As cinzas de Altivez Seguir história

jufeliz Juliana Feliz

Ordália é um mundo muito parecido com o nosso, mas também diferente. Em uma sociedade campestre, militarizada e autoritária, em que a Ordem de Verus tem poder absoluto, as pessoas vivem sob o domínio de regras bastante rígidas, transmitidas desde cedo pela família e reforçadas na escola, que fundamenta os ensinamentos no Ordalium, o Livro Intocável. Ao completar 19 anos, cada jovem tem seu futuro definido como manda o gênero, a linhagem e principalmente os interesses do sistema. O aniversário de Ariadne Ventura está próximo e ela também não terá a chance de escolher o próprio destino. A garota sensitiva de olhos controversos vive em Miraluz, um vilarejo onde a névoa é eterna e os costumes levados à risca. Ao investigar o desaparecimento de Corina Sanchez, uma antiga aluna do Educandário Lucidez, ela chama a atenção do professor Richard Expósito, que mudará sua jornada depois de um encontro secreto. A atmosfera de mistério do enredo captura o leitor para o desfecho de uma trama repleta de fantasia, aventura e fenômenos mágicos. * Vencedor do Prêmio Wattys na categoria HERÓIS - 2018. * Finalista do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica - 2019. Copyright © 2018, Juliana da Costa Feliz. Todos os direitos reservados à autora. Obra registrada na Agência Brasileira do ISBN. Impresso: 978-85-923533-8-4 E-book: 978-85-923533-9-1


Fantasia Todo o público.

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A garota pálida

Ariadne não sentia mais os pés, seu rosto estava lançado à areia turva da praia. O gosto de sangue e o cheiro de dor a invadiam com uma força tétrica. Ao longe via pedras negras e ondas se quebrando bravias. Aquela visão se alternava com a da caixinha de música na penteadeira. A janela tremia em um ritmo cada vez mais acelerado, até que o vento a abriu causando um estrondo. Era ela, outra vez, uma garota pálida como uma estátua de cera perto da porta.

Com o coração agitado, Ariadne a desafiou com o olhar e ordenou que fosse embora; somente assim conseguia se livrar daquela presença perturbadora. Não era a primeira vez que aquilo acontecia com Ariadne. Depois do seu aniversário de 18 anos, as visitas se tornaram mais frequentes. A aparição de vestido cinza e cabelos luminosos surgia como um relâmpago e, depois, desaparecia como o apagar das velas. Após se acalmar, ela se levantou, trançou os cabelos e vestiu o uniforme escolar. Da cozinha, subia o aroma do chá que sua mãe preparava.

- Dormiu bem, filha? - disse Sarah.

- Mais ou menos, ela apareceu de novo - disse enquanto passava geleia no pão.

- Já falei pra não comentar mais sobre isso.

- A diáfana existe. Isso independe de eu falar ou não.

- O silêncio é um manto que nos protege. Quem diz tudo o que quer se arrisca demais - disse colocando a xícara sobre o pires.

- Mas não nascemos para viver a mentira que esperam de nós. Eu vejo, a senhora sabe.

- Eu sei, querida, mas por favor não se exponha sem necessidade.

- Tudo bem. A senhora tem razão em me proteger, mas já faz alguns meses que ela aparece e não sei o que ela quer.

- Acalme-se, isso vai passar.

- Queria me livrar desse fardo, não sei como lidar.

Sarah abraçou a filha e lhe ajeitou a saia que estava desalinhada. Ariadne despediu-se com um beijo no ar e seguiu de bicicleta para o colégio levando os livros e um sanduíche na bolsa de tecido.

Ariadne Ventura tinha os cabelos vibrantes e os olhos raros. Seu nariz era coberto por delicadas sardas, como canela polvilhada numa torta de maçã. As duas moravam sozinhas no sobrado de madeira. O pai de Ariadne morreu quando ela tinha 13 anos; não se sabe se foi a queda da escada ou um ataque do coração. O médico de Miraluz não soube dizer a causa da morte do senhor Ventura. Como a união permitida em Ordália era somente a primeira, Sarah aceitou a viuvez aos 40 ano e se dedicava à filha e ao antiquário que herdou do marido.

Todos os dias, no portão no Educandário Lucidez, os alunos passavam pela vistoria. O inspetor conferia a limpeza do uniforme e se não traziam consigo nada que fosse proibido. Depois, os estudantes iam para o pátio e cantavam o Hino de Ordália. Meninos e meninas ficavam separados, sendo eles na frente e elas atrás. Os professores se posicionavam nas laterais e mostravam a palma da mão na estrofe que exaltava a Tríade Legítima da Ordem de Verus: "Fidelidade, Austeridade e Resignação". Quando a bandeira chegava ao topo do mastro, os alunos iam para as salas de aula.

- Vamos falar agora sobre as ilhas de Ordália. Sem olhar no mapa, quem se lembra quais são elas? - perguntou o professor Richard Expósito.

- Astúria, Alambra, Lamarosa, Baluares e o Arquipélago do Silêncio, formado por quinze ilhas, sendo a maior a Ilha dos Conselhos, onde está a sede principal da Ordem - disse Eduardo.

- Muito bem! É importante lembrarmos de duas ilhas em especial: Baluares e Lamarosa. Todos nós devemos seguir as Leis do Ordalium para termos o merecimento de irmos a Lamarosa depois da morte, onde reina a felicidade eterna.

- Professor, não consigo aceitar que existam os escolhidos e os excluídos - disse Ariadne levantando a mão.

- A senhorita sempre duvidando dos ensinamentos. As verdades estão reveladas no Ordalium, é mais prudente aceitar.

- Já que o Livro Intocável tem todas as respostas, em que página encontramos a explicação sobre o Sol esquisito dessa cidade? - perguntou ela inclinando a cabeça para o lado.

- Lá vem a farolete querendo atrapalhar a aula de novo! Só quem tem um olho de cada cor pra ver dois lados em tudo - disse um aluno do fundo da sala.

Eduardo se levantou e foi até o garoto tomar satisfação pela prima, que encarava o professor com os olhos em brasa. Enquanto isso, o burburinho aumentava como uma corrida na chuva.

- Fiquem quietos! - disse Richard batendo a régua na mesa.

- Senhorita, já está na hora de aprender a respeitar seu professor. E vocês aí no fundo, voltem para seus lugares!

O sino tocou e os alunos saíram como um rebanho quando se abre a cerca. Ariadne esperou a maioria sair, pegou o lanche e se retirou com a cara amarrada. Eduardo a chamou, mas ela deu de ombros.

A aventurada andava pelos canteiros de hortênsias imersa em suas ideias e encontrou um banco para descansar. Dali a pouco, Richard apareceu:

- Posso me sentar ao seu lado?

Ela sinalizou que sim com a cabeça, sem tirar os olhos do sanduíche.

- Sabe que seu nome deveria ser Arredia e não Ariadne? Você é inteligente, poderia se tornar professora de crianças um dia.

- Eu não poderia ocupar essa função, sou intransigente demais, como o senhor vive insinuando para a classe.

- Não vejo razões para dizer isso. Quando eu era da sua idade também tinha dúvidas, mas com o tempo aprendi que a felicidade está na obediência.

- Eu não consigo aceitar sem questionar. Como ensinaria o que não acredito?

- Por que diz isso? - perguntou franzindo a testa.

- Vamos conversar depois, tenho que ir agora.

Richard lhe tocou o ombro e disse antes que se levantasse:

- Podemos ser amigos, se você quiser.

Ariadne olhou desconfiada e saiu hesitante. Ela nunca havia sido abordada com tanta proximidade pelo professor e aquilo lhe causou incômodo. Enquanto caminhava a passos ligeiros, ele a acompanhava com olhos diminutos, até que ela desaparecesse de seu campo de visão.

Richard era um Conselheiro de 33 anos. Deixado em um caixa de tomates em frente ao colégio, foi adotado ainda bebê pelos dirigentes, dedicando-se porto da a vida ao Educandário. O corpo magro e a fala pausada escondiam uma arrogância que se revelava ao ser contestado pelos alunos mais audaciosos de Lucidez.

11 de Outubro de 2019 às 15:50 0 Denunciar Insira 0
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