S06#05 - SIMPLE THE BEST Seguir história

lara-one Lara One

Mulheres apaixonadas... Mulheres traídas... Mulheres enamoradas... Mulheres furiosas... Mulheres... Apenas mulheres e sentimentos controversos. O que pode acontecer quando Ellen e Scully se juntam? E quando Scully se sente culpada e resolve literalmente 'adorar' Mulder?


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

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S06#05 - SIMPLE THE BEST

(simplesmente o melhor)



INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

Residência dos Mulder – Virgínia - 12:12 A.M.

[Som: The Cranberries – Linger]

Scully sentada à mesa. Cabeça apoiada na mão, cotovelo sobre a mesa. Olha em estado de total apatia para os pratos vazios, a comida já fria, a vela e as flores sobre a mesa posta.

"If you, if you could return. Don't let it burn, don't let it fade. I'm sure I'm not being rude. But it's just your attitude. It's tearing me apart. It's ruining everything..."

(Se você, se você pudesse voltar. Não deixe isto queimar, não deixe isto enfraquecer. Eu tenho certeza que não estou sendo rude. Mas é apenas sua atitude. Está acabando comigo. Está arruinando tudo...)


Scully olha para a vela acesa. Apaga-a. Suspira olhando para o relógio. Mulder entra pela porta dos fundos. Ao vê-la, sorri surpreso.

MULDER: - Pensei que tivesse ido dormir. (FELIZ) Desculpe, eu sei que demorei, mas tive que passar em outro lugar e... Tenho uma coisa pra falar pra você. Você não vai acreditar no que eu...

SCULLY: - (CORTANTE) São meia noite. Já estou indo dormir. Seja o que for, fale amanhã.

MULDER: - ... (SEM JEITO) Então, gostou do jantar que eu fiz?

SCULLY: -Não jantei. Adoraria mais se você tivesse ficado pra jantar comigo e não tivesse saído correndo quando Frohike ligou, me deixando sozinha.

MULDER: - É que...

SCULLY: - (MAGOADA) Aliás, Mulder, notou quantas vezes conseguimos jantar juntos? Hein? Você só trabalha? Ou está de caso com Frohike e Krycek?

MULDER: - (CHATEADO) Mas a gente janta junto todo o dia. Era uma emergência. Eu trouxe algo pra você e...

Scully sai da cozinha e deixa Mulder falando sozinho. Ele silencia, cabisbaixo. Tira uma caixinha do bolso. Olha frustrado para a caixinha. Mulder guarda a caixinha no bolso novamente. Respira fundo, fechando os olhos, entristecido.

Corta pra Scully, trancada no banheiro. Ela se olha no espelho.

"Oh, I thought the world of you. I thought nothing could go wrong. But I was wrong, but I was wrong.If you... If you could get by trying not to lie. Things wouldn't be so confused. And I wouldn't feel so used. But you always really knew. I just wanna be with you..."

(Oh, eu pensei o mundo de você. Eu pensei que nada pudesse dar errado. Mas eu estava errada, mas eu estava errada. Se você... Se você pudesse seguir tentando não mentir. As coisas não seriam tão confusas. E eu não me sentiria tão usada. Mas você realmente sempre soube. Que eu só quero ficar com você.


Scully deixa o corpo cair ao chão, chorando convulsivamente com as mãos no rosto.

VINHETA DE ABERTURA: YOU'RE THE BEST, BETTER THAN ALL THE REST



BLOCO 1:

Residência dos Mulder - 6:07 A.M.

Scully vestida num robe, bebe uma caneca de café, observando entristecida Mulder saindo com o Porsche e levando Victoria. Mulder dá um olhar pra ela magoado e toma a rua. Scully segura as lágrimas. Escora-se na porta, pensativa, olhando para o nada.

Corta para os sapatos e o jaleco preto que se aproximam pela calçada. O Padre aproxima-se da casa.

Close na Bíblia debaixo do braço.

Foco nas costas do Padre que se aproxima de Scully, ficando de frente pra ela. Tira o chapéu da cabeça, revelando cabelos brancos e curtos. Não vemos seu rosto.

PADRE: - Bom dia, senhora. Sou o Padre Larson, da paróquia da comunidade. Estou procurando a senhora Nancy.

SCULLY: - Ah, ela mora ao lado.

PADRE: - Lamento muito pelo incômodo, senhora...?

SCULLY: - Mulder..

PADRE: - Tenha um bom dia, senhora Mulder.

SCULLY: - (PERTURBADA/ OLHANDO PRO PADRE)

PADRE: - ...

SCULLY: - ... (FICANDO MAIS TRISTE)

PADRE: - ... Algum problema, senhora Mulder? Posso ajudá-la?

SCULLY: - (ENCHENDO OS OLHOS DE LÁGRIMAS) Padre... Eu... Eu preciso conversar com alguém como o senhor... Não estou me sentindo muito bem. (DEPRIMIDA) Não gostaria de entrar?

PADRE: - ... Posso?

SCULLY: - Sim, fique à vontade, por favor...

O Padre entra. Scully fecha a porta.


6:36 A.M.

Scully e o Padre sentados no sofá. Foco na caneca que o Padre segura. Não vemos seu rosto. Scully cabisbaixa, derruba lágrimas nervosas, brincando com as mãos trêmulas.

SCULLY: - Eu não sei porque tenho sentido essas coisas todas. Estou insuportável, eu mesma percebo, fico com raiva de mim mesma. Digo coisas rudes e sinto prazer em dizê-las... Estou magoando meu marido, minha filha e até minha mãe... A sensação que tenho é de que não sou eu quem faz isso... Quer dizer... Parece que alguma coisa ruim se aproxima, me deixa vulnerável e entra em mim... Me incitando com toda a força e eu não consigo resistir... Simplesmente algumas vezes me dá um branco na cabeça que nem lembro o que estava fazendo, o que fiz... Até meu crucifixo simplesmente arrebentou do meu pescoço. Estou assustada com isso até agora.

PADRE: - Acredita em maldade, senhora Mulder?

SCULLY: - Claro que eu acredito, padre.

PADRE: - Sabe as pessoas que coloca dentro de sua casa? Posso parecer um maluco sentado aqui lhe dizendo isto, mas já vi casos de bruxaria.

SCULLY: - Como assim?

PADRE: - Alguém pode ter colocado algo em sua casa. Gente invejosa costuma deixar algum amuleto na casa do invejado. Procure em sua bolsa. É geralmente onde colocam.

Scully se levanta. Abre a gaveta da estante. Pega a moeda de ouro. Senta-se.

SCULLY: - (PERTURBADA) Estava em minha bolsa. Minha filha olha pra isso e grita desesperada que é um 'bicho'. Tive de esconder essa moeda porque deixa a menina muito nervosa.

PADRE: - Me dê isso, senhora Mulder. Crianças têm muita intuição... Eu rezarei pela senhora. E sugiro que volte a frequentar a igreja. Precisa de fé, senhora Mulder. Se me permite dizer, a aconselho a conversar com um psicólogo. Pode estar estressada em demasia. Isso acontece. Acontece até mesmo comigo que sou padre.

Scully sorri. O Padre retira um cartão do bolso. Entrega para Scully.

PADRE: - Esse psicólogo já fez milagres por muita gente que conheço. Vai gostar do Dr. Patterson.

SCULLY: - Obrigada.

PADRE: - Uma boa terapia ajudaria a senhora a descobrir coisas dentro de si. Conversar resolve muito.

SCULLY: - Acho que tem razão, padre.

[Som: Era – Enae Volare Mezzo]

O Padre toca a cabeça de Scully como numa bênção. Scully entrega a moeda. O Padre a pega.

Foco na mão envelhecida do Padre, e no anel de rubi que tem no dedo. Ele levanta-se.

PADRE: - Obrigado por me deixar entrar...

Scully abre a porta. O Padre sai. Scully fecha a porta, mais aliviada.

Corta para o Padre na calçada, de costas para a câmera. Os cabelos brancos tornam-se negros. A pele enrugada das mãos rapidamente se torna jovem e viçosa. Coloca o chapéu negro na cabeça. Atira a Bíblia no lixo. Sai caminhando pela calçada, brincando com a moeda entre os dedos.


FBI – 6:39 A.M.

Mulder entra pelos fundos do prédio com uma enorme caixa de papel. Carl, o segurança, toma um café. Mulder passa por ele. Carl sorri.

MULDER: - Bom dia, Carl.

CARL: - Bom dia, agente Mulder... E a princesinha?

MULDER: - Cada vez mais teimosa. Agora que sabe a utilidade dos dentes, começou a morder qualquer coisa.

CARL: - (RINDO) O diretor está no prédio. O aconselho a entrar rapidamente no porão com essa caixa.

Corte.


Mulder tenta abrir a porta da sala do porão, todo atrapalhado, segurando a caixa. Carter desce as escadas. Mulder ao vê-lo, entra em pânico.

CARTER: - Bom dia, agente Mulder. Quero falar com você.

Mulder olha nervoso pra caixa. Olha pra Carter.

MULDER: - Subirei imediatamente, senhor.

CARTER: - Não, podemos falar aqui mesmo.

MULDER: - (PÂNICO) ...

CARTER: - Gostei do relatório sobre o caso no México. Ao contrário do que as pessoas pensam, eu não sou tão 'ético'.

MULDER: - 'Cético', senhor.

CARTER: - Isso. Mas foi um bom caso...

MULDER: - (OLHANDO PRA CAIXA/ NERVOSO)

CARTER: - Meus parabéns... O que tem na caixa?

MULDER: - (TENSO) Li-livros.

CARTER: - Livros?

MULDER: - Alguns livros, eu tenho tantos livros. Scully quer colocá-los no lixo mas... Eu estou colocando aqui para depois doar a biblioteca do FBI.

CARTER: - Você tem algum livro de espionagem aí dentro? Aquelas coisas de James Bond...

Carter leva a mão à caixa, Mulder vira a caixa pro outro lado rapidamente.

MULDER: - Não, mas eu consigo. Esses são todos sobre bombas.

CARTER: - Bombas?

MULDER: - Acredite, literalmente estou carregando uma bomba.

CARTER: - Pensei que estivesse carregando a agente Scully aí dentro.

Carter começa a rir. Mulder ri sem graça.

CARTER: - É que fiquei curioso. Todos os dias percebo pela câmera da vigilância que você sempre chega com uma caixa, uma sacola grande... Pensei que estava se mudando para o porão.

MULDER: - É que eu tenho muita coisa que pode ser útil ao FBI... Vou trazendo aos poucos.

CARTER: - Sim... Bem... Vou tomar um café. Se me conseguir o James Bond...

MULDER: - Com certeza.

Mulder sorri sem graça. Carter ri. Barulho na caixa.

CARTER: - O que é isso?

MULDER: - (NERVOSO) Deve ser algum rato. Sabe, coisas amontoadas...

Carter coloca a mão rapidamente dentro da caixa. Tira a mão dando um grito e assoprando o dedo. Mulder fica em pânico.

CARTER: - (AOS BERROS) Ele me mordeu! O rato me mordeu! Preciso de um médico! Vou morrer infectado!

Carter sai desesperado pela porta dos fundos. Mulder entra rapidamente na sala, fechando a porta. Respira fundo. Coloca a caixa sobre a mesa. Abre a caixa.

Close em Victoria sentada dentro da caixa, num vestidinho rosa de babados e sapatinhos rosa, mordendo um boneco de borracha. Mulder respira aliviado.

MULDER: - Pinguinho... Tá ficando difícil trazer você.

VICTORIA: - (BEIÇO) Nah!

MULDER: - Ainda é um projeto de mulher e já é geniosa como uma! Por que mordeu o diretor? Hein?

VICTORIA: - Obo!

MULDER: - (DEBOCHADO) Vou colocar uma placa no seu pescoço e no da sua mãe com um aviso em letras garrafais: 'Não provoque, é cor de rosa choque!'

O celular de Mulder toca. Mulder tira Victoria da caixa e a coloca no chão. Victoria sai engatinhando aos risos pra baixo da mesa de Mulder. Mulder atende o celular.

MULDER: - Mulder... Eu não posso sair daqui agora e... (SÉRIO) Estou indo. Me dá mais um tempo até Scully chegar. Te encontro lá... Sim, claro que sei aonde fica!


Orion Publishing & Entertainment Associates – Washington D.C. -8:14 A.M.

Mulder sai do elevador. Krycek ao lado de Mulder, com as mãos no bolso da jaqueta. Os dois param em frente à porta de vidro. Mulder e Krycek se entreolham desconfiados.

KRYCEK: - Detesto celebridades que não se expõem. O que tem a esconder?

MULDER: -(DEBOCHADO) Sonegação de impostos? Privacidade? Timidez?

KRYCEK: - Medo de resvalar a língua e revelar a conspiração em que estão metidos? Mulder, eu não tenho sua paciência. Vamos pegar esse cara.

Os dois olham sérios pra porta.

KRYCEK: - Você é meu empresário. Eu sou modelo e artista pornô. E fique quieto. Digo que esqueci o book.

MULDER: - (OLHA PRA ELE/ IRRITADO) Por que você? Eu sou o artista! Eu tenho mais 'quesitos' pra astro pornô!

KRYCEK: - Ah Mulder, me poupe! Você não tem não!

MULDER: - Eu tenho! Ah e como eu tenho!

KRYCEK: - Acha que é o único é? Nunca te disseram que o que importa é a qualidade e não o tamanho?

MULDER: - Acredite, nesse tipo de trabalho, tamanho é o primeiro item no currículo.

KRYCEK: - (DEBOCHADO) Tá na pior mesmo, né Mulder? Até tamanho você quer no seu currículo...

Mulder, irritado, dá uma cotovelada em Krycek.

MULDER: - (IRRITADO) Não me confunda com seus amigos marinheiros russos, halterofilistas e tatuados depois de um porre de vodca numa festinha privê!

KRYCEK: - Eu sou o artista. Estou em melhor forma. Você tá casado e ficou gordo.

MULDER: - (INDIGNADO/ ENCOLHENDO A BARRIGA) Gordo? Eu não estou gordo! Por que você sempre quer comer todo mundo e não deixa ninguém pra mim? Hein? Qual é o seu problema? E depois a recepcionista me conhece, ela acha que sou astro pornô! E ressaltou que eu tenho um "grande talento".

KRYCEK: - Na Rússia há um ditado que diz: quanto maior o "talento", maior é a queda.

Mulder olha irritado pra Krycek. O celular de Mulder toca. Mulder atende.

MULDER: - ... Sim, Scully... Sim, pode entregar pro Skinner... Eu? Já estou indo, estou... Na biblioteca pública.

Mulder desliga. Krycek olha pra ele.

KRYCEK: - Tisc, tisc... Coisa feia mentir pra sua mulher. Se ela fosse minha eu jamais mentiria.

MULDER: - Sonha, rato. Sonhar não custa nada.

KRYCEK: - (RINDO) Não leve a sério, gosto de irritar você.

MULDER: - Quero poupá-la disso. Scully está estressada o suficiente. Não precisa sentir mais medo do que já sente, de perder a filha dela.

Mulder percebe o Canceroso saindo. Puxa Krycek pelo braço. Os dois correm pras escadas, escondendo-se. Espiam.

O Canceroso aperta o botão do elevador. Puxa o celular do bolso.

CANCEROSO: - ... (AO CELULAR) Confirmado. Scully é o alvo.

O Canceroso desliga e entra no elevador. Mulder arregala os olhos. Krycek olha pra ele.

KRYCEK: - O que eu te disse? Acho que o entretenimento aí dentro é outra coisa. Isso é só fachada.

Mulder nervoso. Krycek olha pra ele.

KRYCEK: - Ei, relaxa. Volta pro FBI.

MULDER: - (ANGUSTIADO) Você ouviu o que ele disse. Como quer que eu relaxe sabendo que estão atrás de Scully? Nos últimos dias eu tenho estado feito doido, correndo de um lado pra outro pra saber o que estão tramando, nem durmo direito! Scully até pensa que estou sendo relapso com ela!

KRYCEK: - Eu sei. Mas vamos fazer o combinado. Pra ela não se sentir chateada se te pegar seguindo-a... Sabe, ela vai pensar que você desconfia dela. Eu a sigo. Quando você não estiver com ela me ligue. Eu faço a vigilância.

MULDER: - Maldito desgraçado! Ele disse que não faria mais nada com ela!

KRYCEK: - E você ainda acredita nele? Vai pro FBI. Qualquer coisa me liga.

MULDER: - E devo confiar em você?

KRYCEK: - Tem outra alternativa?


Arquivos X – 5:32 P.M.

[Som: Tina Turner – Simple the Best]

Mulder sentado em sua cadeira, preocupado. Victoria no chão, brincando com objetos de escritório. Scully sentada, trabalhando no laptop.

SCULLY: - No que está pensando?

MULDER: - ... Ahn?

SCULLY: - Perguntei no que está pensando.

MULDER: - No que eu penso sempre: conspirações governamentais.

Scully olha pra Mulder, invocada, com o rabo dos olhos. Mulder não percebe.

SCULLY: - (CANTAROLANDO) Papai do Céu me dá um namorado... Lindo, fiel, gentil e tarado...

Mulder olha pra ela, incrédulo. Scully finge não perceber. Victoria olha pra ela, rindo e mordendo as mãos.

SCULLY: - (CANTAROLANDO/ FAZENDO BEICINHO COM CHARME) Chuchu... Oi, Chuchu... Meu Chuchuzinho... Par de vasos... Minha uva, meu vinho... Chuchuzinho...

MULDER: - Entendi a piada. Mas há algum tempo atrás todo mundo achava que éramos assexuados. Scully, falta menos de meia hora pra irmos embora. E onde estão as análises do caso Jefferson que eu pedi?

SCULLY: - (CANTAROLANDO) Buana, Buana... Me chama que eu vou. Sou tua mulher robô, teleguiada pela paixonite. Que não tem cura, que não tem culpa pela volúpia. Buana, Buana, teu desejo é uma ordem, te satisfazer é o meu prazer...

Victoria começa a rir alternando o olhar pra Mulder e Scully.

MULDER: - Scully é sério. Você parece que não está aqui ultimamente. Parece sempre aérea, emburrada com alguma coisa que eu não sei. Nem parece mais a Scully que eu conheço.

SCULLY: - (CANTAROLANDO) Mulher é bicho esquisito, todo o mês sangra. Um sexto sentido maior que a razão... Gata borralheira, você é princesa. Dondoca é uma espécie em extinção...

Mulder se levanta. Veste o paletó. Scully olha pra ele furiosa.

SCULLY: - (IRRITADA) Está contente? Você ficou alegando que Jefferson era inocente desde o início. Mulder, você culpou um pato! Um pato de borracha! Ficou dizendo em plena reunião de diretoria que o pato estava possuído pelo demônio por meio de invocação numa missa negra! Você me fez passar a maior vergonha na frente da diretoria do Bureau, que olhava pra mim como se eu fosse uma alienígena!

MULDER: - Mas eu disse depois que...

SCULLY: - (GRITA) Disse nada! Pato de borracha culpado por assassinato! Ora Mulder, vá se internar!

Mulder se encolhe, fazendo cara de pânico. Scully desliga o laptop e se levanta.

SCULLY: - Tá feliz agora?

MULDER: - ... (PÂNICO) N-não.

SCULLY: - Então não provoque!

MULDER: - Tá, o que interessa agora? Vamos pegar esse cara e depois eu te deixo em casa.

SCULLY: - (DESCONFIADA) E aonde você vai?

MULDER: - (DEBOCHADO) Visitar minha amante. E o pato de borracha dela.

Scully cerra o cenho. Pega Victoria no colo.


Residência dos Mulder - 11:14 P.M.

Scully dormindo na cama. Mulder, de pijamas, entra no quarto.

MULDER: - (DEBOCHADO) Ok, já coloquei a fera Victoria 'Lee' na cama, contei estorinha, dei beijo de boa noite e já dormiu... Está sonhando com anjinhos... Scully?

SCULLY: - Zzzzzz

Mulder sorri. Ajeita o edredom sobre Scully. Beija-a no rosto. Agacha-se ao lado da cama a observando dormir. Mulder desliza a ponta dos dedos pela pele alva do rosto de Scully. Mulder beija o rosto de Scully num beijo fraterno e longo. Ajeita o cabelo dela pra trás da orelha, o edredom sobre ela, a admirando.

MULDER: - Sonha comigo... Dorme por mim... (SORRI) Meu amor puro.

Mulder levanta-se. Pega a arma e sai do quarto. Desce as escadas, verifica os alarmes. Abre armário e pega uma manta. Ajeita-se na poltrona, cobrindo as pernas, olhar perdido pela janela da sala, num sorriso de paixão.


6:16 A.M.

[Som: Tina Turner – Simply the Best]

Scully acorda-se. Primeira visão dela: a bandeja de café da manhã com uma rosa vermelha e um papel dobrado. Scully senta-se na cama, esfregando os olhos. Espreguiça-se. Olha pra bandeja num sorriso. Pega o papel e começa a ler em silêncio.

MULDER (OFF): - 'Quando o SOL e a LUA se encontraram pela primeira vez, se apaixonaram perdidamente e a partir daí começaram a viver um grande amor. Acontece que o mundo ainda não existia e no dia que Deus resolveu criá-lo, deu-lhes então o toque final: o brilho. Ficou decidido também que o SOL iluminaria o dia e que a LUA iluminaria a noite, sendo assim, seriam obrigados a viverem separados. Abateu-se sobre eles uma grande tristeza quando tomaram conhecimento de que nunca mais se encontrariam. A LUA foi ficando cada vez mais amargurada, mesmo com o brilho que Deus havia lhe dado, ela foi se tornando solitária. O SOL por sua vez havia ganhado um título de nobreza "ASTRO REI", mas isso também não o fez feliz. Deus então chamou-os e explicou-lhes: Vocês não devem ficar tristes, ambos agora já possuem um brilho próprio. Você LUA, iluminará as noites frias e quentes, encantará os enamorados e será diversas vezes motivo de poesias. Quanto a você SOL, sustentará esse título porque será o mais importante dos astros, iluminará a Terra durante o dia, fornecerá calor para o ser humano e a sua simples presença fará as pessoas mais felizes'.

Scully aspira o perfume da rosa, lendo em silêncio.

MULDER (OFF): - 'A LUA entristeceu-se muito com seu terrível destino e chorou dias a fio... Já o SOL ao vê-la sofrer tanto, decidiu que não poderia deixar-se abater, pois teria que dar-lhe forças e ajudá-la a aceitar o que havia sido decidido por Deus. No entanto sua preocupação era tão grande que resolveu fazer um pedido a ELE: Senhor, ajude a LUA por favor, ela é mais frágil do que eu, não suportará a solidão... E Deus em sua imensa bondade criou então as estrelas para fazerem companhia a ela. A LUA sempre que está muito triste recorre as estrelas que fazem de tudo para consolá-la, mas quase sempre não conseguem. Hoje eles vivem assim... Separados, o SOL finge que é feliz, a LUA não consegue esconder que é triste.'

Scully sorri.

MULDER (OFF): - 'O SOL ainda esquenta de paixão pela LUA e ela ainda vive na escuridão da saudade. Dizem que a ordem de Deus era que a LUA deveria ser sempre cheia e luminosa, mas ela não consegue isso... Porque ela é mulher, e uma mulher tem fases. Quando feliz consegue ser cheia, mas quando infeliz é minguante, e quando minguante nem sequer é possível ver o seu brilho. LUA e SOL seguem seu destino, ele solitário, mas forte, ela acompanhada das estrelas, mas fraca. Humanos tentam a todo instante conquistá-la, como se isso fosse possível. Vez por outra alguns deles vão até ela e voltam sempre sozinhos, nenhum deles jamais conseguiu trazê-la até a Terra, nenhum deles realmente conseguiu conquistá-la, por mais que achem que sim.'

Scully suspira.

MULDER (OFF): - 'Acontece que Deus decidiu que nenhum amor nesse mundo seria de todo impossível, nem mesmo o da LUA e o do SOL... E foi aí então que ele criou o eclipse. Hoje SOL e LUA vivem da espera desse instante, desses raros momentos que lhes foram concedidos e que custam tanto a acontecer. Quando você olhar para o céu a partir de agora e ver que o SOL encobriu a LUA é porque ele deitou-se sobre ela e começaram a se amar e é ao ato desse amor que se deu o nome de eclipse. Importante lembrar que o brilho do êxtase deles é tão grande que aconselha-se não olhar para o céu nesse momento, seus olhos podem cegar de ver tanto amor. Bem, mas na Terra também existe sol e lua... E portanto existe eclipse.... Mas essa era a única parte da história que você já sabia, não era*?'

Scully sorri.

MULDER (OFF): - E a outra parte que você sabe é que eu não sou o SOL, mas sim a triste e escura LUA. E que você é o SOL da minha vida... Portanto, bom dia Dana Scully! Saia agora dessa cama, porque eu e o mundo precisamos do seu brilho...

Scully sorri, colocando o bilhete contra o peito.

(*Autora: Silvana Duboc)

Cafeteria George Washington - 6:57 A.M.

Mulder sai do prédio do FBI e atravessa a rua, ajeitando a gravata. Entra na cafeteria. Procura com os olhos. Aproxima-se de uma mesa.

MULDER: - (SORRI) Desculpe pelo atraso.

Barbara Wallace está sentada, tomando café. Ela sorri.

BARBARA: - Tudo bem. Saí da redação agora. Vai pedir alguma coisa?

MULDER: - Um café.

Barbara sinaliza mais um café para a atendente. Mulder retira a caixinha do bolso. Abre-a na frente de Barbara.

MULDER: - (SORRI) É do seu gosto?

Barbara olha para o anel de diamantes em sua frente, incrédula.

BARBARA: - (IMPRESSIONADA) Eu mereço tanto, Mulder?

MULDER: - (SORRI) Que tipo de homem daria isso a uma mulher? Em que tipo de situação?

BARBARA: - (SORRI) ... Com certeza para conquistá-la, depois de um primeiro encontro, tentando impressioná-la... Quer saber mesmo? Acho que para levá-la pra cama. E aposte que conseguiria.

MULDER: - Mas mesmo que ele conseguisse o que mais quer. Me diga como mulher, isso seria uma forma de dizer que precisa ganhar a confiança dela, que precisa dela?

BARBARA: - Mulder, a primeira coisa que pode passar pela minha cabeça é: ele é o cara! Entende? Dane-se qualquer confusão, mas eu vou dormir com esse sujeito. E além disso, essa atitude me diria que ele tem um bom gosto, é sensível a uma mulher... E acredite, ele é um sujeito lindo, atraente, poderoso e rico. É o homem mais lindo que já vi na minha vida. Eu dormiria com ele.

MULDER: - Sério?

BARBARA: - Ele é realmente muito bonito. Exala uma enorme sensualidade. Some tudo isso com esse diamante e ele teria tudo de uma mulher.

Scully entra na cafeteria. Vê Mulder conversando e mostrando o anel de diamantes pra Barbara. Scully cerra a fisionomia, incrédula, levando a mão à boca.

Mulder fecha a caixinha. Coloca-a na mesa. Scully enche os olhos de lágrimas e sai às pressas do lugar. Abalada. Atravessa a rua e entra no carro.

Corta para Krycek dentro da picape observando Scully.

Mulder sai da cafeteria olhando pra todos os lados. Atravessa a rua e se dirige ao prédio do FBI. Krycek o acompanha com os olhos.


7:11 A.M.

[Som: The Cranberries – Linger]

Mulder sai do estacionamento do FBI dirigindo um carro. Barbara entra no carro dele. Mulder toma a rua.

Krycek atento a Scully percebe o carro dela seguir o de Mulder à distância.

KRYCEK: - (ESPANTADO) Não creio que o que está acontecendo é o que eu estou pensando...

Krycek acelera e passa por Scully. Olha pelo vidro, e vê Scully dirigindo numa pilha de nervos, incrédula, derrubando lágrimas.

KRYCEK: -(INCRÉDULO) É... É o que eu estou pensando...

Krycek acelera mais ficando na frente de Scully. A observa pelo retrovisor. Scully tenta ultrapassar, ver pra onde Mulder está indo, mas Krycek impede. Scully nem percebe que é Krycek de tão nervosa.

Krycek então cede lugar e ela ultrapassa. Mas o carro de Mulder já sumiu.


FBI – Laboratório de Análises Químicas – 4:12 P.M.

Scully entra no laboratório. O perito de costas, analisa algo no microscópio.

SCULLY: -Agente Forrest?

Forrest vira-se. Um belo moreno, corpo sarado, olhos azuis, de uns 35 anos. Ao ver Scully abre um sorriso, revelando mais beleza ainda. Retira as luvas.

SCULLY: - Sou a agente Scully.

FORREST: - (CUMPRIMENTA-A/ ENCANTADO) Muito prazer, Agente Scully... Aquela que nos pede tudo com urgência via telefone... (SORRI) México!

SCULLY: - (SORRI) Chuck foi transferido?

FORREST: - Não, Chuck está aperfeiçoando conhecimentos. Foi participar de um curso na Alemanha por alguns meses. Políticas do Bureau.

Scully retira uma amostra do bolso. Olha pra Forrest.

FORREST: - Já sei. (PISCA O OLHO) 'Urgente'.

Scully sorri encabulada. Forrest pega a amostra.

FORREST: - Não se preocupe, agente Scully. Prioridade sempre pra você. O que temos aqui?

Forrest se dirige ao microscópio colocando as luvas.

SCULLY: - É uma amostra de tinta coletada no corpo da vítima. Acredito que não tenha sido morta no local em que a encontramos.

FORREST: - (OLHANDO PELO MICROSCÓPIO) Fiquei impressionado com seu relatório sobre substâncias em infravermelho exaladas pela pele humana. Deve ter sido um caso e tanto.

SCULLY: - Realmente foi... É novo aqui, não?

FORREST: -Estou há uns dois meses aqui.

SCULLY: - Contratado ou cursou a academia?

FORREST: - Contratado. Trabalhava antes no departamento de biotecnologia da UCLA. Me formei com mérito. Ajudou muito.

SCULLY: - (SORRI) UCLA?

FORREST: - Sim. Confesso que li muitos artigos seus em revistas especializadas e sou um grande fã da sua maneira de olhar a ciência. O mundo precisa de mulheres inteligentes como você, se me permite dizer, agente, pesquisadora e doutora Scully.

Scully sorri encabulada. Anda pelo laboratório, observando tudo.

SCULLY: - Como as coisas mudam... Eu tinha um amigo aqui, o agente Pendleton.

FORREST: - (OLHANDO PELO MICROSCÓPIO) Soube do ocorrido com ele. Lamento muito.

SCULLY: - Foi uma grande perda. Uma pessoa muito generosa.

FORREST: - (VIRA-SE PRA ELA) Me considere um amigo como considerava Pendleton. E como considera Chuck.

Scully sorri encabulada. Forrest tira as luvas.

FORREST: - Tinta de carro. Vermelha com pigmentos metálicos e alguns pigmentos especiais. Eu diria que só há uma empresa que usa esse tipo de pintura em seus carros: Mercedes Benz. Isso ajuda?

SCULLY: - Muito... Obrigada.

Scully caminha até a porta.

FORREST: - (ENCANTADO) Quando quiser um café com urgência eu também posso conseguir.

Scully sorri. Sai da sala. Forrest corre pra janela de vidro, a espiando pela persiana.


BLOCO 2:

Residência dos Mulder – Virgínia - 8:12 P.M.

A campainha toca insistentemente. Mulder, de calças jeans e camiseta colada, atravessa a sala. Abre a porta.

MULDER: - Pois não?

Ellen entra empurrando Mulder, cheia de presentes. Para. Olha pra Mulder, de cima a baixo, o analisando. Mulder fica desconfiado. Ellen olha pra ele, boquiaberta. Afirma com a cabeça, erguendo as sobrancelhas.

ELLEN: -É, ela não mentiu... Olá! Eu sou a Ellen, amiga da Dana.

MULDER: - (SORRI/ SIMPÁTICO) Ah! Ellen, de Nova Jersey...

ELLEN: - Sim. E você deve ser o 'bem dotado'. Onde está a Dana?

MULDER: - (PÂNICO/ RUBORIZADO)

ELLEN: - Onde?

MULDER: - N-na cozinha...

ELLEN: - Segura isso pra mim.

Ellen larga os pacotes todos com Mulder e vai pra cozinha.

ELLEN: - Dana?

SCULLY: - (SURPRESA) Ellen???

Mulder espia as duas se abraçando.

ELLEN: - Meu Deus Dana! Onde está a menina??? Quero conhecer! Se puxar ao pai, vai ser uma deusa!

Mulder esconde a cara entre os pacotes e sai de fininho, envergonhado.

ELLEN: - O que há com ele? Você disse que não era tímido.

SCULLY: - (SORRI) Ellen, quem não fica tímido com você? Até o Mulder que é um cara de pau fica!

ELLEN: - Você está muito bem! Nossa!

SCULLY: - Ah, ganhei uns quilinhos é verdade... E não consegui me livrar deles ainda. Mas estou fazendo exercícios com um professor especializado na academia do FBI.

ELLEN: - Se me visse depois que Jimmy nasceu, teria gritado assustada!

SCULLY: - Por que não o trouxe?

ELLEN: - ... Posso me sentar? Esse assunto vai ser longo.

SCULLY: - Quer um chá?

ELLEN: - Não, obrigada.

Ellen senta-se. Scully senta-se de frente pra ela, preocupada. Ellen passa as mãos no rosto, olhos lacrimejando. Disfarça.

SCULLY: -(NERVOSA) Aconteceu alguma coisa com o meu afilhado?

ELLEN: - Sabe o ex? O diabo castrador de esposas? O porco gordo e fedorento que habitava meu sofá nos finais de semana usando aquela cueca branca encardida e derrubando cerveja pelas almofadas? Aquele mesmo que foi embora com a filha da vizinha e me ameaçou de morte se eu cobrasse pensão? Que fez você me emprestar dinheiro pra fazer um curso de corretora imobiliária para eu poder trabalhar e sustentar meu filho? Pois é. Meu único filho resolveu que queria ir morar com o pai.

SCULLY: - (ESPANTADA) ... Eu não acredito que Jimmy...

ELLEN: - É. Estou sozinha naquela casa. (TRISTE) Seu afilhado acha que eu não sou o suficiente pra ele. Afinal ele é um homem, precisa do pai. Foi o que ele me disse, segurando a mochila, enquanto o pai dele buzinava do lado de fora da casa num sorriso de vencedor com aquela vaca de 23 anos do lado. Ah, não é mais a filha da vizinha, tá? É outra vaca loura de 23 anos!

SCULLY: - (INCRÉDULA) E você deixou o Jimmy ir?

ELLEN: - O que você faria no meu lugar? A guarda é sua, mas seu filho nem fala com você, bate a porta do quarto na sua cara, simplesmente ignora a sua existência dentro de casa. Prefere estar com os amigos na rua, não me responde, chega tarde... Joga na minha cara que o pai é rico e eu sou pobre. Tudo o que eu faço nunca é o suficiente. A comida está ruim, a roupa não foi passada direito, 'não fale com meus amigos, tenho vergonha de você'... (SEGURANDO AS LÁGRIMAS) Meu filho tem vergonha de mim, sabe? É, aquela coisinha que ficou dentro de mim por 9 meses e que eu cuidei com tanto carinho e dificuldade.

SCULLY: - (TENTANDO ANIMAR) Ellen, Jimmy está na adolescência, você sabe bem como é isso. Já fomos adolescentes, queríamos fugir de casa com uma banda de rock, fumar maconha e viver na estrada! Lembra? Mick Jagger era meu!

ELLEN: - (SORRI) O que será que eu via no Keith Richards? ... Não, Dana. Isso é diferente. Eu nunca destratei minha mãe e nunca disse na cara dela que a culpava por meu pai arrumar outra mulher e que a odiava por isso. Jimmy ainda disse que a outra até era mais legal do que eu, porque eu sou careta. Eu?? Careta???

SCULLY: - (TRISTE) Ellen... Lamento muito por isso... Nunca pensei que Jimmy faria algo assim...

ELLEN: - (TRISTE) Não lamente Dana. Ele é a cópia fiel do pai dele. A culpada sou eu que não escolhi um pai decente pro meu filho. Eu já chorei tudo o que podia, mas mãe é mãe, perdoa sempre. E é pai dele, eu sei que ele sente falta... E a mulher do pai dele o trata melhor do que eu. Pelo menos ele disse.

SCULLY: - ...

ELLEN: - Mãe é mãe. Perdoa. (RAIVA) Só que depois de dois meses, sozinha dentro daquela casa, chorando, tomando remédios pra depressão e olhando pra cada canto e lembrando de muitas coisas... Eu decidi mudar minha vida radicalmente. Porque eu sou uma mulher. Sou um ser humano e tenho direito de ser feliz e construir minha vida de novo.

SCULLY: - Claro que sim Ellen.

ELLEN: - Pois bem... Peguei uma mochila com o básico, minhas economias, uma carona na estrada e arrumei um apartamento em Washington.

SCULLY: - (INCRÉDULA) O quê?

ELLEN: - Você sabe que eu tenho um ótimo papo. Que vendo até geladeira pra esquimó. Mesmo estando fora do mercado de trabalho eu consegui emprego numa imobiliária. Já vendi uma casa nessa semana.

SCULLY: - (SORRI/ ESPANTADA) Ellen você não existe!

ELLEN: - Não, minha amiga. Ou você acha que vou ficar em Nova Jersey, chorando pelo desaforo do meu filho e pela traição do meu marido? Não mesmo! Antes eu até chorava, mas agora, senti o gosto da liberdade de novo! Sem horários pra nada, sem lanche da escola... Minha obrigação toda se resume no gato.

SCULLY: - Que gato?

ELLEN: - Comprei um gatinho persa. Não me incomoda. E serve de companhia.

SCULLY: - (RINDO) Você é louca!

ELLEN: - Sou. Mas sinto, Dana. A vida é muito curta pra você ficar lembrando do passado. Não. Eu nem tenho 40 anos ainda. Tenho uma vida nova pra começar.

SCULLY: - Então vamos nos ver com mais frequência!

ELLEN: - Sim. E pode começar a me apresentar os amigos do Mulder. Agora eu quero mais é namorar, curtir a vida e chega de ficar esquentando barriga no fogão! O que ganhei com isso? Nada. Aposto que se eu tivesse tido uma menina, ela estaria do meu lado. Filhas são amigas da mãe. Mas tive que parir mais um macho pra infernizar futuramente a vida de uma outra pobre mulher.

SCULLY: - Ellen! Não fale assim, é seu filho. E é uma criança ainda.

ELLEN: - Eu sei. Mas estou revoltada. Posso perdoar, Dana. Mas se ele se arrepender, que fique com o pai dele. Não quero mais compromisso. Tá ótimo eu e o Arthur.

SCULLY: - Arthur?

ELLEN: - O gato persa.

Mulder entra na cozinha, segurando as chaves do carro. Ao ouvir 'gato persa', já fica desconfiado.

ELLEN: - Só que como todo macho sempre dá as saídas dele. Não pode ficar quieto, em casa, pra fazer companhia pra você.

SCULLY: - Sei, esses gatos persas vivem saindo...

As duas olham pra Mulder, corado.

SCULLY: - Vai aonde, Mulder?

MULDER: - Eu... err... nada. Não vou a lugar nenhum...

Mulder sai de fininho.

ELLEN: - Será que ele achou que estávamos falando dele?

SCULLY: - Pode ser. Ele tem um certo gato persa como pesadelo... E acredite, vai ter mais pesadelos ainda.

ELLEN: - E aí? O bem dotado tá se comportando? Trata você bem?

SCULLY: - ... Ele é ótimo. Cuida Victoria, me ajuda com a casa, está até cozinhando.

ELLEN: - Isso. Eduque. Faça virar gente. Ele tem que ser uma moça prendada nos serviços domésticos, mas tem que ser macho na hora do vamos ver.

Scully põe as mãos no rosto, rindo.

SCULLY: - Ellen, acho que você e Mulder não podem conversar. Vou perder meu marido. Ele vai ficar tão vermelho que vai terminar derretendo no chão... Ai, amiga... É tão bom ter uma mulher por aqui pra conversar. Vivo rodeada de homens. Só vem homem aqui nessa casa. Com exceção da mamãe e da Tara, mas essa só em reuniões de família.

ELLEN: - Como está a Meg?

SCULLY: - Ótima! Nossa, minha mãe tem sido a minha maior amiga. Sabe que ela sempre foi mais ligada na Missy, né? Acho que Meg agora tenta recuperar o tempo perdido, a relação que a gente não tinha...

ELLEN: - Será que ainda dá tempo de entrar pro FBI? Ou acha que nunca soube a real razão de você desejar ser uma policial? Fala sério, Dana! Aqueles homens perfumados e engravatados o dia todo na sua volta. Só tem homem gostoso no FBI! Eu até acho que vou começar a praticar certos delitos só pra ser algemada por um gatão daqueles... Filha, eu tô na secura!

SCULLY: - (RINDO) Ellen!

Mulder entra na cozinha.

MULDER: - Eu... Eu preciso sair. Assim você aproveita e conversa com sua amiga.

SCULLY: - Aonde vai?

MULDER: - Eu tenho umas coisas pra resolver. Não demoro.

Mulder sai rapidamente. Scully o observa sair, séria. Ellen olha pra ela.

ELLEN: - Algum problema?

SCULLY: - (DISFARÇANDO NUM SORRISO) Não, nada.


Residência dos Mulder – 3:11 A.M.

[Som: Cranberries – Linger]

Scully deitada na cama. Sozinha. Olhos abertos. Olha para o relógio. Escuta barulhos. Fecha os olhos.

Mulder entra no quarto. Tira o paletó. Enfia-se pra baixo do edredom. Se aconchega contra Scully. Scully finge dormir.

Mulder começa a beijá-la e a se esfregar nela. Scully o empurra com o cotovelo. Vira-se pra ele. Mulder senta-se na cama.

MULDER: - O que foi? Isso é punição pelo pato de borracha?

SCULLY: - Onde estava?

MULDER: - (RELUTANTE) ... Investigando.

SCULLY: - Trabalhamos juntos e não sei de nenhum caso que temos para ser investigado.

MULDER: - Não é um caso. Estava... (MEDO) procurando discos voadores pelo céu.

SCULLY: - Sei... E precisava chegar essa hora?

MULDER: - Vai começar a cobrança?

Scully senta-se na cama.

SCULLY: - Cobrança? Não, isso não é cobrança! Isso é preocupação! Você sai, não diz aonde vai e nem que horas volta!

MULDER: - Acho que já sou bem grandinho pra cuidar de mim.

SCULLY: - Mulder... Precisamos conversar.

MULDER: - Não, precisamos dormir porque o dia vai ser cheio amanhã.

Mulder deita-se na cama. Vira-se de costas pra ela. Scully enche os olhos de lágrimas.

SCULLY: - O que está acontecendo com a gente?

MULDER: - ...

SCULLY: - Mulder... Seja sincero comigo. Você arrumou alguém mais interessante.

MULDER: - Deixa de ser boba.

SCULLY: - Não minta pra mim, Mulder. Não sou nenhuma palhaça!

MULDER: - Scully, por favor. Que besteira!

Scully se levanta. Acende as luzes. Mulder olha pra ela.

SCULLY: - Quem é?

MULDER: - Quem é o quê?

SCULLY: - Não se faz de idiota!

Scully puxa o edredom de cima de Mulder.

MULDER: - Eu quero dormir!

SCULLY: - Quem é ela? Eu conheço a vadia?

MULDER: - Vai dormir, Scully! Você ficou doida!

SCULLY: - Doida?

Scully derruba tudo de cima da cômoda.

SCULLY: - (AOS GRITOS) Você não me viu doida ainda, Mulder!

Mulder senta-se na cama.

MULDER: - Sabe o que é? Você não tem mais nada pra fazer, então fica inventando coisas na sua cabeça! Se você tivesse as preocupações que eu tenho, não diria esse monte de besteiras.

SCULLY: - Besteiras? Você chegou tarde três dias nessa semana! Nem me beija mais, não me toca! Sempre arranja alguma coisa pra reclamar! Eu não sou burra!

MULDER: - ... Mas como tocar em você se quando eu chego você me acerta uma cotovelada? Nos outros dias você diz que tá cansada.

SCULLY: - Admita, Mulder! É mais honesto.

MULDER: - Mas admitir o quê, Scully? Eu não tenho outra mulher, minha palavra não basta pra você?

SCULLY: - Não!

MULDER: - Eu traindo você? (INCRÉDULO) Eu????

SCULLY: - ... Sim!

MULDER: - Mas eu demorei metade da vida pra achar alguém como você! Não jogaria fora tudo o que temos por causa de uma outra mulher!

SCULLY: - Jura pra mim.

MULDER: - É claro que eu juro. Só tem duas mulheres na minha vida: Você e Victoria.

SCULLY: - Eu não acredito em você, Mulder! Você me deixa arrepiada quando fica esquisito desse jeito!

MULDER: - (PÂNICO) Quem se arrepiou agora fui eu. Não, nem consigo imaginar minha vida longe de você, uma situação dessas entre a gente... Pelo amor de Deus, Scully! Esse foi o pior conto de terror que eu já ouvi. Perdi até o sono!

SCULLY: - Ela é bonita?

MULDER: - (INCRÉDULO) Quem?

SCULLY: - Essazinha com quem você está saindo!

MULDER: - Scully, por favor! Vem dormir, vem. Isso que você está sugerindo é inviável.

SCULLY: - Nunca diga nunca.

MULDER: - Mas nesse caso eu tenho que dizer nunca. Adultérios acontecem porque falta alguma coisa. Alguma coisa de um não pertence ao outro.

SCULLY: - (PARANOICA) Como assim?

MULDER: - Por exemplo... Eu mesmo. Minha alma te pertence, meu corpo te pertence, meu coração, minha mente, meus olhos... Eu estou embrulhado em seus dedos. E eu gosto disso. Admito, eu gosto. E além disso, quem mais nesse mundo faria mousse de maracujá como você faz? Quem mais faria esse charminho sedutor? Quem mais sussurraria às 3 da madrugada no meu ouvido? Quem mais brincaria comigo, pisando em mim, me fazendo de capacho?

SCULLY: - (NERVOSA) Sou dominadora demais, admito meu erro... Estou perdendo você, Mulder...

MULDER: - Erro? Não! Eu adoro isso! Scully, eu adoro o modo como você me usa. Eu... Eu sei que estou sendo usado, mas não resisto, me entrego, eu gosto quando você me domina. Eu fico mais apaixonado! Quanto mais você briga comigo, me chama de cachorro, me acusa de coisas que eu nunca faria, mais doido por você eu fico. Não tem jeito. Eu conheci você assim, me apaixonei pelo seu jeitinho rabugento comigo... Scully, eu te amo. E vou ficar meloso se continuar a dizer isso. Você está estragando a minha fama de 'estranho'!

SCULLY: - (SÉRIA)

MULDER: - (SORRI) Eu era um sujeito estúpido, grosseiro, mal educado... Hoje eu chamo você de meu amor! O que você fez comigo?

SCULLY: - (DESCONFIADA)

Mulder começa a fazer cócegas nela.

MULDER: - (SORRINDO) Não, o que você fez comigo, sua baixinha chata?

SCULLY: - (SÉRIA) Para Mulder!

MULDER: - Agora eu vou virar o 'Meloso Mulder'!

SCULLY: - (IRRITADA) Para!!!

Mulder para. Olha nos olhos dela.

MULDER: - Scully, quem mais no mundo me salvaria e me amaria do jeito que eu sou? Olha pra mim. Só você pra me aturar. Embora no seu caso... Qualquer homem daria a vida pra ter você. Você é fácil de amar. Você não é confusa. Você é a pessoa mais linda e humana que eu já conheci. Quem devia ter pesadelos sou eu.

SCULLY: - ...

MULDER: - Quem tem alguma coisa a perder aqui sou eu. Não você. Você só se livraria de um traste. Eu não. Eu perderia minha razão de viver. Scully, para com isso. Eu amo você.

SCULLY: - ... Quem é ela?

Mulder se quebra, incrédulo. Transforma o sorriso em seriedade.

MULDER: - (MAGOADO) Por que é tão difícil acreditar no amor que eu tenho por você? Por que é difícil acreditar que eu sou fiel, que não quero outra pessoa além de você?

Mulder se levanta, pega o travesseiro e sai do quarto. Scully senta-se na cama, chorando.


11:14 A.M.

Scully abre a porta. Olhos inchados. Ellen entra.

ELLEN: - Aquele cachorrinho cor de caramelo no jardim é seu? ... Amiga, o que houve?

SCULLY: - Mulder... Ele está me traindo. (BEIÇO DE CHORO) Com uma jornalista barata!

ELLEN: - Mulder? (RI) Mulder te traindo?

Scully olha séria pra ela.

ELLEN: - Amiga, eu não conheço muito bem o seu marido, mas só pelas coisas que sei dele já dá pra dizer que isso é apenas o seu maldito lado ciumento possessivo vindo à tona. A velha Dana Scully que vê coisas onde não existem.

Scully fecha a porta. Senta-se no sofá, pondo as mãos no rosto. Ellen senta-se ao lado dela.

ELLEN: - Dana... Por que acha isso? Batom na camisa? Perfume? Ou ele virou um garotão e comprou aquele Porsche que está lá fora? Isso é típico de homens de 40...

SCULLY: - Não, aquele Porsche é meu... Eu o vi em altos assuntos com ela e ainda por cima na cafeteria em frente ao prédio do Bureau! Ele mostrou um anel de diamantes pra ela! De diamantes, acredita? Nem sei de onde conseguiu dinheiro pra isso!

ELLEN: - Quem sabe ele queria a opinião dela pra dar o anel pra você?

SCULLY: - Ele não me deu nada! E ele nem tem amizade com ela que eu saiba pra pedir opinião sobre o que eu gosto ou não! E depois da cafeteria saiu com ela, os dois juntos num carro do FBI e só voltou ao trabalho três horas depois! O que você acha que devo pensar?

ELLEN: - Viu "aquilo naquilo"? Entraram num motel?

SCULLY: - Ellen! E precisa ver pra saber que tem algo errado? Ele está estranho!

ELLEN: - Como assim 'ele está estranho'? Você me disse que ele 'é' estranho!

SCULLY: - Ele sai de noite pra ver discos voadores. Vive dizendo que se encontra com Frohike para falar de conspirações governamentais.

ELLEN: - E o que ele fazia antes?

SCULLY: - Saía de noite pra ver discos voadores e vivia se encontrando com Frohike pra falar de conspirações governamentais.

ELLEN: - (RINDO) Dana... Quer saber? Só de olhar pra você se percebe uma mulher estressada. E sabe do que mais? Já ouviu falar em estresse pós-parto? Acho que você ainda não se acostumou com a ideia de ser mãe, esposa e profissional ao mesmo tempo. Vá se tratar, mulher.

SCULLY: - (CHORANDO) Eu não sei o que fazer, tenho vontade de esfregar o que sei na cara dele! Que ódio, Ellen, que ódio! Eu nunca imaginei que Mulder pudesse fazer isso comigo!

ELLEN: - Você o seguiu?

SCULLY: - Sim, mas um carro atravessou na minha frente e perdi os dois sem-vergonhas de vista! (CHORANDO) Ellen... Não o Mulder... Ele não... Eu posso ter perdido os outros, mas não o meu Mulder... Ele é o melhor homem que eu já tive na vida. Eu nunca amei alguém como amo o Mulder... Isso dói muito!

Scully se abraça em Ellen aos prantos.


11:46 A.M.

Ellen e Scully sentadas na cozinha. Mulder entra.

MULDER: - Oi, Ellen.

ELLEN: - Oi, Mulder.

MULDER: - Scully, preciso falar algo com você.

Ellen se levanta.

MULDER: - Não precisa, Ellen. O que vou falar você pode ouvir. Vou ser rápido e sintético.

Mulder olha pra Scully.

MULDER: - Eu não queria dizer isso a você, Scully. Mas você vai acabar sabendo mais cedo ou mais tarde. Que saiba pela minha boca então.

Scully amolece as pernas. Ellen percebe. Segura a mão de Scully, a confortando.

MULDER: - (CULPADO) Vou resumir a coisa toda. Fiz algo que eu não deveria ter feito. Não brigue comigo. Eu... Eu sei que sou meio infantil mesmo. Que faço as coisas sem pensar. E que não tinha o direito de esconder a verdade de você, espero que possa me perdoar por isso. Eu só queria poupar você. Como sempre, eu escondo as coisas para poupar você.

Scully olha incrédula e magoada. Respira fundo.

SCULLY: - Diga Mulder. Antes a verdade por mais dolorosa que seja. Prefiro ouvir da sua boca.

MULDER: - (CULPADO) Eu, Frohike e o Rato entramos no apartamento de Diana Fowley. Queríamos alguma prova que a ligasse com um produtor de cinema, com quem Krycek a vira sair e que é um sujeito altamente suspeito de estar envolvido com a conspiração. Eu tenho certeza de que foi ele quem sequestrou Victoria daquela vez.

Ellen balança a cabeça negativamente, olhando pra Scully.

MULDER: - Não encontramos nada. Mas me chamou atenção a existência de um anel de diamantes porque Diana nunca teve um. Resumindo, contra a luz percebe-se algo singular naquele anel. Me encontrei com Barbara Wallace, a jornalista, ela é confiável, amiga do Byers e tal... E passei o anel pra ela. Fomos verificar com um perito da confiança dela, a autenticidade do que vimos no anel.

Scully olha pra Mulder enchendo os olhos de lágrimas, quase rindo.

MULDER: - Se Barbara conseguir, vamos ter uma bela história na mídia. Caso a história seja vetada, a resposta que eu queria será confirmada... O que foi? Por que está desse jeito?

SCULLY: -(ALIVIADA) Eu já disse que te amo?

Mulder fica envergonhado pela presença de Ellen. Disfarça.

SCULLY: - Por que não me mostrou esse anel?

MULDER: - Eu trouxe ele pra casa, queria que você o analisasse. Mas você já estava brigando comigo e nem me deixou dizer nada. Lembra?

SCULLY: - Por que não me disse antes?

MULDER: - Porque não quero assustar você... Se observar num microscópio verá que há uma forma sinistra dentro dessa pedra, impossível de alguém colocar ali dentro e o material da pedra é desconhecido. Parece diamante, mas não é... Desse planeta.

SCULLY: - O que tem nessa pedra, Mulder?

MULDER: -A figura do demônio...

Ellen arregala os olhos fazendo o sinal da cruz.

SCULLY: -(NERVOSA) Acha que esse homem é satanista?

MULDER: -Nem sei mais o que pensar. Eu sei que isso assusta você. Mas quero ir a fundo. Eu... Eu só queria proteger você. Sei que eles vão tentar tirar nossa filha, mas não quero que você fique pensando nisso o dia todo, deixa que eu pense. Agora vou até os rapazes. Temos coisas pra fazer. Vou levar Victoria comigo, assim você pode ir ao cabeleireiro.

Mulder abre a geladeira. Pega a mamadeira.

MULDER: - Não se preocupe com o almoço, Byers está dando uma de cozinheiro... Melhor eu passar no Mc Donald's...

Mulder vai pra sala. Scully põe as mãos no rosto. Ellen olha pra ela.

ELLEN: - (DEBOCHADA) Traindo você, né Dana? ... 'Eu só queria proteger você', 'eu não quero que se preocupe, eu tomo suas dores', 'Vou levar Victoria, assim você pode ir ao cabeleireiro' 'não se preocupe com o almoço'... Me diz: Fizeram esse e jogaram a fôrma fora, né? Ele tem irmãos? Tem certeza de que ele é humano? Ou quem sabe um filho perdido de Zeus? Ou ele disse isso por que estou aqui?

SCULLY: - (CULPADA) Não... Ele é assim mesmo.

ELLEN: - Dana, impressionante, mas você não muda! Sempre coloca o carro na frente dos bois, sai fazendo conclusões precipitadas baseada no que vê. Quer dizer que seu marido não pode conversar com uma mulher? Isso é adultério? Quando vai acreditar nos sentimentos dos outros? Pior: Quando vai acreditar em você, porque ciúme obsessivo é falta de confiança em si mesma! Ele estava poupando você. Aposto que ficou noites pensando em como diria isso pra você, sem que ficasse apavorada. E você achando que ele estava com outra!

SCULLY: - (CULPADA) Ele veio cheio de amor e eu briguei com ele ontem...

ELLEN: - Dana, pelo amor de Deus! Olha o homem que você tem! Vai jogá-lo fora? Vai fazer ele se afastar de você por ser tão exigente com ele? Ele beija o chão que você pisa, faz tudo pra te agradar, é um pai excelente, um marido ótimo e você o trata desse jeito? Esse é o jeito que eu devia ter tratado aquele safado do meu ex-marido!

SCULLY: - (CULPADA)

ELLEN: - Bom... (CONTANDO NOS DEDOS) De tudo que você falou... Café na cama com rosa... Jantar romântico... Cantarola musicas pra você... Prepara banho... Faz massagem... Troca as fraldas da filha, dá comida pra ela, a põe pra dormir, cuida dela pra você... Poesias... A trata como uma rainha na cama... Chega a fazer do quarto um templo cheio de velas pra adorar você... O que mais você quer dele? E além de tudo é um gato e romântico! E fiel! Me diz uma coisa: hoje é sábado. Ao invés de ficar por aí enfiando caraminhola na cabeça, pensou em fazer a sobremesa que ele gosta? Em preparar uma surpresa pra agradá-lo?

SCULLY: - (BEIÇO/ CULPADA) Não.

ELLEN: - Por acaso já pensou em comprar uma lingerie sexy do gosto dele?

SCULLY: - (CULPADA) Não...

ELLEN: - Quem sempre vem com o vinho?

SCULLY: - Na maioria das vezes ele.

ELLEN: - Acha que agradar o seu marido faz de você uma mulher submissa? Agradar Mulder é uma degradação dos seus direitos humanos? Não seria mais coerente ver isso como apenas uma retribuição do amor que ele tem por você? Dana, até o animais gostam de um agradinho, carinho não esperado. Quanto mais os seres humanos! Você não gosta quando ele te faz um agrado?

SCULLY: - Claro que gosto. Mulder me bajula o tempo todo.

ELLEN: - E você? Qual foi a última vez que fez um agrado pra ele?

SCULLY: - Fiz um dia de salão. Arrumei ele. Ele me arrumou também...

ELLEN: - Só? E coisas tolas que os homens gostam tanto como um bolo, sentar no colinho pra assistir o noticiário, levar uma cerveja pra ele durante o jogo? Isso não diminui nenhuma mulher.

SCULLY: - (SUSPIRA/ TRISTE) Ellen, acho que eu não sei ser esposa. Eu achava que sabia, mas não sei. Mulder brinca melhor de casinha do que eu. Eu era melhor como namorada. Como amiga e como colega de trabalho. Como mulher dele sou um fracasso total! É que Mulder me quebra, e-eu... Eu não sei ficar a altura das coisas que ele faz, eu nunca imaginei que Mulder era assim tão romântico... Pra dizer a verdade, eu pensei que depois que Victoria nascesse ele ia esfriar, ia cansar de brincar de casinha, mas não.

ELLEN: - E odeia que ele seja assim?

SCULLY: - Claro que não! Eu o amo por isso! E me apaixono mais ainda por ele a cada dia que passa. Só queria ser mais sensível aos sentimentos dele, retribuir mais... Ele diz que sou sensível ao sentimento dos outros, mas eu não sou! Não quanto a ele... Deus, eu tenho que tirar a imagem de homem que eu tenho fixada na cabeça, porque Mulder não é igual a nenhum outro que eu conheci.

Ellen levanta-se, puxando Scully pelo braço.

ELLEN: - Não mesmo! Não vou deixar você jogar fora esse homem. Eu sou sua amiga, me sinto na obrigação de ajudar você a ver a verdade. Vamos, pega a droga da farinha e faz um bolo pra ele. Segura, minha filha, porque tá cheio de outras por aí esperando a oportunidade pra agarrar! Se você bobear, aparece alguma dando carinho pra ele que você não dá.

SCULLY: - Estou me sentindo culpada... Pobrezinho do Mulder, ele não merecia que eu jogasse ferraduras nele. Ainda faz até jantarzinho romântico! Ellen, ele vai desistir de mim. Eu sinto isso. Mulder vai se cansar...

ELLEN: -Para, criatura racional e louca! Você parece até o homem dessa relação e ele a mulher! Não se sinta mais culpada. Para de ficar aí desse jeito agindo como uma chata, se culpando das coisas. Você está um porre, Dana! Um verdadeiro porre. Vamos, eu ajudo você. E depois chispe pro quarto, tome um banho, troque de roupa e vamos ao shopping. Eu vou te dar umas aulas de como agradar marido. Você me deprime! Se eu tivesse tido sua sorte... Estaria com os joelhos calejados de tanto agradecer a Deus! Vamos, Dana. Mexa-se!


Shopping Center - 2:11 P.M.

Krycek caminha pelo shopping, de óculos escuros, roupas de bad boy, segurando uma revista e abrindo um sorriso. Olha para os lados disfarçando.

KRYCEK: - (MURMURA) Isso vai ser divertido...

Mais à frente, Ellen de óculos escuros de gatinha, lenço na cabeça, calça collant e blusa collant decotada, saltos altos. Caminha de braço dado com Scully, que está séria, naquele tailleur comum. Ellen para na frente de uma vitrine.

ELLEN: - Olhe pra isso, que deprimente!

SCULLY: - O quê?

ELLEN: - Você!

Scully para na frente da vitrine. Se observa.

ELLEN: - Isso é roupa de trabalho! Olha pra esse cabelo? Olha pra esse corpo que você esconde? Sai assim com ele?

SCULLY: - Não saímos. Ele não gosta.

ELLEN: - Também não o culpo. Você não sabe ser sensual. Você é totalmente sexy e gostosa e fica se fazendo de beata.

SCULLY: - Ellen!

ELLEN: - Não discuta. Eu fui como você e só perdi o meu marido. Agora estou de volta! Vem comigo, vou te levar numa loja quente.

SCULLY: - Eu não quero cabelo pantera e calças de cotton com padrão de tigre! Eu não sou perua! Afaste-se de mim, Ellen!

Ellen puxa Scully pra dentro de uma das lojas. Krycek leva a revista ao rosto e começa a rir.

KRYCEK: - Mulder, até que enfim alguém me deu uma missão divertida!


BLOCO 3:

Salão de Beleza - 4:19 P.M.

Foco em Ellen lixando as unhas, sentada num banco, tomando chá.

SCULLY: - Estragaram meu Chanel!

ELLEN: - Não estragaram. Arrumaram essa porcaria que você chama de cabelo.

SCULLY: - Eu mato você, Ellen! Juro que você me paga!

Close em Scully. Cabelos super lisos e desfiados pelo rosto. Maquiagem forte, lábios vermelhos, unhas vermelhas. Scully se observa, num sorriso de surpresa. Ellen levanta-se.

ELLEN: - Uau! Agora sim eu vejo uma mulher!

CABELEIREIRO: - Só cortei as pontas, desfiei, e mantive bem curtinho, tá? Fiz alguns reflexos, dei uma hidratação básica nos fios e deixei seus cabelos caídos pra mostrar mais o seu rostinho. Você tem que valorizar essa sua carinha, menina. Sua pele é muito bem tratada.

Scully se analisa, gostando. Ellen abre a carteira e entrega algumas notas ao cabeleireiro.

ELLEN: - Valeu rapazes, mas estamos com pressa. Ainda temos um banho de loja.

Ellen puxa Scully pelo braço.

ELLEN: - Vamos, depois você se admira.

SCULLY: - Aonde vamos?

ELLEN: - Comprar roupas decentes. Você só tem roupa de trabalho. Hoje, quando Mulder chegar em casa, vai olhar pra você e imediatamente ficar de pau duro.

SCULLY: - (RINDO) Ellen!

As duas saem do cabeleireiro. Krycek, sentado no banco, com a revista na frente do rosto, ao ver Scully, se engasga com o chiclete. Levanta-se e se afasta rapidamente, sem que elas vejam. Krycek abaixa a revista e acompanha Scully com os olhos, catatônico.

KRYCEK: - Pelos... Girassóis da Rússia! Um submarino desses afundaria qualquer destróier. (CORRIGINDO-SE) Vamos, Alex, concentre-se na missão. Você tem que vigiar e não babar!


4:39 P.M.

[Som: Tina Turner – Simple the Best]

Ellen ao lado do provador de roupas, segurando alguns cabides.

ELLEN: - Já transou num provador de roupas?

SCULLY: - (RINDO) Já.

ELLEN: - Sensação emocionante... Meu Deus! Sabe que estava pensando agora no tanto de tempo que faz que não durmo com um homem? Eu fui fiel, amiga. Sei que é difícil de acreditar, mas depois que casei... E quando ele saiu da minha cama nunca mais transei com outro. Estou com teia de aranha!

SCULLY: - (RINDO) Depois eu que sou burra... Ellen, acho que isso aqui tá muito apertado. Chega a mostrar a marca da calcinha.

Ellen enfia a cabeça pelas cortinas.

ELLEN: - Tá não.

SCULLY: - Claro que está Ellen! Olha o tamanho da minha bunda! Só se usar com camisetão por cima. E essa blusa tá muito justa e decotada!

ELLEN: - Que camisetão o quê! Você tem que mostrar o que tem de gostoso.

SCULLY: - E se Mulder não gostar?

ELLEN: - Ele não gosta de ver nas outras? Então vai gostar, oras.

Ellen se afasta. Passa um cabide pelas cortinas.

ELLEN: - Experimenta isso... Tem notícias de Charles?

SCULLY: - Está bem. Ainda está com a cretina. Naquele vai e volta. Toma chifre, manda embora. Ela volta, ele aceita. Toma chifre de novo... E segue a novela do "ela vai mudar, é a mãe do meu filho"...

ELLEN: - Coitado. Se ele tivesse tido o bom gosto de ficar comigo... Aposto que estaríamos juntos e felizes até hoje. Continua aquele ruivo gato de cabelos compridos?

SCULLY: - Continua, mas os cabelos estão mais curtos. E é um pai maravilhoso.

ELLEN: - Saco! Eu devia ter continuado a dar em cima dele. Uma hora o tonto ia perceber.

SCULLY: - Hum, sabe que gostei dessa roupa?

ELLEN: - Eu disse. Conheço seus gostos. É a sua cara. Chiquérrimo, discreto, mas muito sensual. Só porque é mãe agora, não pode ser uma mãe gostosa e moderna?

Scully sai do provador: numa calça corsário creme, bem solta, amarrada com cordão, saltos altos e uma blusa de linha crua com botões de madeira.

ELLEN: - Amiga... Agora sim. E leva aquela calça de cotton e as blusas.

SCULLY: - Gostou?

ELLEN: - Gostei. Mas experimenta isso.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Mas isso é verde!

ELLEN: - É verde sim, super moderno. Agora entra aí e veste!

Ellen entrega outro cabide. Scully entra no provador.

ELLEN: - Sabe, Dana... Essa coisa de morar sozinha... Eu estou gostando de ter compromisso apenas comigo. Não penso em arrumar marido tão cedo. Quero namorar, escolher... Agora eu já tenho maturidade e experiência pra distinguir o tipo de cara certo pra mim.

SCULLY: - O que acha?

Ellen espia pela cortina. Sorri.

ELLEN: - Ah, agora sim! Tem que variar as cores menina. Me espera aqui, vou buscar algumas blusinhas turquesa, azul, vermelho, violeta e laranja. E alguma roupa estilo hippie que é o point da moda. Tem uma túnica marrom bordada que vai ficar divina em você. Tons terra nunca saem de moda.

SCULLY: - Ellen, não!


5:06 P.M.

Ellen e Scully andam pelo shopping, cheias de sacolas e tomando sorvete. Scully usando a roupa que comprou, caminhando com o celular ao ouvido. Desliga.

SCULLY: - Falei com Mulder pra não voltar antes das nove.

ELLEN: - O que argumentou?

SCULLY: - Que estou cansada e quero dormir. E que se ele chegar cedo vou castrá-lo.

As duas riem. Sentam-se num banco, perto do chafariz.

Corta para Krycek. Senta-se num banco, atrás de algumas plantas, perto delas, de óculos escuros. Coloca a revista na frente do rosto.

Ellen suspira. Scully olha pra ela.

ELLEN: - A vida é estranha, né Dana? Olha nós duas aqui, bem mais velhas... Juntas... Você imaginava essa cena quando tínhamos nossos 14 anos? A situação em que estaríamos? O que estaríamos conversando? Quem seríamos? Seríamos amiga ainda?

SCULLY: - Não, Ellen. Pra dizer a verdade eu achava que estaria casada com o Mick Jagger.

As duas riem.

ELLEN: - Dana, você se arrepende das coisas que fez? Da vida que teve até aqui?

SCULLY: - Sabe, Ellen... Antes de Victoria nascer... Eu reencontrei o Douglas.

ELLEN: - (INCRÉDULA)Não acredito! Acertou um murro nele? Pelo menos unzinho! Ai se eu o encontrasse, esmagaria as bolas daquele imbecil com um taco de basebol!

Krycek morde os lábios e se ajeita no banco, interessado no assunto.

SCULLY: - Não consegui reagir. Continua o mesmo idiota. (SORRI) Mas Mulder deu uma surra nele tão grande quando soube o motivo da minha raiva, que Douglas acabou no hospital. Dia desses estávamos voltando do México e advinha quem estava na fila de passagens?

ELLEN: - Douglas.

SCULLY: - Sim. Quando ele me viu, disfarçou. Mas quando viu Mulder... (RINDO) Saiu de costas, se afastando. Mulder só olhou pra ele e ele saiu correndo gritando: Fique longe de mim!

ELLEN: - (RINDO) Típico. Douglas só é macho com mulher. Devia ter moído mais ainda aquela cara safada dele.

SCULLY: - Douglas processou Mulder por agressão. Mulder está proibido de se aproximar 20 metros dele... Sabe, toda aquela mágoa tinha voltado em mim. Mulder me ajudou a superar. Agora eu posso dizer que não me arrependo. Mas se pudesse voltar atrás na vida, duas coisas eu queria mudar.

ELLEN: - Que coisas?

Ellen abre a bolsa. Arranca uma folha da agenda. Pega uma caneta.

SCULLY: - O que está fazendo?

ELLEN: - Uma lista de arrependimentos seus e meus. Vamos guardá-la. Cada vez que pensarmos em algo que fizemos de errado, vamos anotar pra não repetir.

SCULLY: - Uma das coisas que me arrependo foi ter me envolvido com Douglas e com caras casados e mais velhos. E outro arrependimento: Adoraria ter conhecido Mulder muito antes, ter dito o quanto eu o amava bem mais cedo e vivido muito mais com ele. Eu posso não falar, ter essas crises estranhas, mas... De uma coisa eu tenho certeza. Ele é simplesmente o melhor.

Ellen apoia o braço no encosto do banco, olhando pra Scully num sorriso. Scully olha pro chafariz.

SCULLY: - Mulder... Eu tenho sido tão pouco do que ele precisa. Eu tenho me censurado tanto em dizer coisas que ele merecia ouvir... Quando começamos nosso relacionamento, eu era mais espontânea... Agora espero sempre por ele. Ele conheceu um lado meu solto e esse lado nos últimos anos tem morrido e não é por culpa dele. É por minha culpa. Eu vivo tensa, assustada com um possível afastamento de nós dois e não percebo que estou justamente ajudando no jogo daquela gente que nos quer separados.

ELLEN: - Você e Mulder formam um belo casal. Deviam deixar os problemas e encará-los como desafios a serem transpostos. Viva, amiga. A vida é tão rápida.

SCULLY: - Eu sei, mas muitas vezes esqueço disso... Eu não relaxo, me estresso por qualquer coisinha... Mulder não diz, mas... Eu sei, Ellen, que ele está chateado comigo.

ELLEN: - ...

SCULLY: - Falei pra você das loucuras todas que fizemos pra ter Victoria. Eu mal havia superado a perda de um filho e já veio outro. Acho que agora é que estou começando a organizar tudo na minha cabeça. Levaram meu filho, Mulder caiu em depressão e tentou o suicídio, eu tive que ser o apoio dele. Depois fiquei grávida, tentei relaxar o máximo possível nos primeiros meses pra não afetar o bebê, Mulder me tirou do caminho deles, me protegeu, cuidou de mim... Mas eu não queria pensar em nada do que sofri pra não passar pra minha filhinha. Agora que ela nasceu, me sinto mais livre pra pensar em mim.

ELLEN: - Está feliz por ser mãe?

SCULLY: - Claro que estou. É um sonho realizado, tanto que já nem entro mais em crise quando vejo um bebê. Eu sei que ela será a única, mas eu me sinto feliz por tê-la. Algumas vezes até sou relapsa. Mulder e eu não temos experiência com essas coisas... Acho que concedo demais pra Victoria, logo eu que achava que seria a mãe séria e rígida.

ELLEN: - A prática é outra, bem diferente do discurso...

SCULLY: - Mulder tem razão quando diz que minha vida está tão do jeito que eu sonhava que agora eu procuro criar problemas pra sair fora da rotina. O tudo perfeito pode ser um pesadelo, sabia?

ELLEN: - ...

SCULLY: - Eu... Depois que Victoria nasceu, ela começou a fazer coisas que bebê algum faz.

ELLEN: - Como assim?

SCULLY: - Mulder acha que não percebo a precocidade de Victoria. Nem comenta mais sobre isso. Não o condeno, porque da última vez que ele sugeriu isso, eu o acusei de tanta coisa, até de ter perdido meu filho por culpa dele.

ELLEN: - Dana, você fez isso?

SCULLY: - Eu estava num estado tão alterado, com raiva, estávamos em situação difícil fora do FBI. Eu tinha que descontar minha desgraça e foi nele. Você sabe que costumo magoar sempre quem eu amo.

ELLEN: - ... Não teve notícias do menino?

SCULLY: - Eu não sei explicar pra você, Ellen... Mulder me vem com teorias de reencarnação, que Victoria é meu filho perdido, de que 'isso estava escrito', anjos e outras coisas... Mas eu não me sinto tão especial assim pra conceber na minha cabeça que eu fui privilegiada. Confesso, Mulder não sabe, mas estou tentando encontrar meu filho.

Krycek abaixa a cabeça, angustiado.

SCULLY: - Eu quero acreditar que eu tenho outro filho e que ele está perdido por aí, precisando de mim... Mulder tem genes diferenciados, ele foi feito em laboratório, eu não sei o que Victoria poderá vir a ser e tenho medo de descobrir que a filha dos meus sonhos seja... Algo perigoso.

ELLEN: - Como assim, Dana?

SCULLY: - Eu temo muito que Mulder esteja falando a verdade de que Victoria seja especial. Não temo apenas que a tirem da gente, mas temo descobrir o que não quero. E isso tudo tem me perturbado ultimamente. Eu olho pra ela, pras coisas espertas que faz e fico torcendo pra que alguém me diga: Meu filho também faz isso. Mas ninguém diz isso quando vê Victoria. Ela parece normal, mas tem algo nela... Sabe, a gente que é mãe sente as coisas...

ELLEN: - Dana, estou tentando entender o que você quer me dizer. Mas o que exatamente você teme em Victoria?

SCULLY: - Eu não sei, Ellen... Eu temo que ela seja especial e importante demais pra ficar sob minha guarda. E eu apenas queria um bebê. Um simples bebê.

ELLEN: - Pare de se preocupar, Dana. Você está de novo antecipando tudo antes que aconteça, se precipitando nas coisas sem nem saber se elas vão acontecer. E se Victoria for isso tudo que você teme? O que poderia fazer?

SCULLY: - Não sei, Ellen. É disso que tenho medo. Não sei a minha reação, não posso prever. Minha mente está tão confusa e cansada disso tudo que eu tenho medo de ter a pior reação que poderia por culpa de um esgotamento mental. E essa reação me é ainda desconhecida. Se Victoria for tão paranormal assim... Acho que terei medo da minha própria filha.

ELLEN: - Medo? Dana, se Melissa estivesse viva ia te puxar a orelha. Você não se abriu pra essas possibilidades?

SCULLY: - Me abri. Vendo nos outros. Posso aceitar com qualquer pessoa. Mas não com minha própria filha. Acredito mais nisso tudo, não fico mais contrariando Mulder em muitas coisas porque eu já as vi também. Seria irracional da minha parte criticar Mulder nas coisas que ele diz e que eu já vi acontecer... Mas não com a minha filha, entende?

ELLEN: - Mas Dana, você não está sozinha. Você tem Mulder. Vocês dois se dão bem, vivem bem. Vão dividir isso juntos.

SCULLY: - Algumas vezes pareço sentir prazer em magoar Mulder. Ellen, eu nunca senti isso. Eu nunca fiz isso. Você mesma viu o quanto ele é bom comigo. Não há porque eu agir assim com ele. É como se alguma coisa sentasse sobre minhas costas, me vendasse os olhos e fizesse tudo que há de ruim sair de dentro de mim. Uma nuvem, parece que uma nuvem negra me cobre tirando minha visibilidade real das coisas.

Krycek fica atento, intrigado.

SCULLY: - Acho que vou procurar um profissional para fazer terapia. Não estou tomando remédios por causa de Victoria. Quero amamentá-la mais um pouco. É tão bom.

ELLEN: - Quer um exorcista?

SCULLY: - (SORRI) Não... Deixa isso pro Mulder, depois das 9 da noite. Ele me acalma rapidinho.

As duas riem. Ellen levanta-se.

ELLEN: - Mulder sabe que tem uma mulher maravilhosa por isso retribui. Mas você ainda não notou que tem um homem maravilhoso. Admita isso pra ele. Deixe Mulder ver o quanto você é doida por ele. Alimente o ego dele, não vai rebaixar o seu por isto. Só vai receber em dobro.

SCULLY: - Você acha?

ELLEN: - Dana, não dê ouvidos as pessoas, ok? Ninguém sabe realmente o que vocês têm, o que se passa na cabeça de cada um dos dois. Só vocês mesmos sabem como guiar a vida de vocês, só vocês sabem o que cada gesto ou atitude do outro implica. Você mesma sabe que as provocações de Mulder usando outras mulheres são pra chamar a atenção e dizer que adora você. Como ele sabe que seu ciúme doentio é só pra dizer: eu te amo. Cada um tem um jeito, uma reação. Com o tempo você descobre o código de cada uma delas.

SCULLY: - Eu sei de muitos códigos. Principalmente os de Mulder. Mais até do que os meus próprios.

ELLEN: - Então? Tá vendo? Acha que ele não sabe dos seus códigos? Claro que sabe. E aposto que não está bravo com você não. Pode ter se magoado, mas não deixa de te amar por isso. Cada um tem um jeito, Dana. Aceite o seu, aceite o dele, e vivam felizes e não se digladiando como se cada provocação fosse motivo de vingança, de devolver o tapa. Quem ama não deseja vingança. Você não tem certeza absoluta de que Mulder ama você?

SCULLY: - Tenho. Como sei que ele também tem.

ELLEN: - Então? Pra que ficar enchendo a cabeça de besteira? Viva, minha amiga. Viva tudo com esse amor enorme que você ganhou da vida. Até eu vivi tudo que tinha com aquele sujeito lá. Pena que não deu certo. Mas eu posso dizer que fui feliz com ele até que as coisas declinaram. A felicidade é feita de momentos. Se você perdê-los esperando a felicidade eterna, vai perder o trem e acordar no céu sem nunca ter vivido nada. Vamos... Agora vamos comprar o mais importante.

SCULLY: - E o que é o mais importante?


Pistoleiros Solitários - 5:27 P.M.

Mulder sentado com Frohike na frente do computador. Langly brincando com Victoria.

MULDER: - Impressionante! O cara praticamente não existe!

FROHIKE: - Mas tem um nome: Sr. Alberthi.

MULDER: - E daí? Isso eu sei! Mas não tem rastro algum! Tá em todas as manchetes, em todo o meio hollywoodiano e não tem uma foto?

LANGLY: - Onde está Scully?

MULDER: - Em casa, com uma amiga.

FROHIKE: - Amiga? Amiga da adorável agente Scully? Hum, isso é interessante... Aposto que ela também é quente!

MULDER: - Scully agora enfiou na cabeça que eu tenho uma amante. Acredita? Deve estar pintando o meu retrato negro pra Ellen. Por falar nisso nem posso olhar pra mulher.

FROHIKE: - Scully fica com ciúmes?

MULDER: - Não. Eu fico todo encabulado. Scully disse coisas pra amiga que... Sabe mulher né? Elas ficam falando de tudo. Eu tenho até vergonha de olhar pra tal Ellen.

LANGLY: - Que tipo de coisas?

MULDER: - Íntimas.

LANGLY: - Mas que tipo?

MULDER: - Ora, Langly, se são íntimas são íntimas!

LANGLY: - ... Sobre... Sexo?

MULDER: - (IRRITADO) É, algo a ver com isso.

FROHIKE: - (ENCARA MULDER) Não acredito! Mulheres... Depois se queixam, mas ficam fazendo propaganda!

LANGLY: - Mulder, não creio que você deva apelar pro Viagra ainda. Fale com um médico primeiro...

MULDER: - (PANICO) Que Viagra? Eu não preciso de Viagra! Eu sou um Viagra ambulante! (INDIGNADO) Viagra... Humph!

Langly e Frohike se entreolham acenando negativamente com a cabeça. O celular de Mulder toca. Mulder atende.

MULDER: - (INDIGNADO) Mulder.

KRYCEK (OFF): - Estou tomando conta de Scully.

MULDER: - (ENCIUMADO) Tome conta à distância. Onde ela está?

KRYCEK (OFF): - Comigo num motel, foi fumar um cigarrinho e já volta... Ora, Mulder! Isso não interessa. Eu não sou fofoqueiro. Só estou cuidando dela conforme o combinado. O resto é a vida privada dela.

MULDER: - Como não interessa?

KRYCEK (OFF): - Eu estava ouvindo uma conversa dela com a amiga...

MULDER: - (PÂNICO) Que conversa? Elas estão comentando sobre o meu... (PIGARREIA) Sobre... Você sabe.

KRYCEK (OFF): - Eu não sei de nada do 'seu' e nem quero saber! Está me confundindo com os seus três amigos aí, que moram juntos e nunca são vistos com uma mulher do lado? Eu, hein?

MULDER: - (PÂNICO) O que elas estão fazendo? O que estão falando? De mim?

KRYCEK (OFF): - Não interessa o que estão fazendo e falando, já disse que não sou fofoqueiro! Eu só diria caso ela estivesse 'nos' traindo.

MULDER: - (ENCIUMADO) Como assim 'nos' traindo? Olha aqui Rato, eu descubro onde vocês estão e vou aí te esfolar vivo!

Frohike olha pra Mulder, assustado.

KRYCEK (OFF): - (RINDO) Brincadeira, Mulder... Agora é sério, tem alguma coisa acontecendo debaixo da nossa cara que não estamos percebendo.

MULDER: - Que coisa? Tem alguém atrás dela?

KRYCEK (OFF): - Não do jeito como pensamos... Não sei dizer o que é, Mulder, mas... Tem algo errado. É uma intuição.

MULDER: - Essa intuição eu também tenho. O que Scully disse?

KRYCEK (OFF): - ... E se esse sujeito tem poderes paranormais? E se ele for algum tipo de bruxo, que possa manipular algum feitiço à distância, tornando a pessoa cega?

MULDER: - Não me venha com teorias do estilo. Já levei uma bronca por causa de um pato de borracha. (RINDO) Daqui à pouco, você vai sugerir que Mr. Alberthi é o demônio...

KRYCEK (OFF): - E se ele está tentando afetar Scully usando pra isso a própria insegurança dela? Acha que invocariam forças ocultas para afastar vocês dois e tomar Victoria?

MULDER: - (PENSATIVO)...

KRYCEK (OFF): - Você vai ter problemas, Mulder... Ela ainda busca o filho que perdeu. Ela não acredita na verdade... Te ligo depois. Vou perdê-las de vista.

Mulder desliga, nervoso. Passa as mãos nos cabelos.

FROHIKE: - O que foi?

MULDER: - Mais problemas...


5:38 P.M.

[Som: Tina Turner - Simply the Best]

Ellen dentro da loja, observando as lingeries. Scully ao lado dela.

SCULLY: - Me sinto idiota.

ELLEN: - Por quê?

SCULLY: - Por comprar lingerie pro Mulder, oras.

ELLEN: - Ele não merece?

SCULLY: - Mas e se ele rir de mim?

Ellen olha pra ela, incrédula.

ELLEN: - Você nunca comprou nenhuma lingerie especial pra transar com um homem?

SCULLY: - (BEIÇO) Algumas vezes.

ELLEN: - (GRITA) Eu não acredito!

Todo mundo dentro da loja olha pra elas. Scully fica corada.

SCULLY: - Ellen! Fala baixo!

ELLEN: -Patética. Você é patética. Leva essa.

SCULLY: - Eu não vou levar tanguinha com padrão de tigresa!

ELLEN: - Mas é tão bonitinha!

SCULLY: - Não! Se eu vestir isso daí Mulder vai sair correndo apavorado. Vai achar realmente que bati a cabeça.

ELLEN: - Ah mas ele vai gostar de ver você comprando algo pra agradá-lo.

SCULLY: - ... Não sei.

Ellen olha pra ela.

ELLEN: - Não sabe?

SCULLY: - Não... Nunca falamos sobre isso. Mas eu já usei coisas diferentes com ele, cinta liga, essas coisas...

ELLEN: - Ah está vendo? Depois fica dizendo que sabe tudo do Mulder e que ele sabe tudo de você. Não sabem nada! Ainda tem muito pra descobrir. Rotina... Que rotina? Ai Dana que vontade de te agredir de raiva!

SCULLY: - (CORADA) ...

ELLEN: - E essa?

SCULLY: - Eu prefiro pretinho.

ELLEN: - Ai chega de preto mulher! Que tal um vermelho?

SCULLY: - Aparece muito a celulite?

Ellen fica séria. Aproxima-se de Dana.

ELLEN: - Amiga, dá uma olhada ali do outro lado da loja.

Scully vira-se. Vê a mulher bem gorda comprando lingerie. Ellen olha pra Scully.

ELLEN: - Aposto que ela não tem como esconder nada, nem com pretinho básico. E nem por isso ela não se valoriza e não se sente gostosa pro marido dela. Ela é uma mulher de verdade! E ele adora, porque ela tá comprando, entende? Você não tem vergonha de pensar assim? Liberte-se da escravidão do padrão de beleza que a indústria da moda criou, garota!

SCULLY: - Tá certo... Me dá essa vermelha...

ELLEN: - Leva o sutiã combinando.

SCULLY: - Isso é coisa de fresca, como diria uma amiga minha!

ELLEN: - Não é não. É chique... Vai a tigresinha?

SCULLY: - Não! Ellen não vou me sentir bem com isso. Eu já tô apavorada imaginando a cara do Mulder se me visse com uma tanguinha de tigresa olhando pra ele deitada na cama.

ELLEN: - O que ele ia fazer?

Scully imita a cara de pânico de Mulder.

ELLEN: - Hum, se ele ia fazer isso até que seria engraçadinho.

SCULLY: - Não, sem tigresa, oncinha e outros bichos!

ELLEN: - Hum... Uma tigresa ruiva?

SCULLY: - (RINDO) Ellen, não!

ELLEN: - Os tons combinam com seus cabelos...

SCULLY: - (RINDO) Não! Ellen, não!

ELLEN: - Hum... Acho que vou levar pra mim. Vai que chove uma cenoura na minha horta?

SCULLY: - (RINDO) Leve é a sua cara mesmo!

ELLEN: - Vamos ver alguma coisa sexy aqui... Uau! Que tal esse babydoll lilás?

SCULLY: - Não. Tá muito chamativo. Mulder ia rir de mim.

ELLEN: - Como sabe que ele ia rir de você?

SCULLY: - Instinto.

ELLEN: - Instinto falho você quer dizer... E esse?

SCULLY: - Ai não, isso aí só tem fiozinhos! Eu nem sei onde coloca cada fiozinho desses... Ellen, isso não.

ELLEN: - Mulher chata! E esse?

SCULLY: - Não. Com zíper? Pra que zíper se é todo transparente?

ELLEN: - Homem gosta de abrir coisas, Dana! Enquanto vê tudo, tem algo pra abrir. Homem é feito criança que ganha presente. Fica louco pra desembrulhar! Mesmo que seja o mesmo brinquedo já conhecido fica com ar de novo e excitante!

SCULLY: - ... Não. Pega aquela ali.

ELLEN: - Camisola?

SCULLY: - É.

ELLEN: - Que coisa mais patética! Uma camisola até os pés!

SCULLY: - Mulder gosta de camisola. Se eu conheço meu marido ele vai preferir isso em mim a um babydoll. Mulder é um folgado, Ellen. Ia desatar a rir e eu ia ficar furiosa.

ELLEN: - Mas isso não é sexy.

SCULLY: - Pro Mulder é.

ELLEN: - Mas nem tem renda aqui! Parece mais um vestido de jersey!

SCULLY: - Mas é essa mesma. Olha, tem lacinho de enfeite atrás.

ELLEN: - E ainda por cima preta?

SCULLY: - Sim. Ele gosta de preto.

ELLEN: - Você também, né, Dana... Arrisca algo diferente.

SCULLY: - Não, vou levar essa camisola.

ELLEN: - Ainda usa calcinhas que cobrem tudo ou já aderiu as tanguinhas?

SCULLY: - Ellen! Eu uso tanguinhas, tá?

ELLEN: - Bem, pelo menos vejo progresso por aqui... E que tal esse?

SCULLY: - ...

ELLEN: - Ah parou pra pensar... Esse é excitante. Não é chique?

SCULLY: - É bonito...

ELLEN: - Tem barbantes aqui pra ele ficar abrindo empolgado e curioso por um bom tempo...

SCULLY: - (RINDO)

ELLEN: - E que tal algo em couro?

SCULLY: - Couro? Ellen você tá louca?

ELLEN: - Não gosta de couro?

SCULLY: - Adoro. Principalmente as calças que o Mulder usa.

ELLEN: - Então?

SCULLY: - Não. Eu não vou usar roupa de couro. Isso vai parecer sadomasoquismo.

ELLEN: - Se não exagerar pode ser algo bem excitante...

SCULLY: - Não. Me dá a camisola mesmo.

ELLEN: - E esse aqui com pompons?

SCULLY: - (RINDO) Não! Eu já tenho tamanquinhos de pompons e um robe de pompons. Chega de pompons.

ELLEN: - Mas imagina você com seus pompons e mais uma tanguinha e um sutiã só de pompons? Ahn? Vai deixar o homem "empomponzado".

SCULLY: - Não Ellen.

ELLEN: - Sim. Os pompons, o babydoll, o zíper e a tigresa vão, senão a camisola não vai.

SCULLY: - O que adianta comprar se não vou usar?

ELLEN: - Sabe se não vai usar?

SCULLY: - Não vou. Uma porque Mulder vai rir e depois quando ver esses pompons aí vai debochar me chamando de coelhinha.

ELLEN: - Ah Dana... Qual homem não baba pelas coelhinhas da Playboy? Ahn? Você de coelhinha na cama dele... Uma pobre coelhinha indefesa, esperando para ser atacada pela raposa, ahn? Acha que ele ia rir?

SCULLY: - (PENSATIVA) ... Os pompons vão. A tigresa fica. Por que homem tem mania de bicho?

ELLEN: - Ora, eles adoram que as mulheres sejam as presas indefesas da taradice deles. Ahn? Leva a tigresinha.

SCULLY: - Não!!!!!!

ELLEN: - A tigresa vai e ponto final! Agora vamos passar no caixa. Temos que nos apressar, ainda tem mais um lugar pra ir.

SCULLY: - Que lugar?

ELLEN: - Aguarde e confie.

SCULLY: - Ui, Ellen, esse seu 'aguarde e confie' me dá medo!


BLOCO 4:

7:01 P.M.

Ellen termina de ajeitar os pacotes todos no porta-malas do carro. Scully observa.

ELLEN: - E vê se agora, da próxima vez, vem com ele. Vocês dois sozinhos, namorando... Dá um banho de loja naquele homem.

SCULLY: - É... O coitado tá precisando mesmo. Faz um bom tempo que não faço isso. Sempre saio pra comprar roupas pra Victoria. Mulder tá precisando de roupas novas... Mas ele é mais chato do que eu pra comprar roupas. Ele não deixa! Gosta de comprar sozinho, do gosto dele... Com exceção de meias e cuecas que ele não lembra que existem.

As duas entram no carro de Ellen. Ellen liga o carro.

ELLEN: - Continue o assunto. Então ele se vestiu de Zorro?

SCULLY: - (RINDO) Foi. Admito, fiquei surpresa.

ELLEN: - Graças à Deus o Clark nunca se vestiu de Zorro pra mim. Em primeiro lugar ele não caberia numa calça de couro. Em segundo lugar, você já viu Zorro com uma pança enorme?

SCULLY: - (RINDO) ...

ELLEN: - Sem chances. Pra ele combinaria outra coisa. Mas qual mulher se excitaria com o Sargento Garcia?

Ellen vai dar a partida. Um carro freia na frente delas.

Krycek, dentro da picape, ao ver a cena, liga rapidamente o carro e acelera em direção ao carro suspeito. O carro dá ré. Ellen grita pela janela.

ELLEN: - Ei, depois fala das mulheres, seu barbeiro! Tirou a carteira pelo correio? Idiota!

O motorista estende a mão pra fora fazendo um sinal obsceno e vai embora. Krycek freia a picape quase batendo no carro de Ellen. Ri de si mesmo.

Scully ao vê-lo, fica irritada e mete a cara pra fora da janela.

SCULLY: - O que faz aqui?

Krycek disfarça. Sai da picape. Aproxima-se da janela de Scully, apoiando-se no vidro. Ellen olha pra ele.

KRYCEK: - (OFEGANTE) Estava... Passeando. E você?

SCULLY: - (DESCONFIADA) ... Também.

KRYCEK: - (OLHA PRA ELLEN/ OLHA PRA SCULLY) Preciso realmente que você não fique furiosa, mas tenho que roubar Mulder de você por algumas horas hoje.

SCULLY: - Algo sobre aquela gente?

KRYCEK: - É. Mas nada pra você se preocupar. (SORRI) Bom passeio pra vocês!

Krycek se afasta, entrando na picape e partindo. Ellen o acompanha com os olhos, quieta. Scully olha pra ela.

SCULLY: - Vamos?

ELLEN: - ... (CATATÔNICA) Ele sorriu? Viu aquele sorriso?

SCULLY: - Ellen?

ELLEN: - Eu bati o carro, morremos e um anjo vestido de couro veio nos receber na porta do céu? E de brinquinho na orelha??? Jesus Cristo!!!! Tende piedade desta pobre mortal aqui!

SCULLY: - (RINDO) ... Ellen!

ELLEN: - Deus! Que homem! Agora sim eu acredito em paraíso e em fenômenos estranhos porque um deles saltou na frente do meu carro vindo do nada!

Ellen começa a esmurrar o volante. Scully ri sem parar.

ELLEN: - Mas que droga de vida!!!!!! O que era aquilo??? De onde saiu aquela bunda gostosa, aquele peitoral divino e aquele corpo másculo???? E aquele sorriso de safado?

SCULLY: - Ellen! Não recomendo... Não inspira confiança.

ELLEN: - E daí que não inspira confiança, Dana? Inspira outro monte de coisas que eu até vou ficar quieta! Quem quer confiança com aquilo tudo ali? Acha mesmo que alguém pensa em confiança diante de um homem desses? Me diz que é amigo seu ou do Mulder.

SCULLY: - (RINDO) ... Não sei se é amigo, mas...

ELLEN: - Dana, me diga sinceramente. Por que eu demorei tanto tempo pra vir pra Washington? Deus, como eu sou burra!!!!!!! Acrescente na nossa lista de arrependimentos: Ellen se arrepende de não ter vindo antes pra Washington. E se arrepende de não ter batido o carro propositalmente numa picape preta só pra trocar o número de telefone!

SCULLY: - Hum... Estou anotando. Mas eu sei onde ele mora.

ELLEN: - Te ponho agora pra fora desse carro a pontapés se me negar essa informação. O shopping todinho vai ver duas loucas rolarem pelo chão aos puxões de cabelo. E tem mais: termino minha amizade com você e ainda vou na porta da sua casa te chamar de um monte de palavras bonitas e sequestro o seu cachorro.

SCULLY: - (RINDO) Ellen! ... Vamos fazer o seguinte. Vamos pegar Victoria. Você desce e a pega, eu fico escondida. Porque Mulder vai querer ir pra casa pra deixá-la e vai atrapalhar toda a minha surpresa.

ELLEN: - Ótimo. Só me deixa recuperar o fôlego. Acho que meus hormônios todinhos se concentraram em determinada região anatômica e estão me matando de inanição... Será que o 'Mr. Couro' gosta de tigresa?

SCULLY: - (RINDO) Ellen, você não vale nadinha mesmo!

ELLEN: - Mas você é cega? Eu tenho razão ou não?

SCULLY: -(RINDO) Claro que tem, sou casada, mas não sou cega. Alex Krycek é... Interessante.

ELLEN: - Interessante? Só isso? Alex Krycek? Que tipo de sobrenome é esse?

SCULLY: -(RINDO) Russo.

ELLEN: - Nunca transei com um russo. Mas se ele topa uma guerra-quente com uma americana, tô dentro! Você viu aquele traseiro? Aquele jeito de cafajeste, safado, cretino...

SCULLY: - É, eu sei o que você tá falando, não sou cega Ellen! Maspelo amor de Deus, não comente nada disso com o Mulder! Ou ele vai me enterrar na casa de ferramentas e cobrir meu túmulo com concreto. No dia em que eu desaparecer, já sabe o que me aconteceu.

ELLEN: - Preciso rezar uns trezentos 'Padres-Nosso'. Porque todas as coisas que pensei agora me garantem o fogo eterno do inferno!

SCULLY: - (RINDO) ... Posso rezar com você? Ainda bem que pensamento não é algo que se possa ler...

As duas começam a rir uma da outra feito duas adolescentes bobas.


Residência dos Mulder – 9:11 P.M.

Scully na banheira, tomando banho, com Victoria recostada nela, pendendo os olhinhos de sono.

SCULLY: - Mamãe já vai colocar você na caminha, docinho. Hum? Tá bem?

Victoria boceja.


Residência dos Mulder – 1:11 A.M.

Mulder entra em casa. Fecha a porta. Liga os alarmes. Olha pra escada, já ficando aflito e tenso. Vai para a cozinha.

MULDER: - Scully, não briga comigo de novo, eu me atrasei porque...

Ninguém na cozinha. Tudo limpo.

MULDER: - (PÂNICO) Acho que nem vou subir. Vou dormir de roupa e na sala... Se ela nem me esperou pra jantar a coisa tá feia mesmo...

Mulder abre a geladeira. Arregala os olhos.

MULDER: - Mousse? (FELIZ) Ela fez mousse?

Mulder fecha a geladeira. Coça a cabeça, desconfiado.

MULDER: - Não... Deve ter reunião de família amanhã. Melhor nem tocar nisso ou a coisa vai feder mais pro meu lado.

Mulder olha pra mesa.

MULDER: - Bolo? (INCRÉDULO) De chocolate como eu gosto? ... (DESCONFIADO) Tem alguma coisa errada por aqui. Deve ser de propósito pra me atentar e eu cometer o crime e depois ouvir pelo resto da vida... Resista, Mulder. Você pode. Não arrume mais problemas.

Mulder apaga as luzes. Vai pra sala. Abre o armário, pega a manta. Senta-se no sofá. Liga a TV, volume bem baixo. Boceja, cansado. Fecha os olhos.

[Som: Tina Turner – Simple The Best]

Mulder abre os olhos ao ouvir a música. Vira-se pra escada, curioso.

Close nos saltos altos e pretos descendo as escadas no ritmo da música.

SCULLY: - I call you when I need you, my heart's on fire...

(Eu te chamo quando preciso de você, quando meu coração está em chamas...)


Scully descendo as escadas segurando a camisola preta e longa, ainda maquiada e de cabelos desfiados pelo rosto, as unhas vermelhas. Mulder fica boquiaberto.

SCULLY: -You come to me, come to me wild and wild...

(Você vem até mim, vem até mim, impetuoso e selvagem...)

Scully ergue a lateral da camisola mostrando a perna sensualmente, enquanto faz um beiço sedutor. Mulder abre um sorriso, fascinado.

SCULLY: - Hum... When you come to me... Give me everything I need.

(Quando você vem até mim... Me dá tudo que eu preciso.)

Scully se aproxima dançando em direção dele, o chamando com as mãos.

SCULLY: - Give me a lifetime, promises and a world of dreams... (PASSA A MÃO NO ROSTO DELE) Speak a language of love like you know what it means...

(Me dá uma vida inteira de promessas e um mundo de sonhos. Fala uma linguagem de amor como você sabe o que isso significa...)


Mulder sorri tímido. Scully senta-se no colo dele.

SCULLY: - (INCLINA-SE PARA TRÁS) Hum... And it can't be wrong! (PEGA-O PELA CAMISETA) Take my heart and make it strong baby!

(E isso não pode estar errado! Pegue meu coração e torne-o forte, querido!)


Scully sai rapidamente do colo de Mulder, estendendo os braços e olhando pra ele enquanto dança.

SCULLY: - You're simply the best, better than all the rest!

(Você é simplesmente o melhor, melhor do que todo o resto!)


Mulder fica sem jeito. Abaixa a cabeça timidamente.

SCULLY: - Better than anyone... Anyone I've ever met...

(Melhor do que qualquer um, qualquer um que eu já encontrei)


Scully ergue o queixo dele com a ponta dos dedos. Mulder sorri.

SCULLY: - I'm stuck on your heart, and hang on every word you say... (ACENA NEGATIVAMENTE COM A CABEÇA) Tear us apart... (PÕE A MÃO NO PEITO) Baby I would rather be dead!

(Estou cravada no seu coração, e presto bastante atenção a cada palavra que você diz que... Nada nos separa... Querido, eu preferia morrer!)


Scully senta no colo de Mulder, olhando em seus olhos.

SCULLY: - In your heart I see the star of every night and every day... In your eyes I get lost, I get washed away...

(Em seu coração, eu vejo a estrela de todas as noites e todos os dias... Em seus olhos, eu fico perdida, eu sou arrastada para longe...)


Mulder pra lá de encabulado. Scully se abraça nele.

SCULLY: - Just as long as I'm here in your arms... I could be in no better place...

(Enquanto eu estiver aqui em seus braços... Eu não poderia estar em nenhum lugar melhor)


Mulder a abraça. Fecha os olhos, num sorriso tímido.

SCULLY: - (MURMURA) Você é o melhor, Mulder... Melhor que todo o resto... Melhor que qualquer um... Qualquer um que eu tenha conhecido...

MULDER: - Eu não sou esse cara aí que você está cantando... (TÍMIDO) E-eu... Falta muito ainda pra eu ser o melhor.

SCULLY: - (PÕE O DEDO NOS LÁBIOS DELE) Você é o melhor homem, amigo, parceiro, amante... Você é simplesmente o melhor.

Scully aproxima os lábios dos lábios de Mulder, tomando-lhe num beijo suave e profundo. Mulder se entrega. Scully coloca a mão dele em seu quadril. Aprofunda o beijo. Mulder desliza a mão pela camisola dela.

Scully solta os lábios de Mulder, o admirando nos olhos, apaixonada. Mulder olha pra ela, com um sorriso bobo.

MULDER: - Você... Comprou essa camisola... Pra mim?

SCULLY: - (DEBOCHADA) Não. Comprei pra mim mesma, pra usar nessa noite com você. Você não ficaria bem nela, Mulder.

MULDER: - (SORRI) Concordo.

SCULLY: - Não gostou? Preferia algo mais curto?

MULDER: - (SORRI TÍMIDO) Claro que gostei. Acho camisolas muito mais excitantes... Eu... Eu apenas não esperava uma atitude dessas de você...

Mulder acaricia a perna de Scully levando o tecido de seda com os dedos, a admirando, com os olhos brilhando de quem segura um choro de emoção.

MULDER: - Gosto de camisolas por isso. Você vai revelando tudo aos poucos, cada centímetro de pele cheirosa... Scully, você acaba de me fazer sentir que você ainda me ama... (SORRI MEIGO) Gostei de receber uma atençãozinha sua tão especial assim. Me deixou feliz.

SCULLY: - Hum... Tadinho, tá carente?

MULDER: - (SÉRIO) Eu tô sofrendo, Scully. (TRISTE) Pensei que não tivesse percebido o quanto eu me sinto rejeitado por você. Tenho preferido ficar trabalhando a ficar aqui ouvindo você me acusar de coisas que eu nunca faria com você. Pensei que não se importava mais comigo, que tinha se cansado de mim... Eu só quero um abraço seu de vez em quando. Já tá bom pra mim. Mais do que eu mereço.

Scully enche os olhos de lágrimas, culpada. Respira fundo.

SCULLY: - Hum, não sofre não, não fica triste... Mulder, eu... Eu sei que tenho sido fria, cruel e insensível, me perdoe por isso, mas não vamos tocar nesse assunto agora, porque eu quero é fazer você sorrir. E quando o dia nascer eu quero te adorar com meus olhos enquanto você dorme e pedir desculpas por tudo que eu não tenho sido pra você. E não diga nada, porque você também sabe que é verdade... Mulder, amor de toda a minha vida, você merece mais e mais, sempre. (SORRI) Então tem mais uma surpresinha...

MULDER: - (SORRI FEITO CRIANÇA BOBA) Diga que aquele mousse e aquele bolo são pra mim. Diz que você tirou um pouco do seu tempo pra fazer aquilo pra mim. Só pra mim. Pensando em mim.

SCULLY: - (AFAGANDO OS CABELOS DELE) São pra você sim, Mulder. Fiz pensando em você e tirei todo o dia só pra me enfeitar pra você, e a noite toda pra amar você, meu amor... Mas tem outra surpresinha.

MULDER: - (CARENTE/ SORRI BOBO) Você me chamou de meu amor?

SCULLY: - (SORRI) E você não é o meu amor?

MULDER: - Hoje é meu aniversário e eu esqueci disso? Ou o cachorro roeu meu sapato de novo? Já sei, Bill está vindo pra cá, é isso? Não, já sei! Minha carteira tá no casaco, pode pegar o dinheiro e os cartões.

SCULLY: - (SORRI) Para, seu bobo! Hoje é meu dia de devolver todos os agrados e o amor que você tem por mim. Hoje é dia de mimar o Mulder.

MULDER: - Hum... Tô gostando disso...

Scully leva a mão de Mulder por baixo da camisola, num ar de levada. Mulder olha pra ela, curioso.

MULDER: - O que é isso?

Mulder ergue a camisola dela. Sorri.

MULDER: - Yhaaaaa, Dana Scully de tanguinha? E tigresa?

SCULLY: - (MEDO) Não deboche de mim, Mulder.

MULDER: - Eu??? Debochar???... Levanta.

Scully se levanta, constrangida.

SCULLY: - Eu sabia que...

MULDER: - (PIDÃO) Vai... Ergue a camisola e dá uma voltinha pra mim...

Scully o faz. Mulder inclina a cabeça pra trás.

MULDER: - Minha nossa! Isso ficou demais em você!

SCULLY: - (SORRI) Sério? Gostou?

MULDER: - Posso ser sincero?

SCULLY: - (MEDO) Deve.

MULDER: - Tesão! Você ficou um tesão, Scully. Eu acho que vou enfartar agorinha mesmo!

Mulder se levanta, andando ao redor dela. Scully fica constrangida e abaixa a camisola.

MULDER: - Claro que gostei! Que homem não gostaria? ... Hum, combinou com seus cabelos... Com a sua pele... Scully, estou ficando nervoso. Se a intenção era essa, você conseguiu.

SCULLY: - (SORRI) Sério?

MULDER: - Só uma perguntinha básica. Assim, muito básica mesmo.

SCULLY: - Que perguntinha?

MULDER: - Por que Tina Turner? Por que eu gosto dela?

SCULLY: - Não sabia disso. Foi porque eu gosto das músicas dela. E acho que esta tinha tudo a ver com o que sinto em relação a você.

MULDER: - Também gosto das músicas. Mas prefiro aquelas pernas! Que coroa! Scully chegue na idade dela com aquelas pernas e tenho certeza que vai ficar viúva rapidinho... Mas sério... Foi por isso mesmo?

SCULLY: - E por que mais seria? Qual o problema com a Tina Turner?

MULDER: - É que... Pensei que fosse algum tipo de relação com o Bryan Adams, porque os dois viviam colados...

Scully olha rindo incrédula pra Mulder.

SCULLY: - Que coisa feia, Mulder! Com ciúmes de um cantor!

MULDER: - Mais alguma surpresinha? Estou ficando empolgado! Nunca ganhei tanto presente pra desembrulhar!

Scully empurra Mulder que cai sentado no sofá. Caminha até o som. Mulder a observa, com olhos de raposa curiosa.

[Som: Deep Purple – Smoke on the Water]

Mulder abre um sorriso safado.

MULDER: - Scully... Isso é rock???

SCULLY: - (MAROTA/ DANÇANDO/ ERGUENDO E ABAIXANDO A CAMISOLA) Yes, Mulder... Rock in roll can never die!

MULDER: - Yhaaaaaaaa!

Os dois se atracam um no outro. Mulder agarra uma das pernas de Scully e envolve a mão nos cabelos dela. Scully pula no colo dele. Os dois perdem o equilíbrio, caindo por cima do encosto do sofá e vão parar no chão.

Apenas as vozes deles e o foco no sofá.

SCULLY: - (RINDO) Ai, Mulder, não é justo... Eu demorei tanto pra me arrumar...

MULDER: - (RINDO) A vida não é justa... E eu vou te desarrumar todinha em menos tempo...

SCULLY: - Fazer o quê se você não sabe brincar?

MULDER: - A noite é minha não é mesmo? Isso tudo é pra mim não é?

SCULLY: - Claro que sim.

MULDER: - Eu quero tudinho então. Cada brinquedinho seu... Scully, você tá muito gostosa! Adorei seu cabelo desse jeito.

SCULLY: - Pensei que não tinha reparado...

MULDER: - Confesso que reparei quando você desceu as escadas, mas depois esqueci de comentar por causa da tigresa... Sei que tigresa não é páreo pra raposa, mas eu topo a briga nem que tenha que sair todo esfolado disso!

SCULLY: - ... Sabe como termina essa história de briga entre uma tigresa e uma raposa.

MULDER: - Sei. Sei a moral disso. Vou terminar sendo devorado, mas quem liga??? Vai tigresa, devora essa raposa inteirinha!

O telefone toca. Scully estende a mão e pega o telefone sobre a mesinha lateral. Entra no foco atendendo, com os cabelos desgrenhados.

SCULLY: - (AO TELEFONE) Agora não, Mulder está ocupado contando fábulas. Ligue só amanhã cedo porque a história é longa!

Scully desliga. Sai do foco.

SCULLY: - (RINDO) Me dá isso...

MULDER: - (RINDO) Não! Primeiro eu!

SCULLY: - Não mesmo...

MULDER: - Au! Larga, Scully!

Mulder ergue a cabeça entrando no foco, com a calcinha de Scully na cabeça, segurando o controle remoto e apontando pro som. A música aumenta. Ele se abaixa saindo do foco novamente.

MULDER: - Onde eu parei?

SCULLY: - Não sei quanto a você, mas eu sei onde parei...

MULDER: - Yhaaaaaaaa!!!!!! Eu vou te revirar inteirinha, não vai sobrar mulher pra contar história... Au! Isso aí doeu! Larga Scully!!!

SCULLY: - Não! Não vou largar. Aliás, para que senão eu puxo!

MULDER: - Tá bom, se não quer largar... Não larga, não me importo... Nem queria mesmo... Oh céus! Mas tenha piedade... Vou te denunciar por maus tratos ao bichinho.

SCULLY: - Não seja cretino, Mulder... Não estou maltratando nenhum bichinho, isso é um bichão enorme e estou cuidando dele. Pobrezinho parece até anêmico, não tem se alimentado direitinho... Tadinho do meu Mulderzinho, tá carentinho...

Barulhos. A mesinha, ao lado do sofá, vira ao chão com abajur, porta-retratos, telefone e tudo.

MULDER: - (OFEGANTE) Não, diminutivos não, Scully... Eu fico doidão!

SCULLY: - Não!!!!!! Mulder, não! (RINDO) Mulder isso é abusar da gentileza dos outros...

MULDER: - Eu quero toda a sua gentileza, Scully. Vou cuidar bem dela...

SCULLY: - Eu tenho uma teoria sobre isso. Mas a minha teoria é diferente da sua como sempre.

MULDER: - Ainda bem que é diferente, Scully. Se a sua teoria fosse igual a minha não ia ter graça alguma e não estaríamos aqui discutindo. Sou a favor da divergência teórica, ela é mais instrutiva...

SCULLY: - Mulder, vou colocar a sua teoria inteirinha na minha boca.

MULDER: - Tudo bem... Mas eu vou colocar a sua teoria na minha boca também!

SCULLY: - (RINDO) Não! Deixa a minha teoria em paz, pobrezinha!

MULDER: - Eu adoro a sua teoria, Scully... Hum... Teoria gostosa... Interessante e empolgante... Eu adoro ter a sua teoria na ponta da minha língua... Não vou deixá-la em paz... Que tal se eu colocar minha teoria na sua teoria? Ahn?

SCULLY: - (RINDO) Agora?

MULDER: - (EXCITADO) Scully, se não reparou minha teoria está em ponto de bala! Se demorar muito, eu vou acabar expelindo argumentos pelo tapete!

SCULLY: - Ah não, Mulder! Não jogue fora seus argumentos, isso é desperdício! Deixe que eu os assimile oralmente. Acho um pavor jogar fora argumentos... Ai! (OFEGANTE) Que teoria, Mulder!!! Uma grande teoria!!! Muito funcional com certeza. Uma teoria séria, rija, extensa e completamente interessante... Mas dói pra assimilar... Que teoria mais doída!

MULDER: - Eu vou questionar sua teoria até o dia amanhecer, sem folga. Vou exaurir sua teoria até você implorar pra eu parar essa discussão entre nós dois.

SCULLY: - Hum, questione minha teoria, Mulder... Questione gostoso... Assim... Hum... Ohhh Mulder... Isso, coloca sua teoria todinha na minha!

MULDER: - (DEBOCHADO) Isso deve ser o que chamam de 'sexo intelectual'...

SCULLY: - (RINDO) Não. Isso é discutir como dois adultos.

MULDER: - (OFEGANTE) Hum... Adoro ir ao fundo da sua teoria, Scully... Ir e voltar, ir e voltar, assim, bem gostoso, ficar divagando na sua teoria por bastante tempo, sem pressa...

SCULLY: - Mulder, sua teoria é grande demais pra minha...

MULDER: - Não, a sua teoria que é pequena demais pra minha. Mas admita, você é doida por grandes teorias... Scully, que tal você mexer sua teoria um pouco?

SCULLY: - Assim?

MULDER: - Oh Céus! Que teoria! Que teoria! Scully, não existe teoria igual a sua... Ah não existe mesmo!

SCULLY: - Hum... Gosta da minha teoria?

MULDER: - (DEBOCHADO)Muito... Mas... Depois disso eu poderia colocar a minha teoria no seu discurso?

SCULLY: - (RINDO)No meu discurso??? Hum... Isso vai ser interessante... Será que sua teoria aguenta?

MULDER: - Não sei se o seu discurso aguenta a minha teoria.

SCULLY: - Acho que vou buscar recursos didáticos pra isso... Ohhhhh... Sim, Mulder! Oh yes!!!!! Adoro seu vasto argumento!!!! Argumenta de novo!

MULDER: - (OFEGANTE) Estou perdendo forças pra discutir...

SCULLY: - Não! Argumenta de novo! Depois fizemos um coffee break e continuamos esta séria discussão.

MULDER: - Quem falou em coffee break? Não, o assunto está empolgante demais! Sem coffee break, Scully. Eu não vou sair daqui antes do seu discurso... Promessa é dívida e eu quero discurso!

SCULLY: - No discurso dos outros é bom né, Mulder? Mas tudo bem, contanto que depois disso você derrame seus argumentos todinhos em cima da minha palestra!

MULDER: - Sério?

SCULLY: - Seríssimo!

MULDER: - Yhaaaaaaaa... Scully, você tá muito bem de palestra, acredite. Acho que vou dar uma dentada nessa palestra... Pra depois me aprofundar todinho no seu discurso.

SCULLY: - Mulder... Não se aprofunde tanto... Prefiro que você fique apenas a par... Me dá medinho!

MULDER: - Que medinho nada! Eu sou um cara intelectual demais pra errar com seu discurso, Scully... Deixa que eu vou trabalhá-lo todinho com minha inteligência e depois você vai ficar tão doida que vai querer discursar a noite inteira!

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - Fala.

SCULLY: - Não entendi a parte da inteligência...

MULDER: -(SACANA) Deixa que loguinho você vai entender, Scully...


Orion Publishing & Entertainment Associates – Washington D.C.– 2:13 A.M.

[Som: Era - Enae Volare Mezzo]

O Canceroso e The Gold Coin saem do prédio. The Gold Coin brincando com a moeda entre os dedos. O rosto dele não é revelado.

THE GOLD COIN: - Libere agora o assunto dos 'ratos-robôs' na mídia. Diga que serão úteis para localizar pessoas soterradas. Invente qualquer besteira com uma justificativa altruísta e não haverá erros. Não são ordens minhas. São ordens do topo.

O Canceroso acende um cigarro, calmamente. Olha pra ele.

CANCEROSO: - Não entendo por que dar margem à especulação de que podemos usar eletrodos e chips implantados para conduzir mentes. Levamos anos em acordos governamentais e traçando planos para ocultar essa operação e você agora os convence a liberar a informação de sua existência.

THE GOLD COIN: - Temos nossos motivos para querer que todo mundo volte seus olhos para chips e eletrodos implantados, bem como para a clonagem humana.

CANCEROSO: - E também estou tentando entender por que estão investindo milhões em pesquisas que já fizemos de comum acordo com militares em cima de mensagens subliminares.

THE GOLD COIN: - Não se faça de tolo que eu sei que você não é tolo, Spender. Ao contrário do que pensa, eu o conheço muito bem e sei que certas coisas não devem ser reveladas a você. Se não está satisfeito, demita-se com uma bala em sua cabeça e colocamos Strughold em seu lugar.

CANCEROSO: - Levei dois meses para afastar a mídia que Mulder levantou em cima daquele instituto de pesquisas mentais na Geórgia, envolvendo homens do exército na operação de limpeza de provas. O saldo disso foi que tivemos de nos livrar de um hacker muito inteligente e perdemos o Dr. Zernicke. Por que colocar um idiota como Patterson a chefiar pesquisas de cunho neurológico?

THE GOLD COIN: - Não coloquei o mentecapto Dr. Patterson no controle. Coloquei a mente científica doentia e insana de Strughold no comando da operação.

CANCEROSO: - O que acha que vai conseguir que não conseguimos utilizando a psique humana?

THE GOLD COIN: - Não subestime o poder de indução de um cérebro humano, Spender ou vou mandar que usem você como cobaia. Vou sugerir que o façam acreditar que é um inseto. Vai agir como um, acredite. E então quando eu der uma baforada de inseticida, você cairá morto. Porque acreditou que era um inseto.


X

26/04//2002

15 de Setembro de 2019 às 19:54 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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