S06#09 - REVELATIONS: THE LORD OF FLIES - PARTE I Seguir história

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Um assassinato hediondo no sul dos EUA. Mulder e Scully são designados para o caso. Krycek entra na jogada com algumas informações sobre The Gold Coin. As brigas entre Mulder e Scully aumentam. Scully vê com seus próprios olhos a verdade que negou sobre sua filha e entra em choque. Os Pistoleiros e Skinner ficam contra Mulder. E o 'Iço' tem algo a revelar pra você. Realmente reze. O inferno está chegando. Porque o inimigo de Mulder e Scully, agora é o próprio demônio. Participação especial: Whoopy Goldberg, como "Baba". Essa grande excer assumida que sempre lamentou nunca ter ganhado um papelzinho num episódio da série... Ela chegou pra temporada! REFERENCIAS: Toda a mitologia desde a 4ª temporada. Episódio chave: Another Eyes.


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

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S06#09 - REVELATIONS: THE LORD OF FLIES - PARTE I

(O Senhor das Moscas)


"I pg.180. Quando seu tempo chegar ele tirará vantagem da situação política de um país para chegar ao poder. Não importará que ele não seja nativo daquele país. Ele tirará vantagens de posições conspiradoras."

Nostradamus – Profecias sobre o Anticristo



INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

Tela escura. Nenhuma imagem. Apenas vozes.

STRUGHOLD (OFF): - Não haverá erros. Já testamos em algumas cobaias e está funcionando perfeitamente. A Louisiana foi a melhor sucedida no processo de lavagem cerebral.

THE GOLD COIN (OFF): - Prefiro o termo 'conversão'. Lavagem cerebral me parece um termo menos ético. Senhorita Fowley, Dr. Patterson, esclareçam aos nossos amigos o que temos em mente, de acordo com suas funções neste projeto.

DIANA FOWLEY (OFF): - Os cristãos foram os primeiros a formular com sucesso a lavagem cerebral... Desculpe, conversão, através da indução de culpa, aumentando a tensão sobre os pecadores, tornando-os dominados e submissos com ameaças convictas e constantes de perda da alma e castigo eterno no inferno e com promessas repetitivas sobre a salvação. A hipnose, ou transe hipnótico se expressa por uma mudança na percepção consciente de uma pessoa, o cérebro foca a atenção no assunto sugerido pelo hipnotizador, sem prestar atenção para outras informações registradas naquele momento.

DR. PATTERSON (OFF): - A técnica de voz ritmada, usada por advogados, hipnotizadores e pregadores religiosos das novas igrejas do êxtase. Vibrato e ondas ELF de baixa transmissão não detectáveis. Técnicas de parar o pensamento questionador. Técnicas de vendas. Técnicas positivistas e repetitivas para o sucesso pessoal. Mensagens subliminares. Indução ao transe com vibrações sonoras. O meio de controlar as massas. Algo que não pode ser detectado pelas pessoas.

STRUGHOLD (OFF): - O inimigo invisível em qualquer escala aplicável.

DR. PATTERSON (OFF): - Sugestões pós-hipnóticas afetam o indivíduo fora de seu controle consciente. Até o indivíduo mais inteligente, crítico e cético. Podem sentir coisas, serem compelidos a fazer coisas, alterar sua cognição ou podem até mesmo acreditar em qualquer coisa quando induzidos de maneira correta. Vemos isso nas igrejas sim. O mais habitual é que os tolos creiam que é obra de possessão demoníaca.

THE GOLD COIN (OFF): - O diabo sempre leva a culpa dos atos humanos... Tenho pena dele.

DIANA FOWLEY (OFF): - Preocupa-se com Mulder? Por ele ser psicólogo e conhecer o processo de hipnose indutiva? Acha que ele deduziria alguma coisa?

THE GOLD COIN (OFF): - Não. Mulder sempre dirige sua atenção para o que não tem explicação. Ele quer mostrar sua inteligência sobre o desconhecido. Inteligência cerebral completa. Ele desconhece outros tipos de inteligência. Portanto, parte da operação é atrair Mulder para o sobrenatural... Mudemos o assunto. O pai do cretino arrogante está chegando. E sabem que pai é sempre pai, nunca é confiável.

Silêncio de segundos. Som de porta se abrindo.

CANCEROSO (OFF): - Por que fui informado dessa reunião somente na última hora? Agora sou elemento descartável? O que estão falando?

DIANA FOWLEY (OFF): - Falávamos sobre o Oriente Médio. O Senhor Alberthi nos contava sobre sua terra e as belezas...

THE GOLD COIN (OFF): - Você ainda é o responsável, Spender. Sempre foi, sempre será. Estou apenas de passagem para colocar as coisas em ordem, as mesmas que vocês todos bagunçaram.

CANCEROSO (OFF): - Não gosto de você. Me causa calafrios na espinha. Não gosto da maneira cínica e prepotente como fala. Por que não volta de onde saiu? Não confio em você.

THE GOLD COIN (OFF): - Então estamos empatados, Sr. Spender...

Abre a tela.

Residência dos Carmichael – Condado de Belle – Louisiana – 8:28 P.M.

Melanie Carmichael junta os brinquedos das crianças pelo corredor da casa. A TV ligada na sala. Algumas vezes o canal sai fora do ar.

Melanie larga os brinquedos no chão. Vai até o quarto do bebê. Coloca o bebê no berço. Sai do quarto. Harvey, o marido, chega em casa.

HARVEY: - Boa noite, amor!

MELANIE: - (GRITA) Amor? Tudo bem, é assim, não é? Três vezes nessa semana que você chega em casa bêbado e cheirando a vadia!

HARVEY: - Está louca? Eu estava trabalhando! Não tenho culpa se aquele chato quer os livros contábeis em dia!

MELANIE: - (GRITA) Trabalho? Que tanto você trabalha que não tem tempo pra mim e seus filhos? E esse perfume, hein, Harvey?

Harvey se cheira. Olha pra ela, erguendo as mãos como quem não sente cheiro algum.

HARVEY: - Que perfume? Não estou com nenhum perfume! Melanie, eu não estou entendendo mais você! O que falta? Eu tiro tempo pra você e as crianças sim, e não acho justo que me crucifique por ter ficado até mais tarde no trabalho! Isso acontece há anos, e você nunca reclamou antes!

A menina de uns 4 anos observa a mãe, parada na porta de seu quarto, ao lado do irmão de 8 anos.

MELANIE: - (GRITA) Os dois, já pra cama!!!!!!!

As crianças correm pro quarto. Melanie fecha a porta. Olha pra Harvey.

MELANIE: - (GRITA) Eu não vou mais aturar isso! Estou avisando! Amanhã é véspera de Natal. O que vai inventar pra ficar longe de casa?

HARVEY: - Você é uma doida, sabia? Não sei o que está acontecendo com você! Não parece mais a mulher com quem me casei! E quer saber, Melanie? (GRITA) Dane-se! Nem adianta discutir! É perda de tempo! Nem se tratando com psicólogos você melhora!

Harvey ergue a mão e entra em seu quarto. Melanie fecha a porta do quarto com raiva, batendo-a com força. Vai para a sala, em estado de nervos. Pega o maço de cigarros escondido dentro de um vaso e acende um cigarro. Anda de um lado pra outro, soltando a fumaça com raiva. Senta-se no sofá.

MELANIE: -(GRITA) Maldito desgraçado! Inferno! Praga dos demônios! Por que você não morre, seu desgraçado? Por quê??????

O crucifixo na parede se inverte sem que ela perceba.


10:06 P.M.

[Som: Era – Enae Volare Mezzo]

O relógio na parede da sala, marca 10:06. Melanie dorme no sofá, vestida numa camisola. Remexe-se de um lado pra outro, em pesadelo.As luzes do corredor piscam. A cada piscada da luz, sem que ela perceba, a sombra alta humanoide se aproxima mais dela.

O relógio muda para 6:66. Melanie acorda-se.

[Som de sussurros indecifráveis]

Corte.

[Som de sussurros indecifráveis]

Os pés descalços no piso da cozinha. Melanie abre a porta do porão. Desce as escadas no escuro. Ergue a mão e acende a lâmpada.

Close das moscas que infestam e cobrem a pequena janela do porão. Outras voando ao redor de Melanie e cobrindo a lâmpada, emitindo zumbidos. Melanie não as espanta. Algumas moscas pousam no rosto dela.

Corte.

Os pés descalços que pisam pelo tapete do quarto. Melanie segura a faca na mão. Olha para o marido dormindo na cama.

[Som de sussurros indecifráveis]

Corte.

Melanie arrasta o corpo da filha esfaqueada para o corredor e atira sobre o corpo do filho, também já morto. Pega a faca e entra no quarto do bebê. Aproxima-se do berço. Ergue a faca.

[Som de sussurros indecifráveis]

Close na janela infestada de moscas.

O choro do bebê inicia e termina rapidamente, restando apenas uma faca que cai ao chão, suja de sangue, onde as moscas pousam.

VINHETA DE ABERTURA: ABYSSUS ABYSSUM INVOCAT



BLOCO 1:

24 de dezembro

Residência dos Mulder – Virgínia – 3:24 P.M.

[Som: Lighthouse Family – High]

Will passa correndo em frente à câmera, que o segue, entrando na cozinha. Barulho de crianças aos gritos. A cozinha cheia de balões em forma de ursinhos, toda decorada pra festa.

Victoria sentada na ponta da mesa. Vestidinho xadrez vermelho e preto, sapatinhos pretos, chapeuzinho de aniversário. Bate palmas rindo, olhando pro bolo com a vela de 1 ano em cor de rosa. Leva as mãos ao bolo. Scully, de chapeuzinho, pega o bolo rapidamente.

SCULLY: - (RINDO) Nah, Mulderzinha! Vai sujar o vestido que sua madrinha lhe deu.

Victoria faz beiço. Mulder ajeita a molecada nas cadeiras, com um chapeuzinho na cabeça também.

MULDER: - (RINDO) Ei, todo mundo sentado agora! Quem não sentar não vai comer docinhos!

A molecada toda se bate, lutando com as cadeiras, aos risos altos. Meg sorri, colocando docinhos na mesa. Matthew leva à mão à bandeja.

MARGARET: - Não senhor. Espere um pouco.

Scully toda atrapalhada, ao lado de Tara, tentando pendurar os balões que caíram.

TARA: - Acostume-se. Daqui pra frente até os 10 anos será isso.

SCULLY: - (RINDO) Estou adorando essa bagunça toda!

Charles entra pela porta dos fundos com latinhas de refrigerante, o casaco coberto de neve.

CHARLES: - Tem certeza que com todo esse frio lá fora vocês querem refrigerante? Não preferem chá quente de camomila pra se acalmarem?

As crianças gritam em coro que não. Charles entrega os refrigerantes pra Ellen. Ellen começa a servir os refrigerantes.

ELLEN: - Quem quer canudinho? Ahn?

WILL: - Tia Ellen eu quero aquele ali que tem o urso azul! Meninos não usam rosa.

ELLEN: - O que seu pai anda te ensinando, aquele budista? Sabia que eu podia ter sido sua mãe se ele tirasse os olhos daquele Buda e colocasse os olhos na minha bun...?

SCULLY: -(CORTANTE) Ellen!!!

Charles passa por Ellen rindo. Ellen o acompanha com os olhos. Scully coloca os salgadinhos na mesa. Ellen cochicha.

ELLEN: - Seu irmão está cada vez mais... Apetecível.

SCULLY: - (RINDO) Então entre pra família.

ELLEN: - Sua mãe me convidou pra ceia de natal. Tem certeza de que não vai?

SCULLY: - Não, Ellen. Expliquei pra mamãe que daqui por diante as coisas mudam. Victoria faz aniversário numa data de festa. Amanhã nós almoçamos juntos, mas hoje não vai dar. Depois de um aniversário de criança eu não vou aguentar uma ceia.

Mulder ajeita a filmadora. Começa a filmar Victoria.

MULDER: - Pinguinho, olha pro papai aqui...

Victoria olha pra ele empolgada com a confusão toda.

MULDER: - Bate palminhas pro papai...

Victoria bate palmas. Esconde a carinha com as mãos, envergonhada. Scully aproxima-se com a máquina fotográfica.

SCULLY: - Mulder, pra que comprou tantos filmes?

MULDER: - Quero tirar todas as fotos que puder.

SCULLY: - Mulder, por favor! Victoria tem uma gaveta repleta de álbuns de fotos que uma pessoa levaria uns dez anos pra ter!

MULDER: - Me deixa babar, Scully. É a nossa garotinha! Não perco um momento importante da vida dela.

SCULLY: - Certo, hoje é aniversário de um ano. Mas o que justifica você ter tirado fotos da primeira vez em que ela se babou?

ELLEN: - De onde saiu tanta criança?

TARA: - (RINDO) Acho que Mulder foi catando as crianças todas da vizinhança.

SCULLY: - Ei, gente! Silêncio!

ELLEN: - Você não sabe lidar com eles, Dana. Preste atenção aqui.

Ellen enfia os dedos na boca e assovia alto. Eles ficam em silêncio. Scully ergue a sobrancelha.

ELLEN: - Vamos cantar os parabéns pra Victoria? Todo mundo em coro no três!

Scully põe o bolo na mesa. Acende a velinha. Victoria olha pra ela, rindo, cerrando os olhinhos.

ELLEN: - Um... Dois... Três!

Eles cantam os parabéns. Mulder aproxima-se filmando Victoria, num sorriso. Scully bate palmas olhando pra ela. Victoria começa a bater palmas junto, olhando empolgada pra criançada. Olha pra Mulder e sorri. Olha pra Scully e sorri. Olha pro bolo. Eles nem terminam de cantar e Victoria ataca o bolo com as duas mãos. Olha marota pra câmera aos risos. Leva as mãos sujas de glacê até a boca, sujando todo o rosto.


8:39 P.M.

Mulder termina de retirar a decoração. Desce da cadeira. Scully lava a louça. Mulder se aproxima.

MULDER: - Quer ajuda aí?

SCULLY: - Não. Você já ajuda se colocar essas tralhas todas nas caixas e levar pra garagem. Preciso devolver a decoração.

MULDER: - Faço isso depois.

Mulder pega um pano de prato.

MULDER: - Tem certeza de que não quer ir na casa da sua mãe?

SCULLY: - Não. O natal é amanhã mesmo.

MULDER: - (SORRI) Que festa! Pinguinho adorou!

Os dois olham pra trás. Victoria dormindo no carrinho, boquinha aberta, exausta, agarrada num ursinho carinhoso.

SCULLY: - (RINDO) Foi demais pra moça.

MULDER: - (RINDO) Consegui filmar toda a confusão do bolo...

SCULLY: - Se a filha do Mulder, o guloso não ia aprontar uma?

Mulder olha pra ela.

MULDER: - Eu te amo. Obrigado por tornar minha vida mais feliz com esse pedaço de gente que você me deu.

SCULLY: - (SORRI) Depois dessa confusão com 10 crianças aqui dentro, ainda quer adotar?

MULDER: - (SORRI) Quero.

Os dois trocam um beijo. Batidas na porta da frente. Mulder afasta os lábios, sorrindo. Larga o pano de prato. Caminha até a porta da frente, desviando dos presentes espalhados pela sala, embalagens rasgadas, chapeuzinhos e brinquedos. Abre a porta.

Close no Canceroso, com um embrulho nas mãos. Sobretudo, coberto de neve. Mulder cessa o sorriso. O Canceroso estende o embrulho. Mulder não o pega.

CANCEROSO: - ... Eu... Só quero dar isso a ela.

MULDER: - ... Não tem nada aí que ela queira. Nada que venha de você pode interessar a minha família. Agora dê o fora daqui antes que eu o chute.

SCULLY: - Mulder...

Mulder vira-se e vê Scully escorada na porta da cozinha, secando um prato.

SCULLY: - Deixe-o, Mulder.

Mulder abaixa a cabeça. Abre a porta. O Canceroso entra, constrangido. Mulder fecha a porta. Vai pra cozinha. O Canceroso observa a sala e vai pra cozinha atrás deles. Vê Victoria dormindo no carrinho. Aproxima-se lentamente.

Mulder e Scully se entreolham. Observam o Canceroso. Ele se agacha, colocando o presente sobre a mesa. Admira Victoria num sorriso.

SCULLY: - Quer um chá? Eu ofereceria bolo, mas... Victoria o espatifou todo.

O Canceroso sorri. Olha pra eles. Levanta-se. Põe as mãos nos bolsos do sobretudo e passa em direção a sala. Mulder o espia. Ele sai, fechando a porta. Mulder e Scully olham pro presente sobre a mesa.

MULDER: - Eu não sou curioso, mas confesso que adoraria abrir essa caixa.

SCULLY: - Imagina eu que sou curiosa então?

Os dois correm pra caixa. Scully começa a abrir. Mulder a detém.

MULDER: - E se for uma bomba? Um vírus?

SCULLY: - Mulder!

MULDER: - Melhor jogar isso no lixo!

SCULLY: - Mulder, por favor! Ele não faria uma encenação dessas pra largar uma bomba!

MULDER: - Ele mata criancinhas, Scully. Se fez um monte de coisas contra mim, achando que sou filho dele, imagina o que não faria contra a neta.

SCULLY: - Mulder, é Natal. Dê uma chance as pessoas. Você me ensinou isso. E se não reparou, em todos esses anos é a primeira vez que ele não estava fumando. Percebeu?

MULDER: - Percebi.

SCULLY: - Por que acha que não estava fumando? Por estar na nossa casa? Ele fuma até em prédios federais que são locais proibidos! Não estava fumando em consideração a Victoria.

Mulder pega o embrulho. Começa a abrir. Surge uma caixinha de veludo de cor vinho, com um botão dourado. Mulder abre a caixa.

A melodia Lullaby, de Brahms, ecoa pela cozinha.

Mulder olha pra Scully, enchendo os olhos de lágrimas, emocionado. Scully sorri. Os dois encostam a cabeça e observam a bonequinha na caixinha, sentada numa cadeira de balanço, balançando-se suavemente ao som da música enquanto nina em seu colo uma bebezinha envolta num xale. Mulder entrega a caixinha de música pra Scully e sai correndo pra sala.

Corte.


Mulder aproxima-se com cautela do Canceroso, que está parado de costas pra casa, debaixo da neve, fumando. Mulder toca no ombro dele. O Canceroso vira-se.

MULDER: - ... Feliz natal.

CANCEROSO: -... Feliz natal.

MULDER: - ... Onde vai passar o Natal?

CANCEROSO: - No mesmo lugar em que passo todos os natais.

MULDER: - Sei. Conheço essa rotina. Trabalhando sozinho num porão, enquanto todos têm uma família e você se pergunta por que não teve uma segunda chance?

CANCEROSO: - ...

MULDER: - (SEGURA AS LÁGRIMAS) ... Quer entrar e... cear com a sua família... pai?

O Canceroso vira-se de costas pra Mulder. Abaixa a cabeça.

MULDER: - Não vou te fazer perguntas que não pode me responder.

CANCEROSO: - (ABAFADO) Somos inimigos.

MULDER: - Sim, somos inimigos, tá certo. Podemos brincar disso amanhã, que tal? Mas hoje é natal, podemos brincar de pai e filho.

O Canceroso vira-se pra Mulder e ergue a cabeça. Está chorando. Mulder olha surpreso pra ele. Incrédulo.

MULDER: - Pensei que só eu chorasse. Mas acho que já sei de quem herdei isso.

CANCEROSO: - Como sabe?

MULDER: - Eu só sei. Não sei como fizeram isso, nem quero saber. Um dos meus pais se foi. Mas um ainda está vivo. E vai morrer de pneumonia se ficar aqui fora debaixo da neve. Sabe como a idade dificulta as coisas e você ainda é tabagista.

CANCEROSO: - (DEBOCHADO) Está me chamando de velho? Você também está ficando velho. Esse cabelo é pintado.

MULDER: - Eu acho que ambos estamos velhos demais pra isso. Todos já tivemos nossa lição de casa pra aprender. Você fez tudo para proteger seu filho, hoje eu entendo. Só espero que entenda que o seu filho também fez de tudo para proteger a filha dele.

Os dois ficam se olhando. Mulder enche os olhos de lágrimas e se abraça nele. O Canceroso atira o cigarro ao chão e abraça Mulder com força.

Close do cigarro que cai sobre a neve na calçada.

Close em Scully que os observa pela janela, com Victoria nos braços. Scully começa a chorar, emocionada. Victoria olha pra ela. Olha pra rua. Abre um sorriso. Scully olha pra Victoria.

SCULLY: - (DERRUBANDO LÁGRIMAS) Você é um milagre em nossas vidas. Porque conseguiu até mesmo arrancar o ódio do coração daqueles dois... O que mais de lindo e de luz você trará em nossas vidas, minha filhinha?

Corta para o carro na esquina. Foco no terno negro. A mão com o anel de rubi brincando com a moeda de ouro.

THE GOLD COIN: - Cena deplorável, Spender... Ainda bem que nada é para sempre...


04 de janeiro de 2003

Residência dos Mulder – 7:22 P.M.

[Som: Era – Enae Volare Mezzo]

Mulder, todo arrumado num smoking, abre o armário da sala. Retira um casaco de pele.

[Freeze da imagem (congelamento de tempo)]

THE GOLD COIN (OFF): - Você, como todos os humanos, acredita num diabo com chifres, mitológico, irreal, enquanto eu sou o mais belo e perfeito entre todos os anjos. Mas vocês nunca prestam atenção nas coisas, nem nas escrituras que me revelam... Oram e pedem a Ele que os proteja. O mal está dentro de cada um de vocês, pronto para ser fertilizado, pois vocês tem sentimentos e não sabem usá-los. E sentimentos são sementes de bem e mal. Muito fácil transformar amor em ódio, quando há ciúme no coração. Todos tem uma semente pecadora, percebe? Percebe o quanto todos vocês são vulneráveis, montes de pó, grãos de areia, criação desprezível? Nenhum de vocês me escapa. Em algum momento você já me pertenceu ou me pertencerá. Porque você não é perfeito. Você peca. E onde você peca, eu estou. Nem que seja numa simples palavra contra alguém que você ama. Ou num passar de pensamento. Abra a porta e me deixe entrar no seu coração.

Scully desce as escadas num lindo vestido longo e vermelho, toda produzida, com uma bolsinha no ombro. Mulder sorri.

[Freeze]

THE GOLD COIN (OFF): - A vulnerabilidade dos sentimentos é o que vocês tem contra si mesmos. Quando um corpo sente-se cansado, quando a alma necessita de algo além do que conquistou, a sensação de vazio aparece como uma bomba, pronta para estourar. Surge então em você, o medo, o cansaço, o tédio. Veja sua amiga Dana Scully como exemplo. Eis aí minha oportunidade de jogar a água na semente dos seus piores sentimentos e fazê-los florescer. É onde eu triunfo, seu monte de pó pretensioso e fútil que se julga esperto.

Scully vira-se pra Mulder. Ele veste o casaco nela. A beija no rosto.

MULDER: - Vamos, Ellen está nos esperando. E Skinner deve estar curioso pra conhecê-la.

SCULLY: - Acha que vamos conseguir juntar esses dois?

MULDER: - Não sei. Mas devemos essa pro Skinner. Ele nos juntou... Está com os ingressos?

SCULLY: - Sim. Mulder, estou tão feliz de sairmos juntos. De apenas sair pra se divertir, como um casal comum.

Mulder a beija, num sorriso.

[Freeze]

THE GOLD COIN (OFF): - Como é divertido confundi-los. Como é fácil meus soldados negros se encostarem a vocês quando estão fracos. Vocês atraem todo o tipo de escuridão pra si mesmos, a todo o tempo, a toda a hora. Caem feito patinhos nas minhas ciladas. Criaturas fáceis de serem guiadas e induzidas, como um rebanhos de porcos. Principalmente os que tem fé. Ah, como eu adoro os cristãos! Geralmente são os mais desligados. Acham que suas orações eventuais, suas missas e cultos podem salvar-lhes a alma e protegê-los... Nunca estão atentos. Não seguem o conselho que diz que eu ando ao seu derredor bramando como um leão, procurando a quem devorar. Me procuram num inferno abaixo do solo, irreal, enquanto o verdadeiro inferno é aqui neste planetinha minúsculo aonde fui sentenciado a viver.

Meg desce as escadas. Olha pra eles. Põe as mãos no rosto.

MARGARET: -(SORRINDO) Meu Deus! Como vocês estão bonitos! O casal mais lindo e perfeito que eu já vi! Nada como o amor!

[Freeze]

THE GOLD COIN (OFF): - Sim. Perfeitos. Duas essências diferentes. Em duas pessoas distintas. Ambas com um lado negro, como todos os seres humanos. Basta saber qual delas é a mais vulnerável para o ataque: A tola religiosa que crê em mim e me teme, ou o tolo descrente que crê, mas não tem medo? Amor? (RINDO) Eu desprezo o amor, cuspo nele todos os dias! O amor não é mais comigo.

Scully beija Meg no rosto.

SCULLY: - Obrigado, mãe, mais uma vez, por ficar com Victoria pra nós.

MARGARET: - Como se cuidar de Victoria fosse tarefa difícil. Ela é um doce! Já está até dormindo.

MULDER: - É... A danadinha consegue nos passar por mentirosos, Scully. É só com a gente que ela apronta.

SCULLY: - Se ela acordar eu deixei a mamadeira pronta.

Mulder abre a porta. Olha pra Meg.

MULDER: - Meg...

MARGARET: - Já sei, Fox. Trancar as portas, ligar os alarmes... E em caso de emergência, tem uma arma na gaveta.

[Freeze]

THE GOLD COIN (OFF): - O homem acha que trancando suas portas se livra do infortúnio. Esquece-se do infortúnio que carrega dentro de si e traz para dentro do seu lar, sem ninguém bater à sua porta... O infortúnio invisível. Você agora percebe quem eu sou? Eu sou uma legião. Há muitos comigo nesse planeta. Eu já existia antes da Terra ser criada. Antes mesmo que sua espécie desgraçada existisse. Eu era o general dos exércitos Dele, sua primeira criação, seu primeiro filho. O mais perfeito de todos. E quando eu quis Seu trono e Seus segredinhos como minha herança por direito, eu fui condenado à danação eterna e a este planeta. E o que vocês são? Apenas uma criação nojenta daquele rei tirano, que vocês chamam de Deus. Uma criação asquerosa, maculada com a minha raça perfeita, feitos a nossa imagem e semelhança. Esperava que eu tivesse chifres e fosse desprovido de matéria? Macacos imbecis! Está me odiando? Ótimo! O ódio é meu sentimento favorito! Lembre-se: Eu sou um anjo, não sou? Percebe, seu tolo desatento? Que anjos você anda invocando?

Scully sai. Mulder a segue. Meg fica parada na porta, acenando.

MARGARET: - Divirtam-se! E mandem um beijo pra Ellen!

Mulder abre a porta do carro pra Scully. Dá a volta e entra no carro.

[Freeze]

THE GOLD COIN (OFF): - Existem diversas hierarquias no meu exército. Desde um Incubus enviado no momento certo para perturbar uma Dana tola, até Belzebu para ludibriar a raposa que se julga experta, entrando no corpo dele, numa tentativa de que a gravidez dela fosse interrompida. Lembra-se? Infelizmente ele não matou as duas! Eu não amo, nem odeio esses dois. Na verdade, eu nem ligo se eles existem. Essa criança é o meu pesadelo. Eu desconfio dela desde seu primeiro minuto de vida dentro dessa mulher. Desconfio de toda essa proteção daquele Tirano e dos meus irmãos que estão ao lado dele... Eu não contava que Victoria fosse tão esperta a ponto de expulsar meus anjos de dentro de Mulder, usando o corpo de sua própria mãe e um velho índio pra isso. Mas me é fácil saber o que esconde cada coração. Como é fácil saber sentimentos e pensamentos ocultos e usá-los a meu favor, por melhores que estes sentimentos sejam. Nenhuma alma, por mais segura e elevada me escapa. Digo a você, meu caro, que eu sei de cada um deles, coisas que eles mesmos desconhecem! E é aí onde eu me sento e movo os peões de acordo com as minhas intenções. Afinal, eu vi Deus fazer isso. E eu também posso, mas o faço da maneira correta: para destruir vocês. Eu não os amo. Porque Ele preferiu vocês aos anjos. Tudo o que desejo é que sejam exterminados. De preferência pelas suas próprias mãos. Essa é a minha vingança perfeita.

O carro de Mulder passa pela picape de Krycek que está do outro lado da rua. Mulder e Krycek se olham, trocando um sinal com a cabeça, sem que Scully perceba. Krycek, tira o distintivo da polícia da cintura e o coloca sobre o painel do carro. Recosta-se no banco, olhos atentos na casa. Close na arma sobre o banco.

[Freeze]

THE GOLD COIN (OFF): - Existem muitas formas de se fazer o mal. Mas eu prefiro o método de observar e usar os próprios homens a meu favor. Um homem ou vários homens, como os próprios governos que se julgam donos desse planeta, que é meu. Estou no topo de toda uma hierarquia sem que desconfiem de mim enquanto me invocam. Vou dizer algo pra você: Quando a mentira é repetida, ela passa a ser tomada como verdade. A mente humana é prato farto para a enganação. Principalmente quando ela é coagida inconscientemente a crer no que o outro quer que ela creia. Sabe a piada sobre o inferno, que todo mundo conta, onde eu, o diabo, digo: façam duas filas. Advogados à direita e demais à esquerda? Acrescente a terceira fila: psicólogos no centro. São os meus preferidos! Manipulam mentes. Porque nem eles mesmos sabem a verdade... Agilidade e destreza, ludibriar, mentir, enganar. Quando dois são perigosos juntos, introduz-se o terceiro desavisado. E eis a confusão. Entendeu? E quando a confusão chega, eu concluo meu objetivo tomando o que eu quero, separando o que junto é perigoso. Por que carrego uma moeda de ouro comigo? Apenas representação de vocês. Se o mundo acabasse agora, como poderia se representar a raça humana senão através do dinheiro? Não é isso a que se resume vossas vidas e vosso pecado eterno? Não é por ele que vocês matam, criam guerras, derrubam o próximo, destroem o mundo? Não é por ele que você acaba brigando com seu marido por trabalhar demais? Não é em busca dele que você abandona seus filhos nas mãos de terceiros? Não é por causa dele que vocês não tem tempo para admirar o que foi criado para vocês? Brigas, discussões, maldade, falsidade, tudo isso tem na raiz o dinheiro. Quer fazer um jogo? Não, não vamos apostar sua alma, não se preocupe. Eu a tomo de outro jeito se eu quiser. Apenas pare e pense numa situação que está acontecendo com você ou já aconteceu. Chegue à raiz dela e veja se não é financeira. Viu? Por isso adoro o dinheiro!

Corte.

Meg fecha a porta. Liga o alarme. Apaga as luzes, deixando apenas o abajur ligado. Senta-se no sofá. Liga a TV. Abre sua sacola e retira as agulhas de tricô. Cookie sobe no sofá, deitando a cabeça no colo de Meg e fechando os olhos.

MARGARET: - Isso... Faça companhia pra vovó. Vou tecer uma roupinha pra você hoje.

O vulto negro humanoide sobe pelas escadas. Toma o corredor até o quarto de Victoria.

Corte.


[Som: Era – Enae Volare Mezzo]

Quarto de Victoria. Apenas o abajur de ursinho ligado. Victoria dorme no berço.

Close na poltrona vazia ao lado da janela. A janela fechada.

O móbile que balança mesmo sem vento. Victoria dormindo.

A janela fechada. O vidro agora repleto de moscas.

Victoria de olhos parcialmente abertos, sonolenta. Ergue o rosto, cheirando alguma coisa no ar.

VICTORIA: - 'Iço'...

Close na poltrona e nas pernas de The Gold Coin sentado, com o livro de anjos aberto sobre as pernas, brincando com a moeda de ouro entre os dedos.

THE GOLD COIN: -Detesto essa coisa de chamarem o que vem de fora da Terra de alienígena. Não me considero alienígena. Então... Olá, coisinha híbrida humana-angelical. Ou seria Nefilim? Ainda estou na dúvida sobre que merda você é, e até que eu descubra, merdas vão acontecer. Se você falasse, poderia poupar meu tempo e as desgraças todas que estão por vir. Como sinto o cheiro do Tirano em você, acho que seu atraso de fala é proposital da parte deles. O que intentam? É contra mim?

The Gold Coin fecha o livro fazendo barulho. Victoria deitada no berço o observa.

THE GOLD COIN: -Vim contar uma historinha sobre anjos, como sua mãe e sua avó fazem. Pra você dormir. Ou seria pra você perder o sono? Minha cara criança, ao contrário do que dizem pra você, nem todos os anjos são louros de cabelos encaracolados e tocam harpa. Eu, por exemplo, prefiro guitarra e piano. Nem são criancinhas com carinhas indefesas e fisionomias ingênuas... Somos sanguinários, guerreiros, criados para lutar. O resto é cultura popular barata. Invenção da macacada religiosa. Culpa minha, criança, admito. Eu criei a religião para separá-los da verdade.

Victoria desvia a atenção para as moscas na janela.

THE GOLD COIN: - Não se assuste com elas. São seres inofensivos e altamente perceptivos. Seguem o cheiro de podridão no ar e ficam excitadas... Sim, não estou sozinho aqui. Belzebu está comigo. Pobrezinha, Belzebu, você está ofendendo o olfato dela com seu cheiro.

As moscas se agitam na janela. A sombra humanoide passa pelo quarto se ocultando num canto escuro. Victoria senta-se no berço. Olha pra ele com um beiço. The Gold Coin cruza as pernas.

THE GOLD COIN: - Não me olhe com reprovação, coisinha babante. Me considere seu amigo. Afinal, eu me preocupo com você muito mais do que seus pais e aqueles idiotas lá de cima. Seus pais são dois malucos que não sabem cuidar de um bebê como você, que necessita de tanta proteção...

VICTORIA: - Nah!

THE GOLD COIN: - Fico feliz que ainda não saiba falar... Eu prefiro que ouça. Vamos ser coerentes, escute meu lado da história. Você pode se surpreender. Eu fui o injustiçado.

Victoria deita-se, olhando pra ele. The Gold Coin coloca a poltrona mais perto do berço. Apoia os braços no berço, olhando pra Victoria. Não vemos seu rosto.

THE GOLD COIN: - Há muitos anos atrás... Havia uma raça num planeta distante... Dizem que tudo começou por um cara chamado Deus, mas... Ele é ficção científica barata, criada pra que vocês acreditassem em alguma coisa acima de vocês e se comportassem direitinho... Chame-o de Criador. Ele não é onipotente, ou não teria extinguido sua raça tantas vezes pelos defeitos que apresentava. Ele não é onipresente, senão teria visto a tentação de Eva e teria evitado.

VICTORIA: - ...

THE GOLD COIN: -Bem, Deus... Ou o rei tirano de Sião, criou diferentes raças, uma delas vocês chamam anjos... Soldados responsáveis pela segurança do planeta Dele e do multiverso. Mas um dia esse rei tirano achou que se misturasse macacos desse planeta com genes de sua espécie, iria resultar em algum tipo novo de vida... Que ele veio a chamar humanos e como ele é sentimental demais, acabou se apaixonando por essa criação. Eu me preocupava muito por Ele dar tanta atenção pra um bando de fedidos como vocês, que tem 98% de genes macacos e 2% de Deus. Corrigindo, você deve ter uns 50% de cada... Como sou um sujeito sincero, achei justo dizer a mulher naquele jardim que vocês tinham tanto direito quanto Deus e que poderiam superá-lo. E o que ele fez? Expulsou vocês de uma vida boa num paraíso. Eu o traí, mas ele pune vocês até hoje pela minha traição. Acha justo? Que ele desconte em vocês a ira que tem para comigo? Sabe o que havia aqui antes de vocês?

VICTORIA: - ...

THE GOLD COIN: - Nada, filhote de luz e trevas. Um lugar apático e sem graça. Quando Ele os fez, nem se importou com suas almas. Vocês morriam e ficavam vagando por aqui, porque afinal de contas, vocês eram apenas criaturas, não mereciam 'subir aos céus'. Então eu os acolhi. Eu os amei. Dei um descanso para suas almas perdidas, até que Ele viu a concorrência e mandou o Filho dele vir aqui e os elevar como almas dignas do paraíso. Não... Ele que se diverte com suas desgraças e não facilita nada pra vocês. Eu facilito. Eu os permito serem sua essência. Ele quer sacrifícios para que vocês sejam dignos de seu abraço. Grande pai! Ele nos abandonou a nossa própria sorte. Mas eu digo, garotinha: Darei este mundo inteiro a você se ficar do meu lado.

VICTORIA: - Nah!

THE GOLD COIN: - O que tem a perder? Vamos negociar. Receio que sua vida se tornará um legítimo inferno, se bem que o inferno não é o que dizem... Seu pai vive procurando por vidas em outros planetas, aquele imbecil que não consegue raciocinar que vidas existem não só em outros planetas, mas em outras dimensões. Então somos todos extraterrestres... Sua mãe é uma criatura apática, desconfiada e completamente insegura da sua sorte. Vive em seu mundo de sonhos, morre de medo de perder seu pai... Você acha que terá futuro numa família assim? Sabe que você deve o que é graças ao seu pai. E aqui não há nada de escolhidos. Seu pai foi acaso do destino, porque seu avô foi escolhido na última hora por Eles para uma mutação urgente da raça... Ou seria dos meus planos? Você só é um acaso do destino?

VICTORIA: - Nah!

THE GOLD COIN: - Mas um acaso preocupante, admito. Sua mãe não se questiona por que você nunca fica doente? Ahn? Imagine se as pessoas todas não ficarem mais doentes? Imagine se as pessoas começarem a se amar umas as outras? Imagine todas elas estendendo a mão ao seu semelhante? Imagine quando resolverem ajudar uns aos outros ao invés de ferrá-los? Isso sim seria o inferno! Não há espaço neste planeta pra seres como você. Você é minha dor de cabeça. Porque você é a prova de uma Terra de luz, de evolução genética e paranormal, e eu sou o Senhor das Sombras, minha querida. Não dispense sua energia à toa. Mate. Destrua. É muito menos cansativo. Você é diferente de todos. Aproveite sua diferença para dominá-los. São apenas seres humanos. Macacos mutados. Comece mostrando a sua família. Rebele-se contra eles. Você sabe que com um olhar poderia matar sua mãe. Imagine, se livrar daquela chata que te põe pra dormir cedo?

Victoria vira o rosto. Fecha os olhos.

THE GOLD COIN: - Se não quer me ouvir, entrarei em seus sonhos... Mas terminarei essa historinha... Eu ofereci ajuda aos seus governos. Eles nunca se questionaram da minha natureza real... Eu os ludibriei. Dei-lhes o poder e o dinheiro que queriam... Claro que tive que mandar um dos meus ceifar algumas vidas, inclusive a do seu avô, porque pactos de maldade são cobrados... Afinal, todo poder, fama e dinheiro tem um preço... Mas seu pai interferiu nisso e matou meu anjo, um dos meus irmãos. Isso sim foi uma coisa feia! Era um bom soldado, pelo menos levou alguns que tinham minha marca em sua testa. O problema, criança, é que eu não deixo barato para quem machuca meus soldados, entendeu? Eu sou um general zeloso. Nunca até agora eu havia perdido um sob o meu comando nesse planeta, e isso realmente me deixou muito zangado.

Victoria olha pra ele.

THE GOLD COIN: - Deve se perguntar porque então eu fiquei tanto tempo à margem... Não, nunca estive. Tenho formas e faces diferentes. Enquanto houver conspirações contra o bem estar de vocês, eu estarei ali. Seja em grupos dominantes de poder, ou entre duas pessoas. Sabe por quê? Porque este planeta é meu. Eu também quero ter um grande exército quando a coisa entre Ele e eu pegar fogo por aqui... Me preocupo em levar vocês todos pra mim... É justo, não é? Se fui atirado aqui como castigo, o mínimo que mereço é ser senhor de vocês todos... Admita, esconder-se atrás de Hollywood é uma coisa boa. Quer lugar melhor pra você comprar almas? Ahn? Ao contrário do que prega aquele filme sobre o diabo ser um advogado... Besteira! O melhor lugar para o diabo se esconder é no entretenimento, na mídia... Você passa disfarçadamente todas as suas intenções manipulando o que existe de mais podre dentro de corações ambiciosos... Luxúria, vaidade, cobiça... Os sete pecados capitais habitam no mundo da arte. E os contratos são muitos. Todo mundo quer fama, não é? Todo mundo quer dinheiro, luxo, poder. Hollywood é um ninho farto de almas e de pecado. Eu poderia me sentir melhor em outro lugar do mundo? Luxo, poder e dinheiro?

VICTORIA: - ...

THE GOLD COIN: - Bem... De qualquer forma aqueles sujeitos querem seus genes. E eu quero saber o que você é, e quero sua alma. Seu avô já descobriu que sua mãe é meu alvo, mas ele pensa que manter os olhos em vocês vai ajudar em alguma coisa... Pobre tolo, ele não entendeu quem eu sou... Nem o que eu quero. E menos ainda que eu sei de tudo, estou presente em tudo e nada me escapa. Inclusive aquele idiota russo do outro lado da rua que eles pensam que está morto... Aquele idiota me será útil, sabia? Eu venho armando tudo, semeando paixões em corações confusos enquanto aqueles homens semeiam lembranças em mentes perdidas. Luxúria, minha pequena criança, é um prato farto para separar dois adultos. Basta apenas colocar o terceiro no meio deles.

Victoria enche os olhos de lágrimas.

THE GOLD COIN: - Vai ficar sem a mamãe, oh pobrezinha! Afinal de contas, quem está mais vulnerável aqui dentro? Seu pai já me conhece, estivemos dentro dele... Mas sua mãe... Está um farrapo humano em sentimentos e perdida... Alvo certo, você não acha? Separo os dois e tomo você. Todo general sabe que é preciso dividir para conquistar.

Victoria começa a chorar. A luz do quarto se acende. Meg entra. Tudo normal.

MARGARET: - O que foi filha?

VICTORIA: -(DESESPERADA) Iço, vó! Iço!

Meg a pega nos braços. Olha pelo quarto. Arrepia-se. Sai de costas, fechando a porta, desconfiada.

Close nas pernas de Meg que desce as escadas passando por The Gold Coin sem vê-lo.

Close em Victoria que faz beiço, brava, agitando os braços.

VICTORIA: - Nah! Nah! Nah! Iço obo!!! Nah!!!!!


9:46 P.M.

[Som: Principles Of Lust - Enigma]

Krycek sentado dentro da picape, procura algo no porta-luvas. Fecha-o, aborrecido.

KRYCEK: - Impressionante! Perdi meus óculos escuros! Onde será que eu o deixei?

Krycek esmurra o volante. Observa a casa.

The Gold Coin, brincando com a moeda, parado ao lado da picape, mas Krycek não o vê.

THE GOLD COIN: - (SUSSURRA)Vamos, Alex Krycek. Você perdeu tudo. Comece a invejar quem tudo tem... Você poderia ter, não acha? Aquele sonho perturbou você... Apenas feche os olhos e deseje. Imagine... Lembre-se dela... Deixe seu desejo ser alimentado. Amar não é pecado...Deus é amor.

Krycek olha pelo retrovisor. Fisionomia de quem está incomodado.

THE GOLD COIN: -(SUSSURRA) Não foi apenas por sua mulher e filho... Você está gostando dela... Sim, você está gostando... Quer cuidar dela como ela merece ser cuidada... Não por esse imbecil, ele nunca será seu amigo... Mulder não valoriza o que tem... Mas você... Você valoriza... Está aqui fora nesse frio cuidando do que não é seu, para mostrar amizade a quem nunca vai chamar você de amigo?

Krycek morde o polegar, pensativo. Vemos apenas o sorriso de Coin, com o canto da boca.


Motel e Café Belle – Louisiana – 10:08 P.M.

Na lanchonete, o delegado entra, tirando o chapéu e sentando-se ao balcão. Observa a decoração natalina.

DELEGADO: - Ei, Baba! Sai aquele hambúrguer com fritas e um café quente? Tá um frio lá fora de espantar cachorro!

Corta pra Baba (Whoopy Goldberg) fritando hambúrgueres na cozinha, com os cabelos rastafáris presos. Coloca dois hambúrgueres no prato, dois pães aquecidos e enche de fritas. Larga sobre o balcão.

BABA: - Seu estômago se atrasou 8 minutos hoje, Jim.

DELEGADO: - Sabe que tenho dois policiais e fica difícil se revezar em turnos pra cuidar da maluca. A população quer linchá-la. Não saem da frente da delegacia.

BABA: - Melanie Carmichael admitiu que matou o marido e os filhos?

DELEGADO: - Ela admite, ri, fala das tais moscas... Parece até louca! Eu mesmo tenho vontade de abrir as portas da delegacia e deixar o povo entrar lá e esfolá-la viva.

BABA: - Deveria dar uma chance pra ela. Talvez ela tenha visto alguma coisa que ninguém viu. Isso acontece. As pessoas podem ver coisas que se dissessem, ninguém nunca acreditaria.

DELEGADO: - (BOCA CHEIA) Virou bruxa agora, Baba?

BABA: - (DEBOCHADA) Eu sou uma feiticeira criada no Mississipi, filha de negros e neta de escravos africanos.

DELEGADO: - Vou checar sua ficha.

BABA: - (SORRI/ SERVINDO O CAFÉ) Cheque. Lá vai encontrar também que eu dormi com Jimmy Hendrix. Ele sabia fazer coisas com a língua na guitarra tão bem quanto fazia com uma mulher na cama. Acredite!

DELEGADO: - (RINDO) ... Baba, você não é daqui, tem família?

BABA: - Não. Minha família são os clientes dessa espelunca. O que vai fazer com a Melanie?

DELEGADO: -Vou dar uma chance pra ela. Chamei os federais. Ela vai ver o que é interrogatório de verdade!

BABA: - Vai colocar o FBI nisso?

DELEGADO: - Já coloquei. Agora ela vai ver o que são os federais de Washington fungando no cangote dela e daí vai agradecer a hospitalidade sulista que perdeu. Tem mostarda aí?

Baba suspira. Entrega a mostarda. Escora-se no balcão.

DELEGADO: - Está meio triste hoje. O que foi?

BABA: - Estava lembrando da minha filha, do meu marido... Esqueçamos. Quer mais fritas? Aproveite que a chata da dona dessa espelunca está na igreja e não vai cobrar porção extra.

DELEGADO: - (SORRI) Baba, o que seria de Belle sem você?

BABA: - Eu é que me pergunto o que eu ainda faço em Belle!


Teatro Municipal – Washington D.C - 10:39 P.M.

Mulder e Skinner saem do teatro. Um agente do FBI parado ao lado do carro.

AGENTE: - Desculpe, senhor. Mas é urgente.

SKINNER: - O que aconteceu?

AGENTE: - Eu... Eu nem sei como dizer isso, o diretor pediu que eu o encontrasse rapidamente... Ocorreu um assassinato em Louisiana e a polícia pediu ajuda porque está completamente perdida. Uma mulher matou o marido e os três filhos. Está presa na delegacia local, mas a população quer linchá-la e não há homens disponíveis para se revezarem na segurança da delegacia.

SKINNER: - O que querem comigo?

AGENTE: - Aí é que está, senhor... Ela... (OLHA PRA MULDER) Afirma que não matou a família. Que quem fez isso foram... As moscas.

MULDER: - Moscas?

AGENTE: - O diretor pediu que o senhor assumisse esse caso e... indicasse o agente Mulder e a agente Scully.

Skinner olha pra Mulder.

MULDER: - Acho que a ópera da Scully acabou...

SKINNER: - Vou para o FBI. Peça desculpas à Ellen por mim.

Skinner entra no carro. Mulder volta para o teatro.


Residência dos Mulder – Virgínia - 11:29 P.M.

Meg abre a porta. Mulder entra rapidamente, subindo as escadas. Scully entra se arrastando, séria. Atira a bolsa no sofá, desconsolada.

MARGARET: - O que houve? Pensei que iam jantar fora...

SCULLY: - (INDIGNADA) Trabalho, mãe. Nunca consigo convencer Mulder a sair comigo e se divertir. E quando consigo... Bem feito! Eu escolhi isto pra mim. E mesmo que eu desistisse, o que adiantaria? Teria marido assim mesmo? O FBI chama e Mulder corre feito um doido, abanando o rabinho.

[Freeze]

THE GOLD COIN (OFF): - Percebe? Egoísmo? Ciúme? Sementes inconscientes prontas a serem despertadas. Uma bomba de sentimentos confusos. Eis me aqui, cristã Dana Scully. Serei seu senhor. Venha para mim.

Corta pra Mulder. Ele vai entrar no quarto, mas para. Volta a atenção para o quarto de Victoria. Vai para o quarto dela. Victoria sentada na cama olha pra ele, abrindo os braços.

VICTORIA: - Ox...

Mulder sorri. A toma nos braços.

MULDER: - O que foi Pinguinho? Perdeu o sono?

VICTORIA: - Iço... Ahm ba ma le a e ó mama...

MULDER: - Hum... Acho que não entendi nada. Vem, vamos viajar.

Victoria pula no colo de Mulder, se abraçando nele.

MULDER: - Maria gasolina... Você, um carro, uma estrada e tá feita a festa...

Mulder vira-se pra sair e esbarra em Meg. Meg com uma fisionomia nervosa.

MULDER: - Algum problema?

MARGARET: -Fox... Lembra-se quando o vi pela primeira vez, no apartamento de Dana, quando a sequestraram?

MULDER: - Claro Meg, mas o que...

MARGARET: - Lembra-se do que eu disse sobre ter tido um presságio?

MULDER: - ... O que houve Meg?

MARGARET: - Tem alguma coisa apertando meu coração de mãe, Fox... É com Dana...

THE GOLD COIN (OFF): - Meg... Cuide de sua vida, sua vaca.

Victoria procura The Gold Coin com os olhos.

VICTORIA: - (DESESPERADA) Iço papai! Iço!!!!!

THE GOLD COIN (OFF): - Ah! Você consegue me ouvir, coisinha fofoqueira? Que bom que não fala, sua linguaruda metida!

MARGARET: - Fox, por favor... Cuide bem da minha filha. Sinto que tem alguma coisa ruim pra acontecer...

MULDER: - Meg... Sinto o mesmo. Há um bom tempo tenho tido pesadelos e premonições estranhas sobre Scully. Mas estou cuidando dela. Acredite e confie em mim, eu jamais deixaria algo acontecer com ela.

THE GOLD COIN (OFF): - Pretensioso Mulder... Acha que pode tudo.

VICTORIA: -(GRITA) Nah!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

MARGARET: - Eu sei, Fox... Vou mandar fazer outra correntinha pra ela...

THE GOLD COIN (OFF): - Como se isso fosse proteger alguém...

MARGARET: - Sei que não acredita nessas coisas, Fox, mas... Peça proteção à Deus. Existem coisas invisíveis que entram em sua casa, ficam ao lado de você e não estão ao alcance de vigilância e armas.

MULDER: - ???

VICTORIA: - Iço!!!!!!!!!!!!! Nah!!!!!!

THE GOLD COIN (OFF): -Cale a sua boca, coisinha babante! Tonto Mulder... Mas eu não o menosprezo. Se Deus escolheu que Cristo nascesse entre os judeus, aprendi a desconfiar deles. Algum motivo Ele teve.

MARGARET: - Eu vi seu amigo policial do outro lado da rua. Levei bolinhos pra ele. Fox... Me promete que vai rezar.

MULDER: - Eu... Tá certo, Meg. Eu rezo.

MARGARET: - E me prometa isso: vai dar mais atenção a Dana, nem que tenha que atrasar seu serviço.

MULDER: - Mas eu dou atenção pra ela...

MARGARET: - Me prometa, Fox. Estou preocupada com ela, Dana está se sentindo trocada e eu sinto que agora não é capricho. Não dê margens pra desavenças dentro do seu sagrado lar. E nem deixe coisas ruins entrarem aqui. Sabe que se convidar, elas entram. E depois que entram, entram sempre, mesmo sem serem convidadas.

MULDER: - Eu prometo, Meg... Quer carona?

MARGARET: - Não, já tem um táxi me esperando.

Mulder passa por Meg. Meg põe as mãos no peito, angustiada. Fecha os olhos.


BLOCO 2:

Residência dos Mulder - 11:44 P.M.

Mulder põe as mãos na cintura. Scully sentada no sofá, Victoria chorando no colo dela, olhando pro canto da sala, apavorada.

Foco nas pernas de The Gold Coin, que observa em silêncio, parado no canto da sala, brincando com a moeda.

MULDER: - Como assim 'não vai'? Scully é trabalho, não podemos deixar de ir.

SCULLY: - Eu não vou! Eu tenho uma vida também! Nunca saímos, nunca nos divertimos! Quando isso acontece, temos que acabar com nossa diversão porque o trabalho nos chama!

MULDER: - ... (CHATEADO) Eu vou sozinho então e cubro sua ausência, 'parceira'. Fique em casa e eu entro em contato com você no que precisar. Se é que posso fazer isso.

Scully tenta acalmar Victoria que continua chorando. Mulder olha desconfiado pra porta.

MULDER: - Pinguinho, não devo sair?

VICTORIA: - Ox, iço! Mama!

SCULLY: - (IRRITADA/ AOS GRITOS) Para com isso! Ela deve estar chorando porque o pai dela é um animal, um bicho que não pode dar atenção pra família porque tem que ir caçar bandidos e coisas doentias! O trabalho em primeiro lugar sempre!

MULDER: - O que está havendo com você? Hein? Não é um caso de avistamentos de Óvnis! Estamos falando de uma mulher que matou a família!

SCULLY: - ... (AOS GRITOS) E moscas assassinas. É isso? Sempre você! Sim, em primeiro lugar o Mulder, o todo-poderoso, o maravilhoso e imbatível. Sempre o trabalho, sempre os Arquivos-X! Tudo sempre em primeiro plano, menos eu! Sabia que tenho consulta marcada amanhã com o meu psicólogo? Sabia que estou tentando assimilar a vida nova que eu tenho e ainda não consegui? Não, você não sabe, Mulder. Você só sabe das suas prioridades. As minhas não, elas vão ficando.

Mulder se atira no sofá. Victoria continua berrando.

MULDER: - Não vou mais. Pronto. Se é pra ficar nessa discussão toda, eu não vou mais. Vou ligar e dizer pra Skinner se virar e colocar outros agentes. Nós vamos ficar aqui, pedimos uma pizza, vemos um filme, colados e grudados até que consigamos ficar enfarados e enojados um do outro de tanto mel!

SCULLY: - (AOS GRITOS) Por que está estúpido comigo? O que eu fiz? Eu atrapalho sua vida? É isso? Não, eu não atrapalho, você pode ir até à puta que o pariu, Mulder, que eu não estou ligando!

Mulder olha pra ela, incrédulo.

MULDER: - Essa coisa suja saiu da sua boca?

SCULLY: - (AOS GRITOS) E nem queira saber quantas coisas sujas eu tenho vontade de te dizer e não é com conotação de excitação sexual!

MULDER: - Por que está gritando desse jeito?

SCULLY: - (AOS GRITOS) Eu grito quando eu quiser porque lá fora você pode ser o machão, o incrível, mas aqui dentro quem manda nessa droga sou eu!

Mulder faz cara de pânico. Victoria se desmancha em prantos. Scully a balança. Ela não para, se joga pra trás. Mulder pega Victoria no colo e anda com ela pela sala.

SCULLY: - (AOS GRITOS) Sai daqui de uma vez! Vá pra Louisiana! Anda! Sai daqui! Vai de uma vez, sua praga desgraçada que só inferniza a minha vida!

Mulder solta Victoria no sofá. Victoria berra estendendo os braços. Mulder encara Scully. A discussão acirra.

VICTORIA: - (AOS PRANTOS/ DESESPERADA) Iço! Iço! Nah! Mama nah! Iço!

SCULLY: - E vamos carregar a menina junto? Pra mim chega! Hora de arrumar uma babá.

MULDER: - Nenhuma babá toca na minha filha! Não confio a segurança dela nas mãos de qualquer um!

SCULLY: - Sim, então é preferível arrastar a pobrezinha pra lá e pra cá!

MULDER: - Pra arrumar uma babá pra Victoria só se fosse um anjo! Tudo bem, Scully. A praga desgraçada aqui vai pra Louisiana. Agora eu só queria entender o que eu estou fazendo de errado, só isso. Porque eu continuo sendo o Mulder. Você é que não é mais a Scully que eu conheci.

Mulder senta-se no sofá, pondo as mãos no rosto.

MULDER: - Já falamos sobre isso, eu sei que é melhor você consultar com um psicoterapeuta que não seja eu, porque estou envolvido em sua vida, entendo que você esteja estressada com tantas mudanças... Mas eu só queria saber porque quem esperou tanto tempo, agora não pode perder uma consulta por um dia. Depois eu sou egoísta. Tudo o que estou pedindo é pra irmos juntos resolver este caso. Só estou pedindo pra fazer o seu serviço. Não tenho culpa alguma se essa merda aconteceu justo hoje que fomos nos divertir.

SCULLY: - ...

MULDER: - Do jeito que você fala, parece que eu sou o culpado! Parece até que planejei tudo, que liguei pro FBI pedindo: pelo amor de Deus, me mandem um caso agora porque estou sentado com minha esposa numa ópera e tudo que eu mais quero é ficar longe dela! Ainda não percebeu que o trabalho só é prioridade porque envolve o sustento da minha família? Hein? Não percebe que eu tenho outro mundo agora que não um porão?

VICTORIA: - (CHORANDO) Iço! Ox, ô iço! Mama! Iço! Nah! Mama nah! Iço!

Victoria se desmancha em lágrimas, desesperada, tentando falar, agitando os braços, vendo os dois brigarem. Scully senta-se ao lado de Mulder. O abraça, em lágrimas.

SCULLY: - Mulder, me perdoa... E-eu... Eu não sei porque eu disse essas coisas, porque agi assim. Me desculpe... E-eu não sei o que há comigo, estou estressada, digo coisas que magoam você e...

Victoria para de chorar. Abre um sorriso, aliviado. Os dois olham pra ela.

MULDER: - Pobrezinha da menina... Isso não é o ambiente que eu queria dar pra ela. Foi o mesmo ambiente que eu tive quando criança. Isso é traumatizante, acredite.

SCULLY: - ... (CULPADA) A culpa foi minha. Filhinha, me perdoa.

VICTORIA: - Nah! Iço!!!!

Mulder olha pra Scully. A envolve nos braços. Victoria abre um sorriso mostrando os dentinhos.

MULDER: - Eu entendo você. Sei que é pressão demais em cima de uma só mulher... (BEIJA-A NOS CABELOS) Eu só queria que não descontasse em mim ou que pelo menos, quando o fizer, não faça na frente da nossa filha. Ela fica nervosa quando brigamos. Ela não gosta, começa a chorar.

SCULLY: - Será isso?

MULDER: - Claro que é. Olha pra ela, agora que estamos aqui juntos ela está sorrindo... Ei, nasceu mais um dentão pra morder meu nariz na madrugada!

Victoria rindo pra eles, fecha os olhinhos. Scully levanta-se e pega a menina. Abraça-a com força, a beijando. Senta-se ao lado de Mulder. Põe Victoria em seu colo.

SCULLY: - (SORRI) Faz bichinho pro papai, faz, neném.

Victoria franze o nariz, fazendo careta. Mulder sorri. Dá um selinho na boca de Victoria e outro na de Scully.

SCULLY: - Vou pegar as minhas coisas e as de Victoria. Ponha o carrinho dela no carro, tá?

Os dois trocam um beijo. Scully entrega Victoria pra Mulder e sobe as escadas. Mulder olha sério pra Victoria.

MULDER: - O que quer dizer com 'Iço'?

VICTORIA: - Iço! Ahm na nannana... le... a... mama!

MULDER: - Deixa pra lá... Um dia você me explica.

THE GOLD COIN (OFF): - Percebe o que está se armando aos poucos para Mulder e Scully, e todos que os rodeiam? Viu como dói saber a verdade? Saber e não poder falar? Ter que assistir a tudo e torcer para que meu plano não dê certo? Agora que você sabe, faz parte disso, está envolvido, viverá com isso e verá todas as entrelinhas que queria ver... Você verá onde eles erram, onde eles acertam, conhecerá suas essências e terá a certeza de onde eu estou agindo. Suas deduções serão certeiras. Apenas não apague as luzes. Estou te observando. Estou em todos o lugares e ninguém pode me ver.

The Gold Coin passa através da parede, indo embora.


Esconderijo de Alex Krycek - 1:23 A.M.

Frohike fecha a geladeira, com o fardo de latinhas de cerveja na mão.

Foco nas pernas de Frohike que passa através de The Gold Coin sem percebê-lo.

Byers sentado em um caixote, pensativo, ao lado de Langly, que observa a todos com apreensão. Krycek em pé, junto à mesa. Retira uma fita K7 do bolso. Olha para Frohike. Então aperta um botão no rádio-gravador, abrindo o deck da fita. Insere a fita. Frohike abre uma cerveja, nervoso. Krycek aperta o 'play'.

BARBARA WALLACE (OFF): - Vamos começar? ... Certo. Bem, quero primeiramente agradecer sua generosidade em conceder esta entrevista. Sei que evita comentários na imprensa, não gosta de sua vida publicada nas manchetes sensacionalistas...

THE GOLD COIN (OFF): - Quero dizer que só aceitei esta entrevista, Srta. Wallace por se tratar de um jornalismo sério. Um veículo de comunicação idôneo.

BARBARA WALLACE (OFF): - Fale um pouco sobre você, Sr. Alberthi. Um gênio da produção cinematográfica com tantos prêmios, pai de diversos astros de Hollywood que hoje fazem parte da calçada da fama... Você conseguiu tantos méritos e opta por ficar à margem da glória hollywoodiana... Como isso aconteceu?

THE GOLD COIN (OFF): - Aprendi que o segredo da coisa toda, minha cara, é manter-se desconhecido. Desconhecidos não atraem problemas, atenção em demasia e por consequência, não atraem curiosos e invejosos. Embora a inveja faça parte da vaidade, um dos meus pecados preferidos.

Frohike olha para Krycek.

BARBARA WALLACE (OFF): - Como agente de tantos grandes talentos em Hollywood e também produtor de filmes muito consagrados, qual é o segredo do seu sucesso?

THE GOLD COIN (OFF): - Conhece pedras preciosas, Srta. Wallace? Quando brutas, não distinguimos seu real valor. Mas quando as polimos, como merecem, lindos diamantes podem surgir diante de nossos olhos. Assim são os talentos.

BARBARA WALLACE (OFF): - O senhor sempre foi conhecido por ter um olho clínico quanto a estrelas. E por jamais perder seus contratos. Isso é um dom natural?

THE GOLD COIN (OFF): - A vida é uma eterna negociação, minha cara, entre quem oferece a oportunidade e quem paga o preço por ela. Fama e poder tem preços altos. Mas é muito mais fácil conseguir do que supomos.

BARBARA WALLACE (OFF): - Pode me dizer quando começou a se interessar pela arte? Foi quando criança? Seus pais o apoiaram desde pequeno?

THE GOLD COIN (OFF): - Pra dizer a verdade, sempre me interessei pela arte. A arte é um meio para um fim. (SORRI) Não tenho pai, senhorita Wallace. Fui rejeitado como o filho rebelde. Ele não me ama mais. Mas... Eu não me importo com isso.

Krycek pega uma cerveja. Abre-a. A fita começa a emitir ruídos e nada mais se escuta. Krycek desliga.

KRYCEK: - Deste trecho em diante, simplesmente a fita se desmagnetizou. Apenas ruídos.

FROHIKE: - Que diabos é isso? Faz sentido?

KRYCEK: - Não o faz pra vocês? Pra mim faz todo o sentido!

Eles se entreolham. Frohike larga a cerveja. Levanta-se.

FROHIKE: - Me dê essa fita. Vou analisar esses ruídos e aí sim direi se fazem sentido ou não, porque estas palavras não me soam de alguém que pertence a uma conspiração.

KRYCEK: - Como não? Vocês não entenderam nada?

LANGLY: - O cara tá falando baboseiras de cinema. Pode ser um código...

KRYCEK: - Eu não acredito que vocês não perceberam nada! Está ali nas entrelinhas a real natureza desse sujeito!

BYERS: - Sim, um produtor de cinema. Ele está mentindo, está metido na conspiração, isso é só uma maneira de...

KRYCEK: - Não! É mais do que isso!

FROHIKE: - Então me diga o que não entendemos, já que nosso departamento se limita a ETs e tecnologia.

KRYCEK: - Eu sei quem ele é. Ele é um tremendo satanista!

Langly e Byers se entreolham. Frohike olha pra Krycek.

FROHIKE: - Vou dizer uma coisa, Alex Krycek. Estou aqui perdendo meu tempo com você e suas baboseiras em consideração a Mulder, porque eu ainda tenho memória e olhos bem abertos sobre quem você é!

KRYCEK: - Eu não creio que pensam que estou enganando Mulder plantando pistas falsas! É isso o que estão pensando?

FROHIKE: - Escute o que vou dizer. Mulder pode cair na sua jogada porque ele acredita em qualquer coisa. Mas se depender de mim, eu vou abrir os olhos do meu amigo. Ele deve te chamar de 'rato' por um bom motivo.

KRYCEK: - Sim. Porque a palavra Krycek em russo significa rato.

Frohike sai batendo a porta. Langly olha atravessado pra Krycek.

LANGLY: - Demônio... Era só o que faltava! (DEBOCHADO) Vou ouvir a gravação de trás pra frente como eu fazia com os discos do Black Sabbath pra ver se encontro mensagens demoníacas.

Langly sai. Byers olha pra Krycek em reprovação. Krycek retira a fita e entrega pra Byers.

KRYCEK: - Considere o que estou dizendo. Por Mulder e Scully.

BYERS: - É difícil pra um mentiroso como você ser considerado depois de tudo. Eu faço o que posso.

KRYCEK: - É. E quem vai acreditar em mim? As pessoas erram, sabia? Mas merecem uma chance na vida pra voltar atrás!

BYERS: - Algumas vezes dar essa chance significa apenas que se vai tomar outro tombo mais forte ainda.

Byers sai. Krycek senta-se num caixote. Pega a cerveja.

KRYCEK: - Isso! Atirem a pedra, já que nunca erraram na vida! É mais fácil acreditar em conspirações que envolvem vida extraterrestre cinza do que em demônios!

THE GOLD COIN (OFF): - Está quase chegando a verdade, Alex. Quem acreditará em você, a não ser Mulder? É ótimo que Mulder acredite em você e por isso perca seus amigos. Depois só resta fazer com que perca você. Sem esposa, sem amigos... Mulder ficará vulnerável, baixará a guarda e eu pego a coisinha babante. Sei seu grande segredo, Alex... Aquele que você esconde no íntimo do seu coração, aquele que semeio aí dentro. E Mulder odiará você quando descobrir essa verdade. Percebe como eu tenho o controle de tudo? É fácil, porque eu sei de tudo. Eu sou a serpente da tentação, tenho vários nomes e nada que venha de mim é bondade.


Delegacia do Condado de Belle – Louisiana - 4:34 A.M.

Mulder e Scully entram na sala de interrogatório. Mulder segurando uma pasta. Melanie está cabisbaixa, fumando, sentada à mesa. O copo de café à sua frente. Scully puxa a cadeira e senta-se de frente pra ela. Mulder escora-se na parede.

SCULLY: - Senhora Carmichael... Sou a agente Scully e este é meu parceiro, agente Mulder. Queremos saber o que aconteceu.

Melanie ergue o rosto, mostrando os olhos inchados e vermelhos de tanto ter chorado.

MELANIE: - Já disse o que aconteceu aos seus colegas todos!

MULDER: - Disse que as moscas mataram sua família. Pode nos esclarecer como as moscas fizeram isso?

MELANIE: - Com mísseis teleguiados.

Melanie começa a rir como louca. Scully olha pra Mulder. Então se indigna e sai da sala, batendo a porta. Mulder senta-se de frente pra Melanie. Põe a pasta sobre a mesa.

MULDER: - Entendo. Já contou isto tantas vezes e em todas elas, quando a porta da sala se fechava, ouviu um 'ela é louca'. Agora prefere ficar em silêncio, afinal, ninguém acredita em você mesmo. Vai pegar pena de morte do mesmo jeito, com ou sem moscas. Mas poderia pelo menos me fazer pegar o verdadeiro culpado disso se realmente amava sua família.

Melanie olha pra Mulder. Mulder abre a pasta.

MULDER: - Pode falar comigo, senhora Carmichael. Eu não estou achando nenhuma graça e não acredito que uma pessoa com seus antecedentes... (OLHA PRA PASTA) ... Não concluiu o primeiro grau, casada há 10 anos, dona de casa, sem ficha criminal, nem multas de trânsito... Você não se encaixa no perfil de maníaca homicida. Pessoas não enlouquecem do dia para a noite.

MELANIE: - Acha que foram as moscas realmente?

MULDER: - Eu quero saber por que diz que foram as moscas. Nenhuma mosca foi encontrada em sua casa. Quando a polícia chegou, encontrou apenas seu marido e seus filhos mortos.

Melanie põe as mãos nas orelhas.

MELANIE: - (CHORANDO) Para! Para! Para!

MULDER: - Se haviam moscas, pra onde elas foram?

MELANIE: - Eu não sei!!!!!! Elas me deixavam doida!

MULDER: - ...

MELANIE: - Elas não paravam de me dizer pra fazer aquilo!

MULDER: - As moscas falavam com você?

MELANIE: - Sim! Elas diziam coisas.

MULDER: - Que coisas?

MELANIE: - Eu não sei... Eu não entendia... Sussurros... Eu... Eu só sentia vontade de matá-los!

Corta para o lado oposto do espelho. Scully e alguns agentes do FBI observam o interrogatório. Algumas vezes os agentes olham para o traseiro de Scully.

AGENTE #1: - Moscas... De onde tiraram esse cara?

AGENTE #2: - Fox Mulder, de Washington. Dos extintos Arquivos X que eu acho que ainda estão abertos. (DEBOCHADO) Mas neguem tudo...

AGENTE #3: - Nunca ouviu falar do Mulder, o Estranho?

AGENTE #1: - Quem chamou esse cara? Ele é mais louco que a própria assassina! Devo soltar a mulher e prendê-lo?

AGENTE #2: - Ora, quem sabe ele tem razão? Você nunca viu aquele filme 'A Mosca'? Quem sabe tem uma mosca mutante, metade homem, metade mosca, voando por aí?

AGENTE #3: - Se tiver, mantenham seus donuts bem longe dela!!!

Eles riem. Scully sai da sala batendo a porta. Eles se entreolham.

AGENTE #1: - Acho que a parceira dele não gostou.


4:56 A.M.

Mulder sai da delegacia. Scully está séria, recostada no carro.

MULDER: - O que foi?

SCULLY: - Nada.

MULDER: - Não quer ir ao fundo disso?

SCULLY: - Não estou me sentindo bem. Essa cidade me enoja e aqueles idiotas lá dentro não tiram os olhos do meu traseiro.

MULDER: - Quem?

SCULLY: - Deixa. Vamos embora.

MULDER: - (ENFEZADO) Quem?

SCULLY: - Ninguém, Mulder. Não arrume confusão. Precisamos dos nossos empregos.

MULDER: - Nomes. Só quero nomes. Juro que não vou arrumar confusão.

Scully entra no carro. Mulder apoia-se na janela.

MULDER: - Só um nome... Por favor. Se não disser, entro lá e bato em todo mundo!

SCULLY: - Desde quando você bate, Mulder? Você sempre apanha, você não é o mocinho convencional dos filmes de Hollywood. Você toma porrada sempre.

MULDER: - Ah, obrigado por me lembrar disso. Chame a ambulância. Porque eu vou apanhar agora.

Mulder volta pra delegacia. Scully sai do carro.

SCULLY: - Mulder!!!!!!!!! Se fizer isso, eu vou embora.

Mulder para. Volta.

MULDER: - Sente-se bem em ser vítima de bastardos?

SCULLY: - Não me importo com nada hoje. Eles só olharam e não tiraram pedaço, você também faz isso com outras. Eu quero ir embora daqui. Entra logo nesse carro. Não gosto desse lugar!

Mulder entra no carro. Liga o carro, revoltado, olhando pra Scully. Scully olha pra Victoria que dorme no banco traseiro.


Belle - Motel e Café – 5:14 A.M.

Scully entra no quarto, empurrando o carrinho. Mulder entra atrás dela, carregando Victoria nos braços. Coloca Victoria no carrinho. Scully se atira na cama.

MULDER: - Deveria ter deixado vocês em Washington... Tinha razão. Fui teimoso.

SCULLY: - ...

MULDER: - Acho que deve pegar um avião e voltar com Victoria. Você não está em condições de trabalhar. Vou solicitar ao Skinner que afaste você por uns tempos.

SCULLY: - Eu não quero me afastar. Eu só estou me sentindo cansada hoje. É só isso.

MULDER: - ... Vou até a casa dos Carmichael. Fique aqui com ela.

SCULLY: - O que vai fazer, Mulder? O FBI já revirou a casa toda.

MULDER: - Talvez não estivessem procurando o que estou procurando.

Mulder beija-a na testa. Abre a porta do quarto.

MULDER: - Pegue um avião. Você tem consulta hoje cedo. Se eu precisar de ajuda, ligarei pra você. Ok?

Mulder sai. Scully vira-se na cama, nervosa.


Residência dos Carmichael – 5:34 A.M.

Mulder retira a faixa de isolamento da porta. Abre a tela e depois a porta. Entra, levando a mão ao interruptor. As luzes não acendem. Mulder retira a lanterna do bolso. Começa a examinar a sala. Percebe o crucifixo invertido na parede. O relógio parado no horário 6:66 P.M. Mulder observa atento o relógio, incrédulo. Vai para a cozinha, mirando a luz da lanterna por sobre os móveis, pelo teto, pelo piso.

Mulder desce as escadas. Observa o porão. Continua procurando pelo chão, pelo piso. Observa a janela do porão.

KRYCEK: - Não sabia que você também gostava de revirar a casa dos outros na madrugada...

Mulder toma um susto. Vira-se, mirando a lanterna em Krycek.

MULDER: - Quer me fazer enfartar?

KRYCEK: - Não seria má ideia... (DESCENDO AS ESCADAS COM UMA LANTERNA) Eu poderia consolar a viúva.

Mulder continua procurando.

KRYCEK: - O que está procurando?

MULDER: - Moscas.

Krycek procura com Mulder. Os dois andando pelo porão.

KRYCEK: - Moscas? Pensei que só procurasse alienígenas.

MULDER: - Sente um cheiro estranho?

KRYCEK: - Sinto. Ia comentar que seu perfume cheira a mofo.

MULDER: - Não é mofo... É algo podre... Não sente?

KRYCEK: - Não sinto nada...

MULDER: - ... Mas tem um cheiro forte aqui...

KRYCEK: - Não sinto. As janelas e portas tem telas. Moscas não entrariam aqui.

Mulder observa o chão.

KRYCEK: - Não acredita que ela tenha enlouquecido, não é mesmo?

MULDER: - Não. (PASSA AS MÃOS PELAS PAREDES) Alguma teoria?

KRYCEK: - Nosso amigo é satanista.

MULDER: - Bingo! Estava pensando em satanismo. Viu o relógio na sala? A cruz invertida?

KRYCEK: - Estou falando de Mr. B. A. Alberthi. Se não for o diabo em pessoa... Mas como não acredito que o diabo tenha forma humana...

Mulder olha pra Krycek.

KRYCEK: - Talvez me ache tão doido quanto seus amigos.

MULDER: - Frohike me ligou. Disse que você está tentando me afastar da verdade como sempre. Que tem dedo do governo nisso e que se eu insistir em acreditar em você e suas teorias satânicas, vou me ferrar e os rapazes vão ficar contra mim. Até Skinner está retaliando nossa ligação.

KRYCEK: - Então faça sua escolha. Eles não querem mais minha ajuda. Fique com seus amigos de sempre, eles nunca te traíram. Eu era seu inimigo, como vai confiar cegamente em mim mais do que neles?

MULDER: - Conseguiu provas concretas de que Alberthi é satanista?

KRYCEK: -Não, mas as coisas que ele disse a Barbara Wallace numa entrevista... Eu peguei leve com seus amigos começando a sugerir que ele é satanista. Imagina se eu sugerisse que pode ser o diabo? A fita está com os Pistoleiros para análise.

MULDER: -O diabo é meio absurdo, não acha? Eles não acreditariam em você, sabe disso. Eles não ligam pra essa coisa de paranormalidade. Não é a área deles...

KRYCEK: - Não é por isso. Não confiam em mim e vão tentar convencê-lo do contrário. Não posso condená-los por isso.

MULDER: - Amicus certus in re incerta cernitur.

KRYCEK: - O que é isso?

MULDER: - O amigo certo se manifesta na ocasião incerta. Quer dizer que o Sindicato agora utiliza magia negra para assustar as pessoas?

KRYCEK: -Não. Mas acho que esse caso tem ligação com "Mr. Alberthi Topo da Pirâmide".

MULDER: - Então temos a mesma teoria. Já vimos acontecer.

Mulder sobe as escadas.


5:46 A.M.

Mulder mira a lanterna sobre a cama de casal. O colchão empapado de sangue. Krycek anda pelo quarto, observando a janela.

KRYCEK: - Imagine você dormindo e de repente a sua mulher acaba com você na maior covardia a facadas...

MULDER: - Não deve ser uma sensação agradável acordar e ver a cena. Aposto que a incredulidade foi sua última reação.

KRYCEK: - Janelas com telas... Por que procura moscas, Mulder?

MULDER: - Belzebath ou Baalzebu, mais vulgarmente conhecido como Belzebu, antiga divindade Síria, citada na própria Bíblia. Termo em hebreu que significa 'O Senhor das Moscas'. Um demônio, responsável por assassinatos. Na demonologia, ele é o primeiro ministro dos espíritos malignos, abaixo do próprio Satanás. Mandou as moscas arruinarem a colheita e o povo de Canaã prestava-lhe homenagem na forma de uma mosca.

KRYCEK: - Não gostaria de dar de cara com uma coisa dessas.

MULDER: - Melanie Carmichael não inventaria moscas nessa história. Ela não teria conhecimento sobre o assunto. E por que inventaria logo moscas?

KRYCEK: - É. Não faz sentido...

MULDER: - Belzebu é uma inteligência desumana. Isso não significa que seja muito mais inteligente que nós. Na verdade, esse demônio tem um alcance mental muitíssimo limitado, e é isso que o torna diferente e caracterizado em relação aos outros seres do Inferno. Por não exercer qualquer tipo de raciocínio inteligente, segue instintivamente um desejo ignorante e impensado de destruir qualquer tipo de vida, qualquer obra da Criação.

KRYCEK: - É. Deveria ter estudado religião...

MULDER: - Ele dirige os demônios da poluição moderna, de todas as pestes e novas doenças, infecções, contágios, incluindo espirituais, como obsessões. No texto bíblico, os espíritos que se autodenominaram Legião eram dirigidos por Belzebu. Seus subalternos são entidades baixas e primitivas, assim como ele. Com prazer, Belzebu inspira o terrorismo e a crueldade contra crianças. Explicaria o 666 da besta estampado no relógio da sala e o assassinato das crianças... Percebeu qual a economia do condado de Belle?

KRYCEK: - Laranjas. É uma cidade produtora de laranjas.

MULDER: - Frutas. Frutas atraem moscas. E as moscas se multiplicam onde há decomposição. E se percebeu mais ainda quando veio pra cá, não há uma só laranjeira que não esteja empestada por pragas. Acredito que uma maldição ou algum rito tenha sido feito para destruir a colheita do povo de Belle.

Mulder observa a cama.

MULDER: - Me ajude a empurrar isso.

Krycek e Mulder empurram a cama. Mulder mira a lanterna no assoalho.

Close no pentagrama desenhado no chão. Mulder olha pra Krycek.

MULDER: - Bingo, rato. Temos um Arquivo X.


Belle – Motel e Café – 6:19 A.M.

Mulder entra no quarto sem acender a luz.

MULDER: - Scully, temos um...

Mulder acende o abajur. A cama vazia. Mulder olha pelo quarto. Nem o carrinho de Victoria, nem a mala de Scully. Mulder sai do quarto.

Krycek parado na varanda.

KRYCEK: - O que foi?

MULDER: - Minha parceira voltou pra Washington.

KRYCEK: - ... Estão com problemas conjugais, Mulder?

MULDER: - Muitos. Scully está diferente comigo. Fria, nervosa, grita por qualquer coisa. Nem parece ela mesma.

KRYCEK: - Sei que vai parecer loucura, Mulder. E sei que convencer Scully a fazer isso será algo pior ainda. Mas já pensou na hipótese de terem implantado algum chip nela? Já vimos isso acontecer.

MULDER: - Isso está me batendo na cabeça todos os dias. Mas como vou pedir a ela que faça exames? Vai me espancar.

KRYCEK: - Não esfaqueando você, já é lucro.

MULDER: - (PÂNICO) ... Acha que...

KRYCEK: - (RINDO) Mulder, deixe de ser doido. Foi uma piada!

MULDER: - Não... Não é contra a Scully. Estão tentando nos confundir, rato. O que eles sempre quiseram é minha filha. Agora eles não tem mais motivos pra perseguirem Scully.

KRYCEK: - Mas por que o Fumacinha falou que estava de olho em Scully?

MULDER: - Por que quer nos despistar?

KRYCEK: - Ou desconfia de alguma coisa e quer protegê-la?

MULDER: - E se estivessem fazendo magia contra Scully como fizeram contra Melanie Carmichael?

KRYCEK: - ... Volta pra Washington, Mulder. Scully nunca me deixaria entrar no quarto dela e empurrar a cama sem antes me acertar um tiro na cabeça.

MULDER: - Conhece outra maneira que não magia ou algum chip implantado pra fazer a pessoa perder a noção da verdade?

KRYCEK: - Conheço. Assista Oprah por um mês consecutivo e terá uma lavagem cerebral.

MULDER: - Acredita que minha paranoia é tão grande que cheguei a checar os registros do psicólogo de Scully?

KRYCEK: - E daí?

MULDER: - Nada. Não encontrei ligações dele com o governo.

Mulder pega o celular. Aperta uma tecla. Olha pra Krycek.

MULDER: - Conheço alguém que pode convencer Scully a fazer qualquer coisa sem questionar nada.


Residência dos Mulder – Virgínia - 8:39 A.M.

Scully, sonolenta, abre a porta. Meg entra.

SCULLY: - Mãe? O que faz aqui tão cedo?

MARGARET: - Eu vim tomar conta de Victoria pra você ir ao terapeuta.

SCULLY: - Mas é muito cedo!

MARGARET: - Bom, vim pro café.

Meg vai pra cozinha. Scully olha desconfiada pra ela. A segue. Meg liga a cafeteira.

MARGARET: - De fato estou preocupada com você.

SCULLY: - Me sinto bem melhor.

MARGARET: - Devia seguir meu conselho e fazer uma tomografia, raios X, qualquer coisa.

SCULLY: - Acha que bati a cabeça?

MARGARET: - Não. E se colocaram outra daquelas coisas em você?

SCULLY: - (ASSUSTADA) Outro chip?

MARGARET: - Deveria ver isso, Dana.

Scully senta-se. Põe as mãos no rosto.

SCULLY: - Mas como eles fariam? Nos últimos tempos Mulder não desgruda os olhos de mim!

MARGARET: - Eu sei que não. Sei que Fox toma conta de você e também sei que você não tem sido complacente com ele.

SCULLY: - Como sabe disso?

MARGARET: - Encontrei um passarinho que me contou.

SCULLY: - Ellen boca grande!

MARGARET: - Não a culpe, está preocupada com você. É uma ótima amiga. Só quer o seu bem.

Scully levanta-se.

SCULLY: - Vou trocar de roupa. Antes de ir a terapia vou passar no hospital.

Scully sai da cozinha. Meg respira aliviada.


BLOCO 3:

Delegacia do Condado de Belle - Louisiana - 9:17 A.M.

Mulder observa os policiais e os agentes do FBI que disfarçam o riso.

MULDER: -(SÉRIO) Contei alguma piada que não percebi?

AGENTE #1: - Satanistas? Nessa cidadezinha? Nem satanistas viriam pro fim do mundo!

Os policiais locais se entreolham irritados.

AGENTE #2: - O que vai fazer agora, agente Mulder? Vai chamar seu anjo da guarda?

MULDER: - (DEBOCHADO) Não sei. Estou em dúvida.

Eles ficam sérios, olhando boquiabertos pra Mulder.

MULDER: - Segundo minha data de nascimento, meu anjo da guarda é Iah-Hel, regido pelo Arcanjo Miguel, da justiça, protetor do mundo. Mas algumas coisas me dizem que tenho como padrinho o Anjo Gabriel. Portanto, não brinquem comigo. Gabriel pode ter anunciado a salvação, mas ele também fez o serviço sanguinário. Ele é o Cavaleiro Negro do Apocalipse. Afinal, alguém precisa varrer a escória do universo? E não são os Homens de Preto.

Os agentes do FBI saem da sala, indignados. O delegado se aproxima.

DELEGADO: - Essa merda toda que você contou sobre satanistas tem algum fundo de verdade?

MULDER: - Se não acredita em mim, verifique a casa dos Carmichael.

DELEGADO: - Olha aqui. Espero que aqueles três agentes imbecis não estejam nesse caso.

MULDER: - Não. Eu estou chefiando as investigações e pedi para ficar sozinho nisso.

DELEGADO: - Prefiro um doido varrido como você por aqui do que três sujeitos mal educados. Fim do mundo é o fundilho deles! E que diabos era aquela terra que você mandou pro laboratório de análises?

MULDER: - Não sei. Foi usada para desenhar o pentagrama. Quando o FBI conseguir me dizer de onde ela veio, pode ser que eu descubra de onde vem esses satanistas.

DELEGADO: -(PREOCUPADO) Já ouvi muitas coisas sobre satanistas. E se estiverem por aqui, agente Mulder, eu quero ser o primeiro a saber, pra varrer essa gentinha da minha cidade.

O delegado sai da sala. Mulder respira fundo.

MULDER: - (DEBOCHADO) Aos 20 anos a reação das pessoas diante das minhas teorias eram a mesma de hoje. Aos 30 também. Por que tenho a sensação estranha de que vou chegar aos 80 sendo olhado do mesmo jeito?


Clínica Patterson – Virgínia - 11:14 A.M.

Close no quadro com a frase 'MENS SANA IN CORPORE SANO'.

Scully sentada no sofá. Patterson, um homem de pouco mais de 40, cabelos já bem grisalhos, sentado numa poltrona, de frente para Scully.

DR. PATTERSON: - Dana, percebeu alguma mudança em seu comportamento desde nossa primeira conversa?

SCULLY: -Pensei ter feito progressos, Dr. Patterson... Mas... Ontem tive uma briga com meu marido por motivos de trabalho. Depois de tudo, me senti culpada.

DR. PATTERSON: - Disse a ele coisas que não queria dizer.

SCULLY: - Sim. Novamente aquela cegueira, aquela vontade de magoá-lo...

DR. PATTERSON: - Dana, não pode ser que seja a maneira como você encontrou inconscientemente de chamar a atenção dele?

SCULLY: - ... Não havia pensando nisso. Sim. Pode ser que seja uma maneira de fazer com que Mulder perceba que existo e tenho minhas necessidades.

DR. PATTERSON: - Dana... Como nossa conversa não tem ajudado muito, creio que podemos obter melhores resultados através da hipnose. O que acha da minha sugestão?

SCULLY: - Hipnose? E-eu... Eu não sei o que me ajudaria se fizesse hipnose.

DR. PATTERSON: - Você relaxaria, deixaria sua mente mais aberta e poderia encontrar dentro de si os fatos que a fazem carregar tanta mágoa, tanta raiva. Assim trabalharíamos nisto particularmente para você superar suas neuroses e poderíamos conseguir melhores resultados. Ou seja: uma Dana mais calma e complacente com a família.

SCULLY: - ... Eu não sei...

DR. PATTERSON: - Sabemos até agora que essas coisas todas que aconteceram com você, refletem num cansaço emocional muito grande. Mas por que essa raiva toda? Quem sabe, algo está guardado dentro de você, que não se recorde, e esteja agora saindo e magoando justamente os que não tem culpa?

SCULLY: - Eu... Eu não sei. Preciso perguntar ao Mulder o que ele acha...

DR. PATTERSON: - Dana... É assim que quer ser independente dele? Ele sempre dá a palavra final em sua vida? Mais uma vez Mulder está certo? Mais uma vez você depende das teorias dele para tomar um rumo?

SCULLY: - ... Definitivamente não. Eu posso decidir o que eu quero.

DR. PATTERSON: - Então pense, Dana. No nosso próximo encontro, se você tiver decidido, partiremos para a hipnose. Se não quiser, não precisamos fazer isso. Só o que estou dizendo é que facilitaria muito mais pra você e lhe revelaria muitas verdades que estão ocultas em seu subconsciente. Seu objetivo é curar-se. Meu objetivo é ajudá-la a fazer isso. Quem ganhará será sua família. Pense na sua filha e no seu marido, Dana. Eles merecem, não?


Condado de Belle - Louisiana - 1:34 P.M.

Mulder estaciona o carro diante do pântano. Ele e Krycek descem. Observam.

KRYCEK: - Tem certeza de que a terra do pentagrama era lodo de pântano?

MULDER: -Foi o que o FBI revelou. E este é o único pântano da cidade. Checou as seitas no estado da Louisiana?

KRYCEK: - Chequei, mas Belle não está na lista dos malucos satanistas. Embora você nunca saiba aonde essas pessoas vão rezar aos domingos... Comunidades pequenas, grandes segredos.

MULDER: - Aprendeu isso na Sibéria?

KRYCEK: - Não. Em Tempestade do Século, de Stephen King.

Mulder tira os sapatos. As meias. Arregaça as calças até os joelhos.

MULDER: - Só tem três coisas que detesto nesse trabalho: correr atrás de suspeitos, perder minha arma e ter que me sujar com coisas nojentas!

KRYCEK: - Boa sorte. Banho de lama não faz parte da minha ideia de tratamento de beleza.

Mulder vai entrando no pântano, com cara de nojo.

KRYCEK: - Mulder, encare assim: Você nunca sabe onde está pisando, nem no quê está pisando. Isso é uma região de caça, pode ter restos de cachorros mortos, animais mortos ou um cadáver de um caçador desavisado.

Mulder vira-se pra ele.

MULDER: - (IRRITADO) Quer calar essa sua boca? Ou vou fazer você revirar essa lama com a cara!

Krycek assovia. Senta-se no chão.

KRYCEK: - Acho que vou até a cidade comprar uma Polaroide e tirar umas fotos suas pra mostrar em alguma convenção de malucos por histórias de terror. Título da exposição: Fanático invade pântano atrás de satanistas.

MULDER: - Quer calar essa maldita boca? (PÂNICO) Pisei em alguma coisa... E é grande.

KRYCEK: - Sabia que aligátores vivem por essas bandas?

MULDER: - (PÂNICO) Sabia que você me deixa mais nervoso do que estou? ... (LEVA A MÃO AO MEIO DO LODO) ... É um pedaço de árvore.

KRYCEK: - Sorte sua.

Mulder continua adentrando o pântano.

KRYCEK: - Mulder, um crocodilo!!!!!!!!

Mulder dá um pulo, tropeçando em algo e caindo no lodo. Krycek se levanta aos risos. Mulder ergue a cara do lodo, numa fisionomia de irritação.

MULDER: - Me aguarde, rato... Eu sei como me vingar. Já bebeu vodca com laxante? Ou já levou uma cantada de uma mulher pelo telefone, dizendo que você fica sexy de jaqueta de couro em pleno verão, marcando um encontro e deixando você plantado no sol, esperando por horas, vestido em trajes de inverno? Acredite, eu posso muito bem armar uma desse nível.

KRYCEK: - (SÉRIO) Mulder... Tem alguma coisa saindo da lama, onde você tropeçou.

MULDER: - Sem graça, rato! Não caio mais nas suas brincadeiras!

KRYCEK: - Mulder, é sério... Tem algo atrás de você!

MULDER: - (DEBOCHADO) Um crocodilo?

KRYCEK: - Não... Parece... Um corpo...

Mulder olha pra trás. Arregala os olhos, dando de cara com um cadáver já em decomposição. Mulder se afasta, ainda agachado no lodo, em cara de pânico.

KRYCEK: - Pântanos podem ser sopas de cadáveres...


Delegacia do Condado de Belle – 2:56 P.M.

Mulder empapado de lama. Krycek ao lado dele. O delegado observa a maca que entra na delegacia com um saco preto em cima.

DELEGADO: - Quem morreu?

MULDER: - Não sei. Já estava morto.

KRYCEK: - Precisamos descobrir a identidade do defunto.

O delegado abre o saco. Faz cara de nojo e o fecha.

DELEGADO: - Não dá pra fazer reconhecimento. Que cheiro!

KRYCEK: - (ARROGANTE) Então, quem sabe, você chama um perito em criminalística para fazer a necropsia?

DELEGADO: - De onde você apareceu?

KRYCEK: - Detetive Checov, Washington. Tenho informações de um satanista da minha área que fugiu pra Belle.

Mulder olha pra Krycek, o reprovando.

DELEGADO: - Acontece, detetive Chec... Chec sei lá o quê, que não temos nenhum legista na cidade. Tem mil habitantes aqui! O último que morreu nessa cidade antes dessa tragédia descomunal, foi o velho Frank, de câncer de próstata há cinco anos atrás!

Mulder abaixa a cabeça. Balança-a negativamente.

MULDER: - Estou perdido...

KRYCEK: - Então arranje um legista na cidade mais próxima.

DELEGADO: - Você dá ordens por aqui?

MULDER: - (CARA DE CHORO) Definitivamente, estou perdido...

Scully entra na delegacia. Mulder ao vê-la abre um sorriso. Scully olha-o de cima a baixo.

SCULLY: - O que aconteceu com você, Mulder?

MULDER: - Fui bancar 'Mulder, o porquinho atrapalhado' pra ver se matava a saudade que estava de você.

Krycek e o delegado se entreolham. Scully sorri.

MULDER: - Scully, encontramos um corpo no pântano. Precisamos descobrir quem é.

SCULLY: - Onde fica a sala de necropsia?

DELEGADO: - Vocês da cidade acham que temos tudo por aqui, não é mesmo? Se quiserem um lugar pra desembuchar aquele cadáver falem com o Benson.

KRYCEK: - Quem é Benson?

DELEGADO: - O dono da funerária.

Mulder, Scully e Krycek se entreolham. O delegado dá as costas.

SCULLY: - Ele falou 'desembuchar'?

KRYCEK: - Olha, eu não faço questão alguma de presenciar esse acontecimento. Estarei no motel se precisarem.

Krycek sai. Mulder olha pra Scully.

MULDER: - Vamos encontrar esse Benson.

SCULLY: -(DESCONFIADA) Mulder... Desde quando está trabalhando com Alex Krycek? Pediu ajuda por que eu precisei ir embora?

MULDER: - Não! Acha que eu trocaria você por ele? Scully, as coisas por aqui estão complicadas. Krycek apareceu e não neguei que precisava de ajuda. Depois, o rato está tão interessado em satanismo quanto nós. Ele está sendo útil.

SCULLY: - Você precisa de um banho, Mulder. Está fedendo!

MULDER: - (DEBOCHADO) Como você é educada, Scully. Quer lavar minhas orelhinhas antes de 'desembuchar' alguém? Ahn?

SCULLY: - (DEBOCHADA) Atreva-se, Mulder. E desembucho você aqui e agora.

MULDER: - (PÂNICO) Au! Boba, feia e chata. Devolva minha arma, não brinco mais de agente do FBI com você!


Funerária Benson - 4:12 P.M.

Mulder, já limpo, parado na frente da funerária, comendo sementes de girassol, apoiado contra o carro. Cara de tédio. Só campo e florestas ao redor.

Benson passa por ele arrastando um caixão. Mulder observa. Benson abre um celeiro e coloca o caixão lá dentro, junto a outros caixões. Mais de 200 caixões lá dentro empilhados. Mulder arregala os olhos, incrédulo. Benson fecha o celeiro e se aproxima.

BENSON: - Ninguém morre nessa cidade. Bem, fora os Carmichael. Pelo menos vendi quatro caixões.

MULDER: - (INCRÉDULO) E por que tem mais de 200 caixões aí dentro?

BENSON: - Nunca se sabe quando pode ocorrer uma tragédia. Estou esperando o furacão Milly. Parece que esse ano vai passar por aqui.

Benson entra na funerária. Mulder fica catatônico, olhando pro céu, nervoso.

MULDER: - Depois, eu é que sou estranho!

Scully sai da funerária. Ao ver Mulder olhando pro céu, olha pro céu também.

SCULLY: - O que está olhando?

MULDER: - Nada. E então? Conseguiu descobrir a causa mortis?

SCULLY: - Sim.

Scully ergue ironicamente um plástico contendo uma bala de espingarda. Mulder põe a mão na cara.

MULDER: - Rato desgraçado! Ele tinha razão. É apenas um maldito caçador!

SCULLY: - Agora é entregar o laudo e o delegado que descubra qual dos seus cidadãos está faltando na comunidade há pelo menos três meses. Com certeza não é alguém que sentiriam falta, como o padre, o coveiro, o dono do bar local, o prefeito...

MULDER: - Scully... Me faz um favor? Para o bem da minha sanidade mental?

SCULLY: - Qual? Compro uma fazendinha com porcos por aqui, de acordo com o seu sonho?

MULDER: - Não. Vamos tomar um banho bem quente, pedir alguma coisa pra comer e depois vamos nos comer, porque eu estou ficando sinceramente irritado com essa gente!

SCULLY: - (RINDO)Oba! Gostei da ideia!


Belle – Motel e Café – 6:17 P.M.

Mulder e Scully nus entre os lençóis. Mulder abraçado em Scully, que está de costas pra ele.

MULDER: - Como foi a terapia hoje? Sentiu-se melhor?

SCULLY: - ... Sim.

MULDER: - Acha que está ajudando você realmente?

SCULLY: - Por quê? Não acha?

MULDER: - Você andou um pouco mais calma, mas ontem... Admito, eu também acabei perdendo a paciência. Não tenho tornado as coisas mais fáceis pra você.

SCULLY: - Não, Mulder. Você não deve se culpar, porque eu estou agindo errado e não você. E quem não perderia a paciência com uma louca gritando ao lado?

Mulder a beija no ombro. Faz carinhos com as pontas dos dedos nela.

MULDER: - Você não é louca. É apenas a minha Scully. E eu amo essa minha Scully.

Scully sorri. Trocam um beijo.

SCULLY: - Estou me esforçando pra recuperar muito de mim que perdi nesse tempo, Mulder.

MULDER: - Crises acontecem, Scully. Você sabe disso. Somos seres humanos, falíveis. Nada é perfeito. Algumas vezes se precisa cair, berrar, gritar. Limpar os pulmões.

SCULLY: - É raro você fazer isso.

MULDER: - Pode ser raro eu gritar, mas você já me viu fulo descontando em qualquer objeto ao alcance do meu pé. Homens, Scully. Mulheres gritam, esperneiam, são mais sexys até mesmo quando descontam a raiva. Homens já saem no chute feito animais selvagens.

SCULLY: - (SORRI) ...

MULDER: - Pinguinho ficou com Meg?

SCULLY: - Ficou... Mulder, eu... Eu fui ao hospital fazer radiografias. Mamãe sugeriu que eu pudesse estar com algum chip, sei lá.

MULDER: - (APREENSIVO) E...?

SCULLY: - (SORRI) Nada. Só mamãe pra ter essas ideias malucas.

MULDER: - A ideia foi minha. Não posso mentir.

Scully olha pra ele.

MULDER: - Não sabia como você reagiria se eu pedisse pra fazer isso. Desculpe, envolvi sua mãe...

SCULLY: - Como eu reagiria? Do mesmo modo!

MULDER: - Fiquei com medo de você brigar comigo e...

Scully vira-se pra ele. Beija-o. Passa os dedos nos lábios de Mulder.

SCULLY: - Eu te amo.

Mulder sorri. Scully sorri. Aumenta o sorriso aos poucos de alegria pra sacanagem. Mulder a olha com curiosidade.

MULDER: - O que foi?

Scully desce pra baixo dos lençóis. Mulder fecha os olhos, rindo.

MULDER: - Traidora. Ganha minha confiança pra molestar o meu bichinho.

SCULLY: - Bichinho? Desde quando isso é bichinho, Mulder? E não estou molestando nada. Estou acordando.

MULDER: - (DEBOCHADO) Contanto que depois de acordar o bichinho você não acorde o motel inteiro por causa dele...


7:34 P.M.

Baba sai pela porta dos fundos do café. Seca as mãos no avental. Olha para as estrelas, num olhar triste.

BABA: - Onde vocês estão? Estão bem? Sinto saudades...

Ela derruba lágrimas. Continua olhando para as estrelas.

BABA: - Eu deixei os presentes de natal na árvore, como deixo todos os anos... Caso vocês voltem... (SORRI TRISTE) Estou aqui nesse maldito lugar, apenas esperando por vocês. É a esperança que me prende nesse fim de mundo...

DONA DO CAFÉ (OFF): -(GRITA) Onde está você, Baba, sua negra imprestável? Tem clientes esperando os hambúrgueres!

Baba fecha os olhos, derrubando lágrimas. Seca-as rapidamente. Entra no café.


8:29 P.M.

Mulder, com cara de sono e só de calças, abre uma fresta da porta. Krycek parado ali.

KRYCEK: -Fiz um levantamento da colheita deste ano no condado de Belle. Completamente arruinada. Com exceção... De uma única fazenda. Quer comer algumas laranjas ou vou até lá sozinho?

Mulder pega a camisa do chão e sai se vestindo, fechando a porta.


9:38 P.M.

Mulder e Krycek atravessam a plantação de laranjeiras, esquivando-se pelo escuro. Param perto da casa.

KRYCEK: - Oficialmente não seria mais conveniente bater na porta?

MULDER: - Pra ouvir 'Não sabemos de nada!'? Não, rato. Não estou a fim de perder tempo. Tem coisa aqui e isso qualquer imbecil poderia dizer.

KRYCEK: - Se são satanistas... Precisamos de um flagrante delito.

MULDER: - Vamos dar uma checada por aí. Eu vou pela direita e você vai pela esquerda, já que é russo.

Krycek olha pra ele, em reprovação. Mulder sai pela direita.


9:46 P.M.

Mulder, encostado contra a parede, observa o interior da casa pela janela. Ambiente rústico e bem decorado. Mulder tentar espiar o alto da escada, mas um rifle encosta-se ao rosto dele. Mulder ergue as mãos.

BRUBACKER: - Está enrascado, cara.

MULDER: - Sou do FBI. Tenho identificação no bolso das calças. Mas se meter sua mão no meu traseiro, quem vai estar enrascado é você, 'cara'.

Brubacker se afasta, ainda apontando a arma. Mulder puxa a credencial. Brubacker checa com os olhos. Abaixa a espingarda. Mulder observa a espingarda.

BRUBACKER: - O que o FBI quer na minha fazendo esquivando-se pelo meio da noite?

MULDER: - (DEBOCHADO) Checando armas sem licença. Você é o dono da fazenda?

BRUBACKER: - Sou. Vamos entrar, o tempo está pra chuva.


10:04 P.M.

Mulder observa a coleção de esculturas e quadros de formas angelicais demoníacas. Brubacker serve dois uísques. Entrega um pra Mulder. Mulder recusa.

MULDER: - Não bebo em serviço.

BRUBACKER: - Deveria é não mentir em serviço.

MULDER: - Gosta de arte bizarra?

BRUBACKER: - Sacra. Arte sacra. O Vaticano tem coisas piores dentro da Basílica de São Pedro, como 'esqueletos voadores com foices'. A imaginação criativa na Idade Média concebeu uma figura horripilante para Satanás. Acredite, o Diabo não é feio.

MULDER: - É, e eu aposto que ele ganha todas as mulheres. Qual sua relação com Melanie Carmichael?

BRUBACKER: - A maluca que matou a família? Não está pensando que tenho algo a ver...

MULDER: - Não estou dizendo nada. Preciso de informações.

BRUBACKER: - Harvey, marido dela, era meu contador. Trabalhava aqui no meu escritório.

Mulder detém sua atenção para o escaravelho de bronze sobre a escrivaninha. Aproxima-se. Pega-o na mão.

BRUBACKER: - Gosta de esculturas, agente Mulder?

MULDER: - Tenho interesse por esculturas estranhas. Gosto de escaravelhos. São símbolos da imortalidade. Este é o besouro do esterco. Os antigos egípcios acreditavam que o escaravelho simbolizava a reencarnação.

BRUBACKER: - (SORRI) Mas nenhum deles voltou pra confirmar.

MULDER: - É também símbolo de Belzebu, senhor das moscas. Um símbolo usado dentro do ocultismo para mostrar que seu portador tem poder e é uma fonte de proteção em relação a outros dentro do reino ocultista.

BRUBACKER: - O que quer saber? Pergunte de uma vez que não tenho tempo a perder.

MULDER: - Como conseguiu evitar a praga que assolou a colheita desse ano?

BRUBACKER: - Bons inseticidas, agente Mulder. Comprados legalmente.

MULDER: - Sei... Bom pra você que é o único produtor bem sucedido de laranjas no condado de Belle. Aposto que está ganhando muito dinheiro. Mas vai custar um valor alto demais, não acha?

BRUBACKER: - Não estou sabendo aonde quer chegar com esse assunto. Se está pensando em ocultismo está enganado. Não acredito nessas coisas. Não pode pressupor que pelo meu gosto artístico eu esteja envolvido com satanismo.

MULDER: - Nem mencionei satanismo, senhor Brubacker.

BRUBACKER: - ...

Mulder aproxima-se da porta.

MULDER: - (DEBOCHADO)Boa noite. Voltaremos a falar, acredite.

Mulder sai. Brubacker sorri debochado. Acende um cigarro. Traga fundo e solta a fumaça, enquanto observa as moscas que começam a se juntar na janela.

BRUBACKER: - Mulder, Mulder... Sim, voltaremos a nos falar, seu arrogante imbecil...

Belle – Motel e Café - 11:39 P.M.

Scully aproxima-se e senta-se ao lado de Mulder na lanchonete. Krycek de frente pra eles, observa uma laranja nas mãos. Mulder rabisca num guardanapo com uma caneta.

SCULLY: - Enviei as amostras que coletaram ao agente Forrest. (OLHA PRA MULDER/ SEGURANDO O RISO) Ele pediu desculpas a você e se despediu de mim com um até mais, "Agente Sra. Mulder".

Mulder abaixa a cabeça.

SCULLY: -Teremos uma resposta em breve sobre qualquer fertilizante ou inseticida presentes nas frutas e na terra.

MULDER: - Não tem nada de fertilizante lá, eu sei. São satanistas, Scully. E eu não queria dizer isso pra você.

SCULLY: - Por quê? Por que me impressionaria? Mulder, quero justiça pra aquelas crianças e aquele pobre homem que morreram. Melanie Carmichael cometeu sim um crime, resta agora é sabermos se o fez por vontade própria ou foi induzida.

KRYCEK: - Moscas...

Os dois olham pra Krycek observando a laranja nas mãos.

KRYCEK: - Li em algum lugar que o tempo de vida de uma mosca é de uma semana... Se multiplicam sobre a decomposição... Amaldiçoadas criaturas... Corpos mortos, podridão, esgotos, sujeira, excremento... Lá estão as moscas.

Mulder e Scully o observam.

KRYCEK: - (SORRI) Engraçado... Eu era uma mosca e não sabia.

MULDER: - Isso é hora de filosofar, rato?

KRYCEK: - Se parar pra pensar, moscas também se atraem pelo mel.

MULDER: - (PÂNICO) Abelhas?????

KRYCEK: - Calma, Mulder. Pelo mel, pelo açúcar... São criaturas paradoxas. Tanto se atraem pela sujeira quanto pela doçura. O que procuram em Belle? A sujeira ou a doçura? Se moscas são malditas, o que o mal procura? O lixo ou o doce?

MULDER: -(PENSATIVO) ...

KRYCEK: - Moscas também circundam a morte. Vivem vidas rápidas, fugindo de toda a sorte de inseticidas, chinelos e mata-moscas para durarem apenas uma semana... Um exemplo de persistência de vida?

MULDER: - Odeio moscas. Se vejo uma não sossego enquanto não acabo com ela.

KRYCEK: - Sabem que as moscas são responsáveis por um alto índice de mortandade na África? A mosca-varejeira, transmissora de doenças, que mata centenas de crédulos ignorantes que acham que suas feridas foram infectadas por uma maldição e ficam rezando e consultando feiticeiros para se curarem, acabando direto num caixão. Mais moscas. Moscas também querem sangue. Como querem açúcar. Lixo, como querem limpeza. Já notou como as moscas preferem pousar nas paredes brancas a pousar em paredes coloridas?

SCULLY: - Moscas são insetos úteis. Apesar de proliferarem doenças, as moscas são as melhores amigas da polícia. Pela presença dos ovos em um cadáver ou de larvas, pode-se revelar o tempo da morte.

MULDER: - Por que estamos sentados aqui divagando sobre moscas? Falta do que fazer? Sinal de que estamos perdidos nesse caso?

KRYCEK: - Estou intrigado com essas moscas. Que invoquem Belzebu para proteger uma colheita. Mas por que invocá-lo para influenciar uma mulher a matar sua família? Isso faz sentido pra vocês? Se Harvey Carmichael era apenas contador de Brubacker, com boas referências, se ele tivesse descoberto algum elo do patrão com o demônio teria comentado com a esposa. Mas Melanie não falou nada a respeito disso. Portanto, eles não sabiam. E portanto, se não sabiam, não estavam incomodando Brubacker.

SCULLY: - Então por que fariam Melanie matar o marido e os filhos?

MULDER: - Oferenda? Paixão? Quem sabe ele desejava a mulher do cara?

KRYCEK: - Tem alguma coisa aqui que não se encaixa.

MULDER: - Nada se encaixa.De uns tempos pra cá, desde que voltei pro FBI, parece que tem sempre alguma coisa perdida que não se encaixa. Como se estivéssemos num caso e um segundo caso estivesse paralelo ocorrendo debaixo de nossos olhos, que não conseguimos ver.

SCULLY: - Verdade.

KRYCEK: - Como se alguém estivesse os conduzindo como deseja? Como se alguém estivesse desviando a atenção de vocês usando um caso para encobrir outro caso? Uma mentira fabricada para encobrir uma verdade oculta? Ou duas verdades, uma exposta e outra oculta? Isso seria uma mudança de tática daqueles homens.

Os três se entreolham. Mulder balança a cabeça. Rabisca no guardanapo.

MULDER: - Quer saber? Já que estamos num momento informal por aqui, eu vou dizer uma coisa. É besteira. Eu estou achando sinceramente que perdi o pique disso tudo. Tenho me olhado no espelho e não sou mais um garoto doido correndo atrás da verdade. Estou entrando na metade da minha vida e começo a sentir que nem mesmo o meu corpo corresponde ao que correspondia antes. Parece que os criminosos ficaram mais rápidos do que eu.

KRYCEK: - Por que acha que estou fazendo exercícios físicos? Tenho medo de envelhecer.

MULDER: - O meu medo em relação à velhice é de que o meu corpo envelheça e não acompanhe mais o meu cérebro. Imagina uma mente jovem num corpo velho, limitando você a fazer o que sua mente pensa? Isso deve ser muito frustrante! Minha filha adolescente me convidando pra uma festa muito doida e eu querendo ir, mas se dançar um pouco, a artrite ataca? Entendem?

Scully pensativa, observa a laranja nas mãos de Krycek. Mulder olha pra ela.

MULDER: - O assunto está aborrecendo você?

SCULLY: - Não. Pra dizer a verdade estava pensando nisso. É o que penso todos os dias. Nada é para sempre. Não podemos correr pra sempre na mesma direção. Não podemos cultivar o marasmo em nossas vidas. A morte é algo inevitável. Ideologias mudam com a idade, amadurecemos como essa laranja. Um dia nos tornamos podres e voltamos a terra. E o que levaremos disso?

MULDER: - Deixaremos apenas nossas sementes. Eu cheguei a essa conclusão vivendo com você, Scully. Percebo que um lado jovem dentro de mim fica insistindo nessas loucuras, mas me pego querendo estar em casa com minha filha.

SCULLY: - E eu fico aborrecida de pensar que um dia vou ter que estar em casa o dia todo, mas que gostaria de continuar pro resto da vida nessa loucura. Acho que a situação inverteu, Mulder.

KRYCEK: - Um homem é como uma árvore. Ele morre, resta apenas sua espécie. Verdade incontestável quem disse que devemos plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. São as únicas coisas que sobrevivem com o tempo deixando um pedaço de nós. Talvez isto seja a imortalidade. Nada mais do que isso.

SCULLY: - ... Preciso plantar a árvore.

KRYCEK: - (SORRI) Estou mais atrasado que vocês. Não fiz nenhum dos três ainda.

MULDER: - Agora fale aqui entre nós, rato. Sai ou não sai alguma coisa com aquela jornalista?

KRYCEK: -(ASSUSTADO) De onde tirou essa ideia, Mulder?

MULDER: - Ela tem uma quedinha por seu informante misterioso. Eu que sou tonto percebi. Ficou me fazendo um monte de perguntinhas sobre você.

Scully abaixa a cabeça e segura o riso.

KRYCEK: - Não estou a fim, Mulder. Estou numa fase de reflexão e assimilação da minha vida. Enquanto não curar a mim mesmo, não posso me envolver com ninguém.

SCULLY: - Pois deveria. O amor, assim como o ódio, podem transformar uma pessoa.

KRYCEK: - Eu sei muito bem disso. Pode acreditar que eu sei.

Mulder disfarça, rabiscando no papel. O delegado entra na lanchonete. Aproxima-se.

DELEGADO: - Acabo de receber a identificação do cadáver que encontraram no pântano. É do velho Larson. Era piloto, bêbado completo, gostava de caçar. Deve ter tomado um tiro confundido com algum animal no pântano.

MULDER: - Piloto? Piloto exatamente do quê?

DELEGADO: - Espalhava inseticida nas plantações. Claro que ninguém deu falta dele. A peste tomou conta há meses. Ficou sem serviço. Estranho foi o senhor Brubacker não ter comentado nada sobre o desaparecimento de Larson.

KRYCEK: - Estranho por quê?

DELEGADO: - Larson era o piloto particular dele.

Mulder e Scully se entreolham.

MULDER: - Agora temos um mandado de prisão preventiva.

KRYCEK: - Eu disse que pântanos podiam ser produtivos, Mulder.

SCULLY: - Mas infelizmente precisamos de provas, Mulder. Precisamos de um mandado de busca na propriedade dele. A coisa toda apenas começou.

Os três se levantam rapidamente, saindo da lanchonete com o delegado.

Close no guardanapo que Mulder rabiscava: B. A. Alberthi. Baalberthi. Baalberith.

Corta para a cozinha da lanchonete. O prato cai ao chão, derrubando as fritas. A proprietária se aproxima.

DONA DO CAFÉ: -Você está virada numa pateta hoje, sabia? Não conseguiu fritar um hambúrguer direito e eu preciso de uma cozinheira que seja exímia aqui dentro! O que está havendo com você?

O foco sobe pelas pernas negras. Baba com as mãos na cintura. Olha debochada pra ela, sacudindo as tranças rastafáris.

BABA: - Já ouviu falar em problemas particulares? Se não, deveria prestar mais atenção nas pessoas. Hoje não é o meu dia!

DONA DO CAFÉ: -Negrinha petulante você, sabia? Está demitida!

Baba debochada tira o avental e joga sobre a pia.

BABA: - Racista! Poderia processar você! Pois sabe aonde enfiar esse emprego! De fome eu não vou morrer! E quer saber? Eu cuspia no seu leite com açúcar!

A dona da lanchonete coloca as mãos no pescoço, com ânsia de vômito. Baba sai da cozinha, rebolando, num ar debochado.

BABA: - Lógico que eu não cuspiria no leite dela, mas isso sempre funciona. Deixa qualquer um caladinho!


Delegacia de Belle – 2:37 A.M.

O delegado fala pelo rádio.

DELEGADO: - Quero uma busca pelo condado e quero todas as estradas fechadas, entendido? Brubacker não pode escapar!

O delegado desliga. Olha pra Mulder, que frustrado, anda de um lado pra outro.

DELEGADO: - Vamos encontrá-lo, agente Mulder. Vá dormir um pouco. Pela manhã teremos um mandado expedido e vamos revirar aquela fazenda em busca de provas do envolvimento de Brubacker com satanismo. E eu mesmo quero colocar as algemas naquele filho da mãe e socar as laranjas malditas dele em seu traseiro.


BLOCO 4:

Belle – Motel e Café – 3:48 A.M.

Scully e Mulder dormindo.

[Som de sussurros indecifráveis]

Mulder remexe-se na cama em pesadelos. O suor escorre do rosto dele.

[Fade]

Mulder acende a lanterna. Observa os túmulos já envelhecidos, cobertos de limo. Olha para o outro lado, sepulturas mais recentes. Anda por entre elas, observando.

MULDER: - O que estou fazendo aqui? ... Certo, satanistas gostam de cemitérios... É isso o que estou fazendo aqui, procurando alguma coisa.

Mulder para em frente à sepultura da família Carmichael. Agacha-se. Toma a terra recente na mão, desmanchando-a entre os dedos.

GABRIEL: - Abyssus abyssum invocat. Um abismo chama outro abismo.

Mulder olha pra cima da lápide. Gabriel com os pés sobre a lápide, sentado no ar.

GABRIEL: - Não tem mais nada aí. (MOVE OS BRAÇOS SIMULANDO ASAS) Já foram embora. Voaram. Foram dormir, como compete aos mortos.

Mulder se levanta.

MULDER: - (IRRITADO) O que está fazendo aqui? Pensei que tivesse sumido da face da Terra!

GABRIEL: - Eu sou um anjo e anjos podem ficar em cemitérios e em sonhos. Você é que não deveria estar aqui. Mais um pesadelo? (GESTICULANDO) Anda escutando vozes? Sonha com coisas estranhas como estar suspenso no espaço frio? Ahn? É isso?

MULDER: - Como sabe?

GABRIEL: - Bem...

Gabriel põe as mãos em forma de prece e olha pra cima com cara de santo.

MULDER: - Eu sabia que tinha dedo seu nisso! É um pesadelo, não é? Por que com você nunca é um sonho, sempre é um pesadelo?

GABRIEL: - (DEBOCHADO) Quanta ingratidão, Raposo! Recomendo que depois vá acender uma velinha pra mim em agradecimento. Faça o favor de rezar pro seu anjo de vez em quando. Eu mereço, sabia? Me ferro por você e nem uma vela eu ganho! Isso é desrespeito com uma entidade divina. Mas eu não gosto de velas. Pode me conseguir um donuts? Ahn? Ou uma mousse de chocolate??? Ou aquelas tortinhas doces com creme e amêndoas da Rua 33???

MULDER: - Me poupe! O que houve com os Carmichael?

GABRIEL: - Não, mamãe, não!!!!!! Blurhhhhh.

MULDER: - ???

GABRIEL: - Duas facadas no peito. O menor levou um corte na jugular. O bebê uma facada e o marido...

MULDER: - Eu sei disso!

GABRIEL: - Então por que perguntou?

MULDER: - Você nunca dá respostas claras, não é mesmo?

GABRIEL: - Não fui à escola. Não sei formular frases com coerência e coesão textual. Mas sou bom em desenho. Quer ver?

MULDER: - Eu não vou ficar aqui e perder meu tempo com você. Me deixe acordar!

Gabriel desce da lápide. Inclina a cabeça pro lado e olha Mulder. Mulder olha pra ele. Gabriel põe o dedo sobre os lábios de Mulder.

GABRIEL: - Quantas narinas você tem? Ahn? Quantos olhos? Quantos ouvidos? Ahn? Dois? Então justifica usá-los mais ao invés da boca que é uma só.

MULDER: - ...

GABRIEL: - Qual seu tipo de inteligência?

MULDER: - Como assim?

GABRIEL: - Onde está o seu órgão que pensa e sempre está certo? Não estou falando do seu pênis.

MULDER: - (RINDO) O cérebro?

GABRIEL: - (APERTA O NARIZ DE MULDER) Biiiiiiii. Resposta errada. Única pista: pulsa forte.

MULDER: - Coração?

GABRIEL: - Lembre-se dele daqui por diante. Ignore seu cérebro, razão, inteligência e conhecimento. Pense com o coração. Inteligência emocional, Raposo.

MULDER: - (DESCONFIADO) O que está me escondendo?

GABRIEL: - Ah! (ERGUE AS MÃOS EM REPROVAÇÃO) Não vai vir com aquele papo chato e monótono sobre a verdade! Vai estragar esse sonho! Já falamos sobre a verdade e se eu contasse você cairia louco no chão. Porque vocês até tem estrutura física para suportar gigabytes de conhecimento, mas não tem um processador funcional! E pelo meu pouco conhecimento de informática, isso daria um conflito de hardware muito grande, acredite. Ia sair fumaça e perda total do computador moringa de vocês.

MULDER: - O que quer de mim?

GABRIEL: - Olhos, ouvidos e olfato. Esqueça sua boca. É o melhor pra você. E chega de perguntas. Revelação demais faz a raposa colocar o focinho onde não deve e estragar tudo. Enquanto você vem com as sementes, eu já servi o pão. Ok?

MULDER: - Querem pegar minha filha? São os acinzentados de novo?

GABRIEL: - Olhos, ouvidos e olfato. Experimente.

MULDER: - O governo está metido nisso, não é? Quem é aquele cara da moeda de ouro? Um satanista? Ou o próprio demônio?

GABRIEL: - Não dou respostas. Você estragaria tudo antes do tempo, terminaria da maneira errada e isso estava escrito que deveria acontecer. Vá até o pântano novamente. Deixei algo pra você. Vai saber quando deve usar.

MULDER: - Por que não posso impedir a merda antes dela acontecer?

GABRIEL: - Porque a merda faz vocês merdas evoluírem. O tentador tem muitas maneiras de deformar os homens. Todos vocês vivem a tentação e o vício de uma forma ou de outra, em várias ocasiões. Mas em algumas oportunidades, Deus permite que o ataque ocorra, para a evolução de vocês e a humilhação do tentador. Mas é claro que isso não faz sentido pra você que tem um processador de pouca potência dentro da cachola. E ainda quer a verdade! Vamos, olhos, ouvidos e olfato. Experimente.

MULDER: - ???

GABRIEL: - Olhos, ouvidos e olfato. Seja esperto, Raposo. Vamos, você faz isso todas as noites com a ruiva. Realmente, um cheiro gostoso de canela, que só você consegue sentir, não é? Não o culpo. Ela faria até um anjo cair! Por isso que você já é um caído por natureza.

MULDER: - (FECHA OS OLHOS) ... (ASPIRA FUNDO/ SORRI) Sangue? Você cheira a sangue... Adocicado... Inspira uma certa paz... Justiça... Beleza...

GABRIEL: -Biiippp! Errado.Vai ter que se esforçar mais.

[Fade]


Mulder acorda-se. Scully olhando pra ele, para de sacudi-lo. Passa a mão em seu rosto.

SCULLY: - O que houve? Pesadelo? Você estava se revirando na cama. Está todo suado, Mulder.

MULDER: -(TENTANDO SE LOCALIZAR) Onde estou?

SCULLY: - Na cama, Mulder! Onde estaria?

MULDER: - (VIAJANDO) ...

Scully sorri. Passa a mão sobre o lábio de Mulder. O analisa.

SCULLY: - Sabe o que significa essa covinha sobre o lábio superior?

MULDER: - ???

SCULLY: - Uma lenda diz que quando você nasce, o anjo Gabriel lhe conta um segredo, põe seu dedo aí e sela seus lábios.

Mulder senta-se na cama, nervoso.

MULDER: - Por que falou nele?

SCULLY: - ??? Sei lá! Não posso falar de anjos?

Mulder sai da cama. Veste as calças.

SCULLY: - O que houve?

MULDER: - Preciso sair. Volto logo. Vou checar uma coisa.

Mulder sai, levando a camisa. Scully fica sentada na cama.


9:11 P.M.

[Som: Jevetta Steele – Calling You]

Scully sai do quarto do hotel, vestida num robe. Observa a estrada deserta. Vê Baba parada na beira da estrada, com uma sacola de viagem. Por um momento os olhares das duas mulheres se cruzam, brevemente. Baba volta a atenção para a estrada deserta. Senta-se sobre sua sacola de viagem. Scully perde os olhos na estrada deserta. Cruza os braços nervosa. Uma espera carona para qualquer destino. A outra espera seu destino chegar sem carona.

KRYCEK: -Mulder não disse aonde ia.

Scully vira-se. Vê Krycek cabisbaixo, sentado nos degraus da varanda.

SCULLY: - Não sei o que houve. Acho que falei algo de errado.

KRYCEK: - Tem falado muita coisa de errado, Scully.

SCULLY: - (O FUZILA COM OS OLHOS) Quer brincar de apontar erros aqui, hein? Eu tenho alguns seus pra apontar em sua cara!

Krycek se cala e olha pra estrada. Scully o observa discretamente.

KRYCEK: - Sei que está me observando nesse momento. E sei o que pensa, mas gostaria muito que não pensasse mais nisso. Somos adultos, podemos superar.

SCULLY: - ...

KRYCEK: - Não sei o que aconteceu comigo. Procurei respostas e tudo o que escutei foi: você viveu um fenômeno chamado bilocação, estava em dois lugares ao mesmo tempo. Por dois motivos: um deles era que meu inconsciente estava prevendo minha abdução e fui pedir ajuda a Mulder. E o outro motivo, você desconfia, porque não é nenhuma idiota.

SCULLY: - (FECHA OS OLHOS)

KRYCEK: - Uma semana antes dos alienígenas me pegarem, eu estava em minha cama. Adormeci repentinamente. Parecia um sonho, mas não podia ser. Era estranho. Nublado. Como se um fogo me puxasse pra fora do corpo, se apossando dos meus desejos mais secretos e me mandando pra um mundo que parecia irreal. Eu senti tudo, gosto, tato, cheiro, prazer. Não sei porque fui parar em sua cama. Hoje, me lembro muito bem disso.

SCULLY: - (TENSA) ...

KRYCEK: - Como sei que Mulder também sabe que me lembro. E como sei que Mulder não é tolo e só quis aliviar sua consciência, Scully. Dando apenas uma explicação pra acalmar sua culpa. Um cara como Mulder, não pode desconhecer fenômenos dessa natureza. Portanto, ele sabe o que houve. Então, para de me olhar pelas costas e lembrar daquilo com medo e culpa. Ninguém foi culpado. Foi como uma maldição. Aconteceu em algum nível espiritual que não entendemos e não poderíamos evitar. Mas foi passado. Nunca mais vai acontecer. Nem que eu não durma mais pra isso.

Krycek se levanta. Olha pra ela. Scully derruba lágrimas.

KRYCEK: - E sabe por quê? Por Mulder. Eu o respeito demais. Mulder é o único amigo de verdade que eu tenho. Ironia do destino, não é? Eu o ferrei tanto e hoje ele é o único que me estende a mão. Me sinto na obrigação de ajudá-lo, de desfazer os malditos erros que eu cometi, mesmo que não possa apagar o meu passado. Seu marido é o único cara que me deu uma segunda chance. Ele tem um coração tão nobre que pôde até mesmo perdoar o assassino do pai dele. Então, Scully... Cada vez que você diz coisas e faz coisas que magoam Mulder, como anda fazendo ultimamente... Pense duas vezes antes. Ele é uma pessoa que não merece sofrer mais. Se eu, que fui seu maior inimigo, digo hoje pra você o quanto eu respeito Mulder, então crie vergonha. Porque ele sempre foi seu amigo e seu respeito por ele deveria ser muito maior do que o meu.

Krycek entra em seu quarto, batendo a porta. Scully, trêmula, fica parada na varanda, olhando pro nada, chorando calada.

Corta para as moscas que aos poucos pousam pela varanda, sem que Scully perceba. Ela dá as costas e entra no quarto. As moscas cobrem completamente o vidro da janela do quarto de Scully.


11:38 P.M.

Mulder entra no quarto, todo sujo de lama. Scully sentada na cama, cabisbaixa.

MULDER: - Advinha se o seu porquinho não andou fuçando no pântano de novo... Aconteceu alguma coisa?

Scully ergue o rosto, olhos inchados de chorar.

SCULLY: - Por que todo mundo caiu em cima de mim? Por quê? Eu te faço sofrer tanto?

Mulder senta-se ao lado dela.

MULDER: - O que houve?

SCULLY: - Eu sei que não tenho sido a sua amiga, a sua companheira... Eu sei que tenho falhado, mas não tenho consciência de ter falhado tanto!

MULDER: - Scully, para com isso. Não fique se remoendo por brigas passadas. Eu já me esqueci!

Scully se abraça em Mulder. Mulder a aperta contra o peito.

MULDER: - Se eu te chamar de 'meu amor' você me dá um sorriso? Hum? Meu amor?

Scully sorri, derrubando lágrimas.

SCULLY: - (QUASE CHORANDO) Oh, Mulder... Por que sempre é tão complacente comigo?

Mulder toma o rosto dela em suas mãos.

MULDER: - Olha pra mim. Vai passar. Eu tenho certeza de que tudo isso vai passar, como sempre passa. E nosso amor é mais forte que tudo. E por todas essas intempéries da vida, ele volta cada vez mais forte ainda. Amor teimoso. Amor que não dá pra medir. Amor forte. Único. Escandaloso. Sutil. Insubordinado. Indefinível. Intocável. Espiritual. Apenas amor.

SCULLY: - Me abraça forte. Estou desabando. Me deixa ficar aqui nos teus braços pro resto da minha vida. Nunca saia do meu lado. Me protege, porque me sinto uma criança tola, perdida e sem rumo.

Mulder a abraça forte. Beija a testa dela.

MULDER: - Vai passar, meu amor. Tudo passa... (ASPIRA OS CABELOS DELA) Meu cheiro de canela. Hum? Estou aqui com você. Para o que der e vier. No melhor, no pior, nas lutas e nas comemorações. Eu te amo, baixinha. E isso só eu e você podemos compreender.

Scully chora recostada no peito dele. Mulder afaga os cabelos dela com ternura.


9:24 A.M.

Mulder termina de se vestir. Scully, olheiras enormes, cansaço explícito no rosto, sentada na cama, nem tirou a camisola. Dobra as roupas colocando na mala. Mulder vai pro banheiro. Lava as mãos, enquanto observa Scully com preocupação. Lava o rosto. Observa-se no espelho, relembrando.

GABRIEL (OFF): - Lembre-se dele daqui por diante. Ignore seu cérebro, razão, inteligência e conhecimento. Pense com o coração.

Mulder olha para Scully. Seca o rosto rapidamente. Passa pelo quarto, pega o celular e sai pra rua. Aperta uma tecla do telefone.

MULDER: - É o agente Mulder, preciso falar com Skinner...... (GRITA) Tire-o da reunião é um assunto urgente!

Mulder põe a mão no bolso das calças, andando pelo estacionamento.

MULDER: - ... Skinner, há mais de vinte anos sou agente federal e o que vou fazer hoje é algo inédito no meu currículo. Se o sujar, dane-se! Me tire desse caso... Sei, sei que é um Arquivo X. Mas envolve satanistas e o Donald é muito bem indicado pra investigar. Fico nos bastidores dando apoio, mas vou voltar pra Washington agora... Minha mulher está doente, precisa de mim e a prioridade agora é ela. Não é matando Scully que vou conseguir fazer justiça aos Carmichael... Não, Skinner. Tome as medidas judiciais legais que cabem para um agente que abandona o caso em pleno andamento e faça o que quiser. Estou voltando pra minha casa agora pra cuidar da Scully.

Mulder desliga. Olha pro céu. Sorri, fechando os olhos.

MULDER: - Coração...


FBI – Arquivos X – 11:09 A.M.

Skinner põe a mão na cintura. Passa a outra mão pela cabeça. Mulder, sentado, olha apreensivo pra ele.

SKINNER: - Tem certeza do que escreveu em seu relatório?

MULDER: - Absoluta.

SKINNER: - Não confie cegamente em Alex Krycek!

MULDER: - Acho que não preciso que ninguém venha me dizer em quem confiar.

SKINNER: - Mulder, como amigo eu me preocupo com você e estou ao lado dos Pistoleiros quando dizem que não há nada naquela fita! E como chefe, vou ter que dizer que não admitirei daqui por diante qualquer intromissão de Alex Krycek em nenhum Arquivo X. Nem que eu tenha que tomar medidas drásticas como afastá-lo da polícia revelando que ele não é policial de verdade!

MULDER: - ...

SKINNER: - Eu disse ao Carter que Scully está doente e pedi que ele desse uma semana de licença pra ela. Mas com você, não tem negociação. Ele quer você nesse caso. Porque está borrando as calças com medo do bicho papão vir pegá-lo desprevenido.

MULDER: - Não. E eu sei que posso dizer não. Sabe por quê? Porque agora vocês é que precisam de mim. Mais do que eu preciso de vocês.

SKINNER: - Mulder, não me crie confusão...

MULDER: - Já falei com Donald. Ele vai pra Belle. Só espera você assinar o papel. Porque Kersh não se importou com isso e o liberou pra pegar o caso. Se está resolvido entre dois agentes e entre dois superiores, Carter não precisa nem saber.

Skinner sai da sala, batendo a porta. Mulder fecha os olhos. Reclina-se na cadeira, pondo as mãos no rosto, num suspiro angustiado.

[Som: Era – Enae Volare Mezzo]

Close nos sapatos italianos que caminham pela sala. Foco sobe mostrando o terno preto caríssimo, uma das mãos no bolso das calças. A outra mão, com o anel de rubi, brincando com a moeda de ouro.

A sombra humanoide ao lado dele, aproximando-se de Mulder.

Mulder retira as mãos do rosto. Volta-se pra mesa. Levanta-se. Ajeita os papéis sem perceber as presenças intrusas. Pensativo, perde o olhar num ponto de fuga.

GABRIEL (OFF): - Olhos, ouvidos e olfato. Experimente.

Mulder fecha os olhos. Aspira o ar profundamente.

MULDER: - Perfume masculino? Madeira? Nem tô usando perfume.

Mulder aspira o ar novamente. Então arregala os olhos.

MULDER: - ... Que cheiro de... Podre?

Mulder olha pra todos os lados. Põe a mão na boca e sai correndo porta à fora.


Residência dos Mulder – Virgínia - 11:37 P.M.

Scully coloca Victoria no berço. Coloca a raposinha ao lado dela. Senta-se na cadeira. Apoia-se no berço, passando a mão no rostinho de Victoria, que está sonolenta.

SCULLY: - Ficou com saudades da mamãe, não é, docinho?

VICTORIA: - (RINDO) Mama!

SCULLY: - (SORRI) Hoje eu não vou contar nenhuma fábula pra você. Hoje eu... Hoje eu vou contar uma história de verdade. Mas não daquelas histórias que papai conta.

Victoria boceja, olhando pra Scully. Scully afaga os cabelos dela.

SCULLY: - Havia uma mulher. Ela chorava todos os dias. As pessoas pensavam que ela era feliz, mas não sabiam o quanto ela chorava escondido de todos, pra não magoar ninguém.

Victoria observa Scully. Scully segura as lágrimas.

SCULLY: - Ela tinha um grande amor em sua vida. Um homem maravilhoso. Sempre soube o quanto era amada. Mas faltava algo, algo que ela não podia ter e isso a deixava triste. Tudo o que ela mais queria era ter um bebê. E ela não podia. Não podia ter um bebê do amor da vida dela. Ela orava tanto, sabe? Escondida, bem baixinho, na calada das noites insones. Sim, ela orava por um milagre. Quem sabe, como aconteceu com tantas mulheres da Bíblia poderia acontecer com ela? A fé queria acreditar, mas a razão impedia. Ela já havia perdido um... Perderia os outros certamente.

Scully segura as lágrimas.

SCULLY: - Mas um dia... Um dia um milagre aconteceu. E tudo que ela mais desejava, mesmo sabendo que não podia exigir nada, por já ter sido presenteada com um milagre... Tudo o que ela mais desejava é que esse bebê... Esse bebê fosse uma linda garotinha. Ela nunca falou pra ninguém sobre isso, nem pro homem que ela amava. Mas ela queria muito uma menininha. Uma parceira. Alguém para dividir coisas de meninas.

Victoria abre um sorriso. Scully sorri, derrubando lágrimas.

SCULLY: - Então o milagre duplamente se fez. E ela teve uma menininha. E desde então a vida dela ficou tão repleta de magia que ela muitas vezes não consegue assimilar tanta felicidade. Ela tem o amor de sua vida. Um homem bom, justo, que a faz rir e daria a vida por ela. E ela tem uma filhinha desse homem. Uma menina linda. A representação física do amor espiritual de duas pessoas. E essa menininha é você.

Victoria sorri pra ela. Scully derruba lágrimas.

SCULLY: - E agora... Eu tenho mais alguém no mundo por quem daria a minha vida. Você é meu amor. A minha luz do sol. A flor que nasceu no meu coração. E eu amo muito você, minha filhinha. Espero que você saiba disso, pedacinho de mim. Vida da minha vida. Luz da minha luz.

Scully levanta-se. Beija Victoria na testa. Afasta o rosto num sorriso, admirando a filha. Victoria, agarrada na raposinha, sorri, cerrando os olhinhos. Scully ajeita o lençol sobre ela. Aproxima-se da porta.

Close das moscas que infestam a janela. Algumas voam pra perto de Scully sem que ela perceba.

Victoria vira o rosto em direção à janela. Percebe as moscas que Scully não vê.

VICTORIA: - (PREOCUPADA) Mama... Iço... Mama...

Scully volta até o berço. Victoria estende a mãozinha fechada pra ela. Scully sorri. Victoria abre a mãozinha. Scully olha pra mãozinha dela, num sorriso. O sorriso de Scully se desfaz ao mesmo tempo em que arregala os olhos numa fisionomia nunca antes vista.

Close na palma da mão de Victoria. O crucifixo de Scully, perdido, se materializa na mão dela.

Letras se projetam por baixo da pele do peito da menina, em tom vermelho, formando 'I love you, mom'. Victoria suspira de amor olhando pra Scully e então fecha os olhos pra dormir, deixando a mãozinha pender sobre o colchão, segurando a correntinha de Scully entre os dedos.


12:31 A.M.

Scully serve um chá, olhos vermelhos de chorar. Mulder entra na cozinha, sério, olhando pra ela. Scully leva a caneca à boca, olhando pra ele, mãos trêmulas. Mulder suspira. Puxa uma cadeira.

MULDER: -Victoria está dormindo. As letras já sumiram... Sente-se.

Scully senta-se. Coloca a caneca sobre a mesa. Mulder senta-se na ponta da mesa, ao lado de Scully. Pega na mão dela, que continua nervosa.

MULDER: - Scully... Eu... Eu preciso falar com você. Não sei se depois disso, é um bom momento para você ouvir tudo o que eu tenho pra dizer, mas...

SCULLY: - ...

MULDER: - Sempre prometemos um pro outro a verdade. Por pior que fosse.

SCULLY: - (FECHA OS OLHOS) Fala, Mulder.

MULDER: - ... Não é só você que está desse jeito... E-eu também estou atordoado com as capacidades que ela tem. Victoria tem atraso de fala, mas em compensação... E ela nunca disse que me amava, nem suspirou pra mim de amor. Fiquei com ciúmes.

SCULLY: - Mulder... É sério.

MULDER: - Desculpe... Eu... Eu devia ter contado isso pra você, mas você relutava em me ouvir... E achei que se você soubesse ia se sentir pior do que já está. Foi besteira minha, porque mais cedo ou mais tarde você ia...

SCULLY: - Mulder, me faça entender com o quê estou lidando! Estou atônita, não sei lidar com minha própria filha!

MULDER: - ...

SCULLY: - Fala, Mulder. Esclarece o que está acontecendo. Eu não entendo dessas coisas.

MULDER: - Victoria tem dons que... Paranormais.

SCULLY: - O quanto?

MULDER: - ...

SCULLY: - (NERVOSA) O quanto, Mulder?

MULDER: - (TENSO) Some tudo o que você já viu e resuma os Arquivos X todos em uma só pessoa. Já verifiquei... Contei dezoito fenômenos paranormais até agora...

SCULLY: - (FECHA OS OLHOS) Como o quê?

MULDER: - Hiperestesia indireta: leitura do pensamento. Pantomnésia: capacidade do inconsciente de se lembrar de tudo. Telergia: exteriorização e transformação das energias fisiológicas de modo inconsciente. Psicofonia: sons, vozes, músicas realizadas de modo inconsciente. Telecinesia: move objetos com a mente. Aporte: desmaterializa e depois materializa objetos novamente. Demografia: projeta frases com os corpos capilares da pele. Levitação. Osmogênese: exteriorização e transformação da energia somática, algumas vezes odorífica, perfumes de flores. Percepção extra-sensorial.

Scully põe as mãos no rosto.

MULDER: - Precognição: conhecimento de acontecimentos futuros. Simulcognição: conhecimento paranormal do presente. Retrocognição: conhecimento paranormal do passado. Telepatia: capta pensamentos ou desejos de outra pessoa. Clarividência: capta acontecimentos físicos. Clariaudiência: escuta acontecimentos distantes. Bilocação: fenômeno que possibilita estar em vários locais ao mesmo tempo ou ter a percepção de várias realidades. Projeção: projeta a consciência para fora do corpo físico. Visão remota: visualiza acontecimentos à distância...

Scully se levanta. Coloca as mãos na cintura, andando de um lado pra outro, mais nervosa ainda.

SCULLY: - (OLHA PRA ELE EM DESESPERO) O que devemos fazer, Mulder? Deixar ela usar isso? Proibir? Contratar um psicólogo? Encher nossa filha de remédios? Interná-la? (PASSA A MÃO NOS CABELOS) Meu Deus, isso não está acontecendo! Não com o meu bebê...

Scully bate com as mãos na pia, derrubando lágrimas.

MULDER: - (CABISBAIXO) Scully... Isso é a natureza dela, nem eu ou você temos o direito de intervir nos dons da menina. Ela não precisa de pais que a censurem ou que a chamem de maluca doente. Isso é justamente o que não devemos fazer.

SCULLY: - ... Então o que devemos fazer? (RI PERTURBADA) Deixar ela fazer isso na frente de todo mundo? Deixar a mídia bater aqui em casa e dizer em rede nacional que nossa filha é Carrie, a Estranha? Ou devo parar de trabalhar e ficar trancada aqui dentro com ela para evitar que algum repórter entre aqui e a exponha?

MULDER: - Essas coisas vêm e vão. O mais correto é que estejamos abertos pra isso. Ela ainda não entende o que faz, pra ela isso é uma brincadeira, é algo normal. Pode ser que esses dons desapareçam com o tempo.

SCULLY: - E se não desaparecerem, Mulder?

MULDER: - Vão desaparecer... Crianças paranormais começam a crescer e se desligam disso. Talvez quando ela crescer não mais se lembre dessas coisas... Scully, precisamos educá-la. Precisamos levar isso como algo comum, para não deixar a menina se sentir diferente das outras crianças. Mas temos que impor alguns limites pra ela. Como o que você viu. Temos que dizer não. Ela ainda não tem noção da capacidade que tem e nem do certo e errado. Pra ela isso é uma brincadeira e quando não é, é a maneira mais fácil que ela tem pra dizer que nos ama... Nós é que precisamos dar esses conceitos pra ela. Tudo tem hora. Ela precisa saber que não deve fazer isso quando quer e onde quiser. Entende?

SCULLY: -Mulder, será que consigo agir normalmente com algo que me apavora? (INCRÉDULA) Deus! Tudo o que eu temia é real!

MULDER: - Scully, é a sua filha. Ela não vai usar seus dons contra você, a mãe dela.

SCULLY: - Eu sei disso!

MULDER: - Então por que se apavora?

SCULLY: - Eu só queria que ela fosse... (TRISTE) ... Normal.

MULDER: - MasScully, Victoria é normal. Nossa filha não é nenhuma deficiente. Ela é saudável, perfeita, é algo tão maravilhoso que foi entregue nas nossas mãos, entende essa responsabilidade?

SCULLY: - Devo me preparar para ter uma super dotada em casa?

MULDER: - Eu não quero que fique triste. Não quero que deixe de gostar dela.

SCULLY: - Mulder, Victoria é minha filha! Eu a amo do jeito que ela é, ela saiu de dentro de mim! Eu só tenho medo de errar com ela, porque eu não tenho experiência alguma para conviver com uma pessoa desse nível!

MULDER: - E eu? Eu tenho?

Mulder se levanta. Abraça Scully pelas costas. Scully se recosta nele.

MULDER: - Vamos aprender juntos. Acho que nós dois podemos aprender e ensinar muito. Ela tem os pais certos, Scully. Nossa mente está aberta pra isso. Não vamos reprimi-la, apenas estabelecer regras, como se faz com qualquer criança. Ela é o nosso presente. Ninguém mais poderia cuidar, amar e educar um presente como esse. Não acha?

Scully se vira e abraça-se em Mulder.


3:26 A.M.

Scully, de camisola, entra no quarto de Victoria. Senta-se ao lado do berço. Observa a filha dormindo, de bruços, bundinha pra cima, as fraldas fazem um grande volume. Scully olha pra seu crucifixo na mão dela. Enche os olhos de lágrimas. Sorri. Afaga os cabelos de Victoria.

SCULLY: - Eu também amo você... (SUSPIRA DE AMOR) Amo... você... Docinho da mamãe. Vamos aprender juntas, tá?

Corta pra Mulder, escorado na porta do quarto. Mulder fecha os olhos, num sorriso de alívio.


Kentucky - 4:56 A.M.

Baba, com a sacola de viagem, caminha pela rodovia, observando as estrelas. Uma delas brilha fortemente.

BABA: - Pra onde eu devo ir agora?

Baba suspira. Segue caminhando pela estrada, triste, seguindo a direção da estrela.


Washington D.C. – 11:33 A.M.

[Som: Unbreak my Heart – Toni Braxton]

Scully sentada num banco do parque, sozinha, olhos vermelhos. A brisa fria leva seus cabelos. Ela olha pra um ponto de fuga.

SCULLY (OFF): - Quem sou eu? O que eu quero da minha vida realmente? Será que tudo pelo qual eu lutei era apenas obsessão e teimosia? Mas eu acreditava tanto que era isso que eu queria... Tudo o que eu mais sonhava, agora eu tenho. Mas agora que tenho, parece que nada falta e por isso, falta alguma coisa... Amo meu trabalho. É ali onde eu quero estar todos os dias... Eu queria tanto voltar a estudar, me especializar ainda mais nas coisas que eu gosto, mas não tenho tempo pra mais nada... Minha vida se resumiu ao Mulder. E não posso mais ficar em casa e olhar pra minha filha... Se algo de ruim acontecer com ela é por minha culpa. Eu passei anos da minha vida lamentando por não poder ter filhos. Eu insisti e agora Deus me mostra as consequências da minha teimosia. Minha filha é uma criança diferente. Uma mutação genética desconhecida.

Scully observa as mães brincando com seus filhos no playground.

SCULLY (OFF): - O que pode acontecer com ela, se nunca houve evidências de uma criança assim? Que efeitos colaterais ela pode apresentar em seu organismo? Ela poderá ter filhos? O que serão os filhos dela? O que vai acontecer quando Victoria estiver na escola? Terei de colocá-la numa escola especial? Que doenças ela pode ter? Que reações? E se ela um dia tentar algo contra mim? E quando ela descobrir a verdade, como poderei explicar pra ela que o pai dela tem genes diferentes? Ela vai me odiar? Victoria nunca será uma criança comum... E nem sei que tipo de criança ela será. Estigmatizada? É justo isso com ela? Sim, a culpa é minha. Minha por ter escolhido o pai errado pra minha filha? A única chance que eu tinha, joguei fora. Minha culpa por ter dado ouvidos a insistência de Mulder em ter filhos comigo... E-eu não sei mais se... (DESVIA O OLHAR) Se eu quero ficar com Mulder... Por que eu penso tantas coisas, e algo dentro de mim o culpa por todas as desgraças que agora estão aqui. E isso me faz ter raiva dele.

Scully respira fundo.

SCULLY (OFF): - (FECHA OS OLHOS) Pela primeira vez eu consigo enxergar a verdade. Sempre, desde o início, era um erro. Por isso, tudo se dificultava, como um aviso de que eu e Mulder não deveríamos ser um do outro. Essas coisas agora fazem sentido pra mim. Todas as coisas que sofri foi por minha insistência num homem, num filho... E não era pra isso acontecer. Mulder tinha razão quando disse que eu não era mulher pra ele... Hoje, depois de ter feito a hipnose, começo a relembrar coisas que eu não lembrava antes. Não sei se as assimilo, ou se fico com o que eu via como verdade... Nunca imaginei que coisas desse tipo tivessem acontecido comigo. Mas se as lembranças estão lá, elas devem ser reais... Além de Mulder e de Victoria, eu começo a ter nojo da minha mãe... Como ela podia permitir isso do meu pai? Por que meu pai fazia essas coisas comigo e com minha irmã? E eu que o amava tanto... Agora tudo se explica, agora entendo porque sempre procurei os caras mais velhos... Porque nunca me senti segura com um homem. O meu medo de ser dominada... Como meu pai fazia comigo e Missy.

Scully abaixa a cabeça, brincando com os dedos.

SCULLY (OFF): - Meus sentimentos se confundem dentro de mim, de maneira que não posso explicar... Mas se as coisas que eu descobri são verdadeiras, por que antes não me lembrava delas? Por que ainda sinto algo no fundo da alma que bate forte por Mulder? Quando todas as coisas dizem que estou errada, por que eu ainda insisto nele? Por que eu não consigo mais agir com a razão e meu coração me engana? Que nuvem negra está sobre mim? De onde brota todo esse ódio por Mulder? E essa raiva inexplicável de tudo e de todos que me cercam? Deus, me ajude!

Scully fecha os olhos.

Corta para o lado de Scully. The Gold Coin, sentado ao lado dela, com a mão sobre seu ombro.

THE GOLD COIN: - Deus abandonou você. Mas eu estou aqui, não vou te abandonar, pobre criança tola e confusa... Você é minha. Do meu lado tudo é mais divertido.


TO BE CONTINUED...

14/05/2002

16 de Setembro de 2019 às 08:44 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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