S06#17 - KILLER Seguir história

lara-one

Matar mulheres é um vício. O sangue é o sabor do ato, o prazer da carne, pois de nada vale a vida. O sistema é a engrenagem da loucura. Vence o mais esperto, o que pode sobreviver. Ele voltou. Mais insano. Mais inteligente. Mais psicopata. E agora ele quer mais do que desafiar a inteligência de Mulder... Ele quer algo que pertença ao agente... Para a sua coleção de assassinatos... WARNING: CENAS DE VIOLÊNCIA EXTREMA, NÃO ACONSELHADO A PESSOAS SENSÍVEIS. REFERENCIA: Buried, fic 10 da 5ª temporada.


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

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S06#17 - KILLER

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"Você fez das suas crianças o que elas são... Estas crianças que vem a você com facas, elas são suas crianças. Você as ensinou. Eu não as ensinei. Eu apenas tentei lhes ajudar a se levantar... Você pode projetar isto pra depois de mim, mas eu sou apenas o que vive dentro de todos e cada um de vocês. Meu pai é seu sistema... Eu sou o que você me fez. Eu sou uma reflexão de você".

(Charles Manson)



INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

[Som: Tears for Fears - Shout]

O mural com fotos de Adolf Hitler, Charles Manson, Ed Kemper, Jeffrey Dahmer e outros assassinos. Ao lado, fotos da explosão do World Trade Center, crianças africanas morrendo de inanição, bebês chineses jogados na rua, massacres islâmicos de apedrejamento e decepamento de membros.

Foco segue para a parede coberta de recortes de jornais e fotos de Mulder, por ordem temporal. 'Agente do FBI caça John Barnett'. 'Perito em Comportamento do FBI em palestra sobre Aliens'. 'FBI de mãos vazias, xerife serial killer desaparecido'. 'Agente do FBI é condenado por terrorismo'. 'Caso Mulder, acusações infundadas: Agente é inocente.' 'Agente do FBI solto é condecorado pelo Presidente'.

Segue para as várias fotos preto e branco tiradas de Mulder saindo do FBI. Algumas com Scully. Outras dele no jardim da casa com Victoria. Ao lado, uma página recortada do álbum de escola. Outra do álbum da universidade. Perfil completo de Mulder impresso em folhas de ofício. Uma parede-mural de dados e fotos. Outra parede com as páginas da monografia de Mulder sobre "Assassinos Seriais e Ocultismo", com trechos circulados em sangue.

As cortinas negras e fechadas.

Foco desvia para a mesa, repleta de ferramentas e com uma TV de 20 polegadas. O pequeno bonequinho de mola em forma de demônio segurando um garfão sorrindo saltitante. No porta-retratos uma foto de Scully saindo do carro com Victoria nos braços.

As mãos masculinas vestidas em luvas de látex, que desenrolam um bolo de cordas. Pega a faca afiada e começa a cortar as cordas em tamanhos iguais, sistematicamente.

O chão sujo e as baratas. O sangue que escorre e se espalha com a água.

Câmera de deslocamento mostrando que o sangue misturado à água sai por baixo da porta do banheiro entreaberta, onde vemos um braço e uma perna feminina sem o pé, para fora da banheira. A moto-serra ao chão, lâmina suja de carne e sangue. Os intestinos pendurados no suporte da cortina.

Foco vai para as pernas do assassino, erguendo-se até revelar Stephanenko que enrola cada pedaço de corda nas mãos, separando-as sobre a mesa, enquanto observa com olhar de louco a foto de Scully com Victoria, num sorriso insano, sem piscar os olhos.

VINHETA DE ABERTURA: SHOUT!!!




BLOCO 1:

Sexta-feira

Arquivos X – 4:46 P.M.

Scully sentada lendo um relatório. Mulder em sua mesa com os olhos fixos na tela do computador.

SCULLY: - Acho muita palhaçada essa burocracia que inventaram agora. Um relatório sob minha ótica, um sob a sua e um relatório geral pra arquivar. Três relatórios! Skinner não cansa de ler relatório? Não tenho tanta criatividade pra fazer três coisas sobre o mesmo assunto sem me tornar repetitiva e chata.

MULDER: - (OLHANDO PRA TELA) Skinner é pago pra isso... E obrigado por estar fazendo o que era meu dever.

SCULLY: - Ellen vai viajar com Skinner hoje. Vão passar o final de semana fora.

MULDER: -(OLHANDO PRA TELA) ... Bom pra eles.

SCULLY: -Mulder... Sabe aquele assunto que prometemos não falar mais? Eu quero que saiba que eu não me incomodo. Mas acho que você está incomodado com aquilo e...

MULDER: - (OLHANDO PRA TELA) Por que eu estaria incomodado?

SCULLY: - Mulder, eu conheço você! Ou está incomodado com a minha atitude ou com a sua atitude!

MULDER: -(OLHANDO PRA TELA) É. Estou sim. Incomodado comigo mesmo, agora já fiz a besteira, não dá pra voltar atrás...

SCULLY: - Está arrependido?

MULDER: - (OLHA PRA ELA) Não. Culpado sim, arrependido não. Eu queria. E gostei. E faria de novo. (SUSPIRA DESANIMADO) O pior é que eu faria de novo!

Mulder em pânico abaixa a cabeça sobre os braços, num suspiro. Scully olha ternamente pra ele.

SCULLY: - Mulder, pare de se culpar, não tem culpa alguma nisso! Não vejo porque se arrepender de algo que gostou. Você precisa viver, Mulder. Precisa se permitir sentir, desejar, se descobrir... Você nunca se aventurou na vida, nunca passou dos limites... É saudável enlouquecer de vez em quando...

MULDER: -(ANGUSTIADO) Scully, chega! E da próxima vez... Se tiver uma próxima vez... Droga, Scully! Eu não quero falar sobre isso! A culpa toda foi sua! Você me levou ao crime! Aliás, você me levou a tudo quando aceitou aquela droga de caso lá onde Judas perdeu as botas e eu perdi a vergonha na cara. Fora outras coisas que perdi. E as que nem faço ideia de ter perdido ainda! Tem noção das loucuras e encrencas que eu acabo me metendo por sua causa?

Scully segura o riso. Mulder olha sério pra ela. Scully disfarça. Mulder respira fundo e volta a atenção para a tela.

SCULLY: - Quer... Jantar comigo esta noite?

MULDER: -(OLHANDO PRA TELA) ... Não.

Scully assina o relatório, olhando pra folha com olhos parados.

SCULLY: - (CANTANDO) Time is on my side... Yes, it is...

Mulder desvia a atenção pra ela, incrédulo.

SCULLY: - (CANTANDO) Time is on my side... Yes, it is...

MULDER: - (IRRITADO) Para!

SCULLY: - O que foi? Desde quando não gosta dos Stones?

MULDER: - Gosto dos Stones, mas essa música me causa arrepios na espinha desde que assisti o filme Possuídos, com o Denzel Washington!

SCULLY: - (OLHOS CHEIOS DE LÁGRIMAS) ...

MULDER: - (OLHANDO PRA TELA) Assistiu esse filme? Deixa você nervoso do início ao fim.

SCULLY: - (MURMURA PRA SI, FECHANDO OS OLHOS) ... Me salva.

Scully segura-se na mesa. Tonta. Mulder olha pra ela.

MULDER: - O que houve?

SCULLY: - (ÓDIO) Nada! O que interessa a minha saúde pra você, idiota? Me deixa em paz! Você me faz mal!

MULDER: - ... Scully, que diabos fizeram com a sua cabeça? Quantas Scullys têm aí dentro?

SCULLY: - (BEIÇO) Dane-se!

MULDER: -(SUSPIRA/ VOLTA A OLHAR PRA TELA) ...

SCULLY: - Mulder, sobre Victoria...

MULDER: -(OLHANDO PRA TELA) Eu analisei todos os fatores que você me alega e até concordo com alguns em benefício da nossa filha. Mas eu estarei junto.

SCULLY: - Não acredito que você não confie em mim!

MULDER: -(OLHANDO PRA TELA) Me prove o contrário e deixo Victoria sair até pra tomar sorvete com você. Entenda que ela é tudo o que eu tenho. Acha que vou largar minha riqueza nas mãos de alguém que não tem responsabilidade alguma?

SCULLY: - (IRRITADA) Eu não sou irresponsável! E mesmo que fosse é melhor do que ser um erro da natureza!

MULDER: - Ah! (VIRA-SE PRA ELA) Eu sou um erro da natureza!

SCULLY: - Um monstro, uma mutação desconhecida! Completamente diferente de mim!

MULDER: - Ok, Scully... Mas um monstro que na hora que convém à você, além de não ter repulsa alguma, as diferenças entre espécies também ficam muito animadoras. (DEBOCHADO/ IMITANDO SCULLY/ PULANDO NA CADEIRA) Oh, yes, Mulder!!! Assim, assim, hum, assim!!!! Ahhhhhhhh!!!!!!

Scully o fulmina com os olhos. Mulder desliga o computador. Se levanta, num olhar sarcástico e pega o paletó.

MULDER: -Bom final de semana. Tô indo. Tenho um encontro com vídeos quentes da Silvia Saint na internet.

SCULLY: - (IRRITADA) ...

MULDER: - Tenho mais o que fazer do que ficar ouvindo suas ofensas. Está me agredindo gratuitamente porque eu não estou mais cedendo aos seus assédios. Sexo sem amor, pra mim é comida sem tempero. Quando resolver me dar tempero, terá o que quiser de mim. Caso contrário, a Silvia Saint ainda vai ter a minha audiência.

Scully faz beiço. Se levanta.

SCULLY: - Ah! Isto chegou pra você.

Scully pega a caixa debaixo de sua mesa. Entrega pra Mulder.

SCULLY: -Não tem remetente... Admiradora apaixonada? Confesso que estou curiosa pra saber o que tem aí.

Mulder coloca a caixa debaixo do braço. Sorri maquiavélico.

MULDER: - (DEBOCHADO) É só uma boneca inflável que encomendei pela internet. Quer assoprar nela?

Scully, irritada, pega a bolsa e o relatório e sai da sala batendo a porta.

Mulder segura o riso. Coloca a caixa sobre a escrivaninha. Rasga o papel. Pega o estilete e abre a caixa. Arregala os olhos, vira rapidamente o rosto, colocando a mão no nariz. Recua, de olhos fechados, com náuseas.

Corte.


[Som: Tears for Fears - Shout]

Mulder anda nervoso pela sala, mordendo o polegar e olhando pra caixa.


Shout, shout, let it all out. These are things I can do without. Come on, I'm talking to you, come on...
(Grite, grite, ponha tudo para fora. Tudo isso são coisas que eu posso dispensar. Vamos, estou falando com você, vamos...)


Mulder pega o telefone. Disca um ramal. Aguarda.

And when you've taken down your guard. If I could change your mind, I'd really love to break your heart... I'd really love to break your heart.
(E quando você baixou sua guarda. Se eu pudesse mudar sua mente, eu realmente adoraria quebrar seu coração... Eu realmente adoraria quebrar seu coração.)


AGENTE LEWIS (OFF): -Crimes violentos, agente Lewis.

MULDER: - Oi, agente Lewis, é o agente Mulder, dos Arquivos X. Eu preciso falar com o agente Mallet, por favor...

AGENTE LEWIS (OFF): -Oi agente Mulder! O Donald não está, ele foi atender um chamado. Posso ajudar?

MULDER: -Não, agente Lewis. Assim que o Donald chegar, peça pra ele ligarpro meu celular, é um assunto urgente.

Mulder desliga. Fecha a caixa e sai da sala levando a caixa consigo.


FBI - Laboratório de Análises Químicas - 5:31 P.M.

Mulder veste um par de luvas de látex. Aproxima-se da caixa sobre o balcão. Chuck faz cara de curioso. Mulder retira com cuidado de dentro da caixa, o pedaço de pele humana, com sangue fresco e também seco, enrolada como se fosse um pergaminho e amarrada com um pedaço de intestino. Mulder a coloca sobre a bancada da pia.

CHUCK: - Jesus Cristo, Mulder! Quem você provocou dessa vez? Os alienígenas ficaram irritados mesmo!

MULDER: - Isso parece recado de assassino serial. Seja quem for se enganou, porque eu não estou na Crimes Violentos há mais de uma década.

CHUCK: - Chamou o agente Mallet? Quer entregar pra ele?

MULDER: - Donald tá na rua. E isso veio com o meu nome. Deve ser uma carta... Quer abrir?

CHUCK: - Eu? Mulder você é um péssimo agente. Não sabe que é crime federal violar a correspondência dos outros? É toda sua!

Mulder suspira. Vai desatando o intestino, com cuidado e repulsa.

MULDER: - Tô velho demais pra isso!

CHUCK: - Danny Glover falava assim em Máquina Mortífera e ainda rendeu quatro filmes.

Mulder desenrola o pergaminho de pele delicadamente sobre a bancada.

MULDER: - Parecem letras... Foi escrito com tinta preta, mas não dá pra ler. Tem muito sangue.

CHUCK: - Espera que resolvo isso rapidinho. Verificou as digitais?

MULDER: - O cara pra fazer uma atrocidade dessas é profissional, Chuck. Acha que vai deixar digitais?

Chuck vai até um armário e procura alguma coisa.

CHUCK: - Mulder, pega uma amostra de sangue dessa pele. E uma da tinta. Tem swabs com tubos na gaveta à sua frente.

Mulder abre a gaveta e revira. Procura os tubinhos. Pega dois com a tampa de mesma cor e outro com outra cor. Desenrosca um deles, retira a tampa com o swab e começa a tirar a amostra da tinta.

MULDER: - Parece tinta usada em tatuagem... Mas você é quem vai me dizer isso.

Mulder coloca o swab dentro do frasco e fecha. Pega o outro da mesma cor e repete o processo com o sangue seco.

MULDER: - Por via das dúvidas...

Mulder pega o tubinho de cor diferente. Repete o processo.Chuck pega um borrifador do armário.

MULDER: - Vai que o sangue seco e o úmido não sejam da mesma vítima. Esses malucos são imprevisíveis.

CHUCK: - Eu não posso usar água, isso faria a pele hidratar e poderia rasgar. Entretanto com meu coquetel de formol, produtos bactericidas usados em tanatopraxia e mais alguns segredinhos misturados... Isso vai ser uma faxina completa sem remover a tinta.

Chuck abre uma gaveta e coloca uma máscara e entrega outra pra Mulder. Mulder veste a máscara e ergue a pele com cuidado. Chuck começa a borrifar o líquido sobre a pele. O sangue vai escorrendo pra cima da bancada. As letras vão se revelando como uma carta.

CHUCK: - Ok, nunca tinha visto uma carta assim. E olha que já vi de tudo por aqui!

MULDER: - Agora dá pra ler.

Close na pele escrita com tinta. Mulder começa a ler.

MULDER: -"Se tu queres um amigo, cativa-me! O que é preciso fazer? Perguntou o principezinho. É preciso ser paciente, respondeu a raposa". O que faz da raposa um cordeirinho?

Mulder solta a pele sobre a bancada. Se afasta. Tira as luvas e a máscara.

CHUCK: - É mesmo endereçada pra você, Mulder. E já ouvi isso em algum lugar...

MULDER: - O Pequeno Príncipe, deSaint-Exupéry, um dos meus livros favoritos. Esse cara me conhece... (PENSATIVO) Cordeirinho... Cordeirinho...

Chuck retira a máscara, observando Mulder, que volta a atenção para dentro da caixa. Mulder retira um plástico ainda sujo de sangue contendo um pé humano feminino, com as unhas pintadas de vermelho.

CHUCK: - (SUSPIRA) Mulder. Tem mais surpresas dentro dessa Caixa de Pandora?

MULDER: -Chuck, que tal fazer hora extra para o seu amigo aqui, hum? Eu já coletei algumas amostras pra você. Que tal comparar o DNA do sangue, da pele, do intestino, do pé... (DEBOCHADO) Pra não dizer que eu sou o rei da procrastinação no FBI, ainda vou tirar fotos dessa pele para análise caligráfica...

Mulder pega a Polaroide de cima do balcão e tira uma foto. Sorri debochado pra Chuck.

CHUCK: -Mulder é sexta-feira, faltam dez minutos para começar o meu final de semana de folga e...Deixa isso para o Forrest fazer amanhã.

MULDER: -(MÃOS EM PRECE/ PIDÃO) Please???

Chuck ergue as mãos.

CHUCK: - E lá se foi o meu happy hour! Ok, Mulder, O Estranho. Vou dar uma mãozinha com o seu pezinho aí, pode ficar tranquilo... Mas da próxima vez, me traga um alienígena! Você só promete e nunca trás!

Mulder faz uma cara de deboche e dá um beijo estalado na bochecha de Chuck. Sai sorrindo da sala.


Newport News – Virgínia – 6:01 P.M.

Tumulto de policiais pelo cais. Alguns tentam manter os curiosos atrás do cordão de isolamento. Donald desce às pressas do carro, ao lado de Diana Fowley. Os dois mostram os distintivos passando pelo cordão de isolamento, rumo a plataforma de pesca.

O detetive Flint observa o corpo da mulher morta, estendido sobre a plataforma. A coloração roxa do cadáver, ainda com uma corda amarrada ao pescoço e sem o pé esquerdo. Olhos abertos, pálpebras inchadas. Abdômen aberto, sem intestinos. A mão esquerda fechada. O fotógrafo da perícia tira as fotos.

DONALD: - (DEBOCHADO) Mais um padre, Flint?

DETETIVE: - Acho que isso não foi coisa de padre, agente Mallet.

DONALD: - Só perguntei porque agora está na moda colocar a culpa de tudo nos padres.

Donald percebe a ausência do pé da vítima.

DETETIVE: - Pegou o padre aliciador de criancinhas?

DONALD: - Não era um aliciador de criancinhas. Alguém fez uma denúncia falsa porque se sentiu ofendido numa confissão tendo que rezar cem ave-marias... As coisas estão ficando fora de controle. Agora qualquer padre é aliciador de criancinhas. (EXAMINA O LOCAL COM OS OLHOS) Parece aquela febre de anos atrás de que toda família estuprava os filhos... Maldita mídia que cria pânico generalizado e coisas onde não existem. Odeio repórteres. Atrapalham mais do que ajudam. E odeio críticos ingleses. Não sabem distinguir nada que não seja a bunda da rainha-mãe.

DIANA FOWLEY: - O que aconteceu por aqui?

DETETIVE: - Alguns pescadores tiveram uma surpresa ao puxar a rede. Havia nela essa sereia aí. O perito calcula que ela tenha morrido há mais de 24 horas.

DONALD: - Encontraram o pé da vítima?

DETETIVE: - Não. Talvez tenha sido comido por algum peixe.

Diana olha pra mulher morta. Donald agacha-se. Veste as luvas de látex. Analisa o cadáver com os olhos e a mão.

DONALD: - Não me parece ter sido comido por algum peixe. Foi cortado propositalmente. Estão vendo o corte em ângulo reto? Parece ter sido feito com uma serra. A carne não está macerada e o osso foi cortado rente a carne. Nem um peixe serra faria isso.

Donald se inclina sobre o cadáver. Afasta os cabelos longos e castanhos da mulher que lhe cobrem parte do pescoço.

DONALD: - Era bonita demais para ser estrangulada. Conhece algum tipo de peixe predador que estrangula e depois abre a vítima comendo apenas os intestinos?

DETETIVE: - Críticos ingleses? E tem mais surpresa. Vire o corpo da sereia.

Donald vira o cadáver de lado. Não há pele nas costas. Donald a posiciona de costas novamente.

DONALD: -Sem pele?

DIANA FOWLEY: - Talvez tivesse tatuagem. O sujeito quer dificultar o reconhecimento da vítima.

DONALD: - Fora os pescadores, alguma testemunha?

DETETIVE: - Temos o dono do restaurante ali em frente. Ele diz que a viu jantando com um cara há dois dias. Estavam brigando muito. Saíram juntos do restaurante.

DIANA FOWLEY: - Namorado?

DETETIVE: - O sujeito acha que era o marido dela, porque numa certa altura da discussão ouviu ele falar "você e seus amantes, pra mim chega!".

DONALD: -Pegou o depoimento do dono do restaurante ou apenas filou o almoço?

DETETIVE: -O cara disse que já o viu por aqui algumas vezes, ele está envolvido com essas ONGs contra pesca de baleias e golfinhos. Acha que foi crime passional? Ele cortou o pé pra ela não fugir mais dele?

DONALD: -E por que tiraria a pele das costas e os intestinos? Algum tipo de vingança?

Donald tenta abrir a mão da mulher, mas não consegue.

DONALD: - Agente Fowley, preciso de alguma coisa pra abrir a mão dela.

Diana olha pra Donald, indignada. Se afasta. Donald observa o cadáver.

DONALD: -Ele retirou o pé esquerdo e provavelmente compensou a falta do pé colocando algo na mão dela... Se for passional, o sujeito é um maníaco e pode mesmo ser o marido traído ou o amante... Se não for passional, ele pode ter deixado algo na mão dela que remete a próxima vítima... E nesse caso, meu caro Flint, nós vamos ter problemas mais sérios... Mais alguma testemunha?

DETETIVE: - Não até agora. Será que algum padre faria isso?

DONALD: - Até você, Flint? Deixe os padres em paz! Eu quase fui um!

Diana volta com uma talhadeira. Entrega pra Donald.

DONALD: - Detetive, testemunhe isso. Vou quebrar os dedos dela.

Donald força a talhadeira, soando um estalo de ossos quebrando. O detetive vira o rosto, enojado.

DETETIVE: - Não sei como pode comer carne trabalhando nesse departamento.

DONALD: - Fiquei vegetariano.

Donald retira da mão da mulher uma chave presa a um pequeno chaveiro. Donald observa o chaveiro.

DETETIVE: -Continuamos na mesma. Pode ser passional ou não. De onde será essa chave?

DONALD: - Não sei quanto à chave. (OLHA PRO DETETIVE) Mas o chaveiro pertence a uma ordem religiosa.

DETETIVE: - Um padre? Eu sabia!

DONALD: - (INDIGNADO) Não é católico. É de um santuário budista na Índia. Apenas uma recordação.

DETETIVE: - Tanto louco nesse mundo... Agora os budistas também? Bom, lembra-se dos escândalos das escolas budistas que praticavam pedofilia...

Donald revira os bolsos da vítima. Retira uma carteira.

DIANA FOWLEY: - Não eram budistas, eram Hare Krishnas.

DETETIVE: - E tem diferença? Esses caras são como os críticos ingleses, ficam isolados da realidade e depois querem foder todo mundo...

DONALD: - Detetive, por favor. Mulheres no ambiente.

DETETIVE: -Desculpe, agente Fowley.

Donald abre a carteira. Examina os documentos.

DETETIVE: - Crime passional. Isso é comum hoje em dia. Você nunca sabe quem dorme com você. Estamos numa época em que você tem que usar preservativo com a própria esposa!

DIANA FOWLEY: - (OLHA PRO DETETIVE EM REPROVAÇÃO)

DONALD: - (INCRÉDULO) ...

DIANA FOWLEY: - (CURIOSA)Algum problema, agente Mallet?

DONALD: -O nome da vítima: Marlene Scully.

Diana olha pra Donald que permanece atônito, olhando pra mulher morta.


Residência dos Mulder - 7:08 P.M.

Mulder entra com o carro no pátio, faróis ligados, estacionando em frente a garagem, falando ao celular. Cara de poucos amigos.

MULDER: -(AO CELULAR) Meg, por favor, cheguei agora do supermercado, me deixa pelo menos entrar em casa com a minha filha porque vem chuva. (SUSPIRA) ... Eu sei que não tinha direito algum de me meter nos problemas dos Scully, mas eu não ia negar um quarto pra Charles e Will... (CANSADO) Eu sei, Meg... O Charles me contou que Marlene o botou diversas vezes pra fora de casa, que há muitos anos atura ver a esposa dormindo com outros em sua cama enquanto ele divide a lavanderia com o gato! (IRRITADO) Eu sei bem como é ser um pai solteiro, Meg!

Victoria sentada na cadeirinha no banco de trás, brincando com o controle remoto da porta da garagem. Leva à boca e tira. Analisa com seriedade o 'estranho' objeto nas mãos, cerrando o cenho com fisionomia de Scully curiosa e intrigada.

MULDER: -(AO CELULAR/ REVIRA OS OLHOS) Sim, Dana me disse que sempre foi assim e que Charles acaba voltando. Mas dessa vez ela expulsou o filho também! ... Meg, essas fofocas de família me deixam louco! Eu dei abrigo pra ele sim. Charles chegou há três dias com o Will numa madrugada, debaixo de chuva sem nem roupas pra vestirem! Queria que eu mandasse ele embora? ... (INCRÉDULO) Ah, entendi. A bronca toda é que eu deveria mandar os dois pra sua casa... Meg, ele podia ter ido pra sua casa, mas foi na minha porta que ele bateu!

Victoria continua brincando com o controle, atenta no assunto e repetindo como um papagaio.

VICTORIA: - Vovó... Chiu Chalis... Uill... Mama.

MULDER: -(AO CELULAR/ PERDENDO A PACIÊNCIA) Conselhos? É eu dei um conselho sim, o mesmo que acho que os Scullys dão: pra ele deixar a vadia de vez e refazer a vida dele, afinal eu sou muito bem entendido nesse assunto, acho que por isso ele me procurou...

VICTORIA: - Adia...

Mulder vira-se pra trás.

MULDER: - Não é pra falar isso, é feio!

Mulder volta a atenção para o celular.

MULDER: - (AO CELULAR) Meg... Meg me escute! Eu não sei pra onde Charles foi. Baba disse que ele saiu hoje cedo com o Gafanhoto e não falou nada. Tenta falar com aEllen, ela conseguiu uma casa pra Charles na Flórida. Esquece, Ellen não vai atender o telefone nesse fim de semana... Vai ver ele foi pra Flórida! Eu não faço ideia pra onde seu filho foi com o seu neto, nem porque não atende as ligações. (INDIGNADO) Ah, Bill me condenou? Grande novidade que Bill me condene! Olha Meg, me tira desse rolo todo, eu só quis ajudar, dei abrigo por três dias ao Charles e ele foi embora. Reze pra que ele consiga se erguer na vida e esquecer essa tal de Marlene. Quem sofre com isso é o pobre do garoto, que agora eu entendo porque você queria ganhar a custódia dele... Tá... Eu digo.

Mulder desliga. Põe as mãos no rosto. Suspira.

MULDER: -Que dia Pinguinho, que dia! Nada pra fazer no FBI pela tarde, eu até tentei ler o que o professor pediu pra um trabalho, mas sua mãe queria assunto e eu não podia dizer que estava tentando estudar. Depois me mandaram um presente de grego. Agora sua avó torrando minha paciência. Perdi a mulher, mas fiquei com a família dela. Seus tios só me arrumam encrenca!

VICTORIA: - Quenca... Uinta quenca papai!

MULDER: -Baba só volta amanhã. Vamos curtir nossa noite juntos, Pinguinho. Um banho, pijamas, vou pedir pizza e vamos assistir Scooby-Doo até pegar no sono!

VICTORIA: - (SORRINDO)Oba!!! Ubidú!!!

MULDER: - Ou quem sabe a gente assiste algum desenho mais fofinho, tipo Ursinhos Carinhosos, mas propício pra sua idade...

VICTORIA: -(BEIÇO DE SCULLY) Nah!!!!!!! Ubidú!!!!!

MULDER: - (DEBOCHADO) Ok, versão miniatura de Scully com estranheza de Mulder... Que coquetel explosivo você saiu, minha filha!

Mulder procura o controle da porta da garagem e não encontra. Olha pra trás.

MULDER: - Espertinha. Me dá isso aqui.

VICTORIA: - (RINDO) Nahhhh!!!

Mulder pega o controle das mãos dela. Aponta pra garagem.

MULDER: - Já disse que isso não é pra pegar. Não é brinquedo.

A porta não abre. Mulder sorri incrédulo. Desce o vidro e aponta o controle pra fora. Nada. Victoria fica séria. Olha pra trás do carro. Procura algo com os olhos.

MULDER: - Tá vendo por que eu não gosto que pegue isso? Pinguinho, você estragou outro controle!

VICTORIA: -Papai... Nah foi Vic.

MULDER: - Ah "nah foi Vic"? Então quem babou nessa coisa? O Cookie? Por falar nisso, onde está esse cachorro que nem veio fazer festa pra nós?

Mulder abre a porta do carro.

VICTORIA: - (AOS GRITOS) Naaaahhhhhh!!!!!!!!! Olta! Olta!

MULDER: - Não senhora, já andamos de carro, Maria Gasolina. Fique quietinha aí. Se mexer nos faróis ou ligar o carro, eu vou ficar furioso. Isso não é brinquedo.

VICTORIA: - (AOS GRITOS) Naaaahhhhhh!!!!!!!!!!! Naaaahhhhhhh Ox!!!!!!!!!!!!

Mulder desce. Victoria começa a chorar, desesperada. Mulder caminha até a porta da garagem. Aponta o controle. Nada. Olha pro chão. Inclina a cabeça para o lado. Tenta erguer a porta, não abre.

MULDER: - Quem travou essa porcaria?

Victoria chorando. Mulder se agacha. Os faróis do carro se desligam. Mulder suspira.

MULDER: - Victoria, por favor! Não é hora de gracinhas! Acenda os faróis agora!

O taco de beisebol desce sobre a cabeça de Mulder, num golpe seco e forte. Mulder deixa o controle cair. Segura-se na porta, mas cai ao chão. Recebe outra pancada na cabeça e várias pancadas pelo corpo.

O sangue espirra pelo chão, misturando-se com a chuva que começa a cair. Mulder desmaia.

No carro, Victoria chorando assustada. Observa a mão com luvas de couro que segura um lenço e se aproxima do seu rosto, tapando-lhe o nariz. Victoria para de chorar. Tonta, fecha os olhinhos, desmaiando.

Stephanenko abre o porta malas. Joga o taco de basebol pra dentro. Vai até Mulder e o arrasta pelas pernas até o carro. Puxa a arma do coldre de Mulder e a coloca na cintura. Tira de dentro da jaqueta alguns pedaços de corda já preparados.

Corte.


Chuva. O carro de Mulder para no bloqueio. O policial se aproxima, capa de chuva, lanterna na mão. Mira a lanterna no banco de trás. Vê Victoria, cabeça pendida pro lado, olhinhos fechados.

POLICIAL: - Boa noite senhor... Estamos procurando um suspeito de assassinato, preciso checar seus documentos, por favor... Sua filha está bem?

Stephanenko na direção, olha seriamente pro policial.

STEPHANENKO: - Ela está cansada e com febre. Saímos do hospital agora.

O policial apiedado olha pra Victoria.

POLICIAL: - Esqueça os documentos, senhor. Leve sua filhinha pra casa.

O policial faz sinal pra liberarem o carro. Stephanenko segue dirigindo, olhando pelo retrovisor com um sorriso de maldade.

STEPHANENKO: - ... O papai aqui cuidará de você, Vicky.



BLOCO 2:

FBI - Laboratório de Análises Químicas - 8:34 P.M.

Chuck cruza os braços encarando Donald que segura um tubinho na direção dele.

DONALD: - Só peço pra analisar esse DNA o mais rápido possível pra ter a certeza da identidade da vítima. Chuck, é um assunto importante.

CHUCK: - Admita. Você e Mulder conspiraram juntos para atrapalhar minha noite de sexta-feira.

DONALD: - Mulder ainda tá no porão?

CHUCK: - Foi pra casa, tá sem babá hoje e deixou o serviço comigo. Muito serviço por sinal. E ele quer falar com você sobre o caso dele.

DONALD: - É, também preciso falar com ele sobre o meu caso, mas... Nem sei como. A agente Scully não está no porão, não é?

CHUCK: - Que eu saiba, a agente Scully é mais esperta do que nós e já deve estar curtindo o final de semana.

DONALD: -Não diz nada pro Mulder e me passa na frente dele. Depois ele vai agradecer você por isso.

CHUCK: - Não demora e ele me liga pra saber dos resultados. Vou colocar a culpa em você!

Chuck pega o tubinho da mão de Donald e senta-se na cadeira. Donald senta-se num banco alto.

CHUCK: - Só DNA?

DONALD: - Preciso de outras coisas como se há substâncias químicas aí, alguma droga, mas isso você vê depois. Agora só o DNA mesmo.

CHUCK: - Assassinato?

DONALD: -Eu acho que um serial killer...

CHUCK: - (RINDO) É... Se me disser que sua vítima não tem pele nas costas, falta o pé esquerdo e os intestinos...

DONALD: - (INCRÉDULO) Como sabe disso?

Chuck vira-se assustado pra Donald.


Apartamento de Ellen – 8:44 P.M.

Scully, cabelos presos num pequeno rabo de cavalo, deixa o robe cair e se enfia na banheira cheia de espuma. Fecha os olhos, se aconchegando num sorriso. Estende a mão e pega a taça de champanhe, degustando um longo gole.

SCULLY: - Eu preciso disso...

O celular toca. Scully olha atravessado pro telefone. Fecha os olhos.

SCULLY: - Pode ficar ligando que eu sei que é você, dona Meg. Não quero saber de fofoca de família hoje...

Scully molha uma toalhinha e se ajeita na banheira confortavelmente, colocando a toalhinha no rosto.


FBI–Divisão de Crimes Violentos – 8:56 P.M.

Donald, sentado em sua mesa, observa as fotos de Marlene Scully. Lewis, o agente gordinho, entra na sala comendo um donuts.

LEWIS: - (BOCA CHEIA) A agente Scully não atende, Don.

DONALD: - Tentou ligar pro agente Mulder?

LEWIS: - Tentei. Também não atende. Nem em casa, nem no celular.

DONALD: -Estranho... Mulder queria falar comigo e está esperando pelos resultados do Chuck... Ele vai ficar doidinho quando souber que temos o mesmo caso nas mãos. Lewis, verifique a ficha da agente Scully e descubra o telefone da mãe dela. Precisamos informar a família.

LEWIS: -Don, acha que mataram a cunhada da agente Scully por vingança contra o agente Mulder?

DONALD: -Talvez, Lewis... Depois do que Chuck me disse sobre o que Mulder recebeu hoje, estamos lidando com um psicopata vingativo. E temo pela segurança deles e da família dela. Precisamos começar por algum lugar, e acho que pelos arquivos da época em que Mulder trabalhava nesse departamento. Pode ser algum maluco que ficou chateado com ele. O pior mesmo é ter que incomodar o Kersh. Eu tenho certeza de que ele vai negar uma vigilância porque se trata do Mulder e da Scully...

LEWIS: - Don, não ligue pro Kersh hoje. Deixa pra amanhã. Tenta uma vigilância com o Skinner, afinal são agentes dele que estão em perigo.

DONALD: - Foi minha primeira opção, mas Skinner não atende o telefone. Você tem razão, Lewis, vou ligar amanhã para o nosso diretor. Hoje você e eu vamos nos concentrar nos arquivos de casos antigos, pegar os casos que ficaram em aberto e esperar os resultados da necropsia. Amanhã eu preciso de todo o departamento aqui. E o Kersh já vai comer o meu rabo por causa das horas extras do pessoal... Tem outro donuts?

LEWIS: - Não. Mas preciso de um café fresco. Acabou o nosso.

DONALD: - Boa ideia! A noite vai ser longa e eu nem tive tempo pra almoçar hoje.

Donald pega o paletó.

DONALD: -Parceiro, convoque o departamento todo pra amanhã de manhã. Menos Diana Fowley. Você sabe o porquê.

LEWIS: -Tem certeza? Aquela mulher vai acabar descobrindo e ir na sala do Kersh novamente e acusar você de ser sexista.

DONALD: -Sabe que não sou sexista. Aquela mulher só vai piorar as coisas porque Mulder e Scully estão envolvidos nesse caso e o departamento deles está por um fio aqui dentro, bem como o pescoço do Mulder. E sabe que nossa amiguinha é espiã infiltrada. Qualquer coisa ligue pro meu celular. Vou buscar os lanchinhos da noite. Algum pedido especial?

LEWIS: - Sanduíche de atum e algo diet pra beber, além do café. Só pra não aumentar um quilo e a patroa desconfiar que estou fugindo da dieta. E também vai sobrar pra você se ela descobrir!

Donald sai rindo da sala.


Local ignorado - 11:27 P.M.

[Som: Tears for Fears - Shout]

Os pingos de água caem pelas juntas dos canos já enferrujados, fazendo um barulho irritante quando caem ao chão.

O lugar extremamente sujo, velho, cheio de tonéis vazios, cordas, correntes e ganchos, revelando ser um matadouro abandonado há muitos anos.

No canto, jogado ao chão, Mulder inconsciente, cabelos empapados de sangue, com hematomas na testa. Braços e pernas amarrados pra trás, boca amordaçada.

O som do esmeril começa a ser ouvido.

Foco no buraco na parede que revela outro cômodo, onde vemos Stephanenko, calmamente afiando uma faca de caça. Algumas vezes ele olha insanamente pra Mulder, alternando o olhar para a faca.

STEPHANENKO: - (CANTANDO) Shout, shout, let it all out... These are the things I can do without... Come on, I'm talking to you, come on...


Sábado

Residência de Margaret Scully – 7:34 A.M.

Charles olhos parados, derrubando lágrimas, olhando pela janela. Will agarrado em Meg, chorando. Scully abraça Charles, o confortando. Bill, indiferente, de mãos dadas com Tara.

CHARLES: - Eu não matei a Marlene! Nós apenas conversamos, Mulder sabe disso, ele estava comigo quando deixei Will pra me encontrar com Marlene...

SCULLY: - Charles, eu sei que não a matou.

CHARLES: - Foi minha culpa! Eu não devia ter ido embora!

BILL: - Você não foi embora. Foi mandado embora.

SCULLY: - (CENSURA BILL COM OS OLHOS) Bill, agora não.

BILL: - (COCHICHA PARA TARA) Foi melhor. Acabou a novela. Se ele voltar pra aquela vadia de novo é pra morar no cemitério. Bom, pelo menos agora ele tem certeza de onde ela passa as noites...

TARA: - Bill, por favor! Sei que ela não era nenhuma santa, mas Charles a amava. Seu sobrinho está sofrendo, Marlene era a mãe dele.

Scully se aproxima.

SCULLY: - Eu ia ligar pra Ellen, mas não quis atrapalhar o final de semana dela.

BILL: - Pois deveria. Quem sabe ela consolava Charles e ele definitivamente arrumava uma mulher decente.

SCULLY: - Bill, ninguém aqui gostava dela, mas vamos respeitar a dor do nosso irmão.

BILL: - Você vai investigar a morte dela? Ou ainda vou ter que conversar com seus amigos do FBI sobre o comportamento do meu irmão e convencê-los de que ele é louco, mas nunca faria isso? Ou Mulder vai acusá-lo como me acusou naquele caso dos bodes? Esqueça, o Charles é xodó do Mulder. Mulder nunca o acusaria. Os dois dividem o mesmo gosto por um esporte chamado 'pimenta na comida do Bill é refresco'.

SCULLY: - O agente Donald precisa interrogar vocês todos, como a mim também. É apenas protocolo.

TARA: - Quando vão liberar o corpo? A gente vai ter que fazer um enterro, ela não tem parentes!

SCULLY: - Pela tarde. Você e mamãe podem resolver isso? Estou no caso com o Donald e agora preciso achar Mulder.

TARA: - Pobrezinho do Will. Me dói por ele.

BILL: - Não está faltando alguém da família por aqui? Onde está o Lunático?

TARA: - Bill!

BILL: - Ora, não é ele que vive adulando a dona Meg? Charles não é o cunhado preferido? Onde está ele agora que a família precisa?

SCULLY: - Estamos divorciados. Ele não tem nada a fazer aqui.

BILL: - É. Quantas vezes eu disse que era um erro e você nunca me ouviu. Acho que vou comemorar. Irmã divorciada, irmão viúvo, e finalmente vocês dois foram obrigados a criar juízo pelas intempéries da vida.

TARA: - Bill, se não calar a sua boca, eu vou embora e o próximo a envergonhar a família vai ser você, "Peter Perfeito".

Scully se aproxima de Meg. Will se abraça nela.

WILL: - (CHORANDO) Eu quero o tio Mulder!

SCULLY: - (OLHA PRA MEG) Estou preocupada com Mulder. Ele não me disse que ia viajar, ninguém atende na casa dele. O celular desligado...

WILL: - (CHORANDO) Me leva com você, tia!

MARGARET: - Sua tia não pode ficar com você. Você vai ficar aqui com a vovó e seu pai também.

WILL: - Eu quero voltar pra casa do tio Mulder!

Scully olha pra Meg. Olha pra Will.

SCULLY: - Prometo que levo você pra passar alguns dias comigo, está bem?

WILL: - Não quero ficar com você, quero ficar com o tio Mulder!

SCULLY: - Então... Assim que eu encontrar o tio Mulder, eu falo com ele. Tá?

Will afirma com a cabeça.


Residência dos Mulder – 7:35 A.M.

O táxi para. Baba sai do táxi. Observa a casa. Nenhum movimento, as janelas ainda fechadas. Baba olha pro relógio. Entra no pátio. A garagem fechada. Caminha até a porta dos fundos. Olha pra cima, para a varanda e a porta de vidros do sótão. Nenhum movimento.

Baba revira a bolsa procurando as chaves. Abre a porta dos fundos e entra na cozinha. Olha pro chão. Cookie deitado no chão, tremendo. A cozinha toda suja de vômito de cachorro. Baba se desespera.

BABA: - Ai não cachorrinho!!! (AGACHA-SE) O que houve com você? Comeu alguma coisa na rua? (GRITA) Mulder!!!


Local ignorado -7:48 A.M.

Câmera subjetiva, embaçada, simulando a visão de Mulder, que aos poucos fica nítida, vendo na parede suja a frase escrita com sangue: "O que faz da raposa um cordeirinho?"

Mulder percebe estar amordaçado, com os braços e pernas unidos e amarrados para trás. Tenta se localizar. Os cabelos e rosto sujos de sangue. Mulder observa o lugar, franzindo o rosto como quem sente algum cheiro nojento.

Stephanenko sai do outro cômodo, arrastando pelas pernas um corpo feminino. As vísceras pra fora, arrastando-se ao chão. Mulder arregala os olhos ao perceber quem é. Desvia o olhar para a mulher morta e fecha os olhos, angustiado. Stephanenko solta o corpo da mulher.

STEPHANENKO: -Surpreso? Sentiu saudades minhas, Mulder? Não posso conversar com você agora, preciso colocar a primeira vítima de volta ao local onde a matei, ou seu amiguinho Mallet vai ficar sem diversão.

MULDER: - (OLHA PRA PAREDE/ TONTO) ...

STEPHANENKO: - Ah! Está tentando adivinhar a resposta? Pense, Mulder. Se há alguém que tem inteligência para encontrar a resposta é você.

Stephanenko continua arrastando o corpo.

STEPHANENKO: -Você teve a chance, mas não me pegou. Agora eu peguei você.

MULDER: - (ASSUSTADO) ...

STEPHANENKO: - (SORRI) Ah, eu não matei seu cachorro. Só deixei ele dormir um pouco.

Stephanenko pega a serra elétrica. Mulder arregala os olhos.

STEPHANENKO: - Ok, vagabunda... Vamos nos divertir pela última vez!!!

Stephanenko liga a serra. Mulder fica tonto, fecha os olhos, desmaiando novamente.


Apartamento de Ellen – 9:09 A.M.

Scully, num robe de banho, procura o que vestir. Olha para o celular sobre a cômoda.

SCULLY: - Mulder, estou preocupada... (TRISTE) Onde você está quando eu preciso? Me liga, Mulder. Me liga...

O celular toca. Scully fecha os olhos angustiada. O celular insiste. Ela, mãos trêmulas, pega o celular e olha para o visor. Sorri mais calma.

SCULLY: -Ele está ligando do número de casa... Sinal que está tudo bem.

Scully atende.

SCULLY: - (SORRI) Oi. Estava pensando em você.

BABA (OFF): - Em mim?

SCULLY: - (INCRÉDULA) Quem fala?

BABA (OFF): -Senhora Scully, aqui é a babá da Victoria. Ou a empregada do Mulder.

SCULLY: - Empregada? (SORRI) Você é empregada dele?

BABA (OFF): - O que achou que eu fosse?

SCULLY: - ... Pamela?

BABA (OFF): - Não, eu me chamo Baba. Na verdade não, não sou empregada, sou escrava. Ele é muito bagunceiro.

SCULLY: - (SAUDOSA) Sei disso...

BABA (OFF): - Por acaso aquele judeu narigudo está com a senhora? Não que eu queira saber da vida dos outros, mas...

SCULLY: - Não. A última vez que vi Mulder foi ontem, no FBI. Preciso achá-lo com urgência...

BABA (OFF): -(NERVOSA) Estou preocupada. Ele chegou em casa ontem, me levou até a rodoviária porque eu ia viajar, depois disse que ia fazer compras, mas cheguei hoje aqui e não vi compras, muito menos Victoria e ele. A porta da garagem está emperrada, não sei se o carro está lá e tive que levar o cachorro ao veterinário, ele não estava bem. Mulder não atende o celular... Eu já liguei pros amigos doidos dele, mas ninguém o viu. Não deixou bilhete, não deixou nada, e ele nunca faz isso. Estou muito nervosa!

SCULLY: -(NERVOSA) Estou indo pra aí!

Scully desliga. Pega a primeira roupa que vê e começa a vestir.


Residência dos Mulder – 9:41 A.M.

Baba abre a porta. Scully entra. As duas se observam.

SCULLY: - Eu sou...

BABA: - (SORRI) Lhe conheço pelas fotos. Você é a 'mama'.

SCULLY: - (SORRI/ OBSERVANDO A CASA IMPECÁVEL) ...

BABA: - Eu sou a Baba. E confesso que estou preocupada. Mulder é doido, mas não é irresponsável. Está tudo como quando saímos daqui, eu acho que ele nem voltou pra casa. Consegui ajuda com o George aí do lado e ele abriu a porta da garagem, mas o carro não está lá. E já liguei pra todos da lista. E não encontro o Krycek.

SCULLY: - Que lista?

BABA: -Mulder fez uma lista de gente pra eu ligar, caso algo acontecesse. Já liguei pro Krycek que não atendeu, pros três patetas que não o viram, para o Skinner, que não atendeu. Resolvi ligar pra senhora.

SCULLY: - Sem querer ser indiscreta, eu sou qual número da lista?

BABA: - Um. Mas é pra não perturbar nunca a senhora, então salto pro número dois. E se completar a lista sem ninguém atender, aí sim ligo pra senhora.

SCULLY: -Não precisa me chamar de senhora. Me chame de Scully. Quem é dois? Skinner?

BABA: - Krycek.

SCULLY: -(CURIOSA) Krycek??? Logo Krycek??? E... Krycek vem aqui?

BABA: - Sim, algumas vezes. Eles são amigos. A senhora não sabe disso?

SCULLY: -É que se você soubesse quem foi Krycek na vida do Mulder, certamente ficaria espantada com essa amizade insólita, que nem era pra existir, porque há muito tempo atrás eles já deveriam ter se matado um ao outro. É, Mulder me surpreende a cada dia...

BABA: -Mulder não me surpreende, é da natureza dele ter um coração bom e perdoar. Ele nem precisa ser religioso pra fazer isso. Mulder pode ter sofrido muito nessa vida, ter sido traído tantas vezes, mas ele tem caráter e é uma das poucas pessoas que conheço que tem um coração nobre e puro disposto a dar e pedir perdão.

SCULLY: - ...

BABA: -Krycek sim me surpreende por buscar esse perdão. E sinto que é muito honesto e sincero da parte dele, embora nem sempre as pessoas se arrependam dos seus erros mesmo sabendo que agiram errado. Algumas imploram uma segunda chance apenas para traírem a confiança do outro novamente. Já outras percebem o erro e tem a humildade em admitir. E isso é bom para ambos, não é? O perdão é libertador.

Scully abaixa a cabeça, incomodada. Baba percebe.

BABA: -O perdão é algo tão difícil que, quando concedido por um e aceito pelo outro, enobrece a alma para quem o dá e para quem o recebe. E fortalece vínculos, Scully. Gera mais perdão. Deus é sábio quando diz para perdoarmos uns aos outros e também quando dá a entender que se você perdoar e o ofensor não quiser o seu perdão, o problema passa a ser apenas do ofensor. Mas tem gente que não aceita nem o perdão de Deus, quanto mais dos homens.

SCULLY: -(SUSPIRA) ... E eles falam sobre o quê? Sobre mim?

BABA: - (DESCONFIADA) Não sei do que falam. Eu não escuto conversas pelos cantos.

Cookie vem até a sala, desanimado. Scully se agacha fazendo carinhos nele.

SCULLY: - Filhinho! Hum? O que foi que está com os olhinhos tão fundos?

BABA: - Ele vomitou por toda a cozinha. O veterinário deu uma injeção e mandou ficar de olho nele. Acha que comeu alguma coisa que continha algum medicamento pra dormir.

Scully se levanta. Vai até a cozinha. Baba a segue.

BABA: -Desculpe a bagunça, eu deixei tudo pra correr até o veterinário e ficar procurando o Mulder. Será que aconteceu alguma coisa com a Victoria e ele teve de leva-la ao médico?

SCULLY: - Não. Ele me ligaria pra dizer.

Scully abre uma gaveta e tira um par de luvas de látex. Veste-a.

SCULLY: - Preciso de um saco plástico daqueles para congelamento.

Baba abre uma gaveta e entrega pra Scully.

BABA: - Mudei de lugar. Aquela gaveta estava entupida.

Scully sorri. Agacha-se. Começa a pegar amostras do vômito. Baba olha pra ela, incrédula.

BABA: - Também é veterinária?

SCULLY: - Não. Mas se o veterinário desconfia de algo, quero saber o que deram ao cachorro. Posso dar uma olhada na casa?

Corte.


Scully entra no quarto de Victoria. Aproxima-se do berço. Pega a raposa de pelúcia. Sorri. Olha para os brinquedos pelo quarto. Enche os olhos de lágrimas. Coloca a raposa no berço. Vê um vestido de Victoria sobre a poltrona. Toma-o e o cheira.

SCULLY: - (SORRI/ OLHOS FECHADOS) O cheirinho dela...

Scully coloca o vestido sobre a poltrona e sai do quarto, de costas, observando tudo. Vai até o quarto de Mulder. Percebe suas fotos ali ainda. Seus pertences. Abre o armário e vê suas roupas. Baba entra.

BABA: -Ele disse pra não mudar nada. Era pra deixar tudo do jeito que você deixou.

SCULLY: - (ENVERGONHADA) Ele me disse que jogaria tudo fora.

BABA: - Ainda acredita nas besteiras que ele diz?

SCULLY: - (SORRI) Ele ainda deixa farelos pela casa?

BABA: - Só ele? Victoria também.

Scully sorri, saindo do quarto. Baba a acompanha com os olhos.

Corte.


Scully anda até a porta da garagem. Baba a segue, observando. Scully analisa a porta. Analisa ao redor.

BABA: - O George disse que um fio da porta estava arrebentado, por isso ficou travada.

SCULLY: - Se tinha algum vestígio a chuva levou... Me mostra o fio.

Baba aponta. Scully puxa um banquinho e sobe nele. Observa o fio.

SCULLY: - (TENSA) Isso foi cortado, Baba.

Baba começa a ficar mais nervosa. Scully desce e sai da garagem, procurando qualquer coisa pelo chão. Se aproxima do canteiro ao lado da casa. Scully agacha-se e pega o controle remoto da garagem.

SCULLY: - Quantos desses há na casa?

BABA: - Só este sobreviveu a Victoria.

SCULLY: - (INTRIGADA) Victoria poderia ter vindo pra rua com isso?

BABA: - Impossível. Mulder mantém isso escondido dentro do carro.

Scully se levanta. Coloca o controle num saco plástico.

SCULLY: - Vou até o FBI levar isto e as amostras do cachorro. Me ligue se Mulder voltar.

BABA: - (NERVOSA) Ele não vai voltar, não é? Vejo que desconfia de alguma coisa. Levaram a Victoria e aquele judeu maluco. Ele pode ser maluco, mas eu gosto dele, ele é meu amigo.

SCULLY: - Há duas possibilidades. Ou Mulder não voltou pra casa ou não teve tempo de entrar em casa.

BABA: - (NERVOSA) Acha que eles foram sequestrados?

SCULLY: -(AFLITA) É o que temo...

BABA: - (ROENDO AS UNHAS) Homens do governo?

SCULLY: - (TENSA) Eu espero que não. Tranque as portas. Qualquer coisa me ligue. E se encontrar algo diferente também. E não limpe nada, evite tocar nas coisas e não se assuste, vou chamar os peritos para checarem tudo, ok?


Local ignorado -10:04 A.M.

Mulder acorda-se. Vê Stephanenko, sentado numa cadeira velha, o observando. Stephanenko puxa a faca de caça afiada e se aproxima de Mulder. Mulder fecha os olhos sem conseguir recuar por causa das cordas. Stephanenko corta a corda central que une as duas cordas que amarram as mãos e pés de Mulder para trás. Mulder solta um suspiro de alívio, permanecendo apenas com as mãos e pés amarrados. O assassino abaixa a mordaça e recua, sentando-se na cadeira num sorriso. Mulder estica as pernas numa fisionomia de dor.

STEPHANENKO: -Acho que ficar por muitas horas nessa posição desconfortável, como uma caça pronta para ser carregada, deve ter deixado você com câimbras... Não teremos problemas com mobilidade agora, não concorda?

MULDER: - Onde está a minha filha?

STEPHANENKO: - Está segura. Meu assunto é com você.

MULDER: -Não vai ter nenhum assunto se eu não ver a minha filha agora!

STEPHANENKO: -Tem minha palavra de que ela está bem, Mulder.

MULDER: - Eu não acredito em você!

STEPHANENKO: -Na hora certa verá sua filha. Mas se não se comportar... (LIMPA AS UNHAS COM A PONTA DA FACA) ... Receio que algo ruim pode acontecer ao seu filhote.

Mulder tenta e consegue sentar.

MULDER: - O que quer de mim?

STEPHANENKO: - Recebeu minha carta e os pedaços da sua cunhada pelo correio?

MULDER: - (FECHA OS OLHOS/ ANGUSTIADO) Tara...

STEPHANENKO: - Não se preocupe. Não era Tara. Infelizmente o marido dela não se descuida. Você tem razão, ele é um chato. Mas trazer Marlene pra cá foi muito fácil.

MULDER: - (GRITA/ TENTANDO SE SOLTAR) Desgraçado!!!!!! Eu vou te matar!!!!

STEPHANENKO: - Oh-oh... Isso não é jeito de falar com um amigo. Precisava ver quando a peguei de surpresa saindo daquele restaurante. Ela tinha coxas bonitas. Gritou feito uma porca enquanto eu a retalhava na banheira. Não consegui tirar as chaves da mão dela. Ela gritava o nome de Charles...

Mulder ameaça avançar nele.

MULDER: - (ÓDIO/ AOS GRITOS) Ela tinha um filho, seu bastardo!!!

STEPHANENKO: - E ele 'tinha' uma mãe. Quer sua sogra embrulhada num saco de lixo? Ou quem sabe a doce agente Scully retaliada para a sobremesa? Se quiser eu mato aquele cunhado que detesta você...

MULDER: -(ÓDIO/ AOS GRITOS) Eu vou cortar você em pedacinhos se tocar em mais alguém da minha família!!!

STEPHANENKO: -Isso! Agora sim, estou reconhecendo você e todo esse ódio que tem dentro de si... Mas não é a sua família. Você não tem família. Somos iguais, Mulder. Sempre fomos. Odiamos essas marionetes patéticas com suas vidinhas comuns. Cérebros de ratos, vivendo em gaiolas, usados como cobaias para um sistema vil e tirano. Mas você está do lado deles. Deveria ficar do meu lado. Juntos seríamos imbatíveis. Exterminaríamos esses malditos cordeiros. Só há espaço para os lobos como nós. Os que sabem jogar o jogo.

MULDER: - Se eu sou seu amigo, Stephanenko... Me solte.

STEPHANENKO: - Acha que sou imbecil, Mulder? Está menosprezando a minha inteligência?

MULDER: - (OLHA PRA PAREDE) O que faz da raposa um cordeiro... Eu sei a resposta. O sistema onde a raposa está inserida.

STEPHANENKO: - Eu admiro sua sapiência, só quero ajudar você a se libertar dessa gente. Eu dou a você a chance de mudar sua vida, Mulder.

MULDER: - Eu não quero mudar minha vida, seu filho de uma vaca!

Stephanenko se levanta e beija a testa de Mulder. Olha pra ele.

STEPHANENKO: - Tenho coisas a fazer. Enquanto isso, terá tempo para pensar sobre o que falamos.

MULDER: - Me solta daqui!!!!!! Não vai demorar muito e vão sentir minha falta! O FBI vai invadir esse lugar e fuçar o seu rabo!

STEPHANENKO: - Acha que o FBI conhece esse lugar?

Stephanenko aproxima-se de Mulder segurando a faca. Mulder olha pra ele, assustado, recuando contra a parede.

STEPHANENKO: - Seu amiguinho Mallet é um cordeiro tonto, Mulder. Não é digno de continuar o trabalho que você fez. Por que acha que escolhi você para a libertação? Você é como eu: o melhor de todos. Você também pensa, questiona. Você não é um cordeiro, mas está agindo como um deles. Agindo apenas como um pedaço de carne. E carne...

Stephanenko passa a lâmina da faca na perna de Mulder. Mulder grita. O sangue começa a manchar a calça. Stephanenko amordaça Mulder novamente.

STEPHANENKO: - Carne é apenas carne. Só serve para cortar... Não me desaponte, Mulder. Você sabe muito bem com quem está lidando.

Stephanenko tira uma seringa do bolso. Mulder contra a parede, não tem mais pra onde recuar, Stephanenko crava a agulha na coxa de Mulder. Mulder solta um grito abafado pela mordaça.

STEPHANENKO: -(SORRI) Durma. Você precisa "sair da matrix"... Assim vai pensar melhor.

Residência dos Mulder - 10:16 A.M.

Krycek parado na sala, nervoso. Segura o celular contra a orelha, aguardando.

BABA: -... E depois o FBI chegou e revirou tudo por aqui.

Krycek desiste e guarda o celular.

KRYCEK: - Scully não atende. Deve estar ocupada no FBI. Sabe aonde encontro Skinner?

BABA: -Já tentei a casa, o celular... Hoje é sábado!

KRYCEK: - Grande coisa! Eu fiquei de tocaia por mais de 24 horas pra ajudar a pegar uma quadrilha de falsários. Policiais não podem ter finais de semana. Os engravatados do bureau, com salários altos, menos ainda. Fez bem em me deixar recado...

Krycek fecha os olhos, culpado.

KRYCEK: - Se eu tivesse atendido o maldito telefone quando ele ligou... Se eu tivesse ligado pra ele... Se tivesse tido o bom senso de fugir do trabalho e vir aqui tomar uma cerveja e trocar ideias como faço nas sextas... Mas não, eu sumi com vergonha dele. Eu prometi ajudar Mulder como ele me ajudou e o que faço? Não estou aqui quando ele precisa!

BABA: - Ora, não pode se culpar por isso, quem pode controlar a loucura da Scully? Até imagino o que ela deve ter aprontado com você. E pela sua vergonha foi na frente do Mulder. Sabe o dito: Merdas acontecem.... E Scully acha que sequestraram eles.

KRYCEK: - Eu não acho. Eu tenho certeza. E nem me fale em merdas, porque elas estão acontecendo na minha vida, uma atrás da outra, feito um castigo, me deixando maluco! Meu emocional tá abalado. É, eu tenho um emocional se ninguém sabe. Quem eu quero não me quer e quem me quer eu não posso nem pensar na ideia!

BABA: -Eu sei. Eu sou bruxa. Você não anda bem da cachola e do coração. Uma hora dessas eu coloco as cartas pra você e vamos resolver esses encostos aí com algumas ervas. E acredite, você deve estar carregado de coisas ruins por conta do seu passado. E por falar nisso, vou ter que limpar a energia dessa casa porque a Scully conseguiu arrepiar até a minha nuca!

KRYCEK: -Vai ter que arrumar milhares de caminhões de ervas pra resolver meus problemas... Droga, será que tem dedo daqueles cretinos nessa história? Daquele Moedinha satanista? Deus me perdoe por todas as merdas que eu já fiz na minha vida, mas eu não vou suportar se algo acontecer com o Mulder e a Scullyzinha. Eu juro que volto a ser o assassino filho da mãe que eu era, e vou caçar cada um daqueles desgraçados até exterminar o último deles sobre a Terra! Eles alimentaram o monstro, agora aguentem as consequências.

Baba arregala os olhos.

BABA: - Deus? E eu pensando que os russos eram ateus! Olha, quer um chazinho? Krycek, você tá muito nervoso. E nem pense em voltar atrás. Vai terminar morto e sabe disso! E se Mulder morrer antes, o pior de tudo é o espírito dele ficar puxando você pelo pé a noite toda: (IMITANDO A VOZ ARRASTADA DE MULDER) "Krycek, eu disse pra não voltar atrás, agora vou te assombrar pro resto da sua vida..." Deus o livre de ter Mulder como encosto! Vivo já se apega fácil, imagina morto? Cruz credo!!!

O telefone da casa toca.

BABA: - Deve ser o amigo do Mulder novamente... (ATENDE) Residência dos Mulder... Não, agente Mallet, Mulder não apareceu e Scully não atende o telefone! ... Não sei, ela disse que ia até o FBI, pode ser que esteja aí... Certo, eu ligarei se o Mulder aparecer.

Baba desliga.

KRYCEK: - Quem é agente Mallet?

BABA: - É um amigo do Mulder. Parece que trabalharam juntos por um tempo.

Krycek abre a porta.

KRYCEK: - Fique em casa, tranque tudo. Eu vou apertar algumas fontes pra ver se não tem dedo do governo nisso. E vou atrás da Scully. Me liga se souber de algo, porque agora a prioridade é a vida deles.

BABA: - Estou nervosa com eles e principalmente a Victoria. Krycek não deixe que nada aconteça com a minha menininha!


Apartamento de Ellen - 10:42 A.M.

[Som: Tears for Fears - Shout]

Scully estaciona no subsolo do prédio. Desce do carro. Caminha até o elevador e aperta o botão. Tenta ligar o celular, mas está descarregado. A porta do elevador se abre. O homem cabisbaixo, com capuz, parado ali dentro. Scully o observa, desconfiada. Stephanenko ergue o rosto num sorriso. Os olhos de Scully se tomam de pavor. Ela solta o celular no chão e leva a mão à arma, mas ele é mais rápido e a agarra pra dentro do elevador. A porta se fecha. Escutam-se os gritos abafados de Scully, e as pancadas contra a porta.


Krycek estaciona a picape. Desce. Caminha até o elevador. Vê o celular ao chão. Pega o celular. Ao ver que é de Scully, puxa a arma e sobe as escadas correndo.


FBI – Laboratório de Análises Químicas - 10:47 A.M.

Donald entra na sala. Forrest observa algo no microscópio. Chuck come sequilhos, toma café e lê uma revista. Ninguém percebe Donald.

DONALD: - (GRITA) DIRETOR CARTER!!!!!!!!

Chuck derruba café e sequilhos, num sobressalto. Forrest quase enfia o microscópio no olho. Donald olha debochado pra eles, com as mãos nos bolsos.

DONALD: - Vocês têm medo, mas não tem vergonha. Que folga por aqui!

AGENTE FORREST: - Não estou de folga, estou analisando as amostras que você me mandou!

CHUCK: - E eu estou analisando os sequilhos da confeitaria da esquina. Sabe como é, podem estar envenenados.

DONALD: - Sei... (PEGA UM SEQUILHO E LEVA À BOCA) ... Alguém viu a agente Scully?

CHUCK: - Ah, ela também foi escalada pra turno extra? Não respeitam nem o luto dos agentes...

AGENTE FORREST: - Ela esteve aqui, pouco depois das nove e deixou umas amostras.

DONALD: - De quê?

AGENTE FORREST: - Vômito de cachorro. Servido?

Chuck, com nojo, sai da sala.

DONALD: - ... O outro com nojo de vômito de cachorro, com tanta coisa pior que analisa aqui dentro. O celular da agente Scully não atende.

AGENTE FORREST: - Se fosse você ficava longe dela, porque o agente Mulder morde! ... Ah! Ela deixou isso também.

Forrest mostra o controle remoto da garagem. Donald pega o saco plástico, observando.

AGENTE FORREST: - Sabe que não posso dizer nada sobre a investigação, porque é falta de ética. Departamentos diferentes, direito a confidencialidade e...

DONALD: -Pode dizer sim, porque estamos no mesmo caso. O que havia nesse controle?

AGENTE FORREST: - Impressões digitais do agente Mulder e digitais e saliva da filhinha deles. O vômito do cão apresentava vestígios de Clonazepam, medicamento que inibe as funções do sistema nervoso central, provoca alguma sedação, relaxamento muscular e efeito tranquilizante. E a agente Scully pediu urgência. Está preocupada porque a filha e o agente Mulder sumiram.

Donald observa intrigado o saco plástico.

DONALD: - Ela disse aonde ia?

AGENTE FORREST: - Pra casa porque esqueceu alguma coisa, mas que voltava logo. E ainda não voltou.

DONALD: - E as minhas amostras?

AGENTE FORREST: - Fale com quem fez a necropsia se quer o relatório completo. A análise da água nos pulmões indicou que a vítima foi morta por afogamento em água comum, não salgada. Havia presença de ferrugem, o que me faz crer que ela tenha sido morta numa banheira, canos velhos e enferrujados. A corda no pescoço não tem digitais, é corda comum comprada em qualquer ferragem e em nenhuma das roupas pude encontrar fibras. As coisas vão ser difíceis pra você.

DONALD: - E o chaveiro?

AGENTE FORREST: - Digitais do marido, Charles Scully. Pobre da agente Scully... (TRISTE/ SUSPIRA) Deve estar sozinha e desamparada... Precisando de um ombro amigo.

DONALD: - Que eu saiba esse amigo que você tem pra oferecer não tem ombros. Conselho: Mulder não morde. Ele arranca pedaços. Não esqueça. Ele é "O Estranho". Até os aliens fogem dele bem mais rápido que da Sigourney Weaver. Embora em sã consciência, quem fugiria dela?

Donald sai da sala. Puxa o celular. Aperta uma tecla.

DONALD: -(AO CELULAR) ... Lewis, mande alguém verificar se a agente Scully está em casa. Mande o Taylor e o Dylan pra casa da mãe dela pra ficarem de vigília, temo que o maluco tente alguma coisa... Não, não encontrei Mulder, a empregada dele está nervosa e estou com um péssimo pressentimento...Essa ausência de vísceras na vítima me remete a alguém que já vimos antes, mas só vou ter essa certeza se um segundo cadáver aparecer... É a marca do desgraçado. Por garantia, pegue o arquivo das garotas da floresta de Minot, Dakota do Norte... É, aquele xerife assassino serial filho da mãe que nos enganou e também a Mulder... Certo, diz que já estou subindo.

Donald desliga. O celular dele toca. Donald atende.

STEPHANENKO (OFF): - Agente Mallet?

DONALD: - Sim.

STEPHANENKO (OFF): - O que faz o aluno superar o mestre a não ser a chance de salvar seu próprio mestre?

DONALD: - ... Quem está falando?

STEPHANENKO (OFF): - Eu lhe dei a chance de ser mestre, mas lembre-se de que eu sou Deus.

Stephanenko desliga. Donald observa o celular intrigado e pensativo. Checa o número. É do celular de Mulder.

DONALD: - Droga!

Donald aperta o número e aguarda. O telefone está fora da área de cobertura. Forrest sai da sala.

AGENTE FORREST: - Ah, agente Mallet, esqueci de dizer que o legista encontrou um pedaço de fígado humano dentro da orelha da vítima. A análise de DNA indica que não é de Marlene Scully, pertence a outra pessoa, uma prostituta fichada chamada Rita Benson.

Donald fecha os olhos.

DONALD: -Bingo! Stephanenko, seu desgraçado...

Donald corre para o elevador enquanto liga no celular.

DONALD: - Agente Cooper preciso urgente rastrear um número de celular...



BLOCO 3:

FBI Divisão de Crimes Violentos –11:11 A.M.

Donald observa as fotos de Marlene, penduradas no mural. Seis agentes espalhados pela sala, desanimados, aborrecidos, tentando trabalhar num sábado de manhã. Lewis observa Diana Fowley ao fundo, separada de todos. Donald bate palmas.

DONALD: - Rapazes, rapazes, tenho novidades!!! Mas escutar bocejos e bundas se arrastando por aqui não vai animar ninguém. Sei que estão cansados, o final de semana nem começou e já terminou, mas prometo por minha conta, que vamos fazer um revezamento sigiloso de folga quando isso tudo acabar. Coloquem os nomes na caneca, vamos tirar por sorteio. Um vai cobrir o horário do outro. Isto é, se a nossa amiga agente Fowley não fizer um relatório sobre isso.

Todos olham atravessados pra Diana. Ela cruza os braços.

DIANA FOWLEY: - Não sou fofoqueira.

DONALD: - Pode tirar o final de semana pra descansar, agente Fowley. Está liberada.

DIANA FOWLEY: - Pertenço ao departamento. Estou nesse caso.

DONALD: -Não, você não está.

DIANA FOWLEY: - (ARROGANTE) Quem disse?

DONALD: - (A ENCARA/ MAIS ARROGANTE) Eu disse. Eu, Donald Mallet, o chefe desse departamento. Por favor pegue sua bolsa e vá pra casa dormir como um anjinho.

DIANA FOWLEY: - Kersh vai saber disso.

DONALD: - Ele já sabe.

DIANA FOWLEY: - Carter vai saber disso.

DONALD: - Último andar, última sala à esquerda. Mas parece que o diretor Carter está na Flórida, em uma convenção de fãs do seriado Magnum. Ele quer desesperadamente um autógrafo do Tom Selleck para tatuar no... Braço.

Os agentes disfarçam o riso. Diana sai furiosa da sala, batendo a porta. Os agentes aplaudem. Donald fixa a foto de Stephanenko no mural.

AGENTE THOMAS: - (DESANIMADO) O que ele fez?

DONALD: - Esse é o nosso homem.

AGENTE #1: - Conheço esse cara de algum lugar...

AGENTE #3: - É, ele me parece familiar...

LEWIS: -Ele é suspeito de ter assassinado Marlene Scully. Cunhada da agente Scully.

DONALD: - Agora sabemos que existem mais mulheres mortas.Ele tem distúrbios sexuais e acreditamos que o fato de retirar os intestinos tenha algo a ver com uma certa homossexualidade reprimida.

LEWIS: - ... Ele sequestrou o agente Mulder e a filhinha dele. Provavelmente ontem à noite.

DONALD: - Usou o celular de Mulder para me desafiar e não conseguimos a localização. Deve ter destruído o aparelho.

AGENTE THOMAS: - (RINDO)O agente Mulder? O Estranho? Do porão? Não foram os aliens?

Os outros agentes o encaram seriamente.

AGENTE THOMAS: -O que foi? Eu disse alguma mentira?

DONALD: -Então, Mulder e a filha dele estão em perigo.

Os agentes rapidamente se empolgam aos burburinhos. Menos Thomas. Lewis se aproxima dele.

LEWIS: - Nunca fale mal do agente Mulder aqui dentro. Não antes de ler o currículo dele na Crimes Violentos. Se não fosse a agente Fowley o arrastar propositalmente para aquele porão, hoje ele seria o nosso chefe. Mulder e Donald foram parceiros na época. Mulder é uma lenda nesse departamento. Entendeu? Tenha respeito.

DONALD: - Ok, rapazes, silêncio!!! Eu não terminei ainda!!! Todo mundo aqui vai ter a chance de mostrar sua competência no departamento salvando o mestre dos perfis psicológicos do FBI. Guardem a empolgação por alguns minutos. Esse é Stephanenko, um serial killer. Atuava na região das florestas de Minot, em Dakota do Norte, por isso se lembram dele, com exceção de Thomas, que não estava conosco na época.

AGENTE #1: - Bem que reconheci! O desgraçado do xerife que nos enganou direitinho!

DONALD: -Esse mesmo! Ele está na Virginia.

AGENTE THOMAS: -Por que na Virginia? Pode estar em qualquer lugar!

DONALD: - Não vou esperar outra vítima aparecer para ter uma certeza que já tenho, agente Thomas. Encontramos Marlene Scully em Newport News. Rita Benson, cujo pedaço do fígado estava no ouvido de Marlene Scully e que ainda não achamos o corpo, morava em West Point. Mulder mora em Richmond. Stephanenko está na Virgínia.

LEWIS: -Lembro que ele não se movia. Provavelmente segue o mesmo padrão. Continua agindo apenas dentro de sua zona limítrofe. E não temos um perímetro definido ainda. A área é enorme para verificarmos cada buraco aonde esse cretino possa estar escondido.

AGENTE THOMAS: -Mas ele tem traços de índio!

DONALD: - Esqueça tudo o que sabe sobre perfis de assassinos seriais quando se trata desse cara, agente Thomas. Ele não se encaixa em nada que tenha visto. Tudo o que ele julga é ser mais esperto do que nós. Ele acredita que está acima do sistema, que todos nós somos cordeirinhos e que pessoas espertas como ele são lobos.

AGENTE THOMAS: -Espertas como?

DONALD: - Que questionam o sistema. Quando eu e o agente Mulder o enfrentamos pela primeira vez, o desgraçado havia armado tudo pra desafiar Mulder. Ele desenvolveu uma obsessão por nosso colega. E agora precisamos encontra-los antes que o pior aconteça.

Lewis coloca a foto de Mulder e Victoria no mural.

AGENTE #1: - Ah, meu Deus, Lewis! Ela ainda é um bebê!

Krycek entra na sala.

KRYCEK: - Coloque a foto da agente Scully também.

Todos olham pra ele.Krycek se aproxima estendendo a mão. Donald o cumprimenta.

KRYCEK: - Agente Mallet? Detetive Checov, homicídios de Washington, nos falamos por telefone. Seja quem for que pegou o agente Mulder e a filha dele, agora também pegou a agente Scully. Não consegui chegar a tempo.

DONALD: - Ok, agora a coisa ficou pior ainda do que estava. Temos mais a agente Scully na lista. Stephanenko não vai matar mais mulheres. Porque encontramos sua última vítima, Marlene Scully. Todas as outras já estão mortas. Não percam seu tempo. Concentrem-se em achar os agentes Mulder e Scully e a filha deles com vida.

AGENTE THOMAS: -Como sabe que foi a última vítima?

DONALD: - Ele não segue a ordem comum. Ele primeiro mata o número de vítimas que lhe convém. Quando chega na última vítima, ele faz questão de deixar um pedaço da vítima anterior como pista e se desfaz dessa vítima para que a encontremos. E assim vai fazendo e seguindo uma ordem inversa. A primeira vítima sempre é a última a ser encontrada. Ele mata e nos desafia. E está confiante porque já nos venceu. Isso é bom pra nós.

Donald escora-se na mesa.

DONALD: - O cara além de psicopata é um sociopata.

KRYCEK: - Religioso?

DONALD: - Eu diria místico, mais para a astrologia. Ele tem obsessão por elementos naturais: água, terra, fogo, ar. Acha que tem que aliviar o sofrimento dos cordeiros. A última vítima, Marlene Scully, estava na água. O pedaço de fígado que encontramos era de outra mulher, Rita Benson, e certamente vamos encontrar o corpo dela em algum lugar que ligue fogo, terra ou ar. Não pensem que vai ser fácil pegar esse sujeito. Ele já nos enganou e enganou até mesmo o agente Mulder. Quero que Macarthney e Porter chequem as delegacias da Virgínia. Esse cara era policial, pode estar trabalhando por aí com nome falso. Ele parece ser um sujeito idiota, mas é muito esperto. Você olha pra ele e vê um imbecil, ele finge ser ignorante, mas é apenas dissimulação.

KRYCEK: - Posso verificar se ele está na polícia. Tenho acesso a todas as delegacias.

DONALD: - Ok, então você faz isso. Rapazes, este é o detetive...

KRYCEK: - Checov.

DONALD: - O detetive Checov, da homicídios do Precinto 11 aqui de Washington. E ele vai colaborar conosco. Vou colocar a foto de Stephanenko em todos os jornais e na TV. Rapazes, não desapontem Mulder!

Eles saem às pressas, empolgados. Lewis senta-se em frente ao computador.

DONALD: - Eles se espelham no Mulder. Só querem ser tão bons quanto ele.

KRYCEK: - Me dê uma foto do canalha. Tenho uma amiga que tem alguns contatos na imprensa.

DONALD: - Alex Krycek, não é? Por que Checov? Apelido? Algo com Star Trek?

KRYCEK: - Não, porque eu já fui agente do FBI e não quero meu nome sendo pronunciado aqui dentro. A história é longa, basta você saber que Mulder é meu amigo, e eu devo minha vida a ele.

Donald senta-se e cruza as pernas.

DONALD: - Tem todo o tempo do mundo pra falar quem é você, ou cai fora daqui, porque eu sei que muita gente lá em cima quer Mulder fora novamente. Eu não confio em ninguém que use nome falso. A não ser que seja um "agente morto".

KRYCEK: - Não temos tempo pra ficar amiguinhos agora, agente Mallet.

DONALD: - Não, não temos. Já se passaram horas e a cada minuto as chances deles estarem vivos diminui drasticamente. Então você tem dez minutos da vida deles pra resumir quem você é e se posso confiar em você. E se for amigo de Mulder mesmo, vai resumir mais ainda enquanto olha para o relógio.


Local ignorado -12:24 P.M.

Mulder, amarrado e amordaçado, se arrasta pelo chão, entrando no outro cômodo. Vê as paredes forradas de jornal, suas fotos, sua monografia. Vê o porta-retratos com a foto de Scully e Victoria. Mulder fica angustiado. Percebe os pedaços humanos cortados e separados sobre uma mesa. O sangue pelo chão, misturado com pedaços de gordura humana e papel celofane. Mulder recua assustado, batendo contra os pés de Stephanenko.

STEPHANENKO: - Eram todas umas vadias que mereciam morrer. Apenas carne, Mulder...

Mulder olha pra ele, assustado. Stephanenko entra no cômodo e aproxima-se das cortinas.

STEPHANENKO: - Quer ver o que andei fazendo nesse tempo em que não nos vimos?

MULDER: - ...

STEPHANENKO: - Minha maior obra de arte.

Stephanenko abre as cortinas negras.

Close na parede repleta de pedaços humanos femininos, desidratados e conservados, postos como numa tela artística. Mãos que se projetam como que pedindo socorro, pés, peles, vísceras, órgãos genitais, cabeças com olhos e bocas arrancados, em expressões aterradoras.

Mulder vira o rosto.

STEPHANENKO: - Chama-se "O Inferno". Admita, nem Dante Alighieri faria melhor, se fosse escultor. Sei que o cheiro não é agradável, mas eu gosto do que chamo de 'perfume da putrefação'. É o destino de todos, Mulder. Eram apenas vagabundas que eu fui matando neste tempo, por onde eu passava. Ninguém deu pela falta delas... Afinal, um uniforme de policial pode conseguir milagres. Falta apenas um elemento nesta obra. Um homem. Você tem sorte, Mulder. Vai ficar imortalizado na minha obra com seus pedaços espalhados nela. Não será bom pra você estar dividido entre tantas mulheres?

Stephanenko arrasta Mulder pelos pés, de volta a outra sala. Mulder reluta, mas não consegue se soltar.

STEPHANENKO: - Preste atenção, Mulder. Eu dou a chance de salvação a você. Se não quiser, não posso fazer nada mais, a não ser dar-lhe o castigo de todo o cordeiro.

Mulder murmura alguma coisa. Stephanenko tira-lhe a mordaça.

MULDER: - (AOS GRITOS) Filho de uma vaca, eu vou matar você, seu desgraçado e colocar seus pedaços todos num saco de lixo!

STEPHANENKO: - Você tem o instinto, Mulder... Eu disse.

MULDER: - O que quer que eu faça? Que me torne um assassino?

STEPHANENKO: - Mulder, não me decepcione. Não há nenhuma graça em desafiar seu amigo Mallet. Quero que você pague suas faltas para comigo. Você mesmo disse que está cansado de buscar as respostas. Não há respostas, Mulder. Isso é a maravilha de tudo, porque não há respostas. As coisas são tão simples, que o homem perdido em sua ignorância de querer ser esperto, torna tudo mais complexo. O homem pensa demais e vê apenas por um único ângulo. Existe a minha verdade, a sua verdade e a verdade do outro. Mas nenhuma delas é a verdade única. Porque talvez não exista uma única verdade, mas um conjunto de verdades que formam um todo.

MULDER: - ... Seu doente...

STEPHANENKO: - Pode o homem subsistir a escravidão da sua própria raça que os devora como marionetes de um jogo apocalíptico? Todos dentro da mesma farda. Todos com os mesmos rostos. A humanidade toda é igual a um bando de cordeiros. Todos, infinitamente, dentro de uma máscara imposta por um sistema. Ninguém questiona. Ninguém pensa. Ninguém critica. Todos agem de acordo com um padrão. Seguem uma moda. Aceitam o que os críticos de cinema, os formadores de opinião, a mídia... Enfim, cria-se um mito, faz-se propaganda dele, cria-se a necessidade de ter esse mito e ele passa a ser verdade inquestionável. Eles aceitam a verdade imposta, que é a grande mentira que todos aceitaram como verdade. Uma mentira bem contada pode enganar até mesmo o mais sábio dos tolos.

MULDER: - ...

STEPHANENKO: - Sabe o que assusta você, Mulder? É que você pensa como eu penso. Você concorda comigo. Você sabe dos chips, dos satélites espiões, da hipocrisia, das mentiras, das conspirações e até da ocultação de vida alienígena! E se pergunta quem é mais assassino, se pessoas como eu ou se o governo americano e a sua 'justiça'. Você se pergunta quem é mais assassino serial, se sou eu ou os governos que matam de fome todos os dias. Você se preocupa com a validade da pena de morte, com o olho por olho e se questiona se o Estado tem direito de matar porque o Estado mata todos os dias e atira as pessoas umas contra as outras! Você sabe da verdade, Mulder, e sinto que você segura sua revolta! Tenha pena dos cordeiros! Lhes dê o descanso merecido, tire-os dessa vida desgraçada que levam!

MULDER: - Quem sou eu para julgar se a vida deles é desgraçada? Pode ser desgraçada pra mim, mas não necessariamente pra eles! Eu não sou o Estado, eu sou um homem dentro de um Estado que não posso mudar! E mesmo que pudesse, haveria paraíso nesse planeta? Haveria forma de governar sem que alguns fossem desfavorecidos?

STEPHANENKO: - Talvez não, Mulder. Por isso não precisa mudar nada. Apenas aliviar a dor de viver dessas pessoas. Serviçais de religiões, crenças absurdas e um psico-terrorismo inexistente em nome do domínio de territórios! Mulder, a América está no topo da cadeia alimentar! Somos nós os predadores! Você vê isso nos jornais todos os dias, você vê o alimento que damos a estas guerras ilógicas e a essa matança e pode ainda se sentir mais culpado por matar uma única pessoa ou meia dúzia delas? Como pode condenar terroristas islâmicos por terem a coragem??? (GRITA) Nos alimentamos de sangue, Mulder! As engrenagens da economia capitalista não são movidas por petróleo, são movidas por sangue! Eles são os culpados! Droga, eles são os culpados! Eles nos meteram nessa! Eles matam mais do que eu e todos os assassinos seriais do mundo!!! Mais do que qualquer um! Mas eles têm o selo oficial pra matar e eu não! Isso faz de mim o assassino a ser punido? Por que não há punição pra eles? Por que são o Estado?

MULDER: - Você é inteligente. Sabe que não tem saída... Me solte, se entregue e vamos acabar com isso.

STEPHANENKO: - Estamos num dilema. Poder ao povo? Não! O povo não sabe o que é poder. O povo quando tem liberdade para reagir e reivindicar, vai saquear lojas, depredar prédios públicos e incendiar carros. O povo recebe vários bens comunitários e públicos pra facilitar sua vida e no entanto, depredam, estragam, destroem. Imagine dar poder a esse povo? A anarquia é falha. Assim como o comunismo é falho, porque é ditador. Assim como o capitalismo é falho, porque é mentiroso e cínico. Todos os regimes são falhos porque são regimes humanos. E infelizmente, sem um regime, o povo não sabe respeitar nem a si próprio. Precisa de um pastor. Porque é um rebanho. Mas eu e você não precisamos disso. Somos pastores, Mulder. Precisamos sacrificar essas ovelhas. Somos lobos, só lobos em matilhas podem destruí-los!

MULDER: - Você é louco! Completamente louco!

STEPHANENKO: - (GRITA) Não me chame de louco!

Stephanenko começa a chutar Mulder. Mulder grita. Stephanenko mete pontapés sucessivos em Mulder e depois começa a andar pela sala, nervoso, suando.

STEPHANENKO: - Não Mulder... (PUXA UM PAPEL DO BOLSO DAS CALÇAS JEANS) ... Você escreveu isso em sua tese: Raramente o serial killer conhece sua vítima. Ela representa, na maioria dos casos, um símbolo. Ele não procura uma gratificação no crime, apenas exercita seu poder e controle sobre a vítima...

MULDER: - (GEMENDO COM DOR) ...

STEPHANENKO: - (LENDO) Suas agitações metódicas quase sempre são sexuais em natureza. As matanças normalmente fazem parte de uma fantasia elaborada que leva ao clímax no momento da explosão assassina. Assassinos seriais geralmente trabalham em períodos, entre cada crime. Muitos desfrutam canibalismo, necrofilia e mantém troféus, como partes do corpo ou objetos de suas vítimas, remetendo-se ao ocultismo com bizarros e estranhos rituais de mutilação. Assassinos seriais são sádicos em natureza. Alguns voltam a cenas do crime ou locais importantes para suas vítimas, com o intuito de fantasiar sobre as ações delas. Muitos gostam de se inserir na investigação dos crimes e alguns preferem escarnecer autoridades deixando pistas ou pedaços das vítimas como evidência... Você me conhecia Mulder!

MULDER: - (O ESTUDANDO) ...

STEPHANENKO: -(EMPOLGADO) Você me conhecia... Olha o que fala sobre mim: Eles também podem ocupar cargos como de policiais ou profissionais da saúde, se auto-designando "anjos da morte", aliviando o "sofrimento" de suas vítimas. A maioria deste tipo de assassino cresceu em casas violentas. Muitos apresentam algum tipo de lesão cerebral ou são viciados em drogas e/ou álcool... Percebe? Eu estudei toda sua vida, Mulder! Eu sei que você não é um deles! Você poderia estar comigo, mas no entanto você fica ao lado deles!

MULDER: - ... Não sou um assassino.

STEPHANENKO: -Mentira! Você é um agente federal, mata em nome do Estado! Você tem todo o perfil psicológico para ser um assassino! (AOS GRITOS) Mas você prefere ser um cordeiro igual a todos eles! Eu me enganei com você! Você é apenas carne, uma marionete no sistema hipócrita deles!

MULDER: - (ASSUSTADO) ...

STEPHANENKO: -(ÓDIO) Você pediu por isso, Mulder! Você me traiu! E eu vou mostrar pra você o quanto somos iguais! E será pela dor!!!

Stephanenko pega o taco de beisebol. Começa a espancar Mulder. Mulder aos gritos, sem poder se defender.

MULDER: - (GRITANDO) Eu entendo a sua dor!!!!!

STEPHANENKO: - (ÓDIO) Você pediu! Você pediu! Maldito cordeiro! Maldito cordeiro! Grite! Grite mais alto!!! Eu estou falando com você! Eu quero mudar sua mente! Quebrar seu coração!

Mulder desmaia. Stephanenko solta o taco. Vai para o outro cômodo. Começa a afiar a faca no esmeril.

STEPHANENKO: - Você acha que sabe o que é dor? Eu vou provar a você que não sabe o que é dor, Mulder.


1:56 P.M.

As janelas sujas, pouco deixando entrar a luz no ambiente. Scully abre os olhos. Está apenas de lingerie, rosto marcado por pancadas, testa sangrando. Amordaçada e pendurada pelos braços em um gancho. Ela tenta se soltar.

Scully olha pra baixo e vê Mulder, só de calças, desmaiado, mãos e pés amarrados. Scully se desespera ao ver a quantidade de sangue pelo rosto de Mulder. Agita o corpo, move a boca tentando tirar a mordaça. Mulder abre os olhos e olha para cima.

MULDER: -(NERVOSO) Scully!!!

Mulder tenta se soltar, mas é inútil. Percebe que a corda que mantém Scully presa no alto, está amarrada num tonel. Mulder arrasta-se de lado pelo chão, dificultado pelos braços amarrados nas costas. Aproxima-se do tonel. Leva os pés amarrados até o tonel, aos chutes, tentando virá-lo. Mulder segura um grito, numa expressão de dor profunda.

MULDER: - Não tenho mais forças nas pernas. Acho que ele quebrou alguma coisa com o taco.

Scully arregala os olhos tomada de pavor. Stephanenko ergue o taco sobre Mulder. Scully vira o rosto, fechando os olhos. Stephanenko acerta o taco de beisebol nas pernas de Mulder. Mulder grita. Stephanenko o arrasta de volta para o canto da sala.

STEPHANENKO: -Se queria soltar sua vadia deveria ter me pedido. Eu a soltaria.

Stephanenko chuta o tonel e Scully cai ao chão numa pancada forte.

STEPHANENKO: - Vamos brincar agora. Sua última chance. Se recusar o que ofereço, eu vou ficar furioso.

Mulder olha pra Scully. Olha pra Stephanenko.

MULDER: - Eu faço o que pedir. Mas não a machuque.

STEPHANENKO: - (ERGUE O TACO SOBRE A CABEÇA DE SCULLY) Resposta errada, crânio esfacelado!

Scully fecha os olhos.

MULDER: - (DESESPERADO) Nãoooooo!!!!!! Eu aceito a chance de salvação! Eu não quero ficar entre os cordeiros!!!!!

Stephanenko abaixa o taco. Aproxima-se de Mulder.

STEPHANENKO: - Você está tendo muita mobilidade. Acho que está na hora de tomar providências, já que se recusa a ficar quieto.

Stephanenko ergue o taco.

Fade to black.

Gritos de Mulder.


Fade to up.

Fire Store - Richmond - Virginia - 2:11 P.M.

Krycek e Donald descem do carro, nos fundos da loja. Caminham até o cordão de isolamento. A polícia no entorno. Donald puxa a credencial.

DONALD: - Agente Mallet, FBI. Esse é o policial Checov, ele está comigo.

A perícia aguarda. O fotógrafo, segurando a respiração, se apoiando e mirando a câmera para dentro do contêiner chamuscado. Donald para observando o nome do estabelecimento.

DONALD: - (PENSATIVO) Fire Store... Fogo...

Donald e Krycek aproximam-se da lixeira chamuscada. Tapam os narizes.

DONALD: - Cheiro insuportável de carne queimada...

Krycek vira o rosto, levando a mão à boca. Donald espia pra dentro do contêiner.

DONALD: - Merda! Quem encontrou isso?

POLICIAL #1: - A moça da limpeza.

DONALD: - A interrogaram?

POLICIAL #1: - Ainda não. Ela está em estado de choque.

Donald veste as luvas de látex e leva a mão dentro da lixeira, erguendo a cabeça decapitada e chamuscada da mulher. Os intestinos se pronunciam pra fora da boca. Donald solta a cabeça dentro da lixeira novamente.

DONALD: - Coloquem a vítima dentro de um saco. O nome dela é Rita Benson e parte do fígado sumiu. Preciso que encontrem nela alguma parte do corpo de outra pessoa. Pode ser qualquer coisa, com DNA diferente. Vai nos levar a vítima anterior a ela.

KRYCEK: -Pelo amor de Deus! Esse cara é mais do que doente!

DONALD: - Você nem viu nada... Entendeu agora o meu medo? As horas passam e a insanidade dele só vai aumentar... Mulder nasceu em Outubro, não é mesmo?

KRYCEK: - Sim, em 13 de outubro.

DONALD: - Libra... Balança... O que esse infeliz está pensando? Em desequilibrar a balança?

KRYCEK: - As vítimas são escolhidas pelo signo?

DONALD: - Não, ele não escolhe, ele é oportunista. Apenas o local se refere a astrologia. Temos água e fogo. Libra é ar. A próxima vítima que ele vai deixar é terra. Ele vai deixar o ar por último, em homenagem a Mulder. Sabe quando Scully nasceu? A filha deles?

KRYCEK: - A filha em 24 de dezembro. Scully não sei.

Donald puxa o celular. Aperta uma tecla. Aguarda.

DONALD: -(AO CELULAR) Lewis, pago um donuts se me disser rapidamente a data de nascimento da agente Scully... Aguardo.

KRYCEK: - Acha que ele mudou o modus operandi?

DONALD: - Não poderia, ele é metódico... Pode ser que esteja seguindo um ritual diferente no que se refere a Mulder...

Donald fica pensativo.

DONALD: -(AO CELULAR) Fala Lewis... Ok... Lewis cheque as datas de nascimentos das vítimas encontradas até agora... Eu espero...

Krycek observa Donald.

DONALD: -(AO CELULAR) Certo, Lewis. Não eu apenas tive um pressentimento. Eu vou pensar nele e ligo depois.

Donald desliga.

DONALD: - Krycek, sua pergunta foi a do milhão. Ele se aperfeiçoou. Marlene Scully era escorpião, elemento água, encontrada na água. Rita Benson leonina, elemento fogo, incendiada nessa lixeira. (PENSANDO ALTO) Scully nasceu em 23 de fevereiro. É peixes. Água. Talvez ele tenha matado propositalmente Marlene Scully por seu signo e como forma de tripudiar Scully também. A filha deles é capricórnio, terra. Mulder é ar... Água, terra e ar... Não tem fogo...

KRYCEK: - (SORRI) Mulder e Scully juntos é um incêndio, acredite!

DONALD: - Espera, você acha que está brincando, mas nessas brincadeiras é que as ideias surgem. Você pode estar certo, fogo. Dois em um? Ar e água criam o quê? Maremotos?

Donald escora-se na viatura da polícia observando a perícia trabalhar.

DONALD: -Para explicar a natureza da matériaEmpédocles disse que tudo o que existe no universo seria composto por quatro elementos principais: terra, fogo, ar e água. Aristóteles depois acrescentou que cada um desses elementos tinha um devido lugar e procurava permanecer nele ou encontrá-lo. Por exemplo, a terra estava no centro dos quatro elementos, em seguida vinha a água, acima vinha o ar e por último, acima de todos, o fogo. Mas a teoria dele estava furada, porque nem tudo provém da terra para a centralizar como elemento principal...

KRYCEK: - Victoria é terra, o centro, depois água, a Scully, Mulder ar e acima deles o fogo. É isso? Continuo não entendendo nada.

Donald fecha os olhos.

DONALD: -Ele vai matar o Mulder. Esse é o recado. A filha é o centro da vida dele. Scully vem depois. Mulder se coloca depois delas. E acima, representando o fogo, o amor deles. O desgraçado está nos dizendo que pegou as duas não pra matá-las de imediato, mas para usá-las e atingir Mulder. Ele vai jogar. Vai desequilibrar a balança do libriano. E Mulder não vai pensar duas vezes antes de dar a vida dele em troca da vida delas. E Stephanenko sabe disso.

Krycek abaixa a cabeça, angustiado.

DONALD: - Vamos voltar pro FBI. Vou entrar em contato com todas as delegacias do estado da Virgínia. Vamos aumentar a vigilância das ruas. E rezar para que alguém tenha visto o desgraçado e nos ligue!


Local ignorado - 2:31 P.M.

Victoria sentadinha no chão da sala vazia, com apenas alguns caixotes. Procura com os olhos alguma coisa pra brincar. Stephanenko entra na sala. Victoria olha pra ele.

STEPHANENKO: - Deve estar com fome. Trouxe algo pra você.

Stephanenko rasga a embalagem de um chocolate e atira no chão. Victoria olha pra ele num beiço.

STEPHANENKO: - Coma, cordeirinho. Se você se comportar, eu trarei ração de cachorro. Ou um brinquedo. Que tal a cabeça da sua mãe?

Victoria pega o chocolate, levando à boca, olhando assustada pra Stephanenko, que sai, fechando a porta atrás de si.

Um rato sai de trás das caixas passando por Victoria. Victoria sorri, engatinhando atrás do rato, tentando pegá-lo.

VICTORIA: - (AOS RISOS) Ickey! Ickey, atí!


3:22 P.M.

Scully presa pelos braços num gancho na parede, apenas de lingerie. Mulder amarrado, deitado no chão, gemendo de dor. Scully olha em lágrimas pra ele.

SCULLY: - Não pense na dor...

MULDER: - (OLHA PRA ELA) Desde quando se preocupa comigo?

SCULLY: - ... Eu nunca deixei de me preocupar com você, Mulder.

MULDER: - ... Sabe o quanto eu te amo? Pode imaginar o que eu faria por você?

SCULLY: - ... Mulder, eu não quero saber. Não quero que meça seu amor por mim e nem quero ser amada por você... Pode se mover?

MULDER: - Não... (GEMENDO) ... Ele quebrou meus tornozelos... Ele vai nos matar, Scully. Precisa fugir daqui. Ele é louco!

SCULLY: - Donald vai nos encontrar. Ele já deve saber quem é o assassino de Marlene.

MULDER: - Lamento muito por sua cunhada, Scully. Ela morreu por minha culpa.

SCULLY: - Não, ela morreu porque era sua hora.

MULDER: - Eu já gritei até exaurir meus pulmões. Não sei onde estamos, mas não há vizinhança.

SCULLY: - Vamos sair disso, Mulder. Tenho certeza.

MULDER: - (ANGUSTIADO) Acho que não, Scully. Eu não estou com um bom pressentimento.

SCULLY: - Que cheiro é esse? Parece carne podre.

MULDER: - É carne humana! O desgraçado está fazendo uma tela com corpos humanos!

Stephanenko entra na sala. Os dois o acompanham com os olhos. Stephanenko anda pensativo pela sala.

STEPHANENKO: - Fox Mulder... Em sua vida quais os fatos que gostaria de mudar?

MULDER: - Nenhum.

STEPHANENKO: - Tem certeza?

MULDER: - Tenho certeza sim, seu filho da puta!

STEPHANENKO: - O que é a morte, se não a recompensa do descanso? Dizem que pouco antes de morrer, as imagens de toda a nossa vida passam diante dos nossos olhos. Sabe, eu olho nos olhos delas enquanto morrem. Vejo o brilho se perder, mas não vejo nada além disso. Apenas fico imaginando o que está passando na mente e nos olhos delas... Quais as imagens de suas vidas medíocres, se momentos de prazer ou dor, de felicidade ou sofrimento.

Scully fecha os olhos, angustiada.

STEPHANENKO: - Tudo o que vou fazer é apenas voltar aos pontos mais importantes de sua vida, Mulder. Como numa fita. E permitir que você faça as escolhas que não fez. Antes que possa partir pra um lugar menos problemático do que este e fazer parte eterna da minha obra artística.

MULDER: - Essa é a minha recompensa?

STEPHANENKO: - Morrer é um alívio, Mulder. E eu vou salvar você. Vamos começar do fim para o início, como eu gosto. Lhe darei a chance de mudar sua vida. Se não quiser mudá-la, sua vadia paga o preço. E se você aceitar mudar, você paga o preço da mudança, afinal toda a mudança tem um preço a ser pago. Esse é o acordo.

MULDER: - ... Eu não quero jogar nada com você!

Stephanenko agarra Scully pelos cabelos. Scully grita. Ele mete a faca no pescoço dela.

STEPHANENKO: - Se não quer jogar, eu acabo agora com a vadia!

MULDER: - (DESESPERADO) Eu jogo!!!!! Eu jogo!!!!

SCULLY: - (MURMURA) Mulder, não...

STEPHANENKO: - Lembre-se das regras. Eu dou a chance de mudar sua vida, seu passado. Mas o preço é alto... Você está vivendo apenas com sua filha naquela casa. Sua vadia foi embora. Algo a ver com sua filha? Quem sabe aquela merdinha não deveria ter nascido? Você deve pensar que se ela não tivesse nascido, você ainda estaria feliz com Scully.

MULDER: - Mentira! Eu jamais pensei nisso!

Stephanenko sai da sala. Volta com Victoria. Mulder e Scully arregalam os olhos. Stephanenko segura a menina pela roupa, mantendo-a no ar. Victoria, inocente, acha aquilo engraçado e ri. Então percebe Scully amarrada e pendurada na parede.

VICTORIA: - (SORRINDO PRA SCULLY) Mama!!!

Scully morde os lábios, chorando. Mulder enche os olhos de lágrimas. Victoria olha pra ele, percebe que Mulder também está amarrado e nervoso. Stephanenko leva a faca à barriga de Victoria.

VICTORIA: - (DESCONFIADA)Papai?

MULDER: - (NERVOSO/ SEGURA AS LÁGRIMAS/ SORRI OLHANDO PRA FACA)Tá tudo bem, Pinguinho... É apenas uma brincadeira, tá? Se comporte como o papai sempre diz pra você fazer. Nada de gracinhas, ok?

Victoria, ao ouvir o pai, sorri tranquilizada.

STEPHANENKO: -É, "Pinguinho", é apenas uma brincadeira... Essa merdinha aqui atrapalha a sua vida. Lhe dou a chance de voltar atrás, Mulder.

Stephanenko encosta a ponta da faca na barriga de Victoria.

MULDER: - (AOS GRITOS) Eu pago!!!!!!!

Stephanenko larga delicadamente Victoria no chão. Pega o taco de beisebol e ergue-o sobre a cabeça de Victoria, que está entretida olhando pras baratas que andam pelo chão.

STEPHANENKO: - Tem certeza?

MULDER: - (AOS GRITOS) Eu pago!!!!!!

Scully começa a chorar. Victoria olha pra ela sem entender nada. Stephanenko pega a menina pela roupa e a coloca no outro cômodo. Volta.

STEPHANENKO: - Ok, Mulder. Você paga.

Stephanenko chuta Mulder, o virando de bruços. Ergue o taco de basebol. Mulder fecha os olhos. Stephanenko começa a bater nas costas de Mulder. Scully grita desesperada.


4:16 P.M.

Scully ainda presa pelos braços, observa Mulder. Ele, mal aguenta de olhos abertos. Não move as pernas.

SCULLY: - (QUASE CHORANDO) Precisa ficar acordado, Mulder... Não durma, por favor.

MULDER: - ... Dói...

SCULLY: - Eu sei que está doendo, mas precisa ficar acordado!

MULDER: - Não sinto mais nada da cintura pra baixo... Acho que ele quebrou minha coluna.

SCULLY: - Não, você não quebrou não. Você é mais forte. Você vai sobreviver, você sempre sobrevive! Mulder, não feche os olhos, fale comigo!

MULDER: - (TENTANDO FICAR ACORDADO) ...

SCULLY: - Eu... Eu soube que sou a número um na sua lista. E que a Baba tem que pular o número um!

MULDER: - ... (SORRI CANSADO) Porque eu... Não quero envolver você mais do que... Já está envolvida nos meus problemas.

SCULLY: - Mas pode envolver Alex. Eu me sinto enciumada com isso, sabia?

MULDER: - Para com isso... Não é hora e lugar pra discutirmos esse assunto.

SCULLY: - Só estou tentando animar você. Precisa ficar acordado.

Scully observa o lugar. Percebe a pequena janela de vidro quebrado.

SCULLY: - Se eu conseguir me soltar daqui, posso passar por aquela janela.

MULDER: - Ele está com Victoria. Precisa pegá-la antes. Ele pode fazer algo contra a Pinguinho.

Stephanenko entra na sala. Segura nas mãos uma serra elétrica. Scully acena negativamente com a cabeça, incrédula.

STEPHANENKO: - Hora do show de horrores, agentes do FBI! Mulder, sua vida tornou-se um inferno desde que se casou com ela. Essa vagabunda inferniza sua vida, lhe é a causa dos seus problemas e da sua dor, Mulder. Estaria mais feliz sem ela, você sabe disso.

Stephanenko liga a serra. Aproxima-a da barriga de Scully.

STEPHANENKO: - Lhe dou a chance de voltar atrás. Qual parte dela eu corto primeiro?

MULDER: -(GRITA/ DESESPERADO) Eu pago!!!!!

SCULLY: - (CHORANDO/ AOS GRITOS) Não! Mulder, não!!!!!

STEPHANENKO: - Tem certeza de que ela vale a sua dor?

MULDER: - (GRITA/ DESESPERADO) Eu pago!!!!!! Eu já disse que pago!!!!

SCULLY: - (GRITA HISTÉRICA) Nãoooooo!!!!!!!!!!! Pelo amor de Deus, acabe comigo seu desgraçado e deixe ele em paz!!!!!!

Scully começa a chorar convulsivamente. Stephanenko se aproxima de Mulder com a serra. Mulder fecha os olhos. Stephanenko desliga a serra.

STEPHANENKO: - Não vou serrar você, não sobreviveria ao jogo.

MULDER: - (RESPIRA ALIVIADO)

STEPHANENKO: -(SORRI) Eu menti.

Fade to black.

Som da serra e dos gritos de Mulder.


Fade up.

FBI Divisão de Crimes Violentos –5:20 P.M.

Donald entra na sala. Lewis ao telefone faz sinal pra ele.

LEWIS: - Só um momento, senhora Arent... (PÕE A MÃO NO TELEFONE) Don, já recebemos centenas de ligações, mas tem uma mulher aqui que parece saber o que diz. Ela afirma ter visto Stephanenko, conheceu ele pela foto no noticiário. Disse que ele estava com uma criança no carro, uma menininha de pouco mais de um ano. Parou num posto de combustível e comprou chocolates. Chamou a atenção dela porque ele tem traços índios e Victoria nem sequer é parecida.

Donald pega o telefone.

DONALD: - Aqui é o agente Mallet, senhora...

LEWIS: - Arent.

DONALD: - Senhora Arent. Onde e quando viu o suspeito?... Certo, num posto de combustível, sexta-feira à noite... Por acaso lembra-se do número da placa, pra onde o carro estava indo? ... Na direção de Blasktone, pela 460? Certo... Um Ford Taurus azul escuro... (OLHA PRA LEWIS/ TAPA O FONE) Cheque o carro de Mulder. (VOLTA AO FONE) Tinha placa federal, lembra-se disso? Não tinha... Ok, não era um carro do FBI...

Lewis vai anotando tudo.


BLOCO 4:

Local ignorado - 5:27 P.M.

Câmera de aproximação pelo chão sujo e pelas baratas que andam por ali, alimentando-se dos restos de gordura e carne humana.

Mulder deitado numa poça de sangue. Uma tira de pano, empapada de sangue ao redor de sua coxa. Mulder não mais consegue manter os olhos abertos, entorpecido de dor.

Scully esfrega os pulsos, tentando afrouxar o nó.

SCULLY: - Mulder, resista, Mulder... Por favor, não feche os olhos!!!

Scully angustiada continua esfregando os pulsos. No desespero ela puxa as mãos, os pulsos já em feridas. Ela mantém os olhos em Mulder e morde os lábios segurando a dor. Continua a esfregar os pulsos.

SCULLY: - Mulder, seu desgraçado, se você ficar acordado... Quando sairmos dessa eu prometo que levo você pra um motel e faço todas as loucuras que você me propuser, mas fica vivo, Mulder!!!!!

Mulder tenta abrir os olhos, mas desmaia.


6:01 P.M.

Victoria sentada na sala semi-escura com beiço enorme. Engatinha até a porta.

VICTORIA: - (COMEÇA A CHORAR) Papai!!!!!!!!

A porta se abre. Stephanenko olha pra ela.

STEPHANENKO: - O que você quer, hein?

VICTORIA: - Papai. Qué papai.

STEPHANENKO: - Seu pai está ocupado. Vou dar um brinquedo pra você passar o tempo. Se mate com isso.

Stephanenko entrega a faca afiada pra Victoria e fecha a porta. Victoria olha curiosa pra faca. Mira a faca entre os olhos, observando. Morde o cabo da faca. Bate com a faca no chão, sem ver o perigo. Acha engraçado ver o seu reflexo na lâmina.


6:34 P.M.

Scully cai ao chão. Olha pra corda acima dela. Olha pra Mulder, desmaiado.

SCULLY: - Eu vou salvar a gente, Mulder.

Rapidamente ela corre até a janela. Olha pra porta, nervosa. Começa a empurrar um tonel vazio, lentamente, sem fazer barulho. Os pulsos dela completamente machucados e sangrando. Scully consegue subir no tonel. Observa pela janela.

Os trilhos de trem abandonados. Algumas empilhadeiras velhas e enferrujadas perto de um galpão. Plantações de grãos ao longe, revelando ser um local distante da cidade. Um silo velho, ao longe, próximo à estrada.

Scully começa a passar o corpo pela pequena janela. Percebe que a altura é grande, mas o desespero é maior. Scully arregala os olhos, sentindo que está sendo puxada pra dentro. Ela tenta se agarrar nas bordas da janela.

SCULLY: - (AOS GRITOS/ DESESPERADA) Alguém me ajude por favor!!!!! Socorro!!!!! Socorro!!!!!!

Stephanenko puxa Scully pelas pernas. Scully se agarra na janela, tentando acertar o rosto dele com as pernas. Stephanenko a puxa com força. Scully cai por cima do tonel. Stephanenko a ergue pelos cabelos.

STEPHANENKO: - Sua vaca fujona, o que pensa que ia fazer, hein?

SCULLY: -Tomar ar... Está quente aqui dentro.

STEPHANENKO: - (PUXA A NAVALHA) E vai ficar mais quente ainda...

Stephanenko mete tapas fortes em Scully, a segurando pelos cabelos. Scully tenta se defender de unhas, tapas e pontapés. Consegue sair correndo pra fora do cômodo.

Corte.


Scully percebe que está dentro de um enorme matadouro. Ganchos espalhados pelo lugar, esteiras velhas e máquinas de moagem. Scully arregala os olhos ao ver corpos de prostitutas, ainda frescos e outros já em decomposição, pendurados por partes como carne bovina em ganchos, completamente sem peles, cobertos por celofane. Ela corre feito doida por entre os corpos, tentando fugir do assassino.

Close nos pés descalços de Scully, correndo entre o sangue que pinga de alguns corpos frescos. Scully escorrega no sangue e cai no chão. Levanta-se, suja de sangue e continua fugindo.

Stephanenko atrás dela. Scully se abaixa, correndo fora da visibilidade dele e se escondendo atrás de um amontoado de lonas e caixas.

STEPHANENKO: - Você não tem como escapar. (ABRE A NAVALHA) Não há saída daqui. (SORRI) Sabe a sensação de ardência que tem a navalha na carne? É a sensação da redenção.

Scully, respiração tensa e cansada, olhos azuis assustados, espiando pelas caixas. Percebe as pernas de Stephanenko caminhando ao lado da esteira, com a navalha afiada na mão.

STEPHANENKO: - (GRITA) Eu sei aonde você está. Vou arrancar sua pele enquanto está viva!

SCULLY: - ... (CONTENDO A RESPIRAÇÃO PRA NÃO FAZER BARULHO)

STEPHANENKO: -Quando eu pegar você, cadela, não vai sobrar pedaço seu pra contar a história, vaca do FBI. Vou sangrar você como sangrei a mulher do seu irmão. Você vai sangrar e gritar feito uma porca enquanto enforco você com suas próprias tripas!

SCULLY: - ... (PERCEBE A PILHA DE PELES HUMANAS A SEU LADO/ LEVA A MÃO À BOCA/ OLHOS EM LÁGRIMAS)

STEPHANENKO: - (CANTANDO) Shout, shout, let it all out... These are the things I can do without... Come on, I'm talking to you... (GRITA) Come on!!!!!!!!!!!

Scully fecha os olhos. Acena negativamente com a cabeça. Stephanenko passa por ela. Para em frente a Scully. Brinca com os dedos no cabo da navalha.

SCULLY: - (TENSA/ CORAÇÃO PULSANDO FORTE/ OLHOS NA NAVALHA)

STEPHANENKO: - (CANTANDO) Shout, shout, let it all out... These are the things I can do without... Come on, I'm talking to you, come on... Vadia!!!

Scully põe as mãos na boca. Respiração ofegante. Stephanenko segue. Scully segura o choro.

SCULLY: - (MURMURA PRA SI MESMA) Me ajuda, por favor, me ajuda... Eu sei que está aqui, se me quer tanto, me ajuda... Por favor, me ajuda...

Stephanenko vira-se rapidamente, atraído por um barulho. Scully fecha os olhos. Stephanenko passa por ela. Percebe a porta de um cômodo aberta. Desconfiado caminha até a porta. Scully abre os olhos. Vê Victoria engatinhando pelo lugar. Põe as mãos na boca, acenando negativamente com a cabeça.

SCULLY: - (MURMURA) Não, Docinho... Volta pra lá. Volta pra lá! Desgraçado, não use a minha filha pra isso!

Stephanenko vê Victoria. Victoria persegue um rato. Olha pra Stephanenko. Aponta pro rato, sorrindo.

VICTORIA: - Ickey, tio! Ickey!

Stephanenko começa a rir.

STEPHANENKO: - Você não tem sossego, não é cordeirinho? Por um instante achei que eu tinha encontrado sua mãe fujona. Mas quer ver ela aparecer rapidinho?

Stephanenko pega Victoria no colo. Afaga o rosto dela com a navalha.

STEPHANENKO: - Ok, vaca, saia de onde está ou vou destrinchar sua cria aqui mesmo, na sua frente. É claro, se é que você se importa com ela.

SCULLY: - (FECHA OS OLHOS) ...

STEPHANENKO: - Acho que não.

Scully sai do meio das caixas.

SCULLY: - (AOS GRITOS) Solta ela! Eu me entrego, mas solta ela!

STEPHANENKO: - É só uma criança, um atrapalho que não tem utilidade pra nada.

SCULLY: - (AOS GRITOS/ CHORANDO DESESPERADA) Pelo amor de Deus, faz o que quiser comigo, mas não toca na minha filha!

VICTORIA: - (SORRI) Mama!

Scully cai de joelhos ao chão, chorando. Stephanenko coloca Victoria no chão. Aproxima-se de Scully. A pega pelos cabelos, levando-a de volta ao outro cômodo.

Victoria, entretida com o monte de bugigangas pelo local, não presta atenção em nada. Observa os pedaços de corpos pendurados, o sangue no chão. Curiosa, engatinha por baixo deles, entre o sangue, olhando pra cima.

Corte.


Stephanenko arrasta Scully pelos cabelos. Joga-a contra a parede. Scully dá com o rosto contra a parede, caindo deitada no chão, gemendo. Mulder se acorda, meio tonto. Stephanenko começa a chutar Scully. Mulder arregala os olhos aos gritos. Stephanenko agarra Scully e mete a navalha no pescoço dela. Scully soluça, chorando, cabelos revirados.

STEPHANENKO: - Seu outro erro foi ter entrado pro FBI. Você podia ter sido alguém de verdade, mas preferiu trabalhar pro sistema! Eu vou cortar a garganta dela!!!!!!!!

MULDER: - (CANSADO) ... Eu... Eu pago.

SCULLY: - Nãooooo!!!!!!!!!!! (CHORANDO) Mulder não!! Vamos morrer de qualquer jeito, ele não vai nos deixar vivos! Não caia no jogo dele!!!!! Ele só quer retaliá-lo vivo!!!!!!!

Stephanenko atira Scully contra a parede. Scully bate a cabeça e cai ao chão, tonta. Ele agacha-se ao lado de Mulder, passando a navalha em seu rosto. Scully, os olhos parados, observa sem conseguir reagir, paralisada de tontura e medo.

STEPHANENKO: - Ela não vale isso.

MULDER: - Eu dou minha vida em troca da vida dela e da minha filha. Solte as duas, por favor. E faça o que quiser comigo. Eu não vou reagir, eu prometo.

STEPHANENKO: -Posso entender o que sente por sua filha. Mas me faça entender porque faz isso depois de tudo o que essa cadela vadia da sua mulher fez contra você. Eu sei que fez, porque venho observando você há muito tempo...

MULDER: - Você não pode entender o que é o amor.

STEPHANENKO: -Bem, amor é um preço muito mais alto. Tem certeza? Scully é apenas mais uma cadela. Existem outras melhores do que ela.

MULDER: - Não pra mim.

SCULLY: - (GRITA/ CHORANDO) Mulder, ele vai nos matar!!! Deixe que acabe logo com isso e pare de torturar você!!! Não vamos sair vivos daqui!!!!

MULDER: - Ele me prometeu soltar vocês.

SCULLY: - Como pode acreditar nesse doente?

MULDER: - É a única esperança de que vocês saiam vivas. Me deixe acreditar nela.

SCULLY: - (AOS GRITOS) Me mata de uma vez seu desgraçado!!!! Acaba logo comigo!!!!!!!!

STEPHANENKO: - (DEBOCHADO) Tem certeza, Mulder?

MULDER: - Eu pago. Já disse que pago.

STEPHANENKO: - Sabe como se tira o couro de um cordeiro? Você o pendura pelas patas traseiras e corta a pele rente a todas as patas. Faz uma incisão central entre as pernas e depois vem puxando a pele lentamente, até que só fique a carne...

Fade to black.

Gritos de Mulder.

Silêncio.

Gritos de Scully.


Fade up.

Rodovia 49 - Virginia - 9:16 P.M.

Donald dirige o carro. Passa pelo silo abandonado na beira da estrada. Olha para o matadouro abandonado. Olha pelo retrovisor do carro. Para o carro na beira da estrada. Desce, com ar de quem desconfia de algo. Olha para o céu estrelado. Olha para o silo. Olha para o matadouro. Olha para o silo.

DONALD: -(PENSATIVO) Não... Ele já usou um silo uma vez, não usaria de novo... Um silo... Um matadouro... Campo... Ar... Nenhum estupro nas vítimas anteriores ocorreu com o órgão genital, o que sugere que ele não queira tocar nelas, tem nojo delas, odeia mulheres, portanto deve gostar de homens... Um silo... Símbolo fálico representando o pai. Matadouro... A opressão materna. Ar... Mulder!

Donald volta correndo pro carro.


9:18 P.M.

Scully chora, rosto virado para o lado, deitada sobre a esteira. Anzóis presos ao corpo em linhas de pesca, amarradas ao teto, mantendo a pele esticada, de forma que ela não possa se mover sem ter partes do corpo arrancadas.

Stephanenko rindo alto, parado, observando alguma coisa, de costas pra câmera.

STEPHANENKO: - Entendeu agora o que é dor, Mulder?

MULDER: - ...

STEPHANENKO: - Preciso fazer algumas coisas. Depois eu arranco a sua pele.

Stephanenko se afasta, revelando Mulder desmaiado, pendurado pelos pés em ganchos, como um animal de pernas abertas. Cabeça para baixo, a pele cortada nos pés e pulsos. O sangue pinga no chão. Scully não tem coragem de olhar, mantendo o rosto virado.

SCULLY: - (CHORANDO/ DESESPERADA) Fala comigo!

MULDER: - ...

SCULLY: - (CHORANDO/ DESESPERADA) Me ajude!!!! Não deixa ele morrer, por favor, não deixa, eu faço o que você quiser, mas não deixa ele morrer!!!!! Mulder!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

MULDER: - ...

SCULLY: - (CHORANDO/ DESESPERADA) Me diz que está vivo!!! Me diz!!!!!!!!!!!!!

Scully grita histérica.

Corte.


Donald desce do carro, atraído pelos gritos. Puxa a arma do coldre. Aproxima-se do prédio, observando pelas janelas quebradas. Vê Scully. Donald rapidamente chuta a porta, mirando a arma pelo lugar. Entra, receoso, olhando pra todos os lados. Ao ver Mulder, Donald põe a mão na boca, quase vomitando. Vira o rosto. Vê Scully. Corre até ela. Tenta tirar um dos anzóis, mas Scully chora desesperada aos gritos de dor. Donald puxa o celular. Aperta uma tecla.

DONALD: -(AO CELULAR) ... Lewis, sou eu! Encontrei Mulder e Scully, solicito reforços e uma ambulância. Eu estou perto da rodovia...

Close no taco de beisebol que acerta Donald na cabeça. Donald cai ao chão, tonto. Num reflexo rápido, tenta pegar a arma que foi arremessada junto com o celular pra baixo da esteira onde está Scully. Stephanenko chuta o rim de Donald, que solta um grito, recolhendo a mão e se contorcendo no chão. Stephanenko começa a chutar Donald.

DONALD: - (AOS GRITOS/ OLHANDO PRO CELULAR) Perto do silo!!!!!! 49!!!! 49!!!!

Stephanenko com ódio acerta uma pancada tão forte que faz espirrar sangue da cabeça de Donald, que fica inconsciente.

STEPHANENKO: - Menosprezei sua inteligência, agente Mallet. Você não é cordeiro e burro como eu pensava. Você foi o melhor discípulo do mestre. Mas não vai salvá-lo do martírio da sua redenção. Nem se negá-lo por três vezes, eu vou poupar você da honra de morrer com ele.


FBI – Gabinete do Diretor-Assistente Kersh - 9:45 P.M.

Diana Fowley parada ali, Lewis nervoso. Kersh aponta o dedo na cara de Lewis.

KERSH: - (GRITA) O que está acontecendo é que tem um agente dos meus desaparecido por causa das confusões que Mulder arranja dentro desse bureau! Novamente o protegido do Skinner arruma encrencas por aqui colocando em risco um dos meus melhores agentes! Se algo acontecer com Mallet, eu mesmo farei a cabeça de Skinner no gabinete do diretor, me entendeu?

Lewis olha pra Diana com censura.

LEWIS: - Só achei que devia comunicar ao diretor Skinner sobre o que está acontecendo.

KERSH: - Se pegar esse telefone e avisar Skinner, considere-se expulso do FBI. Skinner nada tem a ver com esse caso, e quando voltar que se entenda com Carter. Agente Fowley, quero você nessa investigação.

LEWIS: - Senhor, ela não está por dentro do caso e...

KERSH: - Você se chama Fowley?

Lewis abaixa a cabeça.

DIANA FOWLEY: - Vamos voltar as investigações para os assassinatos, senhor, é o que eu tenho a recomendar. Ele pode fazer mais vítimas.

LEWIS: - Não pode fazer isso! Sabemos o perfil do maníaco, ele já matou as vítimas que precisava! Temos que encontrar nossos parceiros, isso é a prioridade. Donald falou alguma coisa...

KERSH: - Tire já o seu traseiro gordo da minha sala, agente Lewis! Está fora do caso! Uma semana de suspensão por insubordinação!

Lewis sai nervoso.


10:11 P.M.

[Som: Tears for Fears - Shout]

Stephanenko afia a faca de caça no esmeril. Algumas vezes observa sua "obra de arte". Olha pra Donald, amordaçado e amarrado num cano, sentado, cabeça sangrando e olhando assustado para o mural de corpos.

STEPHANENKO: - Não há espaço para você nessa tela. Mas não quer dizer que não precise da redenção.

DONALD: - mmmmm

Stephanenko sai da sala, com a faca. Donald tenta se soltar. Stephanenko friamente caminha até o outro cômodo. Mulder permanece pendurado de cabeça para baixo. Scully ainda deitada na esteira, presa com os anzóis em fios de náilon, arregala os olhos.

SCULLY: -(ACENA NEGATIVAMENTE COM A CABEÇA) Não...

Stephanenko se aproxima dela com a faca. Scully fecha os olhos, resignada. Stephanenko corta os fios de náilon. Scully olha pra ele.

STEPHANENKO: - Se conseguir tirar esses anzóis do corpo em menos de 30 segundos, eu não esfolo o seu marido vivo.

Scully senta-se rapidamente na esteira, arrancando os anzóis aos gritos, desesperada, olhando pra Stephanenko que mantém a faca na parte interna da coxa de Mulder. Stephanenko observa o relógio. Scully consegue tirar os anzóis, algumas vezes arrancando a pele, deixando o sangue escorrer. A dor é tanta que ela fica tonta. Stephanenko sorri.

STEPHANENKO: - Boa menina... Eu sou um cara de promessa. Não vou tirar a pele dele.

SCULLY: - (ALIVIADA)

STEPHANENKO: - Vou tirar isso. Lembra de Jack, o estripador?

Stephanenko afunda a faca na barriga de Mulder que solta um urro de dor. Scully grita desesperada, se avançando em Stephanenko que retira a faca rapidamente. Acerta o cabo da faca no olho de Scully que cai tonta no chão. Ele a chuta, até Scully ficar sem forças e jogada num canto, olhos semi-abertos, sem brilho. Stephanenko olha pra Mulder e pro sangue que escorre ao chão.

STEPHANENKO: - Boa viagem, Mulder. Você teve a chance de se arrepender, mas não quis. Agora vai sangrar feito um porco.

Stephanenko desce o corpo de Mulder, o estatelando no chão. Observa a faca.

STEPHANENKO: - Grande demais para o serviço...

Stephanenko vai para o outro cômodo. Scully chora olhando pra Mulder. Arrasta-se até ele, a poça de sangue ao redor de Mulder aumenta. Scully toma o pulso dele. O pavor toma conta dela.

SCULLY: - (CHORANDO/ HISTÉRICA) Nãoooooooo, Mulder, nãoooooooo!!!!!!


Delegacia de Polícia – Precinto 11 - Washington D.C. - 10:16 P.M.

Krycek sai da delegacia. Entra no carro de Lewis.

LEWIS: - Me tiraram do caso. Quero encontrar meu parceiro. Acho que Stephanenko o pegou.

KRYCEK: - Consegui fazer a identificação do que não ouvimos na gravação. Seu parceiro é esperto. Ele gritava as palavras 'silo' e '49'. Tem um mapa?

LEWIS: - No porta luvas.

KRYCEK: - (ABRE O PORTA LUVAS/ PEGA O MAPA) Precisamos encontrar uma rodovia 49 na Virginia. Pode ser algum armazém, mas meu palpite por causa da palavra silo é que ele falava sobre algum lugar fora da cidade, no campo.

LEWIS: -(ESMURRA O VOLANTE) Odeio aquela Diana Fowley!

KRYCEK: - Bem vindo à lista!

O policial se aproxima do carro.

POLICIAL: - Detetive Checov, peço apoio ao pessoal para bloquear as estradas? A polícia da Virgínia concordou.

KRYCEK: -(OLHANDO O MAPA) ... Ah céus!

LEWIS: - O que foi? Existe a rodovia 49?

KRYCEK: - ... Existe. E passa num condado chamado Victoria. O nome da filha de Mulder! (ESMURRA O MAPA) Filho da mãe, a pista do esconderijo estava na nossa cara esse tempo todo! (OLHA PRO POLICIAL) Peça ao pessoal em Victoria para fechar as estradas e varrer qualquer fazenda que tenha silos nas proximidades da rodovia 49. Estou indo pra lá com o FBI.


10:21 P.M.

Scully sentada ao lado de Mulder. O rosto e corpo sujos com o sangue dele. Olhar parado, sem reação, olhos inchados e vermelhos fitando o corpo do parceiro. Scully passa a mão no rosto dele com carinho, mordendo os lábios e começando a chorar novamente.

Stephanenko aproxima-se com uma faca menor. A ergue sobre a barriga de Mulder.

SCULLY: - (OLHOS PARADOS/ DERRUBANDO LÁGRIMAS) Ele já está morto... Por que não o deixa em paz e acaba comigo?

STEPHANENKO: - (ABAIXA A FACA E OLHA PRA ELA) Acha que matarei você? Não, eu não vou mata-la.

SCULLY: - ???

STEPHANENKO: - Você vai viver com a culpa dele ter morrido em seu lugar.

SCULLY: - (CHORANDO) ...

STEPHANENKO: - Como é saber que ele sofreu mutilações enquanto vivo apenas para salvar você? Pode imaginar a dor que ele sentiu? Agora você também sabe o que é dor.

SCULLY: - (CHORANDO/ CULPADA) Eu não merecia!!!

STEPHANENKO: -Eu sei que você não merecia. Mas Mulder teve o livre-arbítrio de voltar atrás das coisas que fez. Se quis morrer por uma vadia, problema dele.

SCULLY: - (CULPADA/ CHORANDO/ PUXANDO OS CABELOS) ...

STEPHANENKO: - Concorda comigo que ele foi estúpido? Um cordeiro estúpido? Poderia estar vivo, mas preferiu sofrer na carne a deixar que eu machucasse você... Viva, Dana Scully. Viva com essa culpa. A culpa purifica o espírito. Mulder está liberto. E você também. Assim que eu terminar de cortar Mulder, eu vou levar você pra casa. E até encontrar este lugar com seus amigos do FBI eu já estarei longe.

Scully olha incrédula pra ele.

STEPHANENKO: - Surpresa? Eu tenho palavra. Não vou sujar minhas mãos com uma vadia como você que não é digna nem da morte. Viva com a sua culpa, Dana Scully. Desejo que viva muitos anos! Você vai lembrar de mim quando tiver que encarar sua filha e dizer que o pai dela morreu por culpa da vadia da mamãezinha. Como minha mãe me encarou nos olhos quando disse isso. Com sorte, sua filha a matará, assim como eu matei a minha mãe. E com mais sorte, ela será uma assassina bem melhor do que eu. Ela tem os genes inteligentes do pai e a revolta contra a vadia da mãe dela. Combinação perfeita para ser um lobo.

SCULLY: - (PERTURBADA/ CHORANDO) ...

STEPHANENKO: - A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a Raposa. Aliás, a Raposa sabia das coisas que cativara. Só e apenas ela sabia. Sabia que os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas, mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Mas algumas vezes eles conseguem e não sabem dar valor ao que tem. Se tu queres um amigo, cativa-me, implorou a raposa. Mas Dana Scully não conseguia entender. O que é preciso fazer? Perguntou Scully. É preciso ser paciente, respondeu Stephanenko. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, aí no canto, olhando para seus pecados materializados no corpo morto do seu marido. E eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, a cada dia, te sentarás mais perto de mim e da loucura.

Stephanenko ergue a faca sobre a barriga de Mulder. Scully fecha os olhos.

Barulhos.

Stephanenko olha para Victoria que vem engatinhando. Abaixa a faca.

STEPHANENKO: - Pegue a sua cria e dê o fora daqui. Mas se quiser assistir, vou buscar a serra.

Stephanenko sai da sala. Scully chora, culpada. Victoria olha pra Mulder.

VICTORIA: -(SORRI) Papai, o ickey papou o colate da Vic...

Scully franze o cenho chorando mais ainda. Victoria, sem obter resposta, se deita ao lado de Mulder, puxando o nariz dele.

VICTORIA: - Ox! Ox! Coda papai!!! Coda!!!

Victoria senta-se. Faz beiço. Cutuca Mulder, sem ter resposta. Olha pra Scully, que está chorando com as mãos no rosto. Olha pra Mulder. Olha pro sangue. Percebe o corte na barriga de Mulder. Franze o cenho, olhando pra Scully.

VICTORIA: - Papai?

SCULLY: - (ACENA NEGATIVAMENTE COM A CABEÇA/ CHORANDO) Ele está morto, Docinho...

VICTORIA: - (OLHA PRA MULDER) Dodói? Orto?

Scully observa Victoria fazer carinhos nos cabelos de Mulder. Não consegue reagir. Chora por ver a cena. Victoria põe as mãos sobre Mulder. Fecha os olhinhos. Scully abaixa a cabeça, chorando mais ainda.

Stephanenko volta trazendo a serra. Ao ver Victoria a pega pelas roupas.

STEPHANENKO: - Você não para quieta mesmo.

VICTORIA: - (OLHANDO PRA ELE NUM BEIÇO)

Stephanenko a coloca sobre a esteira. Olha nos olhos dela.

STEPHANENKO: - Você tem opção. Eu te dou uma escolha. Espero que seja mais esperta do que seu pai foi.

VICTORIA: - (SORRI) Es... espeta!

Scully vira o rosto.

SCULLY: - (CHORANDO/ IMPLORANDO) Não a minha filha, por favor, não a minha filha!!!

STEPHANENKO: - Gosto de você, espremer seu pescocinho seria covardia. Você vai me ajudar a esfolar e destrinchar o seu pai e depois... Quem sabe a gente se livra da sua mãe vagabunda? Quer ir embora com o titio? Posso ensinar muitas coisas pra você. Juntos mataremos mais.

Victoria fica séria olhando fixamente para Stephanenko.

STEPHANENKO: - Diz pro titio. Mato ou não a mamãe? Ela abandonou você mesmo!

Victoria continua séria, olhando fixamente para Stephanenko. As retinas dela ficam cor de fogo. Stephanenko fica imóvel, olhando pra ela, sem conseguir desgrudar os olhos.

STEPHANENKO: - (ASSUSTADO) O que diabos você é?

Scully ergue o rosto olhando pra eles. Dos olhos de Stephanenko começam a escorrer sangue. Victoria olha fixamente pra ele. Stephanenko começa a gritar. O sangue se esvai pelas orelhas e nariz. A fisionomia de Scully se transforma de desespero em incredulidade. Stephanenko leva as mãos às orelhas, aos gritos, sem conseguir sair do lugar e desviar os olhos de Victoria.

Close nos olhos incrédulos de Scully e no grito de pavor quando a cabeça de Stephanenko explode soltando pedaços pra todo o lado. Scully recua contra a parede olhando com medo pra Victoria. Victoria fecha os olhos. Abre-os. Retinas normais. Ela desce da esteira, atrapalhada, caindo sentada no chão. Engatinha até Mulder. Põe as mãos sobre a barriga dele. Scully parece fora de si, como quem surta em loucura, olhando pra filha e pro corte na barriga de Mulder que se cicatriza aos poucos. Victoria deita-se do lado de Mulder, se aninhando contra Mulder, pondo a mãozinha no peito dele. Mulder abre os olhos. Ergue-se como quem busca ar. Olha pra Victoria, tenso. Olha pra Scully. Olha para os restos de Stephanenko sem entender nada. Scully fecha os olhos, chorando e rindo. Mulder olha pra Victoria, que põe as mãos no rosto.

VICTORIA: -(ENVERGONHADA) Agola foi Vic, papai...


2:36 A.M.

Carros de polícia pelo lugar. Ambulância. Donald sentado na ambulância, com uma bolsa de gelo na cabeça, observa Lewis que se aproxima.

LEWIS: - O lugar é um matadouro. Até agora encontramos 33 corpos.

DONALD: - É, a polícia do estado vai poder fazer uma limpa nos casos arquivados de pessoas desaparecidas. E o Checov, que não é Checov?

LEWIS: -Ele me ajudou a encontrar você. Como está, parceiro?

DONALD: - Sobrevivi... Obrigado parceiro. Se você não tivesse gravado a ligação eu estaria em companhia dos anjos agora. Devo mais que um donuts pra você.

Lewis sorri. Olha pra Mulder, que anda de um lado pra outro, só de calças, coberto de sangue, sem entender nada.

LEWIS: - O que houve com ele?

DONALD: -Quando me viu, me abraçou como se eu fosse um herói... Mulder está abalado, não é por menos. Acho que vai ser difícil colocar os parafusos no lugar. Mas não importa, Mulder nunca teve os parafusos no lugar mesmo. Ele vai ficar bem.

Krycek se aproxima de Mulder, com as mãos nos bolsos da jaqueta. Mulder continua andando de um lado para o outro, perturbado, angustiado e perdido.Olha pra ele.

KRYCEK: - Você é o rei da confusão, Fox Mulder. Será que terei de passar o resto da vida tirando você de encrencas?

Mulder se abraça em Krycek. Krycek fica sem jeito. Mulder começa a chorar. Krycek, ainda deslocado, tira as mãos dos bolsos e devolve o abraço.

KRYCEK: - Vai ficar tudo bem, Mulder. Vai ficar tudo bem...

Donald olha pra eles. Lewis também.

DONALD: - Lewis... Eu juro que ouvi Scully gritando na outra sala que Mulder estava morto.

LEWIS: - Como assim?

DONALD: - Ela é médica. Não ia se enganar... Se quer saber, acho que esse caso vai para os Arquivos X. E é melhor que fique lá. Mulder e Scully vão proteger melhor esse assunto.

Um carro se aproxima. Diana Fowley desce do carro. Aproxima-se deles, com ar de petulância.

DIANA FOWLEY: - Sabe me explicar o que aconteceu por aqui? Como o assassino teve a cabeça explodida se vocês estavam amarrados e apenas o bebê estava solto? Vão alegar que um bando de policiais e agentes do FBI não serviram pra nada e aquele bebê pegou o assassino?

Donald olha pra Lewis. Lewis segura a raiva. Donald olha pra Mulder. Então olha para Diana.

DONALD: - Eu não fiz meu relatório ainda, agente Fowley. Nele vai constar que eu não estava amarrado, nem inconsciente quando estourei a cabeça do canalha com uma Magnum 44. E acho que você é maluca em pensar que um bebê mataria um homem adulto. Você precisa de férias, não anda bem da cabeça. Isso não é um Arquivo X, isso é um caso da Crimes Violentos.

DIANA FOWLEY: -Tem certeza disso? Aquela criança...

DONALD: - É uma criança comum, agente Fowley. Dormiu e brincou o tempo todo. Como toda a criança normal faz.

Diana Fowley se afasta. Passa por Mulder e Krycek, que viram a cara pra ela.

LEWIS: - Magnum 44? Da onde você tem uma Magnum 44? E você estava amarrado quando Checov e eu chegamos! Don, vai me contar o que aconteceu por aqui?

DONALD: -Vamos embora, parceiro. Durante o caminho, extraoficialmente, eu conto o que ouvi, porque não vi nada. E preciso de ideias para mentir no meu relatório. (OLHA PRA MULDER) Devo muito mais que isso ao meu antigo parceiro.

LEWIS: - Vou ficar com ciúmes.

Os dois riem e seguem em direção ao carro.

Corte.

Mulder sentado na relva, ainda coberto de sangue, observa ao longe os policiais trabalhando. Victoria ao lado dele, brincando com a carteira de Mulder, derrubando moedas na grama. Scully aproxima-se, enrolada num lençol branco, também repleta de sangue, sentando-se ao lado de Victoria. Observa os policias também.

MULDER: - ... (PENSATIVO/ TENTANDO ENTENDER)

SCULLY: - ... Por que sofreu por mim?

Victoria observa os dois, alternando o olhar entre eles.

MULDER: - ... Quando eu falava que queria fisgar você como sereia, não era bem desse jeito. Tá doendo muito?

SCULLY: - ... Vai cicatrizar rápido. O mais difícil de esconder é o olho roxo.

Mulder leva a mão ao rosto dela. Scully fecha os olhos. Victoria abre um sorriso olhando em expectativa. Mulder beija o olho machucado de Scully. Olha pra ela num sorriso.

MULDER: - Agora vai curar.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Hum, "boca santa", você também cura hemorroidas?

VICTORIA: - Roidas...

MULDER: - Epa, papagaio!

SCULLY: - (RINDO) Filha!

MULDER: - Que mania de repetir tudo o que os adultos dizem! Isso é feio, seu pai não te dá educação não?

VICTORIA: - (RINDO) Nahhhh!!!!!!

SCULLY: - (RINDO) ...

MULDER: - (OLHA PRA SCULLY) Se preciso fosse, eu morreria por você.

SCULLY: -Eu sei. (MORDE OS LÁBIOS/ SEGURANDO AS LÁGRIMAS) Eu sei que morreria.

MULDER: - (MAGOADO) Não sabe não. Aposto que se eu tivesse morrido lá dentro, você nem iria sentir minha falta. Nem ia derrubar uma lágrima. Não entendo como fiquei vivo...

SCULLY: -Você morreu, Mulder.

Victoria continua observando os dois.

MULDER: - (SÉRIO/ INVOCADO) Ah, sim, eu morri. Tá certo. Eu tô morto, mas me explica como todos vieram falar comigo?

Scully começa a rir entre lágrimas. Risos de felicidade.

MULDER: - (INDIGNADO) E ainda ri da minha cara!

Victoria solta uma gargalhada alta. Mulder olha pra ela incrédulo.

MULDER: - Até tu, Brutus?

Scully e Victoria riem dele.

MULDER: - (INVOCADO) Ah sim... As duas agora vão ficar aí nessa grama olhando pra minha cara e rindo! Depois de tudo o que eu passei!

As duas se olham, segurando o riso.

MULDER: -E-eu tô confuso... Eu... O que aconteceu lá? O que viu, Scully?

Scully fica em silêncio. Mulder se levanta e sai indignado. Scully o acompanha com os olhos.

SCULLY: - O que eu vi? A mais bela das verdades... (ABAIXA A CABEÇA DERRUBANDO LÁGRIMAS) Eu vi o verdadeiro monstro que eu temia.

Victoria olha pra ela. Scully olha por baixo dos cabelos, pra Victoria. Afaga com carinho os cabelinhos dela.

SCULLY: - Há um monstro aqui. E esse monstro é a sua mãe, que não merece piedade alguma. Pior monstro do que aquele homem lá dentro. Ele tirou vidas. Eu matei almas.

Victoria entrega uma flor pra ela. Scully sorri. Passa as mãos no rostinho da filha.

SCULLY: - Eu descobri que existe uma outra realidade, meu Docinho, não tão boa aos olhos e muitas vezes, a gente tem que machucar as pessoas que amamos para protegê-las. Algumas coisas ruins estão ao seu lado o tempo todo, mesmo que você não possa vê-las. E você precisa deixa-las ao seu lado para que elas não machuquem quem você ama e não machuquem mais ainda você.

Scully perde os olhos no nada.

SCULLY: - (DIVAGANDO) E essas coisas estão sempre ao seu lado ou dentro de você, outras vezes estão longe e você consegue ser feliz por algum tempo... Então elas voltam... Atacando você. Tomando você. E você não pode fazer nada. A não ser o que elas querem.

VICTORIA: - (ERGUE UMA MOEDA CONFIRMANDO)

Scully olha pra Victoria. Olha pra moeda.



X

26/11/2002

18 de Outubro de 2019 às 21:58 0 Denunciar Insira 1
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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