Canto Solitário Seguir história

guilhermerubido Guilherme Rubido

Rafael começa a trabalhar como vigia noturno em um teatro de sua cidade quando, em uma velha sala, se depara com um curioso quadro que desperta sua curiosidade. Rapidamente, desenvolve um sentimento obsessivo pela criatura que habita a pintura. A última canção que o homem escuta é avassaladora.


Horror Horror gótico Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Canto Solitário


I



O lugar estava bem cheio naquela noite de sexta-feira. Lá fora, a chuva – velha amiga dos moradores de Santos – caía carregada, fazendo com que as pessoas corressem encharcadas pelas portas da frente como formigas desesperadas sob o sopro de um garoto sorridente. Gente com os mais variados tipos de roupas podiam ser vistos por ali. Do mais comum ao mais exuberante. Os mais notáveis eram aqueles que pensavam estar frequentando uma festa de gala, ao invés de um simples espetáculo. Usavam roupas elegantes e volumosas – algumas exageradas –, aproveitando a ocasião.

O teatro Coliseu ficava no centro da cidade e possuía um saguão espaçoso e bem iluminado. Quatro altas portas duplas feitas de madeira polida recebiam os convidados na entrada. Dentro do salão, à esquerda, quatro portais reservados a funcionários eram bloqueados por cortinas pesadas de cor carmesim. Ao lado direito, pequenas mesas e cadeiras estavam dispostas juntas a um balcão, diante de uma pequena cafeteria. Algumas pilastras percorriam o salão, erguendo-se imponentes até um teto preenchido por inúmeros lustres. Duas escadas que levavam ao segundo andar podiam ser vistas no fundo do ambiente, e, no meio das duas, havia três grandes portais que levavam ao lugar onde ocorriam os espetáculos.

Aquele era o terceiro dia de Rafael como vigia noturno do teatro. Parado na escada que levava ao segundo andar, ele observava do alto todo o saguão. Homens e mulheres conversavam em euforia; vozes altas e entusiasmadas preenchiam o ambiente, ecoando misturadas pelo salão em uma tentativa de superar o barulho da chuva contra o prédio. Muitos aproveitavam-se do momento para tentar apresentar aos outros presentes seus dotes culturais. Já estava se acostumando com aquele tipo de cena. O teatro, além de servir como um local de encontro, servia também à competitividade. Era normal, em momentos como esse, que se ouvissem nomes estranhos – ao menos eram para Rafael – sendo disparados por alguns. Provavelmente nomes que eram bem conhecidos dentro da cultura, mas que Rafael nunca conseguia identificar. A realidade é que sentia raiva disso. Sentia-se um burro por não conhecer nada desse mundo. Claro, seria injusto dizer que todos eram assim. A maioria não era, mas tinha a impressão que isso acontecia com frequência.

Algumas pessoas nem mesmo assistiam ao espetáculo, apareciam apenas para o encontro no saguão e logo sumiam, voltando contentes para casa depois do trabalho feito. Outros, já mais frequentes, levantavam-se de suas poltronas e iam embora antes do show acabar. Apesar disso tudo, Rafael acreditava que a maioria dos espectadores era sincero. Simpatizava com o momento e até começava a tomar gosto pelo local.

Quando o show estava prestes a começar, voltou-se para a ala do teatro onde eram expostas algumas peças de arte de artistas da região. Quadros, fotografias, e uma pequena porção de esculturas. Reproduziu essa rotina quase todos os dias no período em que trabalhou no teatro Coliseu. Talvez sentisse uma vontade de compensar o pouco conhecimento que detinha naquela área.

O local onde as peças ficavam expostas era localizado ali no segundo andar. O lugar àquela hora tornava-se mal iluminado, visto que, às 17 horas, o período aberto para visitas se encerrava. Depois, o teatro continuava aberto apenas para os eventos que ocorriam à noite. E aí, quando isso acontecia, o acesso às obras ficava restrito a ele. A ninguém mais. E isso era ótimo.

Antes de ir, daria uma passada rápida no banheiro. Estava precisando.

Diferente do saguão, aqueles corredores eram escuros e abafados. Algumas vezes via-se obrigado a usar a lanterna que carregava consigo em seu bolso. O chão de madeira rangia ao encontro de seus pés, ajudando a deixar o ambiente um pouco mais solitário. Andar pelo teatro enquanto ele estava vazio era quase desolador. As decorações possuíam um ar clássico, como se o local estivesse deslocado no tempo, ou melhor, como se Rafael estivesse deslocado; lançado de repente em uma época distante. Tudo era grandioso demais. O mínimo som produzido ecoava e se alastrava por toda a construção.

Chegou à porta do banheiro e entrou hesitante: a luz se acendeu e revelou o contraste que existia entre a elegância de um teatro e a sinceridade de um banheiro. Mesmo sabendo que não havia ninguém ali para vigiá-lo, foi movido por um medo irracional de estar exposto – aquele que te faz subir correndo as escadas de sua casa à noite –, assim, entrou rapidamente em uma das cabines, ao invés de usar os mictórios que ficavam expostos. Como a maioria dos banheiros públicos, não importava que alguém os tivesse acabado de limpar, eles ainda pareceriam sujos.

Sozinho em um banheiro vazio, lembrou-se dos dias em que ia ao cinema com sua mãe. Ficava no sofá de casa, ansioso e pronto para sair, esperando sua mãe chegar do trabalho para levá-lo ao cinema; como faziam todas as terças-feiras. Por conta do emprego, ela voltava tarde para casa. Sempre acabavam na última sessão da noite. E quando deixavam a sala de cinema, ainda impactado pelo filme, ele costumava correr até o banheiro do cinema. Sua mãe sempre o esperava ao lado de fora.

À essa hora da noite, o banheiro sempre estava vazio, e, mesmo assim, Rafael sentia o mesmo sentimento de exposição que estava experimentando agora, já mais velho. Entrava sempre em uma das cabines, ignorando totalmente os mictórios. Achava engraçado como cabines de banheiro fazem parecer que você foi para outra dimensão. Você entra e o mundo lá fora se fecha para você. O som fica um pouco mais abafado e o único barulho que se escuta é o da urina caindo na água do vaso; lá fora, apenas o silêncio. Quando está um pouco mais cheio, você vê cada pessoa entrar em uma cabine e pensa: "será que quando aquela porta se abrir novamente o homem que sair será o mesmo que entrou?".

O medo e a ansiedade sempre o encontravam nessas horas. Afinal, era uma criança. Crianças ouvem monstros rastejando quando ninguém mais escuta. Geralmente, de alguma forma, elas estão certas. Era nessas horas, quando exercia seu papel de criança e ouvia os monstros, que Rafael mais ficava nervoso. Tentava fechar o zíper da calça rapidamente antes que, por azar, começasse a ouvir o som de algo ou alguém se arrastando pelo corredor do banheiro. E olha só, ele sempre ouvia! Ouviria a coisa ainda sem forma passando pelas pias, os dedos deslizando sobre as torneiras suavemente, um gemido com uma voz rouca e distante soando quase imperceptível. Os passos começariam a ir em direção às cabines. Em sua direção. Ficariam mais lentos a medida que chegassem perto, até o momento em que parariam totalmente e a única coisa que poderia ser ouvida seria o gemido rouco da criatura, em pé, parada ao lado de fora da cabine. Você fica imóvel, esperando ansioso que algo aconteça, e a criatura, lentamente, te olha por cima da porta. Ela fica lá. Não se move, apenas observa-o. Você encara os olhos apáticos da criatura e a única coisa que você pode fazer é gritar. Rafael carregava esse medo não tão infantil até hoje. Era um medo idiota. Mas fazer o que, ele achava que todos no mundo cobriam os pés na cama. Ele não. Tinha coisas piores para se preocupar.

Enquanto urinava, sentiu uma fisgada forte na cabeça. Segurou-se para não cair. A dor foi intensa e rápida. Suas têmporas passaram a latejar em um tamborilar irritante. Não deu importância a isso. Na verdade, estava começando a se acostumar. Pensava em ir ao médico, mas... tinha seus receios. Puxou a descarga e olhou seu relógio: eram dez e quinze da noite; o espetáculo devia estar começando.

Saiu da cabine, esquadrinhou o banheiro e foi até a pia. Ao abrir a torneira, perguntou-se se haveria alguém no mundo que conseguiria lavar as mãos com a velocidade que aqueles temporizadores de torneira permitiam. Bem, ele não conseguia, e isso o irritava. Você nunca consegue, não é mesmo, Rafa? A voz de sua mãe soou distante em sua cabeça e ele a afastou.

Deixou o banheiro para trás e, quando saiu, pôde ouvir que o espetáculo da noite já havia iniciado. Ao longe, algum tipo de canto fazia-se reverberar pela estrutura, chegando um pouco esmaecido até Rafael. Não entendia nada de música, mas achou o canto muito bonito. O trajeto que a voz do artista tinha que percorrer para chegar até ali deixava-a meio distorcida, quase perturbadora. Imaginou aquele bando de animais assistindo ao show com cara de idiotas interessados e sentiu uma pequena inveja. Virou-se e caminhou pelos corredores em direção à sessão de artes.

Poucas luzes estavam acesas na sessão. E as que estavam recaíam sobre as peças de arte que ficavam ali. Apesar de poucas luzes, o ambiente era bem iluminado. Não era nenhuma claridade ofuscante, mas já era muito melhor que o corredor escuro pelo qual passara.

Percorreu os estreitos corredores, passando por entre os quadros e estatuetas dispostos pelo lugar. Vez ou outra, uma obra atraia seus olhos, mas a maioria ele apenas ignorava. Diferente das clássicas cenas de filmes onde, um descontraído guardinha, anda assoviando e girando o molho de chaves em uma das mãos, o mundo real era diferente. Rafael não andava com a mesma confiança. Era verdade, o molho de chaves sempre estava girando em uma de suas mãos, mas o motivo era pura ansiedade. O local era estranhamente claustrofóbico. Todos aqueles quadros e estátuas olhando diretamente para você; perseguindo-o com aqueles olhos sem vida enquanto você desfila entre eles. Ele sentia uma sensação ruim. Um tipo de opressão. Não havia nada de anormal ali. Era apenas a ansiedade comum que lugares como aquele, ainda por cima vazios, causavam. Rafael realmente não gostava da maioria daquelas obras. Tentava forçar para si mesmo tudo aquilo. Mas era como ingerir uma bebida ruim.

Ainda que ele tentasse evitar, pisando levemente, o som de seus passos sobre a madeira do chão ecoava pela galeria inteira, dando a impressão de que uma horda sorrateira o acompanhava em seu encalço. Parecia que a qualquer momento algum daqueles emoldurados rostos estáticos poderia despertar e olhar em sua direção.

Ainda que fosse uma galeria de pequeno porte, as peças não perdiam em qualidade para outras galerias maiores. As estátuas pareciam vivas; como se alguém tivesse despejado cimento em cima de pessoas que foram pegas de surpresa durante o banho e depois as colocado para exposição.

Quadros feitos por pintores da região eram os mais comuns. Geralmente uma pintura do mar ou de pescadores em seu ofício. De vez em quando, uma foto representando a cidade ou a cultura regional era vista, mas em menor quantidade. Ao final do salão, havia uma porta de metal com uma placa que dizia:


PERMITIDO APENAS ENTRADA DE PESSOAL AUTORIZADO


Mesmo com a placa, que já fazia seu papel de afastar as pessoas, Rafael ainda havia recebido a ordem de mantê-la trancada. Poucas vezes teve que entrar naquele lugar.

A primeira vez ocorreu em seu primeiro dia no teatro: um garoto de roupas sociais – que não combinavam nada com seu rosto adolescente, fazendo-o parecer uma criança usando os sapatos do pai – e que era um tipo de guia do teatro, mostrou-lhe os locais que seriam de sua responsabilidade durante seus turnos de vigília. Quando chegaram perto da porta com a placa, Rafael perguntou:

— O que tem aqui? — disse apontando.

O guia com o rosto cheio de espinhas olhou para trás como se Rafael tivesse feito uma pergunta ofensiva, mas logo respondeu de forma desinteressada: — É um depósito ou coisa assim. Guardamos algumas peças que saíram da exposição ou que só vão entrar depois; ficam ali até chegar o dia da estreia. Muita tralha é jogada aqui quando não tem mais espaço em outro lugar. O antigo vigia usava pra guardar as coisas dele.

Havia alguma coisa vinda de detrás da porta que atraia Rafael. Um ar frio escapava pelas frestas. Rafael sentiu o sopro gélido acaricia-lo, envolvendo-o aos poucos como longos tentáculos que o atraiam em sua direção. A situação o deixou apreensivo. Achou que aquela devia ser a sensação de ser hipnotizado. Quando retornou do transe, o guia o olhava como se fosse um louco. Engoliu em seco e perguntou: — Posso guardar minhas coisas aqui, então? — Falou, desviando os olhos da porta para o garoto.

— Sinceramente, senhor, acho melhor não. — Seu semblante havia mudado subitamente. — Se quiser, tem uma sala melhor perto dos banheiros. A luz dela é boa, e o cheiro também. Essa... Bem, eu acho que tu não deve gostar muito da companhia de ratos, né? E aqui eles aparecem sem parar. Já tentaram dar um jeito, mas os bichos são bravos. Parece que são gordos feito porcos. Tão gordos que fizeram nosso último vigia sair correndo pela porta da frente. Não voltou nem pra botar as mãos nas verdinhas de seu último mês. Os faxineiros dizem que o velho exagerou e que já era meio doido da cabeça. Tinha uns parafusos a menos, compreende? — Falou girando um dedo ao lado da cabeça. — De qualquer modo, é a chave 7, se ainda insistir. Só não deixa os bichos sair. Ratos ou porcos, deixa onde estão.

O garoto virou-se rapidamente e Rafael pensou tê-lo visto estremecer debilmente. Sem dizer mais nada, continuou seu tour. Rafael deu as costas para a porta e começou a segui-lo.


***

19 de Outubro de 2019 às 06:25 0 Denunciar Insira 6
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