S06#10 - REVELATIONS: SCULLY’S MEMORIES – PARTE II Seguir história

lara-one Lara One

Uma mulher confusa. Dois homens apaixonados. O triângulo perfeito e sangrento, envolvido em verdades e mentiras. E a oportunidade certa para cumprir os objetivos de The Gold Coin. AVISO: Contém cenas fortes de violência.


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

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S06#10 - REVELATIONS: SCULLY’S MEMORIES – PARTE II

"Os pecados cometidos a dois são pagos um a um."


INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

Tela escura. Somente a voz dos personagens.

[Som: Enigma - Sadeness]

DR. PATTERSON (OFF): - Por que então não se deixa levar pelos seus sentimentos, Dana? Você vai relembrar de tudo o que me contou. Quero que pense muito sobre isso e não desista de lutar por quem você ama. Você o ama. Lembre-se disso. Perdoe todas as mágoas que ele possa ter causado a seu coração, todas as diferenças... Você o ama como nunca amou ninguém. Porque vocês são iguais e não são opostos. O igual sempre é a verdadeira alma gêmea. Esqueça sua vida, seus problemas, esqueça-se de tudo e pense em ser feliz. Nada mais importa. É o que eu quero que você faça a partir de hoje. Olhe para o outro lado sempre.

SCULLY (OFF): - Sim...

DR. PATTERSON (OFF): - Fale sobre aquela noite de sexta-feira quando você estava cansada, esgotada mentalmente, carente... Pensava em como voltaria aos Arquivos X, aquele hospital estava a estressando. Fale o quanto você deseja ardentemente em seu coração que seja sempre com ele, assim e que se repita para sempre.

SCULLY (OFF): - Lembro-me como se fosse hoje... Saí do trabalho, precisava vê-lo. Os últimos acontecimentos tinham o deixado arrasado. Eu também estava arrasada. Precisava colocar a verdade na mesa, entre nós dois. As nossas brigas precisavam acabar, eu não queria mais brigar com ele...

Abre a tela.

Ambiente escuro, penumbra, indefinido.

Foco nas pernas dele com calças de couro. Ela de saia social se aproxima dele. Para em sua frente.

SCULLY (OFF): - Aquela calça me deixava excitada, porque realçava suas formas bem definidas... Ele não conseguia esconder sua ereção e eu não podia evitar admirá-la.

Ele segura a mão dela e a leva de encontro ao peito. Veste uma jaqueta de couro e uma regata branca.

SCULLY (OFF): - Estávamos ali, sozinhos, falando verdades que nunca antes havíamos falado. Ele me sorriu sincero, como sabe fazer quando as coisas precisam ser sinceras. Num ar de deboche que lhe é peculiar...

Foco sobe até os lábios dele num sorriso, barba mal feita. Close em Scully, olhos curiosos, tensa.

SCULLY (OFF): - O silêncio tomou conta do ambiente. Ficamos um de frente pro outro e ele me flagrou olhando pra seu corpo. Pegou minha mão, a beijou e a colocou sobre seu peito. Fitou-se por momentos, num ar de felicidade e surpresa.

Scully desce a jaqueta dele pelos braços, tirando-a. Percorre as mãos sobre a camiseta, analisando-lhe o peito, músculos definidos que se salientam pela camiseta colada.

SCULLY (OFF): - Seu tórax... Abdômen... Deixei-me envolver por uma sensação que não podia mais controlar. Tudo em mim dizia: pare com essa briga estúpida e se entregue! Minha pele gritava, minhas glândulas, hormônios, coração... Tudo em mim gritava o nome dele.

DR. PATTERSON (OFF): - Continue... Fixe essas lembranças.

SCULLY (OFF): - Desci minha mão por sua calça de couro. Meu olhar dizia o que eu queria. E o olhar de sacana dele também sabia.

Scully pousa a mão sobre as calças dele.

SCULLY (OFF): - Senti seu membro rijo por sob as calças...

Ele a toma envolvendo a mão em seu pescoço rapidamente, virando-a de costas pra câmera. Não vemos o rosto dele nem o dela, apenas os cabelos dela.

SCULLY (OFF): - Ele envolveu a mão em meu pescoço. Nos perdemos em nossos olhos. Seus olhos verdes me fitavam com carência, com paixão... Um desejo incontido dentro de mim despertou. Podia ouvir as batidas do meu coração cada vez mais fortes. Fechei meus olhos e deixei que aquele beijo apaixonado me tomasse, sua língua quente, sua saliva...

Foco da cintura pra baixo. Scully leva a mão dele até a cintura e vai descendo-a até a saia. Ele ergue a saia dela com fúria, revelando a tanguinha preta. A empurra contra a parede. Scully abre as pernas, envoltas no corpo dele, que abre as calças com urgência.

SCULLY (OFF): - Lábios ainda colados. E eu me senti viva. Como há muito não me sentia. Tirei sua camiseta, passei minhas mãos por seu peito... Bocas, línguas, mãos ávidas e o senti dentro de mim. Eu ria... Sabe? Aquele riso de felicidade, de descoberta. Aquele riso de satisfação.

Ele move-se contra ela com fúria. Ela geme alto. Ele geme com ela, extasiado, enlouquecido.

DR. PATTERSON (OFF): - Entendo... Prossiga, fixando em sua mente todos os detalhes.

SCULLY (OFF): - O prazer foi ficando cada vez mais intenso. Ele me penetrava com desejo incontido, com força. Eu gritava de dor e de prazer, podia sentia o suor dos nossos corpos. Ele devorava meu corpo com fome. Eu o devorava com uma fome maior ou igual à dele. Os dois em completa carência. Agarrava-o pelos cabelos, mordia-lhe, chupava-lhe o pescoço... Arranhava suas costas perfeitas... Agarrava seu traseiro e o puxava mais contra mim.

Scully agarra o traseiro dele o puxando mais. Grita. Ele a segura pelas pernas, perde o equilíbrio. A coloca sobre a mesa. Ergue as pernas dela e as coloca sobre seus ombros. Scully agarra-se firme na borda da mesa. Ele agarrado às pernas dela, se arremete contra ela com mais força. A mesa balança. Scully cerra os olhos, entorpecida aos risos.

SCULLY (OFF): - Risos de um alívio de alma. Não conseguíamos nos sentir saciados, nada bastava. Nenhum gozo bastava. Ele se afastou.

Ele se afasta dela. A agarra pelos quadris, a virando selvagemente de costas pra ele. A toma novamente. Scully grita de prazer. Ele a agarra pelos cabelos, se forçando mais forte contra ela, gemendo alto. Scully geme com ele. Ele agarra os seios dela e inclina o corpo dela pra trás, se encaixando com mais firmeza. Scully geme enlouquecida. Ele a segura com o braço e leva a outra mão entre as pernas dela, a massageando enquanto a estoca com força. Ela geme alto, em prazer.

SCULLY (OFF): - Sentia seus dentes mordendo minha nuca. Suas mãos afoitas que ficavam confusas, porque não sabiam onde tocavam primeiro, tocando em todas as partes do meu corpo rapidamente, sem saber em qual delas se deter. Eu levei meus braços para trás, envolvendo minhas mãos naquela pele levemente morena, macia... carne... pecado... Oh, Deus, as lembranças me veem agora à tona e eu sinto meu coração disparar e pulsar por ele.

DR. PATTERSON (OFF): - Isso é bom, Dana. Assim pode ter a certeza do quanto o ama. Continue.

SCULLY (OFF): - O cheiro dele... O gosto dele... A memória do meu tato em seu corpo quente, pele, suor, músculos... Ele me tomou inteira numa arrogância de quem toma o que é seu. Me permiti ser tomada sem culpa.

Ele a solta. Scully fica caída sobre a mesa, ofegante, pernas trêmulas. Ele a puxa pelos quadris. A empurra contra algumas grades. Vira-a de frente. Passa a língua entre os seios dela. Ergue-a. Scully agarra-se nas grades, fechando os olhos.

Tela escurece. Apenas a voz dos personagens.

SCULLY (OFF): - Fizemos sexo pelo lugar todo, de todas as maneiras, de todas as formas, sem censura alguma... Pela primeira vez me senti liberta. A vida brotava de dentro de mim como uma flor que se abre pela primeira vez na primavera. Ele é a primavera da minha vida.

DR. PATTERSON (OFF): - Fale sobre o que houve depois disso. Vocês fizeram amor quase a noite toda. Fale dos seus sentimentos fortes de amor por ele. Fixe em sua mente.

SCULLY (OFF): - ... Sim... (PAUSA) ... Eu descobri com ele tudo que eu achava que tinha perdido. Minha auto-estima, o prazer, a vontade de viver. Ele é muito carente. Existe nele um lado humano que eu nunca poderia sequer imaginar... E acho que nos completamos. A sensação do proibido era muito mais intensa do que a do medo. Agora vivo cada dia pensando nele. Tudo o que eu mais desejo na vida é ele. Seus olhos verdes. Seu jeito rude de amar. Sua alma incompreendida. Nunca mais me esquecerei daquela noite. A noite em que eu fiz amor com ele. A noite em que eu tive coragem de dizer: Alex Krycek, eu te amo. E dane-se a desgraça que isso pode trazer.

Tela se abre.

VINHETA DE ABERTURA: MY TRUTH IS GOING...


BLOCO 1:

Fade in.

[Som: Whitney Houston - Unbreak my Heart]

Os lábios de Krycek sobem pelas pernas de Scully, só de lingerie na cama. Scully envolve as mãos nos cabelos dele ternamente. O conduz por seu corpo. Krycek olha maldosamente pra ela. Sorri malicioso. Afasta o sutiã, mordiscando o mamilo dela. Scully reclina a cabeça pra trás, soltando um suspiro. Ele a observa. Mordisca novamente. Ela sorri. Ele procura a boca de Scully e trocam um beijo ávido, de língua. Scully vira-se por sobre ele. Desliza as mãos e a língua, marotamente, descendo pelo abdômen dele, até as calças, enquanto o observa. Krycek olha pra ela, num sorriso.

[Fusão]

Scully, de olhos fechados, sentada em sua cadeira, nos Arquivos X. Abre os olhos, tensa. Põe as mãos no rosto.

SCULLY (OFF): - Isso não pode estar acontecendo... Não pode... Eu não faria isso... Por que só agora me lembro? ... Deus! Joguei meu casamento fora! Joguei tudo fora por um momento de loucura!

Mulder entra na sala com dois cafés. Coloca um na frente dela.

MULDER: -Que cara é essa?

SCULLY: -Nada, Mulder.

Mulder senta-se em sua cadeira. O telefone toca. Mulder atende.

MULDER: - Agente Mulder... (DEBOCHADO) Sei... Sim... Sei... Qual a cor do alienígena? Verde? Ok, então faz assim: Quando o alienígena amadurecer, você me liga de volta. Mas tem que ser logo em seguida porque eles apodrecem rapidinho.

Mulder desliga rindo.

MULDER: -Bando de desocupados do FBI... Ei, olhos azuis?

Scully olha pra ele.

MULDER: - (PISCA O OLHO) A noite é nossa. Vou comprar um peixe bem gostoso e cozinhar pra você. Assim abrimos aquele vinho chileno que eu ganhei do Don... Que tal?

SCULLY: - ... Hoje? E-eu... Não estou bem do estômago e estou com dor de cabeça. Quero dormir cedo.

MULDER: - Ok. Então eu faço uma sopinha e dormimos cedo... Está com aquele relatório preliminar do caso Carmichael?

Scully abre a gaveta. Procura o relatório. Então percebe os óculos escuros de Krycek em sua gaveta. Fecha os olhos, perturbada.

[Fade]

Scully levanta-se da cama, enrolada no lençol. Krycek, nu, de bruços, olha pra ela.

KRYCEK: - Precisa ir mesmo?

SCULLY: - Preciso... (ABRE A JANELA) Que sol forte!

KRYCEK: - Leve meus óculos... Vampirinha.

SCULLY: - (SORRI)

KRYCEK: - Devo encarar isso como a última vez?

SCULLY: - ... Não sei. E-eu... Não é certo o que fizemos...

KRYCEK: - Não gostou? Eu adorei.

SCULLY: - ... Claro que gostei, mas não acho justo Mulder estar na prisão e eu aqui dormindo com você.

KRYCEK: - Você é humana. Não deveria se culpar por ser uma mulher linda que precisa de atenção.

SCULLY: - Me acha linda?

KRYCEK: - Você é um sonho, Scully.

SCULLY: - ... Engraçado isso vir de um cafajeste como você.

KRYCEK: - Não sou cafajeste. Eu sei o que uma mulher gosta. E você sabe onde me encontrar se bater saudade. (PISCA O OLHO) Sabe que Mulder não vai sair tão cedo daquela cadeia. Vai passar o resto da vida sozinha? Enclausurada feito uma freira? Muito desperdício deixar esse corpo pra terra comer... (SORRI/ CRETINO E MALICIOSO) Deixe que eu coma com muito prazer...

[Fade]

Mulder olha pra Scully.

MULDER: -(SORRI) Scully??? Sonhando acordada?

Scully volta a si. Pega o relatório e fecha a gaveta rapidamente. Mulder levanta-se e pega o relatório das mãos dela.

MULDER: - (PREOCUPADO) Algum problema?

SCULLY: - ... Não.

MULDER: - Deveria ter tirado a licença. Esse caso é perturbador demais e...

SCULLY: - (GRITA) Estou bem, Mulder! Para de sentir pena de mim! Me esqueça! Me deixe em paz!

MULDER: - ... Vou levar isso pro Skinner.

Mulder a beija. Scully não retribui. Mulder sai da sala. Scully põe as mãos no rosto. Começa a chorar. Pega o telefone. Disca, trêmula. Aguarda, chorando. Segura o fone com as duas mãos, nervosamente.


Gabinete do Diretor-Assistente Skinner – 9:01 A.M.

Mulder sentado, em frente a Skinner.

SKINNER: - Lamento. Como eu disse as coisas não são como parecem. Estou apenas sendo seu amigo e avisando que se não cumprir o que pediram pra ser feito, vão retaliar você de novo. E você sabe o inferno que será. Já sentiu na própria pele.

MULDER: - Preciso desse emprego, Skinner. É tudo o que eu sei fazer e eu tenho uma boca em casa pra alimentar. Mas entenda, eu não posso deixar a Scully no estado de nervos em que está.

SKINNER: - Então, Mulder, faça o que Carter pediu. Ele argumenta que você se esqueceu da missão do FBI.

MULDER: - A Missão do FBI é apoiar a lei pela investigação de violações de leis criminais federais; proteger os Estados Unidos de inteligência estrangeira e atividades terroristas; prover liderança e ajuda de execução da lei para agências federais, estatais, locais, e internacionais e executar estas responsabilidades até certo ponto onde isso é responsivo às necessidades do público e é fiel à Constituição dos Estados Unidos... Anos decorando, acha que ia esquecer?

SKINNER: - Pegue um avião e vá pra Louisiana, explique tudo ao agente Mallet e depois volte, fique nos bastidores como apoio. Pelo menos até Donald estar por dentro da situação pra assumir. Se Carter está insistindo nesse caso, lembre-se: Podem estar querendo afastar você da verdade como sempre fazem. Carter é um joguete estúpido nas mãos dessa gente.

MULDER: - Estou com problemas de saúde na minha família e não consigo mais me concentrar em nada. Mas Carter não pode entender isso, porque ele não tem família. Ele não sabe o que é amar esposa e filhos, por isso brinca com o sentimento dos outros. Mas tudo bem, eu sou apenas um agente, preciso desse emprego e não vou mais discutir normas e ordens. Só vou cumprir e ponto final. Quanto mais rápido eu for, mais rápido eu volto.

Mulder levanta-se. Skinner o acompanha com os olhos.

SKINNER: - Mulder... Não confie em Alex Krycek.

Mulder vira-se pra Skinner.

SKINNER: - Não sabe as intenções dele, que de repente resolveu se aproximar de você. Entende?

MULDER: - Não sou idiota, Skinner.

Mulder sai, fechando a porta atrás de si. Skinner abaixa a cabeça, angustiado. O telefone toca. Skinner atende.

SKINNER: - Skinner... Frohike? ... É muito urgente? ... Eu também estou preocupado com ele... Scully? O que tem a Scully? ... Estou saindo pra um café. Nos encontramos na frente do Bureau.


Apartamento de Ellen – Washington - 9:59 A.M.

Ellen abre a porta com a chave. Scully ao lado dela, olhos vermelhos, num bagaço. Ellen sinaliza pra ela entrar. Scully entra. Ellen entra e fecha a porta. Scully senta-se no sofá. Ellen vai pro bar.

ELLEN: - Uísque. Melhor remédio pra mulheres choronas e em crise. Qual foi a besteira que você fez agora?

Scully tira os sapatos. Põe os pés sobre o sofá, em posição de meditação. Abraça uma almofada. Ellen entrega o uísque. Senta-se no chão, de frente pra ela. Afaga a mão de Scully.

ELLEN: - Fala, amiga. Quando cheguei no prédio do FBI e vi seu estado, juro que pensei: Mulder tomou um tiro e morreu. Nada a deixaria num estado tão deprimente. Mas se Mulder não morreu, então o que houve?

SCULLY: -(OLHAR VAZIO) ...

ELLEN: - Dana? Você está me assustando!

SCULLY: - (CULPADA) Que nome se dá pra uma mulher que trai o marido que faz tudo por ela?

ELLEN: - (ASSUSTADA) O que quer dizer com isso?

SCULLY: - Traí Mulder.

Ellen se engasga com o uísque, olhando com olhos esbugalhados pra Scully.

ELLEN: - Isso é uma piada, não é?

Scully começa a chorar. Ellen solta o copo. Segura as mãos dela.

ELLEN: - Amiga, fala. Desabafa, põe pra fora. Eu não vou julgar os motivos que levaram você a fazer isso.

SCULLY: -Eu... Eu não sei. Estava tão carente... Mulder estava preso, estávamos em crise, o meu mundo tinha desabado, eu estava frustrada, sozinha, jogada...

ELLEN: - Eu o conheço?

SCULLY: - Sim.

ELLEN: - Dana é completamente perdoável. Você estava numa situação difícil, ele bateu na porta, ofereceu apoio, o apoio se confundiu, a carência gritou...

SCULLY: - Não, Ellen. Eu fui atrás dele. Sabia onde ele morava.

ELLEN: - ... Bom, chega um ponto no casamento em que a relação começa a ficar monótona, vem a tal crise...

SCULLY: - E eu sabia o que ia acontecer. Não fiz de inocente. Eu fiz porque queria. Não tente me fazer sentir menos culpada. Eu fui até ele.

ELLEN: - ... Eu bem que percebi algo diferente naquela noite na ópera. Skinner prontamente não se sentou do seu lado. Achei estranho, já que Mulder e você são amigos dele...

SCULLY: - Não, Ellen! Não foi Skinner. Foi Alex Krycek.

ELLEN: -(INCRÉDULA) O bunda bonita com cara de cafajeste? Ai amiga... Não se culpe. A carne de qualquer mulher fica fraca diante daquele cara.

SCULLY: - Ellen, por favor! Estou numa pilha de nervos, amando dois homens ao mesmo tempo!!! Mulder está empolgado pra ter uma noite daquelas, pra cozinhar pra mim e eu não tenho coragem de olhar pra ele, quanto mais de deixá-lo me tocar! Sinto-me culpada, uma cadela cretina que jogou um casamento maravilhoso fora! Mulder não merecia isso!

ELLEN: - Mulder descobriu?

SCULLY: - Não!

ELLEN: - Dana, isso não é uma depressão pós-parto retardada? Já ouvi falar disso, muitas mulheres entram em crise após o nascimento do fi...

SCULLY: - Não, não é isso, Ellen... Agora entendo quando você falava sobre o nascimento de Jimmy e do quanto ser mãe, esposa e profissional deixa qualquer mulher tonta. Estou cansada. Já disse isso a você e a terapia está me deixando pior ainda! Ellen... (ENCHE OS OLHOS DE LÁGRIMAS) Eu conquistei tudo o que eu queria na minha vida: um emprego, um marido e uma filha, uma casa na Virgínia, uma vida perfeita... E a sensação de felicidade começou a me causar angústia... O que eu tenho mais pra conquistar? O que eu tenho pra conquistar se eu tenho tudo o que eu queria? Era realmente o que eu queria? Ou eu me enganei?

Scully se abraça em Ellen. Ellen afaga os cabelos dela.

ELLEN: - Dana, tenta se acalmar...

Scully seca as lágrimas. Olha pra Ellen.

SCULLY: - Eu disse pra você aquele dia que faço coisas que não me recordo, digo o que não quero dizer... Agora entendi porque eu estava sendo uma égua com Mulder. Estava tudo no meu inconsciente! Eu lembrei!

ELLEN: - Lembrou de quê?

SCULLY: - Estou louca, Ellen. Completamente perturbada! Ontem na terapia foi quando eu... Eu me lembrei de tudo o que tinha feito. Eu traí Mulder, mas não lembrava disso.

ELLEN: - Como não lembrava? Dana que mulher trai o marido e se esquece? Você pode esquecer o bolo no forno, mas esquecer um adultério?

SCULLY: - O Dr. Patterson me disse que o fato foi um impacto tão forte na minha memória que eu o bloqueei por completo. O estresse, o excesso de funções, o medo da reação de Mulder e de perdê-lo e eu... Eu bloqueei isso. E agora, com a descoberta daquelas coisas todas a respeito da minha filha, minha revolta com Mulder, afinal ela é assim por causa dos genes dele... E-eu pude me lembrar perfeitamente de tudo. Cada detalhe Ellen!

ELLEN: - ... Dana... Você tá estranha.

SCULLY: - Cada detalhe de tudo. Até do corpo, do cheiro de Alex, do gosto... (PÕE AS MÃOS NA CABEÇA) E o pior de tudo, Ellen... É que me sinto atraída por ele. É mais forte do que eu. É como se ele fosse a conquista que falta na minha vida. Algo novo, algo que eu não tenho...

ELLEN: - (FECHA OS OLHOS) Dana, sabe o que acontece em triângulos amorosos. Um acaba sobrando. Você tem que se decidir. Você e Alex ainda estão transando?

SCULLY: - Não. Foi só aquela vez.

ELLEN: - E Alex? Ele comentou sobre isso, te procurou de novo...

SCULLY: - Não.

ELLEN: - Dana... Esqueça. Foi uma aventura pra ele. Você nem sabe dos sentimentos dele para com você. Não jogue fora um casamento por causa de uma aventura! Você tem um marido dedicado e fiel, uma filha pra criar...

SCULLY: - Eu sei, Ellen! É por isso que tenho mais medo, eu sei que Alex me ama! Está escrito no olhar dele! Mesmo que ele evite falar sobre isso, está lá. Eu posso ver. Agora tudo faz sentido. Aquelas palavras que ele me falou lá em Belle: 'Que por Mulder, ele nunca repetiria o que fizemos'... E a tola aqui achando que ele estava falando sobre aquela coisa de Incubus! Mas não! Ele estava falando sobre a outra noite!

ELLEN: - E Alex está sendo coerente, sabia? Ele mesmo percebeu que foi um erro, um momento de desespero. Dana, não jogue sua família fora por uma bobagem. Mulder é um bom marido. Você tem uma filha, uma casa, um cachorro, uma vida... Nunca se deve trocar um amor velho por um amor novo. Geralmente nunca dá certo apostar no incerto. E Mulder é o marido dos sonhos de qualquer mulher! Ele ajuda você, cuida da filha, não deixa faltar nada em casa, te leva café na cama, é fiel, um animal na hora do faz-me rir e é bem dotado. O que mais você quer? Então aquiete sua periquita esfomeada, minha filha!

SCULLY: - (CHORANDO) Tenho medo de contar ao Mulder. Ele nunca me perdoaria!

ELLEN: -(AFLITA) Não pode contar ao Mulder! Está louca?

SCULLY: - Eu preciso contar, não posso mais ficar mentindo! Sempre prometemos dizer a verdade um pro outro, mesmo que doesse muito essa verdade! Não é justo enganar Mulder! Ele não merece isso.

ELLEN: - Dana, Mulder é ciumento, você mesma me disse. Ele parece não ser, mas você sabe que ele controla isso justamente porque se deixar rolar ele mata o atrevido. Se contar pra Mulder, isso vai acabar em desgraça. Me promete que não vai contar.

SCULLY: -(CHORANDO) Mulder nunca vai me perdoar...

ELLEN: -(NERVOSA) Dana, me escuta! Se você contar ao Mulder, isso vai acabar em tragédia. Isso se você não disser nada sobre seus sentimentos, porque amiga, um homem traído não é uma mulher traída. Uma mulher traída sofre, chora, atira as malas do cara na rua, bate na vadia com uma sombrinha, persegue a desgraçada pelo shopping... Mas um homem traído... É um animal de reação desconhecida, ok? Homens não podem sequer sonhar com uma traição. Você vai acabar vendo um lado desconhecido do Mulder e pode não gostar disso.

SCULLY: - Preciso contar, Ellen. Eu preciso. Tenho que encarar as consequências dos meus atos, mesmo que impensados.

ELLEN: - Vá pra casa. Você está confusa e estressada. Tome um banho quente na banheira, tire um sono, brinque com sua filha. Mas nem pense em contar sobre Alex. Ou amanhã a tragédia vai estar estampada nos jornais.

SCULLY: -Tenho medo da reação do Mulder... Sim, ele é violento. Diz que não é ciumento, mas é pior do que eu! Acho que ele não só faria algo contra Krycek como faria contra mim. Acho que ele até me mataria. Mulder é possessivo! E o que faço com meus sentimentos em relação ao Krycek?

ELLEN: - Evite qualquer contato com ele.

SCULLY: - Mas como, se ele e Mulder estão sempre juntos?

ELLEN: - Não o convide pra jantar nunca! Se Mulder for se encontrar com ele, tenha dor de cabeça. Quando Mulder falar dele, feche os ouvidos e pense numa cena do filme O Massacre da Serra Elétrica... E se quiser contar ao Mulder sobre sua traição, pense numa cena do mesmo filme antes de abrir a sua bendita boca!

SCULLY: - Mulder vai me bater... Como sempre.

ELLEN: - (ASSUSTADA) O quê??????


Cafeteria George Washington – 10:18 A.M.

Skinner e Frohike sentados. Skinner com as mãos no rosto. Frohike olhando pra ele.

FROHIKE: - Eu sei como deve estar se sentindo. A verdade é que Mulder é louco, mas eu não podia imaginar que era tanto. Não sei o que deu nele. Se Scully não tivesse me contado, eu não acreditaria.

SKINNER: - (OLHA PRA ELE) Eu não posso conceber isso... Agora penso se o que você me falou não justifica os motivos pelos quais Scully pediu afastamento temporário, porque está tão nervosa e doente. Mas por que ela não falou antes, não pediu ajuda?

FROHIKE: - Me coloco no lugar dela. Eu teria vergonha se alguém soubesse disso.

SKINNER: - Mas... Não faz sentido algum! O Mulder nunca levantaria a mão pra Scully.

FROHIKE: - Pra mim faz. Eu sei de algumas peculiaridades do Mulder com relação a relacionamentos. E eu sei que isso que está acontecendo não é a primeira vez. Já houve uma outra. Pergunte a Diana Fowley. Ele bateu tanto nela que até dá pra entender por que ela vive querendo vingança.

SKINNER: - (NERVOSO) Eu nem sei o que dizer... Estou... Chocado.

FROHIKE: - Vou ter uma conversa com Mulder. Discretamente, sem revelar que eu sei o que está havendo... É um assunto muito delicado, íntimo demais dos dois para que qualquer um se intrometa. Mas se eu não fizer isso, me sentirei omisso. Entende?

Skinner está atordoado. Frohike abaixa a cabeça.

FROHIKE: - Ele não tem o direito. Não tem mesmo. E eu vou ajudar minha amiga. Não vou negar socorro pra ela num momento desses. Se Mulder quiser bater em alguém que seja num homem e não na mulher dele!

SKINNER: - Eu não sei, parece que tudo ficou doido de repente... As coisas se acalmaram e agora você vem me dizer isso a respeito do Mulder? Eu nunca podia imaginar uma coisa dessas. E nem sei que atitude tomar. Eu só espero que consiga separar amizade de trabalho, porque a vontade que tenho é de descontar nele.


Clínica Mens Sana in Corpore Sano – Maryland - 4:19 P.M.

O Dr. Patterson sentado em sua cadeira. A secretária abre a porta. Scully entra, sem jeito.

SCULLY: - Desculpe... Acho que sou sua paciente mais chata.

DR. PATTERSON: - (SORRI) Dana, estou aqui para ajudá-la. Eu mesmo disse que quando precisar de apoio, basta me ligar, independente se for ou não dia da sua sessão. Sempre tenho lugar pra você na minha agenda.

Scully aproxima-se. Patterson sinaliza gentilmente para ela se sentar.

SCULLY: - ... Tem tempo realmente pra me ouvir?

DR. PATTERSON: - Todo o tempo que quiser. Meu próximo paciente cancelou hoje.

SCULLY: - Será que... As coisas que eu lhe disse durante a hipnose... Eram reais?

DR. PATTERSON: - Está questionando minha competência, Dana? Você é médica e sabe que temos procedimentos éticos a serem cumpridos!

SCULLY: - Não, é que... (SUSPIRA) Preciso de algum calmante. Não consigo dormir desde que fizemos aquela hipnose regressiva.

DR. PATTERSON: - ... Alguma coisa aconteceu?

SCULLY: - Não consigo olhar pro meu marido. Medo. Culpa de tê-lo traído. As memórias reprimidas estão chegando e a cada dia descubro coisas que me deixam arrasadas. E não consigo parar de pensar em Alex. E... Eu não consigo mais viver desse jeito! Eu não deveria ter feito hipnose...

DR. PATTERSON: - Reprimir seus sentimentos significa apenas retardar os problemas. Precisa enfrentá-los, você tem força e coragem pra isso. Você sempre teve.

SCULLY: - Eu tinha. Sabe o quanto estou sensível a tudo... Sinto que uma nuvem paira sobre mim, me deixa desanimada, triste... É como se algo ruim estivesse sempre do meu lado. Não acredito nessas coisas, sabe disso. Mas parece que tem alguém sempre comigo, me sussurrando coisas... Acho que estou tendo alucinações. Minha cabeça dói muito quando quero pensar se estou errada nas minhas atitudes...

DR. PATTERSON: - Dana, vamos falar seriamente. Vou receitar alguns calmantes pra você dormir. Mas não serão os remédios que resolverão seus problemas, já lhe falei isso. Você precisa é expurgar de sua vida os problemas reais e não os imaginários.

SCULLY: - ...

DR. PATTERSON: - Se permita voar. Se permita sentir e viver. Você é humana, portanto é falha. E se vive numa relação violenta tanto física, emocional, profissional... Você não precisa mais disso. Tem um homem apaixonado por você, que respeita você. Entregue-se a esse novo amor.

SCULLY: - Parece que... A hipnose me fez abrir certas portas perceptivas que eu havia fechado. Estou começando a ver verdades que eu não via. E estou com medo delas.

DR. PATTERSON: - Como o quê, por exemplo?

SCULLY: - Ontem à noite, sem dormir, comecei a refletir até que ponto ter tido outro filho com Mulder não foi um erro.

DR. PATTERSON: - Acha errado pensar isso? Sabe que sua filha é diferente por culpa de Mulder. Se a tivesse tido com outro homem, ela seria uma criança normal. E você mesma tem agora a consciência de que a anomalia provém de Mulder, afinal você é médica. Sabe que seus genes não são afetados por anomalias. E pode deduzir que não sabe o que esperar de sua filha. Deve ser assustador pra você, não? Não saber o que esperar da criança, quanto mais da adulta que se tornará.

SCULLY: - ... Eu... Eu tenho medo dela... E não estou gostando de ter medo da minha própria filha. Sinto como se eu tivesse insistido num erro, sabe? E-eu não podia ser mãe. Talvez porque não era pra ser mesmo, mas fui contra tudo, forcei a natureza, numa obsessão e isso pode ser agora o preço que tenho que pagar por minha teimosia.

DR. PATTERSON: - E não tem medo de Mulder?

SCULLY: - ... E-eu não sei... Ele me causa medo algumas vezes...

DR. PATTERSON: - Entende o que quero dizer? Alex lhe é a escapatória de um mundo louco onde você está inserida. Ele é um humano e você tem certeza disso. Sente-se atraída pela possibilidade de um homem normal, comum a todos, genes normais. Já não tem essa certeza em relação a Mulder. Nunca sabe o que esperar dele e de sua filha.

SCULLY: - ... Eu... Eu não sei mais o que esperar de mim. Estou confusa. Desanimada. Cansada.

DR. PATTERSON: - Não contou isto a Mulder, não é?

SCULLY: - Ele me mataria.

DR. PATTERSON: -Com certeza mataria. E pensou em conversar com Alex sobre o que sente? Apenas dizer o que sente, sem tocar no assunto da noite que tiveram juntos. Deveria falar com ele, desabafar. Assim poderia chegar a uma conclusão, Dana. Sei que veio até aqui para se curar, achando que o problema era você. Agora conseguiu ver que o problema não é você. É o universo onde está inserida. É a sua família. Você queria salvar sua família de você, Dana. Entretanto, é você quem precisa ser salva deles. Pense em você. Você sempre pensou em Mulder. Pense em você. Mulder nunca cede nada a você. Sempre ele é a prioridade. Hora de reverter isso, Dana. Busque o que é melhor pra você. Nem sempre é fácil, envolve muito, mas você tem que lutar pra ser feliz.

SCULLY: - ... Estou... Com nojo de Mulder. Uma raiva, uma coisa estranha dentro de mim... Não posso explicar isso...

DR. PATTERSON: - Você falou da abdução, da perda da sua irmã, das tantas vezes que virou alvo de pessoas má intencionadas por causa de Mulder... Dana, você não é mulher pra ter uma vida dessas. Você é uma profissional inteligente, merecia algo mais do que um cargo de agente num porão. Mas quem te deixa presa lá? Quem te mantém sob as rédeas dele? Olha o que se tornou sua vida. Reflita sobre isso. Deveria estar jantando fora todos os dias com um homem que te desse o melhor que a vida pode oferecer. Entretanto, está comendo pizza congelada com um sujeito que faz você sair do conforto da sua casa pra viver em torno do mundinho psicótico que ele criou. Você não é doente. Ele é doente e está deixando você doente.

SCULLY: - ...

DR. PATTERSON: - Mulder é um psicopata e você sabe disso. Ele sofre de psicose por causa da sua obsessão pelo oculto, causada por uma busca pela irmã, reflexo de uma infância traumática e completamente perturbada. Mulder é filho de um bêbado desequilibrado e sem caráter. De uma mulher doente. Ele está fazendo com você o que o pai dele fez com a mãe dele. Está afundando sua vida com a vida negra dele. Lembra-se do que falamos aquele outro dia. Você se recordou de coisas que seu subconsciente guardava a sete chaves, tudo por sua obsessão cega por Mulder. Lembra-se, não? Acho que não se esqueceria de um fato como aquele. Force suas lembranças, Dana. Não as reprima mais.

SCULLY: - O estranho disso é que eu me lembro agora, mas não lembrava antes da hipnose.

DR. PATTERSON: - Porque a hipnose abriu sua mente para revelar as coisas que você bloqueava. Como médica sabe que a mente do ser humano é um mistério. Portanto não se culpe de sentir nojo de Mulder. Não se culpe dos seus sentimentos, Dana. Pare com essa culpa que não existe, todo o ser humano tem direito de sentir. Nenhuma mulher que se respeite continuaria a gostar de um canalha como Mulder. Porque homem que bate em mulher é um canalha. E se ele bateu algumas vezes em você, acho que quem precisa de remédios é ele.


5:16 P.M.

[Som: Unbreak my Heart - Toni Braxton]

Chuva fina.

Scully caminha pela calçada. Cachecol, mãos nos bolsos do sobretudo, olhar distante, cansado. O azul dos olhos reflete algumas lágrimas que se formam.

Don't leave me in all this pain. Don't leave me out in the rain. Come back and bring back that smile. Come and take these tears away.

(Não me deixe com toda esta dor. Não me abandone na chuva. Volte atrás e traga novamente aquele sorriso. Venha e tome estas lágrimas)


Cabelos que voam com a brisa. Suavemente ela pisca seus olhos, como se estivesse perdida em divagações.

I need your arms to hold me now. Life is so unkind. Bring back those nights when I held you beside me

(Eu preciso dos seus braços para me segurar agora. A vida é tão indelicada. Traga de volta essas noites quando eu o abracei ao meu lado)


Scully derruba algumas lágrimas. Morde os lábios.

Unbreak my heart. Say you love me again. Undo this hurt that you caused when you walked out that door and walked out of my life. Uncry these tears I've cried so many nights. Unbreak my heart... My heart

(Não parta meu coração. Diga você me ama novamente. Desfaz esta dor que você causou quando você saiu por aquela porta e caminhou para fora da minha vida. Não chore estas lágrimas. Eu chorei tantas noites. Não parta meu coração... Meu coração)


Scully para debaixo do toldo de uma loja. Puxa o celular do bolso. Aperta uma tecla.

SCULLY: - Mãe... Eu... Eu preciso que fique com Victoria esta noite pra mim... Não, nada, estou bem... Preciso ter algumas conversas com Mulder e... Eu a largo em sua casa.

Scully desliga. Vira-se para a vitrine. É uma loja de noivas. Scully observa o vestido de noiva exposto na vitrine. O bolo com o casal de bonequinhos sobre ele. Scully sorri, admirando. Passa a mão na vitrine.

SCULLY: -Coisas normais... Pessoas normais... (DERRUBA LÁGRIMAS) Era apenas o que eu queria...

Scully perde os olhos na vitrine, envolta em lembranças.

KRYCEK (OFF): - Tem mãos lindas, sabia? Uma pele suave, sedosa... Por que não usa uma aliança?

SCULLY (OFF): - Tenho este anel.

KRYCEK (OFF): - Mas deveria ter uma aliança também. Se você fosse minha mulher eu te daria uma aliança.

SCULLY (OFF): - (RINDO) Por quê?

KRYCEK (OFF): - Pra mostrar que eu e você somos unidos.

SCULLY (OFF): - Você não me parece o tipo de homem que usaria aliança e que entraria numa igreja usando fraque.

KRYCEK (OFF): - (RINDO) Esqueceu da cartola.

SCULLY (OFF): - (RINDO) Não fala sério!

KRYCEK (OFF): - Claro que falo sério. Entrar de braços dados numa igreja com você não seria nenhuma ameaça as minhas convicções religiosas, que por sinal não tenho.

SCULLY (OFF): - Mas se não acredita em religiões, por que o faria? Afinal é um significado religioso...

KRYCEK (OFF): - Não é apenas um significado religioso. Isso é uma celebração de um significado de amor. Um rito humano. Por que eu não o faria por amor? Se eu pudesse entraria mil vezes numa igreja, mesmo não acreditando em Deus. Mas eu entraria por acreditar em nós dois.

Scully fecha os olhos. Segue seu caminho, na chuva, derrubando lágrimas.


BLOCO 2:

Memorial de Lincoln – 7:49 P.M.

Barbara Wallace sentada no banco, em frente ao lago. Esfrega as mãos com frio. Luvas, cachecol, sobretudo, tranças nos cabelos e um gorro. Observa todos os lados, como quem procura alguém. Percebe o homem parado nas escadarias do monumento. Ele rapidamente se esconde atrás de uma coluna. Barbara fica intrigada. Ameaça se levantar.

KRYCEK: - Não faça isso. Estão seguindo você. Suspeitam de algo.

Barbara fica sentada, sem olhar pra trás. Krycek se aproxima por trás dela, não ficando no campo de visão do homem nas escadas.

BARBARA: - Governo?

KRYCEK: - Sindicato das Sombras. Mais do que o governo. Eu avisei que esse seria o preço, caso ajudasse a mim e Mulder. Precisa tomar cuidado.

BARBARA: - Ok, Mr. Informante, Mancha Negra, sei lá qual seu nome. Por sua causa e do agente Mulder, fui demitida da televisão e estou tendo que me contentar com uma redação de jornal. O que tem pra mim? Por que me chamou? A notícia vale uma chamada na edição do jornal da noite?

KRYCEK: - Preciso de um favor.

Barbara ameaça se virar.

KRYCEK: - Não quero que me veja. Já disse que sou o menos importante.

BARBARA: - Puxa vida! Se estou ajudando você, por que não posso nem ver quem estou ajudando? Você tem alguma deformação no rosto ou é muito feio? Manca de uma perna? É velho e tem baixa estima? Não gosto de mistérios. Mulheres são curiosas.

KRYCEK: - Que bom que é curiosa. Curiosidade é imprescindível para pessoas que buscam informações. Quero saber da entrevista que fez com Mr. Alberthi. Não ouvi a parte final da fita. Estava desmagnetizada.

BARBARA: - Ele é apenas um cineasta e não acredito que empresários da arte ajudem o governo a eliminar pessoas.

KRYCEK: - Quero saber o que conversaram. Ou vou achar que você também trabalha pra eles.

BARBARA: - (INDIGNADA/ AMEAÇA SE VIRAR) Está duvidando da minha integridade?

KRYCEK: - Não se vire... Não pense que por ser amiga de Byers que eu não chequei sua ficha.

BARBARA: - Meu passado me condena?

KRYCEK: - Não acho que ser presa por dar uma surra de guarda-chuva, numa amiga que tomou seu namorado, seja um delito muito grande.

BARBARA: - (RI) É, eu devia é ter dado uma surra nele. Tá legal, o que quer de mim, Mr. Mistério?

KRYCEK: - O que falaram ao final da entrevista?

BARBARA: - (TENTANDO OLHAR PRA ELE) Nós falamos sobre a profissão dele. Do início ao fim.

KRYCEK: - Não se vire!

BARBARA: - (IRRITADA) Droga, não dá pra conversar assim!

KRYCEK: - É melhor pra você que não saiba quem sou. Já disse, sou um cara morto pra eles. Não quero envolver você demais nisso, pode correr perigo de vida.

BARBARA: - Tá legal, 'Dead Man'. Mas eu já sou grandinha e estou envolvida há muito tempo e tem gente me seguindo... Aconteceu uma coisa esquisita lá.

KRYCEK: - Que coisa esquisita?

BARBARA: - Ultimamente não tenho dormido direito com tantas matérias pra fazer, então acho que meu cérebro está cansado. É como justifico não me lembrar de nada da entrevista.

KRYCEK: - Como assim?

BARBARA: - Eu não lembro o que conversamos. Me lembro de ter perguntado sobre a infância dele, seu pais e depois... Parece que dormi. Me lembro apenas quando cheguei à redação do jornal. Foi como se eu tivesse saído de lá em transe.

KRYCEK: - Houve um assassinato em Belle, Louisiana, e estou desconfiado da presença deste sujeito. Acho que é um satanista.

BARBARA: - Ah, tá legal! Agora você virou aqueles profetas que dizem que o Anti-Cristo está sentado no poder político desta nação.

KRYCEK: - E por que não estaria?

BARBARA: - E por que estaria? Não acha que o diabo tem coisas mais importantes pra fazer como possuir pessoas, nos tentar a cometer pecados ou simplesmente assustar criancinhas?

KRYCEK: - Eu não sou um crente. Não tenho religião alguma e não acredito em diabo, senhorita Wallace. Pra mim, o demônio nada mais é do que um extraterrestre que foi contra o cientista louco que nos criou e foi jogado aqui como pirraça.

BARBARA: - Hum, nunca havia visto por esse ângulo... 'O demônio espacial'... Não parece um filme trash de terror?

KRYCEK: - Você não sabe quantas raças existem. E nem todas são materiais como nós, possuem várias formas e podem estar aqui no mesmo espaço, mas em tempo diferente. Nada é mágica. Tudo é ciência. Qualquer coisa considerada fenômeno para nós é completamente científica, só não temos o conhecimento e a prova. Até mesmo as possessões demoníacas são científicas. Os governos já fizeram experiências com isso.

BARBARA: - Não fala sério!

KRYCEK: - Selecionaram pessoas consideradas pela igreja como possuídase tentaram isolar a entidade, sem sucesso algum. Queriam respostas, como se eles as fossem dar. Queriam capturar e treinar para usá-los da forma como conviesse, afinal demôniospodem entrar em seu corpo e tomá-lo e sair sem deixar rastros.

BARBARA: - Ah, sim. Certo. Errei. São 'Invasores de Corpos', com Donald Sutherland, e eu já vi esse filme. Mas confesso que não vi pepinos gigantes clonando pessoas...

KRYCEK: - Se acha que sou doido, terminamos por aqui.

BARBARA: - Não estou dizendo que é doido. Sou jornalista, já vi e ouvi muita coisa esquisita.

KRYCEK: - Mas por não ter provas, é apenas um mito. Tudo funciona assim, senhorita Wallace. Sem provas, você é louco. E a loucura de hoje é a ciência incontestável do amanhã.

BARBARA: - O que vai fazer em relação a Alberthi?

KRYCEK: - Quero que me consiga qualquer coisa dele nos arquivos do jornal. Desde quando ele surgiu na imprensa. Quero fotos. Quero ver a cara do sujeito.

BARBARA: - Ele é bonito, cabelos grisalhos, aparenta uns 40 e poucos anos... Acho ele parecido com o Richard Gere. Adoraria ser a linda mulher dele!

Krycek ri.

BARBARA: - Não ria não. Aliás, quando ele sorri, minha nossa, fica mais lindo ainda. Quando ele passa, as mulheres todas se viram, incrédulas. E acredite, até homens! Ele cheira bem, veste roupas de grife, tem postura, educação e requinte... É um cavalheiro. É o Richard Gere do filme mesmo!

KRYCEK: - Tá legal, só não se apaixone pelo cara ou vai estragar a investigação. Encontro você aqui em uma semana, no mesmo horário. Traga-me o que puder.

BARBARA: - Engraçado. Você me acusa de curiosa, mas quer ver o rosto de Alberthi. E nem me deixa ver o seu.

Krycek sai se ocultando pelas árvores. Barbara vira-se rapidamente, mas só vê a silhueta. Suspira indignada.


Residência dos Mulder - 8:11 P.M.

Scully deitada na cama. Observa o relógio. Vira-se de um lado pra outro, insone. O telefone toca.

SCULLY: - Alô? ... Ainda na Louisiana? ... Tá, eu entendo, o trabalho... Quer que eu verifique alguma coisa pra você? ... Certo, Mulder... Me cuidarei.

Scully desliga o telefone. Ajeita o edredom por sobre o corpo. Perde os olhos pro travesseiro ao lado.

SCULLY (OFF): - Melhor que ele tenha ficado preso em Belle... Não sei como seria essa noite... Eu acabaria contando pra ele... Deus, o que está havendo comigo? Eu não sou isso. Por que tenho agido feito uma tola insensata? Eu não consigo dormir. Esses remédios parecem que me deixam acordada e ficando acordada eu nem sei mais o que é realidade, o que é sonho... Minha cabeça não para de pensar nessas coisas todas que estão acontecendo...

Scully fecha os olhos.


Condado de Belle – Louisiana - 10:28 P.M.

A chuva cai fortemente. Mulder atolado na lama, no meio da floresta, com uma picareta nas mãos, cavando. Donald ao lado dele, ensopado de chuva, com a pá.

MULDER: - Me diga sinceramente: esta não é uma maneira imbecil de se ganhar a vida?

DONALD: - Prefiro essa maneira imbecil a estar rezando missas aos domingos...

MULDER: - Do que me adianta reclamar se não fico longe disso. Já senti na pele o que acontece se me afasto do FBI. E se por acaso eu resolvesse largar tudo, pegar minha mulher e filha pra dar o fora daqui?

DONALD: - Não é questão de escolha Mulder. Você é a chave. Você tem uma sina a ser seguida e sabe disso. O dia em que você morrer eu nem quero imaginar o que será das pessoas que dependem de você e Scully para conseguirem respostas sobre seus casos arquivados ou não resolvidos. Com certeza, fecharão os Arquivos X.

MULDER: - Meu pai me disse que... (SECA A CHUVA DO ROSTO) O dia em que eu me afastar, ele cai fora também...

DONALD: - Fizeram as pazes?

MULDER: - Não. Digamos que entendemos um ao outro. Mas certas coisas estão acima do meu perdão. E não quero também passar o resto da vida remoendo mágoas. A vida é curta demais pra isso. Preciso ajustar as contas com a minha irmã. É a minha única pendência agora. Errei com ela. Admito que errei muito. Ela me aprontou, mas eu posso entendê-la.

DONALD: - Está amadurecendo, Mulder? O que Scully te fez?

MULDER: - (SORRI) Me tornou um ser humano. E me fez ver que a vida não era o casulo que eu pensava... Adoro aquela mulher! Ela me mostra caminhos que eu não conseguia ver. Ela abranda minha raiva. Ela consegue me fazer ficar leve, me sentir menos sinistro... Prometi que vamos pra Roma, nós dois, fazermos uma viagem romântica. Não quero contar nada ainda, mas tenho uma surpresa pra ela.

DONALD: - E pode contar pra mim?

MULDER: - Ela pensa que eu não sei das coisas. O sonho dela é ir pro altar. Vou avisar um mês antes pra ela preparar tudo como quer e depois vamos pra Roma. Já estou com as passagens compradas. E acho que Veneza é a cidade ideal para casar e ter uma lua de mel.

DONALD: - (SORRI) Com certeza você vai satisfazer o sonho de uma garota suburbana como Scully.

MULDER: - Se fosse por minha vontade eu levaria ela pra Índia e nos casaríamos numa cerimônia budista, com direito a incensos, perfumes e flores, ao som de Woman, do Lennon, ou My Sweet Lord, do George Harrison. Acho muito mais espiritual do que essa coisa de Igreja Católica, marcha nupcial e vestido branco. Coisa mais comum e sem graça isso. Não combina com nós dois, com o significado que nossa relação tem.

DONALD: - Sabe que Scully é assim, Mulder. Ela não vai mudar.

MULDER: - É... E casamento é mais importante pras mulheres do que pros homens... Que seja do gosto dela... (RINDO) Quem sabe quando a minha filha se casar aceite a minha sugestão?

DONALD: - (RINDO) ...

MULDER: - ... Cavar num matagal de madrugada é coisa normal pra Mulder, o Estranho. Mas pra você?

DONALD: - Minha mãe sempre diz que as más companhias influenciam uma pessoa... Eis me aqui. Nunca despreze o faro de um cão de caça.

MULDER: - Já vi isso acontecer várias vezes. Ligações de caçadores dizendo que o cachorro estava fuçando a terra. Não tem erro... Mas detesto procurar covas clandestinas.

DONALD: - Não detestava quando estava na Crimes Violentos.

MULDER: - (DEBOCHADO) Agora fui promovido. Eu só trabalho com coisas mais sujas, como gosmas alienígenas e sangue verde... Queria um café quente... Melhor, queria estar em casa com a minha garota. Deitado, assistindo TV, comendo pipoca e roçando os pés...

DONALD: -(RINDO) Quem te viu, Mulder!

MULDER: - Se tivesse duas pessoas lindas em sua vida, não iria querer estar com elas o tempo todo?

DONALD: - Por que Scully não está aqui?

MULDER: - Scully está um pouco estressada. Quero poupá-a desse caso sinistro, ela já tá nervosa demais.

Os dois se entreolham. Olham pra lama.

DONALD: - Não sei se vou rir, ou vou chorar. Mas encontramos algo.

Os dois olham pra terra molhada. Close das ossadas que surgem.


Residência dos Mulder – Virgínia - 10:36 P.M.

[Som: Whitney Houston – Unbreak my Heart]

Scully, sentada num sofá, observa a chuva cair pela janela. Abraça-se, derrubando lágrimas. Olha para o telefone. Olha para a foto dela e de Mulder na estante. O choro aumenta. Ela reclina-se sobre o encosto do sofá e chora convulsivamente.


Delegacia de Belle - Louisiana - 10:56 P.M.

[Som: Era – Enae Volare Mezzo]

O guarda dorme sentado na cadeira, com os pés sobre a mesa e uma revista de mulher nua sobre o colo.

O ronco do guarda quebra o silêncio do lugar.

Câmera se dirige para o corredor das celas, focando a cela de Melanie Carmichael.

[Som de sussurros]

Melanie, com os olhos inchados de chorar, termina de atar o lençol à grade do beliche superior. Cede as pernas, estrangulando-se.

Dirige o foco para a janela coberta de moscas.


Esconderijo de Alex Krycek - 11:58 P.M.

[Som: Whitney Houston – Unbreak My Heart]

Krycek abre a porta. Scully parada na chuva, abraçada ao corpo, completamente molhada, olha pra ele com os olhos em lágrimas. Krycek olha pra ela sem entender nada.

KRYCEK: -(PREOCUPADO) Aconteceu alguma coisa?

Scully entra. Krycek fecha a porta. Olha pra ela, estranhando. Scully esfrega os braços. A camisa transparente revela seus mamilos endurecidos de frio. Krycek vira o rosto, pra não olhar.

KRYCEK: - Quer uma toalha?

SCULLY: - ... Não.

Krycek pega a jaqueta de couro da cadeira. Aproxima-se por trás de Scully e coloca a jaqueta sobre as costas dela. Ela treme ao toque, fecha os olhos, sentido as mãos dele. Krycek se afasta.

KRYCEK: - Quer um chá? ... Não, não tenho chá... Serve alguma coisa com álcool? Algum energético? Sei, você é médica, não me dê sermões. Juro que não misturo essas coisas.

Scully distribui olhares pelo lugar.

SCULLY: - ... Lembro de cada detalhe da sua casa... Como poderia minha mente estar me pregando uma peça? Como eu poderia ter apenas inventado isso? Não... Eu estou perdida, completamente perturbada e o ódio que tenho é por estar sofrendo agora o que poderia ter evitado se tivesse me dado ao direito de cair ao invés de segurar Mulder quando perdi meu filho!

KRYCEK: -(CULPADO) Quer conversar sobre isso?

SCULLY: - Sim, lembro de tudo em sua casa...

KRYCEK: - (SORRI) Casa? Tá legal, Scully. Não precisa ser tão gentil e chamar esse depósito velho de casa. O que aconteceu pra vir até aqui abaixo de chuva? Mulder se meteu em mais encrenca pra variar? A Scullyzinha está bem?

Scully olha pra Krycek. Krycek olha pra ela. Silêncio. Krycek desvia o olhar, embaraçado. Scully aproxima-se. Envolve as mãos nos cabelos dele e o puxa. Leva a língua à orelha dele, lambendo-lhe o brinco. Krycek a agarra pelos braços. Os dois se olham nos olhos. Scully aproxima os lábios, abrindo-os, de olhos fechados. Krycek fecha os olhos e leva a língua aos lábios dela, faminto, tocando-lhe a boca entre os dentes, mas se afasta. Ergue as mãos. Vai recuando de costas.

KRYCEK: - (OFEGANTE) Não... Você tá de sacanagem comigo, é armação! Isso não tá certo. (RI FORA DE SI) Paremos por aqui. Eu disse a você aquele dia pra não olhar pra mim e pensar nas coisas que estava pensando. Eu implorei pra que não fizesse isso.

Scully fecha os olhos, levando a mão à blusa, abrindo os primeiros botões.

SCULLY: - ... Faz amor comigo.

Krycek olha incrédulo pra ela. Scully segura as lágrimas e se abraça nele com força, como quem pede carinho. Krycek não a abraça. Fica assustado, sem reação.

SCULLY: - (CHORANDO/ DESESPERADA) Me abraça... E-eu... Eu não posso lutar contra isso... Eu amo você... Eu amo!

Krycek, incrédulo, engole em seco, como quem toma um tiro que não esperava. Continua parado. Scully se afasta e olha pra ele. Krycek fecha os olhos. Põe as mãos sobre o rosto.

KRYCEK: - Sai daqui, Scully. Vai embora, me deixa sozinho.

SCULLY: - ... Não me manda embora... E-eu preciso de você.

KRYCEK: - (TIRA AS MÃOS DO ROSTO/ GRITA FURIOSO) Sai daqui!

Krycek a agarra pelo braço violentamente e abre a porta. Scully olha incrédula pra ele.

KRYCEK: - Vai embora!!!!!!!!! Vai embora e nunca mais volte!

SCULLY: -(MAGOADA) Pensa que é fácil pra mim? É isso o que pensa?

KRYCEK: -Droga!

Krycek anda de um lado pra outro, nervoso.

KRYCEK: - Isso não está acontecendo. Isso não pode ser real... Não... Não pode. É um sonho. Delírio.

SCULLY: -Mas é real. Eu não quero admitir, mas...

KRYCEK: -Scully, vamos ser sensatos como dois adultos, ok? Não tem amor aqui. Pode ter atração sexual, paixão, curiosidade, fetiche, eu sei lá! Eu sei que estou muito solitário e você deve ter brigado com o Mulder. Então me aparece aqui a essa hora querendo sexo comigo e a ideia até me atrai, porque você é extremamente atraente, eu tô na seca e não vou negar que você me excita sendo tão espontânea. Mas sexo está fora de cogitação entre nós dois, ok? Sei que aquele sonho esquisito, bilocação, projeção, sei lá como chamar aquilo... Nos deixou curiosos um com o outro. Mas esqueça disso, eu já disse. Não vale a pena!

SCULLY: - Ok, vamos ser sensatos. Eu quero e você quer. E Mulder não precisa saber. Ambos estamos carentes e...

KRYCEK: - (CORTANTE) Onde está Mulder?

SCULLY: - (REVOLTADA) Atrás de seus demônios em Belle... Chegará tarde e não saberá de nada e...

KRYCEK: - Ele saberá, Scully. Mulder sempre sabe de tudo! Eu sei que ele sabe a mulher atraente que ele tem, e sabe que eu também vejo essa mulher atraente, mas ele apenas finge não ver, me dando voto de confiança e eu não quero estragar tudo entre nós.

SCULLY: -Alex...

KRYCEK: - (TENSO) Scully, vá embora! Esqueça-se disso. Me deixe aqui sozinho, nutrindo um desejo platônico por você que me sentirei mais feliz. Não é justo. Mesmo quando o que eu mais queria era ferrar Mulder, nem mesmo usei isto contra ele. Seria o golpe mais baixo e vil que eu poderia dar em um homem! Não, Scully. Isso não tem nome. Eu posso ser canalha, mas isso não... E eu tento todos os dias esquecer daquilo que houve entre nós. E vou continuar relutando sempre até matar isso dentro de mim. Não é amor. É paixão. Não vale uma desgraça tamanha.

SCULLY: - ...

KRYCEK: - Como descobriu o que eu sentia por você?

SCULLY: - ... Por tudo. Pelas coisas que disse pra mim, em Belle.

KRYCEK: - Eu sou um idiota mesmo!

Krycek passa as mãos no rosto, rindo de si mesmo, nervoso.

KRYCEK: - Eu jurei que não deixaria transparecer, que morreria com isso...

Scully o observa, olhar carente. Ele anda de um lado pra outro, nervoso. Empurra os cabelos pra trás com as mãos.

KRYCEK: - Scully, eu... Eu ando confuso, sabe? Achei que só tinha mudado minha vida pela raiva que eu fiquei por ter perdido Marita e o meu filho... Por querer vingança daqueles caras eu me aliei ao Mulder... Mas eu nem sei de mais nada. Penso se não mudei radicalmente tudo em minha vida também por sentir uma paixão por você! Eu fiquei perturbado desde aquele sonho maldito! Fiquei tentado a ter uma vida decente, uma vida normal. Entendi que eu poderia mudar! Mas estava ali, estampado na minha cara e eu... A única coisa que eu podia fazer era me redimir, proteger você, sua filha e até mesmo Mulder pra pedir perdão por todo o mal que eu causei a vocês dois... Mal que só enxerguei quando fui vítima desse mesmo mal. E agora, você chega no meio da noite, no meio da chuva... (PERTURBADO) E me propõe algo que eu sonhei ouvir de você? Mas que eu não posso ouvir??? Entende? Entende a minha angústia? Scully, eu sou homem. Você não sabe o que é resistir a tentação diante dos seus olhos!

Scully abaixa a cabeça.

KRYCEK: - Me perdoa, Scully. Eu juro que a morte da sua irmã foi acidental. Eu juro que fui até lá a mando deles pra matar você, mas eu também juro que não ia fazer isso, eu já desconfiava deles mesmo não sabendo no que estava metido ainda. O idiota que estava comigo atirou em sua irmã. Meu Deus, você algum dia vai poder me perdoar?

SCULLY: - ... Eu te perdoo, Alex.

KRYCEK: - Vai embora daqui e me deixa sozinho! (IMPLORANDO) Se você acha que isso é uma boa ideia, que saia do sonho pra realidade, vai embora, não olhe pra trás e se esqueça de mim. Você está apenas confusa. Você não me ama. Você ama o Mulder e será dele por toda a eternidade, e sinceramente eu acho lindo o que vocês têm. Não vou me colocar no meio de vocês, não tenho direito algum de estragar isso! É apenas tesão, Scully. Isso acontece, não se culpe. Só não jogue fora um relacionamento baseado em confiança mútua por causa de sexo. Não vale a pena, por melhor que seja uma transa. Não se trocam anos de amor por minutos de prazer que se acabam depois do gozo, restando apenas a culpa e o vazio no peito. Eu sei do que falo. Eu fiz isso muitas vezes com Marita. E hoje eu vivo aqui amargurando a minha culpa pela morte dela, por não ter feito diferente, por não ter assumido meu relacionamento com ela, por não ter dito mais vezes que a amava. Por não ter sido o homem que ela precisava, mas um moleque egoísta, aventureiro e irresponsável.

Scully olha pra ele. Krycek passa a mão no rosto dela.

KRYCEK: - Vai pra casa, Scully. Vai pra casa esperar seu marido. Tudo o que um homem deseja é chegar em casa depois de um trabalho ferrado como esse e ter um abraço esperando por ele. Você é apenas um doce sonho. Uma recordação de carinho, como a salvadora da minha vida. Mas você não é mulher pra um rato como eu, embora eu tenha ficado lisonjeado. Você é pedaço de Mulder. E mesmo sabendo disso, eu me sinto feliz. Por vocês dois. Torço por vocês dois, acho vocês um casal perfeito e não quero estragar isso. Então não me diz essas coisas pra me confundir. Estou matando essa obsessão aqui dentro aos poucos. E Mulder é meu amigo, não quero magoá-lo. Mas valeu termos falado sobre isso. Confesso que me sinto mais aliviado.

SCULLY: - ...

KRYCEK: - (SUSPIRA/ ALIVIADO) Tirei um peso de dentro de mim. Agora vai. Siga sua vida, seguirei a minha. Pelo menos agora, realmente, podemos nos olhar sem nenhuma mágoa ou culpa. Tudo esclarecido, sigamos nossos caminhos. Aquilo passou. Foi uma coisa diabólica que pelo menos me serviu para repensar minha vida.

SCULLY: - Eu ainda me sinto culpada por aquela noite.

KRYCEK: - Eu disse pra não se culpar. Não foi nossa culpa. Não deveria ter acontecido.

SCULLY: - ... Eu não quero perder você. Eu não posso. Eu não sei porque estou aqui, mas eu não posso perder você!

KRYCEK: - Scully, foi uma noite irreal. Uma coisa louca e paranormal. Não tem representação alguma!

SCULLY: - Como assim? Está falando do quê?

KRYCEK: - Do Incubus. Do que mais eu falaria?

SCULLY: - Estou falando daquela nossa outra noite.

KRYCEK: - (SEM ENTENDER) Que outra noite?

SCULLY: - ... Entendo... (REVOLTADA) Agora entendi tudo... E a tola aqui achando que... Certo. Só significou pra mim, pra você não.

KRYCEK: - Scully, de que diabos está falando?

SCULLY: - (AOS GRITOS) Daquela noite! Aquela em que cheguei aqui! Tivemos tantas noites assim, juntos, pra você se esquecer?

KRYCEK: - ????

SCULLY: - Canalha! Eu fui só uma brincadeira, não é? Uma maneira de magoar Mulder é isso? Não passei de mais uma que você levou pra cama?

KRYCEK: - Scully, eu não estou entendendo nada! Nunca tivemos uma noite aqui! Nunca transamos realmente a não ser por um sonho compartilhado! Nunca tivemos nada real!

Scully acerta um tapa na cara de Krycek. Krycek olha incrédulo pra ela. Scully sai chorando, batendo a porta. Krycek fica parado, fora de si, tentando entender o que está havendo.


Condado de Belle – Louisiana – 12:48 A.M.

Mulder debaixo de uma árvore, na chuva. Policiais pelo local, cavando a área. O celular toca. Mulder atende.

MULDER: - Mulder... Aconteceu alguma coisa? Está de olho na Scully? (DESCONFIADO) Por que precisamos falar urgentemente? O que está me escondendo, rato? ... Eu não posso sair agora daqui. Encontramos algumas ossadas na propriedade de Brubacker. Estou voltando pra Washington amanhã.

Mulder desliga. Observa os policiais cavando. Aperta uma tecla no celular. Aguarda.

FROHIKE (OFF): - O que você quer?

MULDER: - Examinou a fita?

FROHIKE (OFF): - Não tem nada lá. Como eu disse, Alex Krycek está te enganando. Mas já que você não escuta mais os seus antigos amigos, então não me pergunte mais nada. Quando precisar de ajuda, ligue. Já estamos fazendo um kit de 'resgate Mulder da lama novamente'.

MULDER: - ... Eu pego essa fita depois.

FROHIKE (OFF): - Está na Louisiana?

MULDER: - Sim. As coisas estão ficando complicadas aqui.

FROHIKE (OFF): - E Scully?

MULDER: - Em casa. O rato a está vigiando.

FROHIKE (OFF): - Sabe que a melhor forma de virar um corno é deixando a mulher solta por aí, se atolando de trabalho e achar que isso nunca vai acontecer com você. E ainda por cima, colocar um 'amigo' pra vigiá-la? Você é tão tonto assim ou é impressão minha?

MULDER: - Não estou entendendo você, Frohike. Por que está dizendo essas coisas? Por que tem sido cruel comigo?

FROHIKE (OFF): - Porque estou preocupado com você. Vai se ferrar direitinho indo atrás daquele cara. Mas tudo bem, é sua vida, eu não tenho que me meter nisso.

MULDER: - Ainda bem que sabe que não tem que se meter na minha vida mesmo. O ruim dos amigos é quando eles acham que tem intimidade demais pra dizer o que você tem que fazer.

FROHIKE (OFF): - Tudo bem, Mulder. Continue confiando nele. Isso mesmo. Confie no seu amigo Krycek. Daqui a pouco ele leva tudo de você e até a sua mulher com ele.

Mulder desliga na cara de Frohike, irritado.


FBI – Gabinete do Diretor-Assistente – 6:47 P.M.

Skinner levanta-se da cadeira. Pega seu sobretudo e o veste. Mulder entra rapidamente.

MULDER: -As coisas complicaram em Belle, por isso me atrasei. Você não vai acreditar.

SKINNER: - O que houve?

MULDER: - Melanie Carmichael cometeu suicídio. Nenhum bilhete foi deixado.

SKINNER: - Alguém pode ter entrado na cela, talvez um guarda furioso pela circunstância hedionda do crime...

MULDER: - Não. Verificamos tudo, ela se matou.

SKINNER: - Bem... Agora não vamos arrancar mais nada dela.

MULDER: - E não é só isso. Através de uma denúncia de um cidadão de Belle, que estranhou seu cachorro ficar fuçando tanto o quintal do vizinho, encontramos um cadáver enterrado nas terras de Brubacker.

SKINNER: - Algum ritual envolvido?

MULDER: - Nenhum. O laudo diz que foi morto com pancadas na cabeça. Mais especificamente com pancadas desferidas por algum objeto pesado. Provavelmente uma estatueta.

SKINNER: - Brubacker colecionava arte... De quem eram os ossos?

MULDER: - Aí reside o inexplicável, Skinner. A necropsia revelou que as ossadas que encontramos eram de Brubacker. Estava morto há mais de um ano.

Skinner olha pra Mulder, incrédulo.

MULDER: - E se eu falei com ele há poucos dias... Ele não tem irmão gêmeo... Então quem era aquele sujeito igual a Brubacker? Quem era o cara com quem falei? Eu vi as fotos de Brubacker, era o cara com quem eu tinha falado! Voltei lá com o agente Mallet, mas não encontramos ninguém. E seja quem for, não saiu da cidade porque a polícia fechou as estradas!

SKINNER: - Não vai me falar sobre fantasmas, clones ou aliens mutantes...

MULDER: - Não tenho teorias Skinner. Lamento. Estou cansado, preciso pensar nisso... Vou pra casa ver como Scully está.

SKINNER: - Mulder... Sabe que me sinto responsável por vocês dois. Está tudo bem?

MULDER: - Entre eu e Scully? Claro! Por que não estaria?

Mulder sai da sala. Skinner perde o olhar num ponto de fuga.


Residência dos Mulder – 8:43 P.M.

Mulder entra no quarto com uma bandeja. Scully deitada na cama.

MULDER: - Ok, sopinha pra nossa doentinha...

SCULLY: - Não estou doente.

MULDER: - Hum, mas canja de galinha não faz mal a ninguém...

Mulder coloca a bandeja sobre ela. Scully começa a tomar a sopa.

MULDER: - Vou buscar Pinguinho. Tô com saudades dela.

SCULLY: - Mulder... Pedi pra mamãe ficar com ela por uns dias...

MULDER: - Como assim?

SCULLY: - E-eu... Eu preciso falar com você.

MULDER: - Mas e daí? Ela não pode estar aqui? Scully, eu quero minha filha comigo. Se você tá cansada, eu a levo pro FBI, mas eu a quero por perto. Confio na sua mãe, mas eu quero o meu neném aqui.

SCULLY: - Mulder, só hoje, por favor.

MULDER: - ... Tá. O que quer falar comigo?

Scully olha pra ele. Mulder lhe sorri. Scully desvia o olhar. Mulder a admira.

MULDER: - Então?

SCULLY: - ... Nada importante. Esquece. E-eu ia perguntar sobre o andamento do caso.

MULDER: - Só isso? E por que não quer Victoria aqui? (SORRI) Ah, tá certo... Eu entendi tudinho... Quer ficar sozinha comigo não é, sua menina malvada...

Scully entrega a bandeja.

SCULLY: - Vá comer alguma coisa e tomar um banho, Mulder.


BLOCO 3:

10:39 P.M.

Mulder sai de cima de Scully. Scully permanece olhando pro teto.

MULDER: - Já fizemos sexo ruim. Mas de todos, esse ganhou.

SCULLY: - ...

MULDER: - Podia pelo menos dizer no que está pensando, já que apenas o seu corpo está nessa cama?

SCULLY: - ... Nada, estou com dor de cabeça.

MULDER: - Por que não me disse? Scully, sempre que você não quer você fala.

SCULLY: - É e-eu sei, mas é que eu pensei que daria e...

Mulder a beija no ombro.

MULDER: - A gente compensa essa desgraça de hoje em outro dia. Mas me faça o favor de fingir que essa noite nunca aconteceu. Pela nossa fama de quentes... Tudo deu errado. Eu juro pra você que vamos sair pra jantar neste final de semana. Vou desligar os telefones, vamos sair, jantar, dançar, fazer o que você quiser. Eu e você, sozinhos. E nada de assuntos de trabalho.

Scully olha pra ele.

SCULLY: - Quem sabe tentamos de novo mais tarde? Hum?

MULDER: - É, quem sabe? Pior do que essa não deve existir!

Scully vira-se de costas. Mulder a abraça. Scully se afasta dele.

MULDER: - O que foi?

SCULLY: - Nada, estou com calor... Me deixa dormir um pouco, Mulder.

Mulder sorri, olhando ternamente pra Scully.

MULDER: - Dorme, meu cheiro de canela. Você tá cansadinha.

Mulder a beija no rosto ternamente. Liga a TV. Scully suspira, de olhos fechados.


12:45 A.M.

Scully dormindo. Mulder assiste ao filme. Scully vira-se pra ele. Mulder permanece atento na TV. Scully, dormindo, começa a se esfregar em Mulder. Mulder olha pra ela, sorrindo.

MULDER: -Depois sou eu quem pensa em sexo até dormindo, Dana Scully...

Scully sorri, beijando o peito dele. Mulder desliga a TV. Toma os lábios dela, virando-se por cima do corpo de Scully. Ela envolve os braços nele, mãos que o exploram, afoita. Ele se ajeita sobre ela. Scully, dormindo com o rosto voltado para o travesseiro em gemidos baixinhos de êxtase. Mulder move-se suavemente contra ela. Dedos enlaçados. Mulder percorre o pescoço, o ombro dela, com seus lábios. Sorri feliz. Move-se com carinho contra ela. Ergue o corpo admirando-a. Continua a mover-se suavemente, fecha os olhos, sentindo-a.

MULDER: - Eu amo você...

SCULLY: - (SUSSURRA/ DORMINDO) Hum... Alex...

Mulder para. Olha incrédulo para Scully. Sai de cima dela. Fica deitado, tentando assimilar o que o atropelou, olhando pro teto atordoado.


12:48 A.M.

Chuva forte. Krycek sentado dentro da picape. Observa a casa de Mulder. Krycek põe as mãos no rosto, angustiado. Olha pra casa. Ameaça sair do carro, mas perde a coragem. Liga o carro e parte.

Corta pra Mulder, sentado na varanda, olhando pra chuva e derrubando lágrimas.


Pistoleiros Solitários - 4:30 A.M.

Langly, coçando o traseiro, vestido num pijama listrado com um número de presidiário abre a porta.

LANGLY: - Que foi? Emendou a noite?

Mulder entra, esfregando as mãos com luvas, tremendo de frio.

MULDER: - Preciso falar com Frohike.

LANGLY: - Antes de falar com ele, saiba que eu revisei aquela fita de novo. Foi desmagnetizada. Eu tenho uma teoria, mas ninguém por aqui acredita nela... Já vi essas coisas acontecerem com bandas como Pink Floyd...

MULDER: - Mude seu fornecedor. Ele está colocando estrume de vaca no meio da erva.

Frohike entra. Veste uma toquinha de pompom na ponta, pijamas e chinelos.

FROHIKE: - O que aconteceu?

Mulder olha pra Langly. Langly cruza os braços. Frohike olha pra Langly.

FROHIKE: - Quem sabe você volta pra cama?

LANGLY: - Mas perdi o sono...

FROHIKE: - Fora daqui! Não percebe que o assunto é entre adultos?

Langly emburra e vai pro quarto. Mulder puxa um banco e senta-se. Põe as mãos no rosto, soltando um suspiro desalentado. Frohike olha pra ele. Cruza os braços.

FROHIKE: - O que houve?

MULDER: - ... Me desculpe. Fui grosso com você no telefone, mas você ultimamente tem me jogado desaforos na cara que eu... Que eu acho que mereço ouvir mesmo.

FROHIKE: - A minha experiência me diz que coisas como a que você está deixando acontecer, não resultam bem. Eu já fui casado, eu sei do que estou falando. Mas isto é entre você e ela, não meta mais ninguém nisso. Principalmente alguém que você considerava um inimigo.

MULDER: - ... Acho que... Scully me traiu.

Byers entra, já fazendo uma cara assustada. Esfrega os olhos, se acordando.

FROHIKE: - (FECHA OS OLHOS) Nem vou perguntar com quem. Eu podia ver isso nos meus piores pesadelos. Eu e Skinner comentamos...

MULDER: - Ah, você e Skinner andam comentando coisas pelas minhas costas?

BYERS: - Mulder, você tem certeza do que acaba de dizer?

FROHIKE: - ... Não foi por falta de aviso.

Mulder se levanta.

MULDER: - (IRRITADO) Tá certo! Joga na minha cara agora! Vai! Joga!

BYERS: - Mulder, acalme-se...

MULDER: - (IRRITADO) Eu nem sei o que vim fazer aqui! Eu devia era pegar minha arma e matar aquele filho da mãe!

FROHIKE: - (INDIGNADO) Veio aqui procurar seus amigos de verdade, que você simplesmente ignorou dando razão pra um estranho! Foi isso que você veio fazer aqui! Agora se dane, Mulder! Não dou razão pra Scully ter feito isso, mas posso entender os motivos dela. Qualquer castigo é pouco pra você! Chifre é um deles!

Langly entra assustado.

FROHIKE: - A gente nunca conhece as pessoas mesmo. Essa é a verdade. Só vou dizer uma coisa pra você, Mulder: Se levantar um dedo contra a Scully, se ousar bater nela por causa disso, eu mesmo pego uma arma e mato você, entendeu?

Mulder sai, batendo a porta com raiva. Byers olha pra Frohike.

BYERS: - O que houve com você? Por que disse aquilo?

LANGLY: - Por que foi cruel com o cara? Ele tá precisando de ajuda.

FROHIKE: - Eu tenho meus motivos pra ser cruel com ele. E vocês dois, se querem ir atrás dele sintam-se livres pra isso. Mas eu nunca mais abro a porta pra vocês de novo se o fizerem!

Langly e Byers se entreolham. Byers olha pra Frohike o questionando.

BYERS: - Está terminando uma amizade de anos? É isso o que está fazendo? Você e Mulder estão brigados e vai colocar eu e Langly nessa confusão toda?

FROHIKE: - Exatamente. Se vocês querem ser amigos de um sujeito estúpido como o Mulder, vão. E liguem pro Girafão. Avisem-no pra ficar de olho porque Mulder vai brigar com Scully e o motivo vocês já sabem. E esperem o pior disso.

BYERS: - Frohike, do que você tá falando?

LANGLY: - Acho que você é quem devia trocar o fornecedor...

BYERS: - Acha que Mulder levantaria a mão pra Scully? É isso o que está insinuando?

FROHIKE: - Estou dizendo que ouvi da própria boca da Scully o que ela passa nas mãos do Mulder. Não posso me meter nisso, ela é quem tem que resolver a questão. Mas Mulder não é mais meu amigo desde que Scully me contou que ele costuma a agredir a tapas dentro de casa. E se vocês gostam da Scully, terão vergonha de dar razão pra esse... Esse ignorante! E se ela o traiu com aquele russo... Bem feito mesmo!

Langly e Byers se entreolham apavorados. Frohike volta pra dentro.

BYERS: - O Mulder?

LANGLY: - O Mulder bate na Scully?

BYERS: - Se Scully contou isso ao Frohike... Ela nunca mentiria sobre algo assim. Nem teria motivos pra fazer isso.

LANGLY: - ... Pobrezinha da Scully... Pra que ele faz isso? Quem via os dois nunca diria que tamanha atrocidade acontece...

BYERS: - Lembra do que ele fez com Diana... Começo a temer que seja verdade.

LANGLY: - Que história é essa?

BYERS: - Quando Diana o traiu diversas vezes, um dia ele enlouqueceu e encheu ela de porrada.

Os dois ficam se olhando, em interrogações.


FBI – Sala de reuniões – 7:11 A.M.

Skinner, Donald, Mulder e mais alguns agentes sentados. Mulder distante, olhar parado.

SKINNER: - Não temos nada sobre o tal... Como vou dizer... O clone de Brubacker ou o que quer que seja! Nem paradeiro algum. Quero a foto dele em todos os noticiários.

DONALD: - Providenciarei isso.

SKINNER: - Quero o relatório das necropsias que Scully fez, Mulder.

MULDER: - ...

SKINNER: - Mulder?

MULDER: - Sim?

SKINNER: - Quero o relatório das necropsias.

MULDER: - Que necropsias?

SKINNER: - Mulder, não me faça perder a paciência com você! As necropsias que Scully fez na família Carmichael!

MULDER: - E-eu... Eu... Eu não fiz o relatório ainda.

SKINNER: - Mas é você quem faz o trabalho da agente Scully? O fato dela estar de licença não significa que não tenha aptidões pra digitar num teclado!

MULDER: - E-eu providenciarei isso.

SKINNER: - Fez o que pedi?

MULDER: - ...

SKINNER: - Mulder, não sei onde anda sua cabeça, mas temos um suspeito à solta por aí e não estamos aqui pra brincadeiras! A direção está no meu pescoço querendo resolução imediata desse caso que está se arrastando e exigindo justificativas de tantas despesas, tanta demora e da ausência de Scully aqui hoje! Você é o responsável pelos Arquivos X e está relapso com suas funções! O que eu vou dizer lá em cima?

Mulder se levanta. Sai da sala. Skinner levanta-se.

SKINNER: - Pausa para um café, senhores.

Skinner sai da sala. Pega Mulder pelo braço, no corredor.

SKINNER: - O que está havendo?

MULDER: - Nada.

SKINNER: - Se não há nada, por que não faz seu trabalho?

MULDER: - Porque eu sou um só pra investigar todos os casos de paranormalidade dos Estados Unidos! É por isso!

SKINNER: - Scully está apta a voltar?

MULDER: - Eu não sei de Scully. Eu não sei de mais nada.

SKINNER: - Eu só vou dizer uma coisa pra você, Mulder. Me enganei com você. Eu sei muito bem o que está acontecendo. E só vou te dizer uma coisa: não espere de mim mais nenhum tipo de piedade para com você. A partir de hoje, você me chama de senhor. Eu sou apenas seu chefe. Nossas relações se limitam a profissionais.

MULDER: - (INCRÉDULO) O que está havendo com vocês todos? É um complô contra mim? É isso? Primeiro os Pistoleiros, agora você? Perdi meus amigos todos é isso?

SKINNER: - Não perdeu. Você ainda tem Alex Krycek. Vocês se merecem.

Mulder solta-se de Skinner. Sai pelo corredor. Skinner puxa o celular. Aperta uma tecla.

SKINNER: - ... Sou eu, Scully. Quero você imediatamente aqui no FBI... A diretoria quer seu relatório agora.


Esconderijo de Alex Krycek - 7:33 A.M.

Krycek anda de um lado pra outro, tenso. Olha pro telefone.

KRYCEK: - Não posso dizer que Scully veio aqui e o que me falou ontem à noite... Mulder acreditaria nela e me mataria... Como vou avisá-lo? Tem alguma coisa errada.

Krycek, angustiado, senta-se na velha poltrona.


Residência dos Mulder - 7:46 A.M.

Scully entra na cozinha, vestida num robe. Percebe a bandeja de café sobre a mesa, com uma rosa vermelha. Mulder, sem o paletó, mas com o coldre e a arma sobre a camisa, recostado na pia da cozinha. Braços cruzados, sério, com o olhar sedento de raposa que espera calmamente para atacar a presa.

SCULLY: - Skinner me ligou... Vou voltar ao trabalho antes que arrume alguma encrenca pra nós dois. Não estou sendo profissional.

MULDER: - ... Gosta de torradas no café, 'meu amor'?

SCULLY: - Gosto.

MULDER: - Suco de laranja, croissant, frutas e de uma rosa vermelha? É assim que você gosta?

SCULLY: - (SORRI) Que mulher não gostaria desse agrado?

MULDER: - (GRITA/FURIOSO) Então tome o seu café da manhã sua vadia!

Mulder atira a bandeja contra Scully. Scully abaixa-se, assustada. A bandeja passa raspando por ela, se estatelando na parede. Scully arregala os olhos. Mulder passa por ela, Scully treme. Mulder fecha a porta da cozinha. Fecha os punhos e esmurra a porta com raiva. Scully morde os lábios, com medo. Mulder respira fundo e apoia as mãos na porta, cabisbaixo.

MULDER: - Por quê?

SCULLY: - ...

MULDER: - (GRITA) Só quero saber porquê!!!!!!!!

SCULLY: - (ABAIXA A CABEÇA) ...

Mulder vira a mesa com fúria. Atira uma cadeira contra a porta dos fundos. Começa a quebrar as coisas na cozinha, tomado de raiva. Scully se recosta na parede, olhos arregalados, com medo dele. A mão com anel de rubi pousa sobre o ombro dela.

MULDER: - (GRITA) Me sinto um completo idiota que serve de cachorrinho, fazendo tudo por você, tentando te adorar e o que recebo em troca? O outro é melhor do que eu? É isso? Desde quando você e aquele russo cretino estão trepando? Ahn? Bem debaixo do meu nariz, enquanto o otário aqui está trabalhando pra bancar a vida que você sempre desejou?

SCULLY: - (GRITA) Traí você sim! Eu traí! Está feliz agora? Ahn? Ou vai tentar me bater como sempre faz? Tente chegar perto de mim pra ver se eu não atiro em você!!!!!!!

MULDER: - ??? De que diabos está falando?

SCULLY: - (GRITA) Você sabe do que estou falando! Traí sim, Mulder. Com um homem que me respeita! Com um homem que me considera prioridade e não apenas uma legista da qual precisa dos serviços!

MULDER: - (GRITA) Olha aqui, abaixa essa sua voz porque você não tem razão alguma aqui dentro!

SCULLY: - (GRITA) Eu não vou abaixar a minha voz!!!!! Eu vou dizer tudo que você tem que ouvir, porque o culpado disso é você!

MULDER: - (GRITA) Eu? Ah, sim! Me esqueci que sempre sou o culpado de tudo! E agora eu sou o culpado por você abrir as suas pernas pra foder com aquele filho da puta!

Scully acerta um tapa na cara de Mulder, que faz o rosto dele virar. Mulder ergue a mão, mas esmurra a pia. Continua a quebrar a cozinha, possuído de raiva. Scully se encolhe contra a parede, assustada. Procura sua arma com os olhos. Mulder, perturbado, apoia-se na pia da cozinha. Respira fundo, se contendo. Olha pela janela.

MULDER: - ...

SCULLY: - ...

MULDER: - ... Uma vez eu vivi situação semelhante com outra mulher... E dizem que na vida tudo se repete como castigo, porque o inferno é a repetição.

SCULLY: - ... (OLHA PRA ELE)

MULDER: - ... E-eu... (RESPIRA FUNDO) Eu perdi minha cabeça, me tornei violento... E-eu a agredi fisicamente... Quase matei o desgraçado e Diana... Me arrependo, mesmo com toda a traição, eu nunca deveria ter feito aquilo... Eu não tinha o direito... Agora... A mesma traição se repete na minha vida... Sabe o que muda?

SCULLY: - ...

MULDER: - (ENCHE OS OLHOS DE LÁGRIMAS/ OLHA PRA ELA) ... E-eu não tenho coragem de levantar um dedo contra você. Sabe por quê?

SCULLY: - ...

MULDER: - Porque agora é diferente... Porque eu amo você. Amor de verdade. E-eu... Eu perdi o meu chão... (ANGUSTIADO) Dói, sabe? ... (COMEÇA A CHORAR) Dói fundo, (BATE NO PEITO) lá dentro, sabe? Uma dor como uma pontada, uma dor machucada, que devora... Mas eu não tenho raiva de você não. Há algum tempo atrás eu sairia atirando, batendo, matando... Hoje eu não consigo fazer isso... O choque é maior porque... Porque eu realmente nunca amei uma mulher como amo você. Eu te respeito. Eu dou minha vida por você. Eu mataria por você... E-eu nunca esperei isso de você, Scully. E nem que o fizesse com aquele cara.

SCULLY: - ...

MULDER: - Eu... Eu sabia que ele estava atraído por você. Mas... Não me sentia ameaçado por isso. Não por ele, mas porque eu confiava cegamente na minha mulher... Nunca... Nunca eu imaginei, sequer em um relance que ela, justamente ela, me traísse. Nunca! Se eu sentia ciúmes? Claro que sentia, quem não sentiria ciúmes dela? Mas eu tinha a certeza dentro de mim de que ela nunca faria isso comigo. Não ela... Não a mulher que eu conheci, que eu amava, que eu estimava... Faltou algo? Desgostou de mim? Foi aventura? Pra quê, Scully? Por quê?

SCULLY: - ...

MULDER: - (CHORANDO) Sabe... Pra qualquer marido isso seria uma traição sexual... (OLHA PRA ELA) Mas pra mim... Pouco importa isso. Pouco me importa o sexo, ele não significa nada. Até os animais o fazem e não envolve sentimento. Dane-se ele também, dele eu podia esperar qualquer coisa, afinal ele é Krycek. Um rato sujo e traidor. Mas de você? Isso foi além de traição sexual. Foi traição pessoal. De causa. De coração, de alma! Foi como se eu tivesse dormido com uma inimiga durante todos esses anos... Por que fez isso comigo, Scully? E-eu deixei te faltar alguma coisa? Eu falhei em alguma coisa? Te magoei? Quem sabe, eu não tenha sido humano o suficiente pra você? Só quero uma justificativa. Só uma.

SCULLY: - ... Estou apaixonada por Alex Krycek.

Mulder fecha os olhos, derrubando lágrimas confusas.

SCULLY: - É mais forte do que eu... E-eu...

MULDER: - ... Não diz mais nada... Não diz... Eu não sei se aguento ouvir mais nada. É demais pra mim... Estou começando a sentir ódio e raiva e não gosto de sentir isso. Não mais. Eu mudei. Mudei muito. Mudei pra coisas que eu jamais sonhava. Passei a valorizar mais o amor, a família, passei a ser menos egoísta e obcecado. E o que aconteceu quando eu achava que agora sim era digno de você? Quando eu comecei a acreditar que era merecedor de você, Scully? Hum? Você me quebra as pernas sem piedade alguma, me apunhala pelas costas e ainda me olha com essa cara cínica de quem acha que tudo isso é algo normal.

SCULLY: - Estou dizendo a verdade. E vou me tornar sua inimiga por dizê-la?

MULDER: - ... Nem sei mais se quero a verdade. Ela está além da minha compreensão...

SCULLY: - ...

MULDER: - (FECHA OS OLHOS) É ele que você quer?

SCULLY: - ... Eu... Eu não sei...

MULDER: - ... (MORDE OS LÁBIOS)

SCULLY: - Não posso mais viver desse jeito. Não está certo. E-eu não posso ficar aqui olhando pra você e sabendo que meu coração se dividiu em dois!

MULDER: - Posso te perdoar, Scully. Já passamos por isto antes, só que agora é real. Mas eu amadureci. Te dou tempo pra decidir qual dos dois você quer. A escolha é sua. O risco é todo meu.

SCULLY: - ...

MULDER: - Os pecados cometidos entre duas pessoas são pagos um a um. Entre três, eu nem posso imaginar.

Mulder pega o paletó e sai pela porta dos fundos. Scully senta-se na cadeira, chorando.


Arquivos X – 11:34 A.M.

Mulder ao telefone. Scully sentada em sua cadeira, com ódio, sem olhar pra ele. Digita o relatório no laptop. Mulder desliga.

MULDER: - Ordens para que eu vá pra Louisiana... Não vou.

SCULLY: - Deveria ir.

MULDER: -(IRRITADO) Claro... Deveria não é? Assim, quem sabe, você consegue se encontrar com o seu amante hoje, afinal o idiota aqui vai estar fora. Mas eu não vou deixar o campo livre pra vocês dois!

SCULLY: - Não tem o direito de falar comigo desse jeito! E quem me dá garantias de que você não arrume uma vadia pra passar a noite com você? Ahn? Afinal você é o gostosão! O 'come todas'.

MULDER: - (INCRÉDULO/ MAGOADO) ...

SCULLY: - O que fez na Louisiana sozinho com Donald? Hum? A noite toda? Foram pra algum inferninho em Belle? Não, estava chovendo. Passaram a noite com vadias no motel mesmo.

MULDER: - (MAGOADO) Eu nem vou te responder o que estava fazendo com Donald naquela noite.

SCULLY: - (CRUEL) Ou passaram juntos, afinal de contas, isso envolve todo o seu trauma infantil, sua mãe submissa, seu pai bêbado e violento, você se apegou a sua irmã como fuga, vivia com ela, brincava com ela. Por isso você é todo delicado e sentimental desse jeito, e eu acho que precisa curar essa sua raiva paterna e sua opressão materna antes que sua homossexualidade enrustida salte pra fora, Mulder! Você é psicólogo, sabe bem do que eu falo. Se não sabe, leia Freud.

MULDER: -(INCRÉDULO)

SCULLY: - Acha que não sinto o perfume que você chega em casa?

MULDER: - Que perfume? Tudo o que tenho sentido de cheiro naquela casa é um cheiro podre, como se o inferno estivesse ali!!!

SCULLY: - Pois eu sinto cheiro de perfume barato de vadia nas suas roupas!!!

MULDER: - Você tá maluca? Sente prazer em me ferir, não é? Em escavar todos os meus traumas, todas as minhas tristezas e usá-las contra mim!

SCULLY: - Se você não for pra Louisiana vai arrumar encrenca pro nosso lado e eu sei que você adora fazer isso!

MULDER: - ... Será que sou eu quem adora arrumar encrencas? Eu estou aqui, abarrotado de trabalho pra fazer, sozinho, levando minha vida honestamente pensando na minha família e nas minhas responsabilidades como profissional, enquanto sua cabeça está pensando em noites quentes na Sibéria!

SCULLY: - Vai ficar me atirando isso na cara a vida toda é? Não foi você quem disse que me perdoava? Se o seu perdão é tocar nesta tecla todas as vezes que discutirmos, eu não o quero!

MULDER: - ... Vai ficar aqui ou vai deixar tudo abandonado pra depois me ligarem dizendo que não tem ninguém no departamento e me darem aquelas mijadas carterianas homéricas?

SCULLY: - É claro que vou ficar aqui. Eu me viro muito bem sozinha. (GRITA) Vá pra Louisiana, Mulder! Suma da minha frente, me deixe respirar!

Mulder pega o paletó e sai cabisbaixo da sala.


Residência dos Mulder – 11:23 P.M.

Mulder entra em casa. Vai subir as escadas mas para, receoso.

MULDER: - (GRITA) Scully, cheguei!

SCULLY: - Na cozinha.

Mulder respira aliviado. Vai pra cozinha. Scully termina de limpar a louça.

MULDER: - Como você está?

SCULLY: - Não me encontrei com ele, se é isso o que quer saber.

MULDER: - Estou tentando ser uma pessoa gentil com você, mas está praticamente impossível fazer isso. Por que me ofende? Por que me agride desse jeito? Eu sou culpado de algo que não sei?

SCULLY: - ... Eu tinha sonhos em minha vida. Eu os mudei por você.

MULDER: - Por mim? Não foi o contrário?

SCULLY: - Você me deu um vestido de noiva, nunca se casou comigo!

MULDER: - Mas, Scully, eu disse meus motivos e você concordou com eles. Você sabia que se era importante eu o faria por você...

SCULLY: - Você não me ama! Você sempre quis uma pessoa do seu lado pra ser sua escora na hora que você precisasse. Você troca sua família pra estar no FBI. Você não me dá atenção alguma. Você só exige, exige, exige. Sempre o dono da verdade. Sempre o dono da razão. E você sabe que estou certa, Mulder! Primeiro os Arquivos X e depois eu! Eu só estou inclusa se você precisar de uma médica legista!

MULDER: - ... Scully, você tá sendo injusta comigo. Eu sei que adoro meu trabalho, mas eu não o coloco na frente da minha família quando depende de mim. Se não depende, eu tento cumprir ordens porque preciso desse emprego, é tudo o que eu sei fazer.

SCULLY: - Nunca você pode simplesmente sacrificar suas crenças por mim! Oh sim, você não acredita em Deus, então pra que entrar numa igreja e realizar meu sonho de casar legitimamente? O que você me deu? Hum? Uma certidão de casamento de beira de estrada!

MULDER: - Não... Nos casamos e eu ainda coloquei seu sobrenome no meu nome! Por que esse assunto agora?

SCULLY: - Porque perante a justiça eu sou sua mulher! Mas não o sou perante Deus!

MULDER: - Scully, por favor. Havia tempo pra casar? Ahn? O que dissemos um pro outro? Que nos amávamos. Que estávamos juntos e isso era o que importava. Decidimos ter um filho, lutamos pra conseguir ter nossa filha, agora temos um bebê, trabalho e mil coisas! Dissemos um pro outro que quando as coisas se acalmassem faríamos isso. Eu até disse pra você que compraria o meu carro pra poder pendurar latinhas nele!

SCULLY: - ...

MULDER: - Entendo seu sonho. Entendo sim. Eu já dei o vestido pra você como promessa de realizá-lo... Sabe Roma? Era pra ser surpresa, eu ia levar você pra Veneza pra gente...

SCULLY: -Não quero mais ir pra Roma.

MULDER: - ... Pensei que seria uma ótima lua de mel.

SCULLY: - Só pensa em lua de mel? Em sexo?

MULDER: - ... Isso só significava que eu ia me casar com você do seu jeito e que...

SCULLY: - ... Não sei se quero mais me casar com você Mulder. Na verdade eu nem sei mais se quero viver com você!

Mulder olha incrédulo pra ela. Enche os olhos de lágrimas.

MULDER: - Quando você se tornou um monstro que eu não percebi? Eu... Eu tenho vontade de sair correndo. De me atirar debaixo de um caminhão. Perdi meus amigos todos, perdi você. O que eu fiz pra merecer isso? Ahn? Eu não tenho feito tudo por você? Não tenho feito até o seu trabalho no FBI? Não tenho cuidado da nossa filha, ajudado no serviço da casa, tentando ser o marido dos seus sonhos, ser compreensivo com seu cansaço? Ahn? Me faz entender no que estou errando! Me diz!

SCULLY: - (GRITA) Eu não quero que entenda nada! Sai daqui, seu desgraçado! Vai embora da minha vida!!!!!!!! (AOS GRITOS/ HISTÉRICA) Eu te odeio Mulder!!!!!! Eu te odeio!!!!!!

Mulder esmurra a pia. Segura a raiva.

MULDER: - Desde que eu fui preso você nunca mais foi a mesma. Aquele tempo todo na cadeia e eu não sei o que houve com você aqui fora.

SCULLY: - Eu tive tempo pra pensar em mim e na verdade!

MULDER: - (GRITA) Para!!!!!!!!!!!! Não pode ficar me acusando de coisas que eu não fiz!

SCULLY: - (GRITA) Por quê? Eu não tenho mais medo de você, Mulder! Tente tocar um dedo em mim e vai ver o que acontece, seu monstro!

MULDER: - Monstro?

SCULLY: - (GRITA) Sim, você é um monstro! Uma experiência biológica! Uma aberração da natureza! O que esperar de um híbrido que nem deveria ter nascido?

Mulder fecha os olhos, segurando as lágrimas, ferido, magoado.

SCULLY: - Eu sou humana! Eu não sou um monstro! Saia da minha vida! Acabou! Você não entende?

Mulder respira fundo. Vira o rosto e olha cínico pra ela.

MULDER: - Eu? Sair da sua vida? (SORRI) Não, Scully.

Mulder se aproxima dela, tomado de ódio. Abraça Scully.

MULDER: - (CÍNICO) Não vai se ver livre de mim, do monstro. Nunca. Sabe por que, Scully? Hum? Você sabe, meu amor?

SCULLY: - (ASSUSTADA/ TENTANDO SE LIVRAR DELE)

MULDER: - Porque você me usou. Fez de mim o que queria. E eu não sou lixo pra ser descartado quando você bem entende. O monstro aqui tem sentimentos.

SCULLY: - (O EMPURRA) Vai embora dessa casa!!!!!!! Eu nunca mais quero olhar você!!!!!

MULDER: - Não, eu não vou embora.

Scully vira o rosto. Mulder a segura firme pelo pulso. Segura o rosto de Scully, com força, a fazendo se virar e olhar pra ele.

MULDER: - (OLHA NOS OLHOS DELA) Eu serei seu eterno pesadelo, meu amor. Vou infernizar a sua vida pra sempre. A cada dia, a cada hora, a cada segundo. Eu viverei daqui por diante só pra infernizar a sua vida e se você me odeia, ainda não viu nada. Vou fazer você ficar com mais ódio ainda e se arrepender de ter brincado com meus sentimentos!

SCULLY: - (GRITA) Eu odeio você!!!!!!!!!!

MULDER: - Eu dei minha vida pra você. Minha confiança, meus medos, meus sonhos, meus segredos mais íntimos. Eu deixei tudo pra trás em nome do nosso amor. Eu posso ser um doce, Scully. Posso ser o homem dos seus sonhos. Posso dar rosas e morrer por você. Mas eu também posso mostrar um lado negro que você nunca imaginou ver. Posso dedicar toda a minha vida pra atormentar você, em função do meu ódio por ter sido trocado e enganado. E você sabe que eu posso. Dediquei metade da vida pra encontrar minha irmã. Agora vou dedicar a outra metade pra infernizar você. Eu sou paciente, não tenho pressa. Afinal, monstros são monstros. Nunca se sabe no que resulta uma experiência genética.

SCULLY: - (ASSUSTADA) ...

MULDER: - E eu sei bem quem é culpado dessa merda toda. E vou resolver isso.

Mulder solta Scully. Puxa a arma do coldre. Verifica as balas. Scully se põe na frente da porta.

MULDER: - (GRITA) Ele serve café pra você na cama? Ele daria a vida por você? Ele alguma vez salvou você, se importou com seus sentimentos? Ele rala todo o dia pra poder manter a vida que você sonhou? Hein? Foi ele quem deu um filho pra você? É ele quem conforta você quando a tristeza vem?

Mulder segura as lágrimas. Está completamente perturbado, sem saber o que fazer.

SCULLY: - (GRITA) Você não vai fazer nada contra Alex!!!

MULDER: - (INCRÉDULO) 'Alex'?

SCULLY: - (GRITA) Se tocar nele, Mulder, eu mesmo te mato!!!!!

Mulder olha incrédulo pra Scully.

MULDER: - Você tem razão... Tem toda a razão... Não vale a pena. Não vale a pena matar aquele desgraçado. Sabe por quê? Porque eu não sou mais sozinho. Não posso mais me dar ao luxo de fazer besteiras porque elas não refletem apenas em mim. Agora eu tenho uma filha. E eu sei que o amor dela é verdadeiro. Se eu for pra cadeia, você vai ficar aqui, livre e rindo de mim. E se eu morrer, pobre da minha filha! Não terá ninguém que se importe com ela.

Mulder vai pra sala. Scully fecha os olhos.


12:49 A.M.

Mulder na garagem, observando o carro novo, braços cruzados. Mulder se recosta no carro, pensativo, atordoado. Scully entra na garagem. Olha pro carro.

SCULLY: - ... É bonito. Me lembra aquele carro que tínhamos no FBI. Um Ford... Sou péssima pra carros.

MULDER: - (INDIFERENTE) ...

SCULLY: - Azul escuro... Você tem bom gosto.

MULDER: - ... Quer dar uma volta?

SCULLY: - ... Hoje não...

MULDER: - ...

O silêncio surge entre eles. Mulder olha pra ela. Scully cruza seu olhar com o dele. Os dois desviam o olhar ao mesmo tempo.

MULDER: -(RESPIRA FUNDO) ... Eu... Eu não sei o que se passa na sua cabeça. Não sei o que dizer, que atitude tomar... Eu...

Mulder silencia, abaixando a cabeça. Scully olha pra ele, confusa.

Corta pra frente da casa. Do outro lado da rua, o carro negro com faróis apagados, observa a casa. O homem no volante, mantém os olhos em Mulder e Scully.

HOMEM #1: - Os dois estão do lado de fora.

Foco no banco de trás, nas mãos de The Gold Coin que lixa as unhas.

THE GOLD COIN: - Sabem o que fazer.

DIANA FOWLEY: - Tem certeza de que é o momento?

THE GOLD COIN: - Detesto que questionem minhas ordens. Se for ou não, a oportunidade serve igualmente para entornar o caldo.

Corta para a sala. Victoria sentada no cercadinho, brincando com algumas peças de quebra-cabeça. Repentinamente, Victoria ergue o rosto olhando pra porta. Começa a chorar desesperada.

VICTORIA: - (AOS GRITOS/ CHORANDO) Ox! Ox! Neném Ox!!!!!

Nem sinal de Mulder. Victoria se levanta, segurando-se no cercadinho, gritando e chorando por Mulder. Nada. Victoria se desespera, olhando pra todos os lados, tentando sair dali. Não há como.

A maçaneta da porta gira lentamente.

Victoria se cala. Senta-se. Fecha os olhos.


BLOCO 4:

A porta da frente da casa de Mulder se abre. Os dois homens entram rapidamente. Sinalizam um para o outro. O Homem #1 sobe as escadas, o outro olha pela sala. Aproxima-se do cercadinho.

Close no cercadinho. Está vazio. O homem olha pro carrinho. Nada. Vai para a cozinha. Nada. Volta para a sala. O outro desce as escadas.

HOMEM #1: - Não está lá em cima.

HOMEM #2: - Nem aqui.

HOMEM #1: - Tem que estar em algum lugar! Vimos quando a avó chegou com ela. E lá fora estão apenas os dois.

HOMEM #2: - (PROCURANDO PELA SALA) Bebezinho??? Onde você está? Vem pro titio, vem!

Eles abrem o armário da sala. Apenas casacos. Escutam barulhos na porta da cozinha.

HOMEM #1: - Vamos dar o fora daqui, estão entrando!

Os dois saem pela porta da frente, fechando lentamente a porta. Mulder entra na sala. Scully atrás dele.

MULDER: - (GRITA) Você não tem o direito de dizer essas coisas pra mim! Pelo amor de Deus, o que quer mais? Eu não perdoei você? Scully, eu não consigo mais raciocinar nada. Se queria me deixar tonto você tá conseguindo!

SCULLY: - (GRITA) Eu tento falar, mas você nunca presta atenção no que eu digo! Você simplesmente está sempre com a sua cabeça no FBI!

MULDER: - (GRITA) Você é uma mentirosa patológica, Scully! Não tem razão de dizer isso há muito tempo! Se ainda acha que o problema é o FBI, quer que eu me demita? Tudo bem. Eu me demito. Arrumo um emprego qualquer e faço aquilo que detesto se isso provar pra você que eu te amo! Quer que eu me mate? Ok, eu me mato pra provar também!

SCULLY: - (GRITA) Não é isso! Você é passional demais, Mulder!

MULDER: - (GRITA) Ok, sou passional sim. Eu sou tudo o que você quiser que eu seja!

VICTORIA: - (CHORANDO/ DESESPERADA) Papai!!!!!!!!!!!!!!

Mulder e Scully olham pro cercadinho.

MULDER: - Eu a deixei aqui. Victoria???

Scully procura com os olhos.

MULDER: - (DESESPERADO) Victoria?

VICTORIA: - (CHORANDO) Neném! Papai!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Mulder e Scully olham pra cima. Victoria flutua, recostada contra o teto. Scully fica paralisada. Mulder corre pra cozinha. Volta com uma escada. Sobe na escada.

MULDER: - Calma, filha, calma... Vem com o papai, vem. Confia em mim... Vem. Como você faz isso?

Victoria cai nos braços de Mulder. Scully se afasta de costas, negando com a cabeça. Mulder desce da escada, abraçando Victoria. Olha pra Scully. Scully derruba lágrimas. Sobe correndo as escadas em choro convulsivo. Mulder olha pra Victoria. A coloca no cercadinho.

MULDER: - (GRITA) Por que fez isso? Ahn? Por quê? Eu já não disse que é pra não fazer essas coisas na frente da sua mãe???

VICTORIA: - (SOLUÇANDO/ MEDO) Iço... Leva Neném...

MULDER: - (GRITA) E para com essa coisa de Iço! Se eu pegar você fazendo mais esquisitices eu vou perder minha cabeça!

Mulder sobe as escadas. Victoria soluça, olhando assustada pra porta, derrubando lágrimas.


1:13 A.M.

Mulder entra no quarto de Victoria. Agacha-se ao lado do berço. Victoria acordada, quietinha, abraçada na raposinha.

MULDER: - Desculpe, Pinguinho... Eu... Eu não queria gritar com você. Estava bravo com outra pessoa e descontei em você.

VICTORIA: - (OLHA PRA ELE/ TRISTONHA) ...

Mulder afaga os cabelos dela. Levanta-se. Beija-a na testa e a cobre com o cobertor. Ajeita a raposinha ao lado dela.

MULDER: - Tá difícil... Estou ficando doido... (ENCHE OS OLHOS DE LÁGRIMAS) Eu não sei mais o que estou fazendo... Quando o assunto envolve perder sua mãe, eu me desespero, fico perdido, cego, não raciocino mais... Desculpe, Pinguinho. Mas papai hoje não consegue contar nenhuma história.

Mulder sai do quarto, secando as lágrimas. Encosta a porta. Victoria olha pra janela. As moscas cobrem a janela. Victoria suspira, angustiada.

THE GOLD COIN (OFF): - Exatamente, Mulder. E é assim que eu quero que permaneça.

Victoria o procura com os olhos, assustada. Abraça-se na raposa, com medo.

VICTORIA: - Iço, Nana! O iço!


Segunda-feira

FBI – Washington D.C. - 11:33 A.M.

Mulder sentado em sua cadeira. Observa as fotos hediondas do assassinato da família Carmichael. Scully sentada em sua cadeira, brincando com um lápis. Reclina-se pra trás. Fecha os olhos.

MULDER: - Não faz sentido...

SCULLY: - ...

MULDER: - ... Como ela teve a coragem de matar um bebê?

Scully abre os olhos.

[Fade]

Scully está inconsciente. O bebê é retirado de Scully. Colocado num recipiente, com um líquido esverdeado. Mulder segura o recipiente, tenso, nervoso.

MULDER: - Lamento, Scully... É o melhor pra ele e pra nós dois. Ele nunca deveria ter nascido...

[Fade]

Scully arregala os olhos. Olha pra Mulder, incrédula. Mulder olha pra ela.

SCULLY: - (ENCHE OS OLHOS DE LÁGRIMAS) ...

Scully olha com ódio pra ele. Mulder olha pra ela, a estranhando.

SCULLY: - Mulder... Por que entregou nosso filho?

MULDER: - (INCRÉDULO) Quê? Do que está falando?

SCULLY: - (GRITA) Por que deu nosso filho pra eles? Não minta pra mim, eu sei que você fez isso!

MULDER: - Eu? (INCRÉDULO) Eu nunca faria isso com meu próprio filho!

Scully se levanta.

SCULLY: - (AOS GRITOS) Onde está ele? O que fez com meu filho? Se o seu pai fez misérias com você, Mulder, você tem muitos bons ensinamentos sobre como destruir um filho!

MULDER: - Scully, do que está me acusando? Você não entendeu ainda?

SCULLY: - (GRITA) Eu quero o meu filho, seu psicótico desgraçado!!!!!!!!! Se não me disser onde ele está, eu mesma o encontrarei!!!!!

MULDER: - ... Scully, o que está havendo com você?

SCULLY: - (GRITA) Não vai me dizer, não é mesmo? Vai ficar fazendo essa sua carinha de inocente, de vítima. Não tem problema, eu vou encontrá-lo! Eu devia saber que todo esse perdão repentino entre você e seu pai significava outra coisa!

Scully levanta-se e sai rapidamente da sala, chorando. Mulder fica boquiaberto, sem entender nada. Passa as mãos no rosto.

MULDER: - O que está havendo com essa mulher?


11:23 P.M.

Scully deitada na cama, lendo um livro. Mulder sai do banheiro, num pijama. Senta-se na cama. Olha pra ela. Scully o ignora. Mulder acerta o despertador. Deita-se. Puxa o edredom e vira-se de costas pra Scully. Olhar perdido ao longe. Scully continua a ler, indiferente.

MULDER: - Boa noite.

SCULLY: - ...


Terça-feira

Mulder deitado. Scully deita-se na cama. Apaga o abajur. Vira-se de costas pra ele. Mulder olha pra ela.

MULDER: - Boa noite.

SCULLY: - ...

Mulder respira fundo. Victoria começa a chorar. Mulder continua deitado. Scully nem se mexe. A menina continua chorando. Mulder levanta-se e sai do quarto.


Quarta-feira

Ouve-se o choro de Victoria desesperada, vindo do outro quarto. Scully ajeita a cama. Mulder sai do banheiro com creme de barbear no rosto e o aparelho de barbear na mão. Olha pra Scully. Victoria chorando. Scully deita-se, nem ligando pra filha. Mulder atira o aparelho de barbear pra dentro do banheiro com raiva e sai do quarto. Scully séria, puxa o edredom por cima de si. Pega o livro. Victoria para de chorar. Mulder entra no quarto e passa olhando pra Scully com raiva. Vai pro banheiro. Tira o creme de barbear com uma toalhinha. Volta pro quarto. Deita-se na cama. Scully larga o livro. Os dois ao mesmo tempo viram-se de costas um pro outro. Scully apaga o abajur.


Quinta-feira

Scully deitada na cama, olhando pro nada. Cabelos revirados. Olha pro lado e vê a cama vazia. Respira fundo. Pega o livro e começa a ler.

As moscas na janela do quarto vão se aninhando.


Sexta-feira

Mulder ajeita a cama no sótão. Deita-se. Come sementes de girassol, olhos vazios, como quem não entende nada.


Sábado

Scully, num robe, observa as laranjas em cima da pia. Apática. A água ferve no fogão, mas ela não percebe. Bem como não liga para as moscas que começam a cobrir a janela. O telefone toca insistentemente, mas ela mantém os olhos fixos nas laranjas. Abre a gaveta e pega o facão. O telefone para de tocar.

Mulder entra na cozinha, de camisa e calças sociais. Abre a geladeira.

MULDER: - Maldito caso Carmichael. Está me dando dor de cabeça... Pinguinho, não apronte nada aí na sala! Sua gelatina tá saindo.

SCULLY: - ...

Mulder fecha a geladeira com o pote de gelatina na mão. Olha pra Scully. Não vê as moscas.

MULDER: - Eu só queria que você me dissesse o que eu fiz pra você. Pra que eu conserte as coisas.

SCULLY: - ...

MULDER: - (RESPIRA FUNDO) O que eu fiz de errado? Por que está me evitando? Por que simplesmente você não fala mais comigo? Somos adultos, não somos? Vamos resolver isso.

[Som: Era – Enae Volare Mezzo]

SCULLY: - (VIRA-SE PRA ELE, DEIXA O BRAÇO CAÍDO COM O FACÃO)

MULDER: - Tá certo, Scully. Não sei o que eu fiz pra magoar você desse jeito, mas me desculpe. Me desculpe pelo que eu nem sei, mas me desculpe.

Scully volta a cortar as laranjas. Mulder aproxima-se dela.

MULDER: - Só me ajuda a entender, por que você está com tanto ódio de mim? Foi algo que eu falei? Algo que eu fiz? Ou foi algo que eu não falei e que eu não fiz? Por que está descontando isso na nossa filha?

VICTORIA: - (AOS GRITOS DESESPERADOS) Nah!!!!!!!!!!!!!!! Mama nah!!!!!!!!!!!!!

MULDER: -Scully, quer me dizer o que está havendo com voc...

Scully vira-se pra ele. Mulder arregala os olhos, incrédulo. Scully o olha com ódio.

SCULLY: - Eu odeio você com todas as minhas forças. Morra desgraçado!

VICTORIA: - (AOS PRANTOS) Naaaaaaahhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Close do pote de gelatina e das gotas de sangue que caem ao chão, e dos pés de Mulder que recuam. Pausadamente, a câmera sobe, revelando Mulder segurando o facão cravado na barriga, a camisa empapada de sangue, numa fisionomia de dor, medo e incompreensão olhando para Scully que permanece num olhar frio e de ódio. Mulder cai contra a mesa, derrubando as louças. Então cai ao chão.

As moscas se revoltam no vidro da janela. Mulder as percebe. Scully puxa o facão da barriga de Mulder. O sangue começa a se esvair rapidamente. Scully vai pra sala com o facão. Mulder tenta se arrastar pelo chão.

MULDER: - (DESESPERADO) Scully, não faz isso!!!!!!!! É a nossa filha!!!!!!!!

VICTORIA: - (AOS PRANTOS) Nah mama!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Mulder tenta ir pra sala, deixando um rastro de sangue pelo piso da cozinha, mas não tem forças pra se levantar. Mulder chora desesperado se arrastando pra sala.

MULDER: -(GRITA) Faz seus truques, Pinguinho! Papai deixa!!! Vamos brincar!!! Faz agora!!!

Scully ergue o facão dentro do cercadinho. Mulder fecha os olhos. Scully procura Victoria, mas ela sumiu. Mulder consegue tirar o celular do bolso e tenta apertar uma tecla, mas a mão suja de sangue não deixa. A mãozinha de Victoria leva o dedinho apertando. Mulder sinaliza pra ela ficar quieta. As moscas invadem o ambiente. Mulder desmaia. Victoria coloca as mãozinhas na barriga de Mulder, sujando-as de sangue.

ATENDENTE (OFF): - 911. Qual é sua emergência?

VICTORIA: -(BEIÇO) Oa papai. Oa!

ATENDENTE (OFF): - Qual sua emergência? Tem alguém aí? É uma criança?

VICTORIA: - É neném... Papai dodói!!! Iço!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Scully vem voltando pra cozinha. Victoria engatinha rapidamente pra baixo da mesa.


Hospital Memorial – 12:31 P.M.

Mulder, numa roupa de hospital, com os olhos vermelhos de chorar, observa através da janela de vidro. Scully deitada num leito, dormindo. A médica aproxima-se.

MÉDICA: -Você saiu de uma cirurgia, precisou de transfusão e deveria estar no leito! Quer que eu chame alguém?

MULDER: - (OLHAR PERDIDO) ...

MÉDICA: -Ela está sedada. Senhor Mulder, será que pode me explicar como uma faca atravessa o abdômen de alguém, certamente perfurando seus órgãos porque você teve uma enorme hemorragia, sem deixar lesão neles? Sinceramente não tenho explicação científica para isso. Tive que suturar você e abandonar a cirurgia.

Mulder olha para Victoria no colo da policial que brinca com ela.

MULDER: - Eu... Eu não sei.

MÉDICA: -É legislação do hospital registrar ocorrência em casos de agressão conjugal. Como você teve de chamar o 911 pra conseguir socorro, a polícia foi acionada e quanto a isso não podemos fazer nada. Ela agrediu os policiais e será presa. Lamento. Só sai daqui com o oficial que está na recepção.

MULDER: - Como ela está?

MÉDICA: - Deve preencher esse formulário dizendo que se responsabiliza pela sua atitude de não prestar queixa da agressão. Eu o aconselho a repensar.

MULDER: - Como ela está?

MÉDICA: - (INCRÉDULA) Como se preocupa mais com ela do que com você? Se não tivesse chamado o 911 ela o teria deixado sangrar até morrer!

MULDER: - (PERTURBADO) Ela é minha mulher e ela nunca faria isso comigo.

MÉDICA: - Lamento lhe dizer, senhor Mulder, mas ela faria. E fez. Portanto, melhor voltar ao seu leito, vai ficar em observação essa madrugada. Preciso chamar alguém da família para tomar conta de sua filha porque sua esposa é uma maníaca homicida.

A médica sai. Mulder continua olhando pra Scully pelo vidro. Desliza a mão sobre o vidro como se a tocasse com ternura.

A mão de Skinner pousa em seu ombro. Mulder vira-se.

SKINNER: - O que fez pra ela? Ela finalmente teve a coragem de se defender?

MULDER: - (FORA DE SI) ????

SKINNER: - O hospital não localizou o médico de Scully. Está numa conferência na Áustria. Chamamos uma psicóloga pra falar com ela. Consegui inventar uma desculpa pra polícia.

MULDER: - (RELUTANTE) Vou levá-la pra casa.

SKINNER: - ???

MULDER: - (RELUTANTE) Ela... Ela só está cansada, sabe? Confusa. Ela só precisa de amor, de carinho...

SKINNER: - Mulder...

MULDER: - (RELUTANTE) Ela me ama. Foi só uma confusão mental passageira, tudo vai voltar a ser como era antes... (SORRI) Foi só cansaço, estresse...

SKINNER: - Mulder...

Mulder olha pra Skinner, cerrando o cenho pra chorar. Abraça-se nele. Skinner solta-se de Mulder.

SKINNER: - Pelos fatos dos quais tomei conhecimento, tenho certeza de que a culpa não foi de Scully. Ela apenas cansou de ser sua vítima e se defendeu.

MULDER: - ??? (OLHA PRA SCULLY/ OLHA PRA SKINNER) Tá. Foi isso mesmo. Foi isso, Skinner. Ela não é culpada. Eu sou o culpado! Eu tentei agredi-la, não é isso que vocês todos estão insinuando? Eu sou o culpado! Não podem prendê-la! Pelo amor de Deus! Me prenda! Eu sou o culpado!

SKINNER: - Uma pena que eu não possa fazer isso. Não é jurisdição federal, é caso de polícia.

Krycek aproxima-se pelo corredor. Puxa o distintivo. Olha pra Skinner e Mulder.

KRYCEK: - Polícia de Washington. Estou no caso. A suspeita pode sair e responder em liberdade. E você, Mulder, vem comigo agora.

Mulder olha incrédulo pra Krycek. Skinner o olha com reprovação.

SKINNER: - É muito petulante, sabia? Sabia que posso expor sua real identidade agora mesmo e acabar com você?

KRYCEK: - Tente fazer isso, Skinner. Eu sou um cara morto, lembra? De que lado está?

SKINNER: - E você? De que lado está?

KRYCEK: - Do lado de Mulder. Mas você nunca entenderia. Nem o culpo por isso.

Mulder olha pra Skinner. Skinner sai indignado pelo corredor.

SKINNER: - Os rapazes tem razão. Você deve estar louco, Mulder...

Mulder olha pra Krycek, com ódio. Krycek percebe. O silêncio entre eles perdura por segundos. Krycek dá as costas. Mulder volta-se para a divisória de vidro. Começa a chorar.


6:12 P.M.

Mulder, sentado no corredor do hospital. Cansado, desalentado. Victoria dorme no colo da policial.

MULDER: - Obrigado por ficar com ela.

POLICIAL: - O detetive Checov me encarregou. Agente Mulder, se levar sua esposa pra casa... Essa situação pode fazer vocês perderem a guarda desse anjinho. Entende? Ela corre riscos dentro daquela casa com sua esposa junto. Repense. Pra não perder sua filha.

Mulder abaixa a cabeça, desatinado.

Escutam-se os gritos de Scully. Mulder põe as mãos nos ouvidos.

SCULLY (OFF): - (AOS GRITOS HISTÉRICOS) Não quero sair daqui! Não quero ir pra casa com ele! Eu o odeio! Odeio! Ele tirou meu filho de mim! É ele quem tem que ir pra um hospício! Ele é o doente! Aquele maldito desgraçado!!!!!! (CHORANDO) Eu quero o meu filho!!!!!!!!!

Mulder tenta secar as lágrimas. A psicóloga, com crachá do FBI, aproxima-se.

KELLY: - Agente Mulder?

Mulder olha pra ela.

KELLY: - Sou a agente Milla Kelly, psicóloga do Bureau e estou aqui pra ajudá-los. A agente Scully não quer falar comigo, quer seu médico e até ele voltar... Por hora, o melhor a fazer é deixá-la ir pra uma clínica.

MULDER: - (ATORDOADO) Deixá-la? Está brincando comigo que vou abandonar minha mulher num sanatório!

KELLY: - Agente Mulder, sei que é doloroso o que está passando. Mas ela não quer ir com você. Ela disse que não sai daqui com você, que prefere ir pra um manicômio a ir pra sua casa. Ela precisa de medicamentos, de cuidados...

MULDER: - Eu cuidei dela por mais de dez anos, e eu cuidarei dela por toda a minha vida! Não vou deixá-la com estranhos!

KELLY: - Não vai ajudá-la em nada se a levar pra casa. Você mesmo está em um estado alterado, não pode...

MULDER: - Poupe suas teorias psicológicas, agente Kelly. Não sou eu o problema aqui.

KELLY: - A agente Scully está agressiva, confusa... É perigoso pra você e pra sua filha.

MULDER: - Minha mulher não é perigo pra mim, nem pra minha filha! Ela é minha mulher! Eu decido o que é melhor pra ela quando ela não tem capacidade pra decidir!

KELLY: - ... Acho que você precisa de um calmante... Não está num estado normal para decidir...

MULDER: - (REVOLTADO) Sabe o que pode fazer com seus calmantes!

KELLY: - A decisão não é apenas sua, agente Mulder. Nas condições em que ela se encontra, eu não posso fazer nada mais, além de pedir a um psiquiatra que autorize a internação imediata.

MULDER: - Você não é a médica de Scully. E se ousar fazer isso, eu posso contestar sua decisão porque sou psicólogo também!


Residência dos Mulder – Virgínia - 8:19 P.M.

Scully deitada, olhando pro teto. Victoria sentada na cama, ao lado dela, brincando com um ursinho. Estende o braço mostrando o ursinho pra Scully que não dá bola.

VICTORIA: - Mama! Inho mama!

Scully olha pra ela com ódio. Pega o urso com raiva e atira longe. Victoria sorri, pensando que é brincadeira. Vai engatinhando até Scully.

VICTORIA: - (RINDO) Mama!

Scully a empurra. Mulder entra no quarto. Senta-se na cama com uma xícara de chá.

MULDER: - (SORRI) Fiz um chá pra você. Fiz como você gosta, de maçã com canela, bem suave, com açúcar...

Scully mete um tapa na xícara, virando-a por cima de Mulder. Mulder olha incrédulo pra ela.

Scully levanta-se num rompante. Abre o armário e pega uma mala.

MULDER: - O que está fazendo?

SCULLY: - Vou embora.

MULDER: - ... (SORRI) Tá brincando comigo, não é? Scully, esse seu senso de humor...

SCULLY: - (ENFIANDO AS ROUPAS NA MALA)

MULDER: - (CAI NA REAL) ... Por quê?

SCULLY: - ...

Mulder levanta-se.

MULDER: - Não... Não faça isso. (MEDO) Scully, por favor, me diz o que eu fiz pra você!

SCULLY: - (GRITA/ PERTURBADA) Quer saber mesmo? Quer saber mesmo?

MULDER: - ...

SCULLY: - (GRITA) Eu não aguento mais olhar pra sua cara! Não suporto mais ouvir a sua voz! Você me dá nojo!

MULDER: - ...

SCULLY: - (GRITA) Eu odeio você! Odeio você!

Scully continua enfiando as roupas na mala. Mulder cai ao chão de joelhos.

MULDER: - (IMPLORANDO/ DESESPERADO) Me perdoa! Me perdoa!

SCULLY: - ... Não posso perdoar você, Mulder. Você deu o nosso filho pra eles!

MULDER: - (CHORANDO) Scully eu jamais faria isso! Por favor, não me deixe! Scully, por favor!

Mulder agarra-se nas pernas dela. Scully continua socando as roupas na mala. Afasta-se, levando Mulder arrastado. Mulder chora, arrastando-se aos pés dela, implorando. Victoria observa derrubando lágrimas.

MULDER: - Eu amo você! (CHORANDO) Eu amo você... Não vai embora, pelo amor de Deus! Me diz o que eu fiz pra magoar você desse jeito, eu nunca mais farei isso... Me perdoa!

Scully fecha a mala. Olha pra ele.

SCULLY: - (GRITA) Você não ama a si mesmo, olha pra você deitado aos meus pés, se arrastando ao chão, sem dignidade alguma! Você é digno de pena, Mulder!

MULDER: - (CHORANDO) Eu não quero ter dignidade, eu quero você!

Scully o chuta, se livrando dele. Mulder fica ao chão, humilhado.

MULDER: - (CHORANDO/ PERDIDO) O que eu fiz? Por que você me odeia tanto?

SCULLY: - (GRITA) Porque você existe!

MULDER: - (CHORANDO) Scully, você é a minha vida! Você é tudo que eu tenho nesse mundo!

Victoria abaixa a cabeça, tristonha, derrubando lágrimas. Suspira fazendo um beicinho de quem quer desabar no choro, mas se contém.

MULDER: - (OLHA PRA ELA ATORDOADO) Você é tudo o que eu tenho na vida... (CHORANDO) Não me deixa! Eu te amo, Scully!

SCULLY: - (GRITA) Eu tenho nojo de você, Mulder! Ódio, raiva, eu desprezo você! Nunca mais toque em mim, nunca mais fale meu nome!

MULDER: - (CHORANDO) Scully... Não me despreza assim, eu não mereço isso. Eu sou um ser humano...

SCULLY: - (RI) Ser humano? Não, Mulder. Você não é um ser humano. Se o fosse, eu ainda teria alguma consideração a um semelhante da minha espécie. Mas você só é metade de um ser humano. (DEBOCHADA) O resto vem do céu. Essa é a diferença entre nós dois.

Victoria começa a chorar. Scully arranca a gargantilha do pescoço, atirando na cama.

SCULLY: - (GRITA) Fique com isso você, que sabe Deus de onde trouxe isso de volta! Eu não acredito mais em nada!

MULDER: - (IMPLORANDO) Scully...

SCULLY: - (GRITA) Tudo em que acreditei se foi por água a baixo! Você, Deus, o mundo! Você é um híbrido bastardo, Mulder! Um alienígena desgraçado! Você só causou desgraças na minha vida e eu feito uma idiota ainda achava que isso era amor! Não, você nunca me amou, Mulder. Nunca! Você só era obcecado por mim!

VICTORIA: - (CHORANDO) Mama!! Mama!!!! Naaaaahhh!!!!!!!!!!!!!

MULDER: - (CHORANDO/ SE HUMILHANDO) Não diz isso, eu amo você! Eu não posso mais aguentar ficar sem você, eu não posso viver sem você... Scully, não me deixa. Eu vou embora então, você fica aqui com nossa filha...

SCULLY: - Quem disse que quero ficar com essa coisa?

Victoria continua chorando, desesperada. Mulder olha pra Scully, incrédulo. Scully pega a mala.

MULDER: - Você não pode abandonar nossa filha desse jeito!

SCULLY: - (GRITA) Sua filha. Essa coisa aí não é minha filha! É sua! Eu só tenho um filho, que você tirou de mim!

MULDER: - (ASSUSTADO) ...

VICTORIA: - (CHORANDO, ERGUENDO OS BRACINHOS) Mama!!!

Scully sai do quarto, levando a mala. Desce as escadas. Mulder vai atrás dela.

MULDER: - (CHORANDO) Scully... O que está havendo com você? Você não pode ir embora desse jeito...

SCULLY: - (GRITA) Não me toca! Sai de perto de mim!

MULDER: - (CHORANDO) Scully, pelo amor de Deus, fica... Não me deixa, por favor, eu não sei mais viver sem você! Scully, eu te amo!

SCULLY: - (GRITA) Odeio você, Mulder!!!!!!!!!! Odeio!!!!!!!!!!

MULDER: - (IMPLORANDO) Me odeie, faça o que quiser contra mim, mas não abandone nossa filha!!!!

SCULLY: - (GRITA) Ela não é minha filha! É outro híbrido bastardo como você! Eu não sou mãe dela! Não sou! Não é minha filha! É uma anomalia genética! Uma bastarda! Ela não é humana, é uma abominação da natureza! Um Arquivo X ambulante!

Mulder se enche de ódio. Acerta um tapa com força em Scully, que quase cai ao chão. Scully olha com ódio pra ele. Mulder põe as mãos no rosto. Scully sai batendo a porta. Mulder cai de joelhos ao chão, chorando.


11:12 P.M.

Mulder, sem camisa, com uma atadura no abdômen, embala Victoria, andando pelo quarto. Victoria chora. Mulder em nervos, derrubando lágrimas. Tenta acalmá-la, mas Victoria berra sem parar, igualmente nervosa.

VICTORIA: - Mama! (CHORANDO) Mama!!!! Qué mama!!!!

Mulder a abraça com força contra o peito. Tenta acalentá-la. Senta-se na cama. Escora-se na cabeceira.

VICTORIA: - (CHORANDO) Mama...

Mulder a coloca de bruços sobre seu peito.

MULDER: - Pronto, não chora... Mamãe vai voltar, tá bem? Ela só está cansada, ela vai voltar. Hum? Papai tá aqui, certo?

VICTORIA: - (CHORANDO/ NERVOSA) Mama! Iço! Mama!!!!!!!!!!!!!!!!

Mulder envolve os braços nela, a balançando suavemente.

MULDER: - Papai tá aqui, tá bom? (BEIJA-A NOS CABELOS) Sempre estarei aqui, princesinha. Nunca vou abandonar você... Que tal uma historinha? Ahn? Vamos nos acalmar? Não fica nervosa, meu Pinguinho.

VICTORIA: - (CHORANDO)

MULDER: - Era uma vez três porquinhos... O Bolinha, o Bolota e o Bolão. O Bolinha e o Bolota eram tão preguiçosos que só queriam ficar brincando na floresta o dia todo. Só queriam vida boa, bagunça... Mas o Bolão... Ah, não o Bolão! Ele trabalhava dia e noite, construindo uma casinha de tijolos.

VICTORIA: - (DIMINUI O CHORO) ...

MULDER: - O Bolinha construiu uma casinha de pau-a-pique e o Bolota uma de palha. Assim, eles terminariam mais rápido e podiam ter mais tempo pra brincar. E tempo pra rir do Bolão que passava os dias trabalhando, sem tempo pra se divertir, obcecado em construir a casinha dele... (OLHOS NO NADA) O lar dele... Os sonhos dele... O Bolão era um idiota na verdade. Um obcecado doente por uma causa... (OLHA PRA VICTORIA) Mas vamos mudar de história. Essa é chata. Uma vez era uma menina ruiva chamada Chapeuzinho Vermelho... Esquece. Era uma vez um soldadinho de chumbo que se apaixonou por uma linda bailarina... Que droga! Não tem historinhas infantis sem romance?

Victoria se ajeita no peito dele.

MULDER: - Uma vez eu fui investigar... Deixa pra lá, isso tem romance também. (PENSATIVO) Já sei! Quando eu era criança, eu... Melhor não. Grande infância que eu tive! Vou contar pra você um filme que eu vi. Com o Chuck Norris. É, isso não tem romance, tem porrada.

Victoria quase dormindo, roça os lábios no peito de Mulder, procurando mamar. Mulder olha pra ela, que suga o peito dele, frustrada. Mulder enche os olhos de lágrimas. Afaga os cabelos da filha com a mão. Olha pra aliança em seu dedo.

MULDER: - (OLHOS EM LÁGRIMAS) Pode fazer o que quiser comigo, mas isso que você fez pra nossa filha... Isso não tem perdão, Scully... Não tem perdão mesmo!


Clínica Mens Sana in Corpore Sano – Washington D.C - 9:19 A.M.

O Dr. Patterson sentado na poltrona, sustentando um prisma na mão, em frente a Scully, sentada em outra poltrona. Ela de olhos fixos e parados, hipnotizada.

DR. PATTERSON: - Olhe para o prisma, Dana. Sua mente está vazia... Seu corpo relaxando, aos poucos... Está ficando sonolenta... Quando eu contar até três, você entrará em seu subconsciente e assimilará tudo o que eu e você falarmos em voz alta. Quando eu disser basta, você retornará e se lembrará de tudo. Um... Dois... Três... Dana?

SCULLY: - Sim...

Diana Fowley entra na sala. Senta-se em outra poltrona, observando Scully.

DR. PATTERSON: - Você ama Krycek. Vocês dormiram juntos. É sua palavra contra a dele.

SCULLY: - Sim... Krycek...

DR. PATTERSON: - Você o ama?

SCULLY: - Sim...

DR. PATTERSON: - Quem você ama?

SCULLY: - Krycek.

Dr. Patterson olha pra Diana.

DR. PATTERSON: - (SUSSURRA) É como programar um computador. Repetição, sugestão do acontecimento... Você dá uma cena e ela trabalha em cima pelos fatos que vivenciou com outros, que já viu acontecer com as pessoas ou em filmes e estão guardados lá dentro. Uma simples frase ou termo pode remeter a coisas que foram inventadas. Observe.

Diana se ajeita na poltrona, cruza os braços, apreciando a cena.

DR. PATTERSON: - Precisa dizer isso ao Mulder, Dana. Você odeia Mulder. Por todas as coisas ruins que ele fez. Quero que volte a algumas semanas atrás... Quando Mulder bateu em você de novo.

SCULLY: - (REMEXE-SE COMO QUEM TENTA RELEMBRAR ALGO QUE NÃO CONSEGUE) ...

DR. PATTERSON: - Lembre-se Dana, Mulder bate algumas vezes em você, já falamos disto. Você não falava nada para ninguém por vergonha, mas precisou contar aos amigos dele. Dana, lembra-se daquela tarde de domingo quando Mulder recusou receber seus parentes? Você havia feito torta de chocolate para a sobremesa. Vocês discutiram muito, na cozinha. Ele bateu em você. Diga o que sente em relação a isso.

SCULLY: - Eu o odeio...

DR. PATTERSON: - Sim, você odeia Mulder. Ele bate em você. Descreva a surra. Sinta-se livre para dizer tudo o que ele fez contra você.

SCULLY: - Ele me agarrou pelos cabelos...

DR. PATTERSON: - Sim. E arremessou você contra a parede. Acertou tapas, espancou, ameaçou se você falasse isso pra alguém.

SCULLY: - Sim... Me ameaçou... Usou até sua arma! Mulder bate em mim...

DR. PATTERSON: - Siga sua vida sozinha e procure seu filho que ele tirou de você, Dana. Odeie Mulder por isso. Nunca mais o perdoe. Nem ele e nem a aberração que ele chama de filha. Afaste-se deles, Dana. Seja feliz.

Diana levanta-se num sorriso cínico de vingança e sai da sala.

Corte.

Foco no chão do corredor. Câmera sobe até a cintura de Diana. Ela se aproxima de The Gold Coin, que brinca com a moeda. Não vemos o rosto dele.

DIANA FOWLEY: -(SORRI) Você conseguiu. Não sei como podia saber tanto sobre eles, como sabia do desejo de Alex... E como conseguiu calcular tão minuciosamente cada passo. Realmente você é um paranormal.

THE GOLD COIN: - Não, minha querida, eu não sou paranormal. Sou apenas um simples homem que faz contato com o oculto, com a mente superior. O mérito também é seu, querida. A experiência me ensinou que se quer ferrar um homem... "Tente" a mulher primeiro. Por isso admiro as mulheres. Elas são mais ardilosas. E vingativas quando não obtém o que desejam, quando são enganadas. Você conhecia detalhes íntimos de Mulder. Some ao talento do Dr. Patterson em fazer 'conversão'. Tudo bem, aceito desta vez o termo lavagem cerebral.

DIANA FOWLEY: - Ainda bem que está aqui conosco. Eu estava cansada daqueles velhos fracassados.Você destruiu três perigos ao mesmo tempo. Acabou com Alex que ainda acha que pensamos que está morto. E separou a duplinha arrogante e perigosa. Colocou Mulder contra Alex, tirou todos os amigos de Mulder, deixou-o sozinho no jogo e sentindo-se traído. Agora é questão de tempo pra pegarmos a menina. Mulder vai cair. E desatinado, fica cego e faz besteiras. Já está fazendo com o caso Carmichael. Ele nem consegue ver a ligação de Melanie com Scully. Você tinha razão: colocar a culpa no paranormal... Vamos ver quem mata quem primeiro. E aquela cretina da Scully nunca mais saberá o que é verdade ou não, até que o cérebro dela escorra pelo nariz num sanatório para dementes. Se ela tiver cérebro por mais tempo. Não sabemos os efeitos que uma hipnose sugestiva em excesso pode causar.

THE GOLD COIN: - O velho.

DIANA FOWLEY: - O que tem Spender?

THE GOLD COIN: - 'Sinto' que está nos vigiando. Precisamos colocar Mulder contra ele novamente. Maldita criança que os uniu!

DIANA FOWLEY: - Estou tão feliz que quero beijar você. E depois podemos repetir aquela noite no hotel... Acho que não esqueceu.

Ela se aproxima dele. Ele recua.

THE GOLD COIN: - Não toque em mim, criança. Gosto que me toque apenas quando estamos a sós em um quarto reservado. Se afaste, por favor.

DIANA FOWLEY: - Você é cheio de fetiches e mistérios... Que tal às oito? No meu apartamento?

THE GOLD COIN: -Combinado.

Diana Fowley vai embora. The Gold Coin pega o telefone e aperta uma tecla.

THE GOLD COIN: -Preciso de você em Washington, Almirante... Sim, Belzebu está aqui comigo. Novamente tenho uma missão asquerosa que você gosta muito, irmão... A vadia da Fowley quer trepar comigo... Ah, não duvido que você tenha deixado ela maluca para querer repetir. Como tem estômago para tocar nessas macacas? Para macular seu corpo angelical num leito com... Essas criaturas humanas inferiores, bizarras e nojentas... Ela espera por mim, às oito horas no apartamento dela... Não esqueça de usar um anel igual ao meu. E nem de mudar sua forma para o Richard Gere! É, não custa avisar, diante de tanta empolgação você pode esquecer e ferrar com tudo! ... Por que escolhi o Richard Gere? Porque ele é belo, mas não atrai tanta atenção como a minha forma verdadeira... Sem piadas, Almirante! Não preciso de um bando de macacas assanhadas me perseguindo pela rua aos gritos. Isso seria um verdadeiro inferno!

Corta para o lado de fora da clínica. O Canceroso dentro do carro, sopra a fumaça do cigarro num ar de desconfiança, enquanto observa a clínica.

Corte.


[Som: Whitney Houston – Unbreak my Heart]

Krycek sentado num canto do seu depósito. A garrafa já vazia. O olhar cansado e abalado de quem não dorme por noites a fio. Bancando o durão, passa a manga da camisa nos olhos, evitando derrubar lágrimas.

Corte.

Scully, sentada no banco do carro, numa rua escura, chorando.

Corte.

Mulder, na sala dos Arquivos X, sentado em sua cadeira. Olhos vazios, derrubando lágrimas.

Mulder olha pra pasta sobre a mesa com o nome Carmichael. Abre a gaveta. Pega o carimbo.

Close no carimbo sobre a pasta: ENCERRADO/ SEM RESOLUÇÃO.


TO BE CONTINUED...

(após a próxima)


03/06/2002














03/06/2002

30 de Setembro de 2019 às 02:05 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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