S06#07 - OLHA QUEM ESTÁ FALANDO! Seguir história

lara-one Lara One

Alguém aí sabe o que se passa na cabeça de um bebê comum? Não? Então imagine o que se passa na cabeça de um bebê como Victoria...


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S06#07 - OLHA QUEM ESTÁ FALANDO!

INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

[Som: Tema dos Muppets]

Câmera baixa focalizando a sala, simulando o olhar de Victoria sentada no tapete. As pernas de Scully com saias, calçando sapatos pretos e altos, passam apressadas.

SCULLY: - Mulder, você nunca acha nada! Eu não sei onde está! Já revirei a casa toda!

As pernas de Mulder, calças e sapatos sociais passam pela frente da câmera. Voltam passando novamente.

SCULLY: - Deve estar em algum lugar!

MULDER: - Você pegou!

SCULLY: - Eu? Por que eu pegaria as chaves do seu carro?

MULDER: - Porque basta que eu deixe algo fora do lugar que você pega!

SCULLY: - Por que será que eu pego, hein?

MULDER: - Droga, Scully! Quando eu deixar minhas coisas atiradas, favor deixá-las atiradas onde eu atirei!

SCULLY: - Você é relaxado, Mulder! Se eu deixar por aí o que você atira pela casa, em breve vamos estar morando na bagunça! E outra coisa: Eu não acredito que você pagou pra trazerem aquele velho sofá de couro do seu apartamento!

MULDER: - Eu tenho uma história com aquele sofá. Aonde eu vou, ele vai comigo.

SCULLY: - Me lembrarei disso quando você morrer.

Corta para Victoria, sentada no tapete, rodeada de brinquedos, acompanhando o movimento com os olhos, enquanto segura a raposa de pelúcia nas mãos.

VICTORIA (OFF): - O que será que estão procurando?

SCULLY: - Droga, Mulder, estamos atrasados e a culpa é toda sua!

MULDER: - Minha culpa? Sou eu por acaso que pego as chaves do carro e escondo? Veja se não colocou na gaveta dos panos de prato!

SCULLY: - Está me chamando de relaxada? Relaxado é você! Se eu não peguei as chaves, quem pegou a não ser você? Um fantasma?

VICTORIA (OFF): - Espero que não estejam procurando aquela coisa que faz barulho...

Victoria retira as chaves do carro que estão debaixo do bumbum dela.

VICTORIA (OFF): - Gosto desse brinquedo... É tão legal! E faz barulho...

Mulder e Scully continuam correndo pela sala procurando. Victoria brinca atentamente com as chaves do carro.

VINHETA DE ABERTURA: EI, EU TAMBÉM QUERO FALAR, PÔXA!!!


BLOCO 1:


Adultos não sabem se divertir


FBI – Arquivos X - 5:49 P.M.

Scully sentada à sua mesa, de óculos, compenetrada, lendo alguma coisa, com um lápis na mão.

Mulder em sua cadeira, pés sobre a mesa, olhar perdido para os lápis grudados no teto, pensando em alguma coisa. Algumas vezes olha pro relógio.

Victoria sentada no carrinho, chupeta na boca, atenta ao porta lápis que tem nas mãos. Ela sacode, observa, vira de um lado pra outro, analisa intrigada.

VICTORIA (OFF): - Pra que serve essa coisa esquisita? Será que é pra beber água? Se parece com aquela coisa que mamãe usa pra beber água. É... Pode ser, mas papai bebe água direto da garrafa na geladeira... Hum... Mas não deve ser certo, porque mamãe grita com ele. E se ela grita é porque está brava. E se está brava é porque tem alguma coisa errada... Não... (OLHA PRA MESA DE MULDER) ... Hum, papai tem uma coisa dessas cheia daquelas coisas que fazem riscos no papel... Será que é pra colocar essas coisas? Não... Talvez não. Não dá pra confiar que papai use isso do modo correto. Como confiar num cara que usa a camisa pra limpar a boca e come comida de passarinho? Mamãe disse que camisa não é pra limpar a boca. Acho que a mamãe tá certa.

O porta lápis cai. Victoria olha pro chão. Olha pra Mulder e Scully, pedindo com os olhos, mas eles estão atarefados, nem prestam atenção nela. Victoria faz beiço, olhando pro chão.

VICTORIA (OFF): - Shi... O brinquedo esquisito caiu! Eu podia pegar do meu jeito, mas papai vai ficar furioso. Ele já ficou furioso só porque eu fui apertar aquelas coisas coloridas naquele aparelho que ele escuta música. Agora tá furioso comigo só porque eu achei umas balas e coloquei na boca. Mas e daí, bala não é pra comer? Tinha um gosto estranho de metal, mas ele vive dizendo que aquilo é bala. Cara chato. Só por causa de umas balas que nem eram doces? Ah, deixa! Eu não queria essa coisa boba mesmo! Não sei porque eles só me dão essas coisas bobas e sem graça pra brincar. Eu queria que papai me desse aquele brinquedo que ele carrega na cintura. Aquilo parece interessante. Pelo menos vi um cara num filme, montado num cavalo, usando aquilo. Saia barulho e fazia fumaça. E todo mundo corria!

Victoria suspira.

VICTORIA (OFF): - É... Vida de bebê é o maior tédio. Eu tenho que ficar aqui esperando eles irem pra casa. Tudo que eu sei é que eles chamam isso de trabalho. Parece que trabalho é um lugar chato que os adultos passam a maior parte do dia. E tem aquele tio que tem menos cabelos do que eu, e que fica bravo se eles forem embora daqui. Não entendo... Por que ficar nesse lugar chato, se poderiam estar em casa? Gente grande e tão complicada! Eu só gosto quando eles vão trabalhar longe, de carro... Aí é legal.

Victoria olha pra câmera. Abre um sorriso, deixando a chupeta cair. Olha pro chão.

VICTORIA (OFF): - Nossa, como sou desastrada! ... (OLHA PRA CÂMERA) Oi! Eu sou a Victoria. (APONTA PRA SCULLY) Aquela ali é minha mamãe.

A câmera foca Scully, compenetrada, mordendo a ponta do lápis, lendo.

VICTORIA (OFF): - Mamãe é legal. Bonita. Divertida. Faz cada coisa gostosa pra eu comer... E é muito esperta. Precisam ver o monte de coisas que ela fala que eu nem faço ideia do que seja. Eu gosto dela, ela brinca de boneca comigo, me conta histórias pra dormir, me compra cada roupa maneira... Mamãe tem vezes que é muito séria, mas eu adoro quando ela sorri. Ela fica mais bonita ainda! E quando me chama de Docinho. Acho que ela vê muito as Meninas Superpoderosas... Só não gosto quando mamãe vem com aquele papo estranho de que eu fiquei dentro da barriga dela... Como eu ia caber na barriga da mamãe se ela é tão pequena? Nem quero pensar nisso! Me dá medo. Será que ela tava brava comigo e me comeu e depois me tirou pra fora de novo? Não entendo. (OLHA PRA BARRIGA) Será que eu devia ter comido aquele chocolate? Como vou fazer pra tirar ele da minha barriga? Ela tem que me ensinar essa mágica.

A câmera foca Mulder, atirando lápis no teto.

VICTORIA (OFF): - Aquele é meu papai. Ele é meio estranho, faz coisas estranhas e diz coisas estranhas. E conta cada história legal! De arrepiar! Eu gosto dele também. Ele me dá chocolate. Tudo que mamãe não me deixa comer, ele me dá. Me dá brinquedos que eu gosto, brinca de cavalinho... É um cara legal. Adoro as músicas velhas que ele escuta. Ele é bonito e engraçado. Faz careta pra mim, me morde e faz cócegas. E brinca de aranha assassina! Tem vezes que ele é chato, quando implica comigo, dizendo que sou bagunceira. Não, eu não sou bagunceira, porque mamãe disse que bagunceiro é quem deixa as coisas espalhadas pela casa toda. Eu só deixo espalhadas pela sala. Então não sou bagunceira.

Mulder atira lápis no teto. Victoria observa.

VICTORIA (OFF): - Legal! Aquilo também serve pra jogar no teto! Papai tá sempre provocando a mamãe. E a mamãe cai na palhaçada dele, o que é prato cheio. O melhor é quando o folgado se irrita. Aí rende! Ver os dois discutindo é divertido. Mamãe é meio boba pra algumas coisas e papai não perdoa. Ela não entende como alguém pode mover um objeto só com pensamento. É tão fácil. Não sei como ela não entende. Se mamãe me ensinar a mágica dela eu vou ensinar a minha.

Mulder levanta-se. Pega o paletó.

MULDER: - Scully, vamos embora. Ok, Pinguinho, ora de ir pra casa.

Scully solta o lápis na mesa. Levanta-se e pega a bolsa. Mulder pega Victoria no colo.



Eu sou um anjinho de criança...



Residência dos Mulder – 6:47 P.M.

Mulder assiste TV, distraído. Victoria no cercadinho, olhando com um beiço pra ele.

VICTORIA (OFF): - Algumas vezes eu acho que papai me detesta. Que coisa mais sem graça ficar nesse troço esquisito que parece uma prisão de passarinho! Vovó tem um passarinho numa coisa parecida com essa... (BEIÇO) Assim não dá, eu não posso nem correr! Não dá pra fazer nada nessa coisa, nem chegar perto daquela coisa preta com buraquinhos que tem na parede onde se liga a TV.

Scully para na porta da cozinha.

SCULLY: - Alguém aí pode me ajudar com o jantar?

VICTORIA (OFF): - Eu posso! Contanto que me tirem desse cercado de bebês! Eu já sou mocinha! Olhem pra mim! Eu uso brincos, pulseira e também gosto de pintar as unhas!

Mulder levanta-se e vai pra cozinha. Os dois de risadinhas fecham a porta da cozinha. Victoria olha pras grades do cercadinho.

VICTORIA (OFF): - Que chato! Devem estar rindo de mim... Como é que eu vou sair dessa coisa aqui? (SORRI) Já sei!

Victoria fecha os olhos. Começa a levitar.

Mulder entra na sala. Dá um berro apavorado.

Victoria abre os olhos, assustada, e cai deitada dentro do cercadinho. Scully entra na sala.

SCULLY: - Mulder, o que houve?

MULDER: - (APAVORADO/ OFEGANTE) Pelo amor de todos os santos!

SCULLY: - Mulder, o que foi?

MULDER: - (DISFARÇA) Nada... (MÃO NO PEITO/ OFEGANTE) Uma barata...

SCULLY: - (PROCURANDO) Barata? Aqui dentro? Pra onde ela foi?

MULDER: - Er... Fugiu por baixo da porta.

SCULLY: - Desde quando tem medo de baratas, Mulder?

Mulder olha atravessado pra Victoria. Victoria faz beiço. Scully caminha até a porta. Observa. Mulder move os lábios olhando pra Victoria e pronunciando um 'não faça mais isto'. Victoria cerra o cenho.

SCULLY: - Hum... Preciso comprar uma daquelas cobrinhas recheadas de areia... Pra vendar essa fresta...

Mulder volta pra cozinha. Scully olha pra Victoria deitada no cercadinho.

SCULLY: - Tá soninho, neném?

VICTORIA (OFF): - Não, mamãe. Eu tô é apavorada com o grito que o doido do meu pai deu!

Scully volta pra cozinha e fecha a porta. Victoria senta-se.

VICTORIA (OFF): - (BEIÇO) Não sei porque ele briga comigo desse jeito. Não fiz nada de errado! Eu só estava voando! O passarinho da vovó voa e ele não grita desse jeito! Não dá pra entender. Isso é perseguição! Eu não posso fazer nada sozinha? Como diz a mamãe, eu sou uma mulher independente!

Victoria enfia os pés entre as grades. Observa erguendo as sobrancelhas.

VICTORIA (OFF): - Hum... Acho que eu passo... Tive uma ideia de gênio!

Victoria fica de quatro e coloca a cabeça entre as grades. Tenta sair, mas fica trancada.

VICTORIA (OFF): - (PÂNICO) Ih... A ideia foi boba... Agora... Argh! Não dá pra sair... Daqui... Como é que vou tirar minha cabecinha dessa coisa? (OLHA PRA PORTA) Ei, gente! Eu tô com um problema sério aqui! Alguém pode me ajudar?

Cookie desce as escadas e olha pra ela.

VICTORIA (OFF): - Ei Cookie! Chama a mamãe pra mim!

Cookie começa a arranhar a porta da cozinha aos latidos. Nada.

VICTORIA (OFF): - Ai meu pescocinho... Será que se eu chorar alto eles vem correndo? ... Shi, acho que vou levar a maior bronca... Uff... Não dá. Não sai... Ai não, eu vou ficar assim pra sempre!

Victoria começa a chorar. Scully abre a porta e entra na sala.

SCULLY: - O que foi, Docinho? (ARREGALA OS OLHOS/ GRITA) Mulder!!!!!!!!!!!!

Victoria ao ver Scully desesperada chora mais ainda.

VICTORIA (OFF): - (CHORANDO) Ai meu Deus! A coisa é séria! A cara dela disse tudo!

Mulder entra na sala. Põe as mãos na cintura, debochado.

SCULLY: - Mulder, pelo amor de Deus, não fica aí parado! Tire ela daí!

MULDER: - Conseguiu, né, Pinguinho? Custou, mas conseguiu. Isso é a punição pra elementos rebeldes como você que tentam escapar da cadeia.

VICTORIA (OFF): - Eu não sou rebelde cara! Eu puxei a você, eu gosto de descobrir lugares proibidos, oras!

SCULLY: - Mulder, tira ela daí! Ela vai sufocar! Deve estar doendo!!!!

MULDER: - Deixa comigo. Para de fazer esse drama todo que ela vai ficar mais nervosa. Ela só está assustada com você.

Mulder se agacha. Olha pra Victoria, que chora.

MULDER: - Cadê a neném do papai?

VICTORIA (OFF): - Que cara mais bobo! Não tá me vendo aqui, seu tonto?

MULDER: - Hum... O que temos aqui?

VICTORIA (OFF): - A neném do papai entalada nessas grades! É isso o que temos aqui. Eu hein? Ele é tonto assim ou tomou muito daquela coisa da latinha que faz a gente arrotar?

MULDER: - Que tal a gente comer uma gelatina hein?

Victoria abre um sorriso, parando de chorar.

VICTORIA (OFF): - Oba! Agora ele tá falando a minha língua!

MULDER: - Então vamos sair daí pra comer a gelatina, não é?

VICTORIA (OFF): - (SÉRIA/ O ENCARANDO) Acho que mamãe tem razão quando diz que ele é um tonto... É claro né, papai? Como eu vou comer desse jeito?

MULDER: - O besourinho passou na cerquinha... (PEGA A CABEÇA DELA) Agora besourinho vai sair da cerquinha... (EMPURRA A CABEÇA DE VICTORIA PRA TRÁS A DESPRENDENDO) E agora besourinho vai voar!

VICTORIA (OFF): - (SORRI) Legal! Gostei do besourinho! Agora eu posso voar, é isso???

Victoria fecha os olhos e levita alguns centímetros. Mulder a pega rapidamente sem Scully perceber. Olha pra Victoria, furioso.

VICTORIA (OFF): - Por que isso? A ideia de besourinho foi sua! Agora me encara desse jeito?

Mulder a ergue no ar.

MULDER: - Olha o besourinho voando, mamãe! Viu, besourinho, é assim que você tem que voar. Assim, entendeu, besourinho?

VICTORIA (OFF): - Lá vem ele de novo... Até pra voar eu dependo dele... Já entendi, papai... Não vou mais brincar de voar sozinha não.

Victoria abre os braços.

VICTORIA (OFF): - Gostei dessa brincadeira.

MULDER: - E agora besourinho vai voando até a cozinha... E vai pousar na gelatina!

VICTORIA (OFF): - Quanto enredo só pra me dar gelatina... Ele não é lógico...



Shiiii... pipi!


8:23 P.M.

Mulder e Scully na cozinha. Victoria no cercadinho, mordendo um cachorrinho de borracha.

VICTORIA (OFF): - Que droga! Como essas coisas que tão crescendo na minha boca dão coceira... (MORDE COM MAIS FORÇA) Ai, que agonia! Mas papai disse que essas coisas se chamam dentes e servem pra gente comer sucrilhos. Tô doida pra comer sucrilhos!

Victoria solta o bichinho. Olha pra TV. Uma propaganda de leite com bebês.

VICTORIA (OFF): - (OLHA PRA PORTA DA COZINHA) Ei! Alguém aí pode vir até aqui, de preferência a mamãe? Eu tô com fome! ... Minha barriguinha tá fazendo um barulho tão esquisito... Deve ser aquele chocolate gritando pra sair daqui... Será que eu fazia esse barulho também quando tava dentro da barriga da minha mamãe? (OLHA PRA BAIXO) ... Ah, essa não! Acho que fiz pipi... (OLHA PRA PORTA) Ô gente, eu fiz pipi! Alguém aí pode me ajudar? Eles não sabem o quanto é chato ficar molhada... (SORRI) Bom, pelo menos não fiz caquinha... É pior ainda! Uma vez eu fiz caquinha no colo do tio Bill. Mas ele mereceu mesmo. Estava falando mal do meu papai e irritando minha mamãe e eu não admito que alguém faça isso com eles. Eles são um bocado estranhos, mas ninguém tem nada a ver com isso... Mexeram com eles, mexeram comigo.

Mulder entra na sala. Atira-se no sofá. Pega o controle remoto. Victoria olha pra ele, sacudindo os braços.

VICTORIA (OFF): - Ei, olha pra cá! Eu tô completamente molhada, faça alguma coisa!

Mulder assiste a TV, rindo, sem prestar atenção.

VICTORIA (OFF): - (BEIÇO) Ei, papai!!!

Nada. Victoria se desespera.

VICTORIA: - (GRITA) Oooooooxxxxxxxxx!

Mulder continua olhando a TV.

VICTORIA (OFF): - (BEIÇO) Fox! Não vai me ajudar? Ei, olha pra mim aqui! ... Ah se eu soubesse falar... Mas se ele não vê eu vou ter que apelar pra outro jeito.

Victoria aponta pra TV. A TV se desliga. Mulder olha pra ela, sério.

MULDER: - Ei, por que fez isso?

VICTORIA (OFF): - (SORRINDO) Porque estou molhada, você não percebeu?

MULDER: - Eu já disse pra você não fazer essas coisas.

VICTORIA (OFF): - Shiiii... Lá vem a bronca! E eu só queria que ele trocasse essa coisa aqui porque tá me incomodando... Ninguém me entende... Que tristeza! Criança sofre!

Mulder a pega no colo. Victoria faz beiço.

MULDER: - O que foi? Diz pro papai, diz.

VICTORIA (OFF): - Cara, eu tô dizendo, mas você não entende! Eu tô molhada! Pipi! Sabe? Aquela coisa molhada e quente que quando você menos espera, você faz.

Mulder puxa a fralda de Victoria.

MULDER: - Hum, acho que temos um bebê molhado por aqui.

VICTORIA (OFF): - Ufa, finalmente! Custou, mas ele entendeu.

MULDER: - Mais outra fralda...

VICTORIA (OFF): - Não me culpe. Eu sou bebezinho. Não consigo controlar. Escapou sem querer...

MULDER: - Sua sujona...

VICTORIA (OFF): - Ei, qual é? Vai ofender? Culpe a mamãe que me empanturrou de chá!

MULDER: - Vamos subir... Papai vai trocar essa fralda.

VICTORIA (OFF): - (SORRI) Aí, valeu! Eu devo essa pra você. Se um dia você usar fraldas eu vou me lembrar disso.



A verdade está lá fora... tadinha!



Arquivos X – 1:29 P.M.

Scully de frente pra Mulder. Os dois discutem. Victoria sentada no chão, segurando a raposinha e olhando pra eles. Os acompanha como se estivesse numa partida de tênis.

SCULLY: - Baseado em que evidência você sugere que Nicolas Cooper saiu de seu corpo e foi até a casa da ex-mulher e a matou?

VICTORIA (OFF): - Mas foi, mamãe. É tão fácil sair do corpo. Você quer ver? Eu mostro.

MULDER: - Ora, Scully, então como explica que a casa estava fechada por dentro? Ahn? Ele foi até ela em viagem astral.

VICTORIA (OFF): - Também não exagera, papai. Aposto que ele só fechou os olhos e parou na casa dessa mulher aí que vocês tão falando...

Mulder e Scully continuam discutindo. Scully abre a porta. Mas volta.

SCULLY: - Eu não posso subir e dizer isso a Skinner sem provas coerentes do que você está dizendo, Mulder!

MULDER: - Eu ainda não tenho provas, mas você vai tê-las rapidinho!

VICTORIA (OFF): - (SORRI) Isso é tão divertido! Adoro quando eles brincam assim. Agora ela vai chamar ele de Fox, porque as orelhas dela estão vermelhas.

SCULLY: - Eu preciso de evidências científicas do que você está afirmando, Fox Mulder!

VICTORIA (OFF): - (OLHA PRA CÂMERA NUM SORRISO) Eu não disse?

MULDER: - A verdade está lá fora, Scully. E você simplesmente a ignora! E continua deixando a verdade lá fora!

Victoria olha pra porta, triste.

VICTORIA (OFF): - Lá fora, papai? Ai não, tá chovendo! Pobrezinha da Verdade, ela vai ficar doente! Por que a mamãe a deixou lá fora? Ela deve estar sofrendo tanto! Sozinha, sem ninguém pra brincar... Quem será essa tal Verdade? Será que ela gosta de brincar?

MULDER: - Eu vou dizer uma coisa, agente Dana Scully... Você é uma chata!

SCULLY: - Ah, eu sou chata, é?

MULDER: - Uma verdadeira desmancha prazeres. Você sabe que estou certo, mas tem que teimar até o fim!

SCULLY: - Como você é prepotente, Mulder!

Os dois olham pro chão. Victoria sumiu. Mulder olha pra porta. Põe as mãos na cabeça.

MULDER: - (PÂNICO) Ah meu Deus! Não no FBI!!!!!

Os dois saem correndo porta à fora. Olham por entre as caixas no corredor. Falam baixo.

MULDER: - Pinguinho?

SCULLY: - Victoria?

MULDER: - Como deixou a porta aberta? Sabe que ela e o Cookie quando veem portas abertas saem correndo!

Os dois procuram Victoria.



Ninguém segura esse bebê...


1:38 P.M.

[Som: Go Speed Racer Go]

Close na porta do elevador que se abre. Victoria sentada dentro do elevador, olhando pra cima, num beiço.

VICTORIA (OFF): - Ah... A coisa que anda parou... Sem graça. (OLHA PRO CORREDOR) Ei, Verdade??? Onde está você? Vem brincar comigo!

Victoria sai engatinhando pelo corredor. Dois agentes conversam sem perceberem. Victoria senta aos pés deles.

VICTORIA (OFF): - Ei moço da gravata colorida! Você sabe onde eu encontro a Verdade???

Os agentes continuam conversando sem perceberem Victoria. Ela faz beiço. Segue engatinhando.

VICTORIA (OFF): - Ninguém dá bola pra criança mesmo... Aposto que a Verdade é uma criança, porque todo mundo ignora a pobrezinha. Onde será que a Verdade está? Ei, Verdade!

Victoria para na frente da porta aberta. Observa. Segue engatinhando. Para aos pés da secretária. A secretária lixa as unhas sem perceber.

VICTORIA (OFF): - Ela tem sapatos bonitos... Iguais ao da mamãe. Ei, moça! Você sabe onde eu encontro a Verdade?


Gabinete do Diretor Carter – 2:09 P.M.

A secretária entra.

Close em Victoria que entra sorrateira engatinhando, atrás da secretária.

A secretária coloca a pasta sobre a mesa de Carter e sai sem perceber nada.

Carter pega a pasta. Começa a ler.

Barulho de alguma coisa se estatelando no chão. Carter ergue a cabeça e vê o vaso de flores da mesa de centro caído no tapete. Volta os olhos pra pasta. Então percebe a cadeira do outro lado da mesa andar. A cadeira para.

CARTER: - (COÇANDO A CABEÇA) Será que estou estressado de novo?

Carter dá de ombros e volta a ler os papéis. A cadeira volta a andar. Carter arregala os olhos, histérico. Pega o telefone.

CARTER: - Chame agora o agente Mulder! Tem um fantasma no meu gabinete! (PAVOR) AHHHHHHHH MEU DEUS, ELE PEGOU MINHA CANELA!!!!!!!

Carter solta o telefone, desmaiando na cadeira.

Corta pra Victoria no chão, puxando a calça dele.

VICTORIA (OFF): - Ei, moço do cabelo branco! Onde é que está a verdade, você viu ela por aí?


2:16 P.M.

Mulder desce apressado do elevador. Entra no gabinete de Carter.

Victoria sai de trás do bebedor e segue engatinhando. Senta-se na frente do elevador. O elevador se abre. Victoria entra. Bate as mãos nas pernas rechonchudas.

VICTORIA (OFF): - (RINDO) Que brinquedo legal! Quero um desses na minha casa!


Gabinete do diretor-assistente – 2:25 P.M.

A porta entreaberta. Skinner sentado à mesa, lendo relatórios. Victoria entra engatinhando. Senta-se e olha pra Skinner.

VICTORIA (OFF): - Ah finalmente encontrei você! Esse aí é o meu dindo. Ele me dá um monte de presente legal! E o mais legal é que ele não ri de mim. Afinal ele tem menos cabelos do que eu... Ei, tio, você viu a Verdade?

Skinner nem a percebe. Victoria engatinha até a mesa, sumindo do foco. Skinner lendo. Desvia o olhar pra um ponto de fuga. Então percebe a cadeira andar. Skinner observa cismado.

O vidro de bombons cai da mesa de Skinner. Skinner dobra o corpo pro lado. Observa os bombons. Estende a mão e os junta. Coloca-os sobre a mesa. Silêncio completo. Skinner observa a sala, incrédulo. Volta os olhos pra pasta.

VICTORIA: - Dah!

Skinner procura com os olhos e não vê nada. Coça a careca.

VICTORIA: - Dah!

Skinner empurra a cadeira pra trás com o corpo e olha pra baixo da mesa. Victoria num beicinho com a mão apontando pra cima. Skinner começa a rir. A toma no colo.

SKINNER: - O que você está fazendo aqui, hein?

VICTORIA: - (APONTA PROS BOMBONS) Dah!

Skinner desembrulha um bombom e entrega pra ela. Victoria abre um sorriso pra ele, mostrando os dentinhos.

SKINNER: - Como você chegou até aqui sem que ninguém a visse?

VICTORIA (OFF): - (CHUPANDO O BOMBOM) Naquele brinquedo grande. Ah! Agora eu tô comendo, não quero falar não.

SKINNER: - (RINDO) Quer trabalhar comigo é?

VICTORIA (OFF): - Trabalhar? Oba! Coisa diferente!

Skinner coloca Victoria sobre sua perna e volta a atenção para a pasta. Victoria observa num beiço.

VICTORIA (OFF): - Isso é trabalhar? Ah que coisa sem graça! Prefiro ficar trabalhando com os meus pais, pelo menos tem barulho, histórias sinistras e discussão naquela sala...

Victoria dirige a atenção pra mesa de Skinner. Bate as mãos sobre a mesa, sujando tudo de chocolate. Skinner olha pra ela, num sorriso bobo.

SKINNER: - Quer desenhar? O tio ensina.

VICTORIA (OFF): - Não acredito! Ele vai deixar eu pegar aquelas coisas que fazem riscos! Oba!!!!!!!!!!!!

Skinner coloca a caneta na mão de Victoria. Victoria observa atenta e séria.

SKINNER: - Isso... Segura assim... Agora passa no papel... Nossa! Olha que risco bonito!

Victoria olha pra ele. Abre um sorriso.

VICTORIA (OFF): - Nossa cara! Isso é legal mesmo! Pelo menos alguém por aqui me ensina uma coisa divertida!

Victoria passa a caneta no papel, sem coordenação, rasgando o papel. Faz um beiço.

VICTORIA (OFF): - Ih, tio... Eu acho que alguma coisa aqui deu errada.

SKINNER: - (SORRI) Tem que ser de leve... Espera aí, tive uma ideia.

Skinner levanta com Victoria. Abre a porta e olha pra secretária.

SKINNER: - Pode me fazer um favor?

SECRETÁRIA: - (OLHANDO PRA VICTORIA, CURIOSA) De onde ela surgiu?

SKINNER: - É a filha dos agentes Mulder e Scully.

SECRETÁRIA: - Que doce de criança! Que menina mais linda!

VICTORIA (OFF): - (SORRI) Claro que eu sou linda, moça! Olha os pais que eu tenho!

SKINNER: - Avise o agente Mulder que ela está aqui comigo. Preciso que desça e me compre um estojo de aquarela atóxica.

VICTORIA (OFF): - Que diabos é isso aí que ele vai me dar? Será que é divertido?



BLOCO 2:



Olhe pra mim... sou um gênio!



3:21 P.M.

Victoria sentada no tapete da sala de Skinner, lambuzada de aquarela, batendo as mãos nos papeis.

VICTORIA (OFF): - Que coisa mais divertida esse brinquedo! Olha só as minhas mãozinhas! Ei! Será que isso é gostoso?

Victoria passa as mãos na boca. Suja a cara toda de tinta. Vira o rostinho fazendo uma careta.

VICTORIA (OFF): - Ui! Acho que isso não é pra comer não... Tem gosto daquela meleca que a minha mãe come pra não engordar...

Skinner ao telefone, distraído numa ligação. A secretária entra. Senta-se ao lado de Victoria.

SECRETÁRIA: - Está gostando das tintas, hein?

VICTORIA (OFF): - (OLHA PRA ELA RINDO) Claro moça! Isso faz sujeira! Eu tô adorando! Qualquer coisa que faça sujeira é comigo mesmo. Pode mandar aí! Ei, você tem lama? Diz que tem!

SECRETÁRIA: - Você é tão bonitinha... Igual ao seu pai. E que pai que você tem!

VICTORIA (OFF): - É né? Que pai que eu tenho! Ele é tão legal! E ele é muito bonito mesmo. Minha mãe diz que ele é um gato. Mas eu não entendo o que isso tem a ver, porque ele não tem rabo!

SECRETÁRIA: - Bem que se ele quisesse outra mãe pra filha dele...

VICTORIA (OFF): - (BEIÇO) Moça, não fale assim do meu pai não, viu? Ele é bonito sim. Mas ele já disse que só tem duas mulheres na vida dele: eu e a minha mãe. E tá muito bom assim. Tira o olho porque quando eu crescer vou casar com ele.

Mulder entra na sala. Acena pra Skinner. Agacha-se ao lado de Victoria e da secretária.

MULDER: - O que você aprontou, hein? Deixou sua mãe e eu feito doidos aqui dentro! Pinguinho, se a sua intenção é me deixar de cabelos brancos tá conseguindo...

SECRETÁRIA: - Alguns grisalhos lhe cairiam bem.

MULDER: - (DEBOCHADO) Você acha?

Victoria observa os dois, séria, enquanto esfrega a mão no papel sujo de tinta.

SECRETÁRIA: - Ficaria mais charmoso, agente Mulder.

MULDER: - Me chame de Mulder. É mais informal.

Victoria cerra o cenho. Bate com as duas mãos na tinta, acertando tinta em Mulder.

MULDER: - Pinguinho, o que você pensa que está fazendo?

VICTORIA (OFF): - Estou sujando você, seu cara de pau... E eu vou contar tudinho pra minha mãe, espera só...

SECRETÁRIA: - Não ligue, é criança... Ela é tão doce... Qual o nome dela?

MULDER: - Victoria. Victoria Ann Mulder.

SECRETÁRIA: - O Ann é em homenagem a sua irmã?

MULDER: - Não. É coisa de numerologia.

SECRETÁRIA: - Aposto que o bom gosto veio do pai.

Victoria enfezada joga o rosto em cima do braço da secretária e morde a mão dela. A secretária dá um grito, soltando a mão. Mulder olha debochado pra Victoria.

MULDER: - Na verdade o nome e o ciúme vêm da mãe dela mesmo.

SECRETÁRIA: - (IRRITADA) E a falta de sociabilidade vem de quem será?




Uiiii... fominha!



Residência dos Mulder - 1:38 A.M.

O quarto iluminado pelo abajur de ursinho. Victoria dormindo no berço. Cookie dormindo na porta do quarto. Victoria acorda-se. Olha para o móbile de ursinhos e naves espaciais.

VICTORIA (OFF): - ... Essa não. Tá tudo escuro. Quando tá escuro significa que eu não posso chamar a mamãe porque papai tá com ela... É nosso acordo.

Victoria vira-se no berço. Cookie ergue a cabeça. Victoria olha para a babá eletrônica.

VICTORIA (OFF): - Shiii... Melhor não fazer barulho ou eles vêm até aqui pra ver o que houve, mamãe acaba contando historinha e me bota pra dormir de novo. Essa caixinha é dedo duro! Ainda não entendo como essa coisa fala pra minha mãe que eu tô acordada. Ela nem sai daqui pra dizer alguma coisa... Será que essa caixa fala por pensamento com a mamãe? Mas como mamãe não me entende quando eu falo assim com ela? ... Hum... Aposto que ela entende sim, mas finge que não entende só pra eu não descobrir que a caixa fala com ela desse jeito... Mamãe é esperta!

Victoria senta-se. Tenta agarrar o móbile. O braço não alcança. Ela faz beiço de indignada.

VICTORIA (OFF): - Se isso é pra eu brincar, por que colocaram essa droga tão alto que eu não posso pegar? (OLHA PRO QUARTO/ SUSPIRA) Não quero nenhum brinquedo... (OLHA PRA RAPOSA AO LADO DELA) Nana, você tá com fome? Eu tô... Mas se eu chamar a mamãe ela vai vir aqui, vai me dar mamar e me botar pra dormir.

Victoria se ergue, segurando nas grades do berço. Abre um sorriso.

VICTORIA (OFF): - Que legal, Nana! Minhas pernas tão ficando fortes! Já consigo ficar de pé...

Cai sentada. Frustração.

VICTORIA (OFF): - Coisa mais difícil é ficar em pé. Não sei como gente grande consegue... Eu tô com fome!

Victoria passa os olhos pelo quarto. Pousa o olhar nos grandes cubos, decorando um canto do quarto. Olha pra cadeira. Olha pros cubos. Cookie ergue a cabeça, emitindo um som. A observa. Victoria ergue o braço apontando pra cadeira. A cadeira se move até o berço. Ela então aponta pra um dos cubos que flutua pousando sobre a cadeira. Cookie se levanta, abanando o rabo. Victoria aponta pro outro cubo que levita caindo dentro do berço. Sorri.

VICTORIA (OFF): - Mágica!

Victoria sobe no cubo, colocando o joelho sobre o outro cubo fora do berço. Cookie se deita, colocando as patas nos olhos, choramingando. Victoria desce do cubo pra cima da cadeira. Resvala e cai sentada no tapete.

VICTORIA (OFF): - Au! Minha bundinha!

Cookie vem até ela a lambendo. Victoria o afaga.

VICTORIA (OFF): - Eu tô bem. Você tá com fome também?

Cookie late.

VICTORIA (OFF): - Não fala! Eles vão saber que estamos acordados e não vamos poder brincar!

Cookie começa a fazer festa lambendo-a. Sem querer vira a cadeira e o cubo.

VICTORIA (OFF): - Para, Cookie, seu barulhento!

Victoria sai engatinhando do quarto. Segue o corredor.

VICTORIA (OFF): - Puxa vida, como essa casa é grande daqui de baixo. Quando tô no colo de alguém parece tão pequena...

Cookie passa por ela descendo as escadas. Victoria segue o corredor. Para sentada na porta do quarto de Mulder e Scully que está aberta. Espia.

Mulder e Scully debaixo dos lençóis, rindo. Scully aos gritos baixinhos. Victoria acena negativamente com a cabeça, indo em direção à escada.

VICTORIA (OFF): - ... Que brincadeira mais chata a deles. Mamãe grita se agarrando na cama e papai fica gemendo em cima dela... Coisa mais boba isso!

Victoria olha pras escadas. Senta-se.

VICTORIA (OFF): - Shiii... E agora? Como é que eu vou descer essa coisa grande? A comida tá lá embaixo...

Victoria vira-se. Vai resvalando sentada até cair no degrau.

VICTORIA (OFF): - Ai minha bundinha... Não vai dar assim. Até chegar lá embaixo deixei as fraldas em pedaços pela escada. E sem fralda não dá. Imagina se eu faço pipi no chão? Cookie vai levar a culpa como da outra vez.

Victoria olha pra porta do quarto de Mulder e Scully.

VICTORIA (OFF): - Ah, papai tá lá brincando com a mamãe, não vai ver mesmo... Não. Ele não quer que eu voe... Não tem outro jeito. E eu sou uma filha obediente.

Victoria vai descendo de degrau em degrau com a bunda.

VICTORIA (OFF): - Au!... Ai! Ui! Ai! Ui!


1:57 A.M.

Scully entre os braços de Mulder. Mulder afaga os cabelos dela.

SCULLY: - Acho melhor ver a Victoria.

MULDER: - Ela tá dormindo.

SCULLY: - É. E o que poderia aprontar mesmo? Será que ela não tá com fome? Comeu tão pouquinho.

MULDER: - É... E ela não chora. Fica quietinha com fome, mas não chora... Vai lá Scully. Ou quer que eu a traga pra cá?

SCULLY: - Não, eu vou. Acho que vou acordá-la, dar de mamar e colocá-la pra dormir de novo. Já volto. (SORRI) Enquanto isso, você bem que podia ir aquecendo seus motores, Mulder. Quero você completamente turbinado... Uhu! Mulder, pegue as algemas. Volto logo.

MULDER: - (DEBOCHADO) Vai. Quando você voltar vou ter uma surpresa ótima pra você.

SCULLY: - (SORRI MALICIOSA) Onde está a surpresa?

MULDER: - (SORRI MALICIOSO) Escondida dentro da minha cueca...

Estrondo vindo da cozinha. Mulder e Scully sentam-se na cama.

MULDER: - (PÂNICO) Tem gente dentro de casa, Scully.

Mulder pula da cama só de cuecas. Pega a arma. Scully levanta-se. Os dois saem pro corredor. Mulder espia pelas escadas, com a arma em punho.

MULDER: - (COCHICHA) Pega Victoria. Tranque-se no quarto com ela.

Scully afirma com a cabeça e corre até o quarto de Victoria. Ao ver a cadeira derrubada e o berço vazio, arregala os olhos. Olha pra Mulder.

SCULLY: - (COCHICHA/ DESESPERADA) Levaram Victoria! Há indícios de que alguém entrou no quarto!

Scully entra correndo em seu quarto e pega sua arma. Os dois descem pé por pé as escadas, armas em punho, nervosos. Chegam na sala. Mulder olha pra cozinha e percebe a parca luz e o tomate que vem rolando até a sala. Sinaliza pra Scully. Scully se põe ao lado da porta. Mulder entra na cozinha com a arma em punho. Scully entra em seguida.

MULDER: - Parado aí, FBI! Ponha as mãos na cabeça aonde eu possa vê-las!

Close na geladeira aberta. Victoria sentada na frente da geladeira, com frutas e verduras esparramadas pelo chão, a prateleira caída pra fora, ovos quebrados, gelatina espalhada, latas de cerveja. A boca toda suja de mousse de maracujá. Abre um sorriso.

VICTORIA (OFF): - Shiii... Sujou!

Mulder põe a mão no rosto.

MULDER: - Eu não acredito! É o fim da nossa carreira, Scully! Toda essa operação pra prendemos uma ladrazinha de geladeira!

SCULLY: - (INCRÉDULA) Como ela desceu as escadas? Como ela saiu do berço?

VICTORIA: - (BEIÇO) Nah!

MULDER: - (DEBOCHADO) Chamo o juizado de menores? Enquadro essa fera em flagrante delito?

SCULLY: - (INCRÉDULA) Como ela... (IRRITADA) Ô filha, você tá muito sapeca pra sua idade!

Scully pega Victoria. Ela balança as pernas gritando.

VICTORIA: - Nah! Nah! Nah!

SCULLY: - Não senhora! Eu bem descansada da vida enquanto você descia as escadas? Podia ter se arrebentado toda! Bem que dizem que crianças tem um anjo da guarda muito forte!

Scully senta-se, começa a examinar Victoria. Victoria sacode os braços e as pernas.

SCULLY: - Para! Quero ver se não tem hematomas.

VICTORIA (OFF): - Nah! Me solta, mamãe! Isso faz cócegas! Tá bom, não faço mais, mas por favor, não torture!

Mulder senta-se no chão da cozinha. Larga a arma. Pega o pote de mousse que está virado no chão. Começa a passar o dedo e lambiscar.

MULDER: - Ela não tem hematomas. Mas tem purê de tomate até na orelha.

SCULLY: - Eu não entendo como ela saiu do berço!

MULDER: - Quando eu digo que ela é um exterminador...

SCULLY: - Mulder!

MULDER: - Será que vou ter que comprar um berço com grades de 2 metros de altura? Ahn? Era só o que me faltava! Já estou vendo que vou ter que apelar pra solução que meu pai encontrou... (SE CALA/ DISFARÇA)...

SCULLY: - Como assim?

MULDER: - (ASSOVIA/ DISFARÇANDO)

SCULLY: - (INDIGNADA) Ahá! Peguei você no flagra, Fox Mulder! Pode começar a falar! Agora tudo faz sentido! Agora eu sei a quem ela puxou!

MULDER: - Ah não era tanto... (SORRI/ SAUDOSO) Meu pai comprou umas ripas de madeira e fez uma cerca alta e colocou na porta do quarto. Mesmo que eu saísse do berço não conseguia sair do quarto.

SCULLY: - (INCRÉDULA)

Scully ajeita Victoria no colo. Começa a amamentá-la. Victoria fecha os olhos.

MULDER: - (CORADO) Eu era um anjinho...

VICTORIA (OFF): - Que cara mentiroso! Basta olhar pra cara dele e ver que era pior do que eu! Aposto que ele fazia até pipi no tapete!

SCULLY: - Anjinho? Se o seu pai teve que colocar cerca na porta do quarto? O que mais você fazia, ahn? Me diga, assim ficarei de sobreaviso com sua filha.

MULDER: - ... Nada.

VICTORIA (OFF): - (SORRI) Ah, qual é cara? Nem vem contar lorotas... Diz aí, vai. Quem sabe você me dá umas ideias...

SCULLY: - Mulder... Não minta!

MULDER: - Eu não lembro direito. Mas minha tia contava que um dia até a polícia esteve lá em casa.

VICTORIA (OFF): - Polícia? Nossa! Ele era barra pesada, como diz tio Langly.

SCULLY: - (CURIOSA) Por sua causa?

MULDER: - (SORRI/ RELEMBRANDO) Bill Mulder fez uma cena enorme saindo às pressas do trabalho, apavorado. Minha mãe chamou a polícia. Eu tinha sumido.

SCULLY: - Que idade você tinha, Mulder?

MULDER: - Um ano... Um ano e meio...

VICTORIA (OFF): - Ih, tá com nada então. Eu nem tenho isso tudo aí e já tô batendo o recorde!

SCULLY: - Você fugiu com essa idade? Seu rebelde!

VICTORIA (OFF): - Isso mamãe. Rebelde é ele. Depois fica me acusando de ser rebelde! Olha a do cara! Fugir de casa!

MULDER: - Não, eu não fugi. Eu tinha mania de me entocar... Não podia ver algum canto estranho que eu tinha que me meter.

VICTORIA (OFF): - Shiii papai... Não venha roubar minha ideia de um dia dormir dentro daquela caixa que a mamãe chama de máquina de lavar! Aquilo deve balançar legal! E você não cabe lá dentro não!

MULDER: - Se passaram duas horas até meu pai resolver ir até a delegacia e abrir o armário da sala pra pegar um casaco pra minha mãe. Então lá estava eu dormindo no meio das roupas deles e dos tacos de golfe.

Scully olha pra ele ternamente, rindo.

SCULLY: - Você, hein Mulder?

MULDER: - (SAUDOSO) Como é bom ser criança... A gente nunca devia crescer, sabia? Crescer pra quê?

VICTORIA (OFF): - Você tem razão papai. Só que você cresceu, mas continua criança. Você é mais bobo do que eu!

Scully olha pra Victoria.

SCULLY: - Sabe de uma coisa? Eu não queria nunca que ela crescesse. Nosso bebê tá crescendo, Mulder... Daqui à pouco não teremos mais um bebê aprontando pela casa.

VICTORIA (OFF): - Ah mamãe, me deixa crescer mais um pouco! Só um pouquinho. Pelo menos pra eu falar e conseguir ficar de pé! Pode ser do seu tamanho, mas melhor se for do tamanho do papai. Assim eu alcanço aquele armário que você esconde os biscoitos!

MULDER: - (OLHA PRA VICTORIA) Dá pra ficar furioso com ela? Olha pra esse pinguinho de gente, Scully. Vê se não é a diversão que temos nessa casa? A surpresa do dia a dia... Os agitos aqui dentro se devem a ela.

VICTORIA (OFF): - Isso aí papai! Valeu a força! Ajuda aí porque a mamãe tá zangada!

MULDER: - Na hora você até fica zangado, mas depois... (OLHA PRO CHÃO) Olha como sua cozinha ficou, Scully... Parece um campo de guerra!

Os dois começam a rir. Mulder admira Victoria. Enche os olhos de lágrimas.

MULDER: - Eu ainda olho pra ela e não acredito. Não acredito que temos esse pinguinho de gente aqui...

SCULLY: - (OLHANDO PRA FILHA TERNAMENTE) Nem eu acredito muitas vezes... Ela mudou tanta coisa em nossas vidas... Algumas vezes eu olho pra ela, enquanto brinca. Fico pensando se ela pensa alguma coisa. Se pensa, o que seria?

VICTORIA (OFF): - Ah mamãe, eu penso tanta coisa. Agora tô pensando em chorar porque vocês dois tão me fazendo ficar emotiva.

MULDER: - Ela deve pensar Scully.

SCULLY: - Será que ela sabe que modificou nossas vidas? Que acrescentou algo pra nós dois? Será que ela sequer supõe um bocadinho do amor que temos por ela? Da importância que ela tem em nossas vidas?

VICTORIA (OFF): - Shiii... Mamãe, desculpa, eu sei que trouxe bagunça pra vocês... Mas eu não vou mais fazer isso.

MULDER: - Eu... Eu não consigo mais imaginar essa casa sem Victoria... Fico pensando como você tinha razão sobre ter filhos... Como nossa vida era vazia, como faltava ela pra preencher nosso espaço.

SCULLY: - Será que ela sabe o quanto a amamos?

VICTORIA (OFF): - Claro que sei mamãe. Vocês deviam estar furiosos comigo, mas estão me fazendo declarações de amor. Eu vou acabar chorando! Acho que puxei ao papai, que chora por qualquer coisa...

MULDER: - Eu espero que ela saiba. Porque isso é muito importante pra mim. Que ela saiba sempre o quanto nós a amamos. E que daríamos nossas vidas por ela. Que arriscamos tudo pra tê-la. E que mesmo continuando a ficar noites insones de nervosismo, mesmo tendo que conviver com o medo de a tomarem de nós, nós nunca nos arrependemos de tê-la. E eu teria outras mais, Scully. Se nós pudéssemos.

VICTORIA (OFF): - Oba!!!!!!!!!!! Isso aí, providenciem uma irmã pra mim porque daí eu vou ter alguém pra brincar! Pensando melhor não. Prefiro um irmão. Assim ele não vai pegar minhas bonecas.

SCULLY: - Mulder... Vamos entrar numa lista de adoção. Você tem razão mesmo... Quero essa casa cheia de crianças.

MULDER: - Virando a geladeira? Meia dúzia de moleques espalhados pela casa, gritando e atirando cereais uns nos outros? (SORRI) Manhê!!!!! O fulano puxou meu cabelo! Paiê!! Ela furou minha bola de basquete!!!!!

SCULLY: - (EMPOLGADA) Isso! Muita confusão! Não importo de embranquecer meus cabelos por uma boa causa.

MULDER: - Acho que vou comprar é uma camioneta... Pra carregar um time inteiro de basquete.

SCULLY: - (SORRI) Eu ficaria imensamente feliz de carregar o time inteiro de basquete atirando pipocas dentro do carro, sujando de chocolate os bancos e gritando feito periquitos numa amoreira... (OLHA PRA VICTORIA) Quando ela crescer vamos ter histórias pra contar... E muito pra relembrar em nossa velhice.

Mulder se arrasta até Scully. Beija Victoria. Olha debochado pra Scully.

MULDER: - Velhice? Pretende me aturar até o fim da vida? Com cabelos brancos, artrite e ameaçando o jornaleiro com uma bengala?

SCULLY: - (O ENCARA NUM SORRISO BOBO) Até o fim. E se este fim chegar... Que seja junto. Ao mesmo tempo. Pros dois. Que morramos de mãos dadas. Que sejamos enterrados juntos, num único caixão, num único túmulo. Aqui jaz Mulder e Scully. Nem a morte os separou.

MULDER: - Me deixa ser convencido do nosso amor, Scully. Mas vão colocar uma lápide no nosso túmulo em forma de coração e pra cada casal de namorados que forem nos visitar, faremos milagres. Não adianta. Não dá pra fugir. Cada vez que eu olho pra você, eu tenho a certeza de que nascemos com o nome do outro escrito em letras garrafais na testa. Como Abelard e Heloise. Como Alexandre e Rotana. Cleópatra e Marco Antônio. A Bela e a Fera. Não dá pra separar, pra desassociar. Não são dois. São apenas um. E cada um se remete ao outro, ligados eternamente, por toda a história... Scully, me diz uma coisa. Que fio tão forte e invisível nos prende?

SCULLY: - Mulder, me diz uma coisa: que sentimento tão grande e puro é esse que chega a doer dentro do peito, pulsando por vida ou por morte, desde que seja perto, e somente perto e abraçado um ao outro? Que sentimento é esse maior do que a nossa própria compreensão? Que sentimento é esse que esfacela a alma de felicidade, que sobrepõe qualquer explicação?

VICTORIA (OFF): - Isso é amor, seus bobos! A coisa mais importante do universo!

Mulder aproxima os lábios dos dela. Victoria afasta o rosto do peito de Scully. Alterna o olhar pra Mulder e Scully que estão se olhando e nem percebem.

VICTORIA (OFF): - Isso eu tenho que parar pra ver sempre... Agora sim... Olhos nos olhos... Boca na boca... Hum... Adoro quando eles fazem isso! Deve ser pra demonstrar amor. Mas é complicado... Mas... Acho que agora aprendi a beijar!


2:18 A.M.

Mulder deitado na cama, Scully nos braços dele.

MULDER: - Eu... Eu acho que a terapia está te fazendo bem.

SCULLY: - Me sinto bem mais leve, Mulder... Mais calma... Pelo menos faz alguns dias que não brigo mais com você.

Mulder a beija.

MULDER: - E sobre o quê vocês falam? Hum?

SCULLY: - Segredo, Mulder...

MULDER: - (SORRI) ...

SCULLY: - Pelo menos o Dr. Patterson é uma pessoa gentil, amável, calma... Eu me sinto bem com ele. Consigo me abrir, dizer coisas que nunca pensei em dizer.

MULDER: - Qual a idade dele? É velho?

SCULLY: - (RINDO) Para seu ciumento! Não, ele deve ter sua idade. Mas é feio.

MULDER: - Ponto pra mim!

Scully sorri.

Corta para Victoria no berço, observando o móbile.

VICTORIA (OFF): - Esse Dr. Patterson deve ser amigo do anjinho malvado. Aquele que todo mundo pensa que tem chifres. Só assim pra eles entenderem, se tem chifre é um bicho. Queria tanto que eles entendessem o que eu tô tentando dizer... Evitaria tanta confusão... Anjo feio! Quer estragar minha família, mas eu não vou deixar não! Eu vou usar essas coisas na minha boca pra mordê-lo! Vou sim... Se pelo menos eles deixassem o vovô vir aqui. Aposto que o vovô ia me entender, mas papai detesta ele... Vovô só tá cuidando a mamãe para protegê-la, mas o papai fica encucado e não vê isso... Criança sofre! Esses adultos não conseguem ver as coisas. Por que eles complicam tudo?

Victoria se vira no berço. Suspira. Enche os olhinhos de lágrimas.

VICTORIA (OFF): - Ele vai tirar a mamãe de mim... E eu não consigo que papai me entenda direito... Ele me quer, mas primeiro vai tirar a mamãe pra deixar papai fraco e assim poder me pegar... Mas o papai só fica preocupado comigo e não vê que é isso que o Bicho quer que ele faça. Anjinho esperto. Ele nunca se aproxima do papai porque sabe que o papai conhece as trevas. E ele me detesta porque eu salvei papai quando anjinhos maus entraram no corpo dele e eu tava na barriga da mamãe ainda... Será que depois de tanta coisa papai não percebe ainda quem é o Bicho? Puxa, eu tô fazendo o melhor pra explicar porque não consigo falar!

Victoria fecha os olhos. Sorri. Abre os olhos. Vira-se, olhando pra cima.

VICTORIA (OFF): - Oi, anjinho!!! Perdeu o sono também?

Uma brisa sopra pelos cabelos de Victoria. Ela abre um sorriso, virando o rosto.

VICTORIA (OFF): - (RINDO) Isso faz cócegas! Também te amo!

Mulder entra no quarto. Olha pro berço.

MULDER: - Acordada, Pinguinho? E rindo sozinha?

VICTORIA (OFF): - Não tô rindo sozinha, papai! Tô brincando com o Gabriel!

Mulder ajeita o cobertor sobre Victoria. Coloca a chupeta na boca da menina. Victoria continua olhando pra cima. Mulder olha pra cima.

MULDER: - Gosta desse móbile, não é?

VICTORIA (OFF): - Não, eu gosto do meu amigo que fica brincando comigo até eu dormir.

MULDER: - (AJEITA A RAPOSINHA AO LADO DELA) Pronto. A Nana tava com frio.

Mulder a beija na testa. A admira num sorriso. Então sai do quarto, deixando a porta aberta.

VICTORIA (OFF): - Papai não dorme mesmo... Dorme, papai. Meu anjinho tá aqui comigo, ele brinca e toma conta de mim... Mas eu não sei como o anjinho entra aqui no quarto sem que papai abra a porta. Por onde Gabriel entra se tá tudo fechado? Mágica também?



BLOCO 3:


📷


Minha família...



Residência dos Mulder - 9:29 A.M.

Meg ao telefone.

MARGARET: - ... Sim, Dana... Está tudo bem. Não, não se preocupe... Sim, portas trancadas... Dana, criei quatro filhos, você quer me ensinar a ser mãe? ... Vou deixar o almoço pronto pra vocês. Mas cheguem antes da uma, porque hoje é sábado e tem bingo.

Meg desliga. Senta-se no sofá e revira a bolsa. Victoria com olhos apreensivos, as mãozinhas nas pernas, observando a bolsa, de chupeta na boca.

VICTORIA (OFF): - Legal! Vovó sempre traz coisas bonitas pra mim...

MARGARET: - Eu comprei algumas coisas pra você que vão deixar minha netinha mais bonita ainda... Olha só! Lacinhos... Brinquinhos novos... E um anel!

Victoria sorri.

MARGARET: - A minha mocinha de anel no dedo... Que coisa mais lindinha!

VICTORIA (OFF): - Oba! Agora vou ter uma coisa daquelas que a mamãe tem no dedo!

Meg coloca o anel no dedo de Victoria.

MARGARET: - Não pode tirar do dedo e não é pra pôr na boca. Será que não é melhor deixar isso? E se você resolve engolir...

VICTORIA: - (ESCONDE A MÃO) Nah!

Meg sorri. Victoria retribui o sorriso, admirando o anel na mãozinha. Leva os dedos da outra mão na pedrinha, a analisando.

VICTORIA (OFF): - Que coisa vermelha bonita! Puxa! Gostei disso!

Victoria desvia a atenção pra Meg, que mexe em sua carteira. Victoria pula no sofá.

VICTORIA: - (AOS GRITOS) Dah!!!!!!!.

MARGARET: -(RINDO) Já quer mesada com essa idade?

VICTORIA: - Dah ovó! Dah!

MARGARET: - Hum, quer ver meus documentos?

A foto de Willian Scully cai da carteira sobre o colo de Meg. Meg olha pra foto do marido, saudosa.

MARGARET: - ... Willian Scully. Quem dera você estivesse vivo para brincar com nossa netinha... Tenho certeza de que ficaria completamente bobo com ela... Victoria, olha esta foto. Esse é...

VICTORIA: - (RINDO) Ovô!

Meg olha curiosa pra ela.

MARGARET: - Sim... É o vovô. Como sabe? Sexto sentido? Ele ainda está aqui conosco?

VICTORIA (OFF): - Shi, vovó. Você tá por fora! Tá pensando que sou burra é? A mamãe sempre pega a foto dele e mostra pra mim!


1:48 P.M.

Mulder sentado no tapete da sala, pesquisando alguma coisa no laptop. Victoria, deitada no sofá, observa Scully, compenetrada, lendo um livro.

VICTORIA (OFF): - Mamãe, me dá um carinho?

Scully continua lendo.

VICTORIA: - Mama!!!!!

SCULLY: - O que foi neném?

VICTORIA (OFF): - Que dificuldade! Como vou dizer que quero um carinho?

SCULLY: - Hum? Que foi Docinho?

VICTORIA: - Inho!

SCULLY: - Inho? Que 'inho'? (RINDO) Cavalinho é com o papai!

VICTORIA (OFF): - Que dificuldade! Meu cérebro é mais rápido que minha boca! Que corpo mais limitante esse! Vou ter que pensar num jeito...

Scully volta a atenção pro livro.

VICTORIA: - Mama!

Scully olha pra ela. Victoria estende os braços.

SCULLY: - Quer colo?

Victoria bate palmas. Scully solta o livro e a toma nos braços. Victoria se aconchega nela. Mulder fecha o laptop e levanta-se. Pega Victoria nos braços.

MULDER: - Sai, intrometida. A filha é minha.

SCULLY: - Ah, sim. Espero que ela chore pedindo pra trocar as fraldas.

MULDER: - Eu sei o que ela quer. Ela quer 'inho'.

Mulder abraça Victoria. Victoria se recosta nele, sorrindo.

MULDER: - Quer carinho, não é Pinguinho?

VICTORIA (OFF): - Depois não é pra admirar esse cara? Ele parece que tem conexão com meu cérebro! Grande papai! É isso mesmo que eu quero!

MULDER: - Ei, mamãe, que tal a gente fazer um piquenique com essa garotinha carente? Ahn? Ela parece que precisa de um ar.

Scully pula do sofá.

SCULLY: - Está querendo sair de casa?

MULDER: - Por que não?

SCULLY: - Filha, segure seu pai aí. Vou preparar tudo correndo antes que o espírito de sociabilidade saia do corpo dele!

VICTORIA (OFF): - Oba! Vamos sair! Até que enfim, né papai? Já tô cansada de ficar aqui dentro, mamãe tem razão de ficar brava. O negócio é festa! Ah, mamãe! Não esquece de levar gelatina não! E leva aquela coisa gostosa que faz barulho quando a gente come. É, aquela que vem dentro duma lata enorme e comprida com uma carinha sorrindo. Aquela que você diz que papai tá proibido de comer porque dá coles... coles sei lá o quê. Porque é frito. Pronto. Frito eu sei o que é.




Meu primeiro amor...



2:39 P.M.

[Som: U2 - Luminous Time (Hold on to Love)]

Victoria sentada em sua poltroninha, presa no banco traseiro do carro. O vidro semi-aberto, ela olhando pra fora, cabelos voando, olhinhos cerrados.

VICTORIA (OFF): - Piquenique... Gostei dessa palavra. Nem sei o que é, mas como entendi que envolvia sair de carro e pegar a estrada, tô dentro!

O carro para no sinal. Mulder aguarda atento olhando pro sinal vermelho, batucando os polegares no volante. Scully ao lado, revirando CDs no porta-luvas.

A Kombi psicodélica estilo hippie, para ao lado deles. Mulder nem percebe. No volante do carro, Ivan e ao lado dele, a mulher Joan. No banco de trás, em outra poltroninha, Kevin, o bebê loirinho de olhos azuis.

Victoria olha pra Kevin. Kevin olha pra Victoria. Ao mesmo tempo. Olhares admirados.

VICTORIA (OFF): - Oi! Qual o seu nome?

KEVIN (OFF): - Kevin. E o seu?

VICTORIA (OFF): - Victoria.

KEVIN (OFF): - Acho que nos conhecemos de algum lugar...

VICTORIA (OFF): - Claro que nos conhecemos. Eu tava na barriga da minha mãe e você tava na barriga da sua. Lembra?

KEVIN (OFF): - Puxa, você é uma gracinha, sabia? Quer sair comigo? Podíamos tomar mamadeira juntos. O que acha?

VICTORIA (OFF): - Você é besta, menino? Eu não saio com estranhos!

KEVIN (OFF): - Mas eu não sou estranho. A gente se falava! Você é daqui?

VICTORIA (OFF): - Sou. E você deve ser um caipira porque seu pai nem sabe parar no sinal!

KEVIN (OFF): - Eu? Caipira? Você tá por fora! Eu sou um viajante. Meus pais são hippies.

VICTORIA (OFF): - E o que é isso?

KEVIN (OFF): - Ih, olha só a garota! Completamente por fora.

VICTORIA (OFF): - O que é, seu besta? Vai provocar é? Eu atiro a minha mamadeira em você!

KEVIN (OFF): - Não vai acertar, sua boba!

Victoria faz careta. Kevin põe a língua pra ela.

VICTORIA (OFF): - Menino bobo!

KEVIN (OFF): - Menina boba!

VICTORIA (OFF): - (BEIÇO)

KEVIN (OFF): - Ei, desculpa aí, foi mal. Quer um biscoito? É de chocolate.

VICTORIA (OFF): - Não. O sinal já vai abrir. O que você gosta?

KEVIN (OFF): - De bichinhos. E você?

VICTORIA (OFF): - De monstros.

KEVIN (OFF): - Me dá seu endereço! Eu preciso encontrar você de novo! Fiquei apaixonado. Você é a aveia da minha papinha!

VICTORIA (OFF): - Eu nem sei onde moro! E quem você pensa que é, hein? Só porque é bonitinho não significa nada.

KEVIN (OFF): - Ah, então você me acha bonito? Precisa sentir meu cheiro então. Talco Johnson.

VICTORIA (OFF): - Adoro talco Johnson...

KEVIN (OFF): - Você é tão linda... É a menina mais linda que eu já vi.

O sinal abre. Victoria sorri, colocando as mãos no vidro do carro. Kevin sorri, levando as mãos ao vidro do carro. Olhos nos olhos. Os carros aceleram. Eles ficam com as mãos nos vidros, tentando um acompanhar o outro, mas os carros tomam direções opostas.

VICTORIA (OFF): - Acho que... (SUSPIRA) Estou apaixonada... Ai... Que sensação boa! Adoro esse menino. Eu sempre me senti bem com ele...




Um dia perfeito



3:56 P.M.

[Som: The Oldies – You Are My Sunshine]

Scully sentada na grama do parque, ao lado da toalha estendida no chão. Olhos em Victoria, a admirando. Cookie deitado ao lado de Scully. Mulder deitado na grama, com a lata de batatas fritas, dando uma delas pra Victoria, que está sentada do lado dele. Victoria analisa a batata, num beiço, cerrando o cenho. Mulder começa a rir.

MULDER: - (DEBOCHADO) Está analisando se causa colesterol, 'Pequena Dana Scully'?

VICTORIA: - (SORRINDO) Nah!

Scully sorri.

MULDER: - Batata. Diz batata pro papai, diz.

VICTORIA: - Ata!

MULDER: - Isso. Isso daí se chama batata. (PEGA UM PEDAÇO DE GRAMA) E isso? Como se chama isso?

VICTORIA: - ... (OLHA PRA GRAMA, CURIOSA)

MULDER: - Grama.

VICTORIA: - Ama!

SCULLY: - (SORRI) Sabia que bebês conhecem cores, Mulder?

MULDER: - Será? (OLHA PRA VICTORIA) De que cor é a grama, filha?

Victoria aponta pra blusa de Scully. Mulder ri.

MULDER: - Isso mesmo. É da cor da blusa da mamãe. É verde.

VICTORIA: - Erde!

MULDER: - Adoro ficar falando nomes de coisas pra ela. Só pra ver ela repetir. Fica tão engraçadinha tentando falar.

SCULLY: - Experimente mostrar um sanduíche pra ela e pergunte como chama. Aí sim você vai morrer de rir.

MULDER: - Já fez isso?

SCULLY: - Sem querer. Fiquei um bom tempo rindo.

VICTORIA (OFF): - Tô ferrada! Agora a piada deles sou eu!

Mulder abre o cesto. Retira um sanduíche.

MULDER: - O que é isso, Pinguinho? Ahn?

VICTORIA: - (ATRAPALHADA/ SOLTANDO AR ENTRE AS LETRAS) Ichechi.

Mulder começa a rir. Scully ri com ele.

MULDER: - (RINDO/ FOLGANDO) O que é isso? Não entendi.

VICTORIA: - Ichechi!

MULDER: - (DEBOCHADO) Em inglês, Pinguinho. Não fale em russo.

Scully ri. Victoria leva a mão até o sanduíche. Mulder ergue o braço. Ela ergue as duas mãos, tentando alcançar o sanduíche.

VICTORIA: - Dah!

MULDER: - Dah o quê?

VICTORIA: - Ichechi... Ox, ichechi!

Mulder tira um pedacinho e coloca na boca de Victoria. Victoria vira o rosto.

MULDER: - Não quer?

VICTORIA (OFF): - Quero! Mas não esse pedacinho besta que você quer me dar, seu esganado!

SCULLY: - Ela não come de pedacinho, Mulder. Sua filha esganada só come se você der um pedaço grande na mão dela.

VICTORIA (OFF): - Não sou esganada não. Pedacinho é mais difícil de pegar. Mamãe, você não é lógica!

Mulder tira um pedação do sanduíche e entrega pra Victoria. Victoria pega com as duas mãos e leva à boca.

MULDER: - Vê se não parece um esquilo comendo nozes?

VICTORIA (OFF): - Bem feito pra mim. Acho engraçado ele pegar no pé da mamãe. Agora tá fazendo o mesmo comigo!

Scully ri. Beija a filha no rosto.

SCULLY: - Coisinha mais linda da mamãe! Comendo 'ichechi'!

MULDER: - Ela não vai se engasgar, Scully?

SCULLY: - Não. Pão ela consegue comer, dissolve fácil. Quando chega no presunto e no queijo, observe. Ela tira o pão da boca. Depois tira o presunto ou o queijo e fica olhando. Põe na boca, se baba toda e tira com cara de nojo. Ainda não consegue mastigar.

Os dois riem. Cookie se aproxima furtivamente e rouba o sanduíche da mão de Mulder. Sai correndo. Mulder se levanta.

MULDER: - Ei, seu pulguento atrevido! Isso é meu!

Mulder sai correndo atrás de Cookie. Cookie dispara. Victoria solta o sanduíche e aos risos altos engatinha pela grama atrás deles.

SCULLY: - (RINDO) Pega o Cookie filha, pega!

Victoria engatinha rapidamente pela grama. Cookie passa correndo por ela. Ela dá a volta, aos gritos e risadas. Mulder aproxima-se, ofegante. Olha pra Scully. Mexe as mãos e os músculos do rosto, fazendo cara de doido.

MULDER: - (VOZ GROTESCA) A aranha assassina vai atacar!!!!!

Scully grita. Sai correndo. Mulder corre atrás dela, a derrubando na grama, lhe fazendo cócegas. Scully grita e ri, tentando fugir dele. Victoria se aproxima. Mulder agarra Victoria também, fazendo cócegas nela. Cookie pula em cima deles, os fazendo se embolar pela grama.


4:21 P.M.

Mulder caminha, segurando Victoria pelos braços, que mantém os pezinhos sobre os pés de Mulder. Scully ao lado deles.

MULDER: - Isso. Primeiro um pé... Depois o outro.

VICTORIA (OFF): - Isso é complicado! Pra você que tem esses pés enormes é fácil! Agora olha pros meus pezinhos!... Adoro pegar os sapatos do papai. Servem de carrinho pra minha Barbie.

Mulder a solta delicadamente sobre a grama. Ela sai engatinhando. Mulder envolve o braço em Scully, caminhando juntos.

SCULLY: - O que deu em você pra sair de casa?

MULDER: - Se me convidasse pra esse tipo de programa apenas entre nós três, eu viria mais vezes.

SCULLY: - Hum... Tem algo a ver com verde, ar puro e casinha no campo?

Mulder sorri. A beija no rosto.

MULDER: - Imagina se tivéssemos uma fazendinha, hein?

SCULLY: - Você nunca ficaria longe da cidade, Mulder. Eu te conheço... O que houve que Victoria? Por que está sentada lá adiante?

Cookie aproxima-se de Mulder, segurando um disco com a boca. Mulder olha pra ele.

MULDER: - Quer duelo, pulguento? Me dá isso aqui.

Mulder rouba o disco e sai correndo. Cookie corre atrás dele. Mulder atira o disco e Cookie vai buscá-lo.

[Som: The Cranberries – Never Grow Old]

Scully se agacha ao lado de Victoria, que está sentada na grama.

SCULLY: - O que foi, filha? Ahn?

Victoria olha pra ela num beiço. Então aponta pro passarinho morto no chão. Scully olha pra ela.

SCULLY: - Oh... O passarinho...

Victoria olha pro passarinho. Olha pra Scully como quem pede explicação. Scully ajeita o cabelo dela. Põe a chupeta na boca de Victoria que olha tristonha pro passarinho. Toca o dedinho nele.

VICTORIA: - Oa!

SCULLY: - Ele não pode voar, meu amor... O passarinho está morto.

VICTORIA: -'Orto'...

Scully senta-se ao lado dela.

SCULLY: - Como vou explicar, você nem pode entender!

VICTORIA (OFF): - (OLHA PRA SCULLY) Entendo sim! Você vai morrer um dia? Papai também? Cookie também? Eu também?

Scully sorri. Passa a mão nos cabelos de Victoria.

SCULLY: - ... Um dia quando você entender melhor eu explico de novo... Este deve ser o seu primeiro contato com a morte... Não vai entender, mas... Um dia tudo morre. Deixa de existir. O passarinho deve ter caído da árvore e morreu.

VICTORIA: -Oa!

SCULLY: - Não... Quando a gente morre, não faz mais nada. Ele não vai mais voar.

Scully olha pra árvore e vê o ninho de passarinhos. Olha pra Victoria.

SCULLY: - Ele caiu, machucou muito e morreu.

VICTORIA: - (OLHANDO TRISTE PRO PASSARINHO MORTO) 'eu'... inho, eu...

SCULLY: - É. Ele morreu. Acabou. Nunca mais ele vai voar.

Scully se levanta. Mulder a chama, tentando tirar Cookie de um buraco de toupeira. Scully corre.

Victoria olha pros passarinhos na árvore, piando e fazendo festa pra mãe passarinho que traz uma minhoca no bico. Victoria olha pro passarinho morto.

VICTORIA: - Orto... Cabou...

Victoria faz um carinho desajeitado no passarinho.

VICTORIA (OFF): - Tadinho... Não é justo isso. (DEIXA AS LÁGRIMAS CAÍREM/ TRISTONHA) Se essa coisa de morte não é o que eu pensava, se a mamãe tá certa, ele nunca mais vai voar... Nem brincar... Não é justo. É tão triste ficar sozinho, sem família, sem brincar... Aposto que a mãezinha dele tá triste como a minha mãezinha fica triste de pensar que podem me pegar...

Victoria coloca as mãos sobre o passarinho. Fecha os olhos.

VICTORIA: - Oa, inho! Oa!

Scully, de costas, observa Mulder que corre atrás de Cookie que persegue uma toupeira.

Victoria ergue as mãos e o passarinho que estava morto, voa de volta ao ninho. Victoria bate palmas, rindo.

VICTORIA: - Oa, inho! Oa!!!!!

Scully volta-se pra Victoria e a pega no colo. Sai caminhando. Victoria acompanha com os olhos o passarinho no ninho, junto com os outros, fazendo festa. Dá um sorriso.



📷


Papai... Estranho papai...


Residência dos Mulder – 9:38 P.M.

[Som: The Turtles – Happy Together]

Mulder no sótão, analisando um tubo de ensaio com os olhos e o líquido verde dentro dele. Victoria deitada no sofá de couro, o observa.

VICTORIA (OFF): - (BOCEJA) Foi um dia perfeito hoje! Até fiquei com sono... Papai, isso é gelatina? Eu quero!

Victoria observa Mulder, que cansado, tenta colocar o trabalho em dia.

VICTORIA (OFF): - Papai trabalha feito um doido... Dá pra ver que está cansado, mas continua... Ele bota música pra não dormir... Amo o papai... Ele se preocupa tanto com a gente... Ele pensa que me engana, mas eu vejo as noites que ele desce as escadas na madrugada pra checar as portas e janelas novamente... Eu até observo ele na sala, mesmo sem sair do berço. Fico olhando pra ele, sentado naquela poltrona, cansado, nervoso...

Mulder solta os papeis. Esfrega os olhos. Põe os óculos. Volta a ler.

VICTORIA (OFF): - Ele pensa que eu não sei das coisas... Mas eu sei sim. Eu me lembro quando eu nasci... Ei! Agora lembro como saí da barriga da mamãe! E lá tava o papai me esperando... A gente teve que fugir juntos da luz... Ele me salvou... Ele sempre me salva. Mas agora acabou. Eu vou salvar o papai de agora em diante. Ninguém mais vai fazer ele ficar triste. Tadinho do papai. Ele é tão legal, não merece ficar triste... Um dia eu vou crescer. E daí quero ver se algum daqueles homens ou até o Bicho... Quero ver se eles vão tentar machucar meu papai. Não vão mesmo! Eu os machuco antes!

Mulder desvia a atenção pra Victoria. Sorri pra ela. Victoria retribui o sorriso. Mulder move os lábios, pronunciando um 'eu te amo'.

VICTORIA (OFF): - (SORRI) Eu também te amo! Papai, faz uma forcinha que você vai poder ler o que eu penso. Você podia antes! Tem que poder agora! Ia ajudar tanto!

MULDER: - O que está pensando, Pinguinho?

VICTORIA (OFF): - Adoro quando ele me chama de Pinguinho! Ele faz isso desde quando eu tava dentro da barriga da minha mãe... Me lembro de todas as historinhas que ele contava, das vezes que falava comigo, quando chorava e quando dizia que tinha medo de me perder... Me lembro de tudo. Dos homens maus... Agora que eu tô aqui, papai, você nunca mais vai me perder. Não mesmo. Gabriel nunca vai deixar!

Mulder senta-se ao computador. Começa a digitar. Victoria fecha os olhos.

VICTORIA (OFF): - Adoro dormir ouvindo meu pai trabalhar... (SUSPIRA) Queria que ele soubesse que eu nunca vou deixar ele triste e que eu o amo tanto...


3:44 A.M.

Victoria abre os olhos. Sente a mão que lhe afaga os cabelos. Vira-se. Abre um sorriso. Mulder, sentado ao lado do berço, afaga os cabelos dela.

MULDER: - (CANTANDO BAIXINHO) You are my sunshine, my only sunshine, you make me happy when skies are gray... You'll never know, dear, how much I love you, please don't take my sunshine away...

VICTORIA (OFF): - Ele sempre faz isso... Perde o sono e vem aqui cantar aquelas músicas antigas dele, que eu adoro! Tem vezes que eu finjo dormir... Escuto ele falando um monte de coisas... Algumas vezes ele chora. Eu finjo que tô dormindo pra não deixá-lo embaraçado. Sei que tem algo errado.

MULDER: - Desculpe, acordei você.

VICTORIA (OFF): - Ah cara, relaxa. Por carinho eu acordo sempre! Também sempre acordo pra um bom papo entre pai e filha. Eu não gosto muito de dormir mesmo.

MULDER: - ... Queria tanto saber o que tenho que fazer... Parece que você sabe mais coisas do que eu sei.

VICTORIA (OFF): - Eu te diria se pudesse. Mas já é difícil falar 'papai', imagina explicar toda uma conspiração pra você?

MULDER: - Parece até que você deve estar pensando em como poderia me explicar uma conspiração.

VICTORIA (OFF): - Vai cara, é isso aí! Eu disse pra você que se fizer um esforço a gente se comunica. Isso é o que a mamãe chama de simbi... simbi alguma coisa. Aquelas palavras difíceis dela.

Mulder a toma nos braços.

MULDER: - Vem dormir com a gente. Eu morro de saudades se você fica longe.

VICTORIA (OFF): - Legal! Adoro dormir com eles. Se tô com frio é só chegar perto do papai. Se tô com calor é só correr pra mamãe. Nunca vi como ela é gelada! E se me dá fome, mamãe já tá pertinho!


10:11 A.M.

Victoria sentada no sofá, brincando com a raposinha. Mulder passa o aspirador na sala. Desliga o aspirador.

MULDER: - Assim não dá. Se tenho que virar doméstica, que seja uma doméstica completa.

VICTORIA (OFF): - (OLHANDO PRA RAPOSINHA) O que é doméstica, Nana?

Mulder liga o som. Pega o aspirador de pó.

[Som: The Archies – Sugar, Sugar]

Mulder continua passando o aspirador. Victoria começa a se embalar com a música. Mulder olha pra ela. Victoria distraída já está dançando. Mulder sorri. Victoria olha pra ele dando um sorriso. Mulder desliga o aspirador. Pega o espanador de pó. Dançando e cantando, vai tirando o pó. Victoria dançando e rindo dele.

MULDER: - (CANTANDO) Sugar, oh oh honey, honey (APONTA O ESPANADOR PRA VICTORIA) You are my candy girl... And you got me wanting you...

VICTORIA (OFF): - (SE EMBALANDO) Gostei dessa música!

MULDER: - (CANTANDO COM O ESPANADOR DE MICROFONE) Honey, oh oh sugar, sugar... You are my candy girl and you got me wanting you.

Mulder vira-se de costas pra Victoria e rebola o bumbum. Victoria ri alto.

MULDER: - (CANTANDO) I just can't believe the loveliness of loving you. I just can't believe it's true! (SE AJOELHA NO CHÃO, OLHANDO PIDÃO PRA VICTORIA) I just can't believe the wonder of this feeling too. I just can't believe it's true!!!!

Victoria bate palminhas num sorriso. Mulder a toma nos braços e sai dançando com ela pela sala, enquanto tira o pó. Victoria aos risos, pulando e dançando no colo dele. Mulder a sacode, dando beijos.

MULDER: - (CANTANDO) Ah sugar, oh oh honey, honey... You are my candy girl... And you got me wanting you...

Victoria põe as mãos no rosto dele, rindo. Mulder mordisca a mãozinha dela. Solta o espanador e continua dançando pela sala com ela. Sobe no sofá, rebola, faz careta. Victoria faz festa.

Corta pra Scully parada na porta da cozinha, com um pano de prato. Scully admira os dois num sorriso.



BLOCO 4:


📷


Mamãe... Doce mamãe...



1:14 P.M.

[Som: Roy Orbison – You Got It]

Scully, ouvindo música, termina de guardar a louça. Victoria a observa, sentada na cadeirinha. Scully veste uma luva térmica e abre o forno, tirando um bolo.

VICTORIA (OFF): - Oba! Bolo!!! Será que tem festa? Ui! Espero que não seja reunião de família. (BEIÇO) Sempre vem aquele primo chato filho do tio Bill. Tio Bill é o problema do meu pai. E o filho dele é o meu problema!

Scully põe a forma sobre o balcão. Victoria observa curiosa. Scully tira o bolo da forma, observando Victoria que não percebe. Scully sorri. Abre a geladeira e tira o glacê. Começa a confeitar o bolo, olhando pra filha.

SCULLY: - Que foi, filha? Quer aprender a fazer bolo com a mamãe?

Victoria olha pra ela. Sorri, batendo palminhas.

SCULLY: - Quer provar? (LAMBE O GLACÊ DOS DEDOS) Hum... Doce...

Scully leva o saco de confeitar na boquinha de Victoria. Victoria já começa a mamar. Scully ri alto.

SCULLY: - Não filha! Não é pra mamar não! Assim, mamãe ensina... Passa a língua, passa.

Victoria observa curiosa, passando a língua. Scully enche os lábios dela de glacê. Victoria começa a se lamber. Sorri.

SCULLY: - Gostoso, né?

VICTORIA (OFF): - Mamãe, adorei essa coisa aí! Prefiro isso a mamadeira. Podes crer! Tem muito mais açúcar e eu gosto muito de açúcar!

SCULLY: - (CONFEITANDO O BOLO) Hum... Que tal colocarmos uns confeitos coloridos?

VICTORIA (OFF): - Oba!

SCULLY: - Deve estar se perguntando pra quê um bolo tão bonito. É pra você. E nesse ano, neném vai fazer seu primeiro aninho e mamãe vai fazer uma festa enorme todinha decorada com ursinhos pro seu aniversário.

VICTORIA (OFF): - Aniversário? O que é isso?

SCULLY: - Vovó vai fazer os docinhos, tia Tara os salgadinhos. Você nasceu na madrugada do dia 24 de dezembro. Fazia tanto frio. Você veio como presente de natal pra mamãe.

VICTORIA (OFF): - Natal? O que é isso?

SCULLY: - Depois do seu aniversário, é natal. Papai Noel vai trazer um presentão pra você.

VICTORIA (OFF): - Papai Noel? Mas o meu papai não é o Fox? Eu tenho dois pais? Shiiii... Não entendi mais nada! Quem é esse Noel??

SCULLY: - Sabe quem é o Papai Noel, filhinha?

Victoria olha pra ela a questionando, séria.

SCULLY: - Papai Noel é um bom velhinho gordinho que traz presentes pras crianças no Natal. O Natal é o dia em que o menino Jesus nasceu. Nós já falamos sobre o menino Jesus.

VICTORIA (OFF): - Sim, eu sei dele. Mas um velhinho que dá presente pras crianças? Puxa, que coisa legal! Ele deve ser rico!

SCULLY: - Papai Noel entra pela chaminé quando as crianças estão dormindo e deixa um presente pra elas.

VICTORIA (OFF): - (BEIÇO) Chaminé? Por que ele não usa a porta? Não é mais lógico? E como ele passa se você disse que ele é gordinho? Mais um que faz mágica?


10:56 P.M.

Victoria deitada no berço. Scully sentada na poltrona, afagando os cabelos dela.

SCULLY: - Então o coelhinho chorou. Nunca mais ele ia poder entrar em sua toquinha. O Cabra Cabrez não ia sair de lá mesmo. O ursinho tentou, o cabritinho tentou, o tigrinho tentou, mas o Cabra Cabrez não saía e botava todos eles pra correr... Então chegou um mosquitinho bem pequenininho.

Victoria observa Scully com curiosidade.

VICTORIA (OFF): - Uau! E daí? Conta! Conta!

SCULLY: - E o mosquitinho disse: 'Coelhinho, eu vou tirar o Cabra Cabrez da sua toquinha'. Aí o coelhinho perguntou: 'Mas como? Você, um mosquitinho? Você é tão pequenininho! Se nem o ursinho, o tigrinho e o cabritinho que são grandes conseguiram?' Então o mosquitinho entrou na toquinha e voou pra dentro do ouvido do Cabra Cabrez... Começou a zumbir tão alto, mas tão alto que o Cabra Cabrez começou a gritar, desesperado e saiu correndo da toquinha do coelhinho. E assim, o coelhinho pode voltar pra sua toquinha e terminar de fazer seu caldinho de cenouras.

Victoria sorri. Scully ajeita o edredom sobre ela.

VICTORIA (OFF): - É, mamãe... Moral da história, tamanho não é documento. Eu sei disso. Eu aposto que posso correr sozinha com os homens maus!

Scully a beija na testa. Victoria fecha os olhos. Scully acende o abajur. Sai do quarto, desligando as luzes e deixando a porta entreaberta. Esbarra em Mulder.

SCULLY: - Falta muito ainda?

MULDER: - Acho que consegui alguns detalhes interessantes desse caso...

Mulder entra no quarto. Aproxima-se do berço. Beija Victoria. Afaga seus cabelos.

MULDER: - Boa noite, Pinguinho. Sonha com os anjinhos.

VICTORIA (OFF): - (SORRI) Eles estão sempre aqui, papai.

Mulder sai do quarto. Olha pra Scully.

MULDER: - Temos duas opções: Ou continuamos hoje, o que detestaria, ou vamos pra cama e assistimos um filme até dormir.

SCULLY: - Fico com a segunda opção.

Os dois riem. Vão pro quarto.

Victoria deitada no berço, olha pro móbile.

VICTORIA (OFF): - Minha mamãe é um barato! Eu sei que tudo que ela mais queria na vida era eu. Posso sentir tanto amor! A gente conversava muito quando eu tava na barriga dela. Ela chorava caladinha, preocupada com papai... Eu distraia a atenção dela pedindo coisa doce, dando uns empurrões... Aí ela ria. Mamãe tem tanto medo de me perder, de perder o papai. Mas a gente ama tanto ela! E tem outro medo que eu não consegui entender ainda. Posso ver nos olhos dela uma certa preocupação que ela disfarça. Mamãe tá tão triste, cansada... Eu bem queria lavar a louça, mas papai me xinga se eu fizer isso... Não dá pra entender o papai... Ele diz que temos que colaborar com a mamãe, mas quando eu quero fazer isso ele não deixa!




Hora do banho!!!!!



10:16 A.M.

Victoria em pé sobre Mulder, sentado dentro da banheira. Ele a segura.

MULDER: - Cadê o pato, hein?

Victoria aponta pro pato de borracha flutuando na banheira, em direção à Scully, que está do outro lado dentro da banheira também.

VICTORIA: - Dah! Pato! Dah!

SCULLY: - Vem com a mamãe, vem!

Victoria dá os braços pra Scully. Scully a pega.

MULDER: - O que temos nessa banheira, Scully? Não está vendo uma florzinha aqui dentro?

SCULLY: - Hum... Seria a "Victoria" Régia?

VICTORIA (OFF): - Hey? Meu nome é Victoria Ann... Não sei quem é essa Régia aí não.

Scully brinca com o pato na água. Victoria tenta pegá-lo. Mulder afunda o pato com o calcanhar. Victoria acerta um tapa no pé dele, rindo. Mulder faz careta, movendo os dedos das mãos, ameaçando agarrá-la.

MULDER: - Olha a aranha assassina...

Victoria grita, tentando escalar o corpo de Scully, que ri sem parar. Victoria tenta fugir por sobre o ombro dela. Mulder faz cócegas em Victoria.

VICTORIA: - (AOS GRITOS/ RINDO) Nahhhhhhhhhhhhhhh!

MULDER: - Sim!

VICTORIA: - (RINDO) Naaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!

Mulder mordisca o bumbum de Victoria. Ela grita aos risos. Scully a abraça.

SCULLY: - Sai aranha assassina! Sai! Você não vai pegar meu neném não!

VICTORIA (OFF): - Adoro tomar banho! Gosto mais ainda quando eles estão juntos! É mais divertido... E fica mais divertido ainda quando o papai encarna a tal da aranha assassina...

Mulder começa a mordiscar Scully. Ergue o pé de Scully, mordendo o dedão. Scully grita, tentando soltar o pé, segurando Victoria.

SCULLY: -(RINDO) Ai filha, a aranha assassina pegou a mamãe!!!!!!

VICTORIA: - (SE ESTENDENDO TENTANDO DAR TAPAS EM MULDER) Olta! Olta! Naaaaaaaahhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!

Mulder solta o pé de Scully e volta pra morder Victoria. Ela põe as mãozinhas nos cabelos de Mulder, tentando empurrá-lo.

VICTORIA: - (GRITA/ RINDO) Naaaaaaaaaaahhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!

Mulder se afasta. Olha pra Victoria. Victoria olha com expectativa. Mulder ameaça. Ela ri. Mulder ameaça. Ela ri. Mulder se atira a puxando pelo pé. Victoria faz festa aos gritos. Mulder a solta.

MULDER: - Tá bom. A aranha assassina cansou.

VICTORIA (OFF): - Shiii... Coitado do meu pai. Tá ficando velho! Bom, eu já vi que cabelos brancos ele já tem, mamãe é que disfarça pintando. E papai deve achar que eu penso que realmente é uma aranha. Mas são só os dedos dele. Eu finjo que acredito pra não tirar a ilusão dele. Sabem como é, nunca se tira a ilusão de um adulto.

SCULLY: - Mulder... Que tal a gente fazer umas pipocas?

VICTORIA (OFF): - Oba! Tô gostando...

SCULLY: - Um chocolate quente...

VICTORIA (OFF): - Tá melhorando...

SCULLY: - Assistir um filme...

VICTORIA (OFF): - Legal!

SCULLY: - Eu e você naquela cama, hein?

VICTORIA (OFF): - (BEIÇO) Sujou! E eu? Eu fico aonde nisso? Esqueceram de mim, é?

MULDER: - Gostei da ideia.

VICTORIA (OFF): - Mas e eu, gente? Eu não quero dormir não!

MULDER: - Quem sabe morangos e champanhe? E a tigresinha?

VICTORIA (OFF): - Que tigresinha? Eu não tenho tigresinha, eu tenho uma raposinha. Tinha um ursinho, mas dei pra uma amiga... Ou tigresinha é código deles pra se referirem a mim? Hum... Estou ficando paranoica!

MULDER: - Nós dois... Festinha...

VICTORIA (OFF): - Ei, eu também quero festa, poxa!

SCULLY: - Me convenceu.

VICTORIA (OFF): - Pronto. Agora eles vão sair daqui e me botarem na cama... Que sacanagem! Eu quero brincar com vocês. Mas não aquela brincadeira sem graça.

Mulder sai da banheira. Victoria faz beiço.

VICTORIA (OFF): - Chatice. Bem diz minha vovó mesmo: entre dois há sempre um terceiro que sofre. Acho que entendi isso direitinho. Esse terceiro sou eu... Fazer o quê?

Scully sai da banheira com Victoria.

VICTORIA (OFF): - Deixa, um dia eu vou fazer festa sozinha e não vou convidar vocês não. Podem me chamar de geniosa, mas vocês mesmo dizem que eu tenho metade Mulder e metade Scully. Então só aguardem. E eu sei que tenho mesmo. Afinal de contas, eu também não tenho peitos assim como o papai não tem, mas eu tenho aquela coisa de fazer pipi igual à da mamãe. Sou metade de cada um. Isso prova tudo... Não tô certa?


4:12 P.M.

Scully entra pela cozinha. Larga o pacote de compras sobre a mesa.

SCULLY: - Mulder?

MULDER: - (GRITA DA SALA) Já voltei! Vem aqui ver uma coisa que comprei pra nossa filha!

SCULLY: - E comprou o que eu disse? Juro que se não comprou cuecas e meias eu vou comprar! Já avisei!

Scully vai pra sala. Para, abrindo um sorriso. Põe a mão no rosto.

SCULLY: -(RINDO) Oh meu Deus, isso é gente de usar calcinha?

Victoria de fraldas com uma calcinha vermelha de rendinhas, engatinhando pela sala. Mulder sentado no sofá olhando bobo pra filha.

MULDER: - (RINDO)Ficou engraçadinha, né?

SCULLY: - (SORRI) Filhinha? Já está usando calcinhas, é? Sua avó que vai ficar feliz!

VICTORIA (OFF): - Claro que tô usando calcinhas! Sou mocinha! Não tô linda? Igual minha mãe!

SCULLY: - Mulder, mamãe deu algumas pra ela, mas eu até me esqueci disso... Ai, ela ficou tão bonitinha! Filhinha linda da mamãe!

MULDER: - Fiquei preocupado. Entrei na loja, comprei algumas cuecas e ela pegou uma e não queria mais largar. Resolvi comprar isso pra dizer que meninas não usam cuecas.

VICTORIA (OFF): - Como eu ia saber? Mamãe usa as suas! Eu queria uma também! Mas isso aqui é mais bonito! Mamãe nem tem uma assim!

SCULLY: - (RINDO) E ainda por cima, calcinha vermelha?

MULDER: - Ela que escolheu. É o gosto da sua filha. Já é mulher fatal desde cedo... (ENCIUMADO) Hum, vou começar a fazer estoque de munição, porque com a minha filha não! Não mesmo! Esses safados e tarados vão se meter com a filha dos outros, mas não com a minha filha. Corro todos eles a chumbo e ainda ameaço de mandar pro xilindró! Sou policial, usarei isso pra protegê-la dessa cambada de sem-vergonhas com hormônios aflorados!

VICTORIA (OFF): - Nossa! Preciso avisar o Kevin!

Scully senta-se no colo de Mulder.

SCULLY: - (OLHA PRA ELE NUM SORRISO) Ciumento... Que coisa mais linda ver você com ciúmes da Victoria e enchendo a boca pra dizer 'minha filha'... Vai fazer o quê, Mulder? Prendê-la em casa pra toda a vida? Ou ela vai ser freira?

VICTORIA (OFF): - Freira? O que é freira?

MULDER: - ... Não sei, mas se eu pegar algum idiota...

SCULLY: - Não mesmo! Não vou proibir a minha filha! Imagina proibi-la de namorar e transar? De jeito nenhum, eu adoro minha filha! Homem é a coisa mais gostosa do mundo e não vou privá-la de experimentar. Casar virgem? Mas de jeito nenhum minha filha vai casar virgem! Vai guardar tudo pra um só, se todos eles não merecem isso? Não mesmo!

MULDER: - (PÂNICO) ...

SCULLY: - Victoria vai namorar quantos homens ela quiser! Ou como você diz: vai comer.

VICTORIA (OFF): - Virgem? Que coisas esquisitas que eles tão falando? Comer? (PÂNICO) Comer gente? Ui, mamãe! Eu prefiro gelatina!

SCULLY: - Vai namorar sim. E muito! Quando estiver desperta pra essas coisas eu vou orientá-la, dizer tudo o que quiser saber e ensiná-la a se prevenir.

MULDER: - Só quero estar vivo pra ver isso. Aposto que você vai ser a censora aqui dentro. Tudo bem que olhem pra ela. Vou ficar orgulhoso com isso. Mas se tocarem, eu mato!

SCULLY: - Aposto que meu pai também dizia isso. Imagina se ele estivesse vivo e proibisse nosso relacionamento? Hum? Eu e você íamos gostar?

MULDER: - Não. Mas com a minha filha não! Eu sei muito bem como são os homens. Sou um, se você já se esqueceu. Posso ser delicadinho e sensível com você, mas tenho uma mente podre e tarada.

SCULLY: - Mulder, como eu vou rir, sabia? Imagina se Victoria encontra algum que esconda "fitas que não são suas" na gaveta?

MULDER: - (BEIÇO) Não tô gostando desse assunto...

Mulder empurra Scully e se levanta, enciumado.

SCULLY: - Ahá, Fox Mulder! Mexer com a filha dos outros tudo bem, né? Mas quando a gente tem uma, cria juízo! Quero ver você mexer com as menininhas no shopping de novo. Vou olhar pra você e dizer: 'Puxa, podia ser nossa filha'.

Victoria os observa curiosa.

MULDER: - Olha aqui, Scully... Mãe, mulher da gente e filha ninguém toca. É sagrado!!!!

VICTORIA (OFF): - Que sermão só pra dizer que não quer que eu namore! Mas eu vou sim! Eu tô apaixonada pelo Kevin, oras!

MULDER: - E além do mais, mude de assunto. Está muito cedo pra nos preocuparmos com isso. Ela tem muita fralda pela frente. E nem sabe a diferença entre meninos e meninas.

VICTORIA (OFF): - Como papai é bobo! Claro que eu sei! Meninas usam calcinhas e meias cor de rosa e meninos usam cuecas e meias azuis! Pensa que sou besta é?




Aprendendo com os adultos...



8:39 P.M.

Scully sai do banheiro com uma bisnaga de creme. Senta-se na cama. Victoria, sentada na cama a observa. Scully retira o creme da bisnaga e passa no rosto. Victoria observando. Scully passa o creme nas mãos e vai pro banheiro, levando a bisnaga.

Mulder sai do banheiro, enrolado na toalha, com a escova de dentes na boca e o tubo de creme dental na mão. Atira o tubo sobre a cama. Victoria observa. Mulder procura uma roupa no closet.

MULDER: - Cadê o meu pijama, Scully?

SCULLY: - Está dentro do armário.

MULDER: - ... Achei.

Mulder vira-se pra cama. Arregala os olhos. Victoria cheia de creme dental no rosto, passando também nas mãos. Mulder segura o riso.

MULDER: - Scully?

SCULLY: -(RESPONDE DO BANHEIRO) O que foi?

MULDER: - Sabia que sua filha é vaidosa feito você?

SCULLY: - Percebi. Ela é chatíssima pra roupas. E não sai sem sapatos, não fica sem brincos...

MULDER: - Não acha que está na hora de ensinar certas coisas femininas pra ela, afinal você é a mãe, meninas precisam de conselhos maternos.

SCULLY: - Como o quê?

MULDER: - (RINDO) Que nem tudo que existe dentro de uma bisnaga, por exemplo, é creme de beleza.

Scully sai do banheiro. Põe as mãos na cabeça. Victoria sorri pra ela, cheia de creme dental pelo corpo, roupas e pela cama.

SCULLY: -(RINDO) Ai, meu Deus! Filha, não!

VICTORIA (OFF): - Gostou, mamãe? Agora vou ficar bonita como você! ... Ui, essa coisa arde! E tem gosto de bala! (BEIÇO) Não gostei. Tá ardendo meu rostinho!!!!!!!!!!!


10:18 P.M.

Mulder e Scully deitados na cama, assistindo TV. Victoria deitada em cima de Mulder. Os três com pijamas de estampas iguais. Mulder leva o braço, envolvendo Scully. Victoria finge dormir, mas observando. Scully olha pra Mulder. Os dois trocam um beijo longo. Mulder afaga o rosto de Scully. Scully olha pra ele num sorriso. Enlaçam as mãos. Mulder beija a mão dela. Scully passa o dedo no nariz dele. Os dois namorando. Victoria só observando.

MULDER: - Acho que vou dormir. Boa noite, Scully.

Os dois trocam um beijo. Victoria observa. Mulder a coloca entre eles. Aproxima os lábios do rosto de Victoria.

MULDER: - Boa noite, Pinguinho.

Victoria olha pra ele cismada. Vira-se, ficando de quatro na cama. Mulder olha pra ela.

MULDER: - O que foi? Não quer dormir?

Victoria cola os lábios nos lábios de Mulder, dando um selinho meio desajeitado. Scully começa a rir. Victoria sobe em Scully e dá um selinho nela. Mulder começa a rir.

MULDER: - Tá, bom, vai alegar o quê? Ela só vê esse tipo de beijo aqui dentro.

SCULLY: - Oh, Docinho lindo! Aprendeu a beijar é? Dá mais beijinho na mamãe, dá!

Victoria dá outro selinho em Scully.

SCULLY: - Hum, não. Tem que fazer barulho, assim, mamãe ensina.

MULDER: - (DEBOCHADO) É. Mamãe só ensina o que não presta. Agora vai ensinar você a beijar todo mundo na boca. Depois, eu que não compre uma carabina! As duas vão abrir barracas de beijos em festas da comunidade e eu vou ficar com cara de idiota! Suas beijoqueiras!


7:11 A.M.

Mulder termina de ajeitar a gravata. Scully passa batom, se olhando no espelho. Victoria os observa, sentada no tapete do quarto.

MULDER: - Se prepare que hoje temos trabalho.

SCULLY: - Vou deixá-la com mamãe. Hoje é um daqueles dias complicados.

VICTORIA (OFF): - (BEIÇO) Ah não! Eu quero ir junto!

Mulder olha pro relógio.

MULDER: - Atrasados de novo. Até deixar Victoria na casa de sua mãe...

SCULLY: - Eu a deixo. Você vai pro FBI e cobre meu atraso.

Os dois voltam-se pra sair. Olham pro chão. Mulder mete as mãos na cara, rindo. Scully põe a mão nos lábios, segurando o riso.

Victoria sentada no chão tenta calçar um sapato de Scully. Olha seria pra eles.

VICTORIA: - Fibeí!

MULDER: - Começo realmente a me preocupar com o fato dela conviver só com adultos...

SCULLY: - Agora diga que não vai levá-la. Se é que tem coragem de dizer isso pra um toquinho de gente com carinha de pidona. Eu não tenho.




Beijinho pra vocês...



FBI – Arquivos X – 10:27 A.M.

Mulder revira os arquivos. Scully digita um relatório. Victoria sentada no chão, brincando com a raposinha. Olha pra câmera.

VICTORIA (OFF): - Que bom que vocês me entendem. Adorei ter contado pra vocês as coisas que eu faço. Espero que a gente se fale novamente.

Victoria olha pra Mulder. Olha pra Scully. Olha pra câmera.

VICTORIA (OFF): - Eles são doidos. Mas eu os adoro. É a minha família. Vocês também têm papais malucos como eu? Não? Ah não acredito nisso. Vocês é que não são bons observadores...

Victoria atira beijinho.

VICTORIA (OFF): - Tá na hora de vocês irem, né? Eu vou ficar aqui na minha vida de bebê. Oh, a Nana tá mandando beijinho pra vocês também. Até a próxima! Daí eu conto mais coisas pra vocês desse mundo novo e esquisito que eu tô descobrindo. Mundo estranho, mas muito bom estar aqui!!!!!

Victoria larga a raposinha e olha pra porta entreaberta. Olha pra Mulder e Scully, atarefados. Olha pra câmera.

VICTORIA (OFF): - Até a próxima. Agora eu vou continuar procurando a Verdade. Ela tá lá fora ainda! Se um dia vocês encontrarem a Verdade, por favor, deem carinho pra ela. Não a deixem lá fora, tadinha!

Victoria sai engatinhando pela porta, balançando o bumbum rechonchudo de fraldas.


X

19/05/2002


📷



Dedicado à professora e amiga Vera Prato. Vera. Veritas. Verdade. Não haveria outro nome que melhor revelasse tua essência, tua pessoa verdadeira. Fostes a verdade de muitas vidas. Foste mestra de uma coisa dentro de mim: a coragem. Há pessoas das quais sempre temos uma lembrança ruim. Não há nada por mais que eu procure lembrar, de alguma lembrança ruim a teu respeito. Nada. Humildade. Coração. Humanidade. Sabedoria. Vida que fluía pelos poros. Sempre vida, sempre luz. Sempre um abraço, um sorriso e uma lição para que me levantasse e enfrentasse com cara e coragem os desafios. Muito me ajudastes. Sempre calastes a tristeza com tuas palavras amigas, com tua paciência e com teus olhos que viam a beleza em todas as coisas. Foste a luz de muitos. O apoio na queda. Da tua boca nunca saía uma palavra de desânimo, nem mesmo quando a doença se abateu sobre ti, amiga querida. O que me prova cada vez mais que este mundo não é dos justos. Pois se o fosse, Deus não levaria os justos tão cedo de maneira tão cruel e dolorosa. Nunca te vi chorar. Só lembro de sorrisos. De ensinamentos da vida. De conforto de mãe. De espiritualidade elevada. És agora uma centelha de luz, entre os anjos, Verinha. Mas já eras um anjo em vida! E talvez, nem sabes a falta que nos faz...

15 de Setembro de 2019 às 20:42 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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