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psiu_psycho Billy Who

Onde uma realidade ultrajante não combina com os padrões de qualquer época, se resta uivar ou berrar.


Conto Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

#cotidiano #O-Uivo #Allen-Ginsberg
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Cidade Baixa



Não estou tentando causar nenhuma confusão

Só estou falando sobre a minha geração

Generation – The Who



Caro Allen,

Eu ouvi quando o uivo rasgou a inércia pueril de minha adolescência corrompida, como páginas cortantes compostas de lâminas que fizeram meu rosto desviar para a luz cegante de um holofote de pocilga claustrofóbica criada com música e suor adolescente.


Eu vi grandes homens carecas portando estandartes de ódio de poeiras passadas, reluzindo na sombra do ídolo, estuprando a liberdade com tacos de baseball.

Eu senti o cheiro do mijo anônimo de uma horda de indigentes com barbas ensebadas arrastando por sarjetas que fizeram ninho entre uma dose e outra de pinga para nublar a visão da solidão e cegar do frio, cegar da fome, cegar do descaso.


E bebi com eles.


E fumei com eles.


E os abandonei, e os evitei, e estendi minha mão com crivos que pediram a cada badalar do relógio biológico por vício.

E vi putas solitárias tremendo de frio ao sereno noturno, sedentas por um olhar de compreensão que coravam como virgens ao menor sinal de humanidade pairando sob suas cabeças sagradas.


Estendi minhas palmas para paredes decoradas com grafites dos inconformados e senti a bota dos policiais pisando em meu orgulho, com sorrisos deformados em seus rostos suínos enquanto comprimiam uma ejaculação informal de regozijo em nome de sua ordem cruel.


Vi meus amigos, anjos drogados, páreas suicidas, desordeiros apaixonantes, correrem sob o frio com sabor de sangue, de álcool e drogas, de sêmen, para não esconderijos inocentes.


Eu os vi, e eles corriam.


Eles tombavam e morriam sob uma nova era de vitrines e falso moralismo e consumismo desenfreado que os fazia sentirem miseráveis dentro de suas roupas de carne.


Eu vi as garotas limpas sentirem asco, eu as vi mergulhar o nariz em pó e virarem vaga de estacionamento para paus alheios, e com roupas caras e longos cabelos de veludo, elas desprezaram a vulgaridade alheia.


Eu vi a minha geração crescer e minguar como um feto defeituoso, que ultrajado e violado pelo comodismo, deixou o vazio fincar garras afiadas em seus ombros e devorar seus cérebros.


Eu vi sentimentos nascerem e morrerem na escuridão do anonimato, entre coxas femininas, dentro de bustos fartos onde fiz morada em silêncio, ouvindo berros pejorativos que o mundo está acabando.


Eu vi a insistente cadência de quadris contra uma parede de braços e pernas em becos entre bares.


Eu vi o vômito lavar as calçadas e os queixos e a sujeira humana que biológica, refletia a luz de postes moribundos.

Eu vi Deus descer do céu e ser morto, apedrejado, zombado, violentado, torturado, discriminado e morto, com seu rosto negro se voltando ao firmamento e perdoar.


Eu vi os casebres a qual visitei, as crianças nuas correndo entre vielas da inocência com bocas empoeiradas, com pés descalços pulando trincheiras de esgoto a céu aberto. E seus rituais, e suas risadas, e seu choro constante contra os latidos de fuzilamento de uma concubina rica que lhes jogava esmolas.


Eu vi meus irmãos montados sob cavalos de aço e duas rodas circulando por zonas rurais, pela cidade, trazendo em seus coletes uma honra que encobre um crescente desespero de não pertencer pertencendo a algo, vi suas caras iradas a fixar decisões terríveis, alegrias do vento, faróis apagados e ronco de motor.


Eu os vi trair, eu os vi dar a vida, eu os vi amar.


Eu vi o mundo, eu vi sua feiura e a ergui em um pedestal, a beijei, a quis.


Caro Allen, você pairou sobre sanatórios bestiais e rompeu aquilo que chamam de arte, você a arranhou e amaldiçoou, e você viu.


Você viu aquilo que ninguém queria ver, você evocou por demônios ultrajantes da loucura e eu sorri, pois sabia que você estava certo.


Sempre esteve certo sobre tudo.


Hoje coloquei o Rei Lagarto para acariciar os meus tímpanos e lembrei-me de você, e lembrei-me do que vi, e lembrei o que você viu.


E escrevi.


N/A: Allen é Allen Ginsberg , quem me rendeu inspiração para escrever a partir de O Uivo sobre minha visão pessoal.

Para quem quiser ler "O Uivo", aqui está o link: http://www.chacomletras.com.br/2015/04/eis-o-poema-uivo-de-allen-ginsberg/

Cidade Baixa é um bairro boêmio aqui em Porto Alegre que frequentei muito na minha adolescência.


20 de Outubro de 2019 às 22:04 3 Denunciar Insira 4
Fim

Conheça o autor

Billy Who Escritora de originais independentes pelo Clube dos autores, editora BolsiLivros e antologia Carcoma, dividindo o teclado com um alterego viciado em escrever. Leitora e usuária de stand. Escrever é humano, editar é divino, eu sou um troll.

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Morghanah . Morghanah .
Eu senti o Billy falando e como ele estava prolixo, embora falando pouco. Deu para sentir suas emoções e tudo o que viu, como viu. Sendo mais antigo do que o próprio tempo. Vendo, sem participar. Estando junto sem se aproximar. Sofrendo sem se apaixonar. É engraçado isso, né? Como sentimos as coisas. Como senti essas palavras e o vi como algo tão vivo e presente ao mesmo tempo em que distante, talvez até morto. Quem sabe a amargura da revolta de ver tudo o que viu sem poder ajudar ou fazer nada; o perceber, o sentir e absorver de um jeito único que já não mais faz parte das pessoas, somente dele. Talvez por isso o tenha sentido como um adeus ao Allen, porque de certa forma ele é todos ou, ao menos, alguns poucos de nós. Parabéns, more, amei seu conto, como sempre dando tiro na cara da sociedade e me deixando sem saber o que ou como dizer algo que preste, mas eu senti a vida, alma e gostinho de cada palavra, e por mais que sejam duras como a vida, foram muito saborosas de ler ( ˘ ³˘)♥

  • Billy Who Billy Who
    Não entendi exatamente a sua interpretação, sobre o distanciamento, pois se tratando de algo que realmente vi e tenho visto por tantos anos na noite. Mas enfim, O Uivo do Allen tem esse mesmo formato de escrita, claro, mil vezes melhor, mas fiz uma pequena homenagem ao escritor símbolo da geração beat que eu considero o poeta dos poetas e fiz a minha visão de mundo por os parâmetros dele. Fico feliz que tenha gostado ❤ 3 weeks ago
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