O Campo das Flores Seguir história

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"A ilusão de se ter uma vida é completamente arrebatada quando se percebe que chegou ao fim dela e não viveu aquilo que se desejava." — Tália Essa foi a percepção de Tália sobre si mesma quando percebeu que o único lugar no mundo em que gostaria de ficar estava fora de seu alcance. Durante tantos anos em que se permitiu ser levada para longe, acabou por decidir que voltaria para seu amado campo de flores, fosse de uma forma ou de outra.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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O Campo das Flores

"Eu não lembro o dia e nem a hora em que eu me deitei naquele lindo campo de flores pela primeira vez. Faz muito tempo. Era um dos poucos lugares em que sentia-me livre de verdade, fora das ordens da casa, fora de um mundo que nunca considerei meu. Foi ali, deitada naquele lindo campo que conheci-me, que aceitei-me e que decidi o que queria ser. Foi onde aprendi a desenhar, lugar em que treinei canto, dança e leitura... É o meu lugar no mundo.


Ali não tinha nada além de mim... e das tão belas flores, que sempre completavam aquele mesmo ciclo: Nasciam, cresciam, desabrochavam, murchavam e morriam, mas sempre retornavam das cinzas no ano seguinte. Aprendi com as flores. Senti seus perfumes e leves carícias. A terra coberta pela grama molhada sujava meus pés e mãos, uma sensação única e que nunca tive igual fora daquele campo.


Sob a sombra da árvore conheci o grande amor de minha vida, dando-me uma daquelas flores e cobrindo-me com centenas de pétalas ouvi o primeiro "Amo-te, minha dama!" em minha vida. Ali tive meus momentos mais felizes, aqueles que jamais sumirão de minhas lembranças.


Mas... descansando sob aquela mesma sombra, daquela mesma árvore, naquele mesmo lindo campo, recebi a pior das notícias de minha vida, conheci o homem que selaria minha vida para todo o sempre, aquele para quem fui prometida, entregue sem minha permissão. E sob aquela fresca sombra, naquele campo de flores, durante a primavera, casei-me com este homem que odiei ali, no meu lugar no mundo.


Anos se passaram e proibida fui de ir até aquele campo, visitar minhas amadas flores e repousar sob a frescura da árvore de teixo que dançava no jardim. Não mais toquei a grama fresca com minhas mãos e pés desnudos, não mais deitei-me naquele chão durante a primavera, não mais li, cantei e dancei com as brisas do verão e os ventos gélidos do inverno... não mais...


Um dia de solidão chegou, finalmente... neste dia de primavera, no mesmo dia de meu casamento e porventura o mesmo dia que despedi-me daquele meu amado campo, era a chance que eu aguardei durante anos e anos de infelicidade. As crianças dormiam e o marido não residia em casa. Andei para a cozinha e tomei em mãos um frasco pequeno, barrigudo e com um líquido transparente.


Caminhei para aquele meu campo, límpido e resistente, que alegremente me aguardava para aquele meu maravilhoso último dia. Acalentei minha árvore preferida, o Teixo mais belo em que já pus os olhos, deitei-me sob sua sombra pela última vez. Acariciei a terra com os pés e as mãos com todo o meu afinco. Fechei meus olhos e senti a brisa doce que caminhava de mãos dadas com a primavera.


Pela última vez cantei, recitei minha poesia preferida e segurei a última flor que teria em mãos. Ali, naquele lindo campo de flores, o meu lugar no mundo, sob aquela árvore, aproveitando a sombra e o frescor do dia, naquele mesmo lugar em que repousei e dormi tantas vezes, no lugar em que conheci o amor e também a saudade... ali, abri o frasco e ingeri o veneno nele contido. A morte que me aguardava.


Aquele campo de flores, assim como foi a primeira lembrança feliz que tive, também foi a última."

22 de Setembro de 2019 às 03:51 8 Denunciar Insira 7
Fim

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Ana Lima Ana Lima
Mano que conto lindo,um começo maravilhoso e um final inesperado,um pequeno conto que em tantos poucos paragrafos pode mostrar uma historia melancolica e linda.Parabens Aurora Welsh
6 de Outubro de 2019 às 18:17

  • Aurora Welsh Aurora Welsh
    Muito obrigada, Ana Lima, pelo comentário. Estou lisonjeada. Agradeço de coração. 8 de Outubro de 2019 às 19:18
Ana Paula Clara Ana Paula Clara
Que conto lindo e melancólico. Pelo menos no fim ela pôde escolher voltar para seu campo florido e recuperar um pedacinho da velha felicidade que um dia ela conheceu. Parabéns por esta escrita tão profunda e delicada.
26 de Setembro de 2019 às 07:58

  • Aurora Welsh Aurora Welsh
    Muito obrigada, de verdade, fico lisonjeada <3 26 de Setembro de 2019 às 15:28
Atila Senna Atila Senna
Nossa, parecia sentir as sensações quando estava no campo.
22 de Setembro de 2019 às 07:13

Davi Morais Davi Morais
Só fico pensando nas crianças que ficaram..
22 de Setembro de 2019 às 00:27

  • Aurora Welsh Aurora Welsh
    Não pense... pense na infelicidade da moça que viveu uma vida miserável, em que sequer pode escolher o futuro que queria seguir. Com um casamento arranjado que deve ter sido péssimo, com crianças frutos de estupros (provavelmente, já que ela não queria o marido que tinha e o odiava). Que vida horrível deve ter tido. 22 de Setembro de 2019 às 21:18
~