S06#14 - THE MONSTER OF BLUESVILLE Seguir história

lara-one Lara One

Mulder e Scully se veem às voltas com um caso revoltante. E ao mesmo tempo, tentam lidar um com o outro. E com seus próprios desejos latentes...


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

#x-files #arquivo-x
0
624 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

S06#14 - THE MONSTER OF BLUESVILLE

INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.


Condado de Bluesville – New Jersey – 09:08 P.M

O policial Joel escorado na porta da viatura. Tremendo de frio, fumando um cigarro. O mecânico se aproxima, limpando as mãos numa estopa.

MECÂNICO: - Troquei a borrachinha. Acabou o problema.

POLICIAL JOEL: -Detestaria ficar no meio da rua nesse frio e com essa viatura estragada... Vou pegar um café na Tia Vaninha, antes que congele.

MECÂNICO: - E dizem que vai a menos dois graus nessa madrugada... Passa aqui em meia hora que já terei consertado o estepe.

Joel entra na viatura. Veste as luvas. Liga o carro.

POLICIAL JOEL: - Frio... Muito frio.

WOMAN IN THE RADIO (OFF): - Central para todas as viaturas. Alguém próximo ao cemitério da cidade???

Joel olha pelo retrovisor. Vê os muros do cemitério, alguns mausoléus mais altos destacam-se. Atende a chamada.

POLICIAL JOEL: - Viatura 3 na escuta. Estou na frente do cemitério.

WOMAN IN THE RADIO (OFF): - Viatura 3, cheque reclamação de vandalismo junto ao vigia, positivo?

POLICIAL JOEL: - É você, Gigi?

WOMAN IN THE RADIO (OFF): - Congelada até os dentes! Quando voltar, me traga um chocolate quente com chantili.

POLICIAL JOEL: - (SORRI) Viatura 3 indo para o local, positivo.

Joel dá marcha ré. Faz a volta com a viatura. Atravessa a estrada, rumo ao portão central do cemitério. Abaixa a cabeça, observando pelo vidro frontal o arco de entrada por onde passa.

POLICIAL JOEL: - Aqueles garotos de novo... Dessa vez eu vou dar um susto neles.

Joel desliga os faróis e as luzes da viatura. Entra com o carro furtivamente no cemitério.

Silêncio quebrado pelos grilos.

Travelling (câmera se deslocando de lado) dos túmulos e lápides.

Som de gemidos de êxtase.

Travelling continua até focar o túmulo, com um montante de terra ao lado.

VOZ MASCULINA (OFF): - (GEMENDO) Isso... Assim, meu amor... Oh yes! Yes! Isso, fica quietinha assim, como eu gosto... Ohh yes!!!! Yes, baby! Oh, yes!

Som de tapas.

VOZ MASCULINA (OFF): - Cadelinha gostosa... Não reage, não é? Você gosta disso, não é sua vaca? Ahn? (TAPAS) Oh, yes, my baby!!!! Papai vai fazer gostoso pra você, sua vadiazinha... Ahn? Eu não disse que você ia ser minha? Ohh, baby... Yes! Yes!

Os gemidos dele se intensificam até um orgasmo. Cansado, ofegante.

Corta para a terra ao lado do túmulo. A palma da mão dele, vestida em luvas, se apoia para sair. Seus pés com botinas pisam na terra. As roupas femininas que ele solta ao chão. Sai andando oculto pela noite escura.

Foco dirige-se para dentro do túmulo, onde há o cadáver já em decomposição da jovem seminua com as pernas abertas pra fora do caixão.

VINHETA DE ABERTURA: A VERDADE ESTÁ LÁ FORA



BLOCO 1:

Cemitério de Bluesville – New Jersey – 9:11 A.M.

Frio. Mulder num sobretudo anda ao lado de Joel. Scully ao lado deles, já vestindo as luvas de látex. Eles param em frente a sepultura. Mulder olha pra dentro, vira o rosto enojado. Scully fica mais afastada, relutante, olhando pra tudo, menos a cova. Joel acende um cigarro, nervoso.

POLICIAL JOEL: - A perícia foi chamada, mas não chegaram ainda para retirar o cadáver. Isolamos a área toda, esperando por vocês.

MULDER: - Começou em Long Island, há um ano. Tenho recortes de jornais com notícias locais, que fazem um mapa de descida em três cemitérios pela costa, indicando que ele está se movendo. Este é o quarto cadáver.

Mulder agacha-se, observando as pegadas e a marca da mão. Scully olha aterrorizada pras roupas ainda jogadas ali. Olha para a lápide: 'Donna Lewis – Filha e enteada amada'.

POLICIAL JOEL: - Doze anos de polícia e nunca vi uma coisa bizarra como essa. (TRAGA O CIGARRO/ TREMENDO DE FRIO) Com que louco estamos lidando?

MULDER: - Estamos lidando com um necrófilo. Ele sente prazer em fazer sexo com cadáveres.

Scully fecha os olhos, enojada.

SCULLY: - (MURMURA) Animal asqueroso...

Mulder mede sua mão com a marca da luva, sem encostar na terra.

POLICIAL JOEL: - Ele... (INCRÉDULO) Ele fez sexo com... Um cadáver?? Como sabe disso? Não pode ser um vândalo que gosta de desenterrar moças e tirar as roupas delas só pra chocar as pessoas?

Mulder faz o mesmo com seu pé na marca da pegada.

MULDER: - Não é um vândalo. É um necrófilo. Tem provavelmente 1,80 metros, pelo tamanho dos pés. Deveria estar usando luvas.

Scully respira fundo. Entra na cova. Examina o cadáver com os olhos.

POLICIAL JOEL: - Que tipo de pessoa faz uma coisa dessas, agente Mulder?

MULDER: - Homens. Não há relatos de necrofilia praticada por mulheres. Os necrófilos preferem empregos em cemitérios ou funerárias, para facilitar a realização de seus desejos mórbidos. Existe um outro tipo de tendência necrófila, em indivíduos que tem preferências sexuais por pessoas doentes e incapacitadas e, que muitas vezes, procuram trabalhar em hospitais para ter a oportunidade de obter prazer sexual... Checou a data e a causa da morte da moça?

POLICIAL JOEL: - Foi enterrada há duas semanas. Morreu num acidente de carro. Traumatismo. Pensei que esse tipo de gente só existisse em filmes de terror... Mas eles não praticam sexo com cadáveres frescos?

MULDER: - Nem sempre. Alguns preferem a vítima totalmente fria, se é que me entende.

Joel olha pra Mulder. Scully observando o cadáver. Mulder reluta em olhar pra dentro da cova.

SCULLY: - Ele... Retirou uma parte do corpo.

MULDER: - Cortou o mamilo esquerdo?

SCULLY: - Sim.

Mulder respira fundo e olha pra cova. Leva a mão aos lábios.

MULDER: - É o mesmo cara de Long Island. Segue um padrão. Leva o mamilo esquerdo como prêmio.

Scully olha incrédula pro chão.

SCULLY: - Mulder.

Scully leva a mão em meio a terra e ergue com repulsa um preservativo usado.

MULDER: - Acho que o policial atrapalhou os planos e fez o cretino ficar nervoso e cometer um erro...

Scully coloca o preservativo num saco plástico.

MULDER: - Policial, quero um molde da pegada e da mão.

POLICIAL JOEL: - Não vai demorar e as pessoas vão começar a comentar... Ainda mais a natureza do crime... Ninguém nunca viu esse tipo de coisa acontecer por aqui.

MULDER: - Quero o local isolado. E as roupas catalogadas como provas. Qualquer fio de cabelo pode ser a chave pra pegar o sujeito. Chequem centímetro por centímetro atrás de qualquer pista.

Joel se afasta.

SCULLY: - Desse tarado, você quer dizer. Que tipo de pessoa sente prazer nisso? Em violar um cadáver sexualmente?

MULDER: - Não sei. Mas conheci um que cortava os pelos pubianos das garotas com quem tinha relação sexual para juntá-los e fazer um travesseiro.

Scully olha assustada pra Mulder.

MULDER: - (DEBOCHADO) Não se preocupe. Com a sorte que eu tenho, se dependesse de pelos pubianos de garotas para fazer travesseiro, não conseguiria nem fazer uma almofadinha pra alfinetes.

Mulder se afasta. Scully o acompanha com os olhos.


Administração do Cemitério - 11:11 A.M.

Mulder anda pela sala. Abre a persiana com os dedos. Observa o cortejo fúnebre que entra no cemitério. A viúva Klein vem ao lado do caixão, chorando, secando as lágrimas com um lencinho. Vestido preto justo e curto, usando um chapéu. Um homem a consola, todo carinhoso. Ela se abraça nele, ele passa a mão nela discretamente. Mulder observa debochado.

MULDER: - Mulheres... O miserável nem esfriou e já vai levar ornamentos cranianos...

O gerente Barnes, alto, de óculos e 'cara de gênio da Microsoft', fecha o arquivo e entrega um papel pra Mulder.

BARNES: - É a lista dos enterros realizados aqui, até hoje, contando com o marido da senhora Klein. Tem o último semestre inteiro aí.

MULDER: - Não, esse cara só gosta de carne fresca com menos de um mês de morte. E de mulheres jovens.

BARNES: - Então não terá muita, porque poucas mulheres jovens morrem nesta cidade, agente Mulder.

Mulder lê o papel. Barnes abre o armário. Pega a garrafa de uísque. Desiste. Fecha o armário.

MULDER: - Quero que me avise quando chegar algum corpo feminino. E quero o nome e endereço dos funcionários que trabalham aqui. Bem como dos serviços funerários da cidade.

Geena, a mulher loura e alta, de uns 40 anos, entra na sala.

GEENA: - Por que não me avisou antes que o FBI chegasse?

Mulder olha pra ela, invocado.

BARNES: - Este é o agente Mulder...

GEENA: - Não quero saber! Não quero que toquem no corpo da minha filha!

MULDER: - É a mãe de Donna Lewis?

GEENA: - Sim, sou a mãe de Donna. Sou Geena Lewis.

MULDER: - Ninguém vai necropsiar o corpo da sua filha, não há necessidade, senhora Lewis. Estamos checando para encontrar alguma digital ou prova pra pegar o canalha.

GEENA: - Minha filha morreu, num acidente estúpido, de forma estúpida. Não bastasse a dor da perda, a dor de saber que até hoje a polícia não pegou o culpado, agora ainda... (COMEÇA A CHORAR) Deus, que monstro faz uma coisa dessas??? Ela... Minha filha era virgem!

Barnes se aproxima abraçando Geena. Mulder observa.

BARNES: - Tenha calma, senhora Lewis. Venha, vou lhe preparar um chá.

GEENA: - É assim que mantém este cemitério? As famílias pagam um lugar para o corpo de seus entes queridos descansarem e o que acontece? Qualquer louco doente entra aqui e... (PÕE AS MÃOS NA BOCA)... Deus! Estou horrorizada!

Mulder observa. Barnes tira Geena da sala. Mulder volta a ler o papel. Puxa o celular e aperta uma tecla.

MULDER: - ... (AGUARDA/ LENDO) ... Sou eu. Sabe a lista com o nome das vítimas anteriores que ficou com você? Tenho um dado novo. Preciso que descubra se eram virgens... (DEBOCHADO) Não, Scully. Isso serve para repensar o dito 'não deixe para a terra comer'...


Motel April – 1:19 P.M.

Mulder zanza pensativo pelo quarto. Batidas na porta. Scully entra, cara de poucos amigos. Joga uma pasta sobre a cama.

SCULLY: - Aí está a sua lista, cheque você!

Mulder olha incrédulo pra ela.

SCULLY: -(IRRITADA) Parece estar se divertindo com essa abominação! É isso o que parece!

MULDER: -(IRRITADO) Estou me divertindo tanto quanto um peixe fisgado no anzol!

SCULLY: - (REVOLTADA) Então pare com suas piadas sem graça e completamente idiotas! Temos um cadáver de uma moça jovem, falecida há duas semanas, que foi desenterrada e violentada sexualmente por um tarado doente, nojento e bastardo! Se eu pudesse meter as mãos nesse sujeito, eu juro que arrancaria os pedaços do cretino! E você sabe que sou bem capaz de fazer isso!

MULDER: - (PÂNICO) ...

SCULLY: - Se quer trabalhar em parceria, respeite o meu asco por determinadas coisas, como fazia antes!

MULDER: -Isso inclui respeitar seu asco por mim?

SCULLY: - (ERGUE AS MÃOS) Mulder, impressão minha ou todo aquele discurso na porta dos Arquivos X sobre 'eu não tocarei mais no assunto, seremos parceiros, não vou reviver velhas mágoas'... Não passou de um embuste?

MULDER: - (IRRITADO) Olha aqui, eu não estou pra brincadeiras, tá legal? Fique na sua e me deixe na minha. Estou de mal humor e irritado. Se não gosta das minhas piadas pra relaxar a situação, eu também não gosto da sua mania de sair dizendo o que quer na minha cara. Estamos quites.

Scully o fulmina com os olhos.

SCULLY: - E posso saber por que está tão irritadinho?

MULDER: - (OLHA PRA ELA DE CIMA A BAIXO/ AR DE SAFADO) Imagine. Só imagine!

SCULLY: - (PERDE A GRAÇA) Vou tomar uma banho e almoçar. Quando virar gente de novo, me chame.

MULDER: - Nunca fui gente, sou um monstro, se esqueceu? Porque eu não esqueci!

Scully sai batendo a porta. Cerra os punhos, pisoteando no chão, no mesmo lugar, feito criança brava.

SCULLY: - Uiiiiiiiiiiiiiiii, como esse sujeitinho me irrita!!!!!!!!!!!!


Restaurante da Tia Vaninha - 1:42 P.M.

Scully almoçando, sentada à mesa do restaurante. Mulder se aproxima. Senta-se de frente pra ela.

SCULLY: - Alguém disse que podia sentar?

Mulder se levanta.

MULDER: - (DEBOCHADO) Posso me sentar, agente Scully?

SCULLY: - Pode.

Mulder senta-se.

MULDER: - O que pediu?

SCULLY: - Moda da casa...

Mulder rouba uma batata frita do prato dela.

SCULLY: -Mulder, tira as mãos das minhas batatinhas!

MULDER: - (BEIÇO) Gulosa! Tomara que se afogue com elas!

SCULLY: - Por que está agindo feito uma criança, Mulder?

MULDER: - Não estou agindo como criança.

SCULLY: - Está sim, por que está me irritando.

MULDER: - Não estou irritando você.

SCULLY: - Está sim.

MULDER: - Se eu quisesse irritar você, faria um cercadinho com telas pra mosquito ao redor da minha escrivaninha e aplicaria o tema Jungle do Windows no último volume, pra cada função que eu usasse o teclado ou o mouse!

SCULLY: - (SUSPIRA) ...

MULDER: - Tá bem, estou irritando você sim. Mas é porque... (PIDÃO) Scully, eu tô sofrendo!

SCULLY: - Então vá sofrer em outro lugar, porque estou almoçando!

Mulder chama a garçonete.

MULDER: - Um refrigerante de cola e o mesmo que ela pediu.

A garçonete se afasta. Mulder apoia os cotovelos na mesa e fica encarando Scully.

SCULLY: - Mulder, sabia que não é educado encarar as pessoas enquanto elas comem?

MULDER: - Não estou encarando. Estou admirando como você come bonitinho. Pedacinho por pedacinho, sistematicamente, em ordem... Primeiro um pedacinho de filé, depois uma batatinha, depois o arroz... Mastiga lentamente...

SCULLY: - Mulder, então para de me admirar! Está me irritando! E não sabe que colocar os cotovelos na mesa é falta de educação?

MULDER: - Quem disse?

SCULLY: - As normas de educação.

MULDER: - Quem fez estas normas?

SCULLY: - Não sei! Mas meus pais me ensinaram assim.

MULDER: - E quem ensinou eles?

SCULLY: - (IRRITADA) Os pais deles, Mulder.

MULDER: - E assim sucessivamente. Até chegar no cara que criou essas normas. Que por sinal, aposte, resolveu criar essa norma porque era obcecado por ordem e os cotovelos sobre a mesa acabavam por tirar a toalha do lugar, o que ele detestava, porque a toalha fora do lugar, criava uns morrinhos na toalha e quando ele puxava o prato da salada, o prato tropeçava no morrinho da toalha e a salada caía sobre a mesa.

Scully olha pra ele com cara de 'me apaixonei'. Começa a rir. Mulder se reclina no banco. Espreguiça-se. A garçonete traz o pedido e o coloca na mesa. Afasta-se. Mulder pega os talheres.

MULDER: - O que descobriu?

SCULLY: - Nenhuma digital. Recolhi amostras de pelos, cabelos e fibras. Enviei com o preservativo e as roupas para análise. Quer continuar com o assunto ou prefere almoçar antes?

MULDER: - Continue.

SCULLY: - Sei. Conheço seu estômago, Mulder. Você se horroriza com os corpos, eu com a situação do crime.

MULDER: -(IRRITADO) Eu não sou nenhum fresquinho que tem ataques de enjoo por ouvir comentários sobre necropsia durante o almoço. Sou agente federal e sou macho!

SCULLY: - Ok, senhor macho. Bem, temos alguns fatos comprovados. Outros não. Não posso afirmar que a vítima era virgem, pois como está morta há duas semanas, pela necrose dos tecidos, não apresentava sangramento vaginal, comum ao rompimento do hímen.

MULDER: - Sério? Sangra?

SCULLY: - Não sabia?

MULDER: - (DEBOCHADO) Não tinha certeza. Sempre comi o resto dos outros.

Scully o fulmina com os olhos.

SCULLY: - Mesmo com a presença de um preservativo no local, ainda fiquei na dúvida se o agressor teria cometido o estupro sem uso de algum objeto. Mas descarto a minha hipótese, visto que não havia nenhum tipo de escoriação interna significativa. Ele realmente fez sexo com a vítima. E duvido que ela era virgem.

Mulder corta o bife. Scully o observa.

SCULLY: - (VINGATIVA) Bem, a carne ao redor dos seios apresentava lacerações ou mastigamento, o que indica que o agressor usou algum objeto cortante para remover o mamilo, mas não estava bem afiado.

Mulder olha pro bife. Solta a faca e pega uma batatinha.

SCULLY: - O mamilo foi recortado bem na borda da aureola do seio, não é serviço de profissional, pois as lacerações também indicam que não tinha a mão firme para fazer isso. Mas segundo suas teorias sobre a personalidade patológica dos necrófilos, talvez ele fizesse dessa maneira para afastar a hipótese de ser um profissional de medicina.

Mulder solta a batatinha.

SCULLY: - Também descobri que o maxilar foi quebrado. Ele forçou com algum objeto a abertura da boca do cadáver para... Certamente ter sexo oral.

Mulder empurra o prato. Scully segura o sorriso, continua firme.

SCULLY: - O agressor também praticou coito anal com o cadáver, pois o ato de forçar provocou rompimento no intestino, causado pela gaseificação normal do estado mortis e o corpo apresentava excreções...

Mulder levanta-se da mesa, com a mão na boca e sai em disparada. Scully ergue a sobrancelha, olhando para o prato de Mulder. Pega um pedacinho de bife e leva à boca.

SCULLY: - (SUSPIRA/ DEBOCHADA) ... Cadê o macho que estava sentado nessa mesa?


Residência dos Lewis – 4:39 P.M.

Mulder e Scully aguardam em pé na sala da mansão. O mordomo entra, trazendo uma bandeja com cafezinhos. Coloca sobre a mesa de centro. Mulder olha pra Scully.

MULDER: - (DEBOCHADO) O culpado foi o mordomo.

Scully olha pra ele, irritada. Geena Lewis entra na sala.

GEENA: - Desculpe pela demora. Sentem-se.

Mulder senta-se e puxa o caderninho de anotações. Scully anda pela sala observando.

MULDER: - Sei que é duplamente difícil pra senhora passar por este momento, mas precisamos de qualquer informação possível pra pegar o sujeito que fez isso.

GEENA: - Ela não tinha amigos. Exceto os meninos dos Johnsons, mas eles são garotos brincalhões, não fariam algo assim. Não esse tipo de brincadeira. São bons rapazes. Filhos de boa família.

Scully pega um porta retrato, da moça loura, de sorriso meigo.

SCULLY: - Sua filha?

GEENA: - Sim, Donna. Ela tinha completado 18 anos nesta foto... Três dias antes de morrer.

SCULLY: - Lamento muito, senhora Lewis. Ela era muito bonita.

GEENA: - Donna era tudo que eu tinha. Minha única filha. Um futuro promissor como advogada em Oxford. Estava com passagem comprada para ir à Inglaterra.

MULDER: - Sua família tem algum contato com alguém que trabalhe no cemitério da cidade, em alguma funerária, num hospital?

GEENA: - Por que isso é relevante?

MULDER: - Porque pessoas que cometem estes atos geralmente trabalham em locais onde podem conseguir alvos para sua obsessão.

GEENA: - Não. Ninguém que conheçamos trabalha em lugares assim. Nossa família pertence ao ramo das indústrias de cosméticos. Exceto meu irmão. Optou por ser professor, só para contrariar nossa mãe.

MULDER: - Disse que sua filha faleceu num acidente de carro. Pelo que entendi foi provocado por alguém que a polícia não pegou.

GEENA: - A polícia daqui é lenta, agente Mulder. Coloquei detetives no caso e advogados gananciosos para tentar pegar o culpado pela morte de Donna. O carro foi encontrado batido contra uma árvore, na auto-estrada e o corpo arremessado pra fora do carro. O policial Joel me disse que havia marcas de tinta branca na lataria do carro, que era vermelho.

MULDER: - (ANOTANDO) Certo.

GEENA: - Acha que quem fez isso com minha filha é o mesmo sujeito que a matou?

MULDER: - Não posso afirmar isso. Seu marido está?

GEENA: - Sou viúva. O pai de Donna morreu há seis anos. E estou separada do padrasto dela há dois anos. Ele vive em Cleveland.


Motel April – 6:11 P.M.

Scully sai do carro. Caminha até a porta do quarto de Mulder. Bate. Nenhuma resposta. Scully gira a maçaneta e entra.

SCULLY: - Mulder???

Scully percebe onotebook aberto sobre a mesa. Mulder sai do banheiro enrolado numa toalha, secando os cabelos, cabisbaixo.

MULDER: - Falou com Barnes? O que achou dele?

Scully perde os olhos no corpo de Mulder.

SCULLY: - E-eu... Falei com ele sim.

MULDER: - (REVIRANDO A MALA) O que achou dele?

SCULLY: - (PERCORRENDO OS OLHOS NO CORPO DELE) Eu... Não suspeitei de nada. Não tem passagem pela polícia... Chequei seus registros.

MULDER: - Ia fazer isso agora.

Mulder olha pra ela. Scully disfarça, desviando o olhar.

SCULLY: - Ele me deu o endereço das duas únicas funerárias e dos funcionários do cemitério. Chequei com ele os hospitais e necrotérios da cidade. Há apenas um hospital, que também faz o serviço de necropsia, o que reduz a nossa busca.

Scully vira-se pra janela. Mulder percorre os olhos pelo corpo dela. As calças acinturadas realçam os quadris e o bumbum. Mulder desvia o olhar do corpo dela pro seu. Olha pra baixo. Arregala os olhos. Olha pra câmera, em pânico.

SCULLY: - Não há nada lá. Barnes não se encaixa no perfil que você descreveu. Se considerarmos que o maníaco deve ser alguém de fora da cidade.

Scully vira-se pra ele. Mulder em pânico pega a primeira camisa que vê e segura na frente do corpo, disfarçando.

SCULLY: - Penso se você não deveria mudar sua teoria num único aspecto: e se o tarado não é de Long Island e sim daqui? Apenas foi a Long Island a passeio, ou nessas outras duas cidades que você disse ter conhecimento...

MULDER: - (PÂNICO/ DISFARÇANDO) Por que não? Um homem de negócios?

Scully percebe a cara de pânico de Mulder, e cerra o cenho intrigada. Mulder mantém a camisa na frente do corpo, pega as roupas e vai para o banheiro rapidamente.

MULDER: - Quer me ajudar a checar os registros do vigia do cemitério? Tem alguma maneira de obtermos os nomes de pessoas que se mudaram pra cá em menos de um ano?

Scully passa pela porta do banheiro. Leva o dedo ao notebook sobre a mesa.

SCULLY: - Não sei, mas posso ligar pro xerife...

MULDER: - Faça isso.

Scully olha pra tela do notebook.

Close na tela: Informações sobre pós-graduação em psicologia clínica.

Scully olha pro banheiro. Percebe pela fresta da porta, Mulder de cuecas, vestindo as calças, de costas pra ela. Scully o observa, percorrendo os olhos com desejo, mordendo os lábios e erguendo a sobrancelha. Mulder veste uma camiseta.

SCULLY: - Vai voltar a estudar? Está pesquisando um pós...

MULDER: - ... Não... É que conheço um professor e... Estava esclarecendo umas dúvidas com ele.

SCULLY: - Sobre???

MULDER: - ... Coisas minhas. Nada importante.

Mulder veste a camisa. Abotoa e a deixa pra fora das calças. Sai do banheiro e pega a gravata.

MULDER: - Tenho outras coisas pra falar com você sobre o caso. (COMEÇA A DAR O NÓ NA GRAVATA), mas primeiro quero voltar no cemitério e falar com o vigia da noite.

Scully aproxima-se dele. Pega a gravata e começa a dar o nó.

SCULLY: - Deixe que eu faça isso.

Mulder treme. A mão de Scully toca sem querer no pescoço dele. Mulder recua, fechando os olhos, se controlando.

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - Nada... Perdi o equilíbrio.

SCULLY: - Adoro fazer isso... Pronto. (DESLIZA AS MÃOS PELO PEITO DELE) Bem ajeitadinho.

Mulder se afasta dela rapidamente, pega o paletó e o sobretudo e sai tenso. Scully fecha os olhos, mordendo os lábios. Olha para o notebook. Olha para a mala de Mulder, aberta sobre a cama, as roupas reviradas. Scully se aproxima. Senta-se na cama. Pega o blusão de lã. Cheira-o, de olhos fechados. Pega a necessaire de Mulder. Abre-a. Sorri ao ver o perfume, as coisas dele. Então começa a dobrar as roupas dele.


Cemitério de Bluesville – 7:17 P.M.

Ernest, o sujeito gordinho, baixinho e quase careca, coça a cabeça. Tem um tique nervoso de mexer o nariz. Olha pra Mulder.

ERNEST: - Tudo o que eu vi foi alguém pulando pra dentro dos muros. (MEXE O NARIZ) Chamei a polícia, porque tem uma turma de jovens na cidade que vive fazendo brincadeiras bobas, arruaças, coisas assim. Gostam de me assustar. E eu achei que fossem eles...

MULDER: - Onde encontro o vigia do dia?

ERNEST: - Não tem. (MEXE O NARIZ) Tem o zelador que fica o dia todo aqui. Ele ajuda nos velórios, faz os serviços de manutenção dos túmulos...

MULDER: - Quem além de Barnes, você e o zelador trabalha por aqui?

ERNEST: - As duas senhoras da faxina. Mas elas vem aqui umas três vezes por semana...

MULDER: - Tem o endereço do zelador?

ERNEST: - (MEXE O NARIZ) O zelador mora nos fundos do cemitério.

MULDER: - (INTRIGADO) O zelador mora aqui?

ERNEST: - Sim. Pode ser que tenha visto algo que não vi.

MULDER: - Posso falar com ele?

ERNEST: - Pode sim, mas hoje não vai encontra-lo. (MEXE O NARIZ) Parece que tinha aniversário do irmão dele. Ele viajou cedo.

MULDER: - Onde mora o irmão dele?

ERNEST: - (MEXE O NARIZ) Parece que em Long Island.

MULDER: - Long Island... (ENTREGA UM CARTÃO) Se lembrar de alguma coisa, me ligue. E quando vir o zelador chegar, me ligue também.

Mulder sai. Ernest fica olhando pro cartão, enquanto mexe o nariz.


Motel April - 9:39 P.M.

Scully abre a porta do quarto. Mulder entra.

MULDER: - Escute essa: o zelador do cemitério tem um irmão em Long Island.

Mulder tira o sobretudo. Joga-o na poltrona. Esfrega as mãos com frio.

SCULLY: - ... Conseguiu falar com ele?

MULDER: - Não, foi hoje cedo pra Long Island. Se ele não voltar, Scully, vamos emitir um mandado.

SCULLY: - Mulder, acha que o fetichista vai atacar novamente?

MULDER: - Scully, ele não é um fetichista. Fetichista somos nós.

SCULLY: - (ASSUSTADA) ...

MULDER: - O fetichismo na prática não pode ser disfunção sexual, porque não causa dano a ninguém. Eu sou fetichista porque fico excitado em ver você de lingerie e saltos altos. Você é fetichista porque adora o 'el zorro' e fica ao telefone fazendo estímulos sexuais auditivos. O fetichismo teoricamente está ao lado da necrofilia, na categoria de um distúrbio chamado parafilia, uma desordem psicossexual onde a pessoa precisa de objetos ou faz sexo de maneira não muito comum, uma necessidade para chegar a uma resposta sexual.

SCULLY: -(ASSUSTADA) Isso então é... Doença? Quer dizer, o que eu faço é...

MULDER: - Não se preocupe. Você não causa danos a ninguém. Também é considerado parafilia a necessidade de se travestir com roupas do sexo oposto, exibicionismo, voyeurismo. Coisas "soft". Mas também são parafilias atos violentos como a pedofilia, necrofilia, sadismo, masoquismo, zoofilia. Também a urofilia e a coprofilia...

SCULLY: - Ahn?

MULDER: - Gente que sente prazer com urina e fezes... Deixa pra lá, é nojento demais!

SCULLY: - (ASCO) ...

MULDER: - Isso deixa a categoria swing ou ménage como pecadinho admissível... Mas acredite, ele vai atacar novamente. Porque a necrofilia se refere à atração sexual doente que o indivíduo tem por pessoas mortas, mas quando extremamente patológica, termina no assassinato da pessoa que ele deseja.

SCULLY: - Por isso então acha que quem matou Donna Lewis pode ter sido a mesma pessoa que violou seu cadáver?

MULDER: - Sim. Porque todos os outros três relatos em cidades diferentes também aconteceram com vítimas ligadas a mortes repentinas, de causas não naturais e muito jovens. Acho que foram assassinadas.

Mulder senta-se na poltrona. Pega uma barra de cereais sobre a mesa.

SCULLY: - Pedi uma pizza grande.

MULDER: - Ótimo! Estou verde de fome!

SCULLY: - Então que tipo de pessoa estamos procurando?

MULDER: - Um cara com traumas na infância, que tenha fracasso afetivo com sua mãe. Numa perspectiva psicossocial, ele não tem aptidão para assumir o papel que a sociedade exige do macho, no significado viril da palavra, ou mais precisamente, à incapacidade de se identificar com o papel sexual adulto. Particularmente na necrofilia, a sexualidade está estreitamente ligada à violência pelo temor da intimidade com a pessoa que o necrófilo deseja. Para satisfazer o desejo sexual premente, é preciso que o outro esteja totalmente paralisado.

SCULLY: - Mas o outro paralisado é muito excitante...

MULDER: - (OLHA PRA ELA DEBOCHADO) ...

SCULLY: - (CORADA) Vivo, né? Assim, objeto sexual... Er... Deixa pra lá...

MULDER: - A necrofilia não se refere apenas ao relacionamento sexual com uma pessoa morta, Scully, mas à necessidade de dominação do parceiro sexual, seja através de fantasias simples como amarrar o outro, através do uso de armas ou da inércia do parceiro durante o ato sexual. A preferência por relações sexuais por trás pode ser considerado em alguns casos como um equivalente de conduta necrofílica. O sádico é um necrófilo, pois cria uma condição de violência para inativar qualquer movimento do parceiro, podendo inclusive, levá-lo à morte.

SCULLY: - (NERVOSA) Isso que eu queria dizer. Quer dizer que se eu gosto de... Ah deixa pra lá!

MULDER: - Não se preocupe, você não é doente, nem sádica, Scully. Muitas parafilias são aceitas pela sociedade, pois não ferem os costumes nem outras pessoas. (DEBOCHADO) Ou eu seria doente também por adorar ser atacado por você e ficar bem quietinho. Isso não é sadismo. Isso é apenas fetiche.

Scully disfarça, ficando mais corada ainda.

MULDER: - Segundo alguns estudiosos, os necrófilos normalmente são alcoólatras, podem sofrer de epilepsia ou são portadores de alguma psicose, normalmente esquizofrenia.

SCULLY: - Bem, pelo menos estamos traçando um perfil. Eliminando possibilidades.

MULDER: - A necrofilia é considerada rara, mas ela é muito mais comum do que se possa imaginar, pois por ser algo extremamente repulsivo, é praticado com bastante sutileza. Além do mais, o abusador está protegido pelo silêncio do morto. Acredite, Scully, esse cara não transa com ninguém a não ser mortos. Ele se sente incapaz disso. É tímido e não tem namorada.

SCULLY: - Uma vez ouvi comentários, ainda no tempo da faculdade, de que... Esse tipo de coisa acontecia habitualmente nos necrotérios.

MULDER: - Seus colegas homens, Scully, são todos suspeitos. Já li relatos de médicos legistas pegos em flagrante durante uma relação sexual com um cadáver. É como eu falei, ao contrário do que as pessoas pensam, isso acontece com mais frequência do que se supõe, mas é omitido pelo silêncio natural do cadáver.

Batidas na porta. Scully abre. O entregador de pizza parado, a observa.

ENTREGADOR: - Vinte e quatro dólares.

Scully paga a pizza. Pega a caixa e fecha a porta.

SCULLY: - Hum... Pizza de mussarela e presunto com champinhons. Pronto pra atacar?

MULDER: - Vou pegar os refrigerantes. O que quer?

SCULLY: - Qualquer coisa que seja diet.

MULDER: - (DEBOCHADO) Sei. Ei, me traz uma pizza com muito queijo e algo diet que é pra não engordar.

Mulder se levanta e sai do quarto. Scully faz uma careta.



BLOCO 2:

Hospital Geral de Bluesville - 11:47 P.M.

Mulder anda pelo corredor ao lado do velho de cabelos brancos, Dr. Carpenter.

DR. CARPENTER: - É um assunto delicado, agente 'Molder'.

MULDER: - Mulder.

DR. CARPENTER: - Desculpe, agente Mulder. Não posso dizer que em todos estes anos da minha vida médica não tenha ouvido falar de hábitos extravagantes por parte de enfermeiros, auxiliares e até mesmo de colegas da profissão. Entretanto, como dirijo este hospital, dentro de uma comunidade muito pequena, creio que se algo dessa natureza acontecesse por aqui, certamente todos saberiam. Não há o que esteja encoberto que não venha a ser desvelado.

MULDER: - Nunca percebeu nenhum comentário de alguém sobre alguma atitude estranha de algum dos profissionais deste hospital?

DR. CARPENTER: - Bem, o mais estranho que soube, (PISCA PRA MULDER) sempre converso com as faxineiras, elas sabem de tudo.

MULDER: - (SORRI) ...

DR. CARPENTER: - Foi de um estagiário de enfermagem vindo da Pensilvânia que foi pego em flagrante delito cuspindo na comida da senhora Parkinson. Aliás, se a conhecesse, cuspiria na comida dela também. É hipocondríaca e a cada eliminação de gases corre até aqui pra checar se não está com um tumor intestinal.

Mulder faz cara de pânico.

DR. CARPENTER: - Infelizmente o estagiário não ficou por muito tempo. Isso aconteceu há uns dois anos. Ele voltou à Pensilvânia e me parece que trabalha num hospital de caridade por lá. Portanto, agente Mulder, acho que não lhe fui muito útil.

MULDER: - Agradeço suas informações. Servem para eliminar possíveis suspeitos.

DR. CARPENTER: - Cheque as funerárias. Sempre contratam pessoas novas, não para ninguém nesses locais.

A enfermeira se aproxima com uma prancheta. Entrega pra Carpenter. O médico põe os óculos e tenta ler.

DR. CARPENTER: - Hum... Cirurgia de esôfago sem convênio médico? Espere, já vou checar o caso.

A enfermeira se afasta levando a prancheta.

MULDER: - Agradeço sua ajuda. Se lembrar de qualquer coisa... (ENTREGA O CARTÃO) Ligue pra mim.

Corte.


Mulder parado na frente do hospital, comendo sementes de girassol e tremendo de frio. Scully sai do hospital.

SCULLY: - Nada. Conversei com os legistas, com auxiliares... Ninguém suspeita de alguém ou de alguma coisa.

MULDER: - Nem o diretor do hospital. Vamos voltar pro motel.

SCULLY: - Fazia tempo que não via você comendo isso, Mulder.

MULDER: - (DEBOCHADO) Eu voltei ao tempo de 'fixação oral', Scully.

Scully abaixa a cabeça séria e entra no carro.


Motel April - 12:48 A.M.

O banheiro repleto de vapor. Scully tomando banho. Deixa a água correr pelo rosto. Deixa as mãos ensaboadas descerem pelos seios, mamilos endurecidos, se tocando sensualmente, de olhos fechados. Passa a língua pelos lábios, murmurando 'Mulder'.

Corta para o quarto de Mulder.

Mulder deitado na cama, observando a mala aberta sobre a poltrona com as roupas dobradas. Mulder muda o canal da TV. Olha pra parede que divide os quartos. Olha pra TV. Mete o travesseiro na cara.

MULDER: - Fox Mulder, desvie sua atenção pra outras coisas! (ERGUE O EDREDOM) E você é um maldito traidor, sabia? Por que tem mania de querer me denunciar pra ela sempre? Ahn? Vocês dois tem algum trato combinado que eu não sei? Desiste rapaz, ela não quer mais você!


1:14 A.M.

Scully abre a porta do quarto, já vestida de pijamas. Mulder olha pra ela, segurando dois copos de café, na cara mais deslavada do mundo.

MULDER: - Café?

SCULLY: - Não, preciso dormir um pouco.

MULDER: - (ATIRA OS DOIS COPOS PRA TRÁS) Ok, sem café.

SCULLY: - O que quer?

MULDER: - (OLHANDO PRO DECOTE DO PIJAMA DELA) ...

SCULLY: - O que quer, Mulder?

MULDER: - (DISFARÇA) Eu?? Ahn, nada. Não quero nada, só vim oferecer café... Pensei que você fosse trabalhar até tarde, porque levou o notebook...

SCULLY: - Ah! Pode pegar, eu preciso dormir um pouco.

Mulder entra. Pega o notebook. Scully o observa de cima a baixo.

MULDER: - Então... Boa noite, parceira.

SCULLY: - Boa noite, Mulder.

Mulder vai saindo.

SCULLY: - Ah! Mulder, talvez as análises só cheguem depois de amanhã, o agente Forrest está atarefado.

Mulder vira-se pra ela. Percebe os mamilos endurecidos que se salientam pelo pijama.

MULDER: - (DISFARÇA) Não pediu prioridade?

SCULLY: - Pedi sim. É que estão atarefados mesmo...

MULDER: - Sempre estão.

SCULLY: -Mulder...

MULDER: - Fala.

SCULLY: - ... (OLHANDO PRAS CALÇAS DELE) Algum... Problema?

MULDER: - Comigo? Por quê?

Mulder olha pra baixo. Pânico. Quase deixa o notebook cair, colocando ele na frente do corpo.

MULDER: - (NERVOSO) Que ideia! É o meu celular... Deixei no bolso das calças.

Mulder sai às pressas e entra em seu quarto. Scully ergue a sobrancelha. Ergue os ombros e fecha a porta.


2:10 A.M.

Scully acordada, assistindo um filme, comendo uma barra de cereais. Algumas vezes ela lambe a barra, abocanha, mordisca, distraidamente.

SCULLY: - ... (PENSATIVA) Mas que ele estava excitado, ele estava! (CHUPA A BARRA) Celular... Ahn! O celular dele não é tão grande... Fixação oral... (LAMBE A BARRA) ... Ahn! Besteira!


3:14 A.M.

[Som: Pet Sematary – Ramones]

As nuvens negras pairam sobre o cemitério indígena, movendo-se rapidamente com o vento. A poeira levanta do chão.

Joey Ramone, em pé ao lado de um túmulo de pedras, usando roupas de couro, cabelos longos voando ao vento, óculos escuros, tocando e cantando.

Victoria, sentada no chão, rindo alto, brinca com um gato cinza que está morto.

Mulder ajoelhado na terra. Segura uma pedra. Rosto e camisa sujos de sangue. Mulder coloca a última pedra sobre o túmulo de Scully. Vê o sapato dela caído a seu lado. Pega o sapato e o abraça contra o peito. Deixa seu corpo cair sobre o túmulo, chorando.

Fade to black.

SCULLY (OFF): - Mulder???

Fade up.

Mulder, de pijamas, se acorda e dá um salto na cama, aos gritos, se encolhendo contra a cabeceira, colocando os braços em posição de auto-defesa.

MULDER: - (AOS GRITOS) Não me mate! Não me mate! Eu enterrei você para tê-la de volta!!!!!! Fiz por amor!!!!!!!!!

Scully, sentada na cama olha pra cara dele, erguendo a sobrancelha.

SCULLY: - Mulder... Acho que deveria evitar comer massas antes de dormir...

Um gato solta um miado. Mulder dá um pulo. Scully pega o controle remoto e aponta pra TV. Na TV está passando o filme Cemitério Maldito. Scully desliga. Olha debochada pra Mulder.

SCULLY: - E acho que deveria parar de assistir filmes de terror...

Mulder continua encolhido. Puxa o edredom cobrindo o corpo até o peito.

MULDER: - (DISFARÇA) O que faz no meu quarto? Como entrou aqui?

SCULLY: - A porta estava aberta... Mulder, preciso conversar com alguém.

MULDER: - Sobre?

SCULLY: - ... Esquece.

Scully se levanta. Mulder a acompanha com os olhos. Scully sai. Mulder pula da cama e tranca a porta. Escora-se de costas pra porta.

MULDER: - (ASSUSTADO) Eu acho... Que estou ficando velho pra encarar essas coisas assustadoras... (PÕE A MÃO NO CORAÇÃO) ... É a idade...


Cemitério de Bluesville - 8:49 A.M.

Mulder e Scully andam lado a lado pelos túmulos.

MULDER: - Ele mora aqui. Tem parentes em Long Island... Elementar demais, meu caro Watson... Não acha?

SCULLY: - Acho. Está fácil demais. Desconfie do que está muito óbvio...

Scully para em frente a uma sepultura. Mulder volta.

MULDER: - O que foi?

SCULLY: -(TRISTE) É um bebê.

MULDER: - ...

SCULLY: - ... Não quero ser chata e repetitiva.

Scully continua andando. Mulder a segue.

MULDER: - Como assim? Scully, eu não entreguei nosso bebê... Lembra-se que você me tirou de um hospital, que eu estava mais pra morte do que pra vida, não querendo mais viver?

SCULLY: - ... Eu... Eu lembro disso também, e tento encaixar todos os dias essas lembranças em minha mente. Lembranças que se chocam e se discordam... Mas não é isto que estou pensando.

MULDER: - E no que está pensando?

SCULLY: - Nos filhos que nunca mais terei. Isso é uma eterna mágoa que fica lá no fundo, volta, passa, retorna, vem de novo...

Mulder se cala. Ela segue andando. O zelador, alto, num uniforme, botas, luvas, óculos de lentes super grossas e cara de demente, surge de trás de um mausoléu, segurando uma pilha de flores murchas nos braços. Scully dá um grito. Ele solta as flores no chão, igualmente assustado. Mulder aproxima-se. Scully com a mão no peito, recupera o fôlego.

MULDER: - É o zelador?

MARVIN: - Des-des... desculpe... E-eu não qui-quis a-a-assustar vo-vo-você mo-moça.

MULDER: - (MOSTRA A CREDENCIAL) Agentes Mulder e Scully, do FBI. Queremos conversar com você.

MARVIN: - E-eu... E-eu pre-pre... preci... preci... tenho que le-levar essas flo-flores...

Mulder e Scully se entreolham. O zelador leva as flores até o carrinho e as joga dentro dele.

MULDER: - (COCHICHA) Eu mereço. Além de ser feio, o cara é gago. Não me admira que nenhuma mulher viva se interesse por ele...

Scully cutuca Mulder.

MULDER: - Au! O que foi que eu fiz?

Scully aproxima-se do zelador.

SCULLY: - Qual o seu nome?

MARVIN: - Ma... Marvin.

SCULLY: - Marvin... Bonito nome.

MARVIN: - (SORRI) É... le-legal... M-eu pai fo-fo-foi q-quem es-es-es... es...

SCULLY: - Escolheu.

MARVIN: - (SORRI) I-isso.

MULDER: - Marvin, viu alguma coisa na noite em que... Violaram a sepultura de Donna Lewis?

Marvin acena negativamente com a cabeça.

MULDER: - Onde estava na hora em que aconteceu? Tem parentes em Long Island?

Marvin começa a gaguejar, se atrapalhando todo. Scully cutuca Mulder, o censurando. Olha pra Marvin.

SCULLY: - Estava aqui quando aconteceu?

MARVIN: - S-sim. Dor... Dor...

SCULLY: - Dormindo?

MARVIN: - Si-sim. E-então eu... o vi-vi... vigia...

Mulder suspira. Afasta-se, com as mãos no bolso. Scully toca no braço de Marvin.

SCULLY: - Fique calmo. Ninguém aqui suspeita de você. Só queremos informações. Pode falar sem pressa.

Marvin sorri, soltando o ar.

SCULLY: - Respire fundo... hum? Isso. Assim.

MARVIN: - Tô- tô be-bem melhor.

SCULLY: - (SORRI) Então você estava dormindo. O vigia...

MARVIN: - Me me acordo-dou. Li-ligou pra po-polícia. O po-policial Joel che-chegou.

SCULLY: - Mora aqui, nunca notou algum suspeito, além dos adolescentes costumeiros?

MARVIN: - Na-não.

SCULLY: - O vigia disse que tem parentes em Long Island...

MARVIN: - (SORRI) É... Ir-imão.

SCULLY: - É um bom lugar pra se morar. Vai com muita frequência visitar seu irmão?

MARVIN: - Na-não... Só... Só no a-a-ani-ni...

SCULLY: - Aniversário dele.

MARVIN: - Isso.

SCULLY: - Vai de ônibus?

MARVIN: - (SORRI) É. N-aão po-posso diri... diri... gir.

SCULLY: - Obrigado, Marvin. Se vir alguma coisa... (ENTREGA O CARTÃO) Ligue pra mim.

Marvin pega o cartão e observa.

MARVIN: - (SORRI) Da... Dana.

Marvin perde os olhos pra Scully, num sorriso. Scully sorri. Afasta-se. Mulder a segue.

SCULLY: - Não foi ele.

MULDER: - E o que o inocenta? O fato de ser gago?

SCULLY: - Não, claro que não. Ele tem problemas mentais, Mulder.

MULDER: - Sim, ele tem.

SCULLY: - Portanto não dirige. Não poderia fazer paradas de Long Island até aqui, por cemitérios, estuprando cadáveres.

MULDER: - Ele tem cara de maluco.

SCULLY: - Você também tem cara de maluco e não significa que pratique sexo com cadáveres.

MULDER: - (DEBOCHADO) Talvez, mas transar com alguém que não se move embaixo da gente, dura, insensível e gelada feito pedra pode ser considerado necrofilia.

Scully para, incrédula. Mulder segue caminhando, rindo baixinho. Scully cerra o cenho.

SCULLY: - Imbecil!


Funerária Hanson – 3:49 P.M.

Mulder e Scully entram. Scully olha receosa para os caixões e coroas de flores. Mulder se aproxima do balcão. Toca a sineta. Nada. Mulder toca a sineta novamente. A velhinha vem atendê-lo.

MULDER: - (MOSTRA O DISTINTIVO) Agentes Mulder e Scully, FBI.

SRA. HANSON: - Não consigo ler nada sem meus óculos.

MULDER: - (ENTREGA A CREDENCIAL) Agora consegue?

SRA. HANSON: - (VENDO A CREDENCIAL) Quem é esse?

MULDER: - (APONTA PRA CREDENCIAL E PRO ROSTO) Sou eu. Agente Mulder, do FBI. Tenho algumas perguntas pra fazer.

SRA. HANSON: - Morrer? Quem vai morrer?

Scully olha pra Mulder, segurando o riso. Mulder suspira.

MULDER: - Ninguém vai morrer. Pode chamar o dono dessa espelunca?

SRA. HANSON: - Dunga? Não conheço nenhum Dunga.

MULDER: - Senhora, eu quero esclarecer algumas questões!

SRA. HANSON: - Sim, temos caixões. Sabe o tamanho do morto?

MULDER: - (IRRITADO) É hoje o meu dia! Continuando o show de horrores...

SRA. HANSON: - Sim, temos flores. Algum tipo em especial?

MULDER: - ... (PÂNICO) Senhora, tem mais alguém aqui ou estou falando sozinho?

SRA. HANSON: - Tem sim, mas é cobrado taxa extra se quer servir cafezinho.

Scully desata a rir, levando a mão sobre os lábios. Mulder olha pra velhinha.

MULDER: - É, estou bem arranjado, virei débil mental.

SRA. HANSON: - O que quer saber sobre o funeral?

MULDER: - (MURMURA) Desisto! A velha é surda!

SRA. HANSON: - Surda é sua mãe, seu mal educado! (GRITA) James! James venha até aqui! Tem um rapaz aqui querendo enterrar um tal de Dunga, quer cafezinho e flores no funeral e está me ofendendo!

Scully sai da funerária pra rir alto. James entra. São 2,10 metros de homem, corpo atlético, tatuagem nos braços, uma cicatriz no rosto e cara de mau. Mulder ergue a cabeça, pra olhar pra James, em fisionomia de pânico.

MULDER: - A... A... Agente Mulder, FBI...

James pega Mulder pelo colarinho, erguendo Mulder uns 20 cm do chão.

JAMES: - O que ele fez pra senhora, mamãe? Quer que eu encha ele de porrada?

MULDER: - Não! (ASFIXIADO) O-olha, e-eu fiz umas perguntinhas e... (TOSSE) Sua mamãezinha linda não me entendeu.

James solta Mulder no chão. Mulder quase cai.

JAMES: - Ah, desculpe. Mamãe é surda.

MULDER: - (LIMPANDO A ROUPA E AJEITANDO A GRAVATA) Preciso fazer umas perguntas de rotina.

JAMES: - Olha, se é aquela coisa de eu ter saído da cidade pra ir naquela festa no galpão dos Porter, eu não violei a condicional não, eu tô limpo. E nem tive nada a ver com o assalto do banco há dois dias atrás.

MULDER: - (INCRÉDULO) Estou checando informações de funcionários de funerárias.

JAMES: - A funerária é da mamãe. Além de mim, trabalha meu irmãozinho.

MULDER: - (PÂNICO) Irmãozinho??? Imagino!

JAMES: - Pra que quer saber disso, policial?

MULDER: - Assunto do governo. Posso falar com seu 'irmãozinho'?

JAMES: - Ele tá tirando o sangue de um corpo. Pode entrar.

MULDER: - (PÂNICO) Não, não, eu espero.

James sai pela porta por onde entrou. A velhinha olha pra Mulder, invocada.

MULDER: - Queria saber como uma senhorinha desse tamanho pariu um brucutu!

SRA. HANSON: - Estranho? (GRITANDO) James!!!!!!!! James!!!!!! Ele chamou você de estranho e me mandou tomar no...

Mulder pega a credencial e sai correndo pela porta da frente, mais rápido que um coelho.


Motel April – 9:36 P.M.

Scully entra no quarto de Mulder, tremendo de frio. Mulder sentado à mesa atento ao notebook.

MULDER: - Quer saber?

SCULLY: - O quê?

MULDER: - Eu sei o que esse cara quer.

SCULLY: - E o que ele quer além de sentir prazer com cadáveres? Mulder, passamos a tarde toda checando pessoas que tem contato com mortos, temos umas lista de dez no total. Nenhum deles é recém-chegado na cidade, o único que está morando aqui há menos de um ano é o baixinho da funerária R.I.P. que fica contando piadas de canadenses que só ele acha graça. Não penso que isso é motivo pra prende-lo, embora eu adore os canadenses e detesto esse tipo de brincadeira.

MULDER: -Eu sei o quanto gosta de canadenses, Scully. Gosta até demais de canadenses... Desde Bryan Adams a Nicholas Lea...

SCULLY: - E eu não acredito que nenhum deles seja o nosso homem!

MULDER: - (DEBOCHADO) Concordo com você, porque o 'nosso homem' está em Washington. Quando resolver achar a 'nossa mulher', conversaremos.

SCULLY: - Mulder, é sério! Amanhã vamos nos dividir. Vamos até a casa de cada um deles, checar e fazer mais perguntas. A prova toda está nos mamilos retirados das vítimas. É o que liga o necrófilo ao crime... Fico me perguntando que prazer deve haver em transar com um cadáver?

Scully senta-se na cama, fica pensativa.

SCULLY: - ... Ele vai atacar de novo, você disse. Quando acontecer mais alguma morte na cidade, envolvendo uma mulher, precisamos montar vigilância no cemitério... Acho que ligarei para o Dr. Carpenter, pedindo que disponibilize alguém para nos dar essa informação também, além de Barnes... E a droga dos resultados das análises que não chegam?

MULDER: - Esse cara já deve saber que estamos aqui. Deve estar com medo. Mas a tara vai falar mais alto e ele vai acabar cometendo o ato novamente.

SCULLY: - ... Mulder, é normal pessoas que tenham uma libido muito aguçada?

MULDER: - Como assim?

SCULLY: - (DISFARÇA) Não é... Tipo assim, pessoas que pensem em sexo com frequência...

MULDER: - Está falando do necrófilo?

SCULLY: -(NERVOSA) É... (SUSPIRA) Não.

MULDER: - Não há nada de anormal com pessoas que pensem em sexo, desde que ele não se torne o motivo único de suas vidas.

SCULLY: -(NERVOSA) E pessoas que... Vamos dizer assim... Que sentem prazer em... Imobilizar o parceiro, carência oral, dominação e... Ai, Mulder, esquece o que eu disse. Acho melhor ir dormir...

Scully se levanta.

MULDER: - Sei o que quer dizer. Esse caso mexe com qualquer pessoa e você começa a se questionar qual a diferença entre um necrófilo e outro tarado, porque você também sabe que carrega dentro de si disfunções psicológicas e emocionais que a fazem ter um tipo de comportamento sexual que você não acha que seja normal.

Scully volta a sentar na cama.

MULDER: -(DEBOCHADO) Cem dólares a consulta.

Scully sorri. Mulder se levanta, pega a cadeira e senta-se de frente pra ela.

MULDER: - Scully, ninguém é "normal". O que é normal? Normal vem de norma, como um padrão e não há um ser humano igual ao outro nesse planeta. Mesmo que fosse fisicamente, jamais seria psicologicamente. Nem gêmeos são iguais! Vou contar uma coisa pra você, que eu acho que a gente nunca conversou. Eu poderia ter cursado qualquer faculdade só pra entrar no FBI. O objetivo era entrar no FBI, pra investigar o desaparecimento da minha irmã. Mas eu queria fazer algo que se cruzasse com esse objetivo, tipo... Matar dois coelhos com um tiro. Quer saber por que escolhi Psicologia?

SCULLY: - (CURIOSA)Por vocação?Pra virar um perito em comportamento humano?

MULDER: - Não, Scully. Para obter respostas e achar explicação para todo o tipo de merda que fizeram com a minha mente.

SCULLY: - Lamento, Mulder... Nunca imaginei que esse fosse o motivo. Agora posso entender porque sempre relutou em acreditar na sua competência como psicólogo e não queria trabalhar com isso...

MULDER: - Você sabe, eu me culpava pela minha irmã ter sido levada e não ter conseguido defendê-la, por minha mãe não ter amor por mim como tinha pela minha irmã, por meu pai beber por causa da minha irmã, por meus pais tornarem minha vida um inferno emocional por causa da minha irmã... Minha irmã, a menina, era o centro da família. E o culpado por toda a desgraça dentro daquela casa era eu, o menino, que não tinha evitado o pior. Logicamente eles não diziam isso, mas era o que a minha cabeça de criança assimilava. Freud fala sobre a castração materna. Eu sempre me senti um menino castrado. Eu não deveria estar ali, eu não era a menina. Minha mãe deixava isso bem claro, meu pai não. No meu subconsciente, se eu fosse menina, eu seria aceito.

Scully olha ternamente pra ele.

MULDER: -É, Scully. Por culpa do "menino", a mãe sofria. O pai sofria. A irmã sofreu. Você sabe, já contei isso pra você, que eu pensei algumas vezes que eu tinha tudo pra ser gay. Mesmo nunca sentindo atração por homem, eu achava que de acordo com as teorias Freudianas, isso aconteceria, pois houve uma época em que se justificava a homossexualidade também como um transtorno de personalidade, e dentro desse conceito, eu bem poderia ser considerado candidato! Bom, não foi assim, não aconteceu, Freud não acertou todas e hoje sabemos mais do que sabíamos sobre o assunto. A verdade é que a mente é muito complexa, Scully. Você é uma soma de experiências boas e ruins, e tem um cérebro que armazena todas elas... E a família... A família pesa muito nisso. Nossos pais nos jogaram traumas que carregamos inconscientemente. Então não é só você que tem questionamentos. Todos temos e passamos por isso.

SCULLY: -(TRISTE) Deplorável o que seus pais fizeram com você, sabe? Eu sei que não foi intencional, mas... Me pego pensando se Victoria... Se não fiz com ela o que fizeram com você, ao contrário. Colocando nela a culpa da menina não ser o menino que se foi. E-eu...

MULDER: -Por isso eu sempre digo pra você não se afastar dela.

SCULLY: - (TRISTE) E-eu me sinto confusa... É obvio que tenho mesmo um transtorno.E acho que não quero falar de mim...

MULDER: - Sabe as fases do desenvolvimento psicossexual de Freud? Se você já percebeu, Scully, eu tenho um sério problema de fixação oral, vide as minhas sementes de girassol. Sim, pelo fato da rejeição da minha mãe, porque inconscientemente, eu acho que a magoei por ter nascido, porque eu desgracei a vida dela, entende? Como você também tem, mas devido ao fato de que você sente-se culpada por ter magoado muito o seu pai, a pessoa que você mais amava. O membro masculino pra você é como se fosse uma forma de pedir desculpas ao homem que você magoou. Maluco isso? Não! Completamente psicológico, humano e inconsciente! Nós somos seres sexuais, Scully. Todos os problemas psicológicos que carregamos pra cama, são heranças da infância.

SCULLY: - Aquela coisa Freudiana da mulher ver um pai no parceiro e o parceiro ver uma mãe na mulher...

MULDER: -Exato, embora eu goste mais do Jung, Freud merece todo o respeito. A psiquê das pessoas é algo fascinante e um campo enorme de estudo! Por exemplo, ainda na Crimes Violentos, eu peguei um caso de um psicopata que matava apenas homens. Aos 6 anos de idade, esse cara pegou os pais fazendo sexo. Ele não sabia o que era, não sabia porque o pai estava 'machucando' a mãe dele. Sexo não tinha o direito de existir no universo de 6 anos dele, era uma 'violência', entende o trauma? Desenvolveu repulsa por sexo e por indivíduos masculinos. Lógico que não justifica a atitude dele em matar, mas podemos entender como ele se tornou o que é. E o fascinante é como cada indivíduo trabalha isso dentro de si, alguns desenvolvem traumas e viram psicopatas e outros simplesmente não desenvolvem traumas e são pessoas comuns.

SCULLY: - Tenho tendência em dominar na relação por que fui criada com autoridade? (SORRI) Sou brigona, mandona, chata...

MULDER: - Certamente. Como eu tenho tendência em ser dominado porque fui criado sem ninguém se importar comigo, me tornando carente de atenção e carinho e que precisa conseguir isso nem que seja irritando a pessoa que amo.

SCULLY: - (SUSPIRA) Isso é muito louco, Mulder, mas faz muito sentido e explica tanta coisa... (ABAIXA A CABEÇA/ BRINCA COM OS DEDOS) Mulder, de uma coisa eu tenho certeza. Tanto eu, quanto você somos perturbados. E isso, é a única semelhança entre nós dois, como um elo que liga duas personalidades distintas... Quando me sinto carente, penso em sexo. Não quer dizer que eu o faça, mas eu penso e desejo. Secretamente, mas eu penso.

MULDER: -Muitas vezes é fuga. E mesmo sendo fuga, você pensa em sexo porque é o momento em que você quer ser desejada, porque está tão pra baixo, que tudo o que mais quer é ter alguém que a proteja, que sinta-se atraído por você. Você que se sente um nada na vida, indigna de qualquer atração, de qualquer carinho.Sabe o seu coração dividido pela paixão? É realmente sentimento ou apenas o seu fetiche? Uma coisa inconsciente de querer duplamente a atenção que precisa? Reflita sobre isso.

SCULLY: - (SORRI/ OLHA APAIXONADA PRA ELE) Como sabe tanto de mim?

MULDER: - (OLHA APAIXONADO PRA ELA) Porque basta olhar pra mim, pra saber de você... É, Freud estava errado. Eu não me tornei gay, mas me tornei um apaixonado por mulheres fortes que me dominam.

Os dois ficam em silêncio se olhando. Scully abaixa a cabeça.

SCULLY: - Por que o sexo é um tabu? Por que não conseguimos lidar com isso como algo normal da vida? Ok, me sinto muito mais liberta desde que expurguei Douglas dos meus pesadelos, mas... Mulder eu... Eu acho que meu pai não fez aquilo comigo. Meu médico disse que eu tenho dupla personalidade. E acho que ele tinha razão. Uma hora sou aquela pessoa legal, outra sou agressiva e...

MULDER: -Não, Scully. Eu discordo que você tenha Transtorno de Dupla Personalidade ou Transtorno Dissociativo de Personalidade. Ele era um mau profissional, usou de regressão indutiva, colocando em sua memória lembranças que não existiam. Você agora, aos poucos, começa a perceber certas coisas que não fazem mais sentido pra você. Não batem com a realidade. Seu pai era tudo pra você. Você teve um bom pai, e agora começa a questionar isso. Seu pai jamais tocaria em você. Mas a sua culpa aumenta depois de acreditar nisso porque escolheu um caminho profissional que seu pai não queria pra você.

SCULLY: - (DERRUBA LÁGRIMAS) Amo o meu pai, sinto tanto a falta dele na minha vida... Como pude acreditar nessa mentira, Mulder?

MULDER: - Não foi sua culpa.

SCULLY: -(SECA AS LÁGRIMAS) Não quero mais falar nisso. Vou buscar café que a noite vai ser longa.

MULDER: - Esqueça o café. Tá a fim de sair comigo?

SCULLY: - Mulder, não vamos confundir amizade com...

MULDER: - Quero checar os inferninhos noturnos da cidade, Scully. Esse cara bebe, com certeza. Pode estar nesse momento bebendo e pensando no próximo ataque.


The Oldies – Night Club – 10:11 P.M.

[Som: Erasure – Stop!]

Som alto. Mulder e Scully entram, vestidos em roupas casuais. Pessoas que dançam, outras que bebem no balcão do bar. Mulder pega Scully pela mão, dançando e passando entre as pessoas. Scully o segue, rindo dele. Mulder para e dança na frente dela. Scully rindo, o acompanha. Eles tentam falar no meio do barulho.

MULDER: - Tá me escutando?

SCULLY: - Sim!

MULDER: - Fica atenta aos tipinhos esquisitos e calados. Não aos esquisitos e agitadores.

SCULLY: - (SORRI)Tipo você?

Mulder olha debochado pra ela.

MULDER: - Vou pro bar. Se esse cara estiver aqui vai estar sentado, isolado em algum canto, observando mulheres. Dê uma giro por aí com sua beleza e tente perceber algum cara mais estranho do que eu. Qualquer coisa, me chame.

SCULLY: - Certo.

MULDER: - (PISCA O OLHO) E me chame quando tocar uma música lenta, porque sou uma negação pra dançar eletrônica antes de uma dúzia de cervejas!

Scully solta uma risada. Mulder se afasta. Scully olha pra todos os lados. Sai por entre as pessoas, observando rostos, gestos, comportamentos.

Mulder vai pro bar. Senta-se. A garota vem atendê-lo.

MULDER: - Uma cerveja...

Mulder vira-se de costas pro balcão. Observa as pessoas sentadas ao bar. Observa a pista de dança. Vira-se pro balcão. A garota entrega a cerveja.

MULDER: - Este é realmente o lugar mais frequentado da cidade?

GAROTA: - Claro que sim!

MULDER: - E o menos frequentado, você sabe?

GAROTA: - (ESTRANHANDO A PERGUNTA) ...

Mulder retira a credencial do bolso do jeans e mostra discretamente. A garota afirma com a cabeça.

MULDER: - E se eu for um cara sozinho, tímido e que goste de beber e ver garotas, aonde eu iria por aqui?

GAROTA: - Rua 13.

MULDER: - É o endereço?

GAROTA: - Não, o nome do lugar. Fica no centro da cidade, é só perguntar pra qualquer um como chegar que vão te indicar. É na Cleveland com a Chicago!



BLOCO 3:

Bar Rua 13 – 11:16 P.M.

Mulder estaciona o carro, em frente ao prédio sujo. Olha pra Scully.

MULDER: - Vá pro motel. Eu volto de táxi.

Scully olha pra entrada do bar com a placa 'go-go girls'. Olha invocada pra Mulder.

SCULLY: - Estamos trabalhando, aonde você vai eu vou.

MULDER: - Acho que o lugar é barra pesada demais pra você.

SCULLY: - Eu não tenho medo de nada e não sou nenhuma princesinha! Sou uma mulher independente e armada! E sou agente federal, seu machista!

Mulder olha pra ela, incrédulo.

MULDER: - Desculpe! Não quero ser machista, estou apenas sendo cavalheiro.

Corte.


[Som: INXS – Need You Tonight]

Mulder entra no bar, ambiente escuro, iluminado por luzes coloridas. As garotas dançam de biquíni na passarela. Muitos homens sentados à beira das passarelas observando o show. Uns colocam dinheiro no biquíni das garotas enquanto bebem.

Scully entra. Alguns homens olham pra ela. Scully abaixa a cabeça, constrangida com o ambiente, se colocando atrás de Mulder. Mulder pega Scully pela mão e se dirige pra passarela, puxando a cadeira pra Scully. Scully senta-se. Mulder senta-se ao lado dela.

MULDER: - Quer beber alguma coisa?

SCULLY: - Não bebo em serviço.

MULDER: - Alguém já disse que você é broxante, parceira?

Scully faz um beiço, indignada.

MULDER: - (SACANA) Quem sabe você sobe aí e faz um showzinho pra mim, hum? Já estou suando só de imaginar a cena.

Scully disfarça. A garçonete se aproxima, quase enfiando os peitos enormes na cara de Mulder. Scully abre a boca, incrédula, mas se cala. Cerra o cenho.

GARÇONETE: - Fala benzinho, o que você quer beber?

Mulder olha para os seios fartos.

MULDER: - (PROVOCANDO SCULLY) Leite?

Scully abre a boca e olha pra Mulder. A garçonete sorri.

GARÇONETE: - Que tal uma cerveja?

MULDER: - Sim, uma cerveja. E qualquer coisa diet pra minha companhia aqui...

SCULLY: - (CORTANTE E IRRITADA) Uísque duplo! Puro e sem gelo!

Mulder olha pra ela, incrédulo. Scully vira o rosto. O homem barbudo, com cara de sujo, sorri malicioso pra ela. Pisca o olho. Ergue o copo de cerveja, oferecendo. Scully arregala os olhos e olha pra passarela.

SCULLY: - Me pergunto que tipo de homem nojento vem num lugar nojento desses... Cada dia que passo, chego mais a conclusão que homem nenhum vale nada, são todos um tarados, que só pensam em sexo, em esportes agressivos e em carros.

Scully respira fundo.

SCULLY: - Não concorda comigo?

Ao ver que Mulder não responde, Scully olha pra ele. Mulder observa a morena que dança, o chamando com a mão e fazendo beicinho. Mulder sorri, encabulado, virando o rosto. Scully cruza os braços num beiço quilométrico.

SCULLY: - Está de serviço, Mulder.

MULDER: - E daí? Qual o problema?

SCULLY: - Nenhum. Pode olhar para quem você quiser, somos divorciados. Você não tem nada a ver com a minha vida e eu não tenho nada a ver com a sua.

MULDER: - Eu sei que estamos divorciados. Legal saber que nossa separação foi amigável e que você não se importa mais comigo. Assim estou livre. Como você também.

SCULLY: - (PROVOCANDO) E a bem da verdade, não sabe a vontade que estou de estar perto de Alex. Estou com saudades dele.

Mulder abaixa a cabeça, segura o riso. A loura se aproxima, sentando-se na frente de Mulder. Scully arregala os olhos. A loura dança, inclina os seios pra frente. Vira-se de costas e oferece as costas pra Mulder desamarrar o biquíni. Scully parece querer saltar no pescoço da mulher, mas cerra os punhos, tentando se controlar. Mulder desata o biquíni da loura, que se levanta e continua dançando.

SCULLY: - Por que fez isso?

MULDER: - Por que não faria? Por acaso o simples fato de desamarrar o biquíni da moça me faz ser um canalha? Ela está ali pra isso. Se eu não fizer, alguém vai fazer, faz parte do show.

SCULLY: - ... Não é isso. Acho que este tipo de comportamento depois de tantos anos não condiz com você.

MULDER: - O que não condiz comigo é ficar o resto da vida chorando por coisas que se foram. Quem sabe o que essa moça não faria pra ter um bom marido, uma casa, uma filha? Quem sabe o quanto ela não deseja ter uma vida decente, não ser alvo de exploração sexual pra sobreviver, mas nunca teve uma chance? Mas é lei da vida, a chance só aparece pra quem não sabe dar valor.

SCULLY: - (INCRÉDULA) ...

MULDER: - (FELIZ) Você está com ciúmes?

SCULLY: - Eu? Ciúmes de você? Humpf! Sonha com isso, Mulder.

MULDER: -(MUDA DE ASSUNTO) Pois bem, parceira. Tá vendo o cara gigante sentado lá no canto?

SCULLY: - ... O que tem?

MULDER: - Se chama James e trabalha na funerária Hanson.

SCULLY: - Ah, o filho da velha surda.

MULDER: - É o único da nossa lista que encontramos num lugar propício. Não acha?

SCULLY: - Mas isso não prova nada.

MULDER: - Sei que não é prova, mas amanhã você vai vigia-lo o dia todo.

SCULLY: - Eu? E você, o que vai fazer?

MULDER: - (DEBOCHADO) Depende da noite de hoje. Scully, tem coisas sobre a natureza masculina que você não entende. Uma delas é o significado de 'subir pelas paredes'. (OLHA-A DE CIMA A BAIXO) Acredite, estou subindo e não pretendo ficar lá em cima pro resto da minha vida. Estou começando a pensar em mim. Não devo obrigação alguma pra quem não se importa comigo. Estou sendo canalha? Não. Estou sendo justo e sincero comigo mesmo.

Scully solta um suspiro indignado. Levanta-se e sai do bar. Mulder a acompanha com um olhar triste e desanimado. A garçonete traz a cerveja.

GARÇONETE: - Sua amiga desistiu?

MULDER: - Ela tá meio chateada comigo. Se eu fosse um cara otimista diria que ela está com ciúmes... (PÕE O DINHEIRO NA BANDEJA) Entrega essa cerveja e o uísque pra aquele grandalhão lá do outro lado. Diz que foi cortesia minha.

GARÇONETE: - Ok.

MULDER: - Sabe se ele vem muito aqui?

GARÇONETE: - Não o vejo sempre não. Vem algumas vezes.

MULDER: - E tem alguém aqui que vem toda a noite?

GARÇONETE: - Só as meninas. O que tá procurando, bonitão? É tira?

MULDER: - Não sou tira. Estou procurando um amigo.


Motel April – 1:31 A.M.

Scully anda de um lado pro outro no quarto, fumando um cigarro, enfurecida, fora de si de tanto ciúmes.

SCULLY: - Subindo pelas paredes... Ahn! Eu é quem estou subindo pelas paredes! Tenho dois e estou na secura completa! Um só quer ser meu amigo, o outro meu parceiro de trabalho... Homens, bando de canalhas, safados! Aposto que Alex Krycek é gay! E Mulder é um tarado sem vergonha alguma! Se ele acha que só ele precisa de sexo está enganado! Eu também preciso... Ai, por que estou nesse calor doido, irritadiça e sem controle? (OLHA PRO CIGARRO) E por que estou fumando se eu não fumo?

Scully percebe barulho de carro. Apaga o cigarro no cinzeiro. Corre pra janela. Vê Mulder saindo do táxi e ir direto pra seu quarto, sozinho. Scully sorri, aliviada.

Corta pro quarto de Mulder. Mulder sentado na cama, cabisbaixo. Deita-se, pegando o travesseiro. Agarra-se ao travesseiro e fecha os olhos, se aninhando contra ele.


7:39 A.M.

O celular de Mulder tocando. Mulder, acorda-se. Dormiu vestido, agarrado no travesseiro. Procura o aparelho, meio dormindo. Estende a mão ao criado mudo e pega o celular.

MULDER: - Mulder.

DR. CARPENTER (OFF): - Agente Mulder, é Dr. Carpenter. Espero não ter ligado em má hora.

MULDER: - Não.

DR. CARPENTER (OFF): - Estive pensando no que conversamos... Tentou checar junto a universidade de medicina?

MULDER: - Que universidade?

DR. CARPENTER (OFF): - Em Trenton. Alguns alunos costumam vir fazer eventuais visitas e acompanhamentos médicos no hospital daqui, com professores...

MULDER: - ... Acontece com frequência?

DR. CARPENTER (OFF): - Não muita. Mas é uma informação.

MULDER: - Agradeço sua informação, Dr. Carpenter. É de extrema importância.

DR. CARPENTER (OFF): - Sugiro que ligue para o Dr. Johann. Ele pode ajudar no que for preciso para um contato inicial. Geralmente é Johann quem cuida da administração dos convênios hospitalares para a grade curricular de aulas práticas.

MULDER: - Tem o número?

DR. CARPENTER (OFF): - Sim... Estou abrindo a agenda...

Mulder pega o bloco no criado mudo e a caneta.

DR. CARPENTER (OFF): - Ah, aqui! Johann, 555-7878.

MULDER: - (ANOTANDO) Obrigado, Dr. Carpenter.

DR. CARPENTER (OFF): - Não me agradeça. Médicos devem ajudar as pessoas. Diga que eu o indiquei à você. Johann é um bom homem.

Mulder desliga. Levanta-se às pressas. Olha pela janela.

MULDER: - ... Que tempo horrível!!

Batidas na porta. Mulder abre. O entregador olha pra ele.

ENTREGADOR: - Fox Mulder? Assine, por favor.

Ele entrega uma caixinha. Mulder assina. Fecha a porta. Coloca a caixinha sobre a cama. Pega o celular. Aperta uma tecla.

MULDER: - Baba? Chegou a encomenda, obrigado. Deu tudo certinho lá? ... Ah, Baba, eu tô deprimido. Essa é a verdade toda, acordei chateado e triste hoje... (INCRÉDULO) Você não fez algum feitiço nisso não é? ... Sei. (DEBOCHADO) Acredito. E Victoria? (SORRI) Deixa eu falar com ela... Oi, Pinguinho, o que você tá aprontando, hum? ... Sério? Que 'Okie' mais feio... (SORRI) Tá, vai pegar o Okie. Beijo! ... Baba, não sei quando vou voltar, as coisas estão complicadas... Certo, faça isso. Qualquer coisa me ligue.

Mulder desliga. Vai pro banheiro.


8:23 A.M.

Scully se acorda. Senta-se na cama. Olha pro telefone. Fecha os olhos, num suspiro. Levanta-se, triste, vai pro banheiro. Se olha no espelho. Passa as mãos no rosto.

SCULLY: - Está ficando velha, Dana Scully. Velha, só e esquecida.

O celular de Scully toca. Ela sorri. Corre pro quarto e atende o celular.

SCULLY: -(SORRI) Oi Ellen! ... Obrigado, amiga... Hum, não, acho melhor não. Estou sem clima... Tá. Eu te ligo mais tarde... Mulder? Não... Nem comentou nada... E Alex, ligou? ... (TRISTE) ... Talvez ele não saiba. Mas mesmo assim obrigada por se lembrar de mim. Beijos!

Scully desliga. Senta-se triste na cama.

Corte.

Scully sai do quarto. Não vê o carro. Bate na porta de Mulder. Nada. Caminha até a recepção. O gerente sentado, assistindo TV.

SCULLY: - Bom dia. Por acaso o meu parceiro disse aonde ia?

GERENTE: - Não. Mas me pediu pra entregar isso aí pra você.

Scully olha pra caixinha e o envelope colado sobre ela. Pega-a. Sai com a caixinha. Senta-se no banco. Abre o envelope.

MULDER (OFF): - Carpenter ligou, fui checar algumas informações em Trenton. Não quis incomodar você tão cedo num dia tão especial. Feliz aniversário, Scully! Aproveite o dia e cuide de você. Isto é apenas uma lembrança. Nem eu, nem Victoria, sabíamos o que lhe dar. Mas como percebo que lhe falta algo peculiar que costumava usar, e do qual estranho a falta, resolvemos presentear você com algo tão valioso quanto. Se não for mais valioso ainda. Ou se não for a mesma coisa, de forma diferente.

Scully solta a carta. Abre a caixa, curiosa. Vê a corrente com um coraçãozinho em ouro. Scully sorri. Pega a correntinha na mão. Pega a carta.

MULDER (OFF): - Já que você não acredita mais no seu Deus, acho que ainda acredita neste símbolo. No poder que ele tem de transformar as coisas. Não importa pra quem você direcione o significado dele. O que importa é que seja com intensidade e que você seja feliz. Sinceramente, do seu amigo que lhe estima muito... Mulder.

Scully fecha a correntinha na mão. Começa a derrubar lágrimas, num sorriso.

SCULLY: - Ele lembrou...


Faculdade de Medicina da Universidade de Trenton – Nova Jersey - 11:34 A.M.

Mulder aguarda no escritório de estilo clássico e conservador, sóbrio e rústico, móveis de madeira, estantes com imensas prateleiras de livros. Mulder caminha, observando os títulos dos livros, fascinado.

MULDER: - Scully teria orgasmos múltiplos aqui com tantos livros de Medicina... E eu teria orgasmos de vê-la tendo orgasmos...

Mulder aproxima-se da mesa. Observa a plaquinha: H. L. Johann, PHD. Vascular Surgery.

MULDER: - É... Eu bem queria um PHD em alguma coisa... Pena que se eu tivesse, seria um PHD em esquisitices.

Mulder observa os quadros, os diplomas. A porta dupla se abre. O velho de terno e gravata, cabelos brancos e bigode entra, apoiando-se numa bengala, ar de professor conservador. Atrás dele o homem alto, de meia idade, de jaqueta e jeans. O velho olha pra Mulder. Mulder puxa a credencial.

MULDER: - Dr. Johann, Fox Mulder, FBI. Nos falamos por telefone.

O homem de meia idade aperta a mão de Mulder.

JOHANN: - Muito prazer, agente Mulder.

Mulder não entende nada. Olha pro velho. Olha pro homem de meia idade.

JOHANN: - Eu sou Johann. Este é o professor Eissler, da Universidade de Princeton. Está nos visitando. Sente-se por favor.

Mulder cumprimenta o velho. O velho acena com a cabeça e senta-se. Johann senta-se em sua cadeira confortável, quase se deitando.

JOHANN: - Não ligue, ele é surdo.

MULDER: - Melhor eu ficar calado então...

JOHANN: - Quer beber alguma coisa?

MULDER: - Não, obrigado.

JOHANN: - (APOIA OS BRAÇOS NA MESA/ OLHANDO PRA MULDER) Em que posso ser útil ao FBI?

MULDER: - Preciso de uma lista de alunos que tiveram aula ou visita no hospital de Bluesville, nos últimos seis meses.

JOHANN: - Posso saber quem me indicou?

MULDER: - O Dr. Carpenter.

JOHANN: - Ah, sim... Carpenter. Bom sujeito. E pra que quer esta lista, agente Mulder?

MULDER: - Estou investigando um crime.

JOHANN: - E eu posso saber de que crime está acusando um dos meus alunos?

MULDER: - Não estou acusando. Estou colhendo informações.

JOHANN: - Bem... É norma da instituição não abrir documentos de alunos nem diante da polícia. Mas serei gentil com você por ser amigo de Carpenter. Onde está hospedado?

MULDER: - No motel April, em Bluesville.

JOHANN: - Certo. Enviarei pra você via fax.

Mulder se levanta. Sai da sala. Johann olha pro velho.

JOHANN: - (FALANDO ALTO) Então professor, vamos discorrer sobre o painel de amanhã?


Motel April – 3:38 P.M.

Mulder desce do carro. Caminha até a porta de seu quarto. Tira as chaves do bolso. Olha pro quarto de Scully. Aproxima-se. Leva a mão pra bater, mas desiste. Scully se aproxima por trás dele. Mulder toma um susto.

SCULLY: -(SORRI) Obrigada pelo presente!

MULDER: - Feliz aniversário!

SCULLY: - Cadê o meu abraço?

Mulder sorri. Percebe a correntinha no pescoço dela. A abraça com força. Scully fecha os olhos. Mulder fica abraçado nela. Beija-lhe a testa. Afasta-se.

SCULLY: - Chegaram os resultados das análises.

MULDER: -Sério?

SCULLY: - Passei a manhã toda checando os detalhes. Mas só conto se ao menos for comer um pedaço de torta comigo.

MULDER: - (SORRI) Nem convide duas vezes.

Os dois saem lado a lado, em direção ao carro.

MULDER: - Consegui uma lista de alunos da Universidade de Trenton. Eles costumam ter aulas no hospital daqui.

SCULLY: - Ótimo. Mas acho que depois do que eu falar, você vai cair doidinho rolando no chão!


Restaurante da Tia Vaninha - 4:09 P.M.

Scully sentada à mesa, chá e fatias de torta. Mulder entra, se aproxima com as mãos nas costas. Scully olha pra ele, curiosa. Mulder entrega o buquê de rosas. Scully fica boquiaberta.

SCULLY: - Mulder, e-eu... São lindas!

MULDER: -Então, quer cantar parabéns?

SCULLY: - Não. Quero contar tudo que o agente Forrest e Chuck descobriram. Já liguei pro xerife, falei com o policial Joel, e hoje teremos uma longa noite no hospital. Intimações estão saindo.

MULDER: - Como assim?

Scully aspira o perfume do buquê. Sorri. Coloca o buquê sobre a mesa.

SCULLY: - Começarei pela parte menos empolgante. Um: foram encontradas fibras sintéticas de tapete vermelho nas roupas de Donna. Fui até a casa dos Lewis, não há tapete de fibra vermelha. O carro de Donna Lewis também não tinha forração vermelha. O nosso tarado tem um tapete sintético vermelho e felpudo. Dois: As marcas são de botas de caçador. Botas vendidas apenas em lojas de caça. Nosso tarado gosta de caçar.

MULDER: - Ótimo esporte para solitários.

SCULLY: - Três: está ficando bom agora. Forrest encontrou uma cadeia de moléculas... Em síntese: há indícios de álcool, provavelmente uísque, nas roupas da vítima. Ele deve carregar uma daquelas garrafinhas no bolso. Você tem razão, Mulder, ele é alcoólatra. Talvez faça sexo com o cadáver enquanto está bêbado.

MULDER: -(CURIOSO) E...

SCULLY: - Agora o melhor. Quatro: a análise de DNA do esperma não bateu com nenhum registro no sistema. Mas a análise do próprio esperma indicou a presença de Treponema Pallidum.

MULDER: - (INCRÉDULO) O desgraçado tem... Sífilis??

SCULLY: - Bingo, Mulder! É só pegarmos os suspeitos mais prováveis e fazer o exame. E se algum deles se recusar, basta apenas a observação médica da pele. A sífilis não apresenta apenas feridas nos órgãos sexuais, mas também manchas vermelhas pelo corpo. E caso ele não tenha iniciado um tratamento com antibióticos, ele deve estar desenvolvendo os sintomas da doença: problemas nos nervos, coração e vasos. Nosso necrófilo está cercado Mulder. Pela ciência.

MULDER: - Além de necrófilo é masoquista... Imagina estar transando com sífilis! Mas Scully, isso não bate com o perfil que tracei. Como ele pode ter sífilis se é um cara que não tem relação sexual alguma com gente viva?

SCULLY: - Pode ter pego a doença de uma mulher recém morta, Mulder. Essa é a indicação de que ele trabalha mesmo no Hospital de Bluesville, ele é um dos primeiros a ter contato com o cadáver. Pode estar no necrotério do hospital, que é o único da cidade, ou na parte de atendimento. Ele pode ser um técnico, um médico, um enfermeiro e até um legista. E em qualquer caso desses, ele deve saber que tem sífilis e deve estar se tratando. Até o antibiótico específico, se for encontrado em sua casa, pode denunciá-lo...

MULDER: - Talvez isso explique porque ele resolveu atacar cadáveres não tão frescos. Por segurança.

SCULLY: - Mas agora chega, vamos primeiro comemorar o meu aniversário.

MULDER: -Com direito a chá e torta? Que chique, Dana Scully!

SCULLY: - Fiquei amiga da Tia Vaninha... (PISCA O OLHO) Peguei alguns segredos de confeiteira.

MULDER: - Vai trocar o distintivo por uma cozinha?

SCULLY: - Não. Mas vou entrar de sócia com a Ellen. Ela teimou que quer abrir uma confeitaria. Gostei da ideia. Eu entro ajudando com parte do capital e a decoração. E Ellen que vá pra cozinha!


Estrada secundária 78 - 10:16 P.M.

O carro estacionado no acostamento. Faróis desligados.

Som do vento balançando as árvores.

Som de batidas fortes quebrando ossos. Um gemido abafado.

O vidro frontal do carro, pelo lado de dentro, com sangue que escorre deixando marcas.A porta do carona aberta. Banco cheio de sangue. O taco de basebol sobre ele.

Som de respiração ofegante.

Som de pancadas e tapas.

VOZ MASCULINA (OFF): - Eu sei do que você gosta... É claro que eu sei... Ahn? Vem neném, vem pra mim, vem... Vem ser a minha mulherzinha... Você não gosta disso? Ahn? (TAPAS) Ohhhh yes! Não devia ter tentado me foder, porque agora eu estou fodendo você... Assim... E bem gostoso... Gosta disso? Eu sei que gosta. Assim você aprende o seu lugar, eu mando por aqui, me entendeu? (TAPAS) Eu mando! E vou foder seu rabo até você aprender isso, me entendeu? (TAPAS) Me entendeu????


Motel April - 11:36 P.M.

As árvores balançam com o vento forte. Ninguém na rua. A chuva começa a cair com força.

Corta pro quarto de Mulder. Mulder agachado, tenta ajustar o aquecedor. Scully sentada ao notebook.

MULDER: - Isso não esquenta.

SCULLY: - Era só o que faltava: Chover! Quer coisa pior que inverno com chuva?

MULDER: - Relaxa, Scully. Não é porque nenhum dos suspeitos apareceu no hospital que não vamos pegar o cara. Amanhã vamos fazer visitinhas o dia todo. Quando eu não for ao banheiro, você vai. Se encontrarmos o medicamento, ele tá ferrado.

SCULLY: - ... Mulder, impressão minha ou você tá meio triste hoje? Não disse nenhuma besteira, nenhuma piada...

MULDER: - ... Estou cansado. É isso.

Scully continua trabalhando. Mulder levanta-se.

MULDER: - (DEBOCHADO) Acho que vou buscar lenha e fazer uma fogueira no meio do quarto.

Mulder liga a TV. Tenta ajustar a antena. Scully fecha o notebook e levanta-se.

SCULLY: - Vou dormir. Estou cansada.

MULDER: - ... Tá.

Scully caminha até a porta. Vira-se.

SCULLY: - Mulder, por que ele retira o mamilo esquerdo dos cadáveres?

MULDER: - Pode ser uma forma de autopunição. Ele é esquizofrênico. Um maníaco compulsivo.

SCULLY: - Mas por que o esquerdo? Algo a ver com a proximidade do coração?

MULDER: - Bem provável. Por isso ligo o coração com seios e penso cada vez mais que a mãe foi a opressora. Você sabe o que os seios significam.

SCULLY: - Maternidade.

MULDER: - Relativamente sim. Pra um homem os seios significam conforto. Não deixa de ser uma espécie de ligação materna. Ela é inconsciente, mas está lá.

SCULLY: - Freud novamente?

MULDER: - Exato... (FIXA OS OLHOS NELA/ OLHOS TRISTES) ... Carência materna?

SCULLY: - ... O que significam pra você, já que é assim que entra na mente dos criminosos?

MULDER: - ...

SCULLY: - ... Uma forma de pedir desculpas a mulher que você magoou? Completamente psicológico, humano...

[Som: Chris Isaak – Wicked Game]

Os dois ficam se olhando.

MULDER: - ...

SCULLY: - ...

MULDER: - (VOZ EMBARGADA) Significam acalento... Carinho... Aconchego, proteção... Amor... Desejo... Você.

Scully abre a porta. Olha pra fora. O vento frio e forte passa por seu rosto, levando-lhe os cabelos pra trás. Scully fecha a porta. Respira fundo. Vira-se pra Mulder. Mulder ainda olha pra ela.

MULDER: - ...

SCULLY: - Está... Com o seu celular no bolso?

MULDER: - (SÉRIO/MURMURA) Não. Estou feliz em ver você.

Scully avança em Mulder, levando a mão no blusão dele, o erguendo. Mulder tira o blusão. Envolve os braços nela. Scully o empurra contra a parede, num ímpeto, abrindo as calças dele com urgência. Mulder a ergue. Scully leva a língua aos lábios dele. Mulder aprofunda o beijo. Os dois vão indo para a cama, devorando suas bocas, enlouquecidos de desejo, sem tempo para tirar as roupas.

Corte.


[Som: Chris Isaak – Wicked Game]

Mulder tira a blusa de Scully, desliza os dedos descendo a alça do sutiã dela, agarrando-lhe os seios e sugando um deles com desejo incontido. Scully inclina a cabeça pra trás, descendo a mão entre as pernas dele, por dentro de sua calça. Mulder, ofegante, procura a boca de Scully, a devorando, as línguas se tocam explorando-se mutuamente. Scully o empurra por cima da cama. Tira as calças, ficando só de lingerie e senta-se sobre Mulder, erguendo sua camiseta e mordiscando-lhe os mamilos. Mulder estende os braços pra trás, virando o rosto e se entregando. Scully desce os lábios e a língua pelo abdômen dele.


12:51 A.M.

[Som: Chris Isaak – Wicked Game]

Mulder em gemidos baixinhos, olhos cerrados. Revira o corpo angustiado. Scully sai por debaixo do edredom, subindo pelo peito de Mulder, devorando os lábios dele. Sentada sobre ele, agarra-se nas grades da cama, geme alto, ofegante. Mulder, também ofegante, movendo-se contra Scully, leva as mãos ao bumbum dela. Scully inclina o rosto sobre o dele, beijando-lhe e mordiscando os lábios. Mexe o quadris. Mulder solta um gemido de prazer. Os dois tocam os lábios, semi-abertos e arfantes, sem conseguirem se beijar, os corpos movem-se muito rápidos e trêmulos.


1:22 A.M.

[Som: Chris Isaak – Wicked Game]

Mulder vira-se sobre Scully, faminto, percorrendo a língua, brincando com os seios dela. Scully envolve a mão nos cabelos dele e desliza a outra pelas costas de Mulder. Ele desce a mão entre as pernas dela, a tocando. Scully esfrega as pernas, uma na outra, retorcendo o corpo de prazer. Mulder desce os lábios, beijando o corpo dela. Fica entre as pernas dela, massageando-lhe as coxas. Leva a mão até a calcinha. Scully dobra os joelhos. Mulder retira a calcinha com os dedos, delicadamente. Afasta as pernas de Scully, que as dobra sobre a cama. Mulder afaga novamente as coxas de Scully e desce seu rosto por entre as pernas dela. Scully vira o rosto no travesseiro, revirando o corpo, em angústia e êxtase.


2:01 A.M.

[Som: Chris Isaak – Wicked Game]

Scully vira o rosto, soltando gemidos. Mulder se posiciona sobre ela, afoito. Scully grita, arranhando-lhe as costas. Mulder inclina o corpo para trás, arremetendo-se com pressa, enlouquecido, em gemidos altos.


2:46 A.M.

[Som: Chris Isaak – Wicked Game]

Os dois rolam pela cama, suados e cansados, mas parece que nada basta. Scully fica sobre Mulder, cabelos revirados, aos gritos, movendo-se em cima dele com pressa.


3:16 A.M.

[Som: Chris Isaak – Wicked Game]

Scully de costas pra Mulder. Mulder abraçado nela, com o rosto contra a nuca de Scully. Os dois acordados, em silêncio. Mulder faz carícias na coxa de Scully. Scully observa algum ponto de fuga. Mulder afasta os cabelos que caem ao rosto de Scully. Beija-lhe o rosto. Scully vira-se pra ele. Mulder recosta seu rosto entre os seios dela. Fecha os olhos num sorriso. Scully afaga os cabelos dele, olhar distante e pensativo. Passa a mão pelo rosto dele, em carícias suaves. Ergue o rosto dele. Mulder abre os olhos. Scully desliza pela cama, devorando os lábios de Mulder. Mulder envolve os braços nela, a puxando pra cima de seu corpo. O beijo é intenso e dura longos instantes. Scully solta os lábios de Mulder, descendo seu corpo por cima do dele, pra baixo do edredom. Mulder fecha os olhos se entregando.



BLOCO 4:

3:57 A.M.

Scully recostada no peito de Mulder, perna por sobre o corpo dele. Brinca com os pelos do peito de Mulder. Ele com um braço envolvido nela. Com a outra mão, acaricia a perna dela, com a ponta dos dedos, ternamente.

MULDER: - ... Desculpe pelo início da noite. Eu não aguentei.

SCULLY: -Acontece. Algumas vezes não dá pra segurar.

MULDER: - É que... Eu não transava com ninguém desde que... Você foi embora.

Scully olha pra ele, incrédula. Segura um sorriso de 'me apaixonei agora'.

MULDER: - Eu... Eu não consigo mais fazer isso com ninguém... Só você me excita, me deixa doido... Acho que percebeu. Minha fixação é você, Scully.

SCULLY: - Tenho percebido algumas coisas e isso me assusta.

MULDER: - As minhas nada discretas ereções involuntárias diante de você?

SCULLY: - (SORRI) Não. Outras coisas. Mas não quero falar sobre isto.

MULDER: - Tá.

Mulder sorri. A abraça forte. Scully levanta-se num rompante. Mulder a observa. Scully pega a roupa. Mulder ergue-se na cama.

MULDER: - O que está fazendo?

SCULLY: - Vou dormir.

MULDER: - ... Mas... (SORRI) Por que não dorme aqui?

SCULLY: - Não devia ter acontecido.

MULDER: - Ah não comece! Você disse isso anos atrás! Voltamos ao zero e acontece de novo. Quer prova maior que era pra acontecer?

SCULLY: - Sei, mas agora eu tenho a certeza que não tinha antes. Admito, eu sou altamente pele, sexual e instintiva!

MULDER: - Scully, eu não estou entendendo nada.

SCULLY: - Mulder, eu disse que vou pro meu quarto dormir. Algum problema nisso?

MULDER: - ... Não, é que... Pensei que...

SCULLY: - Pensou errado.

MULDER: - (AGONIA) ... E o que eu deveria pensar? Nós fizemos amor e você levanta da cama e vai embora?

SCULLY: - Não fizemos amor. Fizemos sexo. É diferente.

MULDER: - (FECHA O OLHOS/ ANGUSTIADO) ...

Scully termina de se vestir.

SCULLY: -Olha, Mulder, essa noite não significou nada, tá legal? Foi apenas sexo. Eu estava a fim, você estava a fim, aconteceu.

MULDER: - (ENCHENDO OS OLHOS DE LÁGRIMAS) Não foi só isso... Da minha parte não foi apenas sexo. Se eu quisesse só isso teria com qualquer mulher. E eu não quero qualquer mulher, eu quero você.

SCULLY: - (GRITA) Pra mim foi Mulder! Que droga! Esse é o problema com você, nunca sabe separar nada! Sexo e amor são coisas diferentes! Não precisa haver um pra ter o outro, entenda isso!

MULDER: - (DESABANDO EMOCIONALMENTE) ...

SCULLY: - Foi só sexo, entendeu? Nada mais que tesão! Não vou dormir aqui com você, voltar pra você ou seja lá o que tenha pensado! Acabou, Mulder, ponha isso na sua cabeça de uma vez por todas! Nunca mais, entendeu? Foi apenas tesão, estávamos sozinhos e carentes e aconteceu! Que droga, não complica mais as coisas na minha vida!

Scully passa a mão nos cabelos, tensa. Mulder olha pra ela como quem levou o tiro de misericórdia. Scully sai, batendo a porta. Mulder cai com o rosto contra o travesseiro.

MULDER: - (CHORANDO) Essa mulher vai acabar com a minha vida!!! (GRITA EM DESESPERO) Eu não aguento mais, Scully!!!!!


8:07 A.M.

Mulder sai do quarto, olheiras enormes e mal humorado. Entra no carro. Dá a partida. Engata a marcha ré, olhando pra trás. Quase leva as latas de lixo. Sai do estacionamento acelerando.

O policial Joel entra no estacionamento com a viatura. Desce. Caminha até o quarto de Mulder e bate. Scully sai de seu quarto. Joel aproxima-se, tirando o chapéu.

POLICIAL JOEL: - Bom dia, agente Scully... Seu parceiro está por aí?

SCULLY: - Não está no quarto?

Scully olha pro estacionamento e não vê o carro. Olha pra Joel.

POLICIAL JOEL: - Eu... Eu não vim trazer boas notícias, agente Scully... Lamento informar, mas... Dr. Carpenter faleceu esta noite.

Scully olha incrédula pra Joel.

POLICIAL JOEL: - Achamos o corpo dele esta manhã, amarrado e amordaçado na beira da estrada.

Scully leva a mão à boca.

POLICIAL JOEL: - Ao que tudo indica foi agredido, morto a pauladas... (ABAIXA A CABEÇA) E estuprado... Levaram o mamilo esquerdo.


Hospital de Bluesville – 9:24 A.M.

Mulder entra na recepção. Uma faixa preta ao balcão, indicando luto coletivo. As enfermeiras caladas e tristes. Mulder se aproxima. Percebe Joel, parado no corredor, chocado, segurando as lágrimas.

MULDER: - Eu lamento, policial Joel. Acho que a cidade inteira lamenta.

POLICIAL JOEL: -(SE RECOMPONDO) É... Ele era um bom homem, um bom médico... Vai deixar um vazio nessa cidade. Não merecia uma morte violenta como essa.

MULDER: - Viu minha parceira?

POLICIAL JOEL: - Está necropsiando o corpo... Vai pegar esse canalha?

MULDER: - Infelizmente o Dr. Carpenter morreu. Mas a morte dele vai enfiar o desgraçado na cadeia, porque necrofilia ia dar uma pena leve. Assassinato com intuito de necrofilia é outra questão. Ele fugiu do controle. Está desesperado e com raiva. Começou a atacar homens.

POLICIAL JOEL: -Mandei minha esposa trancar as portas durante o dia. A cidade inteira já comenta. Evitamos informar o detalhe do estupro. Acho que entende porquê.

Mulder sente a mão sobre seu ombro. Vira-se. Marvin olha pra ele.

MARVIN: - A-a... agente Mu...Mulder... E-eu eu... E eu...

POLICIAL JOEL: - Marvin, acalme-se. Não vamos sair daqui e tem todo o tempo pra falar.

MARVIN: - A... A... do...doutor...

MULDER: - Carpenter?

MARVIN: - S-sim... e-eee-ele... es...es... esta...

MULDER: - Estava. O Dr. Carpenter estava onde?

MARVIN: - Cemi... cemi... ontem...

MULDER: - Dr. Carpenter estava no cemitério ontem. À noite?

MARVIN: - S-sim... e-ele va-ai levar floo-o...

POLICIAL JOEL: - Carpenter perdeu a esposa. Ontem era aniversário dela, sempre leva flores a noite. É quando saía do hospital. Praticamente vivia aqui dentro, a vida dele era isso.

MULDER: - Você viu alguma coisa?

MARVIN: - S-sim... Ho-homem... fa... fa...falava.

MULDER: - Ele falava com um homem. Dentro do cemitério?

MARVIN: - N-aão... Fo-fora. Ca-carro.

MULDER: - Dr. Carpenter foi levar flores ao cemitério. Saiu de lá e encontrou um homem e os dois saíram juntos no carro de Carpenter?

Marvin afirma com a cabeça.

MULDER: - Viu o homem?

Marvin nega com a cabeça. Mas ergue a mão ao alto.

MULDER: - Alto?

MARVIN: - S-sim... (BATE NAS BOTAS) B-bo...

MULDER: - Usava botas... (OLHA PRA JOEL) É o cara. (OLHA PRA MARVIN) O quanto alto? Maior do que eu?

MARVIN: - N-a-não... Seu seu... seu tama... tama... nho.

Mulder pega a caderneta do bolso. Aproxima-se do balcão. Marvin e Joel vão até ele. Mulder revira a caderneta.

MULDER: - Eliminamos o canadense baixinho da funerária. Eliminamos um Hanson da outra funerária. Ele é alto demais. Além disso o FBI não encontrou o DNA do necrófilo nos arquivos de criminosos. E James Hanson já cumpriu pena, teria registro.

POLICIAL JOEL: - Elimine os dois Hanson. O irmão dele é anão.

Mulder olha incrédulo pra Joel. Joel ergue os ombros.

MULDER: - Barnes, o gerente do cemitério... Barnes não tem ficha alguma na polícia, é do meu tamanho... Barnes fica. Quero um mandado de busca e apreensão de provas na casa de Barnes. É o último suspeito que me resta. Com exceção dos alunos do professor Johann, que o FBI está tentando os mandados ainda.

POLICIAL JOEL: - Farei isso. Mas o que procuramos?

MULDER: - Um tapete vermelho de pelos sintéticos, botas de caçador e antibióticos contra sífilis. O desgraçado tem a doença. Junte o máximo possível de homens e vasculhe cada centímetro.

Scully se aproxima. Acena pra Marvin. Marvin sorri, tímido, abaixa a cabeça.

SCULLY: - Tudo indica que o Dr. Carpenter foi morto com golpes desferidos por um objeto pesado. Eu arriscaria dizer que com um taco de basebol. O assassino o amarrou e amordaçou, o matou e o estuprou depois de morto. Ainda há lacerações que indicam isso, mas não há vestígio de sêmen.

MULDER: - Carpenter foi pego de surpresa. E se ele saiu com esse homem do cemitério, sinal de que o conhecia e de que confiava nele. Não imaginava que era o necrófilo.

Mulder guarda o caderninho.

MULDER: - Vou com os policiais obter um mandado e depois até a casa de Barnes. Vem, Marvin, vamos te dar uma carona.

Marvin abre um sorriso.


Residência de Jeffrey Barnes – 11:38 A.M.

Os policiais reviram o local. Barnes, de pijamas e robe, leva as mãos à cabeça.

BARNES: - Não sabia que era crime ser solteiro nesse país!

MULDER: - Não é crime. É investigação de rotina.

BARNES: - (GRITA) Cuidado!!!!!!!!! Esse é um abajur...

O policial deixa o abajur cair ao chão.

BARNES: - (TRISTE)Era um abajur de porcelana...

Outro policial abre a estante. Várias garrafas de bebidas. Mulder olha pra Barnes.

MULDER: - Não bebe, não é?

BARNES: - E é crime beber também? Estamos na Lei Seca de novo e eu não sabia? Eu juro que vou processar vocês todos a começar por você, agente Mulder.

MULDER: - Um homem foi morto por um maluco e eu não estou nem aí com a droga do seu processo! Gosta de caçar? Curte basebol? Melhor ir abrindo a boca.

BARNES: - Não gosto dessas coisas!

Barnes senta-se no sofá.

MULDER: - Estou num péssimo dia.

BARNES: - Então somos dois! O que quer? (DESESPERADO) O que acha que vai encontrar aqui?

MULDER: - Vou ir direto ao assunto: Tem sífilis?

BARNES: - (INCRÉDULO/ QUASE DEIXA OS ÓCULOS CAÍREM) Não!!!!!

MULDER: - Poderia ir até o hospital confirmar? Se fizer isso por mim, e realmente não estiver mentindo, eu deixo você em paz.

BARNES: - (ATORDOADO) Eu faço qualquer coisa, mas parem de revirar a minha casa!

MULDER: - Por que está tão nervoso?

BARNES: - (NERVOSO/ GRITA) Não estou nervoso!

MULDER: - Não me parece. Tem algo aqui pra nos esconder?

BARNES: - Não!!!!!

MULDER: - O que não quer que saibamos sobre você, ahn? Sobre a sua tara insana e nojenta?

BARNES: - (QUASE CHORANDO) Pelo amor de Deus, vão embora, eu vou ao hospital, eu faço qualquer coisa, mas parem de revirar minha casa!!!!!!!!!!

O policial aproxima-se do armário. Barnes salta do sofá, se colocando na frente do armário. Mãos espalmadas, montando guarda.

BARNES: - Não, isso não... Por favor, aqui não tem nada. Aqui não tem nada!!!!!!! (HISTÉRICO) Aqui não tem nada!!!!!!!

Os policiais afastam Barnes. Barnes põe as mãos no rosto. Mulder se aproxima. De costas pro armário, olha pra Barnes.

MULDER: - Ahá! Não tinha nada pra esconder é?

Mulder puxa a maçaneta do armário, encarando Barnes. Os policiais todos olham pro armário e ficam estarrecidos. Barnes senta-se no sofá. Põe as mãos no rosto.

MULDER: - Quantos mamilos tem aí dentro? Ahn?

POLICIAL JOEL: - Agente Mulder...

Mulder vira-se pro armário. Arregala os olhos.

Close dentro do armário. Roupas de couro, chicotes, correntes e o boneco inflável masculino que sai voando pela sala. Mulder põe as mãos no rosto.


Motel April - 12:21 P.M.

Scully abre a porta. Mulder entra. Senta-se na cama, pondo as mãos no rosto.

SCULLY: - Prendeu Barnes?

MULDER: - Não. Não é ele e tive a sorte de não levar um processo por abuso de autoridade.

SCULLY: - O que aconteceu?

MULDER: - Barnes é só um maldito sadomasoquista gay! Que por minha culpa a cidade inteira agora sabe!

Scully segura o riso. Mulder levanta-se, olha pra ela. Dedo em riste na cara de Scully.

MULDER: - E sabe por que isso? Por sua maldita culpa! Você me deixa doido!

SCULLY: - Eu??? Ah sim, agora a culpa das suas deduções errôneas é minha?

MULDER: - Você atrapalha a minha sanidade mental! Você me perturba! Você me quebra as pernas todos os dias e depois fica fazendo charme pra cima de mim!

SCULLY: - Ei, ei, ei! Eu não tenho culpa se você mistura as coisas, tá legal? Não me culpe pelo seu maldito mal humor!

Mulder respira fundo. Olha pra ela.

MULDER: - Pense com o coração. Pense com o coração.

SCULLY: - ???

MULDER: - É o que tenho que seguir à risca todos os dias, mas confesso, está ficando muito difícil!

Scully olha pra ele. Mulder sai porta à fora.


Cemitério de Bluesville - 8:11 P.M.

Scully desce do táxi, com um pacote de lanche. O táxi parte. Scully passa pela entrada do cemitério. Aproxima-se do carro de Mulder. Bate no vidro. O vidro desce.

MULDER: - O que quer?

SCULLY: - Vai dormir aí?

MULDER: - Vou. Esse cara tá me tirando do sério, Scully. Vai que resolva voltar e perturbar o descanso do Dr. Carpenter?

SCULLY: - Trouxe um lanchinho.

MULDER: - (MAL HUMORADO) Se tiver chocolate quente é amor.

Scully retira o copo. Entrega pra ele.

SCULLY: - Chocolate quente...

MULDER: - Se tiver chantili é eterno.

SCULLY: - Com chantili.

Mulder olha pra ela. Scully cerra o cenho.

SCULLY: - E não fique animado não. Foi pura coincidência.

MULDER: - (PIDÃO) Me faz companhia?

SCULLY: - ... Pensarei no seu caso. Se continuar com essa carinha de cachorrinho pidão até eu fico. Mas se essa carinha mudar pra pitbull enraivecido com vontade de me morder, eu vou embora!

Mulder faz mais carinha de pidão.

SCULLY: - Você é um vira-lata mesmo, Mulder. Não tem jeito!

MULDER: - É só você mandar eu rolar e fingir de morto que eu... (PENSATIVO) ...

SCULLY: - Ah não! Eu conheço essa cara e não gosto dela também!

MULDER: - E se... Esquece...

SCULLY: - Fala.

MULDER: - Entra aí, detesto ficar falando pela janela. Não se preocupe, não vou morder você e nem agarra-la à força.

Scully dá a volta e entra no carro. Mulder olha pra ela.

MULDER: - E se usássemos uma isca pra pegar esse sujeito?

SCULLY: - Não está pensando que eu vou me fingir de morta, me esconder num caixão, a sete palmos abaixo de terra, Mulder!

MULDER: - E quem é a imortal por aqui?

SCULLY: - Não abuse da minha sorte!

MULDER: - E se enterrássemos... A mulher invisível?

SCULLY: - E quem escreveria a continuação da fic?

MULDER: - Tô falando de enterrar um caixão vazio, Scully.

SCULLY: - Simular um enterro? Hum... Interessante essa ideia... Como saiu do seu cérebro?

MULDER: - Vou fingir que não ouvi isso. Ou podíamos pedir um cadáver emprestado a Universidade de Trenton. Que tal?

SCULLY: - Resta saber se o Dr. Johann concordará com a loucura.

Mulder liga o carro.

MULDER: - (SORRI) Vamos dar um passeio até Nova Jersey.

SCULLY: - Tem o endereço do Dr. Johann?

MULDER: - Não. Mas alguém na faculdade deve saber. Aperte o cinto, Scully. Vamos voar.


Faculdade de Medicina da Universidade de Trenton – Nova Jersey – 10:19 P.M.

A secretária aproxima-se do gabinete. Scully e Mulder atrás dela. A secretária bate.

SECRETÁRIA: - Prof. Johann???

Mulder come sementes de girassol, observando os quadros no corredor. Scully observa a secretária, que bate à porta novamente.

SECRETÁRIA: - Acredito que ele realmente não está. Deve ter ido pra casa.

SCULLY: - Poderia nos fornecer o endereço?

SECRETÁRIA: - Isso é realmente necessário?

MULDER: - Se não o fizer, é obstrução de investigação.

SECRETÁRIA: - (SUSPIRA) Ok... Vou buscar o endereço, nunca lembro o número. Mas é uma rua muito arborizada em Bluesville.

Mulder e Scully se entreolham.

SCULLY: - Ele mora em Bluesville?

SECRETÁRIA: - Pra dizer a verdade mora aqui, mas a residência dele mesmo é em Bluesville. Mora com a irmã, Geena Lewis.

A secretária se afasta. Mulder e Scully continuam se olhando assustados.

SCULLY: - Você não acha que...

MULDER: - É nojento demais pra qualquer pervertido!

SCULLY: - A própria sobrinha?

MULDER: - Carpenter o indicou a mim. E agora...

SCULLY: - Carpenter está morto...

Mulder puxa a carteira. Retira um cartão de crédito. Scully fica de costas pra ele, vigiando o corredor.

SCULLY: - Não havia tapete vermelho na casa dos Lewis. Nem havia nada que se referisse a caça.

Mulder abre a porta. Os dois entram. Andam pela sala. Mulder vasculha as gavetas da escrivaninha, Scully observa os livros impressionada.

SCULLY: - Nossa! Acho que vou ter um orgasmo com tantos livros!

MULDER: - (PÂNICO) Nem vou comentar nada. Nadinha!

Scully aproxima-se de outra porta. Abre-a.

SCULLY: - Mulder...

Foco na imensa sala, repleta de cabeças de animais pelas paredes. Mulder e Scully se entreolham.

SCULLY: - Ele mora aqui? Dorme no sofá?

MULDER: - Qual o problema? Dormi dez anos num sofá!

SCULLY: - ... Estou começando a ter medo de você, Mulder.

MULDER: - E o tapete vermelho?

SCULLY: - Quem sabe...

Scully entra na sala. Procura algo com os olhos. Acha o armário. Abre as portas.

SCULLY: - Não seja um tapete, mas...

Scully puxa o cobertor felpudo vermelho.

SCULLY: - Um cobertor.

MULDER: - Vou deixar você na frente da casa de Geena Lewis. Ligue pro policial Joel de lá... Vou pedir o mandado de prisão e depois vou pra delegacia.

Mulder puxa o celular e sai da sala. Scully fecha a porta, trancando-a e colocando a chave no bolso.

SCULLY: - Vamos, Mulder. Vamos encerrar esse caso. As provas estão todas aqui.


Delegacia de Polícia – 12:46 A.M.

Mulder entra às pressas na delegacia. O policial Joel bebe um café fumando um cigarro perto da janela.

MULDER: - Consegui a ordem de prisão. Vamos atrás dele?

POLICIAL JOEL: - Atrás de quem?

MULDER: - Como assim atrás de quem? Scully não ligou da casa de Geena Lewis?

POLICIAL JOEL: - Não. Nem falei com sua parceira e o plantão é meu.

Mulder treme. Fecha os olhos.

MULDER: - Filho da...

POLICIAL JOEL: - O que está acontecendo, agente Mulder?

Mulder sai correndo da delegacia. Joel apaga o cigarro e sai às pressas atrás de Mulder.


Cemitério de Bluesville – 1:26 A.M.

Foco nos pés usando botas. Foco sobe até revelar o Dr. Johann cavando uma sepultura.

JOHANN: - (PERTURBADO) Estão atrás de mim... Eu sei que estão atrás de mim, mas eu não vou me entregar... (GRITA) Eu não vou!!!!! Vocês sabem que não vou!!! Não tem nada de errado no que eu faço!!!!!!!!

Scully, amordaçada, amarrada, deitada no chão, olhos assustados. A cabeça sangra. Ao lado dela, Geena Lewis, morta com o crânio esfacelado.

JOHANN: - Não, suas piranhas... Eu não vou deixar vocês me ferrarem não!!!! Nenhuma de vocês duas... (RINDO) É, nenhuma de vocês vai me ferrar!!!! Eu vou ferrar vocês!!!!

Johann continua cavando. Para. Olha pra elas. Aproxima-se. Ergue a pá. Scully vira o rosto, fechando os olhos em desespero. Johann começa a dar com a pá na cabeça da irmã Geena.

JOHANN: - (GRITA) Você é culpada! Você! Você adorava aquela vaca da nossa mãe!!!!!!!! Sua vagabunda miserável!!!!!!!! Tão vagabunda quanto ela!!!! Vocês provocam, instigam a gente e depois nos humilham... Vadias desgraçadas!!!!!!

O sangue espirra em Scully, que chora, sem poder se soltar. Johann para. Apoia-se na pá. Olha chorando pra Geena.

JOHANN: - Por que você não ficou ao meu lado, irmã? Por quê? Você era tão bonita... Elas eram tão lindas... Tão cheias de vida... (GRITA/ FORA DE SI) Que isso me irritava!!!!!!!!!!!!!!!

Scully tenta se soltar, mas não consegue. Johann agacha-se e passa a mão no rosto de Scully.

JOHANN: - A morte lhe cai bem, Dra. Scully...


Residência dos Lewis – 1:49 A.M.

Joel se aproxima de Mulder, que agachado na sala, toca o tapete sujo de sangue. Mulder pega a correntinha de coração caída ao chão. A observa, segurando as lágrimas. Observa a mobília ao chão, objetos quebrados. Fisionomia distante, em estado nervoso.

POLICIAL JOEL: - Temos poucos homens, mas estão espalhados pela cidade. Pedi ajuda as cidades vizinhas para checarem as rodovias de acesso.

MULDER: - Houve luta...

POLICIAL JOEL: - Agente Mulder, sei que está nervoso, mas não creio que este sangue seja da sua parceira. Geena Lewis sumiu também. Não a encontro em nenhum lugar, e a senhora Lewis tem por hábito frequentar sempre os mesmos lugares. É uma mulher reservada.

Mulder se levanta. Olha pra Joel.

MULDER: - Eu sei pra onde ele as levaria.

POLICIAL JOEL: - Pra onde?

MULDER: - Cemitério de Bluesville. Ele sabe que estamos atrás dele, porque Scully estava aqui talvez contando a verdade para Geena Lewis sobre o irmão dela... O cerco se fechou. Ele vai tentar praticar sua tara pela última vez.


Cemitério de Bluesville – 2:11 A.M.

Johann puxa Scully pelos pés, em direção à cova. Ela reluta. Tenta se desvencilhar dele.

JOHANN: -Não sabe o quanto todas ficam lindas quando estão sujas de terra... Do pó ao pó... Tão imóveis, tão serenas... Elas não reagem, aceitam você, aceitam seu amor... Porque vivas elas não aceitam, sabe? Elas aceitam o seu PHD, o dinheiro, mas não aceitam a sua essência carente... Os seus medos... O seu amor... São todas umas vagabundas que se fazem de difíceis!!!!

Scully tenta se soltar, sem sucesso.

JOHANN: -Dra. Scully eu vou foder você bem gostoso. Eu prometo. E você vai ficar linda quando seus olhos azuis perderem o brilho da vida... Você não pode imaginar como é ver os olhos perdendo o brilho, aos poucos, a vida se esvaindo numa última inspiração de ar... Sufocada... O corpo fica pálido, o sangue não mais circula... A morte é linda! A podridão da carne está a caminho... A beleza da alma então toma forma... O fim é inevitável.Sou tão louco, doente e tarado quanto qualquer um de vocês! A diferença entre nós é o método. Eu mato o corpo para ter um corpo. E vocês matam a alma para isso!

Scully continua lutando. Para repentinamente, arregalando os olhos, apavorada. Johann olha pra trás e arregala os olhos, levando o braço ao rosto. Os vários golpes com a pá racham-lhe o crânio e ele cai morto dentro da cova, por sobre o cadáver da irmã Geena. Scully paralisada de medo. Donna Lewis solta a pá ao chão, roupas sujas de terra, corpo semi-decomposto. Dá as costas e sai, desaparecendo por entre os túmulos.


Motel April - 6:18 P.M.

[Som: Chris Isaak – Wicked Game]

Scully sentada à mesa, com um curativo na cabeça, digitando no notebook.

SCULLY (OFF): - Após a morte do necrófilo, o agente Mulder e eu ligamos para os familiares das três moças que também tiveram seus cadáveres violados, em outras cidades. Checando dados e informações descobrimos que todas as três eram parentes de Harold Lewis Johann, assim como Donna Lewis. Enquanto esta agente era mantida presa pelo culpado, Johann confessou a morte das garotas e os atos de necrofilia. Contou que desde jovem, ainda na faculdade de medicina, descobriu a paixão que tinha por mulheres mortas e que praticava o ato constantemente durante toda sua vida, facilitado pela amizade e respeito que tinha com os colegas de profissão que trabalhavam em hospitais e no Hospital de Bluesville, sem que estes nunca desconfiassem. Exames foram feitos indicando que ele estava com a presença de Sífilis.

Scully bebe um gole de chá.

SCULLY (OFF): - Johann não disse aonde escondeu os mamilos das vítimas. Até o momento da conclusão deste relatório, o FBI não conseguiu encontrar nada. Johann foi classificado como portador de distúrbios sexuais e psicológicos. Parentes nos disseram que desde a infância, Johann era o filho rejeitado pela mãe, tinha problemas de relacionamento e sempre demonstrou certo ódio pelas mulheres da família, como se todas fossem iguais a sua própria mãe. Anos mais tarde descobriria que era filho de um adultério. Seu pai cometeu suicídio ao saber da traição da esposa e Johann não quis seguir a profissão do pai, talvez por receio de ser parecido com o pai e sofrer o mesmo destino. Após o falecimento do pai, o menino Johann frequentou diversos psicólogos e parecia ter superado, mas culpava a mãe pela morte do pai. A sra. Johann morreu anos depois, durante problemas de cirurgia para a retirada de um tumor no seio esquerdo. Johann evidenciava desde jovem o medo de relacionamentos e de sexo, pelo medo de alguma namorada o trair e o recusar. Esta agente não consegue explicar cientificamente o que viu no cemitério, quando Johann foi morto. E acrescenta as palavras do necrófilo momentos antes de morrer: "Sou tão louco, doente e tarado quanto qualquer um de vocês. A diferença entre nós é o método. Eu mato o corpo para ter um corpo. E vocês matam a alma para isso".

Scully respira fundo. Toma outro gole de chá. Observa a tela pensativa. Olha para a cama.

Mulder dorme nu, de bruços, edredom sobre o corpo. Um lenço longo atado ao pulso. Scully vai pra cama. Mulder, meio dormindo, vira-se pra ela. Scully pega as mãos dele e as amarra na cabeceira da cama.

SCULLY: - (MURMURA/ LEVANDO A LÍNGUA A ORELHA DELE) Psiu! Quietinho... Você é só meu.

Corte.


No laboratório da faculdade de medicina, o professor descobre o corpo sobre a maca, diante dos alunos. Um deles nem presta atenção, observando os vidros com órgãos nas prateleiras.

PROFESSOR: - Hoje aprenderemos a fazer uma incisão para a retirada de um tumor no seio. Alguma pergunta?

O professor olha pro aluno distraído.

PROFESSOR: - Senhor Domnenberg, quer dividir a sua curiosidade com o resto do grupo?

Os alunos riem. O aluno distraído olha pro professor.

ALUNO: - Pra que vocês guardam mamilos nesses vidros?


X

09/09/2002

5 de Outubro de 2019 às 01:01 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~