S06#11 - MAPAS DO ACASO Seguir história

lara-one Lara One

Um velhinho encrencado nas mãos de um bandido. Nossos agentes separados. O que se passa dentro de seus pensamentos e de seus corações? Pode duas almas nascerem destinadas a cruzarem o mesmo caminho? Será que podem fugir de seu acaso?


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

#x-files #arquivo-x
0
737 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

S06#11 - MAPAS DO ACASO

INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

[Som instrumental: Mapas do Acaso – Engenheiros do Hawaii]

Wilmington – Carolina do Norte – 9:36 P.M.

Abre a tela focando o mar. A lua que projeta seu brilho sobre as águas escuras e o pequeno barco de pesca que flutua iluminado pelo luar.

O cassino à beira mar.

Corta para dentro do cassino. Cordas, bússolas, mapas, equipamentos náuticos e antigos que decoram o ambiente. As pessoas zanzam entre mesas de jogos, drinques, garçonetes apressadas. Mulheres jovens e bonitas, com sorrisos falsos, caçando possíveis milionários: o mapa da mina.

Câmera se aproxima lentamente da mesa de dados. O velho Jeremy, de seus 70 anos, que sacode os dados na mão, mordendo a língua e observando a mesa. Jeremy vestido num velho terno, de gravata borboleta, chapéu e suspensórios. Um fazendeiro mal sucedido que tenta a sorte: o acaso.

Muita gente ao redor, incluindo Buddy, o jovem vigarista bem apessoado, que bebe um drinque observando o velho que assopra os dados na mão e os atira.

FUNCIONÁRIO: - Número 6. A casa ganha.

O velhote fica frustrado. Revira os bolsos, mas não há mais dinheiro pra apostar. Outro homem se aproxima tomando os dados. O velhote sai cabisbaixo. Buddy o observa. O velhote respira fundo. Ergue a cabeça. Fecha os olhos. Olha para o homem de smoking que conversa com uma garota. Aproxima-se.

JEREMY: - Ei, filho, me consegue uma moeda?

HOMEM: - (OLHA-O DEBOCHADO) Cai fora, vovô. Já gastou sua aposentadoria é?

Jeremy se afasta. Buddy o observa. Jeremy pede uma moeda a um, pede a outro. Nada. Uma senhora sai de um caça níquéis com o chapéu cheio de moedas. Passa por Jeremy, sorrindo.

SENHORA: - Hoje foi meu dia de sorte!

JEREMY: - A senhora pode me emprestar uma moeda?

SENHORA: - Quantas quiser.

JEREMY : - Apenas uma.

A Senhora oferece o chapéu. Jeremy retira uma única moeda sem ver o valor e volta pra mesa de dados. Coloca a moeda na mesa. O funcionário o observa, incrédulo.

FUNCIONÁRIO: - Cinquenta cents, vovô???

JEREMY: - Não tem valor mínimo pra aposta nessa casa. Aposto no nove. É o meu número da sorte.

Todos ao redor riem do velhinho. Buddy leva o copo à boca, observando. Jeremy pega os dados. Assopra-os. Atira-os na mesa.

FUNCIONÁRIO: -Número 12. A casa gan...

Jeremy observa fixamente um dos dados, que começa a se mover, virando de seis para três.

JEREMY: - Nove! Ganhei!

VINHETA DE ABERTURA: SORTE E ACASO, QUEM SABE DO QUE DEPENDE?


BLOCO 1:

Residência de Margaret Scully – 9:59 P.M.

Foco na janela.

Foco desvia para Scully sentada na poltrona, olhos na janela. Derruba lágrimas.

Scully morde os lábios, chorando convulsivamente.

Meg entra no quarto, com uma caneca. Scully seca as lágrimas rapidamente. Meg percebe a mala feita sobre a cama.

MARGARET: - Prontinho. Fiz um chá pra você se acalmar, filha. Você chegou nervosa... Quer falar?

SCULLY: - ...

MARGARET: - Dana, eu... Quando seu pai faleceu, eu fiz terapia também. Mas não encontrei nenhum acalento naquilo, preferi encontrar nos meus filhos, netos... Se você volta da terapia pior do que quando vai, não deveria reconsiderar parar com esse tratamento?

SCULLY: - ...

MARGARET: - Aonde vai? Por que essa mala?

SCULLY: - ...

MARGARET: - Dana... Quero saber o que está havendo. Fox aprontou alguma coisa? Tem alguma mulher no meio disso?

SCULLY: - ...

MARGARET: - Filha, por favor, eu sou sua mãe, confie em mim. Estou preocupada, não estou entendendo nada...

Scully olha com ódio pra Meg.

SCULLY: - Eu vou dizer o que está havendo! Por sua maldita culpa hoje minha vida está um inferno!

Meg fica estática, sem entender nada.

SCULLY: - Como pôde? (CHORANDO) Como você pôde, mãe? Eu odeio você!!!!!!!!!

MARGARET: - ???

SCULLY: - (GRITA) Como podia permitir que ele fizesse o que fez com suas próprias filhas se você sabia!

MARGARET: - Dana, do que está falando?

SCULLY: - (GRITA) Do meu pai!

MARGARET: - O que tem o seu pai, Dana?

SCULLY: - (GRITA) Você foi conivente com os abusos que ele praticava conosco! Deus! Eu lembro de tudo agora! Lembro até da sua cara hipócrita se fazendo de desentendida!

MARGARET: - Abuso? Que abuso Dana?

SCULLY: - (GRITA) Sua cretina mentirosa! Eu odeio você!!!!!!! Eu te odeio!!!!!! E vou embora desse lugar, porque você não é minha mãe! Nunca mais fale comigo! Eu odeio você! Eu te desprezo!!!!!!!! Eu não tenho mais família! Odeio vocês todos!!!!!!!!!!

Meg enche os olhos de lágrimas, sem entender nada. Agarra Scully pelos braços.

MARGARET: - (ENFURECIDA/ GRITA) O que está dizendo? O que pensa que está dizendo? Seu pai nunca abusou de você! Nem de qualquer uma das filhas!

SCULLY: - (GRITA) Conveniente pra você cegar seus olhos e mentir pra si mesma, não é? Você é tão cadela que me dá nojo!

Meg mete um tapa na cara de Scully. Scully olha pra ela com mais ódio. Mete um tapa na cara de Meg. Meg recua, assustada.

MARGARET: - Não... Você não é a minha filha... Não a minha filha. Eu desconheço a pessoa que você se tornou.

SCULLY: - (GRITA) Então estamos quites, 'mamãe'. Porque eu desconheço a minha família!

Scully pega a mala e sai do quarto. Meg põe as mãos no rosto.


Residência dos Mulder – 10:13 P.M.

Na cozinha, Mulder passa distraidamente sua camisa.

Close nas pilhas de roupas dobradas sobre a cadeira.

Mulder passa ferro, os olhos num ponto de fuga. Olhar vazio.

Mulder suspira profundamente.

Mulder larga o ferro. Vai pra sala. Liga a secretária eletrônica. Volta pra cozinha. Começa a passar outra camisa. Escuta os recados da secretária eletrônica.

BYERS (OFF): - Mulder, Frohike pediu os livros dele. Como você está? Liga pra mim, apesar de tudo, eu... Estou preocupado com você.

MULDER: - ... Lamento, Byers. Fique longe de mim porque eu não presto.

MARGARET (OFF): - Fox, é Meg... Filho, estou preocupada, você não atende mais o telefone. Ligue se precisar de ajuda, não seja orgulhoso.

MULDER: - ... Eu me viro sozinho desde pequeno, Meg.

MULHER (OFF): - Agente Mulder, aqui é da agência de babás. Tenho algumas candidatas pré-selecionadas. Preciso que entre em contato comigo.

MULDER: - ... Vou ligar, assim que tiver ânimo de fazer entrevistas.

Mulder continua passando roupa.

DIANA FOWLEY (OFF): - Fox, estou preocupada com você. Me liga pra conversarmos.

MULDER: - Piranha... Sempre farejando mortos feito um abutre.

Mulder parece em transe.

VENDEDOR (OFF): - Senhor Mulder, o seguro do carro já está pronto. Espero que esteja aproveitando seu carro novo.

MULDER: - Tô. Até agora a garagem adorou ele.

SECRETÁRIA (OFF): - Agente Mulder, o diretor assistente Skinner pediu para avisar que a reunião foi transferida para quarta-feira.

MULDER: - Ah, ele pediu pra avisar? Não podia me ligar? O monstro aqui tem alguma doença contagiosa?

SCULLY (OFF): - Mulder, sou eu... Poderia me fazer o favor de... Trazer meus disquetes quando vier ao FBI? Obrigado.

Mulder abaixa a cabeça. Solta o ferro de passar sobre a tábua. Ergue a cabeça, contendo as lágrimas. Percebe então a panela no fogo.

MULDER: - Ah, meu Deus!

Mulder corre. Pega a panela com um pano e a joga na pia, abrindo a torneira. A fumaça toma conta da cozinha.

MULDER: - (TOSSINDO) Que droga! Queimei o jantar da Pinguinho!


Wilmington – Carolina do Norte – 10:32 P.M.

Jeremy sai do cassino, colocando os 5 mil dólares em notas, no bolso das calças. Olha para o céu como quem agradece. Sai caminhando pela praia, num sorriso de alívio. Buddy sai atrás dele.

BUDDY: - Ei! Ei velhote!

Jeremy vira-se.

BUDDY: - Como fez aquilo?

JEREMY: - Aquilo o quê?

BUDDY: - Ora, você é algum tipo de bruxo? Como conseguiu fazer os dados por dez rodadas terminarem em 9?

JEREMY: - Sorte filho. Apenas sorte.

BUDDY: - Talvez pudesse me explicar como multiplicou 50 cents em 5 mil.

Jeremy sai caminhando, o ignorando. Buddy sai caminhando ao lado de Jeremy.

JEREMY: - Era meu dia de sorte, apenas isso.

BUDDY: - Não minta pra mim, vovô. Eu vi quando moveu os dados só com os olhos. Podíamos ir pra Las Vegas e ganhar muito dinheiro. Eu com minha inteligência e classe e você com sua bruxaria.

JEREMY: - Não sei do que está falando...

BUDDY: - Ora, vovô, não seja estúpido. (PUXA A FACA) É melhor pra você.

Jeremy se assusta. Olha pros lados. A rua vazia. Buddy acerta uma facada no velhote. Jeremy cai ao chão, sangrando. Buddy arranca os dólares do bolso do velho.

BUDDY: - Espero que agora entenda, velhote. Não é uma opção. É um dever... Nos veremos por aí, acredite... 'sócio'. Eu sei aonde mora. E eu sei quem você ama.


Residência dos Mulder - 11:11 P.M.

Victoria tomando mamadeira e assistindo desenhos na TV. Mulder ferrado no sono. O telefone toca. Victoria olha pro telefone. Mulder dormindo. O telefone insiste. Mulder se acorda, sonolento. Estende o braço e atende. Victoria fecha os olhos rapidamente, fingindo dormir.

MULDER: - (CANSADO) Alô? ... Fala Meg... (SE ACORDA) Como assim saiu daí? Pra onde ela foi? ... Meg, pare de chorar, o que aconteceu? (DESPREZO)... Olha Meg, pra você pode ser novidade que Scully tenha ofendido você com mentiras deslavadas e ido embora. Mas pra mim, já é rotina e passado... Meg, se acalme, por favor... (INDIFERENTE) Não se preocupe que ela está bem... Não, eu não vou sair da minha casa e ir atrás dela. Estou morto de cansado. Ela sabe se virar, que se dane! Eu tenho uma filha pequena, tenho que acordar cedo pro trabalho e tenho responsabilidades na vida. Scully não tem responsabilidades, ela quer ser uma garota de 16 anos e isso é problema dela!

Mulder desliga o telefone. Olha pra Victoria, que finge dormir. Tira a mamadeira das mãos dela e coloca no criado mudo. Volta a dormir, se ajeitando na cama e puxando o cobertor. Victoria abre os olhos. Olha pra ele. Se vira e se aninha em Mulder. Mulder se abraça nela.


Esconderijo de Alex Krycek – 11:31 P.M.

Krycek sentado em frente ao computador, falando ao telefone.

KRYCEK: - Eu sei, delegado Norris... Mas já começa que sou da homicídios, não da narcóticos! Eu estava lá investigando o assassinato do Sheng... Eu sei que ele tava metido com isso, mas não achava que ia parar na toca do lobo!

Krycek afasta o telefone do ouvido. Escuta-se o delegado gritando. Krycek aproxima o fone do ouvido.

KRYCEK: - (INDIGNADO) Cassar meu distintivo? Olha aqui, eu não sei o que os federais disseram pra você, mas eu e o Garcia estávamos naquele maldito depósito quando os chinas pularam de trás das caixas, feito uns ninjas, pareciam ter saído de um filme do Bruce Lee! Voando em cima da gente aos gritos e atirando! Uns 15 contra 2! Era patada e tiro pra todo o lado! Você leu o relatório! Os federais deviam estar beijando nossa bunda por termos desbaratado a quadrilha!

Krycek afasta o telefone do ouvido. Aproxima-o novamente.

KRYCEK: - Eu não vou discutir com o senhor... (DEBOCHADO) Ah, tá certo. Eu pego uma rede de traficantes e ganho três dias de suspensão. Isso é uma grande recompensa pra um policial. Muito animador arriscar a vida e receber isso em troca... Não se preocupe, vou manter meu traseiro bem longe dessa delegacia por três dias! Não, vá o senhor pra essa 'santa senhora que o gerou'!

Krycek desliga. Olha irritado pra tela do PC.

KRYCEK: - Filhos da pu... Maldito FBI, a gente toma bala por eles e eles ainda saem na capa do jornal como os heróis! Ah se danem! Eu tenho mais coisa pra fazer.

Krycek pega a pasta escrito Carmichael. Revira a papelada. Larga a pasta. Olha pro computador.

Close na tela com as iniciais CIA e um 'enter' piscando.

Krycek digita: Covarrubias 351. Entra no sistema.

Batidas na porta. Krycek se levanta. Abre a porta. Scully parada com a mala na mão.

SCULLY: -(OLHOS EM LÁGRIMAS) Eu... Não tenho pra onde ir e nem com quem contar. Posso pelo menos passar a noite aqui?

KRYCEK: - (INCRÉDULO)

SCULLY: - (ESPERANDO RESPOSTA) ...

KRYCEK: - ... Entra.

Scully entra. Krycek tranca a porta. Scully põe a mala no chão.

KRYCEK: - ... Deixou Mulder?

SCULLY: - ... Não quero falar sobre isso.

KRYCEK: - ... Olha, eu tô acostumado a viver sozinho. Não gosto de companhia. Pode ficar aqui até arrumar outro lugar... E pode ficar com a cama. Eu durmo no sofá.

Scully senta-se. Põe as mãos no rosto. Krycek olha apiedado pra ela.

SCULLY: - Minha vida toda desmoronou. Eu não sei pra onde vou, o que fazer... Parece que acordei de um transe. Tenho a sensação de ter vivido mentiras durante toda a minha vida. E estou com raiva disso. Estou... Eu nem sei dizer o que sinto. Tudo se confunde em mim e parece que não encontro piedade alguma em lugar algum.

KRYCEK: - ... Estou ouvindo. Acho que tem um restinho de piedade na geladeira. Quer que eu esquente pra você?

SCULLY: - ... (SORRI) Tem tempo pra me ouvir?

KRYCEK: - ... Todo o tempo do mundo pra retribuir ajuda pra uma grande amiga. Amiga.

SCULLY: - Mesmo que a história não tenha final feliz?

KRYCEK: - Não estou acostumado com finais felizes.

SCULLY: - (SORRI/ CURIOSA) Quem é você, Alex Krycek?

KRYCEK: - (SORRI) Quem é você, Dana Scully?

SCULLY: - ... Sou uma confusão de sonhos e incertezas. E você?

KRYCEK: - Sou apenas uma incerteza, que nunca teve sonhos.


Condado de Luck – Carolina do Norte – 5:12 P.M.

Mulder dirige o carro pela rodovia, passando pela placa do condado.

MULDER: - (CANTANDO) O velho Mac Donald tinha uma fazenda... Ia ia iô... E nessa fazenda ele tinha uma vaquinha...

Corta para o banco de trás. Victoria sentada na cadeirinha, brincando com o celular de Mulder. Vestida num macacão jeans, tênis, boné dos Knicks na cabeça.

VICTORIA: - (CANTANDO) Ia ia iô!

MULDER: - (CANTANDO) Vaquinha ali, vaquinha aqui, vaquinha em todo o lugar... O velho Mac Donald tinha uma fazenda...

VICTORIA: - (CANTANDO) Ia ia iô!

MULDER: - Estamos chegando, Pinguinho. Condado de Luck... Será que essa gente tem tanta sorte assim?

VICTORIA: - Oba!

MULDER: - Confesso que o meu traseiro está doendo de ficar tanto tempo sentado. Vamos arrumar um lugar pra passar a noite, de preferência sem mosquitos...

VICTORIA: - (OLHANDO CURIOSA PELA JANELA) ...

MULDER: - Então, diz pro papai, gostou do carro?

VICTORIA: - Gotei!

Mulder entra na fazenda. Para o carro.

MULDER: - Eu não creio que vou fazer isso com o carro... Meu carro limpinho, recém saído de fábrica, cheirando a novo...

Victoria brincando com o celular.

VICTORIA: - ... orquinho vesso.

Mulder olha pra ela. Victoria brincando. Mulder sorri.

MULDER: - (SAUDOSO) Mulder 'meu porquinho travesso'...

Mulder segue dirigindo, atravessando o lamaçal. Victoria põe o celular no ouvido.

VICTORIA: - Alô! Alô!

MULDER: - Larga isso, sua Maria tagarela. Daqui a pouco tô pagando ligação pro Japão!

VICTORIA: - Aõ! Alô! (ESTENDE O BRAÇO) Papai!

MULDER: - É pra mim? Quem é?

VICTORIA: - Fibeí.

MULDER: - (RINDO) Mentirosa. Tá sem bateria.

Victoria sorri ficando com as bochechas vermelhas. Mulder estaciona o carro em frente à casa. Tira o cinto e desce. Pega Victoria no colo.

MULDER: - Ok, se comporte. Papai tem que fazer umas perguntas, você fica quietinha no meu colo, não pede nada e nem faz bagunça. E nada de ir pro chão.

Victoria fica encantada olhando pras galinhas soltas pelo pátio. Bate palmas aos risos, cuidando as galinhas, irrequieta no colo de Mulder. Impressionada.

MULDER: - São galinhas. (DEBOCHADO) Acho que você nunca tinha visto uma galinha que não fosse na panela da sopa.

VICTORIA: - (RINDO) Linha!

A senhora Oatfield vem recebê-lo. Uma senhora de seus 70 anos, maltratada pela lida do campo, lenço cobrindo toda a cabeça, usando vestido e avental.

MRS. OATFIELD: - Agente Mulder?

Mulder se aproxima.

MULDER: - Senhora Oatfield?

MRS. OATFIELD: - (SORRINDO) Que bom que veio. Fez boa viagem?

MULDER: - Sim, eu...

MRS. OATFIELD: - Oh que gracinha de criança! É sua filha?

MULDER: - É, eu...

MRS. OATFIELD: - Gostou das galinhas? Ahn? Tem uns patinhos também.

Victoria sorri. Começar a tentar se soltar de Mulder, pra ir pro chão.

MULDER: - Nah! Ela já está dando uns passinhos, acho que vou ter que comprar uma coleira...

MRS. OATFIELD: - (SORRI) Qual o nome dela?

MULDER: - Victoria.

MRS. OATFIELD: - Oh que nome mais bonito! Olá, Victoria!

Victoria sorri mordendo as mãos.

MRS. OATFIELD: - Que idade você tem, hein?

MULDER: - Vamos, mostra pra vovó. Papai ensinou você.

Victoria ergue o dedinho indicador.

MRS. OATFIELD: - (SORRI) Que gracinha! Um aninho? Oh! ... Como ela é esperta pra idade!

MULDER: - É, as crianças estão ficando cada vez mais espertas...

MRS. OATFIELD: - Venha, entrem. Fiz café agora mesmo, tem biscoitinhos de milho e...

MULDER: - (CONSTRANGIDO) Eu só vim interrogar seu marido...

MRS. OATFIELD: - Ora, por favor. Deve estar cansado da viagem, com frio e um bom café quente deixa a gente animada. Vamos, não temos cerimônias por aqui. (OLHA PRA VICTORIA) Venha com a vovó, vem. Vamos comer uns biscoitinhos e depois a vovó vai mostrar os patinhos pra você. Tem umas vaquinhas, um bezerro novinho...

Victoria sem cerimônia alguma estende os braços, indo pro colo da velhinha. Mulder sorri sem graça.

MULDER: - Ok, parceira, você é mais cara dura que eu.


5:37 P.M.

A velhinha serve um café fumegante na xícara de Mulder.

MRS. OATFIELD: - Quer leite? Fresquinho...

MULDER: - Estou me sentindo constrangido com isso... Nem minha mãe fazia isso pra mim...

MRS. OATFIELD: - (SORRI) Eu sei bem como é a cidade, acredite. Nada como o ar fresco e o café com leite do campo.

Victoria sentada numa cadeira de balanço, se embalando e roendo um biscoito de milho. Mulder a observa. O velho Jeremy entra na cozinha, arrastando os chinelos. Mulder se levanta.

JEREMY: - Não se levante, policial. Tome seu café. Fique à vontade.

O velhote senta-se.

MRS. OATFIELD: - Está melhor, Jeremy?

JEREMY: - Só dói quando respiro.

MULDER: - Eu sou o agente Mulder, do FBI. Preciso que me diga exatamente o que aconteceu ontem à noite, senhor Oatfield.

JEREMY: - Desde quando um assalto é assunto do governo?

MULDER: - (RETIRA UMA FOTO DO BOLSO) Este é o assunto do governo. Conhece esse homem?

JEREMY: - (OLHANDO PRA FOTO) É ele. O sujeito que me roubou.

MULDER: - Nossa sorte foi que o senhor registrou queixa na polícia. Estamos caçando esse homem há mais de três anos. Está entre os dez mais procurados do FBI.

JEREMY: - O que ele fez pro governo?

MULDER: - Buster Larsen, 32 anos, mais conhecido como Buddy, o vigarista. Assassinato, roubo, extorsão, venda ilegal de armas, desvio de dinheiro e ligações com a máfia chinesa.

JEREMY: - Ei, velha, olha só! Pelo menos não vou ficar com uma cicatriz feita por um ladrão de galinha!

MRS. OATFIELD: - Jeremy!

Mulder guarda a foto. A Sra. Oatfield pega Victoria no colo. Mulder se levanta, observa a cozinha discretamente.

MRS. OATFIELD: - Venha, vovó vai mostrar os bichinhos da fazenda pra você.

Victoria dá os bracinhos. As duas saem.

JEREMY: - Eu estava saindo do cassino quando ele me abordou. Começou a puxar assunto, caminhando ao meu lado e de repente me esfaqueou e tomou meu dinheiro. Escapei por um golpe de sorte.

MULDER: - Não tem cara de quem anda em cassinos, sr. Oatfield.

JEREMY: - É algum crime um velho como eu tentar a sorte?

MULDER: - Não. De maneira alguma. Quanto Buddy levou?

JEREMY: - Cinco mil dólares. Mas eu vou recuperar.

MULDER: - A polícia está em alerta procurando Buddy. Acho que deveria esperar um pouco pra tentar a sorte novamente.

Mulder repara na quantidade de ervas de chá sobre o balcão.

JEREMY: - Não posso. Eu sei o que estou fazendo e apesar de ser velho posso me cuidar sozinho.

MULDER: - Não quis ofendê-lo...

JEREMY: - ... Tudo bem...

MULDER: - Costuma jogar muito?

JEREMY: - Não! Não sou desses viciados em jogos. Me deu vontade e tive sorte.

MULDER: - Só há uma coisa, sr. Oatfield que não faz sentido pra mim. Com tantas pessoas que saíram daquele cassino... (PUXA UMA CADERNETA DO BOLSO/ COMEÇA A LER) Segundo o que me disseram no cassino, teve um homem que fez 20 mil naquela mesma noite. Por que Buddy se exporia pra roubar 5 mil dólares do senhor?

JEREMY: - ... Como vou saber o que se passa na cabeça desses malucos e...

MULDER: - (DESCONFIADO) Ok, sr. Oatfield. (ENTREGA UM CARTÃO) Se lembrar de mais alguma coisa e quiser falar, me ligue.

Mulder se levanta. Sai da cozinha. O velhote observa o cartão com medo.

Mulder sai da casa. Victoria tenta correr, desajeitada, atrás das galinhas, aos risos. Cai com as mãos no chão. Mulder olha assustado. Victoria se levanta, limpa as mãos na roupa, rindo. Sai atrás das galinhas de novo. A sra. Oatfield ri. Mulder aproxima-se.

MULDER: - Ok, Pinguinho, acabou a farra. Vamos embora.

VICTORIA: - (BEIÇO) Nah!

MULDER: - Pinguinho, onde está sua educação, hein?

Victoria olha pras galinhas. Aponta pra elas.

VICTORIA: - (PIDONA) Papai... Linha...

MULDER: - Sei que adorou a brincadeira, mas vamos, temos que ir pra cidade arrumar um hotel. E logo as galinhas vão dormir. Ao contrário de você, as galinhas dormem cedo.

MRS. OATFIELD: - Não vai encontrar bons hotéis por aqui. Os melhores ficam na cidade, perto da praia e é mais de uma hora e meia de viagem. Além do mais, não faz bem ir pra um hotel com ela... Como vai preparar a mamadeira?

VICTORIA: - Éh!

MULDER: - Como você está ficando espertinha, dona Victoria.

Victoria sorri, se escondendo atrás da senhora Oatfield.

MULDER: - Desculpe, senhora Oatfield, mas tenho usado a cozinha das lanchonetes pra fazer isso, fazendo charme pra convencer as garçonetes.

MRS. OATFIELD: - Hum, não vai precisar usar de charme pra me convencer a fazer mamadeira pra essa garotinha cativante. Vamos, aceite. Tenho um quarto sobrando, era do meu filho... A nossa casa é modesta, mas é bem aconchegante.

MULDER: - Agradeço, senhora, mas...

VICTORIA: - (OLHAR PIDÃO) Ox...

MRS. OATFIELD: - Acho que ela gostou da ideia. Por favor, agente Mulder, aceite. Meu marido e eu não temos muitas visitas por aqui e adoramos receber as pessoas... (OLHA PRA VICTORIA) Não é sempre que temos uma criança por aqui... Além do mais vou fazer costelas assadas com purê de batatas pro jantar...

MULDER: - (DEBOCHADO) A senhora está tentando subornar um policial?

MRS. OATFIELD: - Acredite, já subornei até o delegado com meu bolo de milho...

Mulder sorri. Victoria bate palmas e sai correndo atrás das galinhas. Cai ao chão. Se levanta e corre de novo, aos risos altos.

MULDER: - Ela adorou a senhora.

MRS. OATFIELD: - E eu a adorei. Venha, eu ajudo com a bagagem.



BLOCO 2:

Interestadual da Virgínia - 5:44 P.M.

[Som: New Order- Bizarre Love Triangle]

Scully dirige o Porsche, ouvindo música alta. Uma rebelde Scully. Maquiada, bandana na cabeça, vestida com blusa de lã, jaqueta de couro, cabelos ao vento, sem destino. Scully pega a garrafa de uísque. Bebe um gole. Respira fundo. Começa a rir de si mesma.

SCULLY: -Saudades dessa época. Anos 80... Meus vinte anos... Eu curtia dançar música eletrônica. Parece inacreditável, não é? (CANTANDO) There's no sense in telling me. The wisdom of a fool won't set you free... But that's the way that it goes. And it's what nobody knows And every day my confusion grows.

(Não faz nenhum sentido em me dizer. A sabedoria de um tolo não vai te libertar. Mas é assim que as coisas são. E é o que ninguém sabe E a cada dia minha confusão cresce.)

Krycek ao lado dela, jaqueta de couro, óculos escuros, olhando pra paisagem.

KRYCEK: - Eu também tinha meus vinte anos, mas invejo os seus, Scully. Eu não tenho saudades dessa época. (VOZ EMBARGADA) Muito pelo contrário, gostaria de acordar um dia e não lembrar mais nada desse tempo. Queria que nunca tivesse existido.

Krycek pega a garrafa e toma um longo gole.

SCULLY: - (CURIOSA) Por que, Alex?

KRYCEK: - Eu vivia na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Não tinha liberdade, muito menos música pra dançar, Scully. País fechado, nada da cultura de fora entrava. Só havia o exército vermelho como garantia de uma vida melhor servindo a nação russa contra a tirania da América. Uma guerra-fria com o seu país, herança da segunda guerra. Nos diziam que a democracia era o inimigo porque existia divisão de classes e má distribuição de renda. Que piada! Havia um belo discurso comunista de igualdade social e poder para as minorias. E uma realidade feia de miséria, censura, ditadura militar, perseguição política e a mesma divisão de classes e má distribuição de renda. Quando um imbecil me diz que admira o comunismo, tenho vontade de enfiá-lo numa máquina do tempo e mandar pra URSS de antigamente. Só sentindo na pele pra entender. Não vale desperdiçar uma bala numa mente intelectual que nunca viveu a merda do que defende.

SCULLY: -Lamento...

KRYCEK: -Isso não quer dizer que os outros regimes estão certos. Na verdade, nenhum está. A teoria de Marx é bonita no papel. Na prática nunca vai funcionar, como não funcionou para a Rússia. Sempre vai haver gente que quer se dar bem em cima dos outros. A América é mais honesta nesse sentido... E você, uma americana livre desde o berço fica aí se prendendo a regrinhas que você mesma criou. Fico feliz que tenha aceitado minha ideia. Nada como pegar uma estrada para esfriar a cabeça dos problemas... Acho que vou comprar uma moto. Vou entrar para um clube de motociclistas, fazer mais uma tatuagem e deixar tudo para trás. Pegar a rota 66 e atravessar esse país de costa a costa no legítimo estilo americano. Liberdade!!!

Scully começa a rir. Krycek ri com ela.

SCULLY: - A ideia é interessante! Crise dos 40?

KRYCEK: - Vai saber, garota. Embora crises existam a cada dia de vida, não necessariamente ao final de cada década... Crie vergonha na sua cara e vá ser feliz do jeito que dá. Você vive num país livre!

SCULLY: - Verdade. Digo pra mim mesma: Cresça garotinha mimada. Deixe a menina má ser feliz! Porque isso é a vida. A vida não é nenhuma perfeição como ensinaram pra você. A vida é cruel. Suja. Ridícula. Vida é pra viver. Não é pra ficar perdendo tempo. Você tem razão sim. Eu tenho que criar vergonha na minha cara...

KRYCEK: -Ah, você não é uma menina má. Eu digo porque conheço meninas más. Você é apenas uma menina confusa. Já se perguntou se a vida de seus pais era a correta? A perfeita? Por que segue sua vida sendo igual a sua mãe e logo você que a criticava? Por que exigia que seu marido fosse seu pai? Que sua família fosse igual a que teve? Não é! Nunca será! Você não é sua mãe, Mulder não é o seu pai, sua filha não é você. Nem sabe se esse estilo de vida a que foi acostumada é o melhor. Nunca vai saber se não experimentar outras coisas na vida.

Scully bebe outro gole.

SCULLY: - (REVOLTADA) Olha o que me tornei: uma maldita Meg Scully! E devo reconhecer que poderia ser mais ainda se Mulder não tivesse me libertado como mulher... É. Eu lembro bem disso. Pelo menos alguma coisa boa eu tive nessa relação.

KRYCEK: - Não culpe sua mãe e nem critique o modo de vida dela. Mas entenda que você não é ela. Você é Dana Scully. E admita pra você mesma que Mulder tinha razão quando dizia que você era chata! Você é chata sim. Você é o tipo de pessoa que tem uma cabeça adiantada, mas insiste nas benditas regrinhas sociais que mamãe e papai ensinaram. Vá você saber se eles não eram mais doidos que você e apenas se censuravam como você faz.

SCULLY: - Eu mesma odiava viver comigo! Cheia de regras, de perfeições assimiladas e nem tinha prova alguma de que a vida que vivia era a vida certa. Acostumada num modelo, me censurando, censurando até meu marido com as loucuras dele. Se tivesse deixado a razão de lado e tivesse pensado com o coração poderia ter sido diferente! Quem disse que o estilo de vida louco do Mulder não era melhor do que o maldito estilo de vida que aprendi? Quem disse que casamentos com vestidos de noiva são mais certos do que casar na beira de uma lagoa e trocar sementes de girassol? Eu tentei comprar o mundo do Mulder, adorei tudo lá, mas falhei.

KRYCEK: - (OLHA PRA ELA) Olha, Scully, você tinha o homem certo pra pirar e no entanto, agia como a menina de subúrbio a que foi acostumada, querendo a casa dos sonhos, a família dos sonhos... Você vendeu seu mundo pro cara, ok? Mulder comprou o seu mundinho. Aí você começou a achar que tudo era muito chato. E agora deixou o cara a ver navios, perdido num universo seu e que nunca foi dele. E com uma criança pequena. Isso sim é muita sacanagem. Consegue ver isso? Se você fizesse comigo o que fez com ele... Pode apostar que eu daria um belo troco.

SCULLY: - Eu não me culpo por isso, Alex, porque fico pensando nos maus tratos que sofri nas mãos do Mulder... (CURIOSA) Que troco você daria?

KRYCEK: - Olha, não sei da intimidade de vocês, mas... Deixa pra lá... Se Mulder pedisse pra você voltar...

SCULLY: - Não. Nunca mais, Alex. Eu ainda sinto ódio dele.

Krycek se cala. Pega a garrafa de bebida e toma um gole.

SCULLY: -(CURIOSA) Não me respondeu. Que troco você daria?

KRYCEK: - (JOGANDO) Bem... Se eu fosse o Mulder, divorciado de você, com um bebê pra cuidar... Tendo que me dividir entre filha e trabalho... Eu arrumaria uma babá em tempo integral. Jovem, bem gostosa, pra cuidar da minha filha de dia e cuidar de mim à noite. E o melhor de tudo: sem aliança e compromisso. Mulder tem uma carreira, uma casa, um carro, um trabalho. Vida estável. Fácil para conquistar garotinhas oportunistas. E sem se ferrar, porque ele é um cara esperto.

Scully cerra o cenho enciumada. Krycek percebe. Continua provocando.

KRYCEK: - Logicamente, como Mulder é homem e homens precisam de sexo... Solteiro de novo... Pode variar o buffet. Sair todas as noites, se divertir com mulheres diferentes, transas diferentes. Porque ele pode. Mulder é um cara bonito, atraente, se veste bem, faz sucesso com as mulheres porque ele as entende como um poeta. Ele tem uma sensibilidade enorme do mundo feminino que eu gostaria de ter... Não é fácil entrar na cabeça das mulheres e saber o que elas querem, precisam, desejam... Mas Mulder consegue. Queria que visse quando a gente estava na Europa o que tinha de mulher dando em cima do Mulder. Elas parecem que sentem o cheiro dele. Eu até incentivava, mas o idiota só pensava na esposa... Bom, agora ele tá livre.

SCULLY: - (CORTANTE) Pra onde vamos? Tem um mapa?

Krycek segura o riso.

KRYCEK: - Só o mapa do acaso. Olhe pra essa estrada, Scully. Ela é como a vida. Você nunca sabe o que vai encontrar lá adiante, se o pneu vai furar, onde é o fim, quem vai passar por você. Você não precisa seguir as placas que impuseram. Nem precisa saber pra onde ir, mas com quem você quer ir. E se no meio do caminho ficar sozinha, continue.

Scully olha pra ele num sorriso.

SCULLY: - Você é um mistério pra mim. Mas um mistério que eu quero descobrir.

Scully leva a mão à perna de Krycek. Krycek afasta a perna da mão dela. Olha pra paisagem, indiferente.


Condado de Luck – Carolina do Norte – 8:34 P.M.

Mulder observa o quarto arrumadinho. A colcha feita de retalhos sobre a cama de casal. Mulder observa os porta retratos sobre a cômoda. Jeremy entra, colocando um cobertor sobre a cama.

JEREMY: - Para o caso de sentirem frio...

MULDER: - Seu filho?

JEREMY: - (SORRI) Sim.

MULDER: - Ele jogava basebol?

JEREMY: - Profissional. Ninguém arremessava uma bola de efeito como ele. Ah não. Nunca vi alguém girar a bola como ele fazia...

MULDER: - O que houve com ele?

JEREMY: - ... Tim voltava de um jogo quando foi empurrado pra fora da estrada por um caminhão desgovernado... 28 anos... Fatalidade? Destino? Acaso? Eu nunca consegui a resposta.

MULDER: - Lamento muito, sr. Oatfield.

JEREMY: - A velha nunca superou... Nunca... Acho que nem eu. (OLHA PRA FOTO DO FILHO) Que pai aceita a perda de um filho? Você pode aceitar a perda de sua esposa, de seus pais, mas nunca aceita a perda de um filho...

MULDER: - (PERDE OS OLHOS NO NADA) ... Verdade. É uma dor que só sabe quem a tem.

JEREMY: - Um filho é algo sagrado. Você olha pra ele e sente-se orgulhoso de saber que pelo menos não foi um fracassado na vida: você teve um filho, você fez vida... Você deposita nele suas esperanças... Me pergunto sempre por que não fui eu a estar naquele carro. Por que ele? Por que tão jovem? De uma forma abrupta, estúpida e injusta?

MULDER: - ...

JEREMY: - Eu o criei com tanto amor. Investi em seus estudos, comprei sua primeira bola de basebol. Ia aos jogos com ele. Eu tinha orgulho dele. Ele era mais do que eu. Mais inteligente, mais esperto... Mais bonito.

MULDER: - (SORRI)

JEREMY: - Você cria um filho, agente Mulder. Com todo o seu esforço. Sempre fica imaginando como será doloroso pra ele no dia em que você morrer. Mas o que você nunca espera é ver o seu único filho num caixão, antes de você... Ali, um rapaz jovem, com um futuro promissor, sem vida. Então nada mais pra você faz sentido. Nada mais... E tudo que me culpo é por não estar com ele naquela noite. Talvez eu pudesse tê-lo salvo...

Jeremy sai do quarto. Mulder observa a foto.

Som do telefone tocando. Mulder aproxima-se da porta. Vê Jeremy ao telefone, falando baixinho.

JEREMY: - Como descobriu meu número? ... (ASSUSTADO) E-eu não posso fazer isso... Não eu... (NERVOSO) ... Eu irei. (FECHA OS OLHOS) Eu irei.

O velhote desliga. Mulder sai do quarto, com um olhar desconfiado.


8:54 P.M.

No banheiro, Victoria sem roupa, sentada dentro de uma tina de metal, brincando na água. Mulder, com as mangas da camisa dobradas, retira Victoria, enrolando-a na toalha.

MULDER: - Ok, sua porquinha filha de Mulder o porquinho... Agora sim estamos sem terra nas orelhas.

VICTORIA: -(RINDO) Nah!

MULDER: - Você tá adorando esse espaço todo, não é, Pinguinho? Acho que por hoje chega de correr atrás das galinhas. Elas já estão dormindo e você também tá na hora de dormir. Os bichinhos todos já estão dormindo.

Mulder senta-se na borda da banheira, com Victoria no colo, secando os cabelos dela.

MULDER: - Nem precisa muito esforço pra secar esses fiapos... Hum, estão ficando castanhos... Vai ter o meu cabelo, além dos meus olhos? Morena de olhos verdes? Nossa Pinguinho! Morena de olhos verdes é combinação explosiva pra fazer qualquer sujeito enfartar. Acho que vou ter muito trabalho pra correr com a urubuzada que vai voar na sua volta. Sorte sua não ter meu nariz. Espero que não tenha o meu gênio, minha teimosia e minha eterna busca pelo inexplicável.

Victoria sorri. Mulder observa a orelha dela.

MULDER: -(INCRÉDULO) Eu não acredito que ainda tem terra nessa orelha! Dá pra plantar um pé de couve aqui dentro!

VICTORIA: - (RINDO) Nah!

MULDER: - Que coisinha mais sujinha essa minha filha! Parece mais um moleque do que uma garotinha!

VICTORIA: -(RINDO) Nah! Ox!

Mulder enche Victoria de beijos. Ela se esquiva rindo alto.

MULDER: - (SORRI) Coisinha alegre do papai. Sempre rindo.

Mulder se levanta com Victoria. Abre o armário do banheiro.

MULDER: - Vamos procurar um cotonete nas coisas da vovó...

Mulder percebe os frascos de remédios. Pega um deles e lê o rótulo.


10:19 P.M.

Mulder sentado numa cadeira de balanço, na varanda, olhando pras estrelas. Victoria dorme de bruços sobre ele, coberta com um cobertor infantil de lã, com uma boneca de pano. Mulder se embalando, braços envoltos na filha. A sra. Oatfield sai da casa com uma bandeja de chá.

MRS. OATFIELD: - Acho que ela se cansou.

MULDER: - Nunca vi essa menina correr... Se é que dá pra chamar de correr quem anda apressadamente e cai mais vezes do que anda.

MRS. OATFIELD: - (SORRI) Me faz companhia pra um chá? São ervas que eu mesma plantei.

MULDER: - Aceito.

A velhinha serve o chá. Senta-se em outra cadeira de balanço de frente pra Mulder.

MRS. OATFIELD: - Ficou encantada com os moranguinhos. Corria entre eles gritando 'guinho'. Levei uns bons minutos procurando onde ela tinha perdido um dos tênis.

MULDER: -(SORRI) Ela adora qualquer coisa que seja comestível. Doce então...

MRS. OATFIELD: - (SORRI) Pelo menos tem bom apetite. É raro crianças não precisarem de complementos de vitaminas.

MULDER: - Sabe aquelas coisas que até alguns adultos detestam, como rúcula, chuchu, cebola, espinafre... Tire da frente dela. Ela acaba com um pé de alface em meia hora. Desde que descobriu pra servem os dentes... Aconselho evitar a sua horta, ou vai ter disputa com as marmotas...

MRS. OATFIELD: - (SORRI) Ela gostou da Maggie.

MULDER: -Maggie?

MRS. OATFIELD: - A boneca. Era da minha netinha. Eu fiz pra ela.

A sra. Oatfield ajeita o lenço na cabeça. Mulder a observa.

MULDER: - Tem uma neta?

MRS. OATFIELD: - Um pedaço do meu filho... Mas vive longe de nós, a mãe se casou com outro... Não a vejo desde que meu filho morreu, faz uns 13 anos. Já deve estar uma mocinha.

MULDER: -Gosto da sua casa, sra. Oatfield... Gosto daqui... Tem simplicidade... É calmo... Um céu amplo para se observar... Animais, plantas, natureza ao redor. Sempre quis viver num lugar assim... (OLHA PRA VICTORIA) Acho que ela puxou a mim.

MRS. OATFIELD: - É maravilhoso, mas precisa de ajuda nas lidas do campo. Quem sabe você não acaba comprando uma fazenda?

MULDER: - Não precisa tanto. Um pedaço de terra, uma casinha, alguns animais, árvores frutíferas e uma bela horta para plantar e descarregar as energias na mãe Terra... Penso mais nisso a cada dia. Um lugar de paz para passar as férias, finais de semana... Um lugar bonito pra deixar pra minha filha. Se ainda restar no futuro um pouquinho de natureza.

MRS. OATFIELD: - É casado, agente Mulder?

MULDER: - ... Separado.

MRS. OATFIELD: - Lamento. É estranho ver um homem ficar com os filhos. Só tem ela?

MULDER: - Sim... Mas eu nunca ficaria sem meu Pinguinho de gente. Não posso ficar um minuto longe dela. É minha vida. Por ela eu faço qualquer coisa.

MRS. OATFIELD: - Deve ser difícil pra um homem criar um filho sozinho. Homens não levam muito jeito.

MULDER: - Não é impossível. Tirando o fato de que algumas vezes me esqueço que ela precisa comer e tomar banho... Dia desses fui lembrar que ela não tinha almoçado já eram três da tarde. Estava tão atarefado. Ela não reclama. Não chora, não incomoda... (BEIJA VICTORIA) É a minha parceirinha. Essa não me abandona. Espero. Nunca se sabe o dia de amanhã.

MRS. OATFIELD: -Ela... Sente falta da mãe?

MULDER: - Sim. Eu sei que sente. Algumas vezes Victoria fala coisas que a mãe dela costumava falar. Eu... Eu guardei objetos que eram da minha esposa porque ela os pegava e chamava pela mãe... Não deu certo entre nós dois como homem e mulher. Nossa amizade dava mais certo. Agora perdi a amiga e a esposa, o que eu sempre temi. Gosto da vida que ela me deu. Gosto de ser pai... Gostava de ser marido... Achei que nunca conseguiria, então um dia acordei pra vida e adorei essa coisa toda de brincar de casinha, sabe? Bem melhor que a vida vazia e solitária que eu tinha. Pude perceber que eu era importante pra alguém. É bom ser importante. Significa que você é alguém, não é dispensável, como qualquer coisa que pode ser jogada fora e que ninguém sentirá falta. Porque era assim que eu me sentia antes de conhecer a mãe dela. Uma coisa, um nada, sem serventia alguma. A morte seria minha bênção. Hoje, não mais. Minha bênção está aqui dormindo no meu colo. Tenho uma dívida grande com a vida. Ela me foi generosa. E uma dívida enorme para com minha ex-esposa. Ela me deu duas vidas: a minha e a da minha filha.

MRS. OATFIELD: -Não sei o motivo da separação, mas acho que ela gostaria de ouvir tudo isso que você falou. Que mulher não gostaria? Você ainda a ama. Dá pra perceber.

MULDER: - E vou morrer amando aquela mulher. Que ela seja feliz com a vida que escolheu, porque ela merece ser feliz. E não tem culpa se eu não dei isso a ela. Se tivesse dado, ela não teria ido embora me odiando. Casamento quando acaba é como desastre de avião: nunca tem apenas um culpado. É uma série de fatores errados que culmina com a queda. Só espero que... O outro lá tenha a sensibilidade de cuidar dela e protegê-la como eu acho que ela merece. De amá-la como ela merece ser amada.

MRS. OATFIELD: - Ah! Desculpe, entendi... Sabe, agente Mulder... O casamento pode ser bênção ou maldição. Sorte e acaso. Nem todos acertam nessa loteria. Dá trabalho conquistar o outro todos os dias. Cuidar do outro e de si mesma. Sim, é complicado. Mas é a beleza do amor verdadeiro, aquele que se dá sem receber nada em troca.

Mulder enche os olhos de lágrimas. Abraça Victoria com mais força, apoiando a cabeça na cabeça dela, balançando-se com a cadeira.

MULDER: - O amor, sra. Oatfield. De todos os sentimentos é o mais difícil de matar, mas é o primeiro a ser ferido. Eu me culpo por minha garotinha não ter mais uma família. Eu sou filho do divórcio e não queria isso pra ela. É tão bom ter pais que se amam, que vivem juntos... Como a senhora e o senhor Oatfield. Juntos até o fim da vida, um cuidando do outro. É admirável, sabia? Eu dou muito valor a isso porque nunca tive, no fundo eu tinha medo de casamento e filhos justamente por isso. Eu não queria pecar com os outros como pecaram comigo. Meus pais morreram deixando pendências de ódio entre eles. Eu... Eu só queria que tudo fosse perfeito pra minha filha, porque eu tive uma infância muito infeliz. Queria que ela vivesse cercada apenas de amor, porque ela nasceu do amor e disso tenho certeza. Mas parece que a vida insiste em não ser perfeita pra ninguém. E eu me esqueci que nem tudo depende de mim pra dar certo. Eu não sou onipotente.

MRS. OATFIELD: -Agente Mulder, vou lhe dizer uma coisa. Escute essa velha aqui. Acho que nos meus setenta e poucos anos de vida posso dizer alguma coisa que valha a pena você guardar na memória, porque um dia no futuro vai olhar para trás e lembrar de mim. E vai me dar razão. Sua filha tem um bom pai, que é um bom homem. Um homem amoroso e dedicado a ela. Isso é o que importa daqui pra frente, pois ela só tem a você na vida. E as meninas precisam da figura paterna presente, muito mais do que os meninos.

MULDER: - Sério?

MRS. OATFIELD: -Sério. Como os meninos precisam mais da figura materna do que as meninas. Qual menino não procura uma esposa parecida com a mãe? Lógico, isso é inconsciente.

MULDER: - (RINDO) Pior! Mandona, briguenta, sempre com a razão, compulsiva por ordem e brigando por você se meter em coisas perigosas... Me sinto um tolo agora, senhora Oatfield, porque sou psicólogo e deveria enxergar isso.

MRS. OATFIELD: - (SORRI)Psicólogo? Ah, então vai entender melhor ainda o que estou dizendo. Lógico que não é uma regra, contudo acontece na maioria das vezes. Não importa se o seu casamento fracassou. Você tem lições que sua filha vai aprender sobre relacionamentos e homens. Victoria vai prestar atenção nisso. Você será o exemplo de homem pra sua filha. Nada abaixo disso vai atraí-la. Ela viu o pai, o melhor homem do mundo pra ela, então vai querer um melhor ainda. Entende?

MULDER: - Asenhora tem razão. A psicanálise explica. Só espero que o sujeito não seja obstinado por uma causa como o pai dela. Que coloca sua causa acima de tudo. Muitas vezes até mesmo acima da mulher que ele ama. Meu maior erro.

MRS. OATFIELD: - Por isso se policie. Você é o exemplo masculino dela. Esse radarzinho dormindo no seu colo vai um dia crescer e buscar sua metade como assim deseja a vida. Ela vai procurar um homem a altura do pai dela. Você sabe suas qualidades e defeitos. Então seja complacente com seu genro quando quiser esganá-lo, porque ele será uma cópia sua, por mais que você não admita.Seja sempre um homem de caráter elevado. Se você não presta, sua filha vai casar com um cretino. Se você bebe, com um bêbado. Se é mulherengo, com um mulherengo. Se honesto, com um honesto. Se ama incondicionalmente, ela vai querer um eterno apaixonado. A medida de homem perfeito pra ela é você. Então, se for um bom exemplo de homem, pode ter a certeza de que, se o seu casamento fracassou, ela fará um bom casamento. Isso é a herança que você deixará pra sua menina. Ela vai ter segurança de si como mulher, mãe e esposa porque pode acreditar nos homens, afinal ela teve um homem de verdade do lado dela a vida toda... Como acha que era o meu pai? O Jeremy escrito!

Mulder e a velhinha riem.

MULDER: - (SORRI) Senhora Oatfield... A senhora me alegrou com essa conversa. Consigo pelo menos visualizar a minha importância que achava ter perdido... Victoria a adotou como avó...

MRS. OATFIELD: - (SORRI) Adoro crianças. Você falou que seus pais morreram. Ela tem avós maternos?

MULDER: - Só a avó. O avô faleceu. Ela adora a avó dela. Eu tenho evitado contato por causa... A senhora entende. Não acho justo com Victoria e nem com a Meg. Mas tudo é muito recente, eu preciso de tempo e Victoria também... Acho que minha filha é problema meu. Talvez pensem que eu não vou dar conta. Mas eu vou me virar sozinho.

MRS. OATFIELD: -Avós gostam de agradar os netos. Sabe por quê? Já censuramos demais nossos filhos. Os netos são nossa segunda chance de maternidade. Temos a idade e a experiência pra saber que pés descalços e água da chuva são sensações que só temos uma vez na vida. Deixe-os tê-las... Sei que é cedo, mas não pensa em casar novamente? Você ainda é jovem...

MULDER: - Quem quer casar de novo depois de ter tido a melhor mulher do mundo? Não dá. Daqui pra frente serei eu e a minha Pinguinho. Um cuidando do outro. Até que apareça esse genro aí pra acabar com a minha alegria. Então vou esperar pelos netos. É a vida.

A senhora Oatfield começa a rir. Jeremy sai da casa, vestido de terno e gravata borboleta.

JEREMY: - Eu... Vou até a cidade.

MRS. OATFIELD: - Fazer o quê, Jeremy?

JEREMY: - Vou... Vou falar com o Carl. Quero ver se ele não me arruma um comprador pra porca.

Jeremy sai da varanda. Entra na velha picape. Mulder e a velhinha o acompanham com os olhos.

MULDER: - Sra. Oatfield, se importa de observar Victoria pra mim? Preciso dar uma saída.

MRS. OATFIELD: - Vá agente Mulder. Eu cuido da sua filha e vou ficar mais tranquila sabendo que você está cuidando do meu marido.

Mulder sorri.


10:34 P.M.

[Som: Mapas do Acaso – Engenheiros do Hawaii]

Scully dirige o carro pela estrada escura. Krycek cochila ao lado dela. Scully observa atentamente as placas. Olha para o mapa sobre o painel do carro: O mapa.

Mulder dirige de olhos atentos na picape de Jeremy mais à frente. Passa rapidamente pelo carro de Scully, vindo na direção oposta: O acaso.

Nenhum dos dois percebe o carro do outro.


Wilmington – 11:56 P.M.

O cassino cheio. Burburinhos. Mulder entra no cassino. Passa entre as pessoas procurando alguma coisa com os olhos. Aproxima-se do bar.

MULDER: - Viu um velhote baixinho, cabelos brancos, de suspensórios? Parecido com o Jack Lemonn.

BARMAN: - Não. Nem vi o Walter Matthau.

Mulder faz uma careta. A loira encosta-se ao lado de Mulder, com um sorriso tão grande quanto o decote e os peitos que saltam pra fora.

LOIRA: - Procurando alguma coisa?

MULDER: - Sim.

LOIRA: - Se for sorte, você acaba de encontrá-la.

MULDER: - Desculpe, mas eu já tenho muita sorte. Tenho uma morena de olhos verdes na minha vida.

Mulder se afasta do balcão, procurando com os olhos. A loira desiste e parte pra outro. Mulder percebe o tumulto na mesa de dados. As pessoas ao redor da mesa aplaudem, aos comentários curiosos. Mulder se aproxima. Infiltra-se no meio das pessoas. Vê Jeremy sacudindo os dados. Passa os olhos pelas pessoas e vê Buddy, cruzando os dedos. Mulder leva a mão discretamente à cintura. Buddy percebe que Mulder o observa, mas não liga. Mantém os olhos nas mãos de Jeremy. Mulder continua o encarando. Buddy percebe que há algo errado, olha pra Mulder de cima a baixo e disfarça, saindo agachado entre as pessoas. Mulder tenta passar entre as pessoas, mas não consegue. Jeremy atira os dados. Mulder olha pra mesa.

FUNCIONÁRIO: - Sete...

O dado move-se. Mulder arregala os olhos.

JEREMY: - Nove! Ganhei!

O funcionário sinaliza discretamente coçando o nariz. Dois sujeitos altos se aproximam empurrando todo mundo. Pegam Jeremy pelos braços e o arrastam pelo cassino, jogando-o porta à fora.


12:29 P.M.

Jeremy sentado no cais, olhando pro mar. Os olhos derrubando lágrimas. Mulder se aproxima, sentando-se ao lado dele.

MULDER: - Não teve muita sorte hoje. Tentou estourar a banca de novo e acabaram com sua festa.

JEREMY: - (ASSUSTADO) O que faz aqui?

MULDER: - É meu dia de sorte.

JEREMY: - Mas não foi o meu.

MULDER: - Disseram que roubou no jogo. Se fosse esperto iria para Las Vegas. De cassino em cassino para não chamar a atenção em um só. Ficaria milionário numa noite. Mas pessoas honestas não tem maldade para planejarem golpes em busca de fortuna fácil.

JEREMY: - ...

MULDER: - Quanto precisa? Cinco mil dólares?

JEREMY: - ...

MULDER: - Cinco mil paga o tratamento do câncer que sua esposa tem?

JEREMY: - (OLHA PRA MULDER EM LÁGRIMAS) Como descobriu?

MULDER: - Sou policial, eu vejo detalhes... Chás, medicamentos e um lenço na cabeça que ela nunca tira por vergonha de "estar feia" para o marido dela.

JEREMY: - E-eu... Eu não tenho dinheiro pra pagar o tratamento da Nine. E ninguém quer comprar porcos e vacas. Venderia minhas terras, mas... O que seria dela longe do que ama?

MULDER: - (SORRI/ ENTENDENDO) "Nove"? Nine? É o nome da senhora Oatfield?

JEREMY: - (AFIRMA COM A CABEÇA/ OLHAR VAGO NO MAR) O meu número da sorte... Ela é a sorte de um homem como eu... E-eu... (CHORANDO) Tudo que me resta na vida é ela. É a minha velha. Passamos a vida toda juntos, os melhores e os piores momentos... Eu não quero perder minha Nine. Ela é a minha eterna garota. Meu primeiro e único amor...

Mulder morde os lábios, segurando as lágrimas. Olha para o mar.

MULDER: - Buddy está chantageando você, não é?

JEREMY: - Eu não posso falar...

MULDER: - Se não falar, sr. Oatfield, eu não posso ajudar você a pegar esse safado.

JEREMY: - Ele está com minha neta. Vai matá-la se eu não ganhar dinheiro pra ele.

MULDER: - ... Telecinese.

JEREMY: - ...

MULDER: - Dom de mover objetos com o pensamento. É como consegue manipular o jogo de dados. Você é paranormal.

JEREMY: - Acredita nisso?

MULDER: - Minha filha faz isso. E eu já vi acontecer com muitas pessoas.

JEREMY: - Nine sabe que tenho o dom. Mas eu prometi a ela que nunca o exibiria... Mas estou desesperado. Se eu não conseguir 5 mil pra pagar o tratamento do câncer dela, ela vai morrer. Nada adiantou, nem radioterapia, nem quimioterapia... Está se espalhando por tudo.

Mulder olha aflito pro velhinho.

JEREMY: - Os remédios são caros, existe uma nova droga no mercado, mas eu não tenho condições. Eu só queria os 5 mil do tratamento, não queria atrair toda essa confusão, nem colocar minha netinha em risco.

MULDER: - Buddy quer se aproveitar de seus dons para extorquir dinheiro.

JEREMY: - Ele vai matar minha neta se a polícia se meter nisso.

Mulder se levanta.

MULDER: - Venha, sr. Oatfield. Vá pra casa. Aja normalmente com Buddy. O FBI vai pegar sua neta com vida e enfiar esse marginal na cadeia.

Jeremy se levanta com dificuldades. Mulder o ajuda. Os dois saem do cais, tomando a direção do estacionamento do cassino. Mulder observa a lua.

Na direção oposta, Scully caminha na beira da praia, olhando para a lua.

Nenhum dos dois percebe o outro.


Hotel Las Brisas - 12:39 A.M.

Scully observa o mar pela porta de vidro aberta. Braços cruzados.

SCULLY: -"Ancora... Vela... Qual me leva? Qual me prende"?

Krycek atirado na cama olha pra ela.

KRYCEK: -Posso responder sua dúvida.A âncora.

SCULLY: - ...Por quê?

KRYCEK: -Porque a vela pode prender você, mas por pouco tempo. Ele vai levar você para os mares da vida. Vai ser bom, divertido, emocionante até que o vento pare. Então não restará nada, apenas ficar à deriva. Sozinha. Já a âncora... Ele pode prender você, mas também levará você pra sempre com ou sem vento. Nunca troque uma âncora por uma vela.

SCULLY: -Mapas e bússola?

KRYCEK: -Mapas. Mapas dão todo o trajeto seguro pra você. Bússola só dá a direção por sua conta e risco.

SCULLY: -Sorte e acaso?

KRYCEK: -Sorte. Sorte é pra sempre. O acaso é passageiro. Entendeu?

SCULLY: - Entendi, Alex "vela, bússola e acaso".

Scully senta-se na poltrona, ainda olhando para fora.

SCULLY: - O mar... O mar sempre me acalmou. Mesmo que seja temperamental. Ora calmo, ora turbulento... O mar é mistério. Sinto uma afinidade pessoal com o mar. Mas ele agora me lembra meu pai. E lembrar meu pai, me dá revolta.Eu... Eu não consigo entender por que meu pai fez isso.

KRYCEK: - E tem certeza de que ele fez?

SCULLY: - Eu sei que o que contei à você foi algo muito pessoal e perturbador demais pra ser assimilado. Mas não acredita em mim?

KRYCEK: - Eu acredito em você Scully. Só não acredito nas coisas que acredita.

SCULLY: - Como assim?

Scully olha pra ele. Krycek brinca deslizando o dedo na colcha, chateado.

KRYCEK: - Nada. Esqueça... Sabe de uma coisa? Eu estou aborrecido com essa situação entre nós. Hipotética, porque na verdade... Deixa pra lá, você acha que sim e acho melhor manter você por perto a deixar você sozinha e desmiolada por aí, porque aqueles cretinos vão fazer pior e eu sei disso. E Mulder está ferido, cego e longe. Sobrou pra mim. Cara, se isso não é prova de amizade, não sei mais o que é! Eu podia dar o fora e deixar vocês se lascarem, como eu sempre fiz quando o problema não é meu. O que eu tô fazendo aqui?

SCULLY: - Do que está falando?

KRYCEK: - Nada, eu penso em voz alta. Scully, você me enfiou num triângulo bizarro do inferno, sabia? Depois dessa confusão toda aí... Mulder nem vai querer me escutar. Vai é meter uma bala na minha cabeça. Ele deve estar me odiando.

SCULLY: - Mulder que não seja idiota de tocar em você. Eu mato ele!

KRYCEK: - Você que não toque no Mulder ou eu vou ficar muito furioso com você. Desde que a gente trabalhou junto no Sindicato... Eu aprendi muito sobre o Mulder... Eu me divirto com ele, sabe? Ele é um cara legal. Meio esquentado, impulsivo, mas... Eu não queria perder a amizade dele. Quando eu tô com o Mulder, eu me sinto menos triste, menos sozinho... (SORRI) Acho que ele é meu irmão mais velho... (TRISTE) Mentira. Não é esse sentimento de irmão que eu tenho pelo Mulder... Deixa pra lá.

SCULLY: -(INCRÉDULA) Meu Deus! Eu me apaixonei por você e você tá apaixonado pelo Mulder?

Krycek salta da cama, irritado.

KRYCEK: -(INCRÉDULO) Tá maluca? Quer resolver seu problema todo com esse comentário ridículo? Eu hein? O triângulo aqui pode ser isósceles ou escaleno, jamais equilátero! Que fique bem claro!

SCULLY: - Do jeito que você tá falando do Mulder...

KRYCEK: -Você não sabe nada da minha vida, Scully. Do meu passado. Não saia por aí inventando coisas absurdas!

SCULLY: - Eu sei que você não gosta de falar sobre você. Então quer que eu pense o quê depois desse seu comentário sentimentalmente estranho?

Krycek senta-se na cama e começa a rir.

KRYCEK: - Você tem razão. Eu não gosto de falar de mim...Deve ter soado estranho realmente.

Krycek se levanta e vai até a porta. Observa o mar. Scully observa ele. Krycek respira fundo.

KRYCEK: - Ok. Como eu disse, antes desse seu comentário absurdo... Quando fui obrigado a trabalhar com Mulder no Sindicato é que eu o conheci realmente. Antes eu achava que conhecia, mas o que sabia do Mulder era o que aqueles caras queriam que eu soubesse: Mulder inimigo. Pronto. Me pagam pra isso, acredito nisso, nada mais me interessa. Então convivendo com ele... Colocando minha vida nas mãos dele e ele colocando a vida dele nas minhas mãos... E um tendo que contar com o outro, era vida ou morte se um de nós falhasse... A gente teve tempo para se conhecer, meio que... Não sei se amizade seria o termo... Camaradagem forçada seria melhor e... Cara, isso é difícil pra caramba!

Krycek pega a garrafa de uísque e bebe antes de deixar uma lágrima sequer cair. Senta-se na cama.

KRYCEK: -Não é que entendo o Mulder. Na verdade não entendo. Mas eu sei que tipo de pessoa ele é. E isso me assusta. E me cativa. As coisas se confundem dentro de mim, um misto de revolta, raiva e simpatia por Mulder. Algumas vezes tenho vontade de socar aquela cara debochada dele. Outras de aprontar alguma pra ver se ele acorda, se deixa de ser teimoso e para de lutar contra o que nunca vai vencer, porque o final disso é morte prematura e quem vai sofrer é a filha dele que vai ficar sem um pai... Mas não é o Mulder que me incomoda. É quem ele representa. É outro homem que eu tenho um misto de carinho e ódio por ter me deixado. Por ter sido um maldito sonhador! (VOZ EMBARGADA) Por culpa dele... Minha vida foi um inferno. Talvez não seria se ele pensasse mais em mim do que em sua causa anti-comunista numa Rússia comunista... Um cara risonho, piadista, arbitrário, indignado e sonhador. E que morreu por isso deixando seu filho ainda criança abandonado a própria sorte.

SCULLY: -(CERRA O CENHO) Oh meu Deus! Seu pai?

KRYCEK: - Esse é o sentimento que eu tenho por Mulder. Parece que vejo o meu pai.Acho que se ele estivesse vivo... Eu ia brigar muito com aquele cabeça dura mesmo! (SEGURA AS LÁGRIMAS) Ah, Scully, eu não quero falar disso! (PASSA AS MÃOS NOS OLHOS) Mulder é um cara legal, pronto! Se você gosta tanto de mim quanto diz gostar, deveria pelo menos acreditar em mim. E acreditar quando eu digo que Mulder é um bom homem. Ele não merece isso. Eu sei que ele é um teimoso. Mas não dá pra mudar a natureza das pessoas. Ou você as aceita ou vive sozinho. Meu pai nunca mudou. Morreu por isso. Foi um herói? Não. Só pra mim. Mas eu, o filho dele, queria era o amor dele e não o heroísmo! Queria ele vivo e não morto! O filho da mãe se foi me deixando no inferno... Esquece. Não me pergunte mais nada sobre meu passado.

SCULLY: -Ok. E eu não quero falar sobre o Mulder. Mulder é passado também. Por favor, não me faça lembrar dele que eu fico pior do que já estou.

KRYCEK: - Tá legal. Mas mesmo assim, eu sinto falta do Mulder.

SCULLY: - Eu não sinto.

Silêncio. Os dois olham para o mar.

KRYCEK: - Scully, triângulos amorosos não dão certo. Um sobra sempre.

SCULLY: - Mulder sobrou.

KRYCEK: - (DEBOCHADO) Aproveitando seu comentário idiota pra fazer piada e aliviar o clima tenso... E se eu dissesse que quem sobrou foi você? Acho que me apaixonei pelo Mulder. E agora? Vou pra sua casa e você fica no meu depósito? O único problema é que Mulder vai ter que aceitar cuidar da casa e ser chamado de esposa. Porque eu não dou minhas costas pra homem algum.

Scully acerta uma almofada na cabeça de Krycek, que solta uma risada. Scully começa a rir dele.

KRYCEK: - Falando sério.Lugarzinho bonito esse, não dá vontade de ir embora.

SCULLY: - Também achei... Tão calmo, sereno... (OLHA PRA ELE) Quer ir dançar?

KRYCEK: - Ao contrário do que pensa, nem todo russo entende de circo e balé.

Scully põe a mão na boca, rindo, olhando pra ele. Krycek se levanta. Beija-a na testa.

KRYCEK: - Boa noite, Scully. Melhor você ir dormir. Aproveitar a brisa do mar e relaxar.

Scully segura a mão dele nas suas mãos. Olha-o nos olhos. Beija a mão de Krycek.

SCULLY: - Fica comigo. Não quero dormir sozinha.

Krycek afasta sua mão das dela.

KRYCEK: - Scully... Você ainda não tem como perceber isso, mas um dia vai perceber. Não sou eu quem deveria estar aqui. Não é comigo que você quer dormir, viajar de carro, viver a vida. E nesse triângulo sangrento, só eu sei disso. Se gosta mesmo de mim, me deixe sozinho e me esqueça. Você não sabe a dor que eu estou passando porque entre nós três, eu sou o único que vai sair perdendo e magoado ao final de tudo.

Krycek sai do quarto. Scully perde os olhos na porta.


Condado de Luck - 2:13 A.M.

Mulder termina de colocar a escuta no telefone. A sra. Oatfield observa, nervosa. Olha pra Jeremy.

MRS. OATFIELD: - Por que não me contou? Por que não disse que nossa neta estava em perigo? Por que foi se meter com jogos? Você nunca se meteu com essas coisas! E se eu perdesse você? Hein?

Ela sai indignada, indo pro quarto. Jeremy abaixa a cabeça. Mulder olha pra ele.

MULDER: - Elas nunca imaginam até que ponto nós chegamos para protegê-las... Vá dormir, sr. Oatfield. Não há o que fazer agora.

O velhinho vai pro quarto. Mulder pega o celular. Aperta uma tecla.

MULDER: - ... Aqui é o agente Mulder, do escritório central. Quero falar com o agente D'Amico... Preciso de uma equipe perita em sequestro. Nosso amigo Buddy parece que tem mais uma graduação no seu 'histórico escolar'.


6:11 A.M.

Mulder sai da casa, com cara de quem acordou há pouco. A sra. Oatfield vem com Victoria, de mãos dadas com ela, trazendo um cesto de ovos.

MRS. OATFIELD: - Bom dia, agente Mulder. Victoria já ajudou a vovó a pegar ovos hoje, a tirar leite, a dar ração pros porcos...

VICTORIA: - (EMPOLGADA/ FALANDO RÁPIDO/ SONS DESCONEXOS)

MULDER: - É mesmo, filha? Nossa! (SORRI) Quanta aventura pra uma manhã! Ela tem um dom com os animais, acredite. Os adora. É um passarinho doente que aparece e ela quer que eu traga pra dentro, é um gato perdido, um cachorro abandonado na estrada. Nem pragas de jardim ela me deixa matar. Se não me cuidar minha casa vai virar um zoo.

MRS. OATFIELD: - É verdade. Até o velho Joe se levantou pra comer.

MULDER: - Velho Joe?

MRS. OATFIELD: - Um velho cavalo que temos. Parecia doente. Foi Victoria fazer carinhos nele e ele se levantou e começou a devorar o feno.

MULDER: - (SORRI) Não me impressionaria se visse isso...

MRS. OATFIELD: - (NERVOSA) Agente Mulder... Não deixe que nada aconteça com minha neta.

MULDER: - Vou fazer tudo que puder pra isso, sra. Oatfield...

MRS. OATFIELD: - Estou magoada com Jeremy. Eu sempre pedi pra não fazer aquelas esquisitices dele. Agora depois de velho resolve roubar cassinos desse jeito?

Dois carros estacionam na frente da casa. Agentes descem. Um deles, um negro alto e forte se aproxima, mostrando distintivo.

D'AMICO: - Agente D'Amico, escritório de Fayetteville.

MULDER: - Mulder, Washington.

Os dois se cumprimentam.

MULDER: - Esta é a Senhora Oatfield.

O agente a cumprimenta.

D'AMICO: - Vamos precisar montar uma central aqui, senhora. Não queremos atenção do pessoal da cidade.

Jeremy sai pra fora da casa.

MULDER: - Este é o sr. Oatfield. Buddy está com a neta deles.

D'AMICO: - Me faça entender por que Buddy iria chantagear um velho fazendeiro inofensivo.

MULDER: - Acredita em telecinesia?

D'AMICO: - (SORRI) Bem que me avisaram que você era o popular Mulder, o Estranho.

MULDER: - Sou Mulder, o Estranho, mas não sabia que era tão popular.

Os dois saem conversando lado a lado.

D'AMICO: - Quer me fazer entender o que está acontecendo?

MULDER: - Este velho fazendeiro inofensivo consegue mover objetos com a mente. Buddy sabe disso. Presenciou o fato no cassino, quando ele usou da paranormalidade para virar os dados.

D'AMICO: - Isso realmente existe?

MULDER: - Existe.

D'AMICO: - E por que esse velho não mora numa casa em Malibu se pode fazer isso?

MULDER: - Ele só queria 5 mil pro tratamento da esposa. Ela tem câncer. São gente honesta. Estava desesperado.

D'AMICO: - Então Buddy viu no velho uma chance de ficar rico facilmente.

MULDER: - E se o velho não o ajudar, a neta morre.

D'AMICO: - Tem experiência em sequestro, Mulder, o Estranho?

MULDER: - Tenho experiência como negociador. Mas não acho que seja o caso aqui. Precisamos pegar o filho da mãe de surpresa ou vai matar a menina. Sabe que ele fará isso. Conhecemos bem o velho Buddy.

D'AMICO: - Vou chamar os rapazes. Vamos criar um plano estratégico pra pegar o filho da mãe na tampinha. Enquanto isso, melhor avisar o senhor Oatfield para falar e agir normalmente com Buddy.

MULDER: - Já grampeei os telefones.

D'AMICO: - Ótimo. Vamos colocar um detector de chamadas telefônicas.



BLOCO 2:

8:12 A.M.

D'Amico observa o papel sobre a mesa e faz anotações. Mulder ao lado dele. Seis agentes ali com eles.

D'AMICO: - O agente Mulder está encarregado da operação pelo escritório central. Ele vai passar o plano pra vocês. Se reportem a mim ou a ele.

MULDER: - Quero quatro homens na vigilância do cassino. Dois homens a cada 2 turnos. O agente D'Amico ficará encarregado da escuta e localização da chamada.

D'Amico entrega fotos para os agentes.

D'AMICO: - Este é o nosso homem. Buster Larsen, 32 anos, 1, 82 metros, branco, aproximadamente 79 quilos. Procurado em cinco estados, por assassinato, extorsão, venda ilegal de armas, roubo e envolvimento como informante da máfia chinesa. O sujeito é perigoso, costuma andar sozinho, mas sempre tem homens de sua segurança pessoal o seguindo à distância.

MULDER: - Se algum de vocês perceber Buddy entrar no cassino, não o abordem.

Mulder distribui cartões de visita.

MULDER: - Liguem pra mim, o telefone está aí. Esta é uma operação secreta. Buddy está com uma refém e não quer a polícia ou vai matar a menina. A refém tem 13 anos de idade e é neta do senhor Oatfield. Quero dois homens seguindo Oatfield à distância sem levantar suspeitas. Apenas para garantir a segurança. Não se esqueçam, não abordem o criminoso. A nossa intenção é localizar Buddy pelo telefone e flagrá-lo de surpresa no cassino.

D'AMICO: - Temos 24 horas pra pegar o desgraçado. Depois de 24 horas as chances da menina sair viva podem diminuir. O senhor Oatfield vai colaborar conosco fazendo o jogo de Buddy.

MULDER: - Alguma pergunta?

Um dos agentes levanta a mão.

MULDER: - Diga.

AGENTE #1: - Agente Mulder, é verdade que em Washington você caça alienígenas? Eles existem mesmo?

MULDER: - (INCRÉDULO) ...


Wilmington - 6:16 P.M.

[Som: Mapas do Acaso – Engenheiros do Hawaii]

O pôr-do-sol visto pela plataforma de pesca. Um barco pesqueiro ao horizonte, algumas gaivotas voam ao redor esperando furtivamente para apanhar algum peixe.


Não peça perdão. A culpa não é sua. Estamos no mesmo barco. E ele ainda flutua.

Foco nas botas masculinas de camurça bege que caminham pela plataforma de madeira.


Não perca a razão. Ela já não é sua. Onda após onda, após onda, o barco ainda flutua.

Foco sobe aos poucos pelas calças jeans, as mãos nos bolsos, a camisa xadrez de flanela vermelha e o rosto pensativo de Mulder, observando o horizonte, em cima da plataforma de pesca.


Ao sabor do acaso. Apesar dos pesares. Ao sabor do acaso. Flutua.

Mulder observa a lua que começa a surgir. Uma lágrima furtiva lhe escapa.


Então preste atenção, o mar não ensina, insinua. Estamos no mesmo barco sob a mesma lua.

Corta para baixo da plataforma de pesca. Na areia, Scully sentada observa a lua, segurando a jaqueta de Krycek contra o corpo.


Em mar, em Marte, em qualquer parte, estaremos sempre sob a mesma lua.

Scully esfrega os braços, com frio. Suspira, numa angústia indefinida. Mulder suspira ao mesmo tempo.


Ao sabor das correntes, tão fortes quanto o elo mais fraco. Ao sabor da corrente, sob a mesma lua.

Os dois ao mesmo tempo, derrubando lágrimas, fitando o horizonte com olhos perdidos.


Âncora?Vela?

Mulder olha pra aliança em seu dedo. A observa triste.


Qual me leva? Qual me prende?

Scully olha pro anel em seu dedo, que Mulder lhe dera. Olha para a jaqueta de Krycek.


Mapas e bússola, sorte e acaso.

Os dois contemplam o horizonte. Cada um em seus pensamentos e sua dor. Mas nenhum percebe o outro.


Quem sabe do que depende?

Os dois ao mesmo tempo saem. Mulder desce a plataforma. Scully segue a praia em direção oposta.


Condado de Luck - 8:14 P.M.

Mulder parado na varanda observa a sra. Oatfield caminhando de mãos dadas com Victoria. Victoria sorri, fazendo festa pro cachorro. Mulder olha para Jeremy sentado na cadeira de balanço, se embalando, olhando para a esposa, olhos em lágrimas. Mulder abaixa a cabeça.

JEREMY: -Acredita em amor, agente Mulder?

MULDER: - ... Já acreditei. Hoje não mais.

JEREMY: - Eu acredito. Conheci o amor aos 16 anos. Num baile de galpão nessa cidade.

Mulder olha pra ele.

JEREMY: - (SORRI) Chovia gatos e cachorros... Meus irmãos me arrastaram pra aquela festa, eu era muito tímido. Garoto criado em fazenda, sem estudo... Foi quando ela entrou. Tranças louras que iam até a cintura, num vestido que parecia ser da irmã mais velha, que lhe sobrava por todos os lados.

Mulder sorri.

JEREMY: - Os olhos azuis que pareciam o céu em dia de sol. Quando eu a vi, minhas pernas tremeram. Já sentiu suas pernas tremerem diante de uma mulher?

MULDER: - Já. Uma única vez. E ela tinha olhos azuis também...

JEREMY: - Isso é o amor. Suas pernas tremem, a boca fica seca, o coração dispara e você tem vontade de sair correndo pra fugir, mas não consegue. Parece que está colado ao chão. Foi quando eu disse: Essa é a minha garota. É com ela que eu quero viver até o meu último suspiro.

MULDER: - ... (SORRI/ RELEMBRANDO ALGO)

JEREMY: - Mas não até o último suspiro dela... Pode entender isso? É egoísmo você querer morrer antes dela? É egoísmo, porque quem vai sofrer é ela, pois você está morto?

MULDER: - Não. É amor. Você só quer que ela viva. Porque conheceu a vida com ela e agora sabe que a vida é boa e não quer que ela nunca morra... Sinta-se feliz, senhor Oatfield. Feliz por ter chegado aos 70 anos, com sua esposa a seu lado. Essa é a verdadeira sorte de um homem.

O velho se levanta e caminha em direção a esposa. Mulder o acompanha com os olhos. No meio do caminho, Jeremy apanha uma rosa vermelha. Entrega para a sra. Oatfield que lhe sorri. Ele faz carinhos no rosto dela. Os dois riem pra Victoria. Mulder fecha os olhos, abaixando a cabeça. Levanta-se e sai andando.


8:49 P.M.

Mulder senta-se num velho balanço, brincando com um pedaço de capim. Abaixa a cabeça. Põe as mãos no rosto e começa a chorar convulsivamente.


9:47 P.M.

A senhora Oatfield retira o bolo de milho do forno do fogão. Victoria sentada numa velha cadeirinha de bebê brincando com a boneca. Fecha os olhos, aspirando o cheiro do bolo.

VICTORIA: - Mama...

MRS. OATFIELD: - (SORRI) Sua mãe fazia bolo de milho também?

VICTORIA: - (TENTANDO CONVERSAR) Olo... mama olo... om!

Mulder entra na cozinha, rosto lavado, tentando disfarçar. Victoria olha pra ele e percebe que o pai estava chorando. Entristecida, desvia a atenção pra boneca. Mulder escora-se na porta. Passa as mãos no rosto, tentando sorrir. Observa a velhinha desenformar o bolo. Cruza os braços.

MULDER: - Esse cheiro me é conhecido. Traz boas lembranças de tempos que não voltarão mais.

A velhinha olha pra ele.

MULDER: - Se queria visitas, arrumou o FBI em peso atrás do seu bolo de milho, senhora Oatfield. Vamos confiscá-lo e analisá-lo.

MRS. OATFIELD: - (SORRI) ...

MULDER: - É o mesmo que subornou o delegado?

MRS. OATFIELD: - Não. (PISCA O OLHO) O dele não tinha coco ralado.

MULDER: - Hum... Então perdemos nossos distintivos!

A velhinha sorri.

MULDER: -(PREOCUPADO) É curável?

MRS. OATFIELD: -Perdi meus cabelos... (SORRI) Tudo bem que estavam brancos, mas... Sabe como as mulheres são vaidosas... Jeremy tem esperanças num tratamento, mas... Está em metástase se espalhando pelo corpo.

MULDER: -(ANGUSTIADO) Sente dores?

MRS. OATFIELD: - Os remédios ajudam... Obrigado por se preocupar comigo, agente Mulder. Mas é apenas questão de tempo. Não há o que fazer. Jeremy não aceita, mas é apenas questão de tempo.

MULDER: - ...

MRS. OATFIELD: - Eu já vivi bastante, agente Mulder. Triste é você ver jovens e crianças sofrendo com tumores. Isso sim é triste. Eu sou apenas uma velha.

MULDER: - ... O que será do delegado sem o seu bolo de milho? E do seu marido arrumando encrencas? Hum?

MRS. OATFIELD: - (SORRI) ...

MULDER: - ... A senhora se parece com uma amiga que eu tinha... A mesma serenidade, a mesma coragem, a mesma força de encarar a vida... Ela também teve câncer.

MRS. OATFIELD: - Ela conseguiu se curar?

MULDER: - ... Vamos dizer que um cara trouxe o 'remédio' que ela precisava... E que nunca vai se arrepender de nada do que fez por ela ou em nome dela... Ele acha que lhe pagou o que devia, afinal muito ela sofreu por ele... Mas ela era assim como a senhora, sabe? Conseguia fingir que tudo estava bem. Conseguia ver graça nas coisas mais simples da vida. Ela nunca precisou de coisas complexas. Ele não entendia. Pra ela bastava fazer um bolo pro marido... Ele achava que ela pedia demais, as coisas normais eram complexas demais pra cabeça dele. A senhora deve saber que cachorro velho não aprende truque novo.

MRS. OATFIELD: - ... (OLHA PRA ELE COM PENA)

MULDER: - Mas até que ele entendeu o truque novo. Algumas vezes esquecia de fazê-lo, mas até que ele não se saía tão mal. Afinal é justo que tanto o cachorro e o dono aprendam as suas limitações e as respeitem... Mas quando ele aprendeu com ela a se sentir humano, ele viu que podia muito bem ter as coisas simples e que elas valiam muito mais. Ele percebeu então que ela pedia tão pouco e deu o que ela queria... Mas talvez, ela já estava cansada de esperar por ele.

Mulder sai da cozinha. A velhinha olha pra Victoria.

MRS. OATFIELD: - Ele estava falando da 'mama', não?

VICTORIA: - Im!

MRS. OATFIELD: - (SUSPIRA) O que deu errado?

VICTORIA: -(BRAVA) Iço, vó! Iço... O Iço obo!


Wilmington - 11:37 P.M.

Scully deitada na cama do hotel. Aponta o controle remoto pra televisão. Ela olha pra porta do quarto. Olha pra televisão. Larga o controle e senta-se na cama. Olha pro telefone, pensativa. Leva a mão ao telefone. Solta-o. Respira fundo, olhando pra TV.

Scully olha pro telefone novamente. Pega-o rapidamente, discando um número. Ela fecha os olhos, aguardando.

MULDER (OFF): - Residência dos Mulder. Deixe seu recado após o sinal.

Scully desliga. Solta o telefone no chão. Deita-se na cama, chorando.


Condado de Luck - 11:59 P.M.

Mulder deitado na cama, pensativo. Victoria deitada ao lado, com a chupeta na boca, os olhos arregalados pra Mulder. Mulder distante. Victoria o encarando. Mulder olha pra ela.

MULDER: - Eu estou bem. Não olha pra mim desse jeito. Parece a Maggie Simpson com essa chupeta na boca.

Victoria fecha os olhos. Mulder sorri. Dá um beijo nela. Recosta a cabeça nela.

MULDER: - Faz carinho no papai, faz.

Victoria sorri. Faz carinhos desajeitados nos cabelos de Mulder. Mulder fecha os olhos num sorriso.

MULDER: - Você ama o papai?

VICTORIA: - Im!

MULDER: - (SORRI) Também amo você, Pinguinho.

O celular de Mulder toca. Mulder senta-se na cama. Pega o celular.

MULDER: - Mulder... Alô?... Alô? (OLHA PRO VISOR) Alguém aí? ... Alô?

Mulder desliga. Victoria olha pra ele. Mulder coça a cabeça.

MULDER: - Que número é esse? Quem me ligaria de Wilmington? Não conheço ninguém por aqui.

Victoria sorri. Vira de costas pra Mulder, fechando os olhos. Mulder disca o número, intrigado.

MULDER: - Não atendem... Acho que vou ligar pra informações. Quem sabe é algum dos agentes?

VICTORIA: -(SORRI) Nah fibeí!


Wilmington - 12:37 A.M.

Krycek, vestido apenas de calças jeans, deitado na cama. Olha pro telefone. Senta-se na cama. Pega o telefone e disca.

MULDER (OFF): - Residência dos Mulder. Deixe seu recado após o sinal.

KRYCEK: - Mulder, sou eu. Mulder, por favor, me atenda. Já perdi a conta de quantas vezes eu liguei. Nós precisamos conversar. Eu sei que está magoado comigo, mas preciso esclarecer algumas coisas com você. Me liga, Mulder. Deixa de ser imbecil e orgulhoso. Eu só quero ajudar, mas você não me deixa!

Krycek desliga. Põe as mãos na nuca, revelando a tatuagem tribal na parte interna do bíceps. Suspira.

KRYCEK: - O cara já quer me matar por uma confusão. Quando souber que ela está na minha casa, nem vai deixar eu abrir a boca pra explicar qualquer coisa. Nem que é mais seguro ficar com ela por perto, ou ela pode fazer besteira.

Krycek se levanta. Pega a camiseta sobre a poltrona. Aproxima-se da janela. Olha pra fora. Veste a camiseta. Fica parado olhando a paisagem.

Batidas na porta. Krycek vai até a porta e abre. Scully entra apressada.

KRYCEK: - O que foi?

Scully se abraça nele e começa a chorar. Krycek leva as mãos pra abraça-la, mas desiste.

SCULLY: - (CHORANDO) Eu não me entendo mais! Eu não posso mentir pra você que não sinto mais nada por Mulder, você tem razão. Eu sei que sinto. Mas eu sinto também por você! E não estou conseguindo mais ficar sozinha, eu preciso de vocês!

Krycek fecha os olhos. A abraça. Scully chora contra o braço dele. Krycek respira fundo.

KRYCEK: - Vamos sair. Tomar alguma coisa, ver gente diferente, conversar, se divertir um pouquinho? Vai fazer bem pra você.

SCULLY: - (CHORANDO) Não quero...

KRYCEK: - Ah, quer sim. Vamos sair, tá? Vamos esfriar a cabeça.

Krycek a abraça mais forte. Ela fica abraçada nele chorando.


Condado de Luck - 12:43 A.M.

Mulder se levanta, só de calças. Abre a porta do quarto. A sra. Oatfield olha apreensiva pra ele.

MRS. OATFIELD: - Ele saiu enquanto eu dormia.

Mulder volta pra dentro do quarto. Veste um blusão rapidamente. Pega o coldre e a jaqueta. Sai, fechando a porta do quarto. A velhinha visivelmente nervosa, amassa o robe com as mãos.

MULDER: - Fique calma, sra. Oatfield. Eu vou atrás dele.

MRS. OATFIELD: - Não o deixe fazer besteiras, agente Mulder. Eu não sou estúpida, eu sei o que ele está tentando fazer. Conheço o meu velho. Uma mulher sempre sabe o que há de errado com o seu marido.

MULDER: - As mulheres deveriam acreditar mais nos sentimentos dos homens. Uma mulher deveria saber mais o quanto é amada.

MRS. OATFIELD: - Elas sabem, agente Mulder. Mas algumas vezes, a felicidade de ser tão amada acaba as deixando cegas de felicidade. Quando o que mais se queria já foi conquistado, nos pegamos reflexivas tentando entender por que entre tantas, nós tivemos a sorte. Nós que não merecíamos.

MULDER: - Sabe, senhora Oatfield? Eu ainda choro pela minha mulher. Se ela voltasse hoje, mesmo depois de tudo o que ela me aprontou, eu a aceitaria de volta. Sabe por quê?

MRS. OATFIELD: - Porque a ama.

MULDER: - (DEBOCHADO) Não. Porque eu sou corno assumido. E isso só comprova o velho dito de que todo castigo pra corno é pouco, justo e merecido.

A sra. Oatfield começa a rir. Põe as mãos na boca. Mulder abaixa a cabeça rindo.

MULDER: - Fique calma, ok? Eu vou resolver isso. Não quero a senhora molhando a casa com lágrimas. Quero a senhora rindo.


Wilmington – 1:09 A.M.

Os dois agentes sentados no carro, observando o cassino.

Scully e Krycek se aproximam pela calçada. Um artesão vende echarpes de seda, coloridas. Scully as observa, mas segue. Krycek para. Volta. Ela volta-se pra ele. Krycek pega uma das echarpes que o artesão segura.

KRYCEK: - Qual é do seu gosto?

SCULLY: - (SORRI) ... Sério? Por quê?

KRYCEK: - Pra deixar você mais feliz.

Scully sorri. Aproxima-se. Escolhe uma delas, em tons azuis.

SCULLY: - Combina mais comigo.

Krycek pega a echarpe e enrola ao redor do pescoço de Scully. Ela sorri, mais animada.

SCULLY: - Por que faz isso por mim, se diz que não me quer?

KRYCEK: - Porque quero ser seu amigo. Homens e mulheres podem ser amigos. Isto é apenas um agrado de um amigo. Nada mais do que isso. Amigos podem se presentear, sair juntos e se divertirem, sem implicar em sentimentos românticos. Não podem?

SCULLY: - (FRUSTRADA) Claro que podem.

Os agentes dentro do carro observam o casal que conversa, ela tirando a echarpe do pescoço e segurando nas mãos. Os agentes desviam a atenção pra Jeremy, que entra no cassino. Um dos agentes desce. Atravessa a rua.

Na calçada, Scully e Krycek se aproximam do cassino. Krycek para.

KRYCEK: - Quer tentar a sorte?

SCULLY: - Eu? Hum, não sei se o acaso está do meu lado.

KRYCEK: - Quem sabe? Vamos entrar?

SCULLY: - Vamos. Pelo menos parece um bom lugar pra se divertir.

Os dois entram no cassino. Casa cheia. Passam pelo agente do FBI à paisana, que toma refrigerante, observando discretamente o local. Aproximam-se do bar.

KRYCEK: - Refrigerante?

SCULLY: - Está brincando comigo! Preciso de alguma coisa mais forte.

Krycek sorri. Scully senta-se. Ele senta-se depois dela. O barman olha pros dois.

KRYCEK: - Uísque pra mim. Pra ela alguma coisa mais forte.

SCULLY: - (RINDO) ... Uísque está ótimo.

KRYCEK: - Não sabia que você bebia.

SCULLY: - Apenas socialmente.

KRYCEK: - Ou quando sai de carro sem destino.

Scully sorri. Krycek vira-se de costas pro balcão. Bebe uísque e observa a mesa de dados. Vê Jeremy observando apreensivo o homem que joga. Krycek abre um sorriso.

KRYCEK: - Não olhe agora. Ou estamos numa sessão espírita e os mortos estão baixando ou Jack Lemonn está vivo.

SCULLY: - Ahn?

KRYCEK: - Acho que ele forjou sua morte e fugiu pra cá pra jogar dados.

Scully vira-se. Vê Jeremy. Começa a rir.

SCULLY: - Deus! É o próprio! Parece irmão gêmeo! Até a carinha gentil e sorridente dele de bom velhinho!

KRYCEK: - Se o Walter Matthau baixar aqui também, eu peço autógrafo. Sou cinéfilo maníaco.

SCULLY: - (SURPRESA) Sério? (RINDO) Nunca imaginei isso de você! Também era fã dos 'Velhos Rabugentos'?

KRYCEK: - Não perco uma reprise com aquela dupla.

SCULLY: - O que comprova o dito que quando as pessoas se gostam realmente não conseguem ficar longe. Matthau morreu, Lemonn foi logo em seguida. Acho que menos de um ano... Por aí.

KRYCEK: -Viu como pode haver amizades tão grandiosas quanto o amor?

Scully sorri.

KRYCEK: - A mesa de dados está agitada.Sabe jogar dados?

SCULLY: - Hum, sou melhor nos caça-níquéis.

KRYCEK: - Toda mulher é ótima nos 'caça-níquéis'. Elas ficam o dia todo caçando os níquéis dos maridos pela casa, nos bolsos das calças pra lavar, na carteira esquecida sobre a mesa...

SCULLY: - (RINDO) Que maldade, Alex!

KRYCEK: - Você fica melhor sorrindo... Mas mesmo assim, eu não sou engraçado como o Mulder.

SCULLY: - ...

KRYCEK: - Entende agora por que estou relutante com você?

SCULLY: - Porque sou chata. Uma boba chorona.

KRYCEK: - Não. Porque está dividida.

SCULLY: - E se eu matasse Mulder dentro de mim? Você ficaria comigo?

KRYCEK: - ... Scully, não quero ofender você, mas está confusa com seus sentimentos. Não acho que você sinta alguma coisa por mim, além de atração. Vamos ser coerentes, não há como você gostar pra valer de um cara como eu. Nunca daria certo.

SCULLY: - Mas eu posso ter esperanças?

Buddy para ao lado de Scully. Pede um drinque. Olha pras pernas de Scully. Olha pro barman.

O agente do FBI vira-se, discretamente, puxando o celular. Krycek olha pra Scully.

KRYCEK: - Vamos pros caça-níquéis. Quero rir quando a máquina comer todas as suas moedas.

Scully sorri. Os dois levantam-se e vão para os caça-níquéis. Buddy se afasta do balcão e volta para a mesa de dados, ao lado de Jeremy. Uma mulher está jogando.

BUDDY: - (COCHICHA) Ok, velhote. É a sua chance. Se tirar 50 mil dessa casa eu devolvo sua neta. Se não, já sabe o que vai acontecer com ela.

JEREMY: - (NERVOSO) Ela está bem?

BUDDY: - Vai depender do que fizer por mim. O que fizer por mim, farei por ela.

O velhote olha pra mesa de dados, angustiado.


1:56 P.M.

Scully tenta segurar com as duas mãos as moedas que caem da máquina. A echarpe solta sobre o ombro. Krycek olha pra ela incrédulo. Ela rindo, surpresa.

Mulder entra no cassino: o mapa. Passa pelas máquinas de caça-níquéis, sem perceber Scully que está do outro lado, jogando com Krycek: o acaso.

Mulder anda pelo cassino, procurando Buddy com os olhos.

Scully e Krycek juntam as moedas e dão as costas. Scully deixa a echarpe cair, sem perceber. Mulder dá a volta pelos caça-níquéis. Scully e Krycek dirigem-se para a porta, mas Mulder não os percebe. E nem eles percebem Mulder.

Mulder fica parado em frente a máquina que Scully jogava. Percebe a echarpe ao chão. Pega-a. Cheira a echarpe. Fecha os olhos, num sorriso triste de saudade.

MULDER: - Canela...

Mulder olha pra echarpe, viajando em lembranças. Então acorda-se. Chama o funcionário que está na porta.

MULDER: - Guarde isso. Alguém perdeu e vai querer de volta.

Mulder dá as costas e volta a zanzar pelo cassino.


Condado de Luck - 2:14 A.M.

A senhora Oatfield observa pela janela do quarto de visitas, aflita, segurando o xale sobre os ombros. Victoria se acorda, senta-se na cama. Esfrega os olhinhos.

VICTORIA: - Papai?

A velhinha se vira. Aproxima-se da cama e senta-se. Ajeita o xale sobre os ombros.

MRS. OATFIELD: - (SORRI) Papai saiu e já volta. Ele foi ajudar a vovó.

Victoria, olhos inchados de quem acordou há pouco, bate as mãozinhas no colchão, rindo.

VICTORIA: - Vovó!

A senhora Oatfield olha ternamente pra ela. Passa a mão em seus cabelos.

MRS. OATFIELD: - Você é tão meiga, sabia? Quem sabe, enquanto eu espero meu velho e você espera seu papai, a gente faz um chocolate gostoso pra beber? Ahn?

VICTORIA: - Oba!

A velhinha enche os olhos de lágrimas.

MRS. OATFIELD: - Desde que você chegou, essa casa tem mais alegria... Vou sentir saudades quando se for. Vou perder minha companheira... Como sua mãe pode deixar de amar você?

VICTORIA: - Na! Mama ama nenê. Iço, vovó, Iço!

A velhinha sorri. Levanta-se. Então começa a ficar tonta. Victoria observa. A velhinha senta-se na cama. Deita-se.

VICTORIA: - Vovó?

A velhinha olha pra ela, respirando com dificuldades. Coloca a mão sobre a barriga.

MRS. OATFIELD: - A vovó está com dor... (OFEGANTE) ...

Victoria olha pra ela, curiosa.

MRS. OATFIELD: - Vovó está doente. Está dodói.

VICTORIA: - Dodói?

A velhinha acena com a cabeça. Victoria olha triste pra ela.

MRS. OATFIELD: - Vovó tem poucos dias aqui. Depois vovó vai viajar, não vai voltar mais. Vai morar com o menino Jesus.

VICTORIA: - (ASSOCIANDO) Orto? Dodói?

A velhinha a olha sem compreender. Fecha os olhos, colocando as mãos sobre a barriga, que lhe dói. Victoria olha triste pra ela. A velhinha pega no sono. Victoria olha pra velhinha que está de olhos fechados. Se aproxima de quatro. Põe as mãozinhas sobre as mãos da velhinha. Fecha os olhos.

VICTORIA: - Oa, vovó! Oa! Oa!



BLOCO 4:

Wilmington - 2:23 A.M.

Scully e Krycek sentados na praia, perto do cassino. Krycek fita o mar em silêncio. Scully o observa.

SCULLY: - Eu fugi dela por medo.

KRYCEK: - ...

SCULLY: - ... Eu não seria a pessoa certa pra ficar com ela. Mulder sim. Ele sabe com o que está lidando, eu não sei... Você está calado e sei que deve estar se perguntando como uma mãe abandona a filha e como tem coragem de fazer isso. Tente se colocar no meu lugar e entender isto.

KRYCEK: - Entendo, Scully. Mas entre entender e concordar há uma vasta distância.

SCULLY: - Não que eu não ame Victoria. Eu tenho medo dela... Muito medo.

KRYCEK: - ... Medo do quê?

SCULLY: - Das coisas esquisitas que ela faz... Ela não poderia fazê-las contra mim?

KRYCEK: - Poderia. Mas acho que ela é iluminada demais pra saber a diferença entre bondade e maldade.

SCULLY: - ... Será? Será que um bebê sabe essa diferença?

KRYCEK: - Não falo de bebês. Falo de Victoria. Ela ainda é alvo do Sindicato. Você sabe por quê?

SCULLY: - Pelos genes dela. Já fizemos a vacina, mas eles querem os genes dela.

KRYCEK: - (OLHANDO PRO MAR) Sim, é verdade. Mas há outra verdade aí que você não entende.

Scully olha pra ele. Krycek vira-se pra ela.

KRYCEK: - Quando tomaram seu filho de você.

SCULLY: - Quando Mulder...

KRYCEK: - Primeiramente, você me ama, Scully?

SCULLY: - Claro que sim.

KRYCEK: - Então acredite nas coisas que eu falo. Não foi Mulder. Eu estava lá. Eu vi quando tiraram o bebê de você. Eu era responsável pela entrega. Pode parecer doloroso pra você, Scully, mas nós negociamos seu filho com os alienígenas. Porque eles e Strughold queriam destruir o filho de vocês, que devia ser imune ao óleo negro e impediria a invasão porque teríamos uma vacina. Então o Fumante entregou pra mim a criança errada. Pra ganhar tempo e fazer a vacina e proteger o neto.

SCULLY: - (CABISBAIXA/ PERDIDA) Você tem certeza do que me diz? Eu... Eu lembro de ver Mulder levando meu filho.

KRYCEK: -Meu Deus! Scully o que fizeram com você? Não vê que pode odiar o Mulder por algo que nem sabe direito e não consegue me odiar mesmo eu admitindo que fiz algo contra você?

SCULLY:- (ZONZA) Eu... E-eu... Eu não sei.

KRYCEK: - Não era Mulder. Era Garganta Profunda, trocando os fetos. Me entregando o feto errado. E o resto você sabe.

SCULLY: - Mas como eu me lembro disso?

KRYCEK: -... Talvez não lembre. Não como deveria.

Krycek respira fundo.

KRYCEK: - Quando Mulder colocou os membros do Sindicato um contra o outro, o topo da pirâmide mandou um deles descer e fazer a retaliação. Nenhum deles e nem mesmo eu sabemos quem são esses caras, Scully. Com exceção desse que apareceu, o tal Alberthi, que atende pelo codinome The Gold Coin. A cada escolhido dele foi dada uma moeda de ouro. Porque uma moeda tem dois lados e provavelmente significa: você está na minha lista, posso confiar ou destruir. O Fumante ganhou e estava na lista de morte. Strughold ganhou, mas não estava na lista. Diana Fowley deve ter ganho porque ainda está com eles. Eu e Marita não ganhamos. Como acho que todos aqueles que foram mortos não ganharam. Fomos todos descartados pra morrer. Eu e Mulder achamos que Alberthi tem algo a ver com aquelas mortes, com rituais satanistas de invocação daquele demônio. Mas não temos provas ainda. Como acho que Alberthi está envolvido com você.

SCULLY: - Comigo? Acha que trabalho pra eles?

KRYCEK: - Não. Eu só não sei se deveria confiar tanto em seu psicólogo, Scully. Mesmo com a ficha limpa, não confie em ninguém. Posso estar enganado, não entendo nada de psicologia... Mas eu não confiaria muito nele. E nem na ciência convencional que reprova a paranormalidade, porque acho que Alberthi além de satanista é paranormal. E acho que ele tem poderes tão grandes ou maiores do que sua filha. Isso justificaria como ele sabe de tudo e está presente em tudo. Ou vou ter que admitir que ele é o próprio diabo.

SCULLY: - (FECHA OS OLHOS) Eu... Eu ganhei uma moeda.

KRYCEK: - (OLHA PRA ELA/ INCRÉDULO) ...

SCULLY: - Estava em minha bolsa, não sei quem a colocou. Uma moeda de ouro, nunca havia visto. Victoria gritava quando via aquilo. Dei a moeda a um padre, que bateu em minha porta. Disse que aquilo podia causar desgraças na minha vida.

KRYCEK: - Que padre? Scully, o que está me dizendo?

SCULLY: - Mas por que ele me daria uma moeda se não trabalho pra ele?

Os dois ficam pensativos. Som de gritaria. Os dois se levantam olhando pro cassino. Percebem os carros de polícia chegando.

KRYCEK: - Alguém andou aprontando uma.

SCULLY: - ... Preciso pensar... Vamos pro hotel, estou cansada. E ainda por cima perdi meu presente.


Condado de Luck – 7:36 A.M.

A senhora Oatfield faz o café, observando pela janela Victoria brincando no quintal, mexendo na terra e rindo sozinha. Victoria engatinha, curiosa, atrás de um coelho. A velhinha sorri. O sorriso se desfaz. Leva a mão à boca e corre para o banheiro.

Victoria faz carinho no coelho que fica quietinho. Victoria olha pro cachorro que se aproxima. Faz carinhos nele.

A senhora Oatfield sai pálida do banheiro. Respira fundo.

MRS. OATFIELD: -Deus! Parece que vomitei alguma coisa ruim pra fora... Credo!

Corta para o quintal. Victoria já está rodeada de animais. Ela ri, fazendo festa.

A senhora Oatfield sai pra fora. Fica a admirando.

VICTORIA: - (APONTANDO) Ichinho vovó! Ichinho!

MRS. OATFIELD: - Quer ver uns coelhinhos que nasceram há seis dias? São tão pequeninos e bonitinhos...

VICTORIA: - Quelo!

Corta para os carros do FBI que estacionam na frente da casa. A velhinha observa, com o coração na mão. Mulder desce do carro. Abre a porta traseira. Jeremy e a neta saem de mãos dadas do carro. A senhora Oatfield começa a chorar. A neta corre até ela a abraçando. Jeremy se aproxima, a abraçando também. Os três ficam abraçados. Mulder os observa num sorriso. Olha pra Victoria que vem correndo, tropeça e cai. Levanta e corre de novo em direção à Mulder. Mulder a agarra, levantando-a no ar. Ela ri. Mulder a enche de beijos e fica com ela no colo.

Jeremy, a velhinha e a neta se aproximam, abraçados.

JEREMY: - Obrigado, agente Mulder.

MULDER: - Não me agradeça. Senhora Oatfield, deixe seu marido bem longe de cassinos.

Jeremy sorri.

MRS. OATFIELD: - Pode deixar, agente Mulder.

Jeremy olha concentrado para a porta do carro de Mulder. A porta abre-se. Mulder olha pra trás. Sorri.

MULDER: - Espero que sejam felizes, como merecem. E espero que a senhora consiga seu tratamento... Bom, já está na hora de ir.

MRS. OATFIELD: - Não podem ir agora. Vou fazer um arroz campeiro divino.

MULDER: - Precisamos sim.

VICTORIA: - Nah!

Victoria olha pro carro. A porta do carro se fecha. Jeremy olha pra porta do carro. Ela se abre. Victoria e Jeremy começam a brincar com a porta, aos risos.

MRS. OATFIELD: - Pare com isso, Jeremy! Vamos entrar, só vai embora depois que almoçar.

MULDER: - Agradeço, mas realmente tenho muita estrada pela frente. Vamos Pinguinho. Nós dois e a estrada.

VICTORIA: - (APONTANDO PROS ANIMAIS) Ichinho!

MULDER: - (PÂNICO) Não mesmo! Não cabe essa bicharada toda no carro. E os bichinhos são da vovó. Não é pra levá-los não.

Victoria faz beiço e esconde o rostinho contra o ombro de Mulder.


Wilmington – 8:09 A.M.

Scully no cassino vazio. O funcionário aproxima-se com a echarpe na mão. Scully sorri.

FUNCIONÁRIO: - Um homem a achou perto dos caça-níquéis.

SCULLY: - Agradeça a ele por mim.

FUNCIONÁRIO: - Lamento, deve ser turista. Nunca o tinha visto por aqui.

SCULLY: - Obrigada. E se o vir novamente, agradeça a gentileza dele. É uma pessoa muito gentil. Não há muitas hoje em dia.

Scully sai do cassino. Krycek a espera na direção do Porsche. Scully envolve a echarpe no pescoço. Entra no carro.

KRYCEK: - Que bom que a encontrou.

Krycek liga o carro e toma a estrada pela praia.


9:49 A.M.

[Som: Mapas do Acaso – Engenheiros do Hawaii]

Mulder dirige o carro, braço apoiado na janela, cabeça apoiada na mão, pensativo. Bate o polegar no volante, ao ritmo da música.

Close no banco do carona: um bolo de cenoura, enrolado numa toalha.

Foco para Mulder, pensativo. Algumas vezes olha para o retrovisor. Mulder pega o celular que está no painel do carro. Desliga. Coloca sobre o painel de novo. Olha pelo retrovisor.

MULDER: - Bom, ganhamos um bolo da vovó. Mas eu prometo que vou aprender a fazer bolo pra nós dois.

Mulder sorri.

MULDER: - Você sempre consegue o que quer não é?

VICTORIA: - Nah!

MULDER: - Eu quero ver como vou cuidar de criança, peixe dourado, cachorro e agora... isso.

Corta pro banco de trás. Victoria sentada na cadeirinha, olhando pro filhotinho de coelho acinzentado, dentro da caixinha de sapatos.

MULDER: - Hoje é coelho. Amanhã é gato. Depois tartaruga. Acho que vou vender a casa e vamos nos mudar pro zoológico. Que tal?

VICTORIA: - Oba!

MULDER: - Oba nada! Que nome vamos dar pra ele? Ou será ela? Eu não sei ver sexo de coelho. O que sei é que mais de um eu não quero lá em casa. Dois coelhos juntos é problema!

VICTORIA: - Nine!

MULDER: - ... É o nome do coelho?

VICTORIA: - Im!

MULDER: - Ah! Então é uma coelha.Ok, em homenagem a vovó Oatfield... Eu realmente torço pra que ela consiga se curar daquele câncer... Uma boa pessoa, não acha?

VICTORIA: - Vovó! Na dodói! Oa! Vovó oa!

MULDER: - Vovó tá boa? Como assim ela tá boa?

VICTORIA: - Na dodói! Oa!

MULDER: - (PENSATIVO) ...

Mulder vira pra trás e encara Victoria. Ela abre um sorriso de orelha a orelha. Mulder volta a direção pra estrada.

MULDER: - Victoria Mulder... O que você aprontou? E não minta pra seu pai porque isso é feio. Você fez com a vovó o que fez comigo aquele dia que mamãe surtou e... Ah, esquece. Estou imaginando coisas.

Victoria sorri. Desvia a atenção para o coelhinho. O celular cai do painel do carro. Mulder se agacha pra pegá-lo, e não percebe o Porsche de Scully que vem o ultrapassando. Victoria olha pela janela e sorri. Scully e Krycek não percebem nada. O Porsche ultrapassa rapidamente, sumindo no horizonte. Mulder ergue-se e coloca o celular no painel.

MULDER: - Malditos apressadinhos! Vão pra onde desse jeito? Só porque estão num Porsche acham que são os donos da estrada?


X


Mapas... acaso...

Dedicada ao "Tio Gessinger"...


29/07/2002

30 de Setembro de 2019 às 02:26 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~