Ansiosa Seguir história

yamipamuy Gabriela Canevarolo

[...] Após um longo fim de semana trancada em casa relendo meus livros favoritos, eu estava pronta para enfrentar uma nova semana de estudos. As provas se aproximavam - o que me causava calafrios, sinceramente. Eu não podia faltar nas aulas, por mais que eu desejasse. Apesar de não parecer, eu amava estudar. Havia me matriculado na faculdade logo após terminar o ensino médio, pois não conseguia ver uma vida onde eu não estudasse. Eu sonhava em ser professora, e estava quase alcançando isso. Era meu penúltimo ano de faculdade, no meu amado curso de Letras. O vento gélido batia em meu rosto enquanto eu caminhava em direção à faculdade. Os últimos dias haviam sido frios, como autênticos dias de inverno deveriam ser. Meu casaco turquesa protegia meus braços e tronco, enquanto um cachecol branco se pendurava em meu pescoço. Desejava infinitamente ter levado minhas luvas e uma touca, mas, pelo menos, já estava próxima à faculdade e dificilmente o vento gelado me incomodaria dentro da sala de aula. [...]


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#ansiedade #239 #depressao
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Ansiosa

Após um longo fim de semana trancada em casa relendo meus livros favoritos, eu estava pronta para enfrentar uma nova semana de estudos. As provas se aproximavam - o que me causava calafrios, sinceramente. Eu não podia faltar nas aulas, por mais que eu desejasse.

Apesar de não parecer, eu amava estudar. Havia me matriculado na faculdade logo após terminar o ensino médio, pois não conseguia ver uma vida onde eu não estudasse. Eu sonhava em ser professora, e estava quase alcançando isso. Era meu penúltimo ano de faculdade, no meu amado curso de Letras.

O vento gélido batia em meu rosto enquanto eu caminhava em direção à faculdade. Os últimos dias haviam sido frios, como autênticos dias de inverno deveriam ser. Meu casaco turquesa protegia meus braços e tronco, enquanto um cachecol branco se pendurava em meu pescoço. Desejava infinitamente ter levado minhas luvas e uma touca, mas, pelo menos, já estava próxima à faculdade e dificilmente o vento gelado me incomodaria dentro da sala de aula.

Eu mexia em meu celular enquanto subia a pequena ladeira. Diversas mensagens de meus amigos e colegas de classe enchiam minha tela de notificações. Apresentaríamos um seminário hoje e, como sempre, todos pareciam muito animados para isso. Menos eu, por mais que eu dissesse o contrário.

Era conhecida por ter uma ótima fala dentro do ambiente acadêmico e, não podia negar, que era verdade; entretanto, ninguém além de mim sabia o motivo de tanta excelência: anos de treinamento com a minha terapeuta. Há alguns anos atrás, eu mau conseguia falar com meus pais. Quem me visse hoje jamais imaginaria isso.

Poderia até dizer que existiam duas de mim. A que todos conheciam: alegre, comunicativa, carinhosa, espontânea; e a que apenas eu conhecia: triste, isolada e desesperançosa.

A princípio pode até parecer estranho, mas é assim que me vejo todos os dias. Acordo pela manhã e saio por aí distribuindo risos e acenos para todos, afinal de contas, as pessoas querem sempre ver você sorrindo. Admito que não é nada fácil rir sem motivos, e, fingir viver uma vida, quando, na verdade, vive outra.

Durante o dia eu vivo a vida que as pessoas acham melhor para mim. Mas quando o sol se vai e a noite chega, é nessa hora que eu vivo a minha vida. Me refugio em um quarto escuro, e ali naquele lugar, eu faço o que realmente sinto.

E não fique aí achando que isso é fácil para mim, porque ninguém gosta de ser chamado de duas caras, não é mesmo? Mas esse é o preço que eu preciso pagar. Pelo menos dessa forma eu poderia manter as pessoas por perto. Eu sabia que ninguém se relacionaria com alguém mentalmente quebrado.

Cheguei até a porta da faculdade. Homens e mulheres das mais diversas idades conversavam entre si, quase gritando. Risadas, fumaças de cigarro e algumas latas de cerveja. Já estava acostumada com aquilo, mas ainda me perguntava “como alguém consegue beber em plena segunda-feira?”

Andei até a catraca da faculdade, distribuindo alguns cumprimentos para colegas de sala que estavam em meio a multidão de pessoas. Algumas pararam para conversar coisas fúteis comigo, como a última festa que eu não fui ou como meu casaco era estiloso.

Me desvencilhei da melhor forma que pude da maioria das conversas. Minha mente estava turbulenta demais para interagir com qualquer pessoa. Primeiro eu apresentaria o trabalho, depois poderia colocar minha máscara de volta.

O prédio da faculdade era composto por quatro andares, e eu estudava no terceiro. Como de costume, fui até a minha sala pelo elevador dos funcionários, pois, assim, não precisaria dividir o cubículo metálico com outros alunos.

Cheguei na sala. Poucos colegas estavam lá, ainda era seis e cinquenta, e nossa aula só começava às sete e quinze. Cumprimentei-os de longe e me alojei no meu lugar de costume, encostada na parede, porém nas primeiras fileiras. Afinal, eu era uma garota estudiosa, não era? Além do mais, eu era representante de classe, e essa era a única forma que eu tinha de focar minha atenção nas informações passadas pelos professores.

Aos poucos a sala foi se enchendo, éramos em cerca de sessenta alunos, divididos entre Bacharel e Licenciatura. Apenas os alunos de licenciatura apresentariam o seminário aquele dia e, por isso, tinha optado por fazer o trabalho sozinha, como quase sempre. Trabalhar em grupo não era meu forte.

As sete e quinze em ponto, o professor chegou na sala. Era um homem de provavelmente trinta e cinco anos, com cabelos bagunçados e carregando uma pilha enorme de papéis debaixo de seu braço. Eu não gostava dele, o achava um professor sem didática. Às vezes tinha medo de me tornar como ele.

A chamada foi feita, logo no início da aula. Havia um computador arrumado para que pudéssemos fazer nossas apresentações. Por algum motivo, o professor tinha deixado o tema para livre escolha. O meu era A Evolução da educação brasileira.

O professor pediu que um dos alunos ligasse o projetor e o ajudasse com a colocação da tela onde a apresentação seria mostrada. Anunciou a ordem dos trabalhos, o meu seria o terceiro a ser apresentado.

Um por um, os grupos foram subindo ao pequeno palco em frente ao quadro negro da sala, fazendo apresentações enroladas sobre temas relacionados à educação.

Prestei atenção no primeiro. Era um seminário sobre o Ensino Especializados para Indígenas, um tema bem interessante, mas que meus colegas não sabiam discursar sobre sem gaguejar ou demonstra a desconfiança que tinham em seu potencial.

Talvez fosse por isso que eu passasse uma imagem de inteligente. Minha máscara, meu treinamento com minha psicóloga, o medo de ser revelada, tudo isso fazia com que minha postura perante à classe e aos professores parecesse tão confiante. Mesmo que não fosse.

Não consegui prestar atenção no segundo trabalho. Consegui ver nos primeiros minutos de apresentação que ele havia sido mal feito ou, como diria minha mãe, feito nas coxas. Era sobre o Ensino Bilíngue para Surdos, algo que eu amava, e por isso percebi muitos erros na apresentação. Me pergunto se o professor chegou a pensar o mesmo.

Ouvi o professor chamando meu nome, o que me tirou de meu transe mental de análises e julgamentos. Levantei em direção ao palco com um pequeno pen-drive, onde minha apresentação estava guardada. Percebi o professor olhando para mim com certa expectativa. Ele provavelmente esperava muito de mim.

Alguns cochichos corriam pela sala enquanto eu arrumava minha apresentação no computador, não fazia a mínima ideia do que estavam falando. Suspirei, apenas mais uma apresentação normal como qualquer outra.

Subi no palco, de costas para a tela e virada para meus colegas de classe. Alguns me olhavam com atenção, outros dormiam, outros mexiam em seu celulares. Comecei a falar sobre os primórdios do ensino no Brasil, ainda colônia de Portugal.

Em poucos minutos de apresentação, senti meu coração bater mais forte. Estranhei, mas continuei a falar da mesma forma.

Mais alguns minutos, o ar começou a me faltar. Continuei apresentando, mesmo já mostrando dificuldades para falar e andar.

Em cerca de segundos, minha visão ficou turva. O que estava acontecendo? Por que eu estava me sentindo assim? Por que naquela hora? Por que?

Me vi frágil e indefesa. Não conseguia mais falar.

Desesperada, sem saber o que fazer, desci do palco, já chorando e fui em direção ao banheiro.

Me tranquei em uma das cabines e sentei na tampa do vaso. Havia barulhos em minha cabeça, mesmo que o lugar estivesse vazio. Minhas mão agarravam meus cabelos com força, enquanto minhas pernas balançavam de forma frenética. Como eu pude deixar que isso acontecesse na frente de todos?

Me sentia envergonhada, humilhada. Isso não podia ter acontecido. Estava tudo bem, era para estar tudo bem. Nada havia acontecido aquele dia para que não fosse forte o suficiente para segurar minhas aparências.

Mesmo assim eu não fui. Eu falhei, falhei comigo, com meus pais, com minha psicóloga. Falhei com todos, pois agora todos saberiam quem eu realmente era.

Retirei, com as minhas mãos trêmulas, um pequeno pedaço de papel dobrado. Desdobrei cuidadosamente, revelando um pequeno comprimido azulado.

Coloquei ele na boca e o engoli a seco.

Minha pequena salvação.

Me pergunto onde está aquela criança que vivia alegre, que só via o lado bom do mundo. Será que ela ainda está dentro de mim? Aquela criança que queria ser adolescente um dia, só para poder comer o que quisesse? Ou aquela que achava que ser adulto era a coisa mais legal do mundo?

Encostei minha cabeça na parede do banheiro enquanto sentia o calmante fazer efeito. Eu poderia descrever a sensação como a mesma de tomar um banho de água fria, ou de acordar de um pesadelo.

Suspirei.

É engraçado como nada aconteceu, mas não me sinto bem. Aparentemente está tudo certo: temos bons amigos, uma família estruturada, um bom ambiente de trabalho ou uma escola interessante, mas é como se algo faltasse. No fundo, sempre tem algo ali me incomodando, e não importa o que eu faça, isso não passa.

Minha máscara havia caído, e eu não tinha forças para colocá-la de volta.

Estava com medo, mas não medo do escuro, medo de altura ou medo de fantasmas. Estava medo do que sou, medo do que me tornei. Estava com medo de ficar só, medo de me decepcionar, medo do que pode acontecer, medo de que as pessoas que eu amo e me importo saiam da minha vida. Medo de ser abandonada, medo de estar caindo e não ter ninguém pra me estender a mão, tenho medo de chorar, tenho medo de sofrer, tenho medo que tudo continue como está, medo que nada mude, medo de amar, medo de magoar as pessoas, medo de me iludir. Eu tenho medo de ser quem eu sou, medo de não ser aceita, medo de me julgarem, tenho medo de que não exista um final feliz.

Respirei fundo. Sei que a vida tem muitos capítulos diferentes. Um capítulo ruim não significa que é o fim do livro. Estava no fundo do poço, mas afinal, o único sentido que poderia seguir era para cima.

18 de Outubro de 2019 às 00:08 2 Denunciar Insira 3
Fim

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Ammi Pierre Ammi Pierre
Olá, tudo bem? Achei bem interessante sua história, você conseguiu descrever bem o que é ter ansiedade.
MiRz Rz MiRz Rz
Olá, eu sou a MiRz do Sistema de Verificação do Inkspired. O Sistema de Verificação atua para ver se as histórias estão dentro das normas do site e ajudar os leitores a encontrar boas histórias no quesito de gramática e ortografia; verificar sua história significa colocá-la entre as melhores nesse aspecto. A verificação não é obrigatória para sua história continuar sendo exibida no site, portanto se não se interessar em obtê-la, basta ignorar essa mensagem e não alterar o seu texto. Caso queria que outras histórias suas sejam verificadas, é só contratar o serviço através do “Serviços de Autopublicação”. Sua história está com um errinho muito pequeno em “Por que?” Quando for uma interrogativa e o por que vier ao final, imediatamente seguido pelo ponto de interrogação, o último “e” deve ser acentuado, ou seja, “por quê?”. É um errinho muito pequeno mesmo, e como não afeta o entendimento do texto, a história foi marcada como “verificada”, mas fica aqui a dica! ;) Gostei muito da sua história e principalmente me identifiquei, porque tenho ansiedade também e entendo bem como às vezes ela vem do nada. O importante é não se deixar abater. Parabéns por retratar tão bem esse mal! Tenha um bom restinho de semana. :)
17 de Outubro de 2019 às 20:42
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