VORACIDADE MÓRBIDA Seguir história

debrittus Maykow Debrittus

A dor de uma perda será sentida na alma.


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VORACIDADE MÓRBIDA

Fecho meus olhos e consigo voltar à época dos meus quatorze anos, com meus 1,68 altura e 56kg, era um garoto esbanjando saúde, adorava jogar bola com meu irmão gêmeo Leon, éramos muito próximos e sempre estávamos juntos, na escola, no futebol, nas consultas, em casa. Tudo que fazia meu irmão estava ao meu lado, mas naquela manhã de dezembro infelizmente acordei apenas com os gritos dos meus pais.

Era manhã chuvosa de domingo e todos os finais de semana eu e Leon pegávamos nossas bicicletas e íamos até a padaria que ficava a quatro quarteirões da nossa casa, mas naquela manhã não acordei e, para minha surpresa, ele não me chamou. Sempre acordávamos um ao outro para irmos juntos, mas naquele dia foi diferente e essa pergunta sempre ficará na minha memoria. “Por que você não me chamou, Leon? Por quê?”

Meu irmão havia saído para comprar pão e quando estava voltando um garoto tentou roubar sua bicicleta. Leon brigou com o garoto até que este pegou um pedaço de madeira e o atingiu violentamente na cabeça. Ao cair, sofreu nova pancanda na cabeça, desta vez batendo-a no meio fio e ocasionando hemorragia cerebral. Ele morreu ali mesmo, naquela rua que por vezes passamos juntos, brincando e sorrindo.

Meu mundo a partir daquele momento acabou. Sempre chorava e me cobrava o porquê de não ter acordado, se tivesse ido com ele isso não teria acontecido, meu irmão ainda estaria conosco, mas não foi o que eu fiz, e terei que viver com isso pelo resto da minha vida.

— Desculpe Leon, por não ter acordado!

A partir daquele dia nunca mais andei de bicicleta, perdi o gosto por jogar bola, praticar qualquer tipo de esporte e até mesmo de viver, pensei em várias formas de atentar contra minha própria vida, passei a viver por um único motivo, comer. Passei a comer sem parar e com o passar do tempo já me encontrava com excesso de peso, não demorou muito para começar a receber vários apelidos na escola como: gorducho, roliço, redondo, cheio, balofo, barrigudo, inchado, trambolho, repolhudo, de tudo que lembrava gordo passei a ser chamado, alguns nem compreendia direito o significado, mas sabia que tinha a ver com o meu corpo e peso. Nada disso me incomodava, não sentia raiva, ódio ou qualquer coisa parecida quando me chamavam desses nomes, só pensava em qual seria minha próxima refeição.

Meus pais procuraram ajuda médica e depois de algumas visitas ao hospital fui diagnosticado com Depressão e Ansiedade que, no meu caso, se traduzia na necessidade de comer, mesmo quando não tinha fome e estava satisfeito, não queria parar de comer e sempre comia em grandes quantidades.

Os médicos diziam que minha obesidade mórbida era causada por consumo exagerado de alimentos calóricos, sedentarismo e principalmente por distúrbios emocionais, me arrumaram uma psicóloga e uma nutricionista, mas nada disso adiantou! Ou eu não quis dar uma chance ao tratamento, não sei bem, talvez ainda não estivesse me sentindo preparado para enfrentar tudo isso naquele momento.

Com a psicóloga, por vezes entrei calado e saí mudo, não me abria com ela nem com ninguém; com a nutricionista foi mais fácil, assim que ela ia embora atacava a geladeira e comia o que me dava vontade. Passei a comer ainda mais por raiva daquela situação, adorava comer carnes gordurosas, hambúrguer, pizzas, batatas fritas, cachorro quente, sorvete, frango e aperitivos fritos, não importava o horário fosse, se logo ao acordar no café da manhã, no almoço ou no jantar e até na ceia antes de dormir.

Perdi meu pai aos vinte e um anos, mas isso em nada modificou minha forma de conduzir minha vida e continuei nessa incessante vontade de comer, nada me importava a não ser minhas refeições. Já sonhei com meu irmão me perguntando o que estou fazendo da minha vida, porque deixei que isso acontecesse comigo, porque não saio dessa situação e por vezes acordo chorando e logo me empanturro de batatas fritas e outras coisas.

Há alguns anos já não consigo mais levantar da cama e necessito de uma pessoa tomando conta de mim vinte e quatro horas por dia, mas raramente alguém fica mais de um dia no trabalho, pois faço minhas necessidades básicas em cima da cama e sofro com hipotireoidismo, hipertensão arterial, artrite, artrose, cansaço, refluxo, diabetes e uma obstrução pulmonar grave. Quem passou a viver para cuidar de mim foi minha mãe.

Havia alguns anos que não sonhava mais com Leon e ontem tive um sonho tão real que não acreditei, achei que havia morrido. Encontrei-o em um parque e ele estava muito feliz, correu em minha direção e me deu um forte abraço e um beijo na testa, dizendo:

— Você vai conseguir sair dessa situação meu irmão, mas antes preciso dizer algo que deveria ter dito há muito tempo:

— Leon, meu querido e amado irmão!

— Você não teve culpa alguma da minha morte, aquele dia acordei e ao olhar para o lado você estava dormindo como um anjo, não quis acordar você.

— Foi uma decisão minha, queria ir logo e chegar o mais rápido possível.

— Infelizmente aconteceu, poderia ter deixado aquele garoto levar a minha bicicleta, mas pensava no quanto foi difícil para nossos pais comprarem nossas bicicletas e no tanto que as usamos juntos, as alegrias que vivemos ao andar juntos. Resolvi lutar e lutei com todas as minhas forças para que ele não a levasse, até o momento em que ele me acertou, mesmo ao bater a cabeça ainda pude ver quando ele fugiu a pé e sentir uma alegria tão intensa em ter conseguido vencer, finalmente ele havia deixado a bicicleta.

— Lute pela lua vida como eu lutei pela minha bicicleta, os melhores momentos da minha vida passei andando com ela ao seu lado, irmão. Lute e lute com todas as forças.

— Te amo irmão e sempre te amarei.

Acordei aos prantos e minha mãe veio ao meu encontro perguntando o que estava acontecendo, fiquei um tempo sem conseguir responder e quando me recompus contei sobre o sonho, ela sentou ao meu lado e começou a chorar também. A partir daquele momento decidi que iria viver o resto dos meus dias para melhorar minha saúde e combater minha doença, minha mente havia entendido tudo e, meu corpo, este que tanto sofreu durante anos enfrentará uma batalha enorme para ser curado, mas lutarei a cada segundo para controlar minha alimentação.

Não sei se conseguirei voltar a minha vida normal, mas uma coisa é certa, tentarei o máximo que puder, não apenas por mim, mas pelo meu pai, meu irmão e principalmente pela minha mãe que deixou de viver para cuidar de mim.

Cada dia que viver a partir de agora será uma batalha vencida, mas sei que esta guerra está longe de acabar.

8 de Outubro de 2019 às 15:10 1 Denunciar Insira 3
Fim

Conheça o autor

Maykow Debrittus Natural da cidade de Ipatinga, localizada na região leste do estado de Minas Gerais, a 240 km da capital Belo Horizonte. Venho de uma família de quatro irmãos, casado e pai de três filhos. Publiquei meu primeiro livro "Adoção, uma história de Vida”, para homenagear meus filhos, a partir daí passei a escrever por hobby e paixão. Tenho outro livro publicado “O Exercício do Amor – Drama”, participações em revistas, antologias e coletâneas.

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Rodrigo Borges Rodrigo Borges
Poxa, gostei. Consegui captar as emoções que provavelmente você queria que captasse com sua escrita, bom trabalho. Há partes onde palavras são engolidas e letras trocadas, mas são meros detalhes; a mensagem que tinha para passar foi exitosa.
14 de Outubro de 2019 às 18:07
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