S06#12 - REVELATIONS: TO ANYWHERE - PARTE III (FINAL) Seguir história

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O demônio é perverso e irônico. Sabe como jogar, conhece a essência de cada um de nós e nossos segredos mais profundos. Sabe como colocar em cheque o nosso coração. O que pode acontecer quando entre dois, surge um terceiro? Tudo o que Mulder sabe, é que Scully nunca mentiu pra ele. E Krycek sempre mentiu pra Mulder. Em qual dos dois Mulder deve confiar agora? Em seu inimigo ou em sua amiga? Naquele que desgraçou sua vida várias vezes ou naquela que sempre lhe amou? A escolha errada e Mulder perderá tudo, até mesmo sua própria vida.


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Todo o público.

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S06#12 - REVELATIONS: TO ANYWHERE - PARTE III (FINAL)

(Pra lugar nenhum)


📷



INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

Residência dos Mulder - 2:33 A.M.

[Som: I Promise You I Will - Depeche Mode]

Madrugada. Luz do abajur ligado. O relógio marca 2:33 A.M.

Mulder sentado na cama, Victoria do lado dele, dormindo, beicinho semi-aberto. Os olhos verdes de Mulder estão vazios, olhando pra algum ponto de fuga, como quem tenta entender e não encontra respostas. Mulder olha pra cama. O travesseiro de Scully. O cheiro dela ainda impregnado no ar, que ele aspira fechando os olhos, não evitando que as lágrimas caiam.

If you need a friend, don't look to a stranger. You know in the end, I'll always be there.

(Se você precisa de um amigo, não olhe para um estranho. Você sabe que no final, eu sempre estarei lá)


Mulder olha para Victoria. Olha pelo quarto. O blazer de Scully sobre a poltrona. Os óculos escuros de Krycek sobre ele. Mulder fecha os olhos.

But when you're in doubt, and when you're in danger. Take a look all around, and I'll be there.

(Mas quando você estiver em dúvida, e quando você estiver em perigo. Dê uma olhada em volta, e eu estarei lá.)


Mulder olha pra aliança em sua mão. Balança a cabeça em negação da realidade.

I'm sorry, but I'm just thinking of the right words to say. I know they don't sound the way I planned them to be.

(Eu sinto muito, mas eu estou só pensando nas palavras certas para dizer. Eu sei que elas não soaram do jeito que planejei.)


Mulder fecha os olhos, chorando quieto pra não acordar a filha. Morde a mão, chorando calado. Olhos cerrados, dor.

But if you'll wait around awhile, I'll make you fall for me. I promise you, I promise you I will.

(Mas se você esperar por um instante, farei você se apaixonar por mim. Eu te prometo, eu te prometo eu farei.)


Foco para a janela. O céu nublado e escuro.

[Fusão]

A luz do abajur ligada. Scully sentada na cama de Krycek, vendo um álbum de fotos. Ela começa a retirar as fotos e picá-las com uma tesoura.

Close na foto que ela pica aos pedaços, com ódio: Mulder com Victoria em seu colo.

VINHETA DE ABERTURA: WALKING TO ANYWHERE...



BLOCO 1:

Base Aérea de Wright- Patterson – Dayton – Ohio – 3:36 A.M.

O Coronel e alguns oficiais parados na pista de aterrissagem. O Coronel segura uma pasta em sua mão. O helicóptero pousa na pista. O Canceroso sai do helicóptero rapidamente, usando um uniforme de general, dirigindo-se ao Coronel que vem ao seu encontro.

CORONEL: - (CONTINÊNCIA) Coronel Anderson, senhor.

CANCEROSO: - O que tem pra mim?

CORONEL: - O relatório que pediu. (ENTREGA A PASTA) Aqui está. Demorei para encontrá-lo, senhor. Estava como falou, nos arquivos de 1950. É uma cópia. O original está com a CIA.

O Canceroso pega o relatório num sorriso. Volta para o helicóptero, levando a pasta consigo. Senta-se. Close no verdadeiro general morto, sentado ao lado dele, com um tiro na têmpora.

CANCEROSO: - (PARA O PILOTO) Vamos voltar pra Washington.

O Canceroso olha pela janela. Acende um cigarro. Traga fundo.

CANCEROSO (OFF): - Acabaram-se os informantes... E aquele cretino da moeda já deve saber o que eu fiz. Mas um homem também deve saber quando é o momento final. Quando é a hora de acabar. E a morte pode ser um cheque mate no tabuleiro do inimigo invencível... (SOPRA A FUMAÇA) Se é que ele realmente é invencível...


Esconderijo de Alex Krycek – 3:56 A.M.

Scully sentada na cama de Krycek, olhando para o nada, entre fotos picadas. Olheiras enormes, descabelada, cansaço e loucura estampados no rosto. Ela balança o corpo pra frente e pra trás como uma autista, abraçada a si mesmo, com frio, cantando "The Trial" do Pink Floyd.

SCULLY: - (CANTANDO) Crazy, toys in the attic I am crazy, truly gone fishing. They must have taken my marbles away. Crazy, toys in the attic he is crazy...

(Louco, macacos me mordam eu sou louco, fui fisgado mesmo. Eles deveriam ter tomado minhas bolinhas de gude. Louco, macacos me mordam, ele está louco...)

As mãos de The Gold Coin entram no foco, sobre os ombros de Scully. Ela não percebe nada, continua perdida na sua loucura.

THE GOLD COIN (OFF): - Isso minha criança... Eu tomarei conta de você, já que todos a abandonaram... Até seu Deus a abandonou... Pobrezinha...

SCULLY: - (CANTANDO) Crazy, toys in the attic I am crazy, truly gone fishing. They must have taken my marbles away...

(Louco, macacos me mordam eu sou louco, fui fisgado mesmo. Eles deveriam ter tomado minhas bolinhas de gude...)

THE GOLD COIN (OFF): - (CANTANDO) Crazy, toys in the attic... (RINDO) She is crazy...

(Louca, macacos me mordam... Ela está louca...)

Delegacia de Polícia – Washington D.C. – 5:21 A.M.

O policial passa levando a prostituta loura pelo braço, que reluta, mascando chicletes e tentando se soltar dele.

PROSTITUTA: - Ei, Checov! Você sabe que eu ganho minha vida honestamente, me libera aí vai! Me solta, seu imbecil fardado!!!

O policial a arrasta. Krycek sentado em sua cadeira, pernas sobre a mesa, fazendo bolinhas de papéis. Os dois detetives tomando café o observam.

DETETIVE #1: -O santo padroeiro das prostitutas está quieto ultimamente...

DETETIVE#2: - Acho que ele tá apaixonado. Não é Checov?

Krycek olha pra eles com o rabo dos olhos, em desaprovação.

KRYCEK: - Essas garotas tentam apenas sobreviver e ainda são exploradas pelos cafetões. Por que não vão se divertir prendendo esses caras e deixando as meninas com o lucro total pelo menos por uma noite? Ahn?

Krycek desvia o olhar para a porta. Arregala os olhos. Barbara Wallace entra, nervosa. Krycek se enfia rapidamente debaixo da mesa. Barbara aproxima-se dos detetives.

BARBARA: - Quem é o detetive de plantão?

Eles apontam pra mesa de Krycek.

DETETIVE#1: - É o Checov... (PROCURA COM OS OLHOS) Pra onde ele foi?

BARBARA: - Olha, eu não tenho tempo, tá? Me chamo Barbara Wallace. Sou jornalista e...

DETETIVE#2: - É, eu conheço você da televisão... Não a vi mais...

BARBARA: - (NERVOSA) Preciso de ajuda. Há dois dias... (ABRE A BOLSA/ RETIRA PAPÉIS) Estou recebendo cartas assim, ameaçando a minha vida. Há uma hora atrás eu saí da redação e meu carro foi seguido. Quando cheguei em casa, constatei que entraram no meu apartamento, reviraram tudo e colocaram fogo nos meus arquivos pessoais.

DETETIVE#2: - Tem algum suspeito?

BARBARA: - Jornalistas sempre falam demais. Pode ser qualquer um que tenha se sentido ofendido com alguma coisa que escrevi. Nada foi roubado, entraram para destruir minhas coisas. Pode ter sido algum aviso.

DETETIVE#1: - Venha comigo, senhorita Wallace. Vamos registrar a ocorrência...

Os três saem por uma porta. Krycek mete a cara pra fora da mesa procurando com os olhos. Pega a jaqueta rapidamente. Outro policial entra na sala.

POLICIAL #3: - Ei, Checov, acho melhor ir dar uma olhada na sua picape. Tem uns caras suspeitos mexendo nela.

Corte.

Krycek sai da delegacia, desce as escadas e olha pra picape. A gangue de rapazes mal vestidos, saem correndo. Krycek atravessa a rua indignado. Examina os pneus, não encontrando nada de errado.

KRYCEK: - Eu pego vocês, seus pivetes...

Krycek tira as chaves do bolso. Tenta abrir a porta. Parece emperrada. Krycek força, conseguindo destravar a porta. Senta-se. Coloca a chave na ignição. Leva a mão pra fechar a porta, mas detém-se, ao ver pelo retrovisor o carro bem mais atrás, parado, de faróis desligados. Dois homens nele. Krycek arregala os olhos e salta fora do carro.

Fade in.

[Som de explosão]

Fade out.

Krycek levanta-se da calçada, chamuscado, corte na testa. O carro suspeito sai acelerando, alguém atira algo pela janela, e o carro some pela rua, dobrando a esquina. Os policiais saem da delegacia e olham pra Krycek, incrédulos. Barbara sai da delegacia, tentando entender o tumulto. Krycek, de costas pra ela, tenta limpar a roupa, olhando os pedaços da picape espalhados pela rua e o pouco que resta do carro se queimando. Agacha-se e pega o maço vazio de cigarros Morley, colocando no bolso das calças. Sai caminhando pela rua, rapidamente. Barbara acompanha Krycek com os olhos.

BARBARA: - O que houve por aqui?

POLICIAL #1: - Acho que o detetive andou incomodando alguém da máfia...

Barbara observa Krycek de costas que está se afastando, o reconhecendo pela jaqueta.

BARBARA: - (DESCONFIADA) Quem é ele?

POLICIAL #1: - Checov.

BARBARA: -Ah! Um russo, como o alferes de Star Trek? Interessante...


Esconderijo de Alex Krycek – 6:03 A.M.

Scully termina de fazer um curativo na testa de Krycek.

SCULLY: -Tá doendo?

KRYCEK: - Sou imune a dor.

SCULLY: - Ok, senhor machão imune a dor. Não vai mesmo me dizer nada sobre isso?

Krycek, irritado, tira a jaqueta, o coldre e o distintivo jogando tudo em cima da mesa. Pega uma garrafa de vodca e bebe no gargalo. Scully o observa, totalmente desconfiada.

SCULLY: - Foi Mulder, não foi? Ele agrediu você...

KRYCEK: - Foi acidente de serviço, kroshka moya. Não tem nada a ver com Mulder.

Krycek vai pro banheiro. Scully o acompanha com os olhos, desconfiada. Krycek se tranca no banheiro. Retira do bolso das calças o maço de cigarros e o observa.

KRYCEK: - O Fumaça sabe que estou vivo... Agora eu tô ferrado! O pai quer vingança pela desgraça do filho... Scully, você só me arruma problemas!


Residência dos Mulder – 6:21 A.M.

Câmera pelo quarto até a TV ligada. Um programa religioso.

PASTOR: -Devemos estar atentos e ser vigilantes. O diabo está no mundo nos rodeando, tentando nossos corações, arrasando nossas vidas com seus encantos. Trazendo o ódio para dentro de nossos lares, separando casais e famílias, tentando nos puxar para o inferno, longe do amor de Deus! Lúcifer e os anjos caídos, com todo o seu exército estão aqui! Sim, estão! Lutando contra os homens de bem, contra os anjos de Deus que tentam nos proteger! É uma guerra celestial! De que lado estamos? Qual é o nosso exército? O amor, irmãos! Só o amor puro pode vencer a ira da besta porque o amor não é mais com o diabo! Ele odeia o amor!

O despertador toca. Mulder sentado na cama, olhos inchados, ainda acordado, olhar perdido no nada. Desliga o despertador. Olha pra Victoria, ao seu lado, que se acorda. Mulder vira o rosto e disfarça as lágrimas, secando-as. Levanta-se.

MULDER: - (SORRI) Bom dia, Pinguinho!

Victoria esfrega os olhinhos, bocejando num sorriso. Mulder abre as cortinas.

MULDER: - Hum, tá escuro ainda... E eu preciso de um banho antes que me pareça com um porquinho. Não saia daí...

Mulder ajeita a raposinha ao lado dela. Ajeita o edredom.

MULDER: - Isso, fica com a Nana, tá muito frio!!!... Brrrr (MUDA O CANAL DA TV) Você e a Nana ficam assistindo uns desenhos, tá certo? Depois papai faz a sua mamadeira.

Mulder vai pro banheiro. Victoria abraça a raposinha, assistindo TV.


6:33 A.M.

[Som: I Promise You I Will - Depeche Mode]

Mulder fazendo a barba. Observa Victoria pelo espelho, sentada na cama, de pijaminha, brincando com a raposinha. Victoria faz carinho na raposa. A cobre com o pijama de Mulder.

VICTORIA: - Io, Nana! Tá io! Brrrrrrrrr....

Mulder sorri. Fica a admirando pelo espelho. Victoria tira o pijama de cima da raposa. Enrola a raposa no pijama. Embala desajeitada a raposa.

VICTORIA: - Io, nenê! Io!

MULDER: - Impressionante a natureza feminina! (SORRI) Um ano de idade e já revela instinto maternal...

Mulder solta o barbeador na pia. Apoia-se na pia. Perde os olhos pra filha através do espelho.

MULDER (OFF): - ... Como alguém pode chamá-la de aberração?

Mulder olha-se no espelho.

MULDER (OFF): - Eu não tenho amor por mim? Será? Talvez eu não me ame mesmo, pra me submeter a passar o que passei, sendo ferido todos os dias e magoado. Mas eu tenho amor por minha filha. E não posso perdoar qualquer um que a magoe. Não posso. Nem mesmo você, Scully. Eu vou resistir. Por minha filha. E somente por ela. Nenhuma mulher no mundo vale o sacrifício. Mas a minha filha vale.

Mulder olha pra sua mão. Retira a aliança e a coloca na gaveta do balcão da pia.


6:35 A.M.

[Som: Bizarre Love Triangle - New Order]

Krycek sai do banheiro, de calças jeans e cabelos molhados. Scully vestida num tailleur sentada na cama, olhar vazio até perceber Krycek que começa a procurar uma camiseta. Scully olha pra ele, marota, analisando-o de cima a baixo.

SCULLY: -Você tem um traseiro bonito mesmo. Ellen tem razão.

Ele se vira rápido, de frente pra ela.

KRYCEK: -(IRRITADO) Eu não gosto que olhem pra minha bunda! Olha aqui, isso é invasão de privacidade, ok? Volte pro Mulder! Vai babar no traseiro dele! Eu tive uma noite do inferno, quase morri, preciso ao menos pregar os olhos por uns trinta minutos.

SCULLY: - Eu não entendo você. A gente já transou, por que me evita?

Krycek encontra a camiseta. Começa a vesti-la.

SCULLY: -(TRISTE) Entendi... Você não gostou. Eu...

KRYCEK: -Scully, você é linda, você é divertida quando quer, chata quando quer e incrivelmente interessante no imaginário de qualquer homem. Mas não pressiona, tá?

SCULLY: -Por quê?

KRYCEK: - Sou impotente, por isso.

SCULLY: - Inventa outra mentira mais crível. Você perdeu o tesão por mim, é isso? Acabou a mágica? Podemos viver coisas maravilhosas juntos e você fica aí se fazendo de difícil. E eu achava Mulder complicado. Você é pior ainda! Ficamos três dias naquele hotel em quartos separados e você me enrolando. Algum trauma?

KRYCEK: - (IRRITADO) Eu não tenho trauma algum!

SCULLY: - Entendi. Está assustado porque eu disse "eu te amo". Não precisa ser recíproco. Podemos fazer disso apenas um caso. Apenas sexo. É normal entre homem e mulher.

KRYCEK: - Eu sinceramente não sei até onde eu vou aguentar. Se você não fosse quem é, eu já tinha... Deixa pra lá.

SCULLY: - Não vai dormir? Deve estar cansado, afinal trabalha a noite toda naquela delegacia... A gente pode ir pra cama, eu posso fazer uma massagem relaxante em você...

KRYCEK: -Nem mais em sonhos, Scully!

SCULLY: - Por que me evita?

KRYCEK: - Já conversamos sobre isso.

SCULLY: - Então vou deixar você dormir.Vou voltar ao FBI. Acabou minha licença médica.

Scully se levanta. Krycek olha pra ela. Scully ergue a cabeça, o observando.

KRYCEK: - Nada do que eu ou qualquer um fale pra você é o suficiente. É como se escutasse agora e em questão de dez minutos esquecesse tudo.

SCULLY: - ...

KRYCEK: - Seu sogro está furioso comigo. Ele não está gostando de ver o filhinho ser confundido com um alce. Portanto, ache algum lugar pra você antes que a coisa fique pior pro meu lado. Agora não basta o seu marido, ainda tem mais o pai dele querendo o meu pescoço. Tem noção da confusão que trouxe pra mim? Eu quase morri essa noite! E por algo que nem fiz! E quando isso acabar quem vai ficar aqui atirado e chorando por ter perdido tudo sou eu. Com sorte. Porque acho que não vou sair vivo dessa confusão.

SCULLY: -E-eu...

KRYCEK: - Não. Você parece que está nas nuvens. Não entende nada. Nem entende quando eu falo que eu estou sofrendo. Eu, tá entendendo? Eu sou o único aqui que vai terminar ferrado! Scully, você me atrai. Apenas aquela coisa de curiosidade. É tesão mesmo. Mas não faça isso virar outro sentimento do qual eu e você vamos nos arrepender depois. Porque eu estou sozinho e muito vulnerável. E numa fase emocional complicada. Como eu já disse, você não sabe nada da minha vida, então não brinque com meus sentimentos. Posso ser o canalha, o cretino, aquele que ferrou meio mundo, mas não me julgue. Eu também sou um ser humano.

Os dois ficam se olhando. Scully está triste, olhar perdido. Krycek a envolve nos braços. Olha-a nos olhos.

KRYCEK: - De um jeito ou de outro, eu vou perder tudo, kroshka moya. Mas pelo menos eu mereço isso por tudo o que eu estou fazendo e que ainda farei.

Krycek leva a mão entre os cabelos de Scully. Desliza os dedos entre os fios. Aproxima o rosto e aspira o perfume dos cabelos dela. Scully fecha os olhos. Krycek leva os lábios aos lábios dela e dá um beijo suave. Se afasta. Scully parece meio perdida, tentando entender.

KRYCEK: -Mais do que isso dá faísca e causa incêndio. Então tenha um bom dia. Vou dormir. Hoje eu tenho plantão noturno de novo. E se vir seu marido, faça um favor pra mim: volte pra ele. Porque os nossos signos não combinam, Scully.


6:39 A.M.

Victoria sentada na pia do banheiro. Mulder escova os dentes de Victoria, enquanto mantém sua escova na boca.

MULDER: - Hum, gostei desse sabor de uva... Não gostou?

VICTORIA: - (FAZENDO CARETA) Nah! Uim, papai!

MULDER: - Me lembre então de comprar outro creme dental pra nós dois. Que tal tutti-frutti?

VICTORIA: - (SE CUSPINDO PRA FALAR) Utchtti futchii.

Mulder tira a escova da boca e começa a rir. Victoria ao vê-lo rir, dá uma risada. Coloca as mãos no rosto de Mulder.

MULDER: - Como é o nome? Tutti-frutti?

VICTORIA: - ... Futchiiii utchiiiii!

MULDER: - Ah Deus! (RINDO) Você alegra a minha vida, Pinguinho!


7:01 A.M.

Mulder, já vestido pro trabalho, com Victoria no colo. Ela vestida num macacão jeans, de tênis, blusinha de lã. Mulder passa a escova no cabelo dela.

MULDER: - Eu não sei bem o que tem pra se pentear aqui, mas... Nossa! Madame, seus fios estão embaraçados... Um verdadeiro h-o-r-r-o-r!!!!

Victoria olha pra ele abrindo um sorriso. Franze o nariz, fazendo careta. Mulder roça o nariz no nariz dela. Ajeita o cabelo de Victoria.

MULDER: - Nem dá pra colocar um passador... Mas hoje não tem penteado... (COLOCA UM GORRO NELA) Pronto. Com direito a pompom! A bonequinha do papai tá prontinha. Nossa! Que gatinha! (ASSOVIA) Me dá seu telefone?

VICTORIA: - (RINDO) Nah!

Mulder pega a jaqueta de Victoria. Ela faz beiço de Scully. Mulder a senta na cama. Começa a vestir a jaqueta nela.

MULDER: - Eu sei que a madame detesta ficar entrouxada de roupa. Mas tá nevando lá fora.

Mulder a pega nos braços. Olha pra ela debochado.

MULDER: - Vem cá, meu Chilly Willy. Com esse gorro vermelho você tá parecendo aquele pinguim dos desenhos! (RINDO) Que pai mais malvado, né filha? Chamando o neném de pinguim!


7:14 A.M.

Mulder na cozinha, prepara a mamadeira. Victoria sentada na cadeirinha. Mulder caminha até a porta. Percebe um grosso envelope pardo no chão. Pega-o, indiferente. Joga o envelope sobre o balcão, junto com a correspondência acumulada. Mulder volta pro fogão. Vira a mamadeira sobre a mão e experimenta.

MULDER: - (SORRI) Hum, acho que eu vou tomar isso e você fica com o meu café. Que tal?

VICTORIA: - (TRISTE) Mama...

MULDER: - Eu sei que essa casa fica vazia sem a mamãe... Mamãe te ama, mas ela tá doente, precisa de um tempinho pra si. Logo mamãe vai voltar, tá bom?

Mulder pega Victoria e senta-se. Ajeita-a no colo e lhe dá a mamadeira. Lê o jornal sobre a mesa. Victoria segura a mamadeira com as mãos. Mulder olha pra ela.

MULDER: - Bom... Eu tenho que trabalhar e não dá pra deixar você na vovó... Você é minha filha, é problema meu, não tenho que incomodar ninguém mais. Vamos nós dois juntos. Eu dou um jeito.

Victoria sorri pra ele.

MULDER: - É isso aí. Eu por você e você por mim. Nós dois. Combinado, parceira? Hum? Quer trabalhar com o papai?

VICTORIA: - Papai!

MULDER: - (SORRI) Ok... Vamos terminar essa mamadeira e ir pro FBI. Tô cheio de trabalho.

VICTORIA: - Fibeí...

MULDER: - E não pense que vai fazer passeio turístico lá dentro. Você tem que ficar quietinha lá na sala, não pode sair. Tio Carter não gosta de criança. E daí papai pode perder o emprego. Tá certo?

VICTORIA: - Arter... obo!

Victoria dá a mãozinha pra ele. Mulder segura a mãozinha dela.

MULDER: - Combinado então.

VICTORIA: - (PROCURA COM OS OLHOS) Okie!

MULDER: - Ah, o Cookie tá namorando. Logo ele volta.


Arquivos X – 7:46 A.M.

Mulder entra na sala com Victoria nos braços, sacola de bebê e mais a 'Nana'. Acende as luzes. Liga o CD player.

[Som: I Promise You I Will - Depeche Mode]

Mulder puxa o carrinho escondido entre as caixas. Coloca Victoria sentada. Entrega a raposinha pra ela.

MULDER: -Isso se chama música eletrônica dançante. Pink Floyd também fazia música eletrônica nos anos 70, mas não era pra dançar. Tem diferença.

Victoria atenta. Mulder procura algo nas gavetas.

MULDER: - Quem realmente influenciou o movimento da música eletrônica foi o Kraftwerk, uma banda alemã. Depois surgiu o Yello, o Art of Noise... Até aí tudo era muito experimental. Mas eles abriram para o surgimento das bandas de eletrônica dançante: New Order, Depeche Mode, Erasure, OMD, Heaven 17, Information Society, EMF, Pet Shop Boys... Esses são os dinos que você deve ouvir e respeitar se quiser falar de música eletrônica. É como dizer que curte rock sem nunca ter ouvido Sister Rosetta Tharpe ou Chuck Berry. Respeite sempre os precursores de qualquer coisa. Sem eles, nunca haveria o resto.

Victoria afirma com a cabeça dançando no carrinho. Mulder sorri. Tira um papel da gaveta.

MULDER: - Papai precisa ir até a sala do Skinner, me promete que fica quietinha. E não deixa a Nana fazer barulho, ok? Fica aí curtindo Depeche Mode que papai já volta.

VICTORIA: - (AFIRMA COM A CABEÇA)

Mulder dá um beijo nela. Dança pra Victoria. Ela dá um sorriso. Mulder sai, fechando a porta.

Victoria observa a sala. Parece uma boneca com aquele gorro de pompom. Ela olha pra mesa de Scully, tristonha.

VICTORIA: - Mama... (SUSPIRA) ... Olta mama!


Gabinete do diretor-assistente Skinner – 7:55 A.M.

Mulder entra. Skinner em pé, tomando cafezinho.

MULDER: - Me chamou, "diretor Skinner"?

SKINNER: - Mulder, não me faça parecer um cretino. Estou sinceramente magoado com você.

MULDER: - Sem ressentimentos. O que quer comigo?

SKINNER: - Scully.

MULDER: - O que tem ela? Ainda não veio trabalhar se é o que quer saber.

SKINNER: - Veio sim. Está aí. Mas eu estou com um problema sério nas mãos.

MULDER: - Ela quer uma transferência, não é? Pra não ter que ver a minha cara.

SKINNER: - Ela quer a sua transferência.

MULDER: - (SORRI/ INDIGNADO) Mas era só o que me faltava!

SKINNER: - Ela não quer sair dos Arquivos X. E não quer ter que trabalhar com você. Eu não posso perder você dos Arquivos X e não posso perdê-la também. E agora, o que eu faço?

MULDER: -Você? Nada. Eu sou o responsável pelo departamento. Então sou o chefe. Ela é problema meu, não seu. Vamos, passe a bola que eu quero encestar hoje!

SKINNER: - Mulder, o que vai fazer...

MULDER: - (DEBOCHADO) Não vou "bater" nela, não se preocupe. Vamos conversar profissionalmente.

SKINNER: - Você? Mulder, você não está em condições de fazer isso.

MULDER: - Você não sabe de mim, Skinner. Porque se soubesse, acreditaria no que eu digo. Mas tudo bem, me faz feliz saber que todos vocês acreditam na Scully. Ela merece ser amada mesmo.

Mulder sai batendo a porta, indignado.


Arquivos X – 8:06 A.M.

Scully bate à porta. Mulder abre.

[Som: Bizarre Love Triangle - New Order]

MULDER: - Entre.

Scully percebe Victoria lá dentro. Victoria está em pé apoiada na cadeira de Mulder e se balançando como quem tenta dançar.

SCULLY: - (COCHICHA) Podemos conversar aqui fora?

MULDER: - Pinguinho, fica curtindo New Order aí que o papai já volta.

Mulder sai, fechando a porta. Age friamente com ela.

SCULLY: - Não vou mentir, não quero sair dos Arquivos X. É o que eu gosto de fazer.

MULDER: - Também é o que eu gosto de fazer.

SCULLY: - Mas não quero mais conviver com você.

MULDER: - Posso saber o motivo? É por que nosso casamento não deu certo? Profissionalmente sempre demos certo. Ou eu tenho alguma doença contagiosa por ser um monstro alienígena? Hum? Não se preocupe, eu sangro como qualquer pessoa. E é sangue vermelho, não verde fluorescente. Ah, mas você sabe! Deve ter visto na faca com a qual me esfaqueou.

SCULLY: - Por que é impossível conversar com você sem que fique me alfinetando?

MULDER: - Eu? (DEBOCHADO) Eu alfinetando você? (CÍNICO) Ah, sinceramente me desculpe. Não foi minha intenção, agente Scully. Embora alfinetadas doam menos que facadas... Ok, zerando. Eu sei do que tem medo. Tem medo de que trabalhando juntos vamos acabar falando de assuntos pessoais e retornar a velhas mágoas? Não se preocupe. Não é isso o que vai acontecer. Não vou cobrar nada de você, nem ficar jogando verdades na sua cara. Seja feliz com o seu Mr. Jaqueta de Couro e Brinco na Orelha. Tem minha benção! O casamento vai ser onde? Em Moscou? Por que não na Sibéria? Ursos polares são ótimos padrinhos para amigos ursos.

SCULLY: - ... Vai continuar?

MULDER: - Não, já parei. Do FBI pra dentro somos agentes. Trabalhamos como sempre trabalhamos. Daqui pra fora temos nossas vidas e não me interessa sua vida como nem a minha vida interessa pra você. Como nos velhos tempos. Sem intimidade pessoal alguma. Apenas colegas de trabalho, como sempre deveria ter sido.

SCULLY: - ... Vai conseguir separar as coisas?

MULDER: - Consigo, agente Scully. Você não me conhece tanto quanto achava me conhecer. Sou suficiente maduro pra saber a diferença.

SCULLY: - E Victoria? E-eu não posso ficar aí dentro com ela.

MULDER: - Isso é um problema seu, 'colega'. Ela é minha filha e eu não tenho com quem deixá-la. E enquanto não resolver isso, ela fica comigo. Se não quer vê-la, se a presença dela incomoda você, até eu resolver alguma coisa, você trabalha em outra sala. Pode ir correndo fazer queixa disso ao seu santo protetor 'Walter dos Aflitos'. Mas minha filha fica comigo e assunto encerrado. Acho que no mais... Não teremos problemas. Faça seu serviço que eu faço o meu. Sempre funcionou.

SCULLY: - ... Não vai tentar me ferrar, não é Mulder? Não está falando isso como um adulto pra depois eu acreditar e você tentar puxar meu tapete aí dentro.

MULDER: - Eu acho que você me conhece profissionalmente, eu não preciso puxar o tapete de ninguém pra mostrar minha competência profissional ou pra me vingar de alguém. Isso é baixaria, falta de profissionalismo. Se eu não cumprir minha palavra, eu mesmo saio dos Arquivos X. Portanto, acho que isso é segurança suficiente pra você. Sabe que eu não arriscaria nunca sair daqui... Só que antes de começarmos a trabalhar juntos, eu gostaria de falar algumas coisas com você. Não profissionais. Precisamos colocar assuntos pendentes na mesa e resolver isso antes de continuar a trabalhar juntos.

SCULLY: - Não tenho mais nada pra falar com você.

Scully dá as costas e sai. Mulder a acompanha com os olhos. Volta pra sala, fechando a porta. Victoria olha pra ele, o questionando. Mulder sorri pra ela, disfarçando a tristeza. Pega-a no colo e senta-se em sua cadeira. Perde os olhos num ponto de fuga, segurando as lágrimas. Victoria se agarra no pescoço de Mulder, apoiando a cabeça no ombro do pai, derrubando lágrimas.

VICTORIA: - Iço, papai... Iço...


Residência de Margaret Scully – Maryland – 6:38 P.M.

Mulder, com Victoria nos braços, parado na porta da frente. Meg abre. Mulder entra. Victoria dá os bracinhos pra Meg. Meg a pega no colo, beijando-a.

MULDER: - Scully está aí?

Cookie vem correndo, fazendo festa e abanando o rabo. Victoria abre um sorriso.

VICTORIA: - Okie!

MULDER: - É, pelo jeito está.

MARGARET: - Fox, ela não voltou. Deixou até o cachorro. Sumiu, não me ligou. Não faço ideia de onde ela anda. Eu não estou entendendo nada... O que aconteceu?

MULDER: - Estamos separados, Meg. Nem eu estou entendendo nada. Preciso falar com Scully. Ela esteve no FBI hoje, achei que tinha voltado pra cá.

MARGARET: - Liguei preocupada pra Ellen, mas Ellen também está nervosa. Dana sumiu, não disse pra onde ia. Aconteceu algo muito grave?

MULDER: - Aconteceu, Meg. Mas acho melhor saber disso pela boca da sua filha, não pela minha. Ah! E eu não traí sua filha. Sempre é bom avisar, já que sou sempre o culpado de tudo.

MARGARET: - Dana dormiu uma noite aqui, chegou na madrugada com a mala e o cachorro... Ela nem ligou pra saber de Victoria?

MULDER: - Scully não quer saber da filha. Se não percebeu, eu fiquei com a casa e com a menina. Ela só levou o cachorro, que eu quero de volta porque Victoria sente falta dele.

Mulder pega Victoria. Olha pra Cookie.

MULDER: - Vem, pulguento. Vamos pra casa.

Mulder abre a porta. Cookie sai correndo. Meg olha pra Mulder.

MARGARET: - Fox, Dana está com ideias esquisitas na cabeça.

MULDER: - Grande novidade!

MARGARET: - (SUSPIRA) Tem algo com a minha filha, Fox. Ela nunca agiu assim. Ela agora me acusa de negligência. Diz que o pai abusava sexualmente dela e de Melissa.

MULDER: - Olha Meg, Scully anda fazendo mestrado em mentira e agressão verbal. E eu não me surpreenderia se ela tivesse dito isso pra magoar você e se livrar de mais um da família. Charles me ligou ontem, magoado. Disse que ligou pro celular de Scully e ela disse que não tinha irmão.

MARGARET: -Eu não entendo...

MULDER: - Eu sei que Scully nunca agiu assim, que tem algo de errado com ela. Mas eu não sei o que é. E ela conseguiu realmente me deixar magoado a ponto de ficar cego e ignorá-la. Ela não ofendeu apenas a mim, mas a nossa filha. E isso me é imperdoável, porque Victoria não tem culpa de ter nascido. Eu fui um filho rejeitado, Meg. Eu sei como é ser rejeitado pela própria mãe. E ela sabe que nada no mundo me magoaria mais do que ver que minha filha está passando pelo mesmo que eu passei. Isso só me dá mais ódio da Scully. Porque ela sabe dos meus traumas e os está usando contra mim.

MARGARET: -Fox, se precisar de alguma coisa...

MULDER: - Obrigado, Meg. Mas tá na hora de crescer e fazer por mim. Eu tenho essa pequena que depende de tudo. E eu vou criá-la, mesmo que sozinho. E vai ser sozinho mesmo, eu não quero mais saber de mulher nenhuma na minha vida. Já tive minha cota de decepção.

Mulder sai. Meg fecha a porta. Mulder puxa o celular. Victoria se remexe, tentando ir pro chão para correr atrás do cachorro. Mulder a solta. Aperta uma tecla do celular.

MULDER: - ... Desligado. Mas eu a encontro. Ela não vai fugir assim. Eu tô entalado até a garganta! (APERTA OUTRA TECLA) ... Ellen, é Mulder. Scully está com você? ... Ellen, me faz um favor? Se Scully aparecer me ligue. Sei que você é amiga dela, mas eu preciso que não diga nada pra ela e me ligue... Eu só preciso falar... Não, eu não quero bater nela! (IRRITADO) Você também é?

Mulder desliga na cara de Ellen.

MULDER: - (INDIGNADO) Bater nela... Ahn! Olha que a ideia tá me soando interessante, afinal de contas se eu 'já faço isso', que mal teria justificar a fama de espancador de mulheres indefesas?


Apartamento de Ellen – Washington – 8:39 P.M.

Mulder entra no prédio com Victoria. Entrega a menina pra Ellen, que está parada no saguão.

MULDER: - Obrigado.

ELLEN: -... Ela é minha amiga, eu a amo. Mas eu já estive em seu lugar, Mulder. Pedindo apenas uma miserável resposta... O silêncio da indiferença machuca mais que a resposta. Então pegue sua resposta, despeja pra fora o que o coração está sufocando, e só assim vai conseguir seguir adiante... Só não perca a cabeça. Ou vou chamar a polícia.

Mulder entra no elevador.

Corte.


Mulder empurra a porta semi-aberta. Entra. Passa os olhos pela sala. Fecha a porta. Scully sai da cozinha.

SCULLY: -(INCRÉDULA) O que faz aqui? Essa é a casa da minha amiga, você não tem o direito...

MULDER: - (REVOLTADO/ AOS GRITOS) Eu quero falar!!!! Eu preciso falar!!!! Eu tenho o direito de falar!!!! Estou sufocado!!! Vivemos juntos por anos e o mínimo, depois de tudo o que fiz por você, é você parar pra me ouvir!!!!

Scully se encolhe contra a parede. Mulder respira fundo.

SCULLY: - Se tocar em mim eu te mato! Eu conheço você, Mulder! Não quero ouvir você se lamentando, chorando aos meus pés e implorando pra que eu volte!

MULDER: - Não vim fazer isso. Eu só vim aqui colocar as coisas no lugar. Primeiro: peguei o cachorro. Victoria se acostumou com ele. Sente saudades do bichinho.

SCULLY: - Cookie é meu!

MULDER: - Ok. Eu compro outro cachorro pra minha filha, já que esse é tão importante pra uma 'outra criança'. Segundo: Esqueceu algumas coisas suas. Quer que eu mande alguém entregar ou ponho no lixo?

SCULLY: -(O ESTRANHANDO)

MULDER: - (ESPERANDO RESPOSTA)

SCULLY: - Tudo bem, temos que colocar certas coisas na mesa. E depois disso, assunto encerrado, eu não quero mais falar sobre o passado. Eu quero tocar minha vida daqui pra frente. Começar de novo.

MULDER: - Idem. Quero saber da guarda de Victoria. O 'monstro' ficará comigo, não é? Acho que não está interessada naquela aberração assustadora de um ano de idade. Quero um papel oficial de que nunca mais vai me importunar e tentar tirar a minha filha de mim.

SCULLY: - Não farei isso. A guarda dela é sua. Eu tenho meu filho e vou encontrá-lo.

MULDER: - (AOS GRITOS/ FURIOSO) Seu filho morreu!!! Sua filha está lá embaixo, Scully!!! Sofrendo por estar sendo ignorada por você! Pela mãe dela estar a renegando como um bicho doente!!! Pelo amor de Deus é uma criança!!!

SCULLY: - (GRITA) Não quero saber de mais nada!!! Essa conversa vai terminar com você se jogando no chão e implorando pra que eu volte!!! Mas eu não vou voltar pra você Mulder!!!

MULDER: -Eu não vim até aqui pedir que volte pra mim! Não, Scully. O que eu quero é que pense por um momento, ok? Pode ter todas as razões do mundo pra me odiar. Pode me ofender, pode mentir o que quiser sobre mim e pra quem quiser. Mas eu não admito que rejeite Victoria. Ela também é sua filha! E está sentindo sua falta. Ela quer a mãe dela e eu estou fazendo tudo o que posso pra não dizer e demonstrar que a mãe dela não a quer mais!

SCULLY: - (GRITA) Ela não é minha filha!!!! É SUA filha!!!!

MULDER: - (GRITA) Quer saber quando você me machucou de verdade? Ahn? Não foi quando eu me arrastei aos seus pés e ouvi que eu era uma aberração! Não foi quando você me chutou, humilhou e desprezou o meu amor sincero! Eu suportaria qualquer ofensa sua, Scully. Mas nunca, NUNCA ofenda nossa filha! Isso é imperdoável pra mim!!!

SCULLY: - (GRITA) Eu não ofendi! Eu falei o que é verdade!

MULDER: - (GRITA) Não, você não falou a verdade! Você me machucou fundo quando disse aquelas coisas sobre Victoria! Pode me ofender, mas não ofender a menina que não tem culpa por ter a minha carga genética e nem de ter nascido! Eu poderia simplesmente me culpar por isso! Mas não! Se o significado de ser humano é ser como você, agradeço por eu e minha filha sermos descendentes diretos de outro planeta!!!

SCULLY: - (GRITA) Não vai conseguir segurar a barra, Mulder! Não vai! Eu conheço você!

MULDER: -(SORRI CÍNICO) Acho que você não me conhece mais, Scully. Eu vou criar a MINHA filha sem a sua ajuda e sem a ajuda de ninguém! Eu me viro sozinho! Quer a casa?

SCULLY: - Não quero aquela casa. Quero é o divórcio no papel.

MULDER: - Certo. Resolva isso que eu assino. O seu carro você levou... Quer uma pensão?

SCULLY: - Não quero mais nada de você, Mulder! Eu sei me virar sozinha! Não preciso de homem e nunca precisei!

MULDER: - Ótimo!

SCULLY: - Ótimo! Acabou?

MULDER: - Hoje eu tive a certeza de que a gente está caminhando pra lugar nenhum, Scully... Sem retorno. Você vai olhar pra trás um dia. E vai perceber todo o erro que cometeu. E nem doença justifica a sua atitude. Porque de louca você não tem nada.

SCULLY: - Não vou me arrepender. Nunca estive tão certa sobre uma atitude tomada.

MULDER: - Ah vai. Você me dá pena, Scully. Muita pena. Você vai quebrar feio a sua cara por não acreditar em mim. Eu batia em você? Eu tirei o seu filho? Pense bem nas coisas que você espalhou pra todo mundo, que fez meus amigos se afastarem de mim e quebrar qualquer vínculo comigo. Não é só você que está saindo da minha vida, mas um monte de pessoas que você colocou contra mim! Você não sabe o que está dizendo, você enterrou todo um passado lindo que tínhamos! Eu fui um bom marido e nisso eu posso deitar minha cabeça no travesseiro à noite e dormir tranquilo. Porque eu fiz a minha parte!

SCULLY: - Cala a boca, Mulder! Você me usou! Eu cansei de ser usada! De viver como cachorrinho nas suas mãos!

MULDER: - Acho que eu era o seu cachorrinho, Scully. Porque se eu tivesse traído, trocado você por outra mulher, todo mundo cairia em cima de mim me acusando de canalha. Aliás, Scully, as pessoas sempre criticam meu jeito de conquistador barato. Elas acham que isso prova que sou um sem vergonha mulherengo, enquanto o que eu sou é apenas um brincalhão que tira sarro da vida. Mas não, era eu quem não prestava, que ia trair você. Mas nunca achavam que você me trairia. Por isso, a sua culpa é mais leve sempre, afinal você é a séria Dana Scully. Eu sou o safado do Mulder que não presta mesmo. Mas pelo menos você provou pra todos agora quem é que não presta!

SCULLY: - (IRRITADA) Mulder você não tem razão alguma em dizer essas coisas. Eu cansei, eu tenho direito de cansar! Por que só os homens podem cansar e procurar uma vida nova? Por que quando a mulher sai de casa pra pensar em si ela é vagabunda? O homem nunca é, ele é um safado traidor, mas se justifica com 'é da natureza dos homens'.

MULDER: - Não é bem assim. Eu sempre disse que nunca trairia você. Eu traí? Ahn? Eu tinha tentação, as tentações apareciam. Eu sou de carne e osso e atire a primeira pedra quem nunca olhou pro lado e pensou: Uau! Mas eu cometi o ato? Nunca! E nisso eu tenho minha honra e ninguém pode me acusar de nada.

SCULLY: - Vai jogar na minha cara que dormi com Alex Krycek? É isso? Sim, esse é o problema! Admitir pro seu ego enorme que existe outro homem melhor que você e que esse homem é Alex Krycek! E se fosse você que tivesse dormido com outra mulher? Ahn? Mereceria o calvário por isso?

MULDER: - Ah pode ter certeza que mereceria! Você faria suas cenas de ciúme doentio, me poria pra fora de casa como fez tantas vezes sem razão alguma. Porque eu não podia olhar pra uma mulher que você criava a maior tempestade por isso. Mas você pôde dormir com outro homem, que não é um outro qualquer, é aquele sujeito mentiroso e que ferrou nossa vida tantas vezes! E mesmo assim eu aceitei isso e aceitei você de volta!

SCULLY: - Não pode me julgar por um ato! A traição nem contou tanto quanto o fato de você me destratar! Não me culpe pelo final do nosso casamento quando o omisso e culpado foi você!

Mulder enche os olhos de lágrimas. Scully vira-se pra não olhar pra ele.

MULDER: -(VOZ EMBARGADA) Se você vai colocar as coisas todas na mesa, então tem que ter a noção de que foi você quem entrou no meu mundo, escavou meus medos, alimentou meus sonhos, entreguei meus segredos mais ocultos pra você... (MORDE OS LÁBIOS) Até você encontrar a brecha que levava ao meu coração... Foi você quem me amou primeiro. Você quem fez eu me apaixonar. Foi entrando de mansinho, se chegando e bagunçou toda a minha vida. Você me transformou em alguém que eu nunca imaginava que poderia ser, me acostumou as coisas comuns a todas as pessoas, e agora... Agora você vai embora, tirando tudo de mim, como se nada tivesse acontecido.

SCULLY: - ...

MULDER: - (VOZ EMBARGADA) Só que agora eu não sou mais quem eu era. Eu me acostumei com isso. Eu dependo disso que você me deu. E então? Eu que me dane? Quem mandou eu acreditar no seu mundo, na propaganda que você me vendeu, em você? O que você está fazendo comigo eu... Eu nem consigo falar! Porque isso não tem nome! Me diz: Onde eu errei? O que faltou pra você? Porque acho que sexo nunca foi problema entre a gente. É saudade da vida de solteira? Vontade de experimentar "algo novo"? Eu posso entender. Não sou um machão troglodita e ignorante que vai ter um ataque cardíaco por ter tomado um par de chifres!

SCULLY: - ... Nosso assunto terminou.

MULDER: -Não, agora você vai me ouvir! Quer saber se estou arrasado? Eu nem sei o que estou sentindo! Parece mais como se alguém tivesse tirado o meu chão e estou flutuando, tentando entender o que está havendo e como cheguei a isso. Parece um sonho, sabe? Eu vou acordar e tudo vai estar como era antes... Dói, Scully. Dói muito. Porque a pior traição não é sexual. Essa eu posso perdoar. Mas não posso perdoar a traição pessoal, de causa. E dormir com Krycek, isso foi pessoal, traição de causa! O tipo de traição irremediável, que dói mais fundo, porque você tem a certeza de que perdeu definitivamente qualquer elo de confiança.

Mulder respira fundo. Senta-se no sofá. Cabisbaixo, põe as mãos no rosto. Scully continua tomada de ódio por ele, ódio expressado por um olhar frio e insensível.

MULDER: - (VOZ EMBARGADA) Eu... Eu não acredito que chegamos a esse ponto. E-eu nunca imaginei nos meus piores pesadelos que a gente terminaria e menos ainda desse jeito. Meu Deus, como é triste ver o nosso mundo, nossos sonhos, nossa família desmoronando! Ver que o amor fracassou, aquele mesmo amor que resistiu a tanta coisa, incansável, inabalável. Ele continua aqui dentro de mim, mas aonde foi parar dentro de você? ... E-eu não consigo entender como isso aconteceu! Até tento encontrar respostas, mas não as encontro. Onde eu errei? Eu me entreguei inteiro pra você! A gente lutou contra tudo e todos pra termos nossa filha e sermos felizes... A gente tinha tantos planos juntos! Eu me esforcei em fazer o melhor que eu podia... E de uma hora pra outra... Você vai embora? Por causa do outro?

SCULLY: - ...

MULDER: - (VOZ EMBARGADA) Se me dissesse que foi uma aventura, que foi apenas sexo, pele, desejo, atração, eu poderia entender! Krycek é um cara bonito, eu posso admitir isso. Tem presença, tem estilo. Aquele ar de malandro perigoso que as mulheres gostam. Não é um engravatado sem graça. Eu sou patético, eu sei. Ele não tem compromisso em ser o certinho, como eu tenho. Ele não esconde quem é. Não é um louco obcecado pela verdade. Ele curte a vida. Eu busco a desgraça todos os dias!

SCULLY: - ... Eu me apaixonei por ele, Mulder. Essa é a resposta que você não quer ver. Não foi traição pessoal, de causa, sexual... Eu apenas me apaixonei por ele. A gente não escolhe se apaixonar, nem por quem se apaixonar.

Mulder tira as mãos do rosto, revelando as lágrimas que caem. Seca as lágrimas com as mãos.

MULDER: - (VOZ EMBARGADA) É... Finalmente eu entendi.

Mulder seca mais lágrimas.

MULDER: -(VOZ EMBARGADA) Eu posso entender o que viu nele, Scully... Na minha cabeça só passavam os erros dele em nosso passado e ficava a pergunta "como ela pôde, depois de tudo o que ele fez?"... Mas agora eu consigo entender aonde eu falhei... Alex Krycek é mais homem do que eu. A verdade é essa. Ele não demonstra fragilidade. Nem sensibilidade. Nem romantismo. Nem se lamenta. Não fala muito dele, nem do passado dele. Ele é durão, guarda tudo pra si mesmo. Ele é um homem de verdade. Não é um menino que precisa chorar e desabafar seus segredos mais dolorosos. Ele não precisa de colo, não precisa ser dominado. Ele domina. É, eu finalmente entendi. Eu sou um menino. Ele é um homem. E uma mulher precisa de um homem, não de um menino.

SCULLY: - Eu cansei! Cansei da sua loucura, da sua violência, da sua estupidez! Cansei de ser maltratada!

Scully recosta-se na parede, braços cruzados, cabeça baixa.

MULDER: - Quando eu fui violento com você, Scully? Só tem amor pra você no meu coração, eu nunca machucaria aquela que me salvou do poço sem fundo pra onde eu estava indo. A mãe da minha filha, o amor da minha vida. Não, eu nunca faria isso. Mas peço desculpas por não ter sido o homem que você precisava.

Mulder se levanta.

SCULLY: - Se acabou o que tinha pra dizer, saia!

MULDER: - Eu lamento por você, Scully. Por ter jogado nosso mundo fora, nossos sonhos, nossa vida, nosso futuro. Lutamos por tanto e agora você joga tudo isso fora. Como se fosse nada. Partindo pra desafios novos. Sinceramente estou com pena do russo. É ele agora, que você vai encantar e iludir.

SCULLY: - ...

MULDER: - Mas não me importa. Espero que ele seja mais esperto do que eu fui. Aliás, tontice é algo que eu sempre tive em relação a sentimentos e mulheres.

Mulder sai. Scully bate a porta com raiva.



BLOCO 2:

Memorial de Lincoln – 9:46 P.M.

Barbara sentada no banco, observando a paisagem. Bebe um copo de café, com frio.

KRYCEK: - Conseguiu a informação que eu pedi?

Barbara permanece olhando o horizonte, sem se virar pra trás.

BARBARA: - Já sei. 'Não se vire'... Falei com um amigo no Departamento de Seguridade Social.

KRYCEK: - Nem a CIA sabe da existência dele. Ou pelo menos, Alberthi não consta nos arquivos... O que descobriu?

BARBARA: - Que ele também não consta nos arquivos de seguridade social.

KRYCEK: - Ele deve existir em algum lugar... Estão atrás de você, não estão? Tem algum lugar seguro pra ficar? Alguém que cuide de você?

BARBARA: - Não se preocupe comigo, sou maior de idade. Embora preferisse ser a Lois Lane nesse momento, para contar com um Superman... Entretanto, estou arriscando minha vida por alguém que nunca vi o rosto, enquanto você sabe quem sou e deve me ver todo o dia por aí. Fui rebaixada de apresentadora de TV e formadora de opinião para uma simples repórter da editoria policial, meu apartamento foi destruído, tem gente me seguindo o dia todo e mandando cartinhas nada amorosas e meu editor chefe começou a achar que eu ganho demais. Devo ter perdido o meu juízo mesmo! Agora faço ideia do tamanho da encrenca em que me meti! E tudo por alguém que nem sequer sei a cara feia que tem!

KRYCEK: - Você não sabe nada de mim. Melhor nem saber!

BARBARA: - Policial Checov, detetive da homicídios do Precinto 11? Ou devo chamar você de Alexander Dimitri Yavanov Krycek, soldado expulso do exército vermelho aos 18 anos, acusado injustamente de vender informações, levado à dura pena de exílio na Sibéria? Foragido, caçado e preso pela inteligência russa. Obteve perdão do governo trabalhando para a KGB como intermediário de informações ao final da Guerra Fria. Conseguiu asilo político nos Estados Unidos, quase às vésperas da queda do comunismo.

KRYCEK: - (INCRÉDULO) ...

BARBARA: - Nascido no inverno de 1962, em Moscou, vindo de uma família pobre, que dividia duas peças e um banheiro num gueto. Filho de Anna Larissa Yavanov, uma costureira de origem judia ucraniana, que morreu jovem com leucemia em cima da máquina de costura enquanto trabalhava, deixando seu filho único que tinha apenas 6 anos de idade.

Krycek fecha os olhos. Perde toda a reação.

BARBARA: -Criado pelo pai Mikhail Yuri Krycek, um homem revoltado, idealista, pacifista e sonhador, que odiava guerras, pois não pode nem ao menos conhecer o pai dele, um major russo que morreu em Auschwitz nas mãos dos nazistas. Mikhail era escritor, jornalista e ativista político, pregava contra o comunismo, e foi executado pelo governo russo dentro de sua própria casa, diante do filho de 10 anos.

Krycek abaixa a cabeça, perturbado.

BARBARA: - Terminou sua infância nas ruas engraxando botas do exército vermelho, roubando comida, ajudando as prostitutas em golpes, usando drogas e dormindo nas ruas. Colocado numa casa de correção, fugiu e como pena o enviaram para o exército. Um homem revoltado, com sede de vingança da vida dura e pobre que teve, com ódio o suficiente pra querer pensar em si mesmo sempre, afinal de contas, sonhar é coisa pra perdedores, como o seu pai foi. E tudo o que você queria era apenas ser cantor no teatro de Moscou. Prometeram isso pra você quando lhe deram "asilo" e um "serviço" nos Estados Unidos? Ou o artista morreu porque o transformaram num monstro?

KRYCEK: -(OLHAR PERDIDO NO VAZIO) ...

BARBARA: - Se me disser que além de cantar sabe tocar balalaica, eu vou me apaixonar.

KRYCEK: -(VOZ EMBARGADA) Não tenho mais uma balalaica... Não tenho mais... Nada.

Barbara vira-se. Olha pra ele com surpresa. Krycek respira fundo.

KRYCEK: -Então... Agora que conhece a cara do monstro e que o desarmou com um passado que ele quer esquecer... Corre menos perigo?

BARBARA: -(SURPRESA) Pra dizer a verdade, até que gostei da cara do monstro. Pensei que por ser russo fosse louro ou ruivo...

KRYCEK: -Lamento desapontar você. Vamos sair daqui. Se não reparou tem um cara nas escadas que parece ter perdido os olhos pra cá.

BARBARA: - Acho que depois de ver você, eu preciso de outro café. Esse esfriou.

KRYCEK: - Conheço um lugar legal pra tomar um café.

BARBARA: -(SORRI) Vai me pagar um café?

KRYCEK: - É o mínimo que posso fazer por estar me ajudando.

BARBARA: -Spasiba*. E como eu devo chamar quem está me levando pra tomar café? *(Obrigado em russo)

KRYCEK: - Alex Krycek. E pouco importa agora, porque eles já sabem que estou vivo.

Os dois saem lado a lado. Barbara joga o copo na lixeira e coloca as mãos nos bolsos do casaco.

BARBARA: - A noite da bomba no seu carro, em frente a delegacia... Eles tentaram matar você, não foi?

KRYCEK: - Mas não os mesmos que tentaram matar você. Você é alvo de Alberthi. Eu sou alvo de "outro artista" que virou monstro. O mesmo que me deu asilo político na América. Ele sabia por experiência como enganar um jovem sonhador.


Residência dos Mulder – 11:34 P.M.

Victoria sentada no tapete da sala, querendo brincar. Uma jarrinha de plástico, xícaras de boneca e ela vai servindo desajeitada um chá fictício. Mulder sentado ao lado dela, mas caindo de sono por não ter dormido ainda. Victoria entrega uma das xícaras pra ele. Mulder sorri cansado.

MULDER: - Hum... Esse chá invisível com sabor de nada está delicioso...

Mulder boceja. Mas se aguenta. Victoria percebe. Deita-se no tapete. Mulder olha pra ela.

MULDER: - Tá com sono, Pinguinho?

Victoria finge um bocejo. Mulder a toma nos braços. Sobe as escadas. Entra em seu quarto. Coloca Victoria na cama.

MULDER: - Que bom que está com sono. Também estou. Não durmo direito há dias.

Mulder tira a roupa de Victoria. Veste um pijama nela. Ajeita o edredom sobre ela.

MULDER: - Fique aí, vou fazer sua mamadeira.

Mulder desce se arrastando. Vai pra cozinha. Pega o leite da geladeira. Coloca numa panela. Acende o fogão. Fecha os olhos, pendendo de sono.

MULDER: - Eu consigo. Eu juro que consigo.

Mulder lava o rosto na pia da cozinha. Tenta se acordar.

Close do envelope que permanece sobre o balcão.


11:47 P.M.

Mulder entra no quarto com a mamadeira. Liga a TV num som baixinho. Senta-se na cama, recostando-se na cabeceira. Victoria fica de quatro, olhando pra ele. Engatinha deitando ao lado de Mulder. Mulder sorri. Coloca a raposa de pelúcia ao lado da filha, ajeita o edredom e dá a mamadeira pra ela.

MULDER: - Que inveja! Queria ser criança, sabia? Tão bom ser criança! Que tal uma estória pra dormir?

Victoria fecha os olhos, com a mamadeira na boca.

MULDER: - Deixa eu pensar... (BOCEJA) Se é que ainda consigo fazer isso... Hum, vejamos... Era uma vez um bonequinho de madeira chamado Pinóquio. Adoro o Pinóquio, ele só se ferrava porque acreditava nos outros. Ele não mentia por si, mentia por acreditar nos outros, era uma vítima da sociedade hipócrita que se espalhou por aí... (REVOLTADO) O coitado do Pinóquio só queria ser um menino de verdade, igual aos outros. E ele faria qualquer coisa pra conseguir isso. A fada madrinha dele prometeu que transformaria Pinóquio num menino de verdade. Mas sabe o que a safada fez? Se ele mentisse seu nariz cresceria. E o Pinóquio acabava sempre mentindo, contando lorotas. Quer saber o fim disso? A fada madrinha safada transformou o Pinóquio num ser humano. Mas o abandonou a própria sorte depois disso.

Victoria olha séria pra Mulder. Mulder suspira.

MULDER: - Tá certo, Pinguinho. Me mande calar a boca. Hoje tô vendo chifre em cabeça de cavalo.

Mulder coloca a mamadeira sobre o criado mudo. Victoria fecha os olhos. Finge bocejar. Mulder fecha seus olhos e cai no sono, dormindo sentado, vestido e de boca aberta, exausto. Victoria abre os olhos. Suspira. Então dirige sua atenção pra TV. Se ajeita ao lado de Mulder e faz carinhos na mão dele. Olha pra raposa.

VICTORIA: - Nana, papai tá 'ono'... (DEDO SOBRE OS LÁBIOS) Xiiii!

Victoria ergue o bracinho e aponta pro cobertor sobre a poltrona. O cobertor vem voando e cai cobrindo Mulder. Victoria volta a atenção pra TV. Então olha pra porta do quarto. Senta-se na cama. Fecha os olhos.

VICTORIA: - Mama... Nah!


12:12 A.M.

Scully dirige o carro, olhar parado, perdida em lembranças confusas. Segue pela rodovia escura, nervosa, mal consegue segurar o volante. Não percebe o caminhão que se aproxima, tentando ultrapassá-la. Scully vai dar lugar e perde a direção, se aproximando do caminhão enorme. Scully solta o volante e grita. O carro começa a ir pra baixo do caminhão.


Esconderijo de Alex Krycek – 1:21 A.M.

[Som: Red Army Choir - Kalinka]

Krycek sentado na poltrona, olhos parados no nada. Segura um velho gorro russo de pele sobre a perna.

ANNA KRYCEK (OFF): - Kalinka, mamãe não quer ver você chorar, está bem?Alexander, você sempre será a minha pequenina bola de neve. Sabe por quê? Quando você nasceu, tão branquinho como a neve que caía, seu pai ainda lhe trouxe um gorro de pompom branco. Você parecia que estava com umarosa-de-gueldres na cabeça, aquela flor chamada bola de neve, era o meu Kalinka! Obebê mais lindo do mundo!

Krycek enche os olhos de lágrimas, mas se contém sem derrubar uma só lágrima.


FLASH BACK:

A neve caindo. Mikhail Krycek ajoelha-se, colocando a folha de papel com um poema sobre o túmulo com a inscrição: Anna Larissa Yavanov. Beija ternamente a pedra da humilde sepultura. Fica em pé, derrubando lágrimas. O pequeno Alex Krycek com 6 anos, dá a mão para o pai, o observando. Mikhail retira o gorro de pele da cabeça e o coloca na cabeça de Alex. Pai e filho saem de mãos dadas pelo cemitério, cheio de árvores secas pelo frio intenso de Moscou.


TEMPO ATUAL:

Krycek fecha os olhos. Aperta com toda a força o gorro na mão. Vozes ecoam em lembranças.

ALEX KRYCEK ADOLESCENTE (OFF): - É agora ou nunca. Vão nos dar uma bolada pelas joias e nós dois vamos pra América. A gente vai finalmente experimentar o que é Coca-Cola! Já tenho quem nos venda a passagem. Vamos dar o fora desse país. Eu enchi! Cansei! Olha pra mim, consegui até agora realizar algum sonho?

KARELADOLESCENTE(OFF): - Você canta. Você tem talento. Uma voz linda. Vai fazer sucesso. Eu sei que vai e eu tenho orgulho de ter você como amigo. Um amigo fiel é o melhor remédio que se encontra na vida... Lembre-se disso, Alexander...

Krycek abre os olhos. Olha para o gorro.

KRYCEK: -(MURMURA) Um amigo fiel é o melhor remédio que se encontra na vida... Lembre-se disso, Alexander... Eu lembro Karel.

Batidas na porta. Krycek sai de seus pensamentos, coloca o gorro na cabeça, desliga o som e abre a porta. Scully parada, cabelos revirados, segurando uma garrafa de uísque pela metade. Toda suja, com arranhões. Krycek arregala os olhos.

KRYCEK: - O que houve com você? Eu já estava preocupado...

Scully entra, bêbada, parece movida por uma força, porque mal anda. Krycek fica assustado. A segura pelos braços.

KRYCEK: - Scully, o que aconteceu?

SCULLY: - (COMEÇA A RIR) Não sei... Eu estava dirigindo... E depois... Zuummmmm...

KRYCEK: - ???

SCULLY: - Zummmmm... Zummmmmm

KRYCEK: - Você está bêbada?

SCULLY: - Eu? Hic! Eu não! Euzinha não bebi nadinha! Assim, oh, eu pensei que ia morrer, fechei os olhinhos, ouvi o barulhinho do carrinho sendo amassadinho pelo caminhãozinho... Mas acordei na beira da estradinha, o carro completamente amassadinho e eu com apenas arranhõezinhos... É... Mas depois euzinha bebi sim. Acho que bebi... Não sei... (RINDO) Bebi? Quem pode saber? Hum? Quem sou eu?

Krycek olha pra ela mais nervoso ainda. Scully não para de rir.

SCULLY: - Isso é um Arquivo X! (RINDO) Eu voei do carrinho pra estradinha sem me machucar... (RINDO) Eu acho que estou louca... É, eu acho. (RINDO) Estou louquinha! ... Hum, gostei do chapeuzinho de russo... Você fica mais sexy com ele, meu russinho...

KRYCEK: -(IRRITADO) Não é chapéu, se chama ushanka. E eu não sou seu "russinho". Você é a mulher do único cara que me deu uma segunda chance de verdade nessa minha porcaria de vida! E olha a droga que aconteceu!

Krycek a leva pra cama. A faz deitar-se. Scully o puxa pra cima dela, rindo alto. Krycek se levanta e a cobre. Tira o gorro e o guarda entre suas roupas.

KRYCEK: - Não saia daí, vou fazer um café pra você. Você tá de porre completo!

Scully se levanta. Anda pelo lugar, tonta, tropicando nos próprios pés.

SCULLY: - Aonde você esconde suas vodcas? Hum?

KRYCEK: - (IRRITADO) Vá pra cama!

SCULLY: -(SORRI /BATE CONTINÊNCIA) Hum... Sim senhor!

Krycek tenta fazer café. Scully se aproxima, o agarrando por trás, recostando o rosto nas costas dele, feito animalzinho carente.

SCULLY: - Eu te amo Alex...

KRYCEK: - Scully, me solta! Vai pra cama, eu já disse.

SCULLY: -Não... Quero fazer coisinhas com você...

KRYCEK: - Que coisinhas? Que raio é isso?

SCULLY: - Coisinhas... Naquela caminha. Você sabe, "Mulderzinho".

KRYCEK: - (RINDO) Ah vocês tem um código pra isso? Mulderzinho? Sei de nada! Nem quero saber! Seria cômico se não fosse trágico. O que fizeram com você, Scully? Será que sua memória volta com a bebida? Se voltar, eu libero meu estoque de vodca.Ou você está trocando o meu nome por que está bêbada?

Scully abraçada a ele, fecha os olhos. Dá um beijo nas costas dele.

KRYCEK: - (RINDO) "Mulderzinho"... Eu não acredito que até na intimidade vocês se chamem pelo sobrenome! Isso é assim sempre? Pensei que só na frente dos outros, como uma forma de impor respeito... Quer saber? Vocês se merecem mesmo, porque são dois esquisitos pra caramba! Isso é broxante! É totalmente formal!

Krycek tem um acesso de riso. Scully faz beiço sem entender nada.

SCULLY: -Do que está rindo? Hum? Você não vem? Tão bom ganhar carinhozinho...

KRYCEK: - Não, eu não vou e só Deus sabe da onde eu tô tirando tanto auto-controle pra fazer isso! Me larga, Scully! Desencosta!

Scully desliza as mãos pelo peito dele, ainda recostando a cabeça em suas costas. Krycek vira-se, a segura pelos pulsos.

KRYCEK: - Eu não disse pra ir pra cama? Por que fica me tentando feito um capeta?

SCULLY: - (SORRI) Eu vou, mas eu tenho que contar um segredinho.

KRYCEK: - ??? Que segredinho?

Scully aproxima os lábios da orelha dele. Então leva a língua e mordisca a orelha de Krycek. Afasta-se rindo, marota. Krycek fecha os olhos, tentando se conter. Respira fundo.

SCULLY: - Tá certo... Eu estou indo pra caminha, tá?

Krycek permanece de olhos fechados, derrubando gotas de suor pelo rosto, morde os lábios, tenso. Respira fundo. Volta a atenção pro café. Scully se aproxima da cama e desabotoa a blusa, deixando-a cair ao chão.

Krycek serve a xícara. Aproxima-se da cama.

KRYCEK: - Beba isso, você...

Krycek arregala os olhos.

KRYCEK: - O que está fazendo?

SCULLY: - (DESCENDO A SAIA) Tirando a roupinha...

Krycek larga a xícara e a coloca pra se deitar, bruscamente. Ela solta um 'ai', manhosamente. Ele a cobre com o edredom até o pescoço.

KRYCEK: - Sua sorte é que realmente eu sou o único aqui em juízo mental perfeito. E acredite, não tem sido fácil. E você... Você está bêbada, talvez nem lembre de nada amanhã... Não... Não. Eu não sou cafajeste... (SORRI) Ah, eu sou... Não. Você não. (RESPIRA FUNDO) Um amigo fiel é o melhor remédio que se encontra na vida. E eu quero me curar!

SCULLY: - (RINDO/ SACANA) Vem aqui, meu russinho gostosinho... Vem fazer uma guerrinha fria com a sua americanazinha aqui, hum? Não quer me mostrar o tamanho do seu MiG? Qual é a série dele? Hum? Ou seria um enorme submarino nuclear da classe tufão? Me explica a diferençazinha entre glasnost e perestroika.

Krycek tem um acesso de riso. Scully olha pra ele num beiço.

KRYCEK: - (RINDO) É, você entende tudo de "russo", kroshka moya... Scully, por favor! Toda vez que bebe fica assim? Se comporte como a dama que você é! Parece até aqueles médiuns esquisitos que recebem qualquer espírito inferior! Uma vagabunda se encostou em você hoje?

SCULLY: - (RINDO) Quem sabe o que anda se encostando em mim? Hum? Me atentando? Hein?

KRYCEK: - (SACANA) Eu sei o que você precisa. Vou mostrar pra você a qualidade superior do meu borscht. Você vai querer comer tudo e repetir.

SCULLY: -(RINDO) Hum... Fiquei interessadinha no seu... Essa palavra que você disse aí.

KRYCEK: -É? Amanhã eu faço pra você. É sopa de beterraba, todo russo adora. Assim como adora provérbios e piadas!

Scully faz cara de frustrada. Krycek corre pro telefone. Pega o fone, mas desiste. Larga-o de volta.

KRYCEK: - Não... Mulder deve estar uma de pilha de nervos e ainda tá com ódio de mim... Não vou tirá-lo da cama pra ele não poder fazer nada...

Krycek volta pra perto da cama. Scully dorme, encolhida. Krycek suspira.

KRYCEK: - Eu vou pegar o cara que fez isso com você. Ah eu vou! E coitadinho dele quando eu descobrir quem é. Ele vai pagar por esse inferno que estou vivendo!

Krycek senta-se na poltrona, observando Scully dormir. Ela se vira dormindo, deixando uma das pernas pra fora do edredom. Krycek olha pra perna dela. Desvia o olhar.

KRYCEK: - Como vou sair pra trabalhar e deixar essa mulher sozinha nesse estado? Vai que morre na minha cama? Aí sim eu tô ferrado!

Krycek coloca os pés sobre a cama. Cruza os braços. Inclina a cabeça pra trás. Fecha os olhos.

KRYCEK: - (RESMUNGANDO) Eu devo estar num inferno astral sem previsão de sair dele. Isso é o meu castigo por ter feito tudo que fiz na vida... Veio a galope!


8:39 A.M.

[Som: Bizarre Love Triangle - New Order]

Krycek se acorda na poltrona. O cobertor por cima dele. Krycek tenta se localizar. Empurra o cobertor. A cama está vazia. Scully, vestida com apenas uma camiseta de Krycek, aproxima-se com uma caneca de café. Krycek olha pra ela. Scully senta-se na cama, de frente pra ele. Krycek olha para as pernas dela, depois olha pra cima, engolindo seco. Fecha os olhos e aperta os braços da poltrona.

KRYCEK: - Tá difícil, kroshka moya...

SCULLY: - Fiz seu café.

KRYCEK: -Quem pediu café? O que faz com as minhas roupas?

SCULLY: - (SORRI) Não lembro como eu cheguei aqui ontem. Mas posso imaginar o que aconteceu entre nós dois.

Krycek põe as mãos no rosto.

KRYCEK: -Ah não, de novo não! Pelo amor de Gorbatchov! Nós? Não aconteceu nada entre nós. Mantenha sua imaginação fértil longe de mim! Você cheira a encrenca, garota. Muita encrenca. Eu já conheci mulheres encrenqueiras, mas você de longe ganha de todas elas!

SCULLY: - (BEIÇO) Não vai tomar o café que eu fiz pra você?

KRYCEK: - (DURÃO) Não preciso que ninguém faça café pra mim. E eu nem tomo café pela manhã.

SCULLY: -Que tipo de pessoa não toma café pela manhã?

KRYCEK: - Eu. Prefiro chá. Sou russo.

SCULLY: -Não sabia que russos gostam de chá. Mas eu faço chá então... Puxa, eu... Eu só queria agradar você.

KRYCEK: - Devia era agradar o seu marido. Isso sim. Como pode achar que está apaixonada por mim, se nem ao menos me conhece?

SCULLY: - Por que está sendo cruel comigo, Alex?

KRYCEK: - Não me chame de Alex, me chame de Krycek. Não dei toda essa intimidade pra você. E tire a minha camiseta. Detesto que mexam nas minhas coisas.

SCULLY: - Desculpe... Não queria que ficasse bravo comigo.

KRYCEK: - Não estou bravo com você, kroshka moya. Estou é mergulhado em problemas, ok? Olha, eu preciso resolver uns assuntos. Vê se fica aí. Não sai daqui pra não criar encrenca.

SCULLY: - Por que eu ficaria se você está me desprezando? Eu não tenho pra onde ir... Mas eu vou embora se quiser.

Krycek se aproxima da janela. Percebe a limusine preta estacionada na esquina do beco. Arregala os olhos. Vira-se pra Scully.

KRYCEK: - (NERVOSO) Não! Olha, me desculpe, tá legal... (PEGA A CANECA DE CAFÉ) Eu agradeço seu café. (BEBE UM GOLE) Vamos fazer assim, tá? Eu preciso sair realmente, você pode ficar por aqui, quem sabe você faz um almoço pra nós dois, hum? Me promete que vai ficar aqui? Tem tudo o que precisa na geladeira. Se sair, eu vou ficar chateado com você. Me promete ficar quietinha aqui?

SCULLY: - (SORRI) Prometo, Alex.

KRYCEK: - Então tá. Eu não vou demorar. Não saia daqui de dentro. E tranque essa porta. Fique com sua arma por perto. Posso confiar em você?

SCULLY: - (SORRI) Sempre.

Krycek entrega a caneca pra ela. Scully sorri. Krycek abre a porta.

SCULLY: - Não vai dizer nada?

KRYCEK: - ??? Dizer o quê?

SCULLY: - Se gostou do meu café.

KRYCEK: - Ah, sim! Eu adorei.

Krycek ameaça sair.

SCULLY: - Só isso? Não esqueceu de nada?

Krycek ergue os olhos, suspira impaciente. Vira-se pra ela.

KRYCEK: - O que eu esqueci?

SCULLY: - E o meu beijinho? Hum?

Krycek suspira. Aproxima-se dela e dá um beijo rápido em seu rosto. Scully fica frustrada. Krycek sai às pressas, fechando a porta. Tranca-a por fora com um cadeado.

KRYCEK: - (IRRITADO) Por via das dúvidas, melhor ficar presa aí dentro...

Corta para a limusine. O vidro desce lentamente. Diana Fowley vê Krycek. Abre um sorriso. Pega o celular. Fecha o vidro.

DIANA FOWLEY: - Como sabia, Alberthi? ... Sim, Scully realmente está na toca de Alex Krycek. Sigo o combinado? (SORRI) Deixa comigo. Eu sei como fazer Mulder sair do sério... Em questão de horas vamos nos livrar de Alex Krycek antes que ele atrapalhe os planos... E sem sujeira alguma. Mulder fará o serviço pra nós...


Arquivos X - 9:01 A.M.

Mulder sentado, revisando pilhas de papéis. Victoria zanzando pela sala, ora engatinhando, ora andando segurando-se nos móveis. Curiosa, bisbilhotando tudo.

MULDER: - Pinguinho, não mexa aí. Se bagunçar essas pastas eu vou ficar bravo.

Victoria vai pra perto da estante. Tenta pegar o globo terrestre. Não consegue. Leva as mãos até o boneco de ET. Derruba-o e cai sentada no chão.

MULDER: - Quanta energia!

Victoria se levanta. Tenta pegar a maquete da Enterprise. Mulder salta da cadeira e pega a maquete colocando no alto da estante.

MULDER: - Ah não! Não a Enterprise!!!!

VICTORIA: - Dah!

MULDER: - Não dou não. Isso é colecionável, raro e por consequência, caro demais pra ficar na mão de criança.

VICTORIA: - (EMBURRADA) Dah!

MULDER: - Isso não é brinquedo de criança. É brinquedo de adulto. E é meu brinquedo e não divido! Toma, brinca com essa bola de basquete.

VICTORIA: - Nah! Qué ilo!

MULDER: - Aquilo não senhora. Não conheço trekker algum que libere seus brinquedos trekkers para crianças. Um dia você vai ficar fissurada por uma série de ficção científica também e duvido que deixe qualquer um mexer nas suas coisas. Toma o globo, toma o ET... Aqui, vou te mostrar um brinquedo legal.

Mulder entrega uma daquelas bolas de vidro com neve falsa.

MULDER: - Assim... Você sacode e a neve cai em cima da casinha.

Victoria abre um sorriso. Começa a brincar com o brinquedo novo. Mulder volta a seus afazeres.

VICTORIA: - (OLHA PRA MULDER/ ADMIRADA COM O GLOBO) Ohhhhhh eve!

MULDER: - É, neve. Tá caindo neve na casinha. Agora deixa o papai se concentrar aqui. Quero terminar tudo pra gente ir cedo pra casa e brincar de chazinho.

VICTORIA: - (SORRI) Oba!

O telefone toca. Mulder atende.

MULDER: -Agente Mulder.

KRYCEK (OFF): -Precisamos conversar, mas admito que sou covarde demais pra falar com você quando está nervoso.

MULDER: -(IRRITADO) Você é muito cara de pau, não é mesmo? O que quer? Pegar as coisas dela? Minha benção? Eu vou pegar você, rato traidor, me aguarde. Eu sei aonde se esconde.

KRYCEK (OFF): -Mulder, por favor. Preciso muito falar com você sobre a Scully, mas não é nada do que você...

MULDER: - (IRRITADO) Vá se danar você e ela!

Mulder desliga o telefone. Victoria olha pra ele.

VICTORIA: - Danar!

MULDER: - Não fala isso que é feio.

Victoria olha pra estante. Levanta-se. Tenta alcançar outra nave. Mulder salta da cadeira.

MULDER: - (PÂNICO) Ah não! Não minha nave Borg!!!!!!


Esconderijo de Alex Krycek - 3:11 P.M.

Krycek entra. Fecha a porta. Ao olhar o ambiente, põe as mãos na cabeça.

KRYCEK: - Essa não... Ah não! Não comigo!

Tudo arrumadinho, sem pó, as caixas organizadas num canto. Camisas passadas sobre uma cadeira. Uma luminária moderna ao lado de um sofá novo. Flores na mesa. Krycek procura Scully com os olhos. Percebe a janela aberta.

KRYCEK: - Droga! Eu disse pra ela não sair! ... Que diabos essa mulher fez com o meu esconderijo sujo e escuro? (DESESPERADO) Ela comprou um sofá novo? Flores na mesa? Ah não!!! Não dá pra ser feliz assim! Eu tô perdido mesmo! Dá pra ser bad boy num lugar desses? Cadê minhas garotas de biquíni que estavam na parede? Onde ela enfiou a minha poltrona velha e rasgada? Ah não dá mais! É demais pra mim! Chega!

Krycek pega o telefone e disca.

KRYCEK: -... Boa tarde. Quero falar com o agente Mulder, Arquivos X... Tem sim um departamento com esse nome, fica no porão! ... Ok, eu aguardo... Atende, filho da mãe. O pepino é seu, não empurre no meu rabo...

MULDER (OFF): -Agente Mulder.

KRYCEK: -Mulder, pelo amor de Deus, não desliga! Precisamos conversar! Você tem que me escutar! Tenho uma bomba que é sua nas minhas mãos! Se não vier pegar vou despachar pelo sedex sem retorno ao remetente!

MULDER (OFF): - (IRRITADO) Não quero escutar nada de você, Krycek! Não basta ter dormido com a minha mulher, me traído pelas costas e ainda fica me ligando querendo assunto? Você é um tremendo cara dura, sabia? A única conversa que vai ter é com a minha Glock 9 milímetros na sua cara! Ou melhor, no meio das suas pernas! Pra estragar a brincadeirinha entre vocês dois!

KRYCEK: - Mulder, não é...

MULDER (OFF): -Não posso falar agora. Estou colando a cabeça quebrada do capitão Kirk.

Mulder desliga na cara de Krycek. Krycek se recosta contra a parede.

KRYCEK: -(FURIOSO) Essa mula teimosa!!! Eu devia enfiar uma bala na perna dele pra ver se ele fica quieto e me escuta!!!!! Agora quem tá com vontade de bater nele sou eu!!!


Arquivos X – 5:43 P.M.

Victoria dorme no carrinho. O telefone toca. Mulder atende.

MULDER: -Mulder.

DIANA FOWLEY (OFF): - Oi, Fox. Já que não visita seus colegas no FBI, resolvi ligar para saber se está bem, se precisa de ajuda...

MULDER: - (SECO) Estou ótimo. O que quer?

DIANA FOWLEY (OFF): -Fiquei sabendo o que aconteceu e lamento muito. Mas não posso deixar de dizer que sinto por Scully e estou sinceramente aborrecida em saber que você não mudou em nada. Traições acontecem e nenhum motivo justifica bater numa mulher, porque isso é covardia. Acha que esqueci aquela surra? Você é ignorante mesmo quando quer! Eu se fosse ela não voltava mais. Até porque eu também não voltei mais, depois da sua atitude de machão imbecil!

MULDER: - (IRRITADO) Eu não bati nela! E chama aquilo de atitude de machão imbecil? Eu chamo aquilo de fazer você criar vergonha na sua cara porque tinha uma fila enorme que visitava meu apartamento quando eu saía pra trabalhar! Depois de mil vezes perdoar o que tornava a acontecer, não tem ser humano com sangue frio pra segurar a raiva! Eu joguei a cama fora, tranquei meu quarto e passei a dormir no sofá por sua causa!

DIANA FOWLEY (OFF): - E trocou as mulheres reais pelas de papel. Jurou que nunca mais! Então apareceu a ruivinha sardenta que derreteu seu coração bobo. E não diga que eu não avisei que isso não daria certo. Mas você achava que eu estava com ciúmes. Eu sou muito mulher e segura pra ter ciúmes daquela sem graça... Até hoje não entendo o que você viu nela. Acho que foi carência mesmo. Você sempre foi carente, e eu avisava que sua inexperiência da vida de adulto normal ia fazer você cair no buraco. Acho que me entende, "garanhão". Você com sua fama fajuta. Ela foi a terceira na sua cama. Se tivesse transado mais e pensado menos em discos voadores, teria mais experiência na vida e não cairia tão fácil na conversa velha e fiada do "eu te amo".

MULDER: - (IRRITADO) Ligou pra reviver passado e rir da minha cara, é isso? Espero que não saia falando pra todo mundo da minha intimidade e meus problemas sexuais do passado! Isso é o que dá o cara ser honesto e sincero com quem dorme. Depois espalham seus segredos por aí. Esse seu sarcasmo só não é maior que a sua lista de homens!

DIANA FOWLEY (OFF): - Sabe que eu não faria isso. Não minta pra mim, eu conheço você, e apesar de tudo que você me fez, eu ainda gosto de você...

MULDER: - (IRRITADO) Poupa todo esse discurso, sua vaca traidora dos infernos e vá direto ao assunto! Eu não vou comer você nem por piedade! Se fosse a última mulher do mundo eu me trancava no banheiro o resto da minha vida! E eu sei que sente saudades. Ah, sente. (FERINO) Sente saudades do bobalhão aqui, do inexperiente, do romântico, do idiota e do meu amiguinho bem grande que você adorava. Eu fazia você pegar fogo. E sabe como eu sei? Porque você me traía e voltava sempre. Até que o idiota cansou!

DIANA FOWLEY (OFF): -(PROVOCANDO) Pois então... Admito que você me fazia pegar fogo. Mas pelo jeito não fez com a ruiva. Ou ela voltaria. Ou talvez ela achou um amiguinho maior e mais divertido.

MULDER: - (PÂNICO) ...

DIANA FOWLEY (OFF): - (PROVOCANDO) Eu perdoo sua agressão, Fox. Hoje eu posso entender que não é fácil pra um homem saber que foi trocado por outro. Homens não aceitam serem trocados. Afinal de contas, homens são sexuais. Saber que outro é melhor na cama, que outro está possuindo aquilo que você tinha, que talvez sua mulher faça mais loucuras com o amante do que fazia com você...

MULDER: - (FICANDO MAIS IRRITADO) E você é perita no assunto chifres no Mulder, não é?

DIANA FOWLEY (OFF): -(PROVOCANDO) Ora, Fox, você sempre fez por merecer! Sua maldita obsessão por uma causa perdida, noites no trabalho, eu sozinha esperando meu namorado e ele namorando discos voadores e correndo atrás da irmãzinha dele! E você não pode me acusar, porque eu não deixei você pra morar com outro. Isso sim é cruel. Saber que Scully está morando com ele. Que ela deixou você pra viver com Krycek. Que os dois estão apaixonados, juntos e felizes, enquanto você está sozinho criando sua filhinha... Posso entender sua raiva. Nem eu concordo com isso.

MULDER: - (PERDE O RUMO/ INCRÉDULO) O quê? O que você disse?

Mulder fecha os olhos, atordoado.

DIANA FOWLEY (OFF): - (PROVOCANDO) Que traição, hein Mulder? Não dá pra confiar em ninguém mesmo. Muita tolice a sua confiar naquele sujeito. Você deu perdão a ele e olha o que recebeu em troca. As pessoas não mudam, Fox... Krycek matou seu pai, agora tomou sua mulher...Ele deve estar rindo muito de você que caiu na armadilha dele de "vamos ser bons amigos".

MULDER: - (ENCHE OS OLHOS DE LÁGRIMAS) ... Morando juntos?

DIANA FOWLEY (OFF): - (PROVOCANDO) Você aí sofrendo, cuidando sozinho da filha de vocês, enquanto ela está morando com ele, se divertindo... Não posso condená-la, ele é um canalha atraente... Aceite Fox, por pior que seja pra um homem saber que a mulher que ama e pra quem dedicou sua vida, está se divertindo com quem era seu inimigo. Se divertindo com aquele que trouxe tanta desgraça na vida de vocês. Scully realmente puxou seu tapete e acabou com toda a confiança. Mas Krycek fez bem pior que Scully. Ele usou você pra chegar nela...

Mulder fica calado. Derruba lágrimas. Desliga o telefone. Olha pra Victoria dormindo. Olha pra mesa de Scully. Aos poucos a raiva vai tomando conta dele. Mulder se levanta. Pega Victoria no colo.

MULDER: - Chega por hoje. Vamos visitar a vovó. Papai tem que resolver um problema.


Residência de Margaret Scully - 6:33 P.M.

Meg abre a porta. Mulder entrega Victoria, que ainda dorme. Mulder está visivelmente nervoso.

MULDER: - Não fale nada. Se eu não voltar, é porque estou morto. E se isso acontecer, cuide da minha filha. Desapareça com ela. E esqueça Scully. Não confie nem Victoria a ela. Não confie em ninguém. Porque sempre apunhalam você pelas costas!

MARGARET: -(NERVOSA) Fox, pelo amor de Deus! O que está acontecendo, meu filho? O que vai fazer?

MULDER: - Acabar com essa palhaçada toda, mãe! Eu não tenho sangue de barata, tá? Aquele desgraçado destruiu a minha vida e a sua filha ajudou ele a fazer isso! Mas se eu não posso ser feliz, ele também não pode. Não vou admitir que Scully vá viver com ele. Eu não vou admitir mesmo! Não enquanto eu estiver vivo!

MARGARET: - (ASSUSTADA) Oh, meu Deus! Dana está tendo um caso? É por isso que estão brigados?

MULDER: - Estamos separados e falando em divórcio, Meg. Sim, a sua filha foi quem meteu um belo par de chifres na minha cabeça com o mesmo sujeito que estava envolvido com a morte de Melissa. Tá feliz agora?

Meg perde qualquer reação.

MULDER: - E eu, se fosse você, parava de me preocupar. Sua filha não vale nada. É uma vagabunda ordinária e cretina que merece se danar mesmo!

Meg se desespera.

MARGARET: - (GRITA) Fox, não faça besteiras! Fox!!!!

Mulder entra no carro, tomado de ódio, e sai levando as latas de lixo pelo caminho.


Esconderijo de Alex Krycek – 6:57 P.M.

Krycek abre a porta. Mulder, tomado de ódio, entra enfiando a arma na cara de Krycek, que ergue os braços, recuando.

KRYCEK: -(NERVOSO) Mulder... Vamos conversar...

Som da arma engatilhando.

KRYCEK: - (NERVOSO) Mulder, espera! Mulder me escuta!

MULDER: - (GRITA/ ÓDIO) Eu fui muito idiota mesmo, confiando em você! Sabia que sentia algo por Scully, mas fingi não ver, achando que você nunca teria a coragem de tocá-la. Eu devia era me matar por ser tão burro! Até meus amigos me alertaram disso! E eu os perdi também por sua culpa!

KRYCEK: - (NERVOSO) M-Mulder, calma... Me escuta...

Mulder acerta um soco em Krycek que tonteia, recuando, atordoado. Krycek leva a mão ao lábio sangrando.

MULDER: - (GRITA) Nunca peça calma pra um marido traído com uma arma na mão! Você queria desgraça, não é? Pois eu vou desgraçar a sua vida e a vida dela! Eu vou te matar!

KRYCEK: -(NERVOSO) Mulder...

MULDER: - (GRITA) Há quanto tempo vocês estão trepando sem que o idiota aqui saiba? Ahn? Já que ele está atarefado, trabalhando, tentando dar uma vida melhor pra família, enquanto a mulher dele fica de caso com um rato ladino de quinta categoria! Foi quando eu pedi, inocentemente, que você a vigiasse quando eu estivesse longe? Foi assim que começou? Eu sou um otário mesmo! Confiei a segurança da minha mulher pra você! Eu dei minha mulher pra você, isso sim! (MAGOADO) Eu confiei em você, rato! Eu dei uma chance pra você, depois de tudo o que me ferrou. Acreditei nas suas lágrimas e no seu discurso de vingança por ter perdido sua mulher e filho e você faz isso comigo? Isso é baixo demais até pra você!!!

KRYCEK: - Mulder, eu nunca transei com a Scully! Eu juro pra você!

MULDER: - Ah, sim, Scully está mentindo pra mim!

Mulder mete a arma na testa de Krycek.

KRYCEK: - (GRITA) Eu juro pra você! Mulder, eu não sei por que Scully está dizendo isso, nos colocando um contra o outro! Não é por estar com essa arma na minha cara que vou tentar enganar você! Mulder, eu respeito você! Sei que tenho um passado que me condena, mas eu não estou traindo sua confiança! Acredite em mim!

Mulder olha ao redor, tudo arrumado. Olha pra mala de Scully, aberta sobre a cama, roupas espalhadas.

MULDER: - (GRITA) E o que as coisas dela fazem aqui? Ahn? E cadê sua bagunça? Tudo arrumado e em ordem? Também vai mentir que ela está morando aqui com você?

KRYCEK: - Mulder, me escuta, por favor!

Mulder pega uma blusa de cima da cama. Cheira-a. Atira a blusa na cara de Krycek.

MULDER: - (GRITA) Vai alegar que isso não é dela? Eu conheço o cheiro dela! Ou vai alegar que é sua? Agora você tá usando blusinhas, ahn?

KRYCEK: - (GRITA) É dela sim, mas eu posso explicar, não é o que você tá pens...

MULDER: - (GRITA) Vou matar você, rato.

KRYCEK: - (GRITA) Tá! Me mate! Mas primeiro me escute! É o meu último pedido! Depois pode atirar em mim o quanto quiser, me esquartejar e jogar meus restos na lixeira lá fora! Mas me escute!

A porta se abre. Os dois olham pra porta. Scully entra, com a arma na mão. Mira a arma em Mulder.

SCULLY: -(GRITA) Largue a arma, Mulder!!!

Corte.



BLOCO 3:

Scully mantém a mira da arma em Mulder. Mulder firma sua arma na mão, apontando na cabeça de Krycek, como quem desafia Scully.

SCULLY: - (GRITA) Largue a arma!!!!!

MULDER: - (GRITA) Por que eu deveria? Vai atirar em mim?

SCULLY: - (GRITA) Pela última vez, largue a arma no chão!!!!!

Scully engatilha a arma. Mulder olha pra Scully e percebe o brilho desconhecido nos olhos dela.

MULDER: - (TRAÍDO) Entendo... Há muito tempo atrás, antes de estarmos juntos, você atirou em mim uma vez, na mesma situação, pra proteger Krycek. Vai me dizer que já sentia alguma coisa por esse filho da mãe?

SCULLY: - (GRITA) Na época atirei em você pra defendê-lo, não pra proteger Alex!!! Mulder, por favor, não me faça ter que fazer isso! Dessa vez eu não vou pegar de raspão!

MULDER: - (TRISTE) Tudo se armava desde aquela época, não é mesmo? Foi um erro. Nós dois fomos um erro...

KRYCEK: - (NERVOSO)Mulder, me escute... Sei que está cego, traído, nervoso e completamente fora de si. Mas solte a arma, por favor. Ela não está brincando. Ela vai atirar.

SCULLY: - (GRITA) Mulder, se não largar a arma eu atiro em você!

Silêncio. Scully olha pra Mulder. Olha pra Krycek. Tensão no ar.

Giro de câmera ao redor deles. Mulder aponta a arma pra Krycek. Scully com a arma apontada pra Mulder, mirando-o. Krycek apavorado, alterna o olhar entre os dois.

O triângulo perfeito, mortal.

Mulder mantém os olhos em Scully. Scully mantém os olhos nele.

Mulder solta a arma no chão. Scully continua com a arma apontada em Mulder. Mulder ergue as mãos. Krycek pega a arma de Mulder. Mantém os olhos atentos em Scully.

Silêncio. Os três se observam, nervosos. Scully abaixa a arma.

SCULLY: - Só há um culpado aqui. Eu... Eu, pivô de tudo... (SEGURA AS LÁGRIMAS) Amo vocês dois. Não quero perder nenhum. Mas não posso ter vocês dois pra mim... E... Eu não consigo escolher... Isso dói! Dói muito!

Mulder põe as mãos no rosto. Krycek abaixa a cabeça.

MULDER: - Eu vou dizer uma coisa pra você, Scully. Realmente não deve estar em seu juízo perfeito pra dizer tanta besteira! Não faz muito tempo disse que me odiava, que se apaixonou por esse imbecil e agora diz que me ama também? Você realmente deve estar louca!

KRYCEK: - Mulder, por favor... Pega leve. Scully está confusa e...

MULDER: - (GRITA) Não dirija uma só palavra a mim, rato!

KRYCEK: - (GRITA) Ela está confusa, pare! Não torne as coisas mais difíceis!!!!!

Mulder mete um murro na cara de Krycek, que desvia, e acerta um soco em Mulder. Os dois se pegam aos socos e pontapés, tentando se esganarem. Mulder pega um peso e prensa Krycek pelo pescoço contra a parede, enfurecido. Krycek quase sufocando, começa a empurrar Mulder, lhe acertando um chute na canela. Mulder, todo atrapalhado, deixa o peso quase cair em cima dos pés. Scully ergue a arma atirando rente a Mulder. Mulder fica estático, assustado. Vira-se olhando pra ela com incredulidade. Krycek, ofegante, se coloca no meio dos dois.

KRYCEK: - (OFEGANTE) Calma... Vamos nos acalmar, deixar de ser passionais... Conversar como adultos, gente civilizada, sem gritaria... (RESPIRA FUNDO) Nenhum de vocês nesse momento está com a cabeça fria pra dizer qualquer coisa. Mulder, se acalme... Scully raciocine o que está dizendo. Não há lógica alguma nisso.

Mulder cheio de ódio aproxima-se de Scully. Bate no peito.

MULDER: - (GRITA) Vai, atira! Atira em mim!!! Você vai ter mais sorte com balas que com aquela maldita facada!

SCULLY: - (GRITA) Mulder, não me faça fazer isso!!!

MULDER: - (GRITA) Atira! O que eu tenho a perder? Ahn? Eu já perdi tudo mesmo! Acabe comigo e fique com ele! Tem minha benção! Livre-se do expurgo que atrapalha sua felicidade. Atira!!! E atira pra matar, porque se eu não morrer, eu vou esganar você até ficar roxa!!!

Scully respira fundo. Parece atordoada. Fecha os olhos.

[Som de vozes]

Scully balança a cabeça. Firma a arma, aperta suavemente o gatilho. Abre os olhos. Olha nos olhos de Mulder. Os olhos dele brilham em lágrimas, em incompreensão.

Krycek, atrás de Mulder, sem que Mulder perceba, disfarçadamente ergue a arma, mirando o braço de Scully.

Scully inclina a cabeça para o lado. Confusa, desatinada. Krycek percebe que ela vai atirar.

KRYCEK: - Scully, se você me ama, abaixa a arma, por favor... Por mim, ok? Hum? É o Alex que pede pra você. Abaixa essa arma. Eu estou aqui, nada vai acontecer com você, certo?

Scully solta a arma no chão. Krycek fecha os olhos, num alívio, baixando a arma.

Mulder revoltado e enciumado, agarra Scully pelos braços e a empurra contra Krycek. Os dois batem contra a parede. Krycek segura Scully, evitando que ela caia. Mulder parece outra pessoa, fora de sua razão completa.

MULDER: - (GRITA) Vamos, Scully, eu sei o que você quer. Eu sempre soube o que você queria. É um joguinho, não é? Eu faço o seu joguinho, mas nunca mais olhe pra minha cara. O que você está vendo é um homem que perdeu todo o orgulho próprio por amar você demais!

Mulder tira o paletó. Começa a abrir a camisa.

MULDER: -É dois, não é? Não é isso o que você quer? Nós dois? Vamos acabar logo com isso então. Eu nunca neguei nenhum fetiche pra você. Eu não tenho mais nada a perder. Minha dignidade se foi quando você saiu da nossa casa.

Krycek arregala os olhos. Salta na frente de Scully.

KRYCEK: - Mulder, calma... Olha, vamos conversar como gente civilizada... Vamos resolver isso de maneira correta, antes que vocês se machuquem mais ainda... Pensem no que estão dizendo e fazendo ou mais tarde podem se arrepender... E eu confesso que não estou gostando muito desse clima por aqui e nem do rumo da conversa...

Scully começa a chorar, magoada e confusa. Sai porta à fora.

MULDER: - (FERINO/ GRITA) Ah! Ficou com medinho de não dar conta? Não queria dois homens? Eu topo! Volta que eu vou realizar a sua fantasia! Tem minha permissão, "querida"!!!

Krycek cruza os braços e olha incrédulo pra Mulder.

KRYCEK: - Ok, vou bater palmas, você conseguiu ser mais cretino do que eu! Acabou com ela em um minuto!

Mulder agarra Krycek pela jaqueta e o prensa contra a parede.

MULDER: - Se chegar a um metro dela eu mato você. Tá me entendendo? (GRITA COM ÓDIO) Eu mato você!!!

KRYCEK: - (GRITA) Você diz que Scully está fora de seu juízo perfeito, mas e você? Ahn? Quando estiver normal a gente conversa! Só não toque um dedo nela! Se machucá-la, Mulder, eu juro que vou machucar você! Porque vai machucar alguém inocente! Você não está entendendo nada, não consegue ver a verdade porque está cego de ciúmes!!!

Mulder acerta um soco em Krycek. Krycek quase cai, mas não reage. Mulder acerta outro. E mais um, fazendo Krycek cair no chão, com o lábio e o supercílio abertos. Mulder caminha até a porta.

KRYCEK: -(OFEGANTE) Mulder...Um amigo fiel é o melhor remédio que se encontra na vida.

Krycek levanta-se meio atordoado, sangue escorrendo dos cortes. Estende a mão entregando a arma pra Mulder, enquanto limpa o sangue dos lábios.

MULDER: -(INCRÉDULO) ...

KRYCEK: - Eu sei que pode atirar em mim, agora que tem sua arma de volta. Mas é meu gesto de confiança.

Mulder pega a arma. Aponta pra Krycek, que fecha os olhos.

MULDER: - Eu não teria feito isso. Não apostaria minha vida nas mãos de alguém que está com ódio de mim...

KRYCEK: - (ENGOLE EM SECO/ OLHOS FECHADOS) ...Só peço que escute o que eu tenho pra dizer. Se me matar, vai cometer um erro tão grande que nunca mais terá Scully de volta. Porque a verdade vai ser enterrada comigo. E é tudo o que eles querem.

MULDER: -Você não é meu amigo, rato cretino.Não há nada que possa dizer pra me fazer acreditar em você...

Mulder abaixa a arma.

MULDER: -Mas eu vou parar pra ouvir. Agora, se eu não gostar...

Krycek abre os olhos.

KRYCEK: - Talvez eu seja o único amigo que lhe resta, Mulder. A única pessoa em quem você pode confiar. Mais uma ironia do destino.


7:37 P.M.

Krycek entrega uma cerveja pra Mulder. Senta-se de frente pra ele. Coloca sua cerveja sobre o supercílio.

KRYCEK: - Acha lógica essa situação? Eu tenho um caso com sua mulher, ela admite isso pra você e eu fico negando. Mesmo sabendo que você nunca acreditaria em mim e sim nela? Por que eu negaria algo que ela revelou a você, se eu tivesse feito realmente? Ahn?

MULDER: - Não sei o que você está armando.

KRYCEK: - Mulder, você sabe que eu tinha um desejo secreto pela Scully. Coisa de homem. Você sabe como é. É curiosidade, o diferente, o inatingível. Eu nunca falei abertamente pra você, mas fiz de tudo pra que entendesse. Não podia começar do zero enganando você... Ou não estaria começando. Estaria sendo o mesmo cara mentiroso que eu fui.Agradeço a chance que você me deu. O seu perdão foi muito importante pra mim. E eu sei que não é fácil perdoar o ato que você perdoou. Pra dizer a verdade, eu nunca perdoei os assassinos do meu pai. Mas você tem um coração nobre e agradeço pelo que fez.

MULDER: - (SÉRIO) ... Ainda bem que sabe que não sou idiota. E não sou idiota também pra não perceber que Scully ficou perturbada com você desde aquele sonho. Mas nunca imaginei que vocês teriam a coragem.

KRYCEK: - Mulder, eu... Eu nem sei se entendo aquilo. Não foi proposital...

MULDER: -Eu sei. Incubus ou súcubos são espíritos malignos, uma possessão que se alimenta do desejo sexual. Nunca foi vocês realmente. Ele usou o desejo de vocês, não um pelo outro, mas o desejo sexual que as pessoas tem. E transferiu a imagem e as sensações pra ambos. Ela achou que era você e você achou que era ela.

Krycek pega uma toalha e coloca contra o corte.

KRYCEK: - Como um intermediário? Isso é demoníaco!

MULDER: - É. É demoníaco. Mas de alguma maneira que eu não sei, você conseguiu pedir ajuda através do Incubus. Mas esqueça, é outro Arquivo X do qual não tenho todas as respostas. E nem sei se quero ter.

KRYCEK: - Então me escute, por favor. Não caia na mentira que eu caí. Não se torne o que eu era. E você está prestes a fazer isso. Você vai acabar se matando, Mulder. Ou vendendo sua alma pra eles! Eles já sabem que estou vivo. E querem me ver morto de verdade. Nada como usar o passional Mulder pra isso.

MULDER: - ...

KRYCEK: - Mulder, só você me apoiou na hora que eu mais precisei! Por que eu retribuiria sua amizade com uma traição dessas?

MULDER: - Acabe logo, tenho seis balas te esperando.

KRYCEK: - Mulder, ela chegou aqui na madrugada, quando você estava em Belle, pouco antes de eu te ligar, debaixo de uma chuva, dizendo coisas sem sentido! Nós nunca fomos pra cama! Mas ela acredita que sim! Scully falou coisas que eu nunca fiz com ela! Eu juro pra você, eu não transei com sua mulher!

Mulder o olha confuso, olhos perdidos.

MULDER: - ... Ela insinuava em nossas discussões que eu batia nela. Falou pra todo mundo que eu fazia isso. Nunca bati em Scully, nem com uma rosa...

KRYCEK: - Tá vendo? Eu também não dormi com ela!

Mulder aponta a arma pra ele.Expressão de indecisão.

MULDER: - (GRITA) Como vou ter certeza disso? Por que Scully inventaria algo assim? Scully nunca mentiu pra mim!

KRYCEK: - (GRITA) Eu não sei! A Scully nunca faria isso, não a Scully que conhecemos! Mas essa Scully aí está fazendo isso! Mulder, se me matar, estará sozinho contra esses caras! É tudo o que eles querem!

Mulder abaixa a cabeça, desatinado.

MULDER: - Está me pedindo pra acreditar em você e não na Scully?

Mulder derruba lágrimas. Krycek olha apiedado pra ele.

MULDER: - (ATORDOADO) Eu não sei mais em quem acreditar! Estou zonzo, ferido, cego de ódio e de dor. Scully nunca mentiria pra mim. E agora... Ela diz que me odeia, me quer fora da vida dela, tentou me matar... Diz que ama você. Depois diz que ama nós dois! Olha rato, seja sincero. Não é a primeira vez que alguém se faz de meu amigo pra conseguir coisas e me passa a perna pelas costas. Mas pelo menos seja sincero e admita o que fez. Nem precisa me confessar. Apenas fique em silêncio e retire-se do meu caminho pra sempre.

KRYCEK: - Mulder, eu não vou me calar, pois eu não fiz nada do que Scully falou pra você!

MULDER: -(DESATINADO) E-eu... Eu nem posso matar você! Frohike tem razão quando me chama de frouxo. E-eu... Só cuida dela, direitinho. Se o seu amor é melhor pra ela, que... Scully seja feliz então, já que eu...

KRYCEK: - Mulder, me escuta. Eu não amo a Scully! Eu não quero a Scully! Muito pelo contrário, eu quero a Scully bem longe da minha vida! O que eu tinha de curiosidade por ela acabou rapidinho, pode acreditar! Nunca ia dar certo! Eu liguei desesperado pra dizer que ela esteve aqui falando essas coisas, antes que você acabasse ouvindo dela mesmo e interpretasse como quisesse. Mas não adiantou nada! Mulder, eu não quero sua mulher! Pelo amor de Deus, eu quero é descobrir por que diabos ela está fazendo isso, nos jogando um contra o outro num triângulo amoroso bizarro e inexistente! Mulder, ela não me ama. Ela ama é você! Até trocou meu nome pelo seu!

MULDER: -(DESATINADO) Isso não prova nada. Ela também trocou meu nome pelo seu. E num momento muito cruel...

KRYCEK: - Tem alguma coisa de errada por aqui...

MULDER: - Deixe o velho Fumacento em paz. Ele não quer me separar da Scully. Ele tem coisas mais sérias pra fazer, como proteger o Bin Laden, negociar com Fidel Castro e alienígenas, conspirar contra a humanidade, enquanto acende um cigarro decidindo o resultado dos jogos da NBA.

KRYCEK: - Mulder, não dá pra falar com você descornado desse jeito! Seu pai sabe que estou vivo e está querendo me matar por causa dessa confusão toda, mas ele não usaria você pra isso. É o Moedinha! Tem que ser! Ele quer ferrar vocês dois e a mim, o único que sabe dessa verdade e contaria pra você! Se tivesse me matado, você nunca saberia disso. Ia seguir a vida odiando a Scully e a perdendo pra eles!

MULDER: - Numa jogada suja dessas? Isso é baixo demais até para o Sindicato!

KRYCEK: - Nada é baixo demais para aquele sujeito, Mulder! Ele não é o Sindicato. Ele pertence ao topo que rege todas as conspirações do mundo!

MULDER: - Rato, tem noção do que está me pedindo? Está me pedindo pra acreditar em você e ignorar a pessoa a qual depositei minha vida nas mãos dela? Ela que nunca mentiu pra mim? A única pessoa em que eu confio? ... Ou confiava. Não, Rato. Scully não teria motivos pra mentir pra mim. Ela nunca mentiu pra mim! Eu confio nela!

KRYCEK: - Cabeça fria, Mulder! Se você ama a Scully, precisa manter-se em sanidade mental pra descobrir a verdade. Eles sempre atacavam um de vocês! Quando não era algo contra você, era contra Scully. Mas dessa vez atacaram os dois, ao mesmo tempo! Foi o maior e mais cruel dos ardis, atacar o amor de vocês! Não entende? Atacaram o relacionamento de vocês, o seu maior medo de perde-la e o medo que ela tem de ser feliz!

MULDER: - ...

KRYCEK: - Não pense com seu cérebro, Mulder. Pense com o coração! Se pensar com a razão só vai continuar fazendo besteiras e deixando ela com mais ódio de você, a afastando mais ainda! Se eu quisesse Scully, essa era a oportunidade. Sabe por quê? Pra me chegar, dando apoio pra ela, o que ela mais precisa no momento. No entanto, estou aqui tentando enfiar nessa sua cabeça dura que é você quem tem que fazer isso! Fique ao lado dela. Ela não pode ficar sozinha! É por isso que eu deixei ela ficar aqui, estou cumprindo nosso acordo de proteção, até que você consiga ver a verdade e fique ao lado dela! Por que eu diria isso a você se quisesse Scully? Ahn? Por que daria de graça o que eu quero?

MULDER: - (PENSATIVO) ...

KRYCEK: - Pense com o coração, Mulder! Scully ama você, sempre amou, nunca trairia você e nem sua confiança! Jamais abandonaria a filha que ela tanto ama e desejou! Nem os sonhos de vocês, a vida de vocês... E por mim? Logo eu? Ah, Mulder, eu não tô com essa bola toda não! Eu não posso competir com um cara como você. Pensa, Mulder!

Mulder abaixa a cabeça. Coloca as mãos no rosto. Suspira.

MULDER: - Já ouvi isso de alguém. 'Pense com o coração'...

KRYCEK: - Ótimo que tenha ouvido! Aposto que esse cara está do seu lado pra dizer isso!

Mulder ergue a cabeça e olha pra Krycek.

MULDER: - Eu não acredito em você! Eu acredito nela. Ela nunca mentiu pra mim!

KRYCEK: - Não vê Mulder? Não percebe que até aqueles cretinos sabem que vocês nunca mentem um pro outro? Que plano fantástico e diabólico fazer isso acontecer! Você me mataria, porque acredita na Scully, afinal ela nunca mentiu. Eles se livrariam de mim que estou ajudando você. Você baixaria a guarda numa situação dessas, sem apoio nenhum... Tudo o que eles querem pra pegar sua filha! É o Moedinha, com certeza! É aquele desgraçado por trás disso tudo!

MULDER: - Mas por que eles conseguiriam convencer a Scully a mentir pra mim? Implantes ela não tem! Feitiçaria? Invocação? Magia negra?

KRYCEK: - Não sei, você é o perito em coisas satânicas. O que sei é que temos de ganhar tempo pra descobrir e não é fugindo da Scully que vamos conseguir isso. Aliás, quanto mais longe de nós, mais vulnerável ela vai ficar ao ataque deles... E, se você gosta da sua mulher, vá correndo pra casa, porque alguma coisa está acontecendo. Você não vê porque está cego de ciúmes. Mulder, não me faça olhar pra você e perceber que é um fraco. Um mentiroso. Você dizia que a amava. Você dizia que daria a vida por ela. Você mentiu? Você enfrentou a mim e aqueles homens dizendo que era por amor a essa mulher. E agora, você desiste dela? Se entrega?

MULDER: - (SUSPIRA/ TRISTE) ...

KRYCEK: - Você é um fraco? Um perdedor? É isso? Esse não é o Mulder que eu conheço. Ou que eu achava conhecer. O Mulder que eu conheci iria até o inferno pra salvar essa mulher. Enfrentaria tudo por ela. Amor Mulder! Amor! Pense com o coração! Faça o que ele te diz pra fazer. Esqueça seu cérebro. Seu orgulho ferido. Coração, Mulder.

MULDER: - Rato... O pior é que tudo o que você está me dizendo faz sentido.

KRYCEK: - Mulder, se Scully acredita no que disse, acredite pra contentá-la. Pra não afastá-la mais de você. Se você provocar, ela só vai sentir ódio e querer distância. Mantenha-a por perto. Dói? Eu posso imaginar que dói. Mas é o único jeito de salvar Scully e o relacionamento de vocês.

Mulder levanta-se. Olha pra Krycek.

MULDER: - Uma última pergunta: O que seus óculos faziam nas coisas dela?

KRYCEK: - Tá legal, Mulder. Meus óculos sumiram do meu carro. Mas eu não tenho como provar isso. Só tenho a minha palavra. Ou confia em mim ou na Scully.

MULDER: - Eu... Eu vou pensar no que conversamos. E... Coloca um gelo nessa cara pra não inchar.

KRYCEK: - Pense com seu coração. Pra saber o que deve fazer. Vai Mulder. Lute por ela. Ela vale a pena. E nunca precisou tanto de você quanto agora. É a você que ela ama. Não a mim. Scully apenas esqueceu disso. Agora vai pra casa e pense no que eu falei. E me faz um favor?

MULDER: - Se eu puder...

KRYCEK: -Mulder, saiba que sou seu amigo. Mas amizades têm limites. Então nunca, mas nunca mais entre aqui de novo e tire sua roupa me propondo essas fantasias malucas e liberais que vocês dois curtem, ok? Dois é bom, três é bagunça!

Mulder sorri triste. Krycek tranca a porta. Apoia-se com as costas na porta. Cansado, deixa o corpo cair ao chão.


Residência dos Mulder - 10:56 A.M.

[Som: I Promise You I Will - Depeche Mode]

Victoria, bem agasalhada, de gorro, corre pelo jardim. Cai. Levanta de novo. Mulder atrás dela. Victoria a risadas altas foge dele. Os dois brincando de pega-pega.

Corta para o outro lado da rua. Scully, escondida atrás de uma árvore, observa, sorrindo em lágrimas.

Mulder se cansa, chama Victoria pra dentro. Victoria nega com a cabeça. Scully sorri. Mulder pega Victoria no colo. Victoria vira o rosto pra trás, olhando pra árvore. Scully se esconde, com medo. Victoria, mesmo sem tê-la visto, abre um sorriso. Scully põe a mão nos lábios. Encosta-se na árvore e começa a chorar.


1:15 P.M.

No sótão, Mulder atirado em seu sofá de couro. Observa Victoria que brinca no tapete, bisbilhotando as coisas na estante. Mulder fecha os olhos, pensativo.

MULDER (OFF): - ... Acreditar em Krycek ou em Scully... Que mente maligna poderia tramar isso de uma forma tão medonha?

Mulder abre os olhos. Leva a mão até a mesinha ao lado do sofá. Abre uma caixinha. Retira uma chave de ouro. Mulder a observa, perdido em lembranças.

GABRIEL (OFF): - Não dou respostas. Você estragaria tudo antes do tempo, terminaria da maneira errada e isso estava escrito que deveria acontecer. Vá até o pântano novamente. Deixei algo pra você. Vai saber quando deve usar...

Mulder aperta a chave na mão.

MULDER (OFF): -Pense com o coração...

Victoria olha pra Mulder, enquanto morde a mão.

MULDER (OFF): - Pra que ele me deixou essa chave? O que vou abrir com ela?

Victoria olha atenta pra chave.

VICTORIA: -"Biel"...

MULDER (OFF): - ... Enquanto eu estiver com raiva da Scully, eu não vou conseguir raciocinar nada... Se o russo disse que não dormiu com ela, por que ela diria isso, pra me ferir? Melhor, por que ela diria isso acreditando tanto nisso? Só se Scully estivesse realmente doente. Mas como uma pessoa como Scully de uma hora pra outra apresenta sintomas de alguém que tem dupla personalidade?

VICTORIA: - Lá!!!!!!!!!!!!!

MULDER: - Filha, por favor... Papai precisa se concentrar um pouquinho, depois eu dou mais atenção pra você, tá?

VICTORIA: - Naaaaahhhhhhhhh!!!!!!!!!!!

Mulder olha sério pra ela, a censurando. Victoria aponta pra cima da estante.

MULDER: - O que você quer?

VICTORIA: - Lá!!!! Lá!!! Lá!!!

MULDER: - (SÉRIO) Pinguinho, não tenho tempo pra ficar brincando. O que você quer?

Mulder a toma nos braços. Victoria olha pra estante. Aponta pras fitas de vídeo.

MULDER: - Não tem nada aí. São coisas minhas, não são desenhos.

VICTORIA: - Naaaaaahhhhhhhhh!!!!!!!!!

MULDER: - Pinguinho, se não me deixar fazer o que tenho de fazer, eu vou colocar você na cama. Aliás, um bom cochilo agora cairia muito bem.

VICTORIA: - Naaaaahhhhh!!!!!! (JOGANDO O CORPO PRA TRÁS/ APONTA PRAS FITAS) Iço! Lá! Iço! Mama!!!! Lá, Ox!!!! Lá!!!!

Mulder olha pra filha, intrigado. Olha pras fitas.

MULDER: - Tem alguma coisa nessas fitas que eu deveria saber?

VICTORIA: - (PULANDO NO COLO DELE/ BATE PALMAS)

MULDER: - Qual delas, Pinguinho?

Victoria olha pras fitas. Olha pra Mulder, num beiço frustrado. Mulder sorri.

MULDER: - Desculpe, Pinguinho. Sei que devia prestar mais atenção nas coisas que você faz, mas... Eu não tenho tido muita sanidade mental ultimamente.

Mulder a coloca no sofá.

MULDER: - Tudo bem, você me deu uma pista, eu não posso querer tudo mastigado. Tem alguma coisa numa daquelas fitas... Ok... Papai entendeu.

Mulder pega uma fita da estante. Coloca no vídeo. Liga a TV. Senta-se no sofá, ao lado de Victoria. Pega o controle remoto.

MULDER: -Bom, essa coisa velha e antiga chama-se vídeo cassete. Isso já foi uma revolução, acredite. Mantenho essa velharia porque tem muita coisa boa naquelas fitas e não tenho saco e nem tempo pra converter VHS... E aí, parceira, vamos assistir vídeos paranormais o dia todo?

Victoria olha pra ele e sorri. Mulder mordisca o nariz dela.

MULDER: - Meu cheirinho de rosas. Sabia que você tem cheirinho de rosas?

Victoria se deita no sofá, olhando pra ele. Mulder sorri. Olha pra TV.

MULDER: - Hum... O Iço seria o 'Pé Grande'?

VICTORIA: - Nahhhh!

MULDER: - Ok... Então vamos adiantar a fita...

VICTORIA: - Nahhhh!

MULDER: - Ok, trocamos a fita. Vampiros?

VICTORIA: - Naaaahhhhhh Ox! Nah!

MULDER: - (FRUSTRADO) Ai se você falasse... Você faz coisas nada comuns pra crianças da sua idade, mas as coisas normais que elas fazem, ainda não faz...


5:09 P.M.

Mulder com o corpo estirado no sofá. Victoria entre os braços dele, dormindo.

8:37 P.M.

A caixa de pizza sobre a mesinha. Mulder olhando vídeos e comendo pizza. Victoria sentadinha ao lado dele, rosto todo sujo de molho, comendo um pedaço de pizza com as duas mãos. Mulder olha pra ela, debochado.

MULDER: - Fala aí, minha tartaruguinha ninja. Quer mais pizza?

VICTORIA: - (RINDO/ MOSTRANDO OS DENTINHOS) Dahhhh!


11:36 P.M.

Mulder já entediado, ainda olhando vídeos. Olha pra Victoria. Victoria olha pra ele. Mulder sorri.

MULDER: - Eu acredito em você, Pinguinho. Se diz que tem algo nessas fitas, eu vou achar.


12:01 A.M.

Mulder dormindo no sofá. Victoria dormindo por cima dele. Mulder com os braços envolvidos nela, segurando o controle remoto. O vídeo ligado. Mulder se acorda. Ajeita Victoria no sofá. A cobre com uma manta. Levanta-se e sai do sótão.

12:08 A.M.

Mulder entra no sótão, segurando a correspondência. Olha pra TV. Coloca outra fita. Senta-se no sofá. Victoria dormindo. Mulder começa a abrir as cartas. O envelope grande lhe chama a atenção. Mulder começa por ele. Olha pra TV.

DR. ZERNICKE (OFF): - Você se perdeu de sua mãe num shopping center. Você tinha quatro anos de idade, sentiu muito medo e raiva dela. Você odeia sua mãe.

PACIENTE (OFF): -Eu odeio minha mãe. Me perdi no shopping center com quatro anos de idade...

Mulder acena negativamente com a cabeça.

MULDER: - (INDIGNADO) Que falta de ética profissional! Ele está implantando sugestões no inconsciente do cara!

Mulder rasga o envelope. Retira uma grossa cópia encadernada. Mulder olha pra televisão.

DR. ZERNICKE (OFF): -Um homem tomou você pela mão... Abusou sexualmente de você.

PACIENTE (OFF): - Sim... Me tomou pela mão. Abusou sexualmente de mim.

Mulder começa a folhar o documento. A fisionomia de Mulder se transforma em pavor. Mulder olha pra TV. Olha pro documento. Se levanta, desatinado, deixando tudo cair ao chão e sai do sótão, chorando.

Close no documento aberto ao chão:

TOP SECRET: Projeto Monarch (MK-ULTRA), 1954. "Fases da experiência de reaprendizagem mental aplicada em ratos e sua futura aplicação em Camp Hero".


Esconderijo de Alex Krycek – 12:17 A.M.

Krycek abre a porta, com um curativo no supercílio. Barbara entra. Olha pra ele assustada.

BARBARA: - Se meteu em algum rolo de novo?

KRYCEK: - Só pra variar um pouquinho.

Barbara observa o lugar. Krycek senta-se ao computador.

BARBARA: - Hum, bem aconchegante... Confesso que não é a sua cara. Pensei que fosse mais rebelde.

KRYCEK: - Vamos dizer que sou mais rebelde. Um decorador não contratado estragou a cara do lugar.

Barbara percebe as roupas de Scully sobre o sofá.

KRYCEK: - Vou comprar duas passagens pra Belle. Vou usar nomes diferentes pra não chamar a atenção.

BARBARA: - ... Sua esposa não está?

KRYCEK: - Não sou casado.

BARBARA: - ... Desculpe. Sua namorada.

KRYCEK: -Eu não tenho namorada.

BARBARA: - Bom, então alguém vai ter que dizer isso pra você. Não acho que você fique bem usando tailleur e saltos altos.

Krycek olha pra Barbara. Percebe o que ela observa.

KRYCEK: - Ah! Isso é um problema sério... Uma confusão bateu na minha porta.

BARBARA: - Deveria pelo menos assumir a 'confusão'. Vocês homens acham que só as mulheres são culpadas pela 'confusão'?

KRYCEK: -Não é nada disso!

Krycek levanta-se.

KRYCEK: -Comprei as passagens. Vou tomar um banho e fazer a mala. Me espere aí. Tem cerveja na geladeira. Faça as reservas no hotel.

[Som: Bizarre Love Triangle - New Order]

Krycek vai pro banheiro. Barbara anda pelo lugar. Observa tudo, curiosa. Abre a geladeira, pega uma cerveja. Abre a cerveja.

Aproxima-se da porta do banheiro. Empurra-a lentamente. Espia, tomando um gole de cerveja. Sorri marota, observando Krycek de costas, tomando banho. Então afasta-se.

Barbara observa as roupas de Scully. Solta a cerveja e olha pra porta do banheiro. Volta a atenção para o tailleur e começa a revirar os bolsos. Acha a credencial. Abre-a. Ao ver a foto de Scully, arregala os olhos. Guarda a credencial rapidamente.

BARBARA: - (ASSUSTADA) Tá de brincadeira que os dois estão... Mulder sabe? Ui! Nem quero saber!

Barbara continua xeretando, abrindo gavetas, revirando papéis. Percebe o chuveiro sendo desligado. Ela então ajeita tudo, pega a cerveja e volta pra perto do computador, disfarçando.

A porta abre-se. Scully entra com um saco de compras. Ao ver Barbara fica surpresa.

BARBARA: - Oi!

SCULLY: - (FRANZINDO O CENHO) Oi.

Scully larga a bolsa e as compras. Cruza os braços, encarando Barbara.

BARBARA: - (ESTENDE A MÃO) Barbara Wallace...

Scully não a cumprimenta.

SCULLY: - Sei quem você é. Costumava se encontrar com o meu marido. Pelo jeito está interessada em tudo o que eu tenho.

BARBARA: -Olha, se está insinuando algo entre eu e Mulder, fora de cogitação. Mulder não é meu tipo.

SCULLY: - (ENCIUMADA) Sei... Conheço bem a sua espécie de peixe predador. Sendo carne, tudo é comestível...

Krycek sai do banheiro, de calças jeans e secando os cabelos com a toalha.

KRYCEK: - Fez as reservas no hotel... (PERCEBE SCULLY) ... Ah! Você voltou.

Scully olha enciumada pra Krycek.

SCULLY: -É claro que voltei! E pelo visto, você deve ter se divertido enquanto eu estava fora. Até já tomou banho!

KRYCEK: -???

Barbara disfarça, tirando uma sujeira fictícia da roupa. Observa discretamente a confusão.

SCULLY: -(ENCIUMADA) Antes de se livrar do cheiro, deveria ter se livrado da vadia.

BARBARA: -Ei! Vadia não, ok? Estou aqui a trabalho, ele tem uma história e eu sou jornalista.

SCULLY: - Cala a sua boca! Ele tem muitas histórias, mas nenhuma delas é pro seu bico.

Krycek fica boquiaberto observando as duas. Abre um sorriso convencido e cruza os braços.

BARBARA: - Pensa no contexto, agente Scully. Não sou eu a vadia aqui dentro. Correto? Ou Mulder sabe o que tá rolando aqui?

SCULLY: - Claro que Mulder sabe! Ele esteve aqui conosco ontem.

Barbara arregala os olhos. Scully encara Krycek.

SCULLY: -Reservas no hotel? Pretende ir a algum lugar?

KRYCEK: -Não pretendo. Eu vou.

SCULLY: - (ENCIUMADA) Ah, sim... E vai levar essa jornalistazinha com você?

BARBARA: - Ei, eu não sei de nada, me tire fora dessa! É trabalho, já disse!

SCULLY: - Ah, você não sabe de nada? Então o que faz aqui, planejando férias com o meu homem? Não bastou se aproximar de Mulder, agora quer o Alex também?

Krycek segura o riso. Observa as duas, empolgado.

BARBARA: - Desculpe se ele é seu homem, não tenho nada com ele a não ser trabalho.

SCULLY: - Ah sim... Eu conheço muito bem essa coisa de 'eu não tenho nada com ele a não ser trabalho'. Apenas 'coleguinhas'. Eu e Mulder fomos coleguinhas!

BARBARA: - Olha, eu sei lá o que tá rolando por aqui, não tenho nada a ver com vocês dois ou três e o que fazem... Sei lá que tipo de relacionamento aberto vocês têm, mas eu não me surpreendo com isso, na boa, ok? Não tenho preconceito, já escrevi artigos sobre isso. Eu tenho um amigo que é bissexual e leva a esposa pra transar com o amante dele. E tenho uma amiga que divide o marido com um amigo gay e ainda tenho um amigo árabe com três esposas e...

Krycek tira o sorriso convencido e a empolgação e entra em pânico.

KRYCEK: -Não!!!! Não é nada do que está pensando!!!! Eu não sou gay e não tenho nada com essa mulher e menos ainda com o marido dela!!! Pelo amor de Deus, olha o que você publica no jornal!!!

BARBARA: - Eu só estou aqui pra ajudar Alex, ok? Não me interessa sua vida particular, eu posso entender essas coisas, na boa, se você é gay ou bi...

KRYCEK: - (DESESPERADO)Não tem coisas aqui!!! Meu negócio é mulher! Só mulher!!!

SCULLY: -(ENCIUMADA) 'Alex'? Nossa! Quanta intimidade! E você, Alex, dando explicação? Olha, aqui, sua invejosa, ele é gay sim! E Mulder também é. Quando eles cansam de brincar comigo vão brincar entre eles. Então cai fora porque não tem nada aqui pro seu bico! Anda!

KRYCEK: -(DESESPERADO) Barbara, não acredita numa palavra do que Scully está dizendo, não é... Meu Deus, olha a confusão em que você me meteu Scully! Daqui à pouco vão achar que... (IRRITADO) Já estão achando! Scully, quer parar com isso? Eu não gosto do tom com que fala sobre mim! Não sou sua propriedade, não temos nada e você não tem o direito de destratar uma amiga minha dentro da minha própria casa! E eu não sou gay!

SCULLY: - (GRITA) Ah é assim? Seu rato asqueroso, cretino, tarado! Eu não passo de diversão pra você é? É isso?

KRYCEK: - (GRITA) Para com isso, Scully!!! A minha paciência está esgotada!

Barbara os observa, curiosa. Krycek veste uma camiseta e a jaqueta.

SCULLY: - (GRITA) Eu não calo não! Se não me quer, não deveria ter me prometido mil coisas quando fizemos amor!

KRYCEK: -(GRITA) Nunca fizemos sexo! Amor menos ainda!!!

SCULLY: -(GRITA) Ah, sim... Esqueci, eu sou louca não é? É isso o que pensa de mim?

Krycek pega Barbara pelo braço. Abre a porta.

KRYCEK: - Vamos embora. Nem tente argumentar nada.

SCULLY: - (GRITA) Você não vai sair daqui desse jeito! Você não pode me destratar assim!

KRYCEK: - É? E o que vai fazer?

Scully começa a atirar coisas nele. Barbara sai pra fora. Krycek se aproxima e segura Scully pelos pulsos.

KRYCEK: - Olha bem pra mim. Você está acostumada com o Mulder. Você faz ele de seu capacho, pisa em cima, o trata como um cão e ele faz todas as suas vontades de menininha fresca de família, porque você é muito mimada e mal acostumada. Mas eu não sou o idiota e passivo do Mulder. E você não é a única mulher no mundo. Tem mais um monte lá fora que não pede muita coisa não e são até bem mais interessantes e bonitas do que você.

SCULLY: - (CHOCADA/ SEM REAÇÃO) ...

KRYCEK: - Você não é o centro do mundo, nem o centro da minha vida. Se me machucar, eu machuco você e pouco me importa se vai doer ou não. Bateu, levou, Scully. Entendeu? Comigo é assim. Eu não suporto mulher ciumenta! E outra coisa: suma com todas essas porcarias que você comprou. Eu tenho um tipo de vida e não é por você que vou mudá-lo. Não pense que vai conseguir ir se chegando e tentando me fazer engolir o tipo de vida que você foi acostumada. Se não gosta, pega suas roupas e volta pro otário e passivo do seu marido!

Scully perde qualquer reação diante dele. Olhos assustados. Krycek sai, batendo a porta. Barbara olha pra ele.

KRYCEK: -Foi ótimo você ter vindo aqui, Barbara. Sem querer acaba de me dar uma saída pra esse rolo todo. Foi duro dizer isso pra Scully, mas eu tinha que dizer... Ela precisa me odiar. Porque se começar a se sentir bem comigo, ela nunca vai voltar pro Mulder.

BARBARA: - Quer me explicar o que está havendo? Você transa com a esposa do seu amigo e ele não se importa? Ou ele participa?

Krycek põe as mãos no rosto. Suspira desanimado.


Clínica Mens Sana in Corpore Sano – 12:31 A.M.

Mulder observa sentado dentro do carro. Nenhum movimento. Olha pra Victoria, sentada no banco de trás.

MULDER: - Filhinha, preciso verificar uma coisa. Quero que fique deitadinha aí. Se pressentir alguma coisa, chore bem alto.

Victoria se deita. Mulder coloca um transmissor na lapela do terno. Coloca outro em Victoria.

MULDER: - Chore mesmo. Papai vai ouvir e vir correndo.

Mulder desce do carro. Atravessa a rua se esquivando. Puxa do bolso um cartão de crédito. Tenta abrir a porta mas não consegue.

CANCEROSO: - Quer as chaves?

Mulder dá um pulo, assustado. Vira-se pra trás. O Canceroso traga o cigarro debochado.

MULDER: - O que faz aqui?

CANCEROSO: - O mesmo que você. Estou sentindo um cheiro de traição aí dentro. E ver você aqui me faz pensar que não estou tão caduco e neurótico quanto eu pensava.

MULDER: - Ainda quer a cabeça de Strughold?

CANCEROSO: - A cabeça de Strughold sempre foi meu prato favorito. Estão fazendo algo com Scully.

MULDER: - Era por isso que a estava seguindo? Por que não me avisou antes?

CANCEROSO: - Pra você sair por aí atirando em todo mundo, gritando e chamando atenção desnecessária? Você estava vendo passarinho verde. Homem apaixonado fica cego. Esse é o seu problema. Não pode nunca fechar os olhos. Deve beijar de olhos abertos.

MULDER: - (DEBOCHADO) Fala como quem é mestre em romance... Eu recebi o seu recado. Acabaram-se os pombos correios e você começou a fazer o serviço do carteiro?

CANCEROSO: - Não diga depois que não me preocupo com sua família. Os pombos correios de confiança se acabaram... Costumam voar e não voltam mais pro dono.

MULDER: - Deixe Krycek em paz. Ele não tem culpa de nada. É tão vítima quanto eu e Scully.

CANCEROSO: - Desde quando protege aquele sujeito?

MULDER: - Já disse pra deixar o Rato em paz. Se você e ele tem pendências a serem resolvidas, não é agora que vão me ajudar se matando um ao outro. E você também aprontou as suas com ele, não tem moral alguma pra julgá-lo. Tem as chaves dessa porta?

CANCEROSO: - Tenho.

O Canceroso leva a mão dentro do sobretudo. Retira uma arma com silenciador e atira na porta. Mulder se encolhe, olha apavorado pra ele.

CANCEROSO: - Pode me culpar também por seu gênio explosivo.

O Canceroso entra. Mulder o segue, ainda olhando incrédulo pra ele.

CANCEROSO: - Quer nomes? Diana Fowley, Mr. Alberthi, Strughold. A santíssima trindade do inferno. Eles me fazem parecer um inocente nesse jogo.

MULDER: -(INCRÉDULO) Diana? Merda! Agora entendi o que ela estava fazendo comigo. Estava me provocando e eu caí feito patinho! Piranha desgraçada...

CANCEROSO: - Quem dorme uma vez com piranha acaba pra sempre mordido.

MULDER: -Por que está entregando a cabeça dos seus coleguinhas de 'jardim de infância'?

CANCEROSO: - Porque eles tomaram minha caixa de giz de cera. E estou sem fazer meu dever de casa por isso.

Mulder e o Canceroso vão tentando abrir as portas. Todas trancadas.

CANCEROSO: - A sala de Patterson é a última. Vou pegar a chave...

MULDER: - (PÂNICO) Não! Não quero mais chave alguma!

Mulder retira o cartão de crédito e tenta abrir a porta. Consegue.

CANCEROSO: - Onde aprendeu isso? Não foi no FBI.

MULDER: - Se esqueceu que eu morava em Alexandria?

CANCEROSO: - Boa vizinhança você tinha.

MULDER: - Gente muito 'estudada'.

Mulder entra na sala. O Canceroso vigia o corredor. Mulder revira os arquivos. O Canceroso olha pra ele.

CANCEROSO: - Patterson e Mr. Alberthi se encontram muitas vezes.

MULDER: - Eu pego os dois. Pode deixar comigo.

Mulder retira uma das pastas do arquivo.

CANCEROSO: - Não se meta com Alberthi. Pegue o outro. Alberthi não é humano.

MULDER: - E o que ele seria?

CANCEROSO: - (OLHA PRA MULDER) Tenho uma suspeita infundada. Melhor nem saber.

MULDER: - Se acha que ele é um alienígena... Achei a ficha da Scully.

Mulder fecha o arquivo. Fica com a pasta.

CANCEROSO: - O que ouviu na imprensa foi culpa minha. Comecei a desconfiar do interesse repentino em estudos antigos. Soltei a notícia dos ratos robôs. Mas é um projeto muito antigo, início do MK-Ultra. Foi desenvolvido em ratos e posteriormente aplicamos em seres humanos. A amostragem escolhida foram os funcionários de bases secretas militares. Eles não podem ficar se lembrando de coisas que não devem.

MULDER: - Em quem mais utilizaram?

CANCEROSO: - Nos processos de falsas abduções. É um recurso muito antigo. Utilizamos em pessoas chaves no governo, políticos, líderes terroristas, celebridades e... Em alguns jogadores da NBA.

MULDER: - (INCRÉDULO) ... NBA?

CANCEROSO: - Começaram a mexer no assunto novamente, alegando a programação de soldados. Mentira. Já temos soldados programados.

Mulder olha assustado pro Canceroso.

MULDER: - ... Eu cuido de Alberthi. Mas primeiro quero salvar Scully.

Mulder sai porta à fora, desesperado.



BLOCO 4:

Apartamento de Ellen – 12:49 A.M.

Ellen de pijamas e sonolenta abre a porta. Scully entra com a mala.

SCULLY: - Posso ficar aqui até arrumar um apartamento?

ELLEN: - O que houve? Brigou com o gostoso da bunda bonita e jaqueta de couro?

SCULLY: - Não me fale desse cretino. São todos iguais mesmo! Nenhum homem vale nada!

ELLEN: - Eu avisei que você estava trocando raposa por rato. Já sabia que essa coisa de "girassóis da Rússia" não ia terminar em nada. Exceto num "inferno vermelho".

SCULLY: - Ellen, não fica de piadinhas pra cima de mim, tá legal? Eu não estou bem.

Scully senta-se no sofá. Ellen fecha a porta.

ELLEN: - Quer falar sobre isso?

SCULLY: - Não!

ELLEN: - Ótimo! Porque eu não queria ouvir mesmo! Estou com sono e tenho que trabalhar hoje cedo. Vista um pijama e divida a cama comigo. Amanhã a gente ajeita tudo aqui pra você ficar. Aliás, está um saco mesmo morar sozinha. O gato fugiu. O que esperar dos machos? Eles nos trocam por qualquer coisa que esteja no cio.

Ellen vai pro quarto. Scully vai atrás dela. Ellen se deita. Scully larga a mala no chão.

ELLEN: - Pega um dos meus pijamas.

Scully abre a gaveta, pegando um pijama. Começa a trocar de roupa.

SCULLY: - Pior que deixei coisas na casa dele e vou ter que pegar... Idiota!

ELLEN: -Pelo menos o sexo foi bom?

SCULLY: - Ele me evita.

Ellen começa a rir alto. Scully a fulmina com os olhos.

ELLEN: - Amiga, amiga... Eu querendo um homem e você com dois, sua baixinha esganada! Você é a única mulher que eu conheço que tem dois homens e que vive na secura! E os dois são gatos ainda por cima! Quanto desperdício!

Scully emburra e atira uma almofada em Ellen.

ELLEN: - Ok. Ok... Aqui estamos nós, ficando velhas, divorciadas, sem filhos por perto... Acho que isso é o que chamamos de amizade cúmplice.

SCULLY: -...

ELLEN: - Pensando em algo?

SCULLY: - Não sei... Me sinto vazia... Algumas vezes tenho lapsos de tempo, de memória... Não sei pra onde minha mente viaja... Sabe uma fita desmagnetizada?

ELLEN: - Sei.

SCULLY: - Pois estou assim. Alguns trechos da gravação falham... Somem... Percebo o quanto somos insignificantes nesse universo. E no quanto somos pretensiosos.

ELLEN: - Hum, seja quem for que nos criou não era tão perfeito assim ou foi intencional da parte dele nos fazer com alguns defeitinhos.

SCULLY: - ...

ELLEN: - Está pensando no Mulder, não é?

SCULLY: - Não! Quem disse isso?

ELLEN: - Esquece, nem tá mais aqui quem falou.

SCULLY: - ...

ELLEN: - ...

SCULLY: - Como ele pôde fazer tudo isso contra mim? Como Mulder conseguiu fingir esse tempo todo? Essas coisas não me saem da cabeça, Ellen. Ficam ali me martelando, martelando...

ELLEN: - Como um pica-pau num tronco de árvore?

SCULLY: - É... Bem isso... Onde está meu filho? Ellen, eu preciso encontrar meu filho.

ELLEN: - Já fomos até o orfanato. Já colhemos todas as provas que podíamos. Sabe que alguém levou seu filho de lá. Agora começa a luta pra saber onde ele está.

SCULLY: - ... Ellen, eu... Eu me sinto tão triste por dentro... Parece que falta algo dentro de mim.

ELLEN: - Mulder?

SCULLY: - Quer parar de falar nele? Se gosta tanto dele assim, vai atrás e o pegue pra você!

ELLEN: -(CHOCADA) Ai, Dana! Cruzes! Essa foi a coisa mais besta que você já me disse! Mulder sempre será o seu marido pra mim. E você é mais que amiga, é minha irmã. Respeito é bom e conserva os dentes. Nisso eu sou antiquada e careta: homem de amiga minha pra mim é gay!

SCULLY: - ... Desculpe, Ellen. Não estou me sentindo bem. Acho melhor tomar meus remédios e ir dormir. Estou confusa...

ELLEN: - Também acho.

Scully deita-se na cama, encolhendo-se. Perde os olhos no nada. Ellen apaga o abajur.

SCULLY: - Ellen? Como pode a gente amar dois homens completamente diferentes e com a mesma intensidade?

Ellen acende o abajur e senta-se na cama.

ELLEN: - Ahá!!!!!!!!! Eu sabia! Ainda ama o Mulder!

SCULLY: - Não é que amo o Mulder... Tá, quando eu não lembro das maldades que ele me fez... Eu até sinto alguma coisa por ele...

ELLEN: - Dana mentirosa, lá lá lá lá lá...

SCULLY: - Mas como eu posso amar um cavalo vestido de gente?

ELLEN: - Nossa! É tão grande assim???

SCULLY: - Ellen, estou falando sério! Como amar o Mulder? Alguém que bate em mim, que me maltrata? Ele disse que pode viver muito bem sem mim. E ele tá conseguindo. Perguntou se eu ia pegar minhas coisas ou se ele deveria colocar no lixo. Acha que não notei? Ele tá sem a aliança. Aposto com você que deve estar dispensando a atenção dele pra outra mulher.

ELLEN: - Tenho certeza. Vi Mulder com uma morena de olhos verdes. Muito linda.

SCULLY: - (TRISTE) Sério? E-ela é morena?

ELLEN: - Sim. E atende pelo nome de Victoria.

SCULLY: - (INDIGNADA) Não dá pra falar com você mesmo. Boa noite!

Scully enfia o edredom por cima do rosto. Ellen, rindo, apaga o abajur.


Residência dos Mulder - 1:21 P.M.

Krycek entra pela porta dos fundos. Nenhum movimento. Vai pra sala. Mulder sentado, em frente a garrafa de bebida intocada. Victoria dormindo ao lado dele. Mulder observa a garrafa enquanto afaga o pezinho da filha. Krycek se aproxima.

KRYCEK: - Deixou a porta dos fundos aberta...

MULDER: - Sabia que você viria... Pelo menos sua cara não inchou. Desculpe por isso.

KRYCEK: - Não é a primeira vez que apanho de você. Mas espero que seja a última.

MULDER: -Sabe de uma coisa? A vida da gente muda. Há um tempo atrás eu já teria esvaziado essa garrafa ou metido um tiro na cabeça.

Mulder leva as mãos ao rosto. Está com a aliança novamente.

MULDER: - Mas... Eu não posso perder a cabeça. Tem mais alguém que precisa de mim agora.

Mulder olha pra Victoria dormindo. Dá um sorriso cansado. Krycek senta-se ao lado dele.

KRYCEK: - Como é isso, Mulder? Como é ter um filho? Como é acordar todos os dias, tendo que ser responsável por alguém a não ser você mesmo?

MULDER: - Só tendo um filho pra saber. Muda tudo. Você encontra juízo na cabeça que nem sabia que tinha... Você aprende que tem importância na vida, porque alguém verdadeiramente lhe dá esse grau de importância: Você é o papai, o cara, o herói. Não pode desistir. As prioridades mudam, seu filho passa a ser sua prioridade. É amor incondicional.

Krycek perde os olhos no nada.

MULDER: -(OLHANDO PRA FILHA) Ela não liga para os meus defeitos. Eu posso ser o pior homem no mundo, mas pra ela eu sou apenas o "papai"... Redenção, Krycek... Minha filha é minha redenção. E no meu caso, que tive uma filha depois dos 40, tudo o que eu espero é que a vida me permita vê-la crescer e chegar na minha idade...

Krycek pega a garrafa e serve o copo. Visivelmente angustiado.

KRYCEK: - Ok, eu bebo por você. Preciso beber... Estou sentindo que minha vida está passando e nada mais tem significado. Alguém jogou todo o meu passado de repente na minha cara, me fazendo lembrar coisas que eu custei a esquecer... Coisas doídas.

MULDER: -Se tivesse esquecido realmente não teria se perturbado tanto... O passado, Krycek, por mais que você tente enterrar, ele sempre volta à tona. Tanto nas coisas boas que relembra quando está feliz, quanto nas coisas ruins que relembra quando está triste. É uma fera dentro de nós pronta a nos consumir. A nós cabe domesticá-lo.

KRYCEK: - Tem razão, Mulder... O pior é que não tem muita coisa boa pra lembrar não...Fui um joguete estúpido quando cheguei nesse país, cercado de promessas daquela gente. Grana alta, muita ação, vida boa, mulheres bonitas... Tudo o que um jovem adora... Idiota! Estou ficando velho e nada dessa merda toda me atrai mais! Perdi mais do que ganhei. Perdi tudo. Perdi Marita, meu filho... Na verdade, eu sempre fui um perdedor, nunca ganhei nada.

MULDER: - Todos somos perdedores em algum momento da nossa vida. E você sabe, está olhando para o rei de todos.

KRYCEK: - Nada mais me prende aqui, Mulder. Exceto um falso emprego de policial que me trás um pouco de ação nesse marasmo todo e paga as contas. Eu poderia voltar pra Rússia, mas não tem nada lá, exceto lembranças amargas. Poderia ficar aqui, mas também só fiz merda nesse lugar e tenho mais inimigos que amigos. Acho que vou embora. Só não sei pra onde.

MULDER: - A experiência me ensinou que não adianta fugir, Krycek. Os problemas vão com você. Scully tinha razão quando disse que seria melhor ficarmos depois que nossa filha nascesse... Fugir só pioraria tudo. Ficar iludido numa falsa segurança e ser pego de surpresa. É melhor estar debaixo do nariz desses caras. Pelo menos você prevê a bala antes de acertar sua cabeça... Tem mais chances de sobreviver no jogo deles. Uma vez envolvido com eles, insônia para o resto da vida.

KRYCEK: -Eu gosto desse país, mas eu confesso pra você: estou com medo. Medo de morrer. Não vejo mais futuro pra mim, exceto uma bala na cabeça vinda de qualquer um que eu ferrei. Eu não quero morrer, Mulder. Eu não quero mais matar ninguém. A morte... A ideia de um corpo frio e sem vida me assusta. A ideia de deixar esse mundo, por pior que ele seja... Sabe quando você perde tudo, tudo no qual acreditava e... Você sabe sim. Por minha culpa você sabe. Acho que estou ficando covarde. Metade da minha vida foi jogada fora. E a outra metade não tem perspectiva. Isso se chama ficar velho?

MULDER: - Não. Isso se chama amadurecer. Acontece com alguns homens de meia idade... Aconteceu comigo. Que bom que está acontecendo com você. Dói ver que não somos nada, que num simples estalar de dedos a vida se vai. Ninguém quer morrer, Krycek.

Krycek levanta-se. Anda pela sala. Observa as fotos de Mulder e Scully juntos.

KRYCEK: - Eu não estou bem hoje. Quando me sentia assim eu tinha Marita pra conversar. Era a única amiga que eu tinha, ela entendia tudo porque estava inserida nesse universo que você também conhece... E agora... Você é o único cara com quem posso falar dessas coisas. O único amigo que eu tenho, em quem eu confio, que piada do destino!

MULDER: - (DEBOCHADO)Não se culpe. Poderia ser pior. Poderia ter feito amizade com algum caquético do Sindicato... Ao menos nós temos a mesma idade. Somos da mesma geração de idiotas que ainda acreditavam em alguma causa pra defender.

KRYCEK: -Minha vida de repente virou piada de humor negro! Eu sou o tal amante da sua mulher, mas prefiro passar meu tempo com você do que com ela! Nem pra amante eu sirvo mais! Meu filme queimou por completo!

Mulder segura o riso. Krycek senta-se.

KRYCEK: - Scully arruinou sua vida e a minha. Eu ia pra Belle hoje, mas desisti. Ela e Barbara Wallace se desentenderam, pensei que iam se agarrar pelos cabelos e sair quebrando tudo.

MULDER: -Ciúmes de você?

KRYCEK: -De nós dois. Ela deixou isso bem claro, que a outra se interessava por tudo o que era dela! Pobre Scully...

MULDER: -(SEGURA O RISO) Scully morre de ciúmes da Barbara.

KRYCEK: - Scully começou a falar sobre nós três, diante da mente criativa e jornalística da outra que saiu pensando que nós três... Sabe? E que você e eu...

MULDER: - (PÂNICO) Como assim "você e eu"? Barbara pensa que você e eu dividimos a Scully, é isso? Ou ela pensa que além disso você e eu somos fãs de um eventual "Brokeback Mountain"? Isso agora virou triângulo equilátero??? Pior que ser corno é ser corno e gay! Não, pior ainda é ser corno e gay e ainda transar com o amante da mulher! Isso é humilhação completa!

KRYCEK: - Lamento, mas a sua fama também foi pro lixo. Scully num acesso de ciúmes doentio... E olha, já vi mulher ciumenta, mas a sua ganha disparado! Ela disse pra Barbara que somos gays pra ver se a outra fica longe de nós dois. Como se a Barbara tivesse algum interesse em nós!

Krycek suspira desanimado. Mulder começa a rir.

MULDER: - Essa é a minha baixinha ciumenta, briguenta e invocada que eu conheço. Adoro isso nela!

KRYCEK: - (DESANIMADO) É, bom pra você que é marido dela. Quem se danou fui eu. Minha fama de vilão, machão, bad boy e de amante acabou Mulder. Sua mulher está ferrando todas as minhas chances com o público feminino! E eu sou o solteiro por aqui... E sabe que mulher adora fofoca, e fofoca se espalha rápido...

MULDER: - Com certeza! Então deixe bem claro pra Barbara que entre nós dois eu sou o ativo. Pelo menos vou ser apenas corno. Menos pior!

Krycek encara Mulder. Mulder começa a rir.

KRYCEK: -(INDIGNADO) É, muito engraçado, não é você quem está sendo jogado na fogueira! Você chora pra Scully voltar. Eu já tô chorando pra ela nunca mais voltar! Ela pegou as coisas e foi pra Ellen. Espero que fique por lá... Pelo amor de Deus, ela acabou com a minha reputação e ainda arrumou todo o meu depósito! Ela não é uma mulher, é um alienígena mutante do planeta limpeza!

MULDER: -(DEBOCHADO) Não era tudo o que você queria?

KRYCEK: - Mulder, eu já disse, não quero sua mulher, eu quero ajudar vocês, eu devo isso aos dois! Eu fiz mancadas que nunca poderei apagar se não fizer isso! E ela não é exatamente o tipo de mulher que eu gosto... (QUASE CHORANDO) Mulder, ela colocou flores na mesa! Nem o Sindicato me mete tanto medo quanto Scully! Por favor, Mulder. É um amigo desesperado que pede isso. Peço perdão pelos meus pecados. Mas se ela voltar, me ajude a tirá-la de lá antes que meu depósito estimado vire a casa da Mamãe Gansa e aquela gangue de motoqueiros lá do beco comece a me olhar estranho e a atirar beijinhos. Eu juro que vou mandar meia dúzia pro inferno se olharem pro meu traseiro!

MULDER: - (SORRI/ SAUDOSO) Eu adoro as flores dela...

KRYCEK: - Pois fique com elas.

Mulder se levanta. Pega Victoria nos braços.

MULDER: - Vou colocá-la na cama. Eu preciso ter uma conversa muito séria com você.

KRYCEK: - (NERVOSO) Aconteceu alguma coisa?

MULDER: - (DEBOCHADO) É. Agora que descobriram o nosso tórrido caso de amor, acho melhor você vir morar comigo, tomar conta da casa e assumir seu papel de esposa. Scully fica pra nossa amante nos fins de semana. Afinal a gente já a divide numa boa.

KRYCEK: - (DEBOCHADO) Quer um soco na cara agora ou espero você colocar sua filha na cama primeiro?

Corte.

Mulder joga o relatório na frente de Krycek. Senta-se no sofá.

MULDER: -Preciso da sua ajuda porque descobri o que estão fazendo com a Scully. O Fumacinha me prometeu que vai deixar você em paz. Ele me deu esse arquivo sobre o MK-Ultra. Lembra daquela fita que Zernicke tentou roubar, mas morreu antes disso? Pois associe. Técnicas de lavagem cerebral ou reprogramação mental.

Krycek pega o relatório.

KRYCEK: - (ASSUSTADO)MK-Ultra? ... Mulder, eu lamento...

MULDER: - Eu sei.

KRYCEK: - ... Agora temos a explicação para o comportamento da Scully, mas temos que parar isso, não sabemos o que vai acontecer com a mente dela e nem se vai voltar ao normal algum dia! Você tem noção do que é o MK-Ultra, Mulder? Nós soviéticos conseguimos resultados bem melhores que os americanos. E você sabe o resultado americano.

MULDER: -(DESANIMADO) Eu sei. Por isso estou aqui olhando pra essa garrafa... Acho que perdi Scully. Porque ela mesma se perdeu. Desconheço como reverter o processo. Mas acho que você tem razão em dizer para concordarmos com ela. Porque isso vai, com o tempo, mostrando quem somos de verdade, quem são as pessoas na vida dela e ela pode começar a se questionar sobre o que acredita. A lembrança que tem não bate com a verdade do que está vendo, entende?

KRYCEK: - Concordo.

MULDER: - Entrei na clínica do Patterson. Roubei a ficha de Scully. Tudo faz sentido agora, Rato. Você tinha razão. Scully está mentindo, mas não por culpa dela. A fizeram acreditar em mentiras... Mas o burro aqui, cego de ciúmes não associou nada. Quando ela tentou me matar haviam moscas na janela. E o tonto do Mulder, fez uma burrada no trabalho. Numa hora de desatino encerrei o Caso Carmichael.

KRYCEK: - (INCRÉDULO) Você fez o quê? Mulder, eu disse pra você que eu ia continuar no caso...

MULDER: - Encerrei o caso Carmichael. Eu fiz besteira! E de novo você tem razão! As respostas estão em Belle. Preciso voltar a Louisiana e confesso que estou sendo incompetente com o caso. Não saio mais do lugar porque não me concentro, estou sentindo falta da Scully, estou cansado, magoado e... E estou não querendo acreditar no que começo a pensar...

KRYCEK: - Tente colocar suas ideias no lugar agora, Mulder. Carmichael, lembra? Lembra o que Melanie Carmichael fez? Não há semelhanças com o que houve aqui quando Scully tentou matar você e Victoria?

MULDER: - Totalmente.

KRYCEK: - Chequei algumas coisas. A mais interessante delas é o cartão de crédito.

MULDER: -Melanie comprou a arma com que matou o marido?

KRYCEK: - Mulder, pouse no chão. Preciso do agente Mulder aqui e agora. Você é o cara que investiga tudo. Como pode deixar isso passar?

MULDER: -(PÕE AS MÃOS NO ROSTO) ... Nem pensei em checar isso...

KRYCEK: - Verifiquei com a administradora do cartão. Há um ano, todo o mês, uma quantia de 400 dólares era debitada do cartão de crédito de Melanie Carmichael. Advinha quem recebia o dinheiro?

MULDER: - O amante? Ela tinha um amante?

KRYCEK: - Mulder, eu já falei que não tenho nada com a Scully! Pensa!

MULDER: - Pra onde os 400 dólares estão indo todo o mês?

KRYCEK: - Instituto Wilson de Psicoterapia, em Alexandria, Louisiana.

Mulder olha pra ele.

KRYCEK: - John Brown, de Savannah, Georgia, lembra-se? Há algum tempo atrás? Levantou do sofá, pegou a arma e matou a filha Jennifer e a esposa. Jennifer estava obtendo desabafos do hacker Alexander Rugbin, mais conhecido como Al, que trabalhou para uma grande companhia mundial de desenvolvimento de softwares, que também desenvolvia softwares em segredo para o governo americano.

MULDER: - Que apareceu morto.

KRYCEK: - E todas as provas foram encobertas pelo exército e o Centro de Estudos do Comportamento Humano, chefiado pelo Dr. Zernicke, que foi fechado.

MULDER: - Zernicke... Que acabou morrendo.

KRYCEK: - Agora, quer saber quem são os donos do instituto onde Melanie fazia psicoterapia?

Mulder fecha os olhos.

KRYCEK: - Dr. Zernicke e Dr. Patterson.

Mulder põe as mãos no rosto.

MULDER: - O médico de Scully... Eu não quero acreditar! Isso só reforça o que eu temia...

KRYCEK: - Eu disse que Strughold andava se interessando muito por psicólogos... E de louco ele não tem nada. E agora você me fala sobre MK-Ultra... Faz todo o sentido!

MULDER: - Eu não entendo! Não faz sentido algum tirarem Scully de mim! Eles querem Victoria! Por que encher a cabeça dela de mentiras? Pra ela me matar? Eu me matar? Pra fazê-la se apaixonar por você e eu matar você e fazer o serviço deles?

KRYCEK: -Pra separar vocês, Mulder. E me enfiaram nesse joguete pra eu acabar morto! Qual a maneira mais fácil de tirar a filha de vocês, se estão sempre juntos para protegê-la?

MULDER: - ... Separam-se os dois... Os dois caem perdidos...

KRYCEK: - E toma-se a criança. Dividir para conquistar.

Mulder olha pra Krycek.

MULDER: - Sabe a fita?

KRYCEK: - Que fita?

MULDER: - A única fita que sobrou do Centro de Estudos do Comportamento Humano, aquela com Zernicke. Ela é a única prova das experiências que eles faziam de controle mental. A fita que eu achava não ser prova alguma! Era isso que ela estava tentando me dizer.

KRYCEK: - O que? Quem?

MULDER: - Victoria. Levaram todas as provas, mas essa fita, milagrosamente eles não levaram e... (FECHA OS OLHOS) ... Meu Deus!

KRYCEK: - Mulder, o que foi?

MULDER: -Zernicke tentou roubar a fita e acabou morrendo... Foi ela, Krycek. Foi Victoria quem salvou Scully de morrer nas mãos de Zernicke, pra nos deixar essa prova. Ela o matou.

Krycek olha pra Mulder.

KRYCEK: - Mulder... Não exageremos, é uma criança... Ela não teria como...

MULDER: - Uma super criança que não tem noção das capacidades que tem, nem do certo e do errado, mas do amor que tem pelos pais dela a ponto de defendê-los como puder. Ela sabia o que continha a fita, por isso ela gritava desesperada! Não eram apenas mensagens subliminares. Eu estava errado. Era outra coisa que Victoria queria dizer. Ela queria me dizer esse tempo todo o que estavam armando pra Scully!

KRYCEK: - ...

MULDER: - A fita é a chave de tudo. E o tonto aqui ainda disse que de nada serviria, pois só mostrava um psicólogo fazendo hipnose sugestiva!

KRYCEK: - Tá legal, Mulder. Me explica tudo, que agora eu me perdi.

Mulder se levanta e zanza de um lado pra outro, angustiado.

MULDER: - ... Pobrezinha da minha filha! Espero que ela entenda que a mãe dela não a odeia de verdade. Espero que ela não tenha raiva de Scully.

KRYCEK: - Não menospreze a menina Mulder. Ela sabe. Sabe mais do que eu e você juntos. Pena que não fale ainda.

MULDER: - Agora faz sentido por que aquele anjo me disse pra pensar com o coração, assim como você me disse. É só com o coração que eu vou salvar a Scully. Não tem mais nada que se possa fazer pra reverter o que Patterson fez com ela! A bem da verdade... Só muito amor. Amor é a palavra chave. Acho que essa vai ser a maior prova de amor que eu terei que dar a Scully.

KRYCEK: - Do que está falando?

MULDER: - Eu conto. Só quero que saiba de uma coisa. Pode ser que... Scully escolha você... Ao final disso tudo.

KRYCEK: - ??? Mulder, eu...

MULDER: - ... Ok. Eu sei que você não tem nada com ela. Mas é um tiro no escuro que eu preciso dar pra salva-la da loucura. Vou deixar todos meus sentimentos de lado, meu objetivo é salva-la, acima do amor que eu tenho por ela. Mas isso não quer dizer que ela voltará pra mim. E se isso não acontecer... (TRISTE) ... Quero que a faça feliz. Me prometa isso.

KRYCEK: - Mulder, você tá muito estranho e não estou gostando dessa conversa. O que vai fazer?


Residência de Margaret Scully – 4:44 P.M.

Meg sentada na cozinha, cabisbaixa, nervosa. Mulder coloca a xícara de chá na frente dela. Ellen segura a mão de Meg. Mulder olha pra sala, vê Victoria brincando com Cookie. Senta-se de frente pra elas.

MARGARET: - Willian nunca tocou um dedo nas filhas dele! Como ela pode dizer que ele as violentava? Dana passou dos limites! De repente ela me odeia... Me odeia, odeia o pai dela, a família dela! Eu eu nem sei o porquê!

MULDER: - Meg, me escute. Preciso que seja muito sincera comigo.

Meg olha pra ele.

MULDER: - Tem certeza absoluta de que as coisas que ela falou não são reais?

MARGARET: - Claro que sim!

ELLEN: - Eu mesma posso garantir isso, Mulder. Convivi com Dana, com o sr. Scully... Nossos pais trabalhavam juntos na marinha. O que Dana anda dizendo não faz sentido algum.

MULDER: - Não se ofendam, por favor. É importante que me digam se o que Scully disse é mentira. Preciso saber se Scully comentou algo do tratamento que estava fazendo com o Dr. Patterson. Eu sei que ela andou falando coisas sobre mim, mas eu não fiz as coisas de que ela me acusa. Não estou aqui pra pedirem que acreditem em mim. Meg é mãe dela. Você, Ellen, é amiga dela. Não quero que fiquem contra Scully, jamais! Eu preciso de vocês pra trazer ela de volta pra realidade.

MARGARET: - Ela não me comentou nada, exceto que estava se tratando com o tal Dr. Patterson... Seções de psicoterapia. Como disse pra você, Mulder.

ELLEN: - Com hipnose... E tomando medicação pra dormir. Foi o que ela me disse antes de ficar estranha desse jeito.

Mulder fecha os olhos, angustiado.

MULDER: - Como eu deixei isso acontecer? Bem debaixo do meu nariz? Por que eu não prestei mais atenção nela? Ela tinha toda a razão em dizer que fui omisso!

MARGARET: - Não pode se culpar, Fox. Você não foi omisso. Esteve ali ao lado dela, todos os dias, a confortando. É muita coisa pra uma pessoa só! E minha filha é teimosa, esconde as coisas, acha que pode fazer tudo sozinha sem pedir a opinião de ninguém.

ELLEN: - Dana queria poupar suas preocupações, Mulder. Ela não queria que você se preocupasse com ela, com tanta coisa acontecendo, você já tinha preocupação demais...

MULDER: - (SEGURA AS LÁGRIMAS/ RESPIRA FUNDO) ... Já ouviram falar em pessoas que sofrem de DPM, doença das personalidades múltiplas? Uma hora é uma pessoa, daqui à pouco muda completamente? Não falo de bipolar, não é mudança de humor. É de personalidade mesmo.

MARGARET: -Dana está com dupla personalidade?

MULDER: -Não. Mas foi o diagnóstico que o médico deu a ela. Scully é médica, não ia cair em qualquer cilada e se submeter a um tratamento nada convencional. Estou falando isso porque um dos métodos mais usados para tratamento da tal 'personalidade múltipla' é a hipnose. Aí ele enganou a Scully e a convenceu a fazer hipnose. (ANGUSTIADO) E ela... Ela queria ficar bem, tentaria tudo pra ficar bem...

MARGARET: - E isso é perigoso?

MULDER: - Meg, hipnose é como qualquer droga. Tem a dosagem e a fórmula certa. Se a pessoa que realiza a hipnose não souber como fazer, pode induzir e hipnose indutiva é crime. Acaba por implantar uma memória que não está ali, apenas usando a indução. A hipnose serve para aliviar e não forçar as lembranças. Isto é lavagem cerebral. Scully apresenta algumas reações psíquicas de pessoas que sofrem hipnose indutiva: molestação sexual por parentes na infância, agressividade contra as pessoas que a cercam...

MARGARET: - Acha que estão destruindo o cérebro da minha filha?

MULDER: - ... Preciso que sejam fortes. Preciso muito da ajuda de vocês. Eles estão retaliando o cérebro da Scully.

Ellen pega o chá de Meg e bebe nervosamente.

MULDER: - Funciona como um computador. Você grava arquivos em cima de arquivos. E ela não sabe qual a diferença entre os originais e as cópias falsificadas. Por isso tem lapsos de memória, se confunde, esquece e não reage como uma pessoa reagiria diante de uma situação. É como ela sair com você, mãe e fazer compras. E depois confundir que saiu com um ladrão pra fazer as mesmas compras. Ela não sabe mais quem a maltratou e quem a amou. Lembra do fato, mas não associa a pessoa. E muitas coisas mais.

ELLEN: - E podemos reverter o processo?

MULDER: - (RESPIRA FUNDO) Não há como reverter o que foi feito. A tendência é que Scully comece a apresentar sintomas de autismo, medo das pessoas, que se isole e tenha tendências suicidas.

Meg leva as mãos à boca, chorando.

MULDER: - Mãe, preciso de você mais do que nunca. Como preciso da Ellen. Ellen, precisa manter Scully com você. Precisa cuidar dela, é a única pessoa em quem ela confia ainda.

ELLEN: - Eu o farei. Ela fica morando comigo. Não vou tirar os olhos dela.

MULDER: - Meg... Mãe, olha pra mim... Não fique assim, você é forte e tantas vezes ficou do meu lado pra salvar sua filha. Nós vamos conseguir ter nossa Scully de volta. Vai demorar, mas nós não vamos desistir. Não é?

Meg afirma com a cabeça, chorando.

MARGARET: - Minha filha não está louca? Não é, Fox?

MULDER: - Não, Meg. Scully só está estressada com tantos altos e baixos que passamos nestes últimos anos e um safado se aproveitou dessa situação para triturar o cérebro dela. Scully não sabe mais o que é mentira ou verdade. Não dá pra tirar o que colocaram lá dentro, embaralhando com tudo. Isso só faria Scully ficar louca. O que podemos fazer pra ajudá-la é apenas acreditar no que ela acredita.

MARGARET: - Mas Fox...

ELLEN: - Isso não seria incentivar a Dana a continuar com as mentiras?

MULDER: -Não. Precisamos mantê-la do nosso lado. Não é indo contra o que ela acredita que a manteremos perto de nós. Mesmo que argumentemos algo contra a terapia e as medicações dela, ela já foi programada pra não aceitar qualquer coisa que digamos como o certo a ser feito. Meg e eu somos inimigos dela. Scully não nos escuta, está com ódio de nós, e não podemos culpa-la pelas coisas que disse e que fez. Mas você Ellen... Ou o Krycek... Vocês podem a convencer do contrário. Não programaram Scully para reagir contra vocês. Muito pelo contrário. Não sabiam da sua existência, Ellen. Nem esperavam que eu confiaria no Krycek.

ELLEN: -Acho que foi Deus quem me mandou pra cá mesmo! Mulder, mas e o Krycek... Vai confiar que...

MARGARET: - Quem é esse? O cara com quem ela está traindo você?

MULDER: - Eu sei que parece absurdo, mas Krycek é outra mentira implantada na cabeça da Scully. Eles não têm nada. Ela acredita que sim. E está programada a aceitar tudo o que ele diga também. Então deixe-a acreditar na mentira até que possamos provar o contrário pra ela. E essa é a forma como faremos ela acreditar em nós: sendo nós mesmos. Olharmos pra ela e lembramos da nossa Scully. Amá-la. Pensar com nosso coração a cada vez que ela nos magoar. Vai chegar um ponto em que a realidade não vai bater com o que ela lembra. Então ela terá forças de selecionar o que é verdadeiro e o que foi implantado!

MARGARET: - Então devo admitir que William...

MULDER: - Meg, pode parecer loucura, mas é a única forma de fazer algo pela Scully. Pedindo desculpas por coisas que nunca fizemos. Eu e você estamos mais ferrados, somos os malvados da historinha que contaram pra ela. Somente desculpas, ok? Não podemos induzir mais mentira. Não entre em nenhum assunto delicado, espere ela entrar e sair magoando. Se ela quiser explicações, diga que não as tem. Peça perdão apenas. E continue sendo a mãe amorosa que ela tem. Mais cedo ou mais tarde ela vai ver que você jamais admitiria uma coisa dessas em sua casa, porque vai reaprender quem é a mãe dela. E assim acredito que vai separar o joio do trigo. Agora, se ela ficar longe de nós, como verá a verdade? É isso o que eles querem. Que ela nos machuque e nos afaste.

ELLEN: - Mulder, alguém já fez isso antes?

MULDER: - Não, Ellen... Mas é a minha teoria. E eu quero tentar. Porque se não tentar isso, não resta mais nada. E eu não quero desistir da Scully. Se vai doer pra mim, vai. Mas não importa. Eu vou reconquistar a confiança e o amor dela de volta. Nem que eu leve o resto da minha vida. Pode ser que eu não consiga que ela me ame novamente. Mas se eu conseguir que ela recupere sua mente e sua vida de novo, eu ficarei feliz.

ELLEN: - ... E Alex Krycek?

MULDER: - Ele também sabe do que está acontecendo. Vai agir da mesma maneira. Conto com vocês e o amor que tem pela Scully. Amor. É só isso que vai trazer ela de volta.

Mulder sai. Meg fecha os olhos, tensa. Abraça-se em Ellen.

ELLEN: - Vai dar tudo certo, a senhora vai ver...

MARGARET: - Eu sei que Fox vai trazer minha filha de volta. Ele nunca mentiu pra mim... Se tem alguém que vai curar a minha filha é o Fox... Com todo o amor que ele tem por ela.

Corte.


Ellen sai da casa atrás de Mulder, que coloca Victoria na cadeirinha do carro.

ELLEN: - Mulder... Somos adultos e eu não sou tola como a Meg. Eu vejo o quanto você está sofrendo por fazer o que nos pediu. E sei o sacrifício que está fazendo. Quem garante que Alex Krycek não vá se apaixonar pela Dana? E se eles se envolverem realmente? Você não pode controlar um homem e uma mulher sozinhos, entende? E acho que dói mais ainda porque você sabe disso.

MULDER: - É um risco que eu corro, Ellen. Chame de risco calculado. Mas pra curar a Scully, eu aceito o risco de sair perdendo. Mesmo tendo a palavra de um amigo, eu não sou tolo como ele, que pensa que pode controlar seus sentimentos.

ELLEN: - Se depender de mim... Dana vai ficar morando comigo. Acho que isso dificulta futuros problemas.

MULDER: - Não posso pedir mais do que estou pedindo por Scully. Então agradeço pelo bônus a meu favor. De coração.

Mulder sorri cansado. Entra no carro.


Esconderijo de Alex Krycek – 4:25 P.M.

Krycek abre a porta, vestindo a jaqueta de couro. Scully entra.

SCULLY: - Esqueci algumas coisas. Está de saída?

KRYCEK: -Plantão. Norris me escalou pra semana toda, está furioso comigo...

Scully ajeita a jaqueta dele.

KRYCEK: - Eu peço desculpas por ontem, Scully. Não quero que sinta ódio de mim... Só acho que é melhor pra gente pensar mais um pouco antes de sair por aí brincando de morar junto. Primeiro você tem que se decidir com qual de nós dois você quer ficar... Não é uma situação fácil, entende? Mulder é meu amigo, você a ex-mulher dele, pode sentir saudades do marido... Eu me sinto ameaçado como homem. Que segurança o amante tem quando sabe que o marido é o Mulder? Ahn? O cara tem faculdade, cheira a perfume importado, cheio das poesias, engravatado e agente do FBI. Enquanto eu não tenho muito estudo, cheiro a vodca e óleo de motor, cheio dos palavrões e não passo de um policial de delegacia? O páreo é duro, entendeu? Vou ter que comprar aquela moto e fazer mais umas tatuagens pra ganhar o prêmio! Bandana na cabeça conta ponto a meu favor?

SCULLY: - (SORRI) Alex, seu bobo! Eu amo você... E não quero perder você... (CHEIRA O PESCOÇO DELE) Não tem cheiro de óleo de motor. Tem cheiro de loção pós-barba... E-eu só estou confusa... Já amou duas pessoas ao mesmo tempo?

KRYCEK: - Não. Mas dou tempo pra você pensar. Porque dividir não dá. Seu marido pode entrar por aquela porta de novo, ameaçando tirar a roupa e nos propondo alguma coisa estranha a três...

Scully começa a rir.

KRYCEK: -Fala sério. Mulder estava mentindo, não? Você tem esse fetiche com dois caras?

SCULLY: - (RUBORIZADA) ...

KRYCEK: - O que tem? Não sou careta. Pode falar.

SCULLY: - Há uma longa distância entre desejar e fazer. Eu não faria. E Mulder não deveria revelar o que a gente conversava em nossa intimidade e depois usar isso pra me ferir.

KRYCEK: -Concordo. E fico imensamente aliviado por ouvir isso. Acredite, Scully, entre três vira bagunça. Eu já transei com duas garotas. Quando envolve duas mulheres é mais fácil pra um homem topar. Já dividir uma mulher com outro cara... É mais complicado na mente masculina.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Você já... E o que achou? Sentiu prazer nisso?

KRYCEK: -Foi frustrante! Se quer meu conselho, não dá certo. Vira bagunça. Em algum ponto da brincadeira a dupla do mesmo sexo descobre que entre elas o proibido é mais interessante, a novidade mais empolgante que o convencional que conhecem e como há a desculpa do momento... Você acaba ficando de expectador enquanto elas se divertem juntas. Entende o risco de sexo à três?

SCULLY: -Sim, mas eu sou hetero.

KRYCEK: - Não falei de você.

Scully ergue as sobrancelhas, assustada. Krycek disfarça o riso.

KRYCEK: - Scully, você não vai me perder. Mas dê um tempo a si, a mim, ao Mulder... Fique uns tempos com a Ellen. Deixa a poeira baixar. Você me ama, não ama?

SCULLY: - Resta alguma dúvida pra você?

KRYCEK: -Resta.

Scully o questiona com os olhos.

KRYCEK: -Lembra do que falamos sobre sua terapia? Eu acho que chega. Você já descobriu o que precisava. Agora precisa é superar!

SCULLY: - Não vou parar com a terapia!

KRYCEK: -Nem pra provar que você me ama? Você fica tão idiota quando volta de lá... É esse o medo que tenho, Scully. É o maior empecilho entre nós dois, muito mais que o Mulder. Posso até dividir você com o Mulder, mas não com o Patterson!

SCULLY: - Espera... Você está com ciúmes do meu médico?

KRYCEK: - É! Estou!

SCULLY: - (RINDO) Alex, por favor! Está me pedindo pra deixar a terapia, por que você tem ciúmes do Dr. Patterson?

KRYCEK: - Estou. Vem aqui, kroshka moya.

Krycek a puxa pra um abraço. Ela acha graça e o abraça.

SCULLY: - Alex, isso é absurdo!

KRYCEK: - (AFAGA OS CABELOS DELA) Acho que você não precisa mais disso. Está fora do mundinho de desamor e violência que você disse que vivia. Quer começar uma vida nova comigo, mas acha que posso ver você sofrendo assim? Dopada? Pensei que a gente ia se divertir, namorar bastante, viajar juntos, aproveitar a vida... É isso que você precisa: viver! Não foi bom quando fomos pra Louisiana?

SCULLY: - Foi. Me diverti! Me senti livre!

KRYCEK: - Então. É o que estou dizendo. Como posso viver com alguém que não sente prazer na vida? Ahn? Aquele médico já fez o que podia, agora você tem que fazer por você. E esses remédios pra dormir só deixam você acordada e confusa, imaginando coisas... Tipo eu e Barbara Wallace. Não existe nada entre ela e eu... Eu não gosto de ver você assim, machucada, triste, aborrecida. Eu fico triste também, kroshka moya... Você diz que me ama e não pode sequer provar esse amor? Levar em consideração o meu pedido? Pensa, tá? Por mim?

Scully sorri. Aproxima os lábios dos dele. Krycek se afasta.

KRYCEK: - Não... Quero que pense. Tire um tempo pra pensar em tudo isso. Fique com a Ellen. Quando se decidir realmente, a gente conversa. Eu não quero sofrer, Scully. Preciso de você forte do meu lado. Porque pra gente ficar junto, vamos enfrentar um mundo contra nós dois. E você assim... Não me dá segurança alguma pra apostar todas as minhas fichas. Entende?

SCULLY: - Entendo. É justo o que me pede...Posso perguntar uma coisa?

KRYCEK: - Qualquer coisa.

SCULLY: - Você me chama de kroska...

KRYCEK: - (SORRI) Kroshka moya.

SCULLY: - É. O que isso significa?

KRYCEK: - Minha migalha de pão. Não faz sentido pra vocês americanos. Pra nós russos, é uma expressão carinhosa para se referir a uma mulher pequena.

Scully sorri.

SCULLY: - Gostei. Migalha de pão... Hum... Não sou um pão inteiro, uma mulher alta, mas sou migalha, menor...

KRYCEK: -A vantagem das baixinhas é que derrubam os caras grandes apenas com um sorriso desses. Eu tenho que ir,kroshka moya. A gente se fala.

SCULLY: - Tá certo, grandão.

Krycek sai. Scully sorri boba.

SCULLY: - Hum... Gostei realmente disso... Só tenho que aprender a pronunciar...


Clínica Mens Sana in Corpore Sano – 7:24 P.M.

Câmera de aproximação simulando alguma pessoa, chegando pelo corredor. Vê a porta de Patterson. Diana sai da sala. Câmera de afastamento rápido pra dentro de outra sala. Espia e vê Diana entrar no elevador, com um sorriso cínico. O elevador se fecha.

Câmera de aproximação até a sala da Patterson. A maçaneta gira lentamente, empurrando a porta. Patterson sentado de costas, lendo alguma coisa. Vira-se, pressentindo algo. Arregala os olhos.

Som dos tiros desferidos que acertam a cabeça de Patterson, que pende o corpo na cadeira, morto.


10:33 P.M.

[Som: Bizarre Love Triangle - New Order]

Uma praça, semi-escura. Debaixo do poste luz, Mulder parado, com Victoria dormindo em seus braços. Ela toda entrouxada de roupa, luvas e gorro, enrolada numa manta. As bochechas vermelhas. Krycek ao lado dele, esfregando as mãos com frio.

KRYCEK: - Você é um péssimo pai. Isso é hora de estar com uma criança pequena na rua?

MULDER: - Não tenho com quem deixá-la.

KRYCEK: - É, ser pai solteiro deve ser difícil. Ela não assumiu?

MULDER: -(DEBOCHADO) Não. Me engravidou e aqui estou eu, com uma filha pra criar e na rua da amargura.

KRYCEK: -Eu fiz o que combinamos sobre pedir pra... (OLHA PRA VICTORIA) Pra ela sair da terapia e dos remédios. Vamos ver se surte efeito.

MULDER: - ... Espero. Quanto mais exposta, pior ela vai ficar.

KRYCEK: - E... Eu liguei praBarbara Wallace.

MULDER: - Pra explicar que não é gay? Sabe o que eu faria no seu lugar? Eu ia até o apartamento dela, batia na porta e quando Barbara abrisse eu já ia agarrando e mostrando pra ela o quanto eu sou gay. Não... Melhor, não fala nada. Deixa ela pensando que você não gosta da coisa. E depois ataca. Nunca brincou de fingir ser gay pra atrair mulher? Elas adoram amigos gays. Depois você mostra que sua sensibilidade é uma coisa e sua virilidade é outra bem maior!

KRYCEK: -Mulder, você é realmente estranho! Agora eu concordo com seu apelido!

MULDER: - Ah, não me olhe assim! Eu posso não ser um pecador experiente, mas nunca disse que era santo!

KRYCEK: - Eu só disse que precisava conversar com ela e que ainda preciso de ajuda com a história dos Carmichael, em Belle... Mulder,se Barbara insistir nessa notícia, o FBI vai ter que reabrir o caso porque a opinião pública vai querer respostas, entendeu?

MULDER: - (RINDO) Sei...

KRYCEK: -Ela disse que está me ajudando sem interesse algum.

MULDER: - (RINDO) Tem certeza?

KRYCEK: - Por quê? Ela disse pra você que quer algo em troca pelas informações?

MULDER: -Mas você é muito desconfiado e burro mesmo, né Rato? Você é pior que eu! Acha que ela tá nessa até agora só pra nos ajudar, se depois disso ela se ferrou? A mulher perdeu o emprego de âncora no noticiário do horário nobre de uma das mais importantes emissoras de TV, coisa que você leva uma vida pra conseguir com trabalho, dedicação e talento. Fora quebrar o preconceito por ser uma latina.Agora foi jogada na editoria policial de um jornal como simples repórter e ainda vai continuar arriscando perder tudo por uma luta que nem é dela?

KRYCEK: -(CURIOSO) Ela é latina?

MULDER: -Vou começar a acreditar mesmo que você é gay! Não reparou naqueles lábios mais cheios, na pele mais bronzeada, no jeito de andar balançando os quadris com charme... Ah, faça favor! Até eu que sou casado reparei num corpo de violão daqueles!

KRYCEK: - Claro que notei que ela é um mulherão, mas não que é latina. Não sou cego! Mas queinteresse então ela tem nesse jogo? O que ela quer ganhar?

MULDER: -(DEBOCHADO) Que tal o misterioso Alex Krycek?

KRYCEK: -(RINDO) Ah, para com isso! Agora ela acha que sou gay! Zerou qualquer possibilidade ali. Até eu explicar que focinho de porco não é tomada...

MULDER: -Eu já disse pra jogar com a Barbara. Você ainda não percebeu o interesse dela por você? Não tá exagerado demais? Você me pede pra confiar em você, mas não confia em mim? Eu tô falando, quando conversei com ela, depois do assunto principal sobre aquele anel de diamantes, ela só perguntava como você era, quem era e eu fugindo da conversa pra não estragar seu disfarce de homem morto. Mas ela descobriu sua ficha rapidinho e nem faço ideia como, porque nem eu descobri sua ficha inteira até hoje! Garota dedicada não?

KRYCEK: - Mulder, ela só quer saber com quem está lidando. E jornalistas são curiosos por natureza. Você vê coisas aonde não existem. Admito, se a sua mulher não tivesse atrapalhado com ceninha de ciúmes, eu ia tentar a sorte de uma noite lá em Belle, porque eu não sou idiota tá? Mas a imaginar essas coisas que você tá imaginando...

MULDER: - Eu tô dizendo, ela tá dando a maior bandeira pra você e você é tão idiota que nem vê. Eu encarava. Se eu não fosse casado.

KRYCEK: - Você nem é mais casado! Depois sou eu que invejo o que você tem!

MULDER: -E quem disse que você tem? Enquanto não pega, não leva!

O Canceroso se aproxima, fumando. Olha debochado pra Krycek. Mulder olha pro Canceroso. O Canceroso apaga o cigarro, afastando a fumaça de Victoria com a mão.

MULDER: - Eu não quero brigas aqui hoje.

CANCEROSO: - Não confie nesse sujeito.

KRYCEK: - Quem fala! E você, é digno de confiança? Quando eu dizia pra você que estávamos do mesmo lado, você ficava me aprontando pelas costas! Você matou Marita e meu filho.

CANCEROSO: - Eu não fiz isso.

MULDER: - Ei, ei, ei! Eu não quero discussões. Todos aqui temos culpa no cartório. Vingança gera mais sangue. Chega disso! O mais ferrado aqui fui eu, lembram-se? Mas eu dei uma chance aos dois. E não quero me decepcionar por isso. Ou vamos voltar ao que éramos, um tentando matar o outro enquanto o sujeito da moeda de ouro fica nos fazendo de imbecis ao lado de Strughold.

KRYCEK: - E deixe a Barbara Wallace em paz!

CANCEROSO: - Não tenho interesse algum nela. Gosto do que ela escreve. E dos belos quadris de mulher latina.

Mulder olha debochado pra Krycek.

MULDER: - Tá vendo? Até ele notou! Idiota!

Krycek acena negativamente com a cabeça.

MULDER: - Quero saber se você sabe de alguma maneira de regredir o que fizeram com Scully.

CANCEROSO: - Não há nada que possamos fazer. Uma vez feito, é pra sempre... Mataram Patterson há três horas atrás. Foi executado com três tiros na cabeça. Quem apertou o gatilho devia estar com muito ódio. E não era profissional. Ou fez intencionalmente para não parecer um.

MULDER: - Obrigado.

CANCEROSO: - Não me agradeça pelo que não fiz. Pensei que você o tivesse feito.

Mulder olha pra Krycek. Krycek arregala os olhos.

KRYCEK: - Não olhe pra mim. Não tenho nada a ver com isso. Foi você?

MULDER: - Eu? Eu não matei Patterson!

KRYCEK: - Se ele, você ou eu não matamos Patterson... Quem matou?

Os três se entreolham em interrogação.


Arquivos X – 8:11 A.M.

[Som: I Promise You I Will - Depeche Mode]

Mulder aproxima-se da porta. Escuta a música. Desconfiado entra bem devagar. Scully arrumando papéis olha pra ele.

SCULLY: - Bom dia.

MULDER: - (SURPRESO) B-bom dia. Manhã fria, não?

SCULLY: - Muito! O tempo ficou maluco lá fora.

MULDER: - Algum caso pra nós... Agente Scully?

SCULLY: - ... Não, eu... Eu tirei a manhã pra ajeitar as coisas por aqui... Onde está Victoria?

MULDER: - Pedi a sua mãe pra levá-la ao shopping e comprar algumas coisas. Não tive tempo pra isso. Vão passar o dia juntas.

Mulder tira o sobretudo e pendura no cabide. Senta-se.

MULDER: - Soube que seu psicólogo morreu.

SCULLY: - ... É.

MULDER: - ... Pode me dizer uma coisa? Estava fazendo hipnose?

SCULLY: - Sim.

MULDER: - E sabe se ele não estava implantando coisas em sua cabeça? Sabe se ele não trabalhava para o Sindicato?

SCULLY: - ... Por que diz isso?

MULDER: - Porque queria ajudar você, só isso. Ah, deixa pra lá, você não quer ouvir mais nada que eu tenha pra dizer e não me considera alguém digno de confiança mesmo.

SCULLY: - (PENSATIVA) ...

MULDER: - Lamento pela morte de Patterson.

SCULLY: - Tudo bem.

Mulder olha pra ela, a estranhando. Scully olha pra ele. Mulder pega uns papéis da mesa. Começa a ajeita-los também. Scully o observa.

MULDER: - Faxina... Então é isso aí. Ou vamos ser reprovados pelo controle de vigilância sanitária do FBI...

Scully olha pra ele, desconfiada. Mulder abre a gaveta.

MULDER: - Uau! Tem algumas formas de vida polimorfas aqui nos meus papéis...

SCULLY: - (SEGURA O RISO/ AINDA DESCONFIADA) ...

MULDER: - Hum... São duas... Acho que vou chamar uma de Fun e outra de Gus. Fungus. Que dupla!

SCULLY: - (SORRI) ...

MULDER: - Me lembre de não deixar mais chocolate na gaveta... Ele está se transformando numa forma de vida desconhecida.(MUDANDO A VOZ) Antigos espíritos do mal transformem essa forma decadente em Mumm-Late, o de vida eterna!!!!!!!

Scully solta os papéis e põe as mãos no rosto, rindo de Mulder. Mulder sorri, a admirando apaixonado. Ela olha pra ele. Mulder disfarça de apaixonado pra sério.

MULDER: - Bom... Hora de trabalhar... Thundercats, ohhhhhh!!!!!!! Scully, já notou que o Skinner parece o Thundercat cinza? Grandão, sério, mal-encarado e careca...

Scully solta uma gargalhada incontida. Mulder a observa com ternura.

MULDER (OFF): - Infinitas vezes multiplicadas por mil. E sua ciência me salvou. Agora, eu vou salvar você com o meu coração. Eu te amo, Scully. Sei que no fundo você sabe disso. Só precisa se lembrar de quem eu sou... Mas não tem pressa não. Eu te esperei por toda a minha vida. Posso esperar de novo... Afinal, é por você a espera. Sempre valerá a pena...

Mulder abaixa a cabeça e começa a trabalhar, num sorriso de quem tem a esperança dentro de si.


Apartamento de Ellen – 11:29 P.M.

Scully termina de arrumar as almofadas no sofá.

SCULLY: - Nada como morar com outra mulher. Você jamais vai reclamar das minhas flores e almofadas.

Ellen sai da cozinha com uma tigela de pipocas. As duas sentam-se no sofá. Scully pega o controle remoto.

ELLEN: - Vamos lá. Deve ser a 13ª vez que eu assisto Amor Além da Vida e suspiro pelo Robin Willians.

SCULLY: - Amo esse filme... Que homem iria até o inferno pra salvar sua mulher?

ELLEN: - Vou me calar...

SCULLY: - (OLHA ATRAVESSADO PRA ELA) Melhor mesmo.

ELLEN: - Ainda bem que sabe.

SCULLY: - (BEIÇO) ...

ELLEN: - Dias pares eu faço o jantar. Ímpares é com você. No domingo, arrumamos uns gatinhos e jantamos de graça. A comida e os gatinhos.

SCULLY: - (RINDO) Ellen!!!

ELLEN: - ... Amanhã você tem consulta com seu psicólogo. Posso ir com você?

SCULLY: - Não. Não tenho mais consulta.

ELLEN: - (FELIZ) Desistiu de fazer terapia?

SCULLY: - Digamos que 'eliminei' o tratamento. Tive a certeza absoluta que estava me fazendo mal quando vi alguém saindo de lá que não me inspira confiança alguma.

Ellen sorri. Volta a atenção para a televisão. Scully dá um sorriso sinistro, olhando pra TV.

SCULLY: - (CANTANDO) Crazy, toys in the attic I am crazy, truly gone fishing. They must have taken my marbles away...


X

15/07/2002

30 de Setembro de 2019 às 02:47 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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