uma. Talvez tenha pensado que, abrindo a porta, eu veria o apartamento vazio e me acalmaria. Então, me deu a chave. Foi difícil acertar o buraco da fechadura. Minhas mãos tremiam energizadas. Vibravam de pavor e raiva.

A porta rangeu e se abriu, revelando um apartamento vazio e empoeirado. Um raio de luz branca entrou pela porta aberta. O cheiro de mofo pairava no ar. Não havia luz além da pouca que vinha do corredor e, na noite, o lugar mergulhava em sombras profundas. Além de alguns poucos móveis, não havia mais nada. Nem sinal da mulher. Apenas o silêncio mórbido de um lugar inabitado.

Mas eu sabia onde encontrá-la. Sabia onde ela estava e onde havia se escondido feito uma cobra por cinco anos!

As pessoas atrás de mim tentavam me acalmar inutilmente. Gemiam feito porcos amedrontados no lamaçal. Era extremamente irritante.

— Fábio, pelo amor de deus, o que você quer?! Tá assustando todos os moradores. Alguém vai ligar para a polícia e você não vai poder dizer que não te ajudei...

Era Luiz outra vez. Sempre ele, com aquela voz apaziguadora de “ei, amigo, sei o que está sentindo. Sei mesmo”.

Então me virei como uma fera alucinada:

— Cala a boca! Cala-a-porra-da-boca! — Disso eu me lembro bem, porque eu gritei muito. E continuei gritando, repetindo as mesmas palavras como um alarme insistente. — São um bando de imbecis! Todos eles! Todos uns idiotas. Calem a boca, merda! Calem a boca!

E, enquanto dizia isso, empurrei um armário de madeira que ficava em um dos cantos da sala. O móvel foi ao chão com um estrondo pesado. Somente a cólera apavorada que me tomara seria capaz de me fazer exercer tal força. Então me voltei para um canto e, empurrando as pessoas, peguei uma cadeira.

— Seus idiotas! Cinco anos com essas caras retardadas — eu gritava, batendo alucinadamente com a cadeira na superfície da parede que antes estava escondida pelo armário. A parede era forte, mas havia algo menos resistente em seu centro. No ponto certo. E eu estava possuído por algo muito maior. Não parei um segundo, nem quando minhas mãos começaram a sangrar. A cadeira se contorcia lançando farpas em meus dedos. Ouvi um crec em meu ombro e o ignorei. Nem os gritos atrás de mim me fariam parar. Nada me faria parar.

O centro da parede cedia aos poucos. O pó caia no chão e a cadeira em minhas mãos já estava completamente deformada. Um contorno circular começou a surgir na superfície atingida, até que, cedendo sob as minhas investidas, um pedaço da parede esfarelou-se no chão, deixando em seu lugar um buraco escuro e fedido. Até consigo imaginar aqueles que estavam presentes levando os dedos ao nariz para impedir o cheiro de morte.

Lancei aquilo que um dia fora chamado de cadeira para o lado e olhei para dentro da fenda.

Os moradores se amontoaram em volta de mim, mas, depois de verem o segredo que aquela parede guardava, alguns choraram, correram e rezaram. Vários “ai, meu deus!” foram proferidos. Apenas algumas poucas pessoas permaneceram ao meu lado, chocadas demais com o que estavam vendo para se mexerem.

Lá dentro, emparedada na parede em um buraco que era pouco maior do que um micro-ondas, havia uma mulher. Era como aquele número de circo em que o contorcionista entra em uma minúscula caixa. Só que a mulher estava contorcida como uma aranha, e não havia o mesmo esmero e a graciosidade dos funcionários circenses. Era grotesco. No meio de tudo, embalada pelo corpo retorcido como uma oferenda, a cabeça da mulher olhava para os espectadores à sua frente, onde antes havia apenas a escuridão interna de uma parede. Um sorriso estava aberto em seu rosto. Pensei que ela começaria a gargalhar a qualquer momento.

Ali estava Sofia.

Sem conseguir me segurar, pousei a mão ferida sobre a pele da morta. Quando o fiz, senti a quentura do toque. O sangue ainda parecia percorrer as veias sob a pálida pele. E Deus me perdoe por dizer que senti e ouvi a respiração dela!

Só o que pude fazer foi correr de volta para casa.

Eles irão me pegar! Passado o choque, eles entenderão o que aconteceu e chamarão a polícia para mim!

Sinto ela me olhando daquela janela enquanto escrevo isto aqui. Imagino-a deslizando como uma serpente para fora da toca fétida por onde ela rastejara de volta ao mundo há sabe-se lá Deus quantos anos!

Estão batendo em minha porta. Eles chegaram. Mas eu já não estarei mais aqui.

30 de Outubro de 2019 às 06:16 4 Denunciar Insira 8
Fim

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Witalo Castro Witalo Castro
Parabéns, cara. Me fez lembrar do conto O Gato preto, de Allan Poe.

  • Guilherme Rubido Guilherme Rubido
    Que bom que gostou, Witalo! O Gato Preto é, na minha opinião, um dos melhores do Poe. Fico feliz que meu conto tenha evocado lembranças de um conto como esse. Obrigado! 1 week ago
MiRz Rz MiRz Rz
Olá, eu sou a MiRz do Sistema de Verificação do Inkspired. O Sistema de Verificação atua para ver se as histórias estão dentro das normas do site e ajudar os leitores a encontrar boas histórias no quesito de gramática e ortografia; verificar sua história significa colocá-la entre as melhores nesse aspecto. A verificação não é obrigatória para sua história continuar sendo exibida no site, portanto se não se interessar em obtê-la, basta ignorar essa mensagem e não alterar o seu texto. Caso queria que outras histórias suas sejam verificadas, é só contratar o serviço através do “Serviços de Autopublicação”. Sua história está marcada como “em revisão”, pois apesar da ortografia estar impecável — parabéns por isso, inclusive —, a classificação indicativa está fora das Regras Comunitárias, vez que o texto apresenta uso de palavras de baixo calão em forma de agressão verbal, portanto não estão adequadas para uma classificação livre, sendo a classificação correta “Não recomendado para menores de 13 anos”. Você terá 3 dias para mudar a classificação indicativa. Ao fazê-lo, é só responder esse comentário que eu poderei fazer a verificação da história. No mais, seu conto está incrível! Vi nas tags referências ao Edgar Allan Poe e li super animada e não me decepcionei. Parabéns pela criatividade! Tenha um bom final de semana. :)
1 de Novembro de 2019 às 13:21

  • Guilherme Rubido Guilherme Rubido
    Pronto! Alterei a classificação indicativa :) Agradeço imensamente pelos elogios! Fico muito feliz em saber que a leitura foi satisfatória para você. Poe é um mestre para aqueles como eu que escrevem sobre o abominável. Há muito dele no que escrevo, com certeza! Além disso, devo parabenizá-los pelo rápido processo na verificação da história. Obrigado por tudo e bom fim de semana! 1 de Novembro de 2019 às 13:43
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