We're Dual - Volume 1 Seguir história

notaqueenakhaleesi Writer Lay

Akemi sonha com o dia que irá para New York. Todas as noites antes de dormir imagina o dia que partirá da ensolarada Califórnia em direção a vida que projetou desde pequena. Porém o caminho até seus planos não é fácil. Sua mãe é Maemi Yagami, uma mulher que traz a ancestralidade em detalhes específicos e a dor de uma perda duplicada, o que sempre recai sobre si como uma obrigação e um erro. Seu irmão mais novo, Hiro, é o seu maior confidente e também a pessoa por quem se sente mais responsável - e por isso o seu medo do que irá acontecer quando não estiver mais lá. Há muito a ser superado antes que a Broadway conheça seu nome. Ela só não sabe se estará inteira até esse dia chegar.


Drama Para maiores de 18 apenas.

#bissexualidade #ansiedade #adolescência
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Parte 1

DYING IN L.A.


A cidade quente e receptiva de Los Angeles, o lugar onde sonhos se realizam. O centro de celebridades por metro quadrado e onde o clima é sempre favorável para visuais leves e permissivos. O sonho americano vendido em filmes artísticos.

E também onde eu nasci, em pleno 28 de setembro, numa manhã trágica.

O fato da Califórnia concentrar tantas pessoas famosas em sua região é quase que uma justificativa para o sem número de acidentes que ocorrem e ninguém é responsabilizado. Foi assim que minha mãe, na mesma madrugada em que me deu a luz, perdeu o então marido: o filho de um ator premiado com alguns Oscars bateu com o seu Lamborghini contra o pequeno carro econômico dos meus pais. Todo o processo de perda e dor e incerteza sendo atravessado por uma solitária Maemi Yagami, enquanto eu lutava pela minha vida em uma encubadora.

Eram essas lembranças, que nem mesmo eram minhas, que me faziam justificar suas atitudes, dia após dia.

— Está atrasada para o jantar. Onde esteve? — Okaasama me inquiriu assim que cheguei a sala de jantar de nosso pequeno apartamento. Sua expressão era fechada e eu esperava mesmo que não tivesse nada a ver com Hiro. — Se estiver de novo metida com aquela garota ruiva, eu juro, Akemi...

— Estava estudando. Com o pessoal do grêmio. Perdi o ônibus, apenas isso. — Afirmei, sem olhar em seus olhos, me sentando a mesa com os ombros retesados.

"Aquela garota ruiva", também conhecida como Laurel, de longe a pessoa que melhor me conhecia depois de meu irmão. Também conhecida como a Indesejável Número 1 de okaasama. Tudo porque a garota sempre insistiu para que eu me inscrevesse em faculdades que atendessem ao meu verdadeiro chamado, o qual não interessava para Maemi Yagami. Não era o plano que ela traçou para mim quando saímos do hospital, 18 anos atrás.

E por isso eu me via mentindo, ou omitindo, minhas companhias e razões para sempre chegar depois do anoitecer em casa.

— Espero que tenha sido isso. Aquela garota é uma péssima influência para você. Totalmente permissiva... Ainda bem que seus anos de Windward estão contados e você não vai mais conviver com esse projetinho de... Enfim. — A mais velha seguia falando, enquanto pousava as travessas de nosso jantar sobre a mesa.

Seguramente eu e Hiro éramos os únicos a regressar para casa como se estivéssemos seguindo para uma prisão. Visitas selecionadas, horário para refeições em tempo certo, esporros contínuos caso fizéssemos algo fora do que o carcereiro tinha mandado. A vida controlada de Akemi Matsumoto e Hiro Hamada, em exibição de sexta a segunda de manhã.

E falando em meu irmão...

Do outro lado da mesa, de cabeça baixa e puxando distraidamente o fio solto de seu moletom estava o garoto por quem eu aceitava ouvir todo aquele discurso, todo fim de semana. Hiro era dois anos e meio mais novo que eu, e também mais inocente e vulnerável. Sempre achava que podia fazer o que desse na telha que nossa mãe iria alguma hora aceitar, porque afinal mães eram programadas para isso. E por isso era quem mais passava por aqueles gritos horríveis e intimidadores que, tinha certeza, o quebravam por dentro.

— Não destrua seu moletom de Stranger Things. Eu lutei com um garoto dez centímetros mais baixo que eu e 20 vezes mais determinado para conseguir trazê-lo para casa, na última liquidação. — Brinquei com o garoto, fazendo-o erguer o olhar em minha direção e sorrir fraco.

Havia um roxo em seu rosto, como se alguém tivesse acertado um tapa muito forte no local.

— Quem fez...? — Comecei a perguntar, sentindo o coração bater mais forte contra a caixa torácica, enquanto me inclinava para a frente.

— Por favor, não. Não agora. Não hoje. — Ele me respondeu em uma voz tão baixa que só podia significar que era algo que não queria ou iria debater em frente a nossa mãe.

Infelizmente, o timming não estava favorável ao mais jovem e okaasama o escutou nitidamente, colocando uma mão na cintura e outra espalmando com força sobre a mesa.

— Isso, Akemi, é o que seu irmão me arranja quando vai pra essa escola em que a mensalidade me cobra cada órgão que ainda tenho funcionando! Brigando nos corredores, como um moleque de rua qualquer! — A mulher esbravejava enquanto olhava dela para Hiro, que apenas negava com a cabeça e dizia em um tom baixo "Não foi assim". — Quando eu coloquei vocês dois nesse tal colégio elitista, jurava que fariam os dois o melhor de si em agradecimento aos meus esforços. Mas não...

E então ela apontou o indicador fino em minha direção, me fuzilando com o olhar.

— Você fica ameaçando deixar o seu lar e atravessar o país para seguir sendo mais uma sem futuro na América, ao invés de ser a garota mente feita pra que eu te eduquei. Porque ter uma carreira de verdade não é bom o suficiente, não é mesmo? — Mesmo depois de semanas após minha carta de admissão da NYU ter chegado em nosso endereço, ainda havia muito rancor envolta de okaasama. Como se tivesse a traído por ter me inscrito em Música em uma universidade da Costa Leste. Então a mulher mais velha voltou sua atenção para Hiro, fazendo o garoto se encolher em sua cadeira. — E esse outro... Péssimas notas, péssimos amigos e agora começou a apanhar no intervalo por ser um frouxo. É como se eu tivesse tirado na loteria os maiores suplícios como mãe!

Ouvia a tudo aquilo engolindo em seco e me esforçando ao máximo para não derramar lágrima alguma. O que não acontecia com o garoto em minha frente. Via a trilha molhada se formar em seu rosto em silêncio, um pequeno detalhe sobre o rosto em raros dias sorridente e pacífico. Ele não merecia passar por aquilo. Nenhum dos dois merecíamos. Minhas mãos fechadas em punho sobre a mesa me continham para não começar a gritar e não sabia se aquilo seria possível por muito tempo.

— Agora andem, seus mal agradecidos, comam logo. Ou também não é bom o suficiente pra vocês? — O tom de voz irritado da outra fez o mais jovem de nós se encolher, enquanto a mim, me coloquei de pé.

— Hiro não é um frouxo. Meu irmão não apanha por apanhar, okaasama. Alguns garotos idiotas o perseguem por fazer ballet. Você saberia disso se tivesse comparecido em ao menos uma das reuniões entre professores e responsáveis. — Afirmei bravamente, em voz alta, enquanto Hiro tentava me fazer ficar quieta, com medo do que viria em seguida para mim, talvez. — E ele não tem péssimos amigos, e eu não ando com gente de péssima influência. São pessoas decentes, que querem o nosso bem e que sempre nos trataram bem, independente de quem nós somos. E Hiro tem notas boas, sim. O fato dele não ter o mesmo dom para exatas que Takeo teve algum dia não o faz menor. Não somos produtos dos seus genes, somos produtos de nossas vivências. Não somos mal agradecidos. Somos perseguidores de nossos próprios sonhos.

Era óbvio que aquele tapa na mesa que okaasama deu foi uma forma de conter a vontade que tinha de me acertar com o gesto. Mas não movi um só centímetro, a encarando de forma inclinada sobre meu lado da mesa, os cabelos platinados caindo pelos meus ombros.

— Como se atreve a me enfrentar? Eu, a sua mãe! Que literalmente fiz das tripas coração para educar você e seu irmão sozinha! — O argumento de sempre veio a tona, o mesmo que me fazia recuar na maioria das vezes.

A reafirmação do quanto ela sofreu para superar o luto e me criar, e posteriormente como engoliu o orgulho e seguiu com a criação de Hiro mesmo depois de Takeo ter sumido quando o garoto completou três anos. Aquele mesmo falatório sobre como tínhamos que fazer de tudo para mantê-la feliz, afinal era a recompensa dela depois de anos de dedicação. Como tínhamos que seguir seus planos pré-prontos, sem olhar para os lados.

— Você disse que não seria mãe de nenhuma garota bissexual, quando assumi meu namoro com Laurel. Então, seguindo sua própria definição, minha mãe você não é mais. — As palavras saíram duras, assim como o tapa que okaasama finalmente plantou em meu rosto.

— Mãe! — Hiro exclamou, em susto, se levantando com uma expressão aflita no rosto.

— Você não se meta ou vai sobrar pra você também! — A mãe esbravejou, antes de retornar o olhar enfurecido em minha direção. — Então eu não sou mais sua mãe? E o que ainda faz aqui? Hein? Hein, desonra minha?

— Se você está me expulsando, eu vou levar meu irmão comigo. E você nunca mais vai ver nenhum de nós dois, não importa o quão arrependida diga que está. — Disse a ela, sem nem pestanejar.

Era meu cheque-mate.

Podia sentir no ar a fúria de Maemi, mas ela não faria mais nada depois dessa cartada. Se ambos estávamos debaixo de seu teto, era por medo de ficar sozinha, a um ponto insano.

— Vai para seu quarto. Eu não quero mais ouvir um pio seu. — A sua voz saiu baixa e letal. Eu venci aquele round.


[...]


Os meus olhos estavam fechados e eu me concentrava na minha respiração, tentando esquecer o ardor fino na minha coxa esquerda. As lágrimas de, por falta de melhor expressão, exaustão começaram a rolar em determinado momento, desaparecendo nos meios dos meus fios de cabelo um tanto ressecados. E veio neste momento o som baixo de alguém batendo na porta.

— Entra. — Respondi, secando os olhos com o pulso, puxando as cobertas até a altura da cintura em movimentos ágeis.

Hiro surgiu então, com um copo do que eu podia apostar que era leite com sucrilhos, uma tentativa sincera de não me deixar com fome. Sentiria falta daquela criança, além de um medo profundo por sua sobrevivência.

— Achei que ia gostar de alguma coisa no estômago no fim do dia. — Meu irmão me disse, fechando a porta atrás de si e se sentando na beira da cama, o olhar atento em mim enquanto me via provar aquela refeição que deveria servir de café da manhã. Mas não seguimos padrões pré-estabelecidos nem mesmo em nossas refeições. — E obrigado... Por se erguer por mim.

— Ela não pode falar daquele jeito de você. — Disse de imediato. Me ajeitei na cama, tocando em sua mão e olhando-o seriamente nos olhos. — Ninguém jamais pode falar com você daquele jeito, okay?

— Vou sentir sua falta quando estiver em New York. — Hiro afirmou, sem olhar em meus olhos e só brincar com o polegar sobre o tecido da blusa de mangas compridas que usava.

— Também vou sentir a sua, trocinho. Todos os dias. — Afirmei, segurando-o então pelo pulso, ficando ambos conectados naquele toque estranho, como se estivéssemos compartilhando nossa energia vital ou algo do tipo. — Por favor, me prometa que você vai se cuidar.

— Eu vou. Prometo. — Ele me disse, balançando a cabeça, mas eu não podia afirmar o quanto que aquilo era sincero.

— Vou fazer Laurel ficar com um olho em você. E me mandar relatórios periódicos. E ser sua guarda-costas entre as aulas. — Prometi a ele, em um tom sério, mas o mais novo apenas rio.

— Não basta ela ser a minha cunhada que aperta as minhas bochechas? — Hiro perguntou a mim, arqueando uma sobrancelha.

— Laurel... — Comecei, soltando o ar pesadamente. Ainda não tinha nem mesmo um dia inteiro daquela decisão e já estava sendo obrigada a falar sobre ela. — Eu e Laurel concluímos que não seríamos felizes com um relacionamento a distância. E então... Rompemos. Amigavelmente.

— Eu sinto muito... — O garoto me disse, aumentando o aperto que estávamos dividindo, me passando seu apoio daquele jeito bagunçado que tínhamos. — Foi por isso que se atrasou? Estavam se despedindo?

— Basicamente. — Confirmei, sem conseguir dizer mais palavras sobre o assunto.

Recaiu sobre nós dois um silêncio longo, interrompido apenas pelo som de minha mastigação, comendo aquele cereal como se minha vida dependesse disso, evitando assim falar qualquer coisa sobre me despedir de minha agora ex-namorada, ou sobre como tinha receio de deixá-lo sozinho com okaasama, ou como não sabia onde aquele bullying iria parar agora que estavam partindo para a agressão física. E isso porque era seu primeiro ano de high school ainda! Talvez algo na forma que eu o olhava entre uma colherada e outra me denunciou, porque Hiro sorriu para mim, balançando a cabeça em negativa.

— Eu vou sobreviver, Akemi. E você também. E um dia iremos dar adeus a essa cidade em definitivo e nunca mais olharemos para trás. — Havia esperança em suas palavras. Muito mais do que havia em meu corpo, depois daquela cena toda do jantar.

— Me promete? Que nos encontraremos em Manhattan? E que seguiremos nossos sonhos do outro lado do país, não importa o que a gente tenha passado pra esse dia chegar? — Perguntei, sentindo meus olhos marejados e aquele medo se somando com a ansiedade e ameaçando me empurrar bem aos poucos para uma crise.

— Não, eu juro. — Ele me disse, olhando em meus olhos e parecendo tão mais velho que eu. — Você vai compor suas músicas para a Broadway, eu vou dançar na Companhia de New York. E ficaremos bem. — Dessa vez suas duas mãos enlaçaram as minhas, e o poder de seu olhar me fez erguer a cabeça em sua direção. — Nós vamos ficar bem, Akemi. Isso tudo também passa. E finalmente vai dar tudo certo.

— Eu acredito em você. — Disse a ele, respirando fundo e me recompondo, focando naquelas palavras e afastando aquela sensação de pânico aos poucos.

— E eu em você. Sempre acreditei. — Ele libertou uma de suas mãos e tocou meu rosto com suavidade. — E pode ficar tranquila. Vou me cuidar. E dar um jeito de cair fora daqui antes mesmo do meu senior year chegar.

— Eu só quero que você fique bem...

— Eu vou. E espero que você também fique. — E então seu olhar escorregou para a coberta sobre mim. E a pequena mancha vermelha que havia se formado exatamente em cima de minha coxa esquerda. — Precisa estar lá quando eu chegar em Manhattan, está bem?

Confirmei com a cabeça, entendendo o recado. Deixei o copo agora vazio em cima da mesinha de cabeceira e passei meus braços ao redor de seu pescoço, em um abraço sufocante.

— Eu juro. Eu estarei lá. Inteira.

— Ótimo. Porque também estarei.

E mesmo que não fizesse totalmente sentido, nós entendiamos o que estávamos prometendo um ao outro. Sobreviver. Resistir. Estávamos morrendo em Los Angeles, mas iríamos viver em New York. Esse era o sonho e nada poderia nos impedir.

12 de Setembro de 2019 às 13:28 2 Denunciar Insira 3
Leia o próximo capítulo Parte 2

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nai  nai
gostei muito!!!!
12 de Setembro de 2019 às 17:40

  • Writer Lay Writer Lay
    aaaaa fico contente, miga, sinto que tu é minha leitora beta dessas fanfics todas. 12 de Setembro de 2019 às 17:41
~

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