A curiosa exposição de Schmidt Seguir história

dissecando Edison Oliveira

O que Franklin Schmidt guarda em suas pequenas caixas de madeira? Entre em sua loja e descubra...


Horror Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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A CURIOSA EXPOSIÇÃO DE SCHMIDT





Franklin Schmidt estava virando a página de sua revista semanal sobre ciência do corpo humano, quando ouviu passos.

Imediatamente seus olhos subiram da revista até a direção do som, e ele se deparou com uma mulher loira. Ela estava com os cabelos soltos, usava salto alto e olhava curiosa em volta. Schmidt achava que ela estava perdida, pois normalmente era neste estado que elas se encontravam quando chegavam diante de sua barraca. As pessoas costumavam atravessar da cidade de Pedra Negra até Marés sem mais problemas, mas desde que as obras de ampliação da rodovia 748 começaram, elas tem encontrado dificuldades para encontrar os atalhos certos. E se você pega o rumo errado por estas bandas, vai acabar se perdendo ou talvez até dando de cara com algum lobo. Schmidt jura que já viu lobos rondando por ali, embora nunca tenha escutado o uivo de nenhum. Ele se pôs de pé assim que a mulher se aproximou um pouco mais, deixando a revista CIÊNCIA E TECNOLOGIA sobre sua pequena mesa, ao lado da xícara vazia de café.

Abriu um pequeno sorriso quando reparou que a jovem o havia notado por ali.

— O senhor é o dono destas coisas? — ela perguntou, girando o dedo indicador em volta.

Schmidt era o dono de quase tudo que estava exposto na sua pequena loja dos horrores ; as cabeças de animais empalhados que observavam do alto da estante haviam sido doadas por um amigo falecido. Elas eram três. Duas eram de cães da raça Pug, e Schmidt dizia que eles pertenceram a Flávio Ricco, seu falecido amigo. A outra cabeça parecia ser a de um cavalo, mas Schmidt jurava de pés juntos que era de uma zebra.

O resto das bugigangas também podia se dizer que pertenciam a ele, ainda mais quando se sabia que pouca coisa ali dentro estava de fato a venda.

— Boa parte disso tudo é meu, sim — disse Schmidt. Apoiou os cotovelos no balcão e olhou mais de perto para o rosto da jovem. Ela não usava batom, e Schmidt havia mudado de opinião ao achá-la uma jovem. Ela deveria ter quase quarenta, talvez beirando a casa dos cinquenta, a idade que Schmidt vulgarmente conhecia como a idade da loba. Ele já havia passado por esta casa há um bom tempo, embora quem olhasse para o senhor atrás daquele balcão dificilmente diria que ele estava chegando aos oitenta.

A mulher deu outra olhada ao redor, curiosa, com um sorriso tímido e com um certo espanto no rosto. Schmidt reparou que ela fez uma careta assim que viu o recipiente a sua direita ; ele era de vidro, e tinha um olho humano boiando no álcool.

— É humano, sim senhora, — disse ele, não conseguindo segurar o riso. — Bem, me disseram que era, pelo menos.

— E quem deu algo assim para o senhor?

— Meu neto, — disse Schmidt, deixando o sorriso morrer aos poucos. Ainda era difícil se lembrar de Wagner sem sentir o peito doer. — Na verdade, é um olho de vidro. Ele achou que seria bom colocá-lo em minha loja, e eu concordei.

— Realmente combina. É a primeira vez que vejo um lugar como este.

Schmidt tornou a sorrir. Gostava de ouvir aquilo saindo de outra boca que não fosse a de algum parente ou amigo. E também era bom escutar algo que não fosse um lamento desagradável, como tantas vezes já teve de ouvir. A mulher não tinha de modo algum elogiado o ambiente, mas ao menos já estava de pé ali dentro há quase cinco minutos, e isto poderia ser encarado como algo positivo.

Schmidt agradeceu aquilo sem saber ao certo o porque, depois se lembrou de perguntar a senhorita se ela estava ali para lhe pedir alguma informação.

— Como disse?

— Bem, é que ninguém vem até aqui se não está de fato perdido — disse Schmidt. Coçou a bochecha e prosseguiu. — É que a rodovia está em obras, e isto tem causado uma dor de cabeça nos motoristas, sabe. Por sorte, as vezes eles me encontram por aqui e eu lhes mostro o caminho.




A mulher fez que sim com a cabeça. Depois tornou a olhar para os artefatos macabros da loja, erguendo uma das mãos sempre que pretendia tocar em algum deles mas recuando logo depois. Ela olhou um pouco mais tudo que seus olhos conseguiam enxergar ( dando uma atenção especial para um par de luvas de pelica que repousavam dentro de uma caixa de acrílico ) e então sua atenção se voltou para baixo do balcão. Ali havia uma espécie de vitrine, com mais ou menos dez ou onze caixinhas de madeira. Elas estavam ladeadas, e em cada uma delas havia um círculo escuro que só depois de se abaixar para ver mais de perto, é que a mulher reparou se tratar de um buraco.

— O que são essas caixas?

Schmidt fechou o punho diante dos lábios e tossiu, como se estivesse se preparando para uma grande apresentação. De certo modo, era isso mesmo que ele achava.

— São as minhas preciosidades. A razão por ainda manter este lugar aberto, em meio as moscas.

— O que tem de especial com elas, senhor... como se chama?

— Franklin, — disse Schmidt, de repente percebendo que também não havia perguntado o nome da loira quarentona. — E você, seria?

— Abigail Sherman. — Os dois permaneceram se olhando por alguns segundos, como se esperassem quem faria a próxima pergunta. Um instante depois, Abigail se abaixou para olhar mais uma vez para as caixas de madeira.

Schmidt deu a volta pelo balcão, ajeitando a cinta nas calças e pensando se contaria ou não para a senhorita Sherman o que havia dentro de suas caixinhas.

Ele já cometera o erro de contar anteriormente para visitas inesperadas, e aquilo lhe causou um certo transtorno. Além de risos de deboche pelas costas e uma fama incômoda de doido varrido.

— Elas são bem bonitas, — falou Abigail, com os olhos fascinados e quase sem piscar. — São envernizadas, não são?

— São, — disse Schmidt, agora escorado no balcão ao lado de sua mais recente visita. Até passou pela sua cabeça se abaixar junto a ela, mas poucos segundos antes disso acontecer acabou se lembrando da artrite em seus joelhos e essa ideia logo se tornou inviável. Além do mais, já sabia exatamente o que estava e em qual delas estava na ordem exata das caixas.

De repente, Abigail ergueu os olhos para ele rapidamente e pôs uma das mãos sobre o peito. Seu rosto parecia tomado por um espanto repentino.

— Não vá me dizer que existem dedos ali dentro?

Schmidt gargalhou, jogando a cabeça para trás. Era a primeira vez que lhe perguntavam aquilo, e até que fazia um certo sentido quando se pensava no tipo de coisa que ele mantinha em sua loja.

Assim que parou de sorrir, ele disse :

— Oh, não, é claro que não. Embora não seja uma má ideia ter algo do tipo futuramente. Sabe, boa parte do que tenho aqui é ilusório. As pessoas adoram a ilusão. E a temem também.

— Eu sou fascinada por este tipo de coisa. Minha avó tinha algumas coisas estranhas no porão da casa dela, e eu morria de medo e de curiosidade quando ia visitá-la.

Schmidt aquiesceu. Sabia muito bem do que a senhorita Sherman estava falando. Quando seu neto vinha visitá-lo nos finais de semana de cada mês, era exatamente daquela forma que o garoto se sentia. Ele costumava entrar em sua loja sempre depois que Schmidt entrava e ascendia as luzes. Então o avô gritava para ele que já era seguro entrar, e o menino vinha devagar, com os olhinhos espreitando as partes mais escuras e nunca se esquecendo de olhar para cima. Ele morria de medo das cabeças dos cachorros e da zebra. Principalmente a da zebra, que certa vez ele dissera que piscara para ele.

Então as visitas se acabaram, e Schmidt passou a conviver com a saudade, uma onda absurdamente grande de lembranças dolorosas.

Recuou um pouco o corpo para o lado, afim de enxergar em qual posição exatamente estava uma das caixas. Mais especificamente a menor delas, quase do tamanho de uma caixa de sapatos.

— Está vendo aquela ali? — apontava Schmidt.

Abigail confirmou com a cabeça.

— Meu netinho Wagner está ali dentro, — completou o idoso escorado no balcão. Esperou para ver o que a senhorita Sherman iria dizer, mas ela não disse nada, ficou apenas olhando sem reação alguma para ele e então o velho Schmidt continuou. — Na verdade, apenas o fantasma dele está ali dentro. Assim como os fantasmas de outras pessoas estão nas outras caixas.

Enfim a senhorita Sherman pareceu compreender. Ficou imediatamente de pé, e recuou um passo significativo para trás. Schmidt sabia o que ela estava pretendendo, e imediatamente retirou as mãos que estavam enfiadas nos bolsos. Ele achava que ela já estava pronta para começar a correr, e manter as mãos à sua vista talvez a fizesse repensar em sua atitude. Schmidt queria mostrar que não possuía nenhuma faca ou canivete nos bolsos, mas aquilo não fez com que Abigail perdesse o medo nos olhos. Mas também não a fez recuar um novo passo, e Schmidt considerou aquilo um bom avanço.

— Ouça, era isso que eu estava querendo evitar — falou Schmidt. Estava visivelmente chateado. — Não gosto de passar uma imagem de louco, ou coisa do tipo. É isso que geralmente acontece.

— E por que será?

— Essas caixas, — disse ele, movendo o corpo para que pudesse apontar para elas de um jeito melhor, mas assustando Abigail mais uma vez a fazendo com que ela recuasse mais um passo na direção oposta. — Elas são capazes de preservar o espírito das pessoas. Eu venho colecionando elas há décadas. Elas estão na minha família desde que meu bisavô ainda era um menino. E isso veio passando de geração em geração, e meu propósito era que o Wagner seguisse com isso. Mesmo que a mãe dele torcesse o nariz.

— Como espera que eu acredite nisso? É impossível guardar um fantasma, se é este o termo correto.

— Talvez, — disse Schmidt. Olhava fixo para a senhorita Sherman, com a cabeça abaixada e os olhos erguidos. — O que fica é a essência. O cheiro. A vontade de permanecer entre nós.

Abigail mexeu a cabeça e olhou mais uma vez para as caixas. De fato uma delas era um pouco menor ( Wagner está ali dentro! ) e então voltou mais uma vez a sua atenção para o idoso.

Ele não parecia do tipo perigoso, talvez fosse até deprimido emocionalmente, mas aquilo não significava que ele estava dizendo a verdade. Já havia convivido com tipos assim — seu ex-marido Ariel costumava criar todo tipo de cenário para encobrir as próprias mentiras, — e sabia exatamente como lidar com aquela laia.

Cruzou os braços e disse :

— Como faz para prender o espírito aí dentro?

— Não faço, — falou Schmidt. — Eles simplesmente entram porque sabem que vou mantê-los ali. Como disse, gostam de ficar entre os vivos. E sabem que serão bem tratados.

— É demais para um dia só... — retrucou Abigail, apontando a cabeça para o chão e mantendo os olhos fechados. Estava com uma dor de cabeça tremenda desde que deixara a rodovia 748 cinco quilômetros atrás. E assim que viu a placa de BAZAR DE QUINQUILHARIAS DO SCHMIDT na frente do estabelecimento, sentiu como se tivesse finalmente encontrado uma saída. Só que agora ela achava que o velho estava mais perdido neste mundo do que ela.

— Perdão, o que disse?

— Nada, é coisa minha. Escute, como faço para retornar e seguir para Marés?

— Vou lhe dizer. Mas antes... — Schmidt contornou o balcão, sentiu os joelhos estalarem quando se abaixou e quando se ergueu estava com uma das caixas nas mãos. A pôs diante de Abigail. — Quer colocar a mão aqui dentro?




A princípio ela recusou a ideia mentalmente, depois reconsiderou e achou que aquilo seria uma boa deixa para dar o fora dali. Era só enfiar a mão naquela caixa, ouvir o velho gargalhar da cara dela e depois pegar as instruções para voltar até o caminho alternativo para Marés.

A caixa diante dela até que era bonitinha, bem modelada e com uma pequena portinhola de vidro que cobria o círculo por onde se enfiava a mão. Passava pela cabeça de Abigail quantos caipiras já tinham feito o que ela estava prestes a fazer e levaram um susto dos diabos.

Sorriu completamente sem jeito e avaliou a caixa um pouco mais.

— O que vai acontecer? Vou tocar num fantasma?

Schmidt sorriu.

— Não necessariamente, — ele disse. Uma das mãos posicionada, pronta para abrir a portinhola. — Vai apenas sentir. Assim como sente os braços arrepiarem de repente e não sabe o porque. Algumas pessoas já me disseram que tiveram os dedos agarrados, mas creio que foi apenas impressão. Outras não sentiram nada. Cada um percebe aquilo que acha que percebe.

— Sei...

Ocorreu a Abigail que uma grande armação estava a caminho ; possivelmente a caixa tinha um fundo falso, e assim que ela colocasse a sua mão lá dentro, Schmidt a agarraria com a sua e logo depois soltaria uma gargalhada. Era uma brincadeira inofensiva, mas Abigail não estava no clima. Queria apenas ir para a casa da irmã em Marés, comemorar o aniversário do sobrinho e colocar o papo em dia. Já havia deixado um recado no celular da irmã, dizendo que iria se atrasar um pouco por conta do desvio na rodovia e que estava dependendo da sorte para encontrar um bom samaritano que a ajudasse a reencontrar o caminho corretamente. Claro que havia dito isso antes de encontrar a loja de Schmidt.

Analisou a caixa pela terceira vez naquela tarde e pôs uma das mãos no queixo.

— Veja, eu gosto de piadas. Mas hoje não é um bom dia, senhor Franklin. Estou atrasada, com a cabeça estourando e em algum lugar que não faço a menor ideia de onde fica. Então... pode simplesmente me dizer como dar o fora daqui?

— Oh, evidente — falou Schmidt, não conseguindo esconder a decepção em seu rosto. — Mas não queria passar uma imagem ruim para a senhora.

— Não passou.

— Ah, claro que passei. Deve me achar no mínimo um velho gagá. Mas ouça, aqui nem tudo é ilusório. Eu jamais brincaria com as almas nestas caixas, senhorita Sherman. Até porque todas elas foram parentes meus um dia.

— Se colocar a mão aí dentro fará você se sentir melhor, então eu farei isso sem problemas.... — Abigail já estava com as pontas dos dedos diante da portinhola que ainda permanecia fechada. Ela era capaz de enganar o velho Schmidt com a sua persistência incrédula, mas por dentro a história era outra. Por alguma razão, ela havia começado a sentir frio.

Olhou inconscientemente para trás e quase agradeceu à Deus por não ter visto nada desaparecendo diante dos olhos, então, três segundos depois já estava com a mão esquerda no interior da caixa sem ao menos se dar conta de quando a levou até ali.

Os olhos de Schmidt encaravam ela de frente. Talvez ele estivesse esperando o momento certo de agarrar a mão dela por debaixo do fundo falso, mas então Abigail percebeu uma coisa. A caixa estava sobre o balcão. Não havia como o velho trapacear daquela maneira.

Sua mão já estava lá dentro por completo. A sensação era de que a qualquer momento alguma coisa com dentes iria mordê-la. O vazio na caixa era realmente assustador, mas nada que fizesse Abigail puxar a mão de volta com rapidez e gritar.

— A senhorita que quis fazer, eu já havia me convencido de que...

— Está tudo bem, — disse ela. Sua paciência já estava quase na fronteira do aceitável. — Eu preciso ficar com a mão aqui por... — um toque gelado passou por entre os dedos de Abigail e ela gritou.

Sua mão saltou para fora numa velocidade quase imperceptível e foi parar junto de seu peito. A caixa saculejou e se manteve instável.

Schmidt recuou para trás ( mais pelo susto repentino de Abigail do que por qualquer outra coisa ) e inevitavelmente deixou um sorriso surgir em seu rosto.

— Você sentiu?

— Tocou em mim, — disse Abigail. Os olhos apontados para a caixa e a mão esquerda protegida contra o peito.

— Esta caixa é do meu antigo amigo, Flávio. O dono das cabeças de Pug e da zebra. Falei dele pra você.

— Como algo assim é possível? Algo desse tipo não faz sentido algum em nosso mundo. Eu senti uma coisa e nem sei ao certo o que foi.

Schmidt pegou a caixa e a recolocou debaixo do balcão ao lado das outras. Já havia escutado coisas como aquela em todas as outras vezes, e assim como em todas aquelas vezes nada do que ele dissesse faria a pessoa entender. Então o melhor a fazer era deixar que o medo fizesse o seu papel e desse a Abigail as suas próprias conclusões.

Schmidt passou para o outro lado do balcão e pegou Abigail pelo antebraço, a encaminhando delicadamente na direção da saída.

— Venha, vou lhe mostrar como sair daqui e encontrar o rumo até Marés.

— Encostou em mim... eu senti... algo frio, de outro mundo — os dois pararam diante da porta de saída, e antes que Schmidt começasse a lhe passar as coordenadas, Abigail o pegou pelo braço. — Alguma vez o senhor já colocou a mão dentro de uma daquelas caixas?

O idoso colocou a sua mão enrugada sobre a dela e disse :

— Sei que eles existem. Não preciso de nenhuma prova.

Abigail permaneceu em silêncio e Schmidt começou a lhe explicar o caminho de volta.


8 de Outubro de 2019 às 04:09 1 Denunciar Insira 2
Fim

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Rafael Reis Rafael Reis
Acho muito bacana essa ideia de conto onde não se revela nada! Temos personagens, uma situação impossível e nenhuma explicação haha, parabéns, estou te acompanhando e gostando muito de suas histórias.
16 de Outubro de 2019 às 17:45
~