S06#02 - ANOTHER EYES Seguir história

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Você realmente confia no que vê? Ou seus olhos estão sendo enganados?


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

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S06#02 - ANOTHER EYES

INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Condado de Savannah – Georgia – 11:18 P.M.

Câmera de aproximação pela sala até Jennifer, que está sentada ao computador, olhos fixos na tela. Apenas o abajur da escrivaninha ligado.

Corta para o sofá. O pai de Jennifer assiste o noticiário de esportes, bebendo uma cerveja. Olhos fixos na TV.

Ao lado dele, a mãe de Jennifer, olhando pra TV, olhos em lágrimas, triste e abatida.

Jennifer prossegue digitando.


Close na tela. É um bate papo.

Jennifer (digita): Por que você diz isso, Al?

Al (digita): "Você deveria saber que o governo faz este tipo de experiência com a mente das pessoas."

Jennifer (digita): Como você pode afirmar isto?

Al (digita): "Sou um hacker. Já trabalhei pra eles."


O pai de Jennifer olha pra esposa, a censurando. Levanta-se e sai da sala. A mulher abaixa a cabeça, deixando as lágrimas caírem.

Close na TV. O comentarista esportivo entrevista um jogador de basebol.


Close na tela do computador.

Jennifer (digita): Mas eles abduzem pessoas...

Al (digitação): "Não mais. Estava muito óbvio implantar chips no cérebro das pessoas com desculpas de abduções extraterrestres. Agora eles utilizam a técnica subliminar. Você sabe que a psicologia ainda é uma grande ciência a favor da manipulação mental."

Jennifer (digita): Quer dizer que eu posso ser uma experiência do governo sem saber...

Al (digita): "Por que não, Jenny? Sabe o que seus olhos veem realmente? Eles veem diferentemente do cérebro. É tão inconsciente que você começa a tomar atitudes estranhas que jamais tomaria em sua vida. Eles induzem você a crer no que não existe."

Jennifer (digita): Por que me diz isso?

Al (digita): "Porque foi um prazer conhecer você, pena que tão tarde. Assim que eu desconectar da rede, vou me suicidar. Sou a primeira experiência deles."


O pai de Jennifer entra na sala com uma arma. Acerta um tiro na nuca da esposa. Jennifer vira-se rapidamente e leva um tiro, caindo ao chão. O pai de Jennifer aponta a arma na cabeça e atira.

Close na TV. Alguns respingos de sangue escorrem pela tela. A imagem sai do ar, cheia de chuviscos.

VINHETA DE ABERTURA: DESTRUIR, CORROMPER E SEPARAR



BLOCO 1:

Auditório Central da Academia do FBI – Quântico – Virgínia - 1:14 A.M.

Scully sai do auditório, espreguiçando-se disfarçadamente pelo corredor. Olha para os dois lados, não vê ninguém. Então se aproxima de uma janela de vidro, olhando para fora. Apoia-se na janela. Movimenta o pé na ponta do sapato, como se estivesse embalando-se mentalmente na canção Eternal Flame, do The Bangles.

Observa as luzes dos jardins. Olha para o céu, distraída. Cantarola baixinho, apaixonada. Então para de cantarolar. Fica ruborizada. Percebe pelo reflexo do vidro o faxineiro que está atrás dela a olhando. Vira-se. Arregala os olhos em surpresa. Krycek parado ali disfarçado de faxineiro.

SCULLY: - Krycek? O que faz aqui? Está louco?

KRYCEK: - (SÉRIO) Não podia esperar. Mulder está lá dentro?

SCULLY: - Sim. Está na mesa dos palestrantes.

KRYCEK: - Estou seguindo Strughold há alguns dias. Sabe o que ele pode ter a ver com a Sociedade de Psicanálise?

SCULLY: - Não faço ideia.

Krycek olha pra todos os lados. Olha pra Scully.

KRYCEK: - Não creio que ele tenha algum distúrbio mental. Cheque isto.

SCULLY: - Não acha que está ficando paranoico?

KRYCEK: - Não, esse é departamento do seu marido. Como está a Scullyzinha?

SCULLY: - Segura... (DESCONFIADA) Sabe que ainda não confio em você.

KRYCEK: - Estigmatize uma pessoa por seus erros no passado, Scully. Mas eu não quero passar o resto da minha vida pagando por isso. Eu já disse que não matei sua irmã. O cara que estava comigo foi quem atirou. Se quiser me culpar de alguma coisa relativa a sua vida, me culpe por ter ido até lá pra matar você. Mas não me culpe pelo que não fiz.

SCULLY: - Tudo isso é raiva? É vingança?

KRYCEK: - ... Talvez nem todas as mudanças na vida de uma pessoa sejam por raiva ou vingança. Existem outros sentimentos mais nobres que podem transformar um homem.

Krycek dá as costas e sai pelo corredor. Scully o acompanha com os olhos.


Sede dos Pistoleiros Solitários – 1:24 A.M.

Byers lê os e-mails, enquanto imprime etiquetas de endereços. Langly, sentado num banco, dobra exemplares do jornal "A Bala Mágica" ao lado de Frohike.

LANGLY: - Deveria contratar um garoto com uma bicicleta.

FROHIKE: - Pra quê? Temos você.

LANGLY: - Engraçadinho.

BYERS: - Tudo em nome da verdade.

Close na pilha de jornais dobrados sobre a mesa. A mesa começa a tremer.

LANGLY: - Por falar em verdade... Onde está o Mulder?

Os jornais caem da mesa. Frohike olha para o chão, indiferente.

Victoria sentada no chão, com a boca e o nariz sujos de papinha verde, no meio dos jornais, balançando o pé da mesa, rindo pra eles.

FROHIKE: - Não sei, mas vou cobrar adicional noturno pelo serviço de babá. Essa criança não dorme!

VICTORIA: - Da da da...

LANGLY: - Sinto que essa menina tem uma veia jornalística.

FROHIKE: - Ou é parente de barata porque adora papel.

LANGLY: - Minha vó dizia que filho de peixe... Peixinho é.

FROHIKE: - O bom sinal disso é que Mulder confia em nós a ponto de deixar a 'bombinha ambulante' sob nossa proteção.

BYERS: - Fico olhando pra ela e me perguntando como o governo tem coragem de maltratar um ser humano tão pequeno.

FROHIKE: - Eu fico me perguntando sobre tanta coisa.

LANGLY: - Tipo?

FROHIKE: - Que ameaça ela realmente representa pra eles? O que ela tem de tão diferente, que habilidades ela possui. Não vi nada ainda do que Mulder me falou.

BYERS: - Mulder já notou algo diferente?

FROHIKE: - Algumas coisas. Mulder me disse que fica de frente pra ela, olhando em seus olhos e percebe que ela fica atenta olhando pra ele como se lesse o que ele pensa. Sem contar a coisa do quebra cabeça que me deixou arrepiado.

LANGLY: - Ela é uma criança legal.

FROHIKE: - Eu sei disso. Mas confesso que me assusto algumas vezes com o que ela pode vir a ser. E fico pensando na reação da Scully quando cair na real, porque até agora ela ainda mente pra si mesma que nada disso é verdade.

Byers olha pra Frohike.

BYERS: - Se analisarmos pelo ângulo real, ninguém sabe nada. Nem Mulder sabe de sua real natureza. O que esperar da filha dele?

LANGLY: - Bom, ela tem força pra sacudir a mesa...

FROHIKE: -Também com essa mesa podre que balança até com a brisa... E sem querer ser chato, estou realmente feliz por eles, adoro a menina, mas eu tenho receio de que não tenha sido uma boa ideia Scully ter uma filha de Mulder. Eles não sabem o que isso representa geneticamente.

BYERS: - O que não deixa de ser uma experiência de Mulder e Scully. No sentido de experiência científica.

LANGLY: - Parem com isso. Olhem pra ela. Acham que ela faria mal a alguma coisa nesse mundo?

FROHIKE: - Não estamos falando em maldade. Estamos falando em reações desconhecidas. Não sabemos o que ela pensa. Ela pode ser um ser humano, mas é um alienígena também. E penso no dia em que ela descobrir que é diferente das outras crianças. Acha que ela vai gostar? Que vai ser aceita pelas outras?

LANGLY: - Pelo que sei de biologia ela é mais humana que nós todos aqui. Se Scully é humana-humana, Mulder humano-alien, ela é mais humana sim.

FROHIKE: - E sabe o quanto de humano Mulder tem?

BYERS: - Estava falando com Scully sobre isso. Se Mulder herdou genes aliens que também estavam em seu pai Bill Mulder, onde entra o Canceroso nisso? Scully tem uma teoria absurda de Mulder ter dois pais biológicos e duas mães, uma biológica, geneticamente alterada com genes aliens, e uma mãe apenas uterina.

FROHIKE: - E quem seria a outra mãe?

BYERS: - Por que não Cassandra Spender?

LANGLY: - Por favor, parem com isso, estão me dando nós na cabeça. É muito pai e mãe pra uma pessoa só. Mulder é que tá certo em enterrar isso tudo e não mais questionar nada. Família pra ele é Victoria e Scully e o resto... Ele nasceu de uma abóbora.

FROHIKE: - Isso explicaria o sentimento de Teena em relação a Mulder, ela nunca foi muito ligada nele...

Langly levanta-se e pega Victoria.

LANGLY: - Ei, Vic, já te mostrei o álbum ao vivo, chamado Loco Live?

VICTORIA: - (SACODE OS BRAÇOS) 'mones!'

FROHIKE: - Não vai ouvir Ramones agora! Preciso de ajuda aqui.

BYERS: - Vic? Se Scully escuta você dando apelidos pra menina, ela atira em você.

LANGLY: - Vocês são chatos, a menina está entediada. Venha, vou te mostrar a minha coleção de bonecos de Star Wars.

Langly sai levando Victoria. Byers o acompanha com os olhos.

BYERS: - Não sabia que ele era do tipo paterno...

FROHIKE: - Cada dia que passa, me surpreendo com todo mundo que conheço. Parece que todo mundo anda meio pirado, com crise de identidade por aqui.

O telefone toca. Frohike liga os gravadores e escutas. Atende.

FROHIKE: - Quem fala?

MULDER (OFF): - (DEBOCHADO) Aqui é o agente Mulder do FBI. Saiam com as mãos pra cima, estão cercados. Sabemos que vocês mantêm uma criança em cativeiro.

Frohike desliga as escutas. Liga o viva-voz.

FROHIKE: - A refém está bem cuidada. Já acabou com o estoque de biscoitos, chás e fraldas.

MULDER (OFF): - Neguem tudo, ou vão sofrer punição da agente Scully. A porcaria da palestra pra calouros já terminou, estou esperando a Scully. Já passamos por aí.

Corte.


Mulder, no corredor da academia, desliga o celular. Scully se aproxima.

SCULLY: - Já foram todos, menos o Skinner. Quero minha casa, meu banho, comida e minha cama.

MULDER: - Victoria já deve estar incomodando demais.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Ela está acordada ainda?

MULDER: - Realmente não deveria ter feito essa pergunta. Como se você não soubesse da resposta.

Scully sorri. Os dois trocam um beijo e saem de mãos dadas.


Residência dos Mulder – 2:01 A.M.

Scully entra pela porta da sala, acendendo as luzes. Mulder entra, segurando Victoria, que dorme recostada nele, fazendo beicinho, com o braço ao redor do pescoço de Mulder.

SCULLY: - Vou preparar o berço e você sobe. (PISCA O OLHO)

MULDER: - (DEBOCHADO) Hum, acho que senti alguma maldade nesse piscar de olho.

O telefone toca. Scully e Mulder trocam um olhar. Mulder entrega Victoria para Scully e atende.

MULDER: - Mulder... Tá, estou indo.

Mulder desliga.

SCULLY: - O que aconteceu?

MULDER: - Temos um Arquivo X.

SCULLY: - Pegue a sacola, coloque mais fraldas, algumas roupinhas, as mamadeiras e não esqueça da raposa ou do urso, senão a bronca tá feita.

MULDER: - Você ajeita isso antes que eu esqueça de algum item emergencial e apanhe da mãe dela. Vou ao bureau. Me espere pronta.

SCULLY: - Vai levar a sério o que Krycek disse sobre...

MULDER: - Digamos que estou atento.

SCULLY: - Pronto! Agora arrumou um alimentador automático de paranoia! Fique longe de Krycek, Mulder. De vocês dois eu não sei quem é mais doido. Acho que ele está se inspirando em você pra ídolo.

MULDER: - Dá um tempo pro Rato, Scully. Já disse pra você, confie no meu instinto.


2:16 A.M.

Close na TV do quarto, ligada em desenhos animados.

Victoria dormindo na cama. Scully olha pra mala sobre a cama. Olha para o relógio. Suspira. Vai até o banheiro.

Victoria se acorda. Olha pra TV. Abre um sorriso.

Scully tira a roupa e entra no box. Liga o chuveiro. Deixa a água cair pelo rosto, levando as mãos pelos cabelos. Vira-se, pegando o xampu. Esfrega os cabelos.

Corta para o quarto. Nenhum movimento. Apenas Victoria assistindo TV dando risadas em tom baixinho.

Corta para o banheiro. Scully enxágua os cabelos. Pega a esponja de banho. Passa ao redor do pescoço. A corrente dela parte-se caindo pelo ralo. Scully olha pra baixo.

SCULLY: - Oh, não! Que droga! Não a minha correntinha!

Scully agacha-se, tentando abrir o ralo.

Som da campainha.

Scully continua tentando abrir o ralo, mas a campainha toca mais uma vez. Scully nervosa, levanta-se. Desliga o chuveiro. Veste o robe e coloca a toalha na cabeça.

Corte.


Scully espia pelo 'olho mágico' da porta. Fisionomia de intriga. Vai até a poltrona e pega a bolsa, retirando a arma. Larga a bolsa aberta na poltrona. Abre a porta, deixando a tranca de segurança. Espia para fora. Não há ninguém na porta.

Scully abre a porta e observa a frente da casa. Nenhum movimento. Um vento frio passa por ela, fazendo com que ela olhe pra seus braços, pelos arrepiados. Scully fecha a porta, intrigada.

SCULLY: - Será que estou ouvindo coisas?


Residência dos Brown - Savannah – Georgia – 4:29 A.M.

Mulder entra na sala da casa, abarrotada de policiais. O Xerife gordinho e quarentão vem até ele. Mulder mostra a credencial. Scully entra atrás dele.

MULDER: - Agentes Mulder e Scully, FBI.

XERIFE: - Xerife Flint. Obrigado por receber nosso chamado.

Mulder aproxima-se do sofá, observando o sangue espalhado pelo encosto. O Xerife faz uma fisionomia de incredulidade, ao perceber que Mulder veste um canguru de bebê e carrega Victoria em suas costas, que dorme profundamente. Mulder vira-se pra ele.

MULDER: - O que...

XERIFE: - (PASMO) Tem um bebê atrás de você.

MULDER: - Acha que é fácil encontrar babá numa hora dessas? O que temos por aqui?

XERIFE: - ... John Brown, dono de uma loja de autopeças, um bom sujeito sem antecedentes criminais... Matou a esposa, a filha adolescente e cometeu suicídio.

MULDER: - E por que nos chamou?

XERIFE: - Seria um caso comum de assassinato seguido por suicídio, se não fosse por isso...

O Xerife aponta para o computador. Mulder e Scully se aproximam, olhando pra tela.

XERIFE: - Até pensei em ignorar essa coisa, também tenho um filho que passa a noite toda dizendo besteira nesse troço e contando vantagem pro mundo todo.

MULDER: - Quero uma cópia dessa conversação.

SCULLY: - Algum problema familiar, dívidas, jogo, adultério...

XERIFE: - Pelo que sabemos não. Até frequentavam a igreja.

MULDER: - (DEBOCHADO) Conheço gente que frequenta a igreja de dia e de noite frequenta inferninhos.

Scully acena negativamente com a cabeça. Veste as luvas. Anda pela sala.

MULDER: - Algum sinal de invasão?

XERIFE: - Não, a casa estava trancada por dentro quando chegamos. Recebemos o chamado do vizinho. Os peritos encontraram vestígios de pólvora nos dedos de John Brown. Foi ele, sem dúvida. Executou a mulher, depois a filha e deu cabo da própria vida.

Mulder olha pra tela da TV suja de sangue. O Xerife olha pras marcas de sangue no chão. Coça a cabeça.

XERIFE: - Mas por que Brown fez isso eu ainda não entendo. Ele não se enquadrava no tipo violento.

MULDER: - (OLHANDO PRA TV/ DEBOCHADO) Talvez estivessem discutindo entre assistir a novela ou o esporte.

O Xerife olha invocado pra Mulder.

XERIFE: - Se precisar, temos uma babá altamente recomendada.

MULDER: - Sem babás. Não confio em babás.

XERIFE: - Não acha que é um pouco de exagero criado pela mídia sensacionalista do 60 Minutos?

MULDER: - Saiba que semana passada investiguei um caso de uma babá que matou quatro crianças espancadas.

XERIFE: - ... (ASSUSTADO) Isso é sério?

MULDER: - Não.

O Xerife olha invocado pra Mulder.

MULDER: - Mas sabe o que se vê por aí de babás que maltratam criancinhas.

XERIFE: - Deveria contratar uma babá latina. São mais amorosas.

Mulder aproxima-se do Xerife.

MULDER: - (COCHICHA) Contratar pra mim ou pra minha filha?

O Xerife segura o riso. Scully se aproxima.

SCULLY: - Gostaria de ver os corpos para fazer a necropsia.

XERIFE: - Temos um legista na cidade.

MULDER: - Prefiro que ela faça. Se o FBI entrou nessa investigação, é jurisdição nossa.

XERIFE: - Tudo bem, acho que o legista não vai se importar... Ou em última instância, vocês podem fazer a necropsia juntos. Vou pedir que o legista vá com você até o necrotério... (VIRA-SE) Bob!!!... Ô Bob!

Do meio dos policiais surge Bob: um sósia perfeito de George Clooney, usando jaleco branco. Mulder olha pra Bob em pânico. Scully abre um sorriso descarado, olhando pra Bob.

XERIFE: - Bob, esta é a agente Scully, é legista do FBI. Ela precisa ver os corpos. Pode acompanhá-la?

BOB: - (OLHANDO ENCANTADO PRA SCULLY) Será um prazer... Agente Scully.

SCULLY: - (SORRINDO BOBA)

Mulder olha irritado pra Scully.

MULDER: - Scully, quem sabe você leva a sua filha com você? Ahn? (FRISANDO BEM) A sua filha!

SCULLY: - (SORRINDO/ OLHANDO PRA BOB) Negativo. Necrotério não é lugar de criança. Arrume um hotel, prepare a mamadeira e tome conta dela. Preciso averiguar um "corpo"...

Scully dá as costas saindo ao lado de Bob. Mulder fica boquiaberto. O Xerife percebe.

XERIFE: - Não sabia que eram casados...

MULDER: - Não somos.

XERIFE: - (DEBOCHADO) Que azar o seu então.

Mulder olha invocado pro Xerife que sai vingado e rindo.


Motel Holden - 7:28 A.M.

Mulder deitado, ainda acordado, com o controle remoto da TV na mão e uma cara de irritação. Victoria dormindo. Mulder assiste a um documentário sobre natureza. Olhos fixos na tela. Parece que o ódio vai aumentando em seu olhar.

Scully entra no quarto. Olha pra cama.

MULDER: - (EMBURRADO) Isso são horas?

SCULLY: - Como assim? Acha que necropsiar corpos é coisa fácil?

MULDER: - Sei bem em que corpo você tava a fim de passar as suas mãos e em que bisturi você andou pegando!

SCULLY: - (INCRÉDULA) O que houve com você?

MULDER: - (ENCIUMADO) Que coisa mais ridícula você se oferecendo pra aquele George Clooney dos pobres! Que por sinal, deve ser também uma bicha enrustida! Uma mãe de família fazendo uma cena dessas... Você não tem senso do ridículo, né, sua velha assanhada e boba? Ponha-se no seu lugar, coisinha sem graça! Feiosa, baixinha, sardenta e chata!

SCULLY: - (SEGURANDO O RISO) Mulder!

Mulder levanta-se da cama e vai pro banheiro, fechando a porta e se trancando. Scully começa a rir baixinho. Mulder abre a porta. Scully fica séria.

MULDER: - (FURIOSO) E eu ouvi isso!

Mulder bate a porta e se tranca. Scully senta-se na cama e começa a rir dele novamente. Tira os sapatos, massageando os pés.

SCULLY: - Esqueci que vivo com duas crianças. Uma nunca vai crescer.


7:56 A.M.

Scully bate na porta do banheiro, corpo curvado pra frente, esfregando as pernas uma na outra, desesperada.

SCULLY: - Mulder, abra essa porta!

MULDER: - Não!

SCULLY: - (SE CONTORCENDO) Abra, por favor! Preciso entrar.

MULDER: - Pra quê?

SCULLY: - (SE CONTORCENDO) Emergência! 'Pipizinho'...

Mulder abre a porta, enrolado numa toalha, cheio de creme de barbear no rosto. Scully entra. Fecha a porta.

Victoria se vira na cama, acordando-se. Dá um suspiro olhando pro teto. Percebe a voz de Mulder e Scully no banheiro. Dirige a atenção pra porta do banheiro num sorriso.

MULDER: - Você é uma oferecida, sabia disso?

SCULLY: - E não era você que dizia 'eu confio no meu taco, não sou ciumento, eu sou o melhor, o mais gostoso'... Então por que tem medo? E se eu sou feia, sardenta, baixinha e sem graça o que você quer comigo?

Victoria solta uma risada, virando-se de bruços e olhando curiosa pra porta do banheiro.

MULDER: - Eu não tenho medo! Medo do quê? De perder você? Pois se você der o fora hoje, amanhã mesmo aparece uma dúzia de mulheres gostosas na minha frente, sósias da Jennifer Lopez, pedindo 'pelo amor de Deus fique comigo'.

SCULLY: - (GARGALHANDO ALTO) Que egocêntrico você é, Mulder!

Victoria boceja. Dá um sorriso.

SCULLY: - Tá bravinho ainda? Hum?

MULDER: - Não vem! Para!

SCULLY: - Hum... Meu Estranho... Não quer fazer coisinhas estranhas comigo naquele chuveiro? Ahn? Coisas que George Clooney não faria? Que tão um 'Plantão Médico' debaixo daquele chuveiro? Uhn? Eu examino você todinho.

Victoria vira-se na cama dando uma risada e pondo as mãozinhas no rosto.

MULDER: - Não.

SCULLY: - Hum... Eu amo você... Só você. Você inteirinho, meu Mulder ciumento.

MULDER: - Eu não sou ciumento!

SCULLY: - Tá bom... Hum? Que tal uns beijinhos? Ahn? Assim...

MULDER: - ... (RINDO) Para!

Eles ficam em silêncio. Victoria sorri. Desvia atenção para a TV: desenhos animados. Arregala os olhinhos. Começa a chorar. Scully sai do banheiro.

SCULLY: - O que foi, docinho?

Scully a pega no colo, a embalando.

MULDER: - (DEBOCHADO) Eu disse que ela detestava Popeye. Nem ela acredita na força do espinafre. Menos ainda que Olívia Palito é virgem.

SCULLY: - Mulder!


BLOCO 2:

8:29 A.M.

Victoria brinca sentada na cama. Mulder caminha de um lado pra outro, falando ao celular. Scully pega a bolsa e senta-se na cama.

SCULLY: - Que bagunça! Por que bolsa de mulher é toda bagunçada?

Scully despeja o conteúdo da bolsa sobre a cama. Mulder a observa, fazendo cara de pânico.

MULDER: - Sim, Frohike. Tá, eu vou desligar. Preciso encontrar a Scully que desapareceu no meio de tantos objetos que ela tirou de sua bolsa.

Scully olha pra ele debochada. Mulder desliga. Senta-se na cama, abrindo o laptop.

SCULLY: - Tô com fome.

MULDER: - Dois. Quero o meu com bastante maionese.

SCULLY: - E quem disse que eu vou buscar alguma coisa?

MULDER: - Melhor não. Depois tomamos aquele café da manhã com ovos e bacon.

SCULLY: - Ugh! Tô fora disso. Preciso entrar em forma.

MULDER: - Frohike disse que Alexander Rugbin, mais conhecido como Al, trabalhou para uma grande companhia mundial de desenvolvimento de softwares, que também desenvolvia softwares em segredo, para o governo americano. Ficou tão rico da noite pro dia que enlouqueceu. Gastou tudo em drogas e festinhas, com direito a jogar piano na piscina.

SCULLY: - Hum... Parente do Elton John?

MULDER: - Demitido da empresa, começou a fraudar contas bancárias, desviando dinheiro pra uma conta própria. Conseguiu burlar sistemas altamente sofisticados e acessar informações de órgãos governamentais como o FBI e a CIA. Em 1999 foi preso pelo FBI por contaminar com um vírus que ele mesmo criou, o computador central da agência de inteligência.

Scully amassa bilhetes, caixinhas de goma de mascar vazia, organiza a maquiagem.

MULDER: - (LENDO NO LAPTOP) Hum... Aqui está o sujeito nos arquivos... Segundo o arquivo central, foi solto porque pegou uma sentença de trabalhos públicos.

Scully encontra um chocolate. Arregala os olhos. Abre-o. Dá um pedacinho pra Victoria. Victoria se baba toda, num sorriso de orelha a orelha.

MULDER: - Trabalhos públicos... Besteira! Frohike me disse que o governo negociou a pena de Al, dando liberdade pra ele, uma gorda conta bancária, um bom carro e uma casa em troca do seu trabalho. Al interceptava e-mails e mensagens de supostos terroristas. Há mais ou menos um ano, ninguém mais teve notícia de Al no meio hacker. Até que ele voltou dizendo que ele não era mais ele. Foi quando... Isso é chocolate?

SCULLY: - Humhum...

Mulder arranca o chocolate da mão dela, dando uma dentada enorme.

SCULLY: - Mulder!

Scully pega o chocolate de volta.

MULDER: - (BOCA CHEIA) Ninguém entendeu nada. E agora, com ele morto, vamos entender menos ainda... Que gostoso isso. Tem amêndoas?

Mulder arrebata novamente o chocolate dando outra dentada, quase não sobrando mais nada.

SCULLY: - Mulder! Você comeu todo o meu chocolate, seu glutão!

MULDER: - (BOCA CHEIA) Comi nada! Ainda tem aí.

SCULLY: - (BEIÇO) Tem? Tem é um pedacinho que nem enche a barriga. Seu olhudo!

VICTORIA: - (BEIÇO) Ox! Udo!

Mulder levanta-se. Pega o paletó.

SCULLY: - Aonde vai?

MULDER: - Comprar chocolate pras minhas mulheres, pra elas não ficarem de beiço comigo. Me dá a embalagem, quero ver a marca.

Scully entrega a embalagem pra Mulder.

MULDER: - Italiano? Onde vou achar chocolate italiano agora?

SCULLY: - Viu só? Comeu todo o meu chocolate italiano, agora vai me dar um chocolate nacional. Eu vou te matar.

Mulder sai do quarto rindo. Scully continua ajeitando a bolsa. Então desvia a atenção pra moeda de ouro no meio de suas coisas. Pega-a, intrigada, olhando-a.

SCULLY: - Que é isso? Quem colocou isso aqui? Ouro é que não é!

Victoria olha pra moeda. Olha pra Scully, estendendo a mãozinha.

VICTORIA: - (FRANZINDO O CENHO PRA CHORAR) Mama!

O celular de Mulder toca. Scully dá um sobressalto. Coloca a moeda dentro da bolsa. Atende.

SCULLY: - Alô?

XERIFE (OFF): - Desculpe, não é o celular do agente Mulder?

SCULLY: - Sim, ele deu uma saidinha. É a parceira dele, agente Scully.

XERIFE (OFF): - Agente Scully, é o xerife Flint. Foi bom encontrar um de vocês.

Victoria começa a chorar. Scully olha pra ela.

SCULLY: - Filha, para! Papai já vai trazer o chocolate! ... Desculpe Xerife.

XERIFE (OFF): - Aconteceu outro crime semelhante, agente Scully. Mas não tem nenhum bate-papo de internet nisso.


Residência dos Steele – 9:11 A.M.

Mulder estaciona o carro em frente à casa. Victoria em lágrimas. Mulder vira-se pra trás.

MULDER: - O que há com você, Pinguinho? Puxa, colabora um pouquinho, estamos trabalhando.

Mulder desce do carro. Abre a porta traseira e pega Victoria. Seca as lágrimas dela.

MULDER: - Papai promete que vai te dar toda a atenção, tá bom? Mas agora não dá. Depois a gente brinca de cavalinho.

Victoria olha pra ele num desespero. Suspira. Se abraça ao pescoço de Mulder. Scully desce do carro. Victoria fica atenta à bolsa dela. Eles se aproximam da casa.

VICTORIA: - (RESMUNGA) Iço, Ox. Mama! Ô iço!

MULDER: - O que é 'iço'? Agora ela deu pra falar essa palavra. Eu ainda vou ter que descobrir o que é.

SCULLY: - Estou preocupada com ela, Mulder. Vou levá-la ao pediatra assim que terminar esse caso. Ela tá entendendo coisas demais e falando muito cedo.

MULDER: - Esqueça o pediatra, ela é minha filha, normal que seja curiosa e tagarela desde pequena.

Scully puxa a credencial e mostra ao policial que vigia a entrada do portão. O policial acena com a cabeça afirmando. Os dois entram na casa.

Mulder para na porta, recuando, segurando a cabeça de Victoria pra que ela não veja. Afasta-se pro jardim, com nojo. Scully arregala os olhos parada na porta, em choque. O xerife vem até ela.

XERIFE: - Agente Scully... Quer que Bob fique com a menina?

SCULLY: - Eu... (NERVOSA) Bom, se for o Bob... Eu não confio minha filha nas mãos de estranhos...

XERIFE: - Bob!

Bob se aproxima.

XERIFE: - Pode cuidar do bebê dos agentes por alguns minutinhos?

Bob se aproxima de Mulder.

BOB: - Deixe-a comigo, agente Mulder.

MULDER: - (IRRITADO) Não é pediatra, não é mesmo, ô 'George Clone'?

Mulder olha invocado pra Bob. Victoria abre um sorriso pra Bob. Mulder olha pra Victoria.

MULDER: - Até tu, Brutus? (IRRITADO) Olha aqui, você pode ser precoce em tudo, mas saiba desde agora que enquanto estiver debaixo do meu teto, não quero precocidade nessas coisas.

Mulder entrega Victoria pra Bob. Entra na sala, virando o rosto.

MULDER: - (NOJO) Quem foi o animal que fez isso?

Geral da sala. Duas crianças mortas e estraçalhadas pelo tapete. Os policiais recolhem os pedaços colocando em sacos plásticos.

XERIFE: - Os pais estão em choque. A mãe está no hospital sob sedativos fortes. Parece que foram a uma festa e... (OLHA PRA MULDER) A babá fez o serviço. Já temos um mandado de prisão.

Scully corre pra fora. Pega Victoria dos braços de Bob e se abraça na filha, afastando-se da casa. Afaga os cabelos de Victoria, segurando as lágrimas. Mulder e o Xerife saem da casa, se aproximando da viatura.

XERIFE: - Os homens estão espalhados pela cidade e trancamos as rodovias de acesso e saída. Ela não vai escapar.

MULDER: - Quer dar uma busca?

Mulder olha pra Scully e percebe o estado dela.

RADIO OFF: - Xerife Flint, central chamando! Atenção, xerife Flint!

O Xerife pega o rádio.

XERIFE: - Flint na escuta.

RADIO OFF: - Unidade 11 encontrou a suspeita. Solicita reforços imediatamente. Rua Summerville, 234, fundos.

XERIFE: - Entendido, vamos pra lá.

Mulder aproxima-se de Scully. Entrega a chave do carro pra ela.

MULDER: - Leve o carro, vá pro hotel, fique brincando com Pinguinho, tá bem? Eu vou com o xerife.

SCULLY: - (CHORANDO) Tá.

Mulder a beija. Beija Victoria. Entra na viatura. O Xerife olha pra ele.

MULDER: - Até mesmo um policial tem pontos fracos. Afinal somos seres humanos. O da minha parceira são crianças. Ela fica em estado nervoso. Melhor ela ficar fora disso. Até mesmo pra investigação.

XERIFE: - Não a culpo por isso, cada vez que fecho os olhos, vejo aquela cena na minha frente. Nunca tinha visto algo assim em toda minha carreira de xerife neste condado. Estou começando a acreditar naquele papo maluco do computador dos Brown.

MULDER: - Vamos pegar essa mulher e interrogá-la. E depois, xerife, quero verificar se há algum campo militar ou prédio do governo envolvido com pesquisas por aqui.

XERIFE: - Tem um centro de pesquisas de doenças mentais mantido pelo governo. Eu sei que trata gente de todo o país. Dizem que é um dos mais bem conceituados hospitais de demência.

Mulder olha pra ele. Pega o celular. Aperta uma tecla.

MULDER: - ... Scully, o xerife vai passar um endereço pra você. Dê uma checada enquanto eu resolvo o problema por aqui. Pode ser que aquele assunto do Rato tenha algo a ver com este caso.


Centro de Estudos do Comportamento Humano – 11:04 A.M.

Scully sentada na recepção, com Victoria em seu colo, que analisa seriamente aquele brinquedo estranho chamado 'chaves do carro'. Victoria se irrita e balança as chaves. Ao ouvir o barulho olha pra Scully num sorriso de quem adorou o tal brinquedo estranho.

O médico de meia idade e parcialmente calvo aproxima-se de Scully.

ZERNICKE: - Agente Scully?

Scully se levanta. Victoria atenta para o médico. Olha-o com seriedade.

ZERNICKE: - Sou o Dr. Alfred Zernicke. O diretor de pesquisas do Centro. Em que posso ajudá-la?

SCULLY: - Gostaria de obter algumas informações sobre os estudos que vocês realizam aqui. Que tipo de estudos são esses?

ZERNICKE: - Por acaso o FBI agora se interessa por tratamentos mentais? Ou estamos sob algum tipo de vigilância que ainda não sabemos?

SCULLY: - Não. Na verdade ocorreram dois casos de assassinatos na cidade e... Queremos saber se os assassinos não foram pacientes deste Centro.

ZERNICKE: - Acha que as pessoas vem até aqui para ficarem loucas?

SCULLY: - Eu serei direta, Dr. Zernicke. Se não me contar o que acontece aqui dentro, eu arrumo rapidinho alguma acusação do tipo 'negligência médica' e consigo um mandado. Aposto que odiaria ver dezenas de agentes do FBI revirando suas gavetas.

Zernicke sorri.

ZERNICKE: - Me acompanhe, agente Scully. Não temos nada a esconder.

O médico estende a mão para o corredor, dando passagem pra Scully.

SCULLY: - O senhor primeiro. Já que conhece bem o caminho.

Ele sorri sem vontade de sorrir. Victoria o analisa. Eles seguem pelo corredor.

ZERNICKE: - É sua filha?

SCULLY: - Sim.

ZERNICKE: - O FBI deixa crianças se arriscarem em investigações?

SCULLY: - Ela é minha filha, o problema é meu.

Zernicke para em frente ao elevador. Aperta o botão. Olha pra Victoria.

ZERNICKE: - Que gracinha de criança.

Victoria cerra o cenho e se abraça no pescoço de Scully.


Motel Holden – 7:08 P.M.

Scully dá papinha na boca de Victoria, sentada na cama. Mulder entra no quarto. Tira do bolso um monte de chocolates e joga sobre a cama. Victoria abre um sorriso, levando os braços em direção aos chocolates.

SCULLY: - Não. Agora não!

VICTORIA: - Dah!

SCULLY: - Mulder, por que foi mostrar isso?

Mulder recolhe os chocolates e coloca sobre a cômoda. Victoria faz beiço. Scully leva a colher até a boca de Victoria que vira o rosto. Mulder sorri. Senta-se na cama.

MULDER: - Dá pra mim, mamãe. Ela é boba! Isso parece tão gostoso... Nham nham nham...

Scully dá uma colher de papinha pra Mulder. Mulder come, erguendo as sobrancelhas.

MULDER: - Hum... Que coisa mais gostosa isso... Papinha de legumes!

VICTORIA: - Dah!

Scully segura o riso e coloca uma colher de papinha na boca de Victoria que come se lambuzando. Mulder vira o rosto, limpando a boca com cara de nojo.

MULDER: - Eca! Não a culpo mesmo por não gostar disso.

SCULLY: - Cala a boca, Mulder, ela precisa comer coisas saudáveis! Prenderam a babá?

MULDER: - Quando chegamos descobrimos que ela estava com uma criança de refém. Apontava uma arma na cabeça do menino e ameaçava matá-lo. Tentamos negociar, mas ela ia mesmo matar a criança. Começou a atirar nos policiais, um homem saiu ferido e o xerife acabou acertando uma bala no peito dela. Saldo da coisa toda: Nenhuma resposta. Mãos vazias. Nenhuma pista desse tal Al que confirme se ele realmente está morto, nada que justifique o senhor Brown de ter matado a família e a babá também não teve tempo de confessar nada. Parece que todo mundo anda meio maluco. Tudo que sabemos é que se chamava Karen Kempler, tinha 24 anos e veio de Boston. E você, teve mais sucesso?

SCULLY: - Que sujeito arrogante e estúpido o tal diretor do Centro, chamado Zernicke. Nem Victoria que ri pra todo mundo conseguiu rir pra ele.

Mulder olha pra Victoria, intrigado.

MULDER: - Ela não riu?

SCULLY: - Não. Também não a culpo por isso.

MULDER: - (OLHANDO PRA VICTORIA) Aprendi a não confiar em pessoas pras quais minha filha não sorri.

SCULLY: - Legalmente eles desenvolvem pesquisas no âmbito da psicanálise. Mantém grupos de diversos níveis, desde viciados em drogas até portadores de Síndrome de Down.

MULDER: - Que tipo de pesquisas?

SCULLY: - De tratamentos alternativos. (COLOCA PAPINHA NA BOCA DE VICTORIA) Remédios com ervas medicinais, fotografia Kirlian, terapia energética, regressão a vidas passadas...

MULDER: - Acreditou nisso?

SCULLY: - Não. Certamente não disse que era médica, deixei ele tentar me enrolar. Acho que agora quem está com vontade de invadir uma propriedade do governo durante a madrugada sou eu.

MULDER: - Só temos um pequeno probleminha...

Os dois olham pra Victoria. Victoria, rosto lambuzado, sorri olhando pra eles.

SCULLY: - Então eu fico e você vai.

MULDER: - Se quer ir, eu fico com ela.

SCULLY: - Não, vá você. Invadir locais federais é a sua especialidade.

MULDER: - Tem certeza?

SCULLY: - (SORRI) Tenho.

Mulder beija Victoria. Limpa os lábios.

MULDER: - Caramba! Mas que menina mais melecada!

Victoria abre um sorriso, pulando na cama.

MULDER: - Eu vou tomar um banho... Será que tem gente a fim de brincar de espuma naquela banheira?

Victoria estende os braços, gritando. Scully sorri. Mulder a pega nos braços.


7:51 P.M.

Mulder, cabelos molhados, sai do banheiro, enrolado numa toalha, segurando Victoria que está dormindo. Scully, deitada de sutiã e calcinha, lendo o jornal. Mulder coloca Victoria na cama.

MULDER: - Como se veste um bebê dormindo?

SCULLY: - (SORRI) Eu faço isso.

Scully pula da cama. Pega a sacola. Veste as fraldas e um pijaminha em Victoria. Mulder a observa, sentado na cama.

MULDER: - Já disse que a maternidade lhe cai tão bem?

SCULLY: - (SORRI) ...

MULDER: - Há um brilho que não dá pra distinguir em seu olhar cada vez que vocês estão juntas. E no olhar dela também. Parece que cada vez que ela se aconchega em você, cada vez que olha pra você, grita pelos olhos 'mamãe eu te amo'.

SCULLY: - (SORRI BOBA) Será que ela me diz isso mesmo?

MULDER: - Claro que diz. Eu até consigo escutar. Quando ela suspira de noite, deitada ao seu lado, agarrada em você. Algumas vezes me acordo e fico observando vocês duas dormindo juntinhas. Simbiose completa entre mãe e filha.

Scully sorri. Pega Victoria e a ajeita no carrinho, que está virado pra janela. Cobre-a. Beija-lhe a testa.

SCULLY: - Bons sonhos, meu docinho.

Mulder sorri. Scully deita-se na cama. Cobre-se com o lençol.

SCULLY: - Ela estava precisando disso.

MULDER: - Dormiu no meio do banho. Foi abrindo a boca, se encostando em mim e quando percebi, estava dormindo.

SCULLY: - Puxou a quem?

Mulder sorri. Deita-se, cobrindo-se com o lençol.

SCULLY: - Mulder! De toalha molhada na cama?

Mulder puxa a toalha por baixo do lençol e joga no chão. Leva a mão até o abajur, apagando a luz num sorriso safado.

O quarto fica no escuro.

SCULLY: - (RINDO) Mulder!

MULDER: - Ah, eu tô sofrendo...

SCULLY: - Vai sofrer em outro lugar, eu preciso fechar meus olhinhos.

MULDER: - (DEBOCHADO) Mas fecha os olhinhos. Qual é o problema?

SCULLY: - Como vou dormir com você se esfregando em mim?

MULDER: - Hum... (BARULHO DE BEIJOS) Passar minhas mãos pelo teu corpo, me esfregar todinho em você... (BEIJOS) Minha ruiva gostosa e linda... Vou adorar você inteirinha...

SCULLY: - Mulder, para!

MULDER: - (BEIJOS) Desde o pé até os cabelos...

SCULLY: - Mulder! (RINDO) Sai daí, Mulder! Atalhos não valem!

MULDER: - Ah eu te amo, não me proíba de desejar você feito um doido.

SCULLY: - Não! Só se me disser alguma coisa bonita.

Mulder acende o abajur. Scully de costas pra ele, Mulder quase por cima dela. Olha em seus olhos.

MULDER: - Da poetisa portuguesa Florbela Espanca, poema intitulado Fanatismo.

SCULLY: - Hum...

Mulder sorri. Beija-lhe o pescoço, enquanto sussurra.

MULDER: - Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida. Meus olhos andam cegos de te ver. Não és sequer a razão do meu viver, pois que tu és já toda a minha vida.

SCULLY: - (SORRI/ OLHANDO PRA ELE)

Mulder olha pra ela, levando a mão por seus cabelos, distribuindo olhares pelo rosto dela.

MULDER: - Não vejo nada assim enlouquecida. Passo no mundo, meu amor, a ler no misterioso livro do teu ser, a mesma história tantas vezes lida.

Scully fecha os olhos. Mulder a beija. Os dois olham-se nos olhos.

MULDER: - "Tudo no mundo é frágil, tudo passa..." Quando me dizem isto, toda a graça duma boca divina fala em mim. De olhos postos em ti, digo de rastros: "Ah! Podem voar mundos, morrer astros, que tu és como Deus: Princípio e fim!..."

Scully sorri olhando pra ele. Estende a mão e desliga o abajur. O quarto fica na penumbra.

SCULLY: - (SORRI) Mulder, agora você merece...

MULDER: - Não entendo como você pode gostar de um cara como eu, Scully. Nunca dou a atenção que você merece, nem vivo bajulando você o dia todo...

SCULLY: - É exatamente por isso que eu amo você. Por não ser grudento, feito chiclete.

MULDER: - (SORRI) Confessa. Sou um cara difícil de amar.

SCULLY: - Confesso, Mulder. Você é difícil de amar. Dá muito trabalho amar você.

MULDER: - ...

SCULLY: - Porque você é muito grande, eu tenho o maior trabalho pra conseguir beijar você inteirinho.

Mulder dá uma risada. Barulho na cama.

MULDER: - Nossa! Isso é agressão física. Sai, sai de cima de mim, sua baixinha tarada.

SCULLY: - Não. Não saio não!

Barulho na cama.

MULDER: - Sim. Vou te poupar trabalho. Hoje eu quero adorar você inteirinha. Ficar de rastros nessa cama.

SCULLY: - (RINDO) Não!

MULDER: - Sim... A começar por esse pezinho...

SCULLY: - Hum... Isso é gostoso...

MULDER: - ...

SCULLY: - Ohm, Mulder, não me deixa arrepiada.

MULDER: - Esse joelhinho...

SCULLY: - (RINDO)

MULDER: - Eu já disse que você tem coxas suculentas?

SCULLY: - (RINDO) Mulder...

MULDER: - Adoro essas pernas... Eu ficaria horas deslizando minha boca e minhas mãos por elas...

SCULLY: - Oh meu Deus! Mulder, para! Eu não posso ficar muito excitada que eu faço barulho! Você sabe que eu não me contenho...

MULDER: - Juro que ainda vou transformar aquele sótão num templo pra adorar você.... Que tal uma cama redonda?

SCULLY: - Espelhos no teto?

MULDER: - (RINDO) Colchão que vibra?

SCULLY: - Não precisamos disso. Nós dois já vibramos demais.

MULDER: - Yhaaaaa! Scully, para. Ou não vou conseguir terminar meu ritual de adoração. Vou pular as etapas!

SCULLY: - Sabe... Até que não é uma má ideia. Mas deveríamos... Hum, Mulder... Tomar outras providências antes, como... hummmm... Colocar paredes a prova de som. Pelo menos quando chegassem visitas, não nos ouviriam lá de cima... Ai, Mulder, não morde!

MULDER: - ...

SCULLY: - Embora também lá embaixo pouco se escuta algo vindo do sótão... Hum... Podíamos reformar aquele banheiro lá em cima... A moça da imobiliária nos disse que era o escritório do antigo dono da casa...

MULDER: -(RINDO) E nós vamos transformar o sótão num quarto de motel?

SCULLY: - Colchão de molas... Até tenho uma amiga que trabalha numa loja de colchões, ela pode me dizer qual o melhor...

MULDER: - Gostou da ideia...

SCULLY: - Pra dizer a verdade, gostei... Ai, Mulder!

MULDER: - Desculpe... Acho que tem alguma coisa vazando aqui em cima...

SCULLY: - (RINDO) Não desperdice o jantar da sua filha!

MULDER: - (RINDO) Vou buscar uns biscoitinhos... Até que isso é bom.

SCULLY: - (RINDO) Sai!... (MANHOSA) Mulder, você tá me deixando doida!

MULDER: - ...

SCULLY: - Mulder, não tortura, eu não aguento mais...

MULDER: - Só mais um pouquinho, me deixa finalizar o meu ritual de adoração...

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - Quero devorar sua boca inteirinha.

SCULLY: - Hum...

MULDER: - ...

SCULLY: - ...

MULDER: - ...

SCULLY: - ... Nossa! Você não devorou minha boca. Você quis entrar pra dentro dela!

MULDER: - Continua falando do sótão.

SCULLY: - Lençóis de cetim... Podíamos colocar um divã num canto, ahn? Adoro diversificar... Ai! Mulder, que golpe mais baixo! Me pegar distraída...

Barulho na cama.

SCULLY: - (OFEGANTE) Ai minha nossa!Ai minha nossa!

MULDER: - (RINDO) ...

SCULLY: - (OFEGANTE) Ohh, Mulder! Acho que vou quebrar as gradinhas da cama... Hum...

MULDER: - (OFEGANTE) Não faz... barulho.

SCULLY: - Fácil dizer... Hum... Não é você... Ohm, Mulder, assim... Ai, assim!

MULDER: - (OFEGANTE) Para... Oh, céus, você me deixa doido! Para que eu não vou me segurar...

SCULLY: - (OFEGANTE) Não segura. Depois eu exijo repetição.

MULDER: - (OFEGANTE) Que maldade comigo... Você me tortura, me enlouquece... Eu podia morrer agora, aqui, dentro de você...

SCULLY: - (OFEGANTE) Não. Deixa pra morrer depois. Fica bem vivo agora... ai... ohh...

MULDER: - Ai minhas costas!

SCULLY: - ...

MULDER: - (OFEGANTE) Uh!

SCULLY: - (RINDO) O que foi? Machuquei você com minhas unhas?

MULDER: - Não, você tá é me deixando mais doido! Você sempre reclama que é demais e ainda fica me puxando mais ainda? Não chega?

SCULLY: - (RINDO) ... Não. Acho que vou girar suas orelhinhas como se faz com marcianos...

MULDER: - Que mulher gulosa... Eu não sei se sou marciano... Pelo que saiba sou é lunático... (OFEGANTE) Ai, Scully! Você tá arranhando meu traseiro!

SCULLY: - (OFEGANTE) Hum... Assim... Ohhh yes! Yes! Yessssssss!!!!!!!!!!

MULDER: - (OFEGANTE)

SCULLY: - (OFEGANTE) Vai! Vai! Vai!

MULDER: - (DEBOCHADO/ OFEGANTE) Pra onde?

SCULLY: - (RINDO) Vai!

MULDER: - (DEBOCHADO/ OFEGANTE) Tô indo...

SCULLY: - Ohm, minha nossa...

MULDER: - ... (OFEGANTE) Ohhhhh, yesssss...

SCULLY: - Vai! Vai!

MULDER: - (OFEGANTE) Ohhh, Scully...

SCULLY: - (OFEGANTE) Vai! Não para!

MULDER: - (OFEGANTE) De novo?

SCULLY: - Ohh...

MULDER: - (OFEGANTE)

SCULLY: - (ENLOUQUECIDA) Vai!

MULDER: - (OFEGANTE/ PÂNICO) Quer me matar?

SCULLY: - (ENLOUQUECIDA) Vai, eu sei que você consegue...

MULDER: - (OFEGANTE)

SCULLY: - (ENLOUQUECIDA) Isso, assim, assim... Ohm Mulder!

MULDER: - (OFEGANTE) Oh yes! Céus! Que loucura!

SCULLY: - (ENLOUQUECIDA) Vai!

MULDER: - (OFEGANTE) Não dá, não consigo!

SCULLY: - (ENLOUQUECIDA) Consegue sim! Eu sei que consegue! Vai, vai, vai!

MULDER: - (OFEGANTE) Vou ter um ataque cardíaco!

SCULLY: - (ENLOUQUECIDA) Sou médica. Vai, vai, vai! Ohmmmmmmmm...

MULDER: - (OFEGANTE) Acho... que... morri... Não sinto... mais... o meu corpo...

SCULLY: - (OFEGANTE) Eu disse... que você... conseguiria...

MULDER: - (OFEGANTE) Como sabia... se nem eu... sabia?

SCULLY: - (DEBOCHADA) Porque dizem que os alienígenas são mais quentes que os terráqueos.

MULDER: - (OFEGANTE) Tem provas concretas disso?

SCULLY: - (RINDO) Agora tenho... Uhu!

MULDER: - (RINDO) ... Scully... Você não existe.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Hum, Mulder, meu marciano favorito... Agora eu vou retribuir com Clarice Lispector: Fico com medo. Mas o coração bate. O amor inexplicável faz o coração bater mais depressa. A garantia única é que eu nasci.

MULDER: - ...

SCULLY: - Tu és uma forma de ser eu, e eu uma forma de te ser: Eis os limites de minhas possibilidades.

MULDER: - Se não me der um beijo agora, eu juro que morro de tristeza.

Silêncio de segundos.

MULDER: - ... (OFEGANTE) Você acabou comigo. Morreu o homem.

Barulho na cama.

SCULLY: - Morreu nada! Vou ressuscitar de novo!

MULDER: - (PÂNICO) Não, Scully... Nãooo! Sai daí, sua ninfomaníaca!

VICTORIA: - Mama...

SCULLY: - Ai, você acordou a menina!

MULDER: - Ufa! Salvo pelo gongo!


8:57 P.M.

Victoria dormindo no carrinho. Mulder e Scully na cama, seminus, cobertos pelo lençol. Mulder abraçado em Scully, que está de costas pra ele, em seus braços. Mulder a beija no ombro. Olha pro pescoço dela.

MULDER: - Tirou sua corrente?

SCULLY: - (CHATEADA) Não me lembre disso. Ela caiu no ralo do chuveiro lá de casa.

MULDER: - Depois eu tento encontrá-la... Scully, tem uma coisa me intrigando.

SCULLY: - O que é?

MULDER: - Lembra-se da conversa de Al com Jennifer Brown. Supondo que Al estivesse falando a sério... Será que estão novamente fazendo experiências com propaganda subliminar?

Scully vira-se pra ele.

SCULLY: - Isso justificaria porquê essas pessoas estão agindo dessa maneira. Induzidas por alguma coisa que não podem ver.

MULDER: - Justificaria a informação de Krycek sobre Strughold estar trabalhando com psicólogos...

Mulder sai da cama, está só de cuecas. Veste as calças.

SCULLY: - Aonde vai?

MULDER: - Verificar os postes.

SCULLY: - Eles não colocariam receptores novamente, Mulder. (EMBURRADA) E não me diga que terei de ficar gravando programas e assistir pilhas de fitas!

Mulder sai do quarto, só de calças. Scully ajeita-se na cama e fecha os olhos.


9:18 P.M.

Mulder entra no quarto, fechando a porta. Scully se acorda.

MULDER: - Nada.

SCULLY: - Eu disse.

MULDER: - Mas há outras formas de mensagens subliminares...Subliminar é um estímulo produzido abaixo do limiar da consciência, e que produz efeitos na atividade psíquica ou mental. As imagens são captadas pelos olhos, que fazem mais de 100 mil fixações conscientes por dia. Numa fração de segundo esta imagem é invertida pelo nervo óptico e enviada ao hipotálamo para ser processada, sendo que o hipotálamo é o controlador de atividades importantes do organismo, como o sono e a temperatura do corpo.

Mulder senta-se na cama. Scully senta-se também.

MULDER: - O que sabemos é que a primeira experiência com mensagem subliminar foi em 1956, num cinema. E foi uma propaganda subliminar. Foi instalado um segundo projetor sobre o projetor do filme, que tinha capacidade para projetar imagens com a velocidade de 1/3.000 de segundos, totalmente imperceptível em consciência, aos olhos humanos. Este aparelho projetou 'beba Coca Cola e coma pipocas' e nunca se viu tanta gente sair do cinema querendo Coca-Cola e comendo tanta pipoca.

SCULLY: - Isso seria propaganda subliminar que é proibido por lei hoje.

MULDER: - Pode ser proibido, mas ainda é feito. Em filmes, em embalagens de cigarros, chocolates, outdoors e até cenas eróticas colocadas dentro de filmes e desenhos infantis. Um campo farto para as empresas e para o governo. Imagine você poder dominar as pessoas e controlar seu comportamento? Induzi-las a consumir o que você quer, fazer nossas crianças despertarem sua sexualidade precocemente? Nosso cérebro reage a imagens projetadas a uma velocidade de exposição de até 1/3000 de segundo. Não dá nem tempo de seus olhos perceberem. Mas fica tudo ali, no seu inconsciente.

SCULLY: -Com que intuito, Mulder? Controlar mentes?

MULDER: - Imagine você bombardeado por essa coisa invisível todos os dias? Eu poderia construir assassinos psicopatas e toda a sorte de transtornos psicológicos a cidadãos comuns e de bem.

SCULLY: - E poderia fazer um homem honesto matar sua família. E uma babá matar crianças.

MULDER: - Faria isso numa cidadezinha como Savannah e construiria um Centro de Estudos voltado para estudar os efeitos que a experiência estaria causando. Sem chamar atenção alguma.

SCULLY: - Mas Mulder, tem uma coisa nisso que não encaixa. Supondo que Al não estava mentindo quando disse que foi a primeira experiência, ele não é tão velho pra ter estado em 1956 num cinema comendo pipoca e bebendo Coca-Cola feito um doido.

MULDER: - Mas ele poderia estar envolvido com uma experiência nova no campo subliminar. O que eles queriam com um hacker de computação?

SCULLY: - (ASSUSTADA) Com computadores? Mensagens subliminares colocadas em sites, banners ou programas? Em bate papos? Símbolos e mensagens ocultas em documentos? Até mesmo em estórias de diversão? Mulder...

MULDER: - Já imaginou isso? Você tem noção do que o governo é capaz de fazer com uma rede mundial de computadores? Com televisões? Cinemas? Somos bombardeados por todos os lados com mensagens ocultas!

SCULLY: - Mulder, vou com você ao Centro. Nem que tenha de levar Victoria nas costas.

MULDER: - (OLHA PRO RELÓGIO) Ainda é cedo... Vamos dormir um pouco.


BLOCO 3:

9:56 P.M.

Mulder dorme de bruços na cama. Victoria dorme de bruços, colada contra ele, com a mão em suas costas. Scully assiste um show de variedades na TV. Os olhos vão se fechando, quase cochilando. Ela olha pra Mulder e Victoria. Olha pra TV. Fecha os olhos, pensativa, derrubando lágrimas.


10:29 P.M.

Mulder abre os olhos. Vê Victoria agarrada nele. Sorri, levando o braço por cima dela. Olha pra Scully que dorme. Olha pra TV. Pega o controle remoto que está ao lado de Victoria e muda de canal. Um episódio dos Três Patetas. Mulder assiste, dando risadas num tom baixo. Scully remexe-se na cama, procurando Mulder. Arrasta-se pra perto dele, envolvendo o braço em Victoria.


10:48 P.M.

Victoria acorda-se, bocejando. Vira o rosto pra Mulder, que dorme de boca aberta. Vira o rosto pra Scully, que dorme. Vira-se pra Mulder. Agarra o nariz dele. Faz beiço, desistindo da brincadeira, afinal o pai não corresponde. Vira-se pra Scully. Vai se ajeitando, procurando o seio dela com a boca, mas ela está muito cheia de roupas e não dá pra achar. Victoria suspira. Olha pra TV. A fisionomia dela vai se fechando numa cara de choro e começa a chorar desesperada. Mulder se vira de costas, dormindo. Scully abre os olhos.

SCULLY: - (SONOLENTA) O que foi, neném?

VICTORIA: - (CHORANDO) ...

Scully olha pra TV. Programa de entrevista. Scully abre a blusa e puxa Victoria. Victoria continua chorando. Scully a empurra pra seu seio e fecha os olhos. Victoria vira o rosto. Continua chorando.

Mulder se acorda assustado. Olha pro relógio em seu pulso.

MULDER: - Merda! Scully, temos que trabalhar!

Mulder pula da cama. Scully se acorda, sonolenta. Victoria chorando.

MULDER: - O que ela quer?

SCULLY: - Como eu vou saber?

MULDER: - (PEGA-A NO COLO) Vem com o papai, vem. Vamos dar uma saída.

Victoria olha pra ele, calando o choro.

MULDER: - (OLHANDO PRA ELA) Mas você tem que ficar quietinha, não pode fazer nenhum barulho, porque vamos entrar num lugar que não deveríamos entrar. Tá certo? Você é ou não uma agente do FBI?

Victoria bate palminhas. Scully olha pra Mulder.

SCULLY: - Por que tenho a nítida sensação de que nós somos um mau exemplo pra nossa filha? Completamente amorosos, mas relapsos e loucos a ponto de levar a menina pra uma investigação que nem sabemos se não estamos nos expondo a algum perigo.

MULDER: - O lado bom disso é que ela vai aprender bem cedo como se virar na vida.

SCULLY: - O lado ruim disso, Mulder, é que se algum dia ela trouxer bilhete da escola dizendo que invadiu um local restrito, eu juro que vou colocar você de castigo e não ela.


11:09 P.M.

Mulder dirige o carro. Victoria na cadeirinha, observando a bolsa de Scully sobre o banco traseiro. Scully quieta, pensativa. Mulder percebe e quebra o silêncio.

MULDER: - 'Tudo o mais para mim há muito caiu no esquecimento; eu me lembro só, na verdade, dessa mulher que apaixonadamente se juntou a mim. Ainda hoje andamos à toa, nos amamos e outra vez nos separamos, às vezes ela me segura pela mão para que eu não parta, e a pressinto juntinho de mim, os lábios mudos, aflitos e trêmulos... '

SCULLY: - (OLHA PRA ELE SORRINDO) Whitmann?

MULDER: - (SORRI) E saindo da minha boca, um rebelde louco, haveria de ser outro?

SCULLY: - (SORRI) Não sabia que gostava tanto de poesia.

MULDER: - Claro que eu gosto. Poesia é reação de pensamento. Ou vai dizer que os seres humanos não gostam de viver ou não tem sentimentos? Quem não gosta de poesia não ama a nada e nem a si próprio e por definição Mulderiana tem um cérebro de ameba. Porque poesia faz pensar.

SCULLY: - Hum... Nossa! Eu gosto de Whitmann. Mas tenho uma certa queda pelo espírito revolucionário de Maiakowski.

MULDER: - (DEBOCHADO) Por que ele é russo?

Scully, rindo, acerta um tapinha nele.

SCULLY: - Para! O que é, já vai começar? Não me culpe, ele tem coxas bonitas.

MULDER: - Já andou vendo as coxas dele é?

SCULLY: - E acha que sou cega?

MULDER: - Como você é atrevida, sabia?

SCULLY: - Hum... Não vai ficar com ciúmes?

MULDER: - Do Krycek? (RI ALTO) Desista! Confio no meu taco. Ele não é o George Clooney ou o Bryan Adams.

SCULLY: - Verdade. Esses dois estão mais distantes de mim.

MULDER: - (SÉRIO) Tenta. Mas faz bem feito. Muito bem feito. Porque se eu descobrir...

Scully segura o riso. Victoria estende as mãos pra pegar a bolsa, mas não consegue. Olha com um beiço de frustração.

MULDER: - 'Agora vou dispensar-me de mulheres frias, vou ficar com ela que espera por mim e com aquelas mulheres que são apaixonadas e me satisfazem...'

SCULLY: - Detesto essa!

MULDER: - (RINDO) Eu deveria ter sido escritor, sabia? Bom, ainda dá tempo. Geralmente escritores são velhos...

SCULLY: - Sei que você tem um talento nato com as palavras escritas. Mas não sabia que tinha esse desejo.

MULDER: - Não é desejo. É que ser escritor imprime intelectualidade e isso atrai mulheres. Você diz: 'sou escritor' e elas ficam se digladiando pra ver qual delas ganha primeiro.

SCULLY: - Palhaço! E o que ia escrever? Contos eróticos?

MULDER: - Hum... Não. Poesias eróticas. Já tenho minha musa inspiradora. (OLHA PRA ELA)

SCULLY: - (DEBOCHADA) Sei. Quem é a vadia?

MULDER: - Por acaso Scully, quando você fica enciumada comigo, você bate em seu reflexo por isso?

SCULLY: - (RINDO) Se aquela do espelho tentar te pegar, eu bato mesmo.

MULDER: - Scully, isso tem cura, sabia? Terapia de sexo. Posso te ensinar. Sem custos adicionais pelos meus préstimos gratuitos.

SCULLY: - Mulder, como você é besta, sabia?

MULDER: - Sei. Por isso é que você me ama. Fica enlouquecida.

SCULLY: - Eu? Enlouquecida? Por você? (RI ALTO)

MULDER: - Tá certo. (DEBOCHADO) Mas quem vai rir sou eu, depois que você estiver deitada na minha cama, gemendo às 3 da manhã, sabe-se lá por quê.

SCULLY: - Por causa da minha unha encravada?

MULDER: - (DEBOCHADO) Em respeito à Victoria eu não vou dizer o que é que estava encravado.

SCULLY: - (BATE NELE) Seu desbocado!

MULDER: - Admita, você adora que eu seja desbocado.

SCULLY: - (RINDO) Tudo bem, mas às 3 da manhã e no meu ouvido. Fora disso não.

MULDER: - Que tal encerrarmos esse papo, porque eu estou começando a sentir um calor pelo corpo. E você sabe, eu ando sentindo muito calor ultimamente.

SCULLY: - Pode ser a menopausa, Mulder.

MULDER: - (DEBOCHADO) Ou você que me engravidou. Até desejo eu ando sentindo.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Será que fui eu mesmo?

MULDER: - (DEBOCHADO) Nem vou te dar resposta. Você não merece.

Scully olha pra trás.

SCULLY: - O que você está fazendo, hein, neném? Quando criança fica muito quieta, sinal de que está aprontando alguma coisa.

Mulder olha pelo retrovisor.

MULDER: - O que foi?

SCULLY: - Estava pegando a minha bolsa.

MULDER: - É de família. O pai invade propriedade particular, a filha é trombadinha...

SCULLY: - Imagina só virar isso tudo aqui dentro, quebrar minha maquiagem...

MULDER: - E comer seu celular. Parece até filha de avestruz, credo!

Victoria olha pra Mulder, com um beiço.

VICTORIA: - Iço, Ox! Iço!

MULDER: - Que diabos ela tá tentando dizer?

VICTORIA: - Iço! Iço!

SCULLY: - A bolsa é 'iço' filha?

VICTORIA: - (ACENA NEGATIVAMENTE COM A CABEÇA) Nah! Iço!

MULDER: - Vai ver ela pensa que tem chocolate aí dentro.

SCULLY: - Chocolate? É chocolate que você quer?

VICTORIA: - (EMBURRADA) Nah! Iço!

SCULLY: - Será que 'iço' não quer dizer que ela fez xixi?

VICTORIA: - Nah! Nah! Nah!

Scully vira-se pra trás. Tenta examinar a fralda de Victoria, que bate as mãos no ar.

SCULLY: - Não me parece molhada.

Mulder estaciona o carro em frente ao Centro.

MULDER: - Chegamos. Agora vocês duas parem de folia. Vocês fazem muita bagunça, só me atrapalham. Mulheres...

SCULLY: - (INCRÉDULA) Você ouviu o que seu pai machista disse, filha?

VICTORIA: - Obo!

MULDER: - Isso eu entendi.

Scully ri. Mulder e Scully descem do carro. Mulder abre o porta malas e retira um alicate enorme pra cortar a cerca. Scully pega Victoria. Mulder olha pra Victoria, abrindo e fechando o alicate na direção dela.

MULDER: - (ABOBADO/ FAZENDO VOZ GROTESCA) Quem é bobo, hein? Olha o monstro devorador de nariz de menininhas sujonas e desbocadas...

VICTORIA: - (RINDO) Nah!

SCULLY: - Mulder, para! Ela vai ficar histérica aos risos e acordar a cidade inteira!


11:31 P.M.

Mulder carrega Victoria no canguru de pano contra seu peito. Ilumina o corredor com a lanterna. Scully ao lado dele, com outra lanterna. Victoria com a cabeça por sobre o ombro de Mulder, olhando pro corredor escuro que vai se distanciando.

MULDER: - Isso mesmo, Pinguinho. Você observa a retaguarda.

Os dois vão tentando abrir as portas, mas estão trancadas.

SCULLY: - Não devia ter colocado o vigia pra dormir daquele jeito. O pobre homem vai ter dor de cabeça por dois dias. E não devia ter feito isso na frente de Victoria.

MULDER: - Pinguinho, faça o que eu digo, mas nunca faça o que eu faço.

SCULLY: - E por que não me deixa carregá-la?

MULDER: - Porque se aparecer alguém e tivermos que correr, você tem pernas curtas.

Scully o fulmina com o olhar.

SCULLY: - (IRÔNICA) Curtas, mas perfeitas. E que por sinal estão coladas uma na outra por uma semana depois desse seu comentário inoportuno!

Mulder olha em pânico pra ela. Scully ergue a cabeça e sai rebolando os quadris na frente dele.

MULDER: - Quem bundinha! (ASSOVIA BAIXINHO) Devia se mexer assim na minha cama.

SCULLY: - Cala a boca, Mulder!

Mulder a segue, a imitando, cabeça erguida e rebolando os quadris. Scully vira-se pra trás. Mulder disfarça, caminhando normalmente e olhando pro lado. Para na frente do elevador.

MULDER: - Vamos nos separar. Você fica com os dois andares de baixo que eu fico com os dois de cima.

SCULLY: - Por que eu sempre fico por baixo?

MULDER: - (DEBOCHADO) Não será que é porque a mãe natureza designou isso?

Scully o fulmina com os olhos novamente.

SCULLY: - Você realmente não é criativo, Mulder, seu porco chauvinista!

Scully se afasta.

MULDER: - Onde vai?

SCULLY: - Pelas escadas. Me recuso a dividir o elevador com uma coisa asquerosa como você.

Mulder entra no elevador. Aperta o botão do 5º andar. Olha para os espelhos nas paredes.

MULDER: - Ei, tem uma menina tão bonitinha ali na parede.

Victoria olha curiosa. Mulder acena olhando pra ela pelo espelho.

MULDER: - Oi menininha!

Victoria esconde o rosto contra o ombro dele, rindo. Mulder aspira a nuca dela. Victoria se encolhe, rindo. Mulder olha para o teto. Olha para os espelhos. A porta abre-se. Mulder liga a lanterna e sai para o corredor.

MULDER: - Ok, Pinguinho... Vamos ver o que essa gente tá nos escondendo... Aposto com você que aqui tem truta. E das grandes.

Mulder para em frente a uma porta. Tenta abri-la. Está trancada. Mulder tira a carteira do bolso e pega um cartão de crédito. Guarda a carteira e tenta abrir a porta com o cartão.

MULDER: - Não tente fazer isso em casa sem a supervisão de seus pais. E muito menos com o cartão de crédito deles... Que ótimo pai que eu sou! Estou ensinando minha filha a arrombar portas... Como diria 'Santa Joana': Vou arder no mármore do inferno!

Mulder consegue abrir a porta. Guarda o cartão de crédito. Puxa a arma. Empurra a porta, entrando de costas, com uma das mãos protegendo Victoria e a outra segurando a arma. Vira-se de frente pra sala. Guarda a arma.

MULDER: - (ABRE UM SORRISO) Tratamento alternativo... Sabia!

Close da sala. Várias mesas de edição, computadores, fitas de vídeo tape e câmeras.

MULDER: - Pinguinho, achamos a toca do bicho.

VICTORIA: - Iço! Iço, Ox! Iço!

Mulder olha pra ela.

MULDER: - (SORRI) Bicho?

VICTORIA: - Iço! Iço!

MULDER: - 'Iço' é bicho?

VICTORIA: - (PULANDO FELIZ NO COLO DELE)

Mulder pega o celular. Aperta uma tecla.

MULDER: - Onde está? ... Descobri coisas interessantes no último andar. Uma delas é o que significa 'iço'. Você não vai acreditar.


Motel Holden – 1:42 A.M.

Scully olha pra pilha de dez fitas sobre a cama, desconsolada. Victoria sentada na cama, com a boca toda suja de chocolate.

MULDER: - Por que ela tem mania de sujar a gente?

SCULLY: - Quem mandou ficar de frescura agarrando ela?

Mulder sai do banheiro só de calças, secando o rosto com a camisa. Limpa o rosto de Victoria com a camisa. Victoria tenta virar o rosto, não gostando muito da limpeza.

SCULLY: - (INTRIGADA) Mas por que bicho? Que bicho que ela viu na minha bolsa?

MULDER: - Na bolsa?

SCULLY: - (INCRÉDULA) Mulder! Não sabe usar toalhas? Que homem mais relaxado, meu Deus!

MULDER: - Que toalha? Não vi nenhuma.

SCULLY: - Claro que não viu. É do gênero masculino não ver as coisas bem debaixo do nariz. Exceto se for mulher pelada.

Scully entra no banheiro e volta com uma toalha. Atira a toalha em Mulder. Puxa a camisa da mão dele.

SCULLY: - Não é você quem lava depois!

MULDER: - Nem você. É a máquina.

SCULLY: - Ela pedia pela bolsa e gritava 'iço'.

Victoria olha pra Mulder, soltando uma risada de cerrar os olhinhos.

MULDER: - Também não me admira, com tanta porcaria que você carrega naquela bolsa, baratas fariam a festa no meio de caixas de chicletes e chocolates. Depois eu que sou o relaxado!

Scully o fulmina com os olhos. Pega uma revista e folheia. Mulder olha pra ela.

MULDER: - Se não se importa, isso não é hora de ler. Temos trabalho pela frente.

SCULLY: - Quero tirar uma dúvida.

Scully aproxima-se de Victoria. Senta-se. Coloca a revista aberta na frente dela. Há a foto de um cachorro. Scully aponta pra figura. Victoria observa séria.

SCULLY: - O que é isso?

VICTORIA: - (SORRI OLHANDO PRA SCULLY) 'Okie'!

MULDER: - (SOLTA UMA GARGALHADA) Essa é a minha filha! Yes! Eu tava muito inspirado naquela noite!

Scully fulmina Mulder com os olhos.

SCULLY: - Se você se esqueceu, Mulder, quem acertou na mira fui eu. Portanto, eu estava inspirada.

MULDER: - Detalhes... Apenas detalhes técnicos da coisa.

Scully olha pra Victoria.

SCULLY: - Não. Não é o Cookie. É um cão.

VICTORIA: - (OLHA PRA BOCA DE SCULLY)

SCULLY: - C-ã-o. Cão.

VICTORIA: - 'ão'!

SCULLY: - E o cão é um...

VICTORIA: - Okie!

MULDER: - (SOLTA UMA GARGALHADA) Boa Pinguinho! Eu não faria melhor!

Scully fulmina Mulder com os olhos. Tira o sapato do pé e atira nele, que desvia.

SCULLY: - Para Mulder! Assim ela não presta atenção no que estou ensinando.

MULDER: - Scully, também não vamos exigir demais da menina.

SCULLY: - Você não diz que ela é super inteligente?

MULDER: - É, mas é um bebê, ela nem sabe o que pode ou não fazer. Ela se distrai com coisas normais de bebê. Ela tem uma infância, oras.

Scully suspira. Pega uma das fitas.

SCULLY: - Ok. Pelo menos ligue o vídeo.

Os dois se sentam aos pés da cama, olhando pra TV. Scully com o controle remoto.

Victoria observa a revista. Dá tapas nela, até que descobre uma página movendo-se com o impacto. Tenta mover as páginas, sem coordenação. Faz beiço. Fecha a revista. Olha pra capa.

VICTORIA: - Mama!

Scully se vira.

SCULLY: - O que foi, neném?

VICTORIA: - Iço!

Scully pausa a fita. Estende-se sobre a cama olhando pra capa da revista.

SCULLY: - (SORRI) Sim, meu amor. É uma vaquinha, vaquinhas são bichos.

MULDER: - E cachorros também são bichos.

SCULLY: - (DEBOCHADA) E se cachorros são bichos e seu pai é um cachorro... Conclui-se portanto que seu pai é um bicho.

Victoria faz beiço.

VICTORIA: - Nah!

MULDER: - (SOLTA UMA GARGALHADA) Viu só? O pai dela não é bicho não! O que você tá pensando?

SCULLY: - Por que estou tendo a sensação de que vocês dois tiraram pra me irritar hoje? É uma conspiração de pai e filha?

Scully folheia a revista. Acha um pinguim.

SCULLY: - Pinguim. É bicho também.

VICTORIA: - Nah!

SCULLY: - Sim, é bicho sim.

VICTORIA: - Nah!

Victoria fecha a revista e aponta pra vaca.

VICTORIA: - Iço!

SCULLY: - Por que pra ela vacas são bichos e os outros animais não são?

MULDER: - Como é que eu vou saber? Vai ver ela gosta de vaquinhas.

Scully fica desconfiada. Mas volta a atenção pra TV.

SCULLY: - Mas eu ainda vou descobrir isso.


2:48 A.M.

Scully boceja, assistindo a fita, sentada aos pés da cama.

Close na TV. Um psicólogo sentado. O paciente deitado num divã.

PSICÓLOGO: - E o que você sentia?

PACIENTE: - Medo. Muito medo.

PSICÓLOGO: - Volte algum tempo e me fale sobre as agressões de sua mãe.

PACIENTE: - ... Ela...

PSICÓLOGO: - Batia em você. Espancava você. O que sentia em relação a ela?

PACIENTE: - Medo.

Scully olha pra trás. Mulder dormindo, ocupando toda a cama, de braços abertos, e Victoria dormindo em cima dele. Scully sorri.

SCULLY: - Dupla linda da minha vida... Amo vocês dois mais do que tudo.

Scully volta o rosto pra TV num sorriso. Olha pra Mulder e Victoria de novo. Então desliga o vídeo.

SCULLY: - Ah não... Eu não vou ficar aqui feito idiota.

Scully se arrasta pela cama. Deita a cabeça sobre o braço de Mulder, se aninhando nele e envolvendo o braço por sobre Victoria. Fecha os olhos, se aconchegando.


BLOCO 4:

3:21 A.M.

Mulder ajeita Victoria entre ele e Scully. Scully se acorda.

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - Em tantos anos juntos não aprendemos a dormir feito gente normal. Agora tem um terceiro membro nessa família que também não sabe. Desse jeito os três vão ter sérios problemas musculares.

SCULLY: - (SORRI)

MULDER: - (DEITANDO-SE) Encontrou algo interessante?

SCULLY: - Vamos enviar pros laboratórios do bureau. Todas as fitas continham programas de televisão. Com exceção de uma fita.

MULDER: - O que tinha nela?

SCULLY: - Um paciente fazendo regressão hipnótica. Um tape gravado pelo próprio psicólogo durante uma seção. Nada demais. É fita caseira, eles devem fazer isso para acompanharem o progresso das seções.

MULDER: - Então não mande isso. É algo muito pessoal. Seria falta de ética nossa. Com certeza eles não vão exibir isso por aí em programas televisivos.

SCULLY: - E os discos zip que você pegou?

MULDER: - Não vamos conseguir abrir nesse laptop. Vamos mandar tudo pra Chuck. Se tiver alguma coisa ele vai descobrir.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - (OLHOS FECHADOS) Fala.

SCULLY: - ... Nada. Deixa pra lá.

MULDER: - (OLHA PRA ELA) O que é? Fala.

SCULLY: - (RINDO DE SI MESMA) Besteira.

MULDER: - Ah Scully, não faz isso. Eu sou curioso.

SCULLY: - ... Eu... Eu quero fazer amor com você.

MULDER: - Ponho ela no carrinho ou vamos pro banheiro?

SCULLY: - Banheiro não é romântico. (SUSPIRA) Mas vamos pro banheiro.

Mulder levanta-se. Pega Victoria. Coloca-a no carrinho, a cobrindo. Empurra o carrinho pro banheiro, deixando a porta entreaberta.

SCULLY: - Mulder!

MULDER: - Ah, deixa ela ir pro banheiro hoje.

SCULLY: - Mulder que maldade!

MULDER: - Não é maldade. É só por uns minutinhos.

Mulder deita-se na cama. Olha pra Scully. Scully olha pra ele. Os dois se agarram aos beijos. Mas se soltam ao mesmo tempo, olhando culpados pra porta do banheiro.

MULDER: - (CULPADO) Não me sinto bem fazendo isso.

SCULLY: - (CULPADA) Nem eu.

MULDER: - (CULPADO) Assim parece que a pobrezinha só atrapalha a gente e não é verdade.

SCULLY: - (CULPADA) Acabamos de dizer inconscientemente com a nossa atitude que ela está sobrando. Tadinha.

MULDER: - (CULPADO) Ela deve estar com frio naquele banheiro. Sozinha, ali, carente, abandonada, jogada num banheiro, como uma coisa qualquer.

SCULLY: - (CULPADA) Mulder, somos dois egoístas, cretinos e desumanos. Por causa de sexo jogamos nossa filha no banheiro feito um saco de lixo.

MULDER: - (QUASE CHORANDO DE ARREPENDIMENTO) ... Nós somos dois 'iços', como ela diria.

SCULLY: - Não fala assim, Mulder... (SEGURA AS LÁGRIMAS) Que eu vou chorar...

MULDER: - (CULPADO) Não merecemos a filha que temos. Não merecemos mesmo. Somos relapsos. Até chocolate a gente deixa ela comer!

SCULLY: - (CULPADA) Não, não merecemos. Olha o que fizemos com ela? Que ser humano faria isso com uma coisinha frágil como ela? Nem um bicho a gente atira assim num canto qualquer.

Os dois derrubam lágrimas, feito dois bobões. Mulder se levanta, secando as lágrimas. Puxa o carrinho pra fora do banheiro. Pega Victoria e a coloca na cama, entre eles. Scully a cobre com o lençol a beijando. Mulder ajeita o cabelo de Victoria e a beija.

SCULLY: - Que pecado. Me sinto culpada.

MULDER: - Eu também.

Os dois colocam os braços sobre a filha e fecham os olhos.


4:11 A.M.

Victoria, deitada entre Mulder e Scully, olhos abertos, babando as mãos enquanto balança as pernas rechonchudas no ar. Mulder e Scully dormindo virados pra ela. Victoria olha pra um, olha pra outro. Distrai a atenção para a pulseirinha em seu braço, tentando arrancá-la. Leva à boca. Emite sons desconexos de bebê. Olha pro teto.

VICTORIA: - Oooo... ooo...

A TV se liga sozinha, num canal fora do ar. Victoria dirige a atenção rapidamente para o barulho. Observa. Morde as mãos se babando, atenta aos chuviscos. Repentinamente o canal começa a funcionar, transmitindo um jogo de basquete. Victoria observa atenta. Balança as pernas. Para. Franze o cenho e começa a chorar.

Mulder, dormindo, põe a mão sobre ela, simulando um balanço.

MULDER: - (CANTAROLANDO) ... Brilha, brilha, estrelinha, brilha, brilha sem parar...

VICTORIA: - (CHORANDO)

Mulder abre os olhos. Victoria olha pra ele derrubando lágrimas. Mulder apoia-se no cotovelo e olha pra ela.

MULDER: - O que houve, Pinguinho? Pesadelo?

VICTORIA: - (DIMINUI O CHORO) 'Iço'.

MULDER: - Não tem 'iço' aqui. Papai tá aqui, vai cuidar de você, o 'iço' não vai te pegar.

VICTORIA: - 'Iço'... (SOLUÇANDO COM MEDO)

MULDER: - Mostra pro papai onde tá o 'iço' que eu vou lá pegar ele e dar uns sopapos pra não assustar minha filhinha.

Victoria olha pra TV. Mulder olha pra ela. Percebe que ela olha pra TV. Então volta o rosto pra TV vendo o jogo de basquete.

VICTORIA: - 'Iço'!

Mulder senta-se na cama, intrigado.

MULDER: - O 'iço' tá na TV? Você tá vendo ele?

Victoria sacode as pernas e os braços. Mulder olha pra TV. Move a cabeça de um lado pra outro, observando a imagem. Levanta-se da cama. Ajoelha-se em frente a TV. Observa a imagem de perto. Empurra a fita da seção de terapia que estava no vídeo e põe pra gravar.

MULDER: - Se você diz, Pinguinho, eu acredito. Acredito que você está vendo alguma coisa que eu não consigo ver. Só queria saber o que é.

Mulder senta-se na cama, ajeitando Victoria contra ele, a protegendo contra seu corpo. Assiste a TV. Aumenta o volume. Victoria olha pra TV com o canto dos olhos, ainda assustada, agarrada em Mulder.

Close no rosto de Mulder, numa subjetiva, simulando a audição de Mulder:

NARRADOR: - Talvez eles consigam reverter o placar em 10 minutos de jogo. Mas a própria torcida parece estar desanimada. Você vê, caro telespectador, que não há agitação alguma no lado dos Rangers.

Close no rosto de Victoria, simulando a audição dela:

THE GOLD COIN: -Vamos Mulder... Quando vai perceber que sua mulher não ama mais você? Não percebe o quanto ela o despreza? Ela o evita, você não passa de um louco pra ela. Vamos Mulder, tenha orgulho próprio e ponha as cartas na mesa. Pense nisso, Mulder. Odeie essa vadia. Odeie. Despreze.

Mulder, assistindo ao jogo fica sério. Perde o olhar no nada, como se estivesse pensando. Victoria olha pra ele e começa a chorar. Mulder olha pra ela sem entender. Victoria chora mais alto desviando a atenção de Mulder pra ela.

THE GOLD COIN: - Vamos Mulder... Continue pensando seriamente nisso. Olhe para a TV Mulder. Vamos, para a TV... Eu sei que você está me ouvindo, coisinha babenta. Assim como ele também me ouve, mas não sabe. Desista criança, não pode protegê-los. Você é apenas um bebê, limitado em gestos e palavras. É inevitável: Destruir, corromper e separar Mulder e Scully. (RINDO) E não há nada que você possa fazer, menina. Você será minha. Quando a desgraça se abater sobre os dois. E vou ofuscar a sua luz com minhas trevas.

Victoria chora mais alto abafando a voz que vem da TV. Scully acorda num sobressalto, tirando os cabelos dos olhos.

SCULLY: - O que houve?

MULDER: - Ela está vendo alguma coisa que não podemos ver.

Scully vira-se pra TV assustada. Vê os jogadores. Olha pra Victoria que se desfaz em lágrimas, já corada.

SCULLY: - Mulder, desligue isso, pelo amor de Deus! Ela vai ter um ataque!

Mulder desliga a TV. Scully pega Victoria nos braços e se levanta, a embalando. Abre a janela.

SCULLY: - Calma meu amor, calma. Mamãe está aqui, papai está aqui. Nós te amamos, nada vai te acontecer.

Scully segura as lágrimas, com medo e abraça a filha contra si, beijando os fiapos de cabelos dela. Victoria se agarra ao pescoço de Scully.


5:29 A.M.

Scully rebobina a fita procurando a gravação do jogo, sem encontrá-la, numa fisionomia de intriga, segurando a arma. Desliga o vídeo. Liga a TV. Está passando um filme.

Victoria sentada na cama. Olha pra TV, num beiço. Olha pra bolsa de Scully na poltrona.

THE GOLD COIN: -Scully, quantas vezes você se pergunta porque ele a trata como um animal? Acha que merece isso? Você está cansada, Scully, não tem tempo para pensar em você. As coisas mudaram em sua vida tão rapidamente que você nada assimilou. Você tem ficado para trás. Primeiro seu marido e sua filha. E você? Ninguém lembra que você também tem seus sonhos.

Scully fica séria, assistindo o filme. Victoria percebe e chama a atenção dela se atirando no colo de Scully.

SCULLY: - O que foi, neném? Quer colinho?

THE GOLD COIN: -Acha que é desta maneira que eu jogarei, criança? Não. Você sabe quem sou. Isto é apenas para distrair a atenção deles do real meio como vou fazer isso usando os governos da Terra para o meu intento. E, como eu disse, você é limitada por ser um bebê. Não pode estar em todos os lugares com eles. É ela quem eu quero. Ela é mais fraca, mais humana, mais sentimental. Ela tem fé. E se acredita em Deus, acredita em mim. Você vai ficar sem a mamãe, sabia?

Victoria faz um beiço e chora.

VICTORIA: - Nah!

Scully olha pra filha. Olha pra TV, intrigada.

VICTORIA: - Iço! Mama! Iço!

SCULLY: - (OLHA PRA TV) Que 'iço'?

VICTORIA: - (CHORANDO/ DESESPERADA)

SCULLY: - (OLHA PRA TV) O 'iço' tá lá?

VICTORIA: - 'Iço'!

Scully desliga a TV. Mulder entra no quarto, fechando a porta.

MULDER: - Mandei as fitas pra Chuck. Pedi urgência na análise pra conseguir logo um mandado e colocar aquele Zernicke na cadeia. Mandei duas aos Pistoleiros também. (CHUTA A POLTRONA) Merda!

A bolsa de Scully cai ao chão. Mulder a pega e a coloca sobre a cama. Victoria olha pra bolsa a seu lado.

MULDER: - Se Victoria consegue ver alguma coisa que não vemos, sinal de que estamos certos, Scully. Estão usando mensagens subliminares no meio da programação a cabo. O que dizem é o que não sei. Mas ela tem medo disso.

SCULLY: - Mulder, eu... Eu não estou me sentindo bem.

Scully coloca a arma sobre a TV. Levanta-se. Mulder se aproxima dela.

MULDER: - Quer ir ao hospital?

SCULLY: - (NERVOSA) Não... Tem alguma coisa dentro de mim... (FRANZE O CENHO PRA CHORAR) Uma sensação tão triste. Parece que alguma coisa está errada.

Scully corre pro banheiro.

Corte.


Scully debruça-se na pia do banheiro e começa a chorar. Mulder a abraça. Scully se abraça nele.

MULDER: - Calma, Scully. (BEIJA-A NA TESTA) Eu tô aqui com você.

SCULLY: - Mulder, cuida de mim?

MULDER: - Claro que cuido de você.

SCULLY: - Acho que estou assim porque não me sinto segura sem minha corrente. Como fui perder aquilo? Como ela se partiu?

MULDER: - Vamos encontrá-la... Quer que eu prepare um banho pra você? Ahn? Bem relaxante?

SCULLY: - Quero... Mulder, me abraça. Me abraça forte.

Mulder a abraça com força, preocupado.

Corta para o quarto.

Victoria olha pra porta do banheiro. Olha pra bolsa. Leva a mão dentro da bolsa, tentando achar a moeda. Olha pra dentro da bolsa, tirando tudo pra fora. Mas não encontra nada.

A TV se liga sozinha num canal fora do ar. Victoria olha pra TV.

THE GOLD COIN: -Acha que seus pais se importam com você? Acha mesmo? Eles não ligam pra você, você só os atrapalha. Mesmo antes de nascer, você já causava transtornos a eles. Você só veio pra incomodar. Eles te odeiam. Venha pra mim, cuidarei de você, minha pequena centelha de luz.

VICTORIA: - (SÉRIA) Nah!

Uma fumaça sai pela tela da TV projetando-se pelo quarto, acima de Victoria. Victoria olha pra cima.

VICTORIA: - (GRITA) 'Obo'!

A fumaça se torna negra e assume a forma de uma cabeça com chifres.

VICTORIA: - Iço!

A fumaça vai se dividindo e criando formas de demônios chifrudos, que começam a voar pelo quarto, ao redor de Victoria. Victoria arregala os olhos.

VICTORIA: - (GRITA) Nah! Nah!!!!!! Naaaaaaaaaaahhhhhhhhhh!!!

Corta para o banheiro. Scully olha pra Mulder.

SCULLY: - Com quem ela está falando?

Mulder e Scully saem rapidamente do banheiro. Olham para o quarto.

Nenhuma fumaça. Victoria sentada olhando pra TV fora do ar.

VICTORIA: - 'Obo'!

Mulder e Scully se entreolham desconfiados. Victoria olha pra eles. Aponta pra TV.

VICTORIA: - 'Iço'!

O celular de Mulder toca. Mulder dá um pulo, assustado. Atende.

MULDER: - Mulder... Oi, Xerife... (OLHA PRA SCULLY) Estamos indo.

Mulder desliga.

MULDER: - Scully, homens do exército estão no Centro de Estudos.

SCULLY: - Fazendo o quê?

MULDER: - Desmontando o lugar todo.

Scully pega Victoria rapidamente. Mulder abre a porta. Eles saem.


Centro de Estudos do Comportamento Humano – 6:59 A.M.

Mulder estaciona o carro. Olha pra Scully.

MULDER: - Quero que fique aqui com Victoria, isso é muito perigoso pra ela. Se me pegarem, não vá atrás. Fuja com a menina.

SCULLY: - Tá.

Mulder desce do carro e um soldado vem interceptá-lo.

SOLDADO: - Não pode passar, senhor.

Mulder mostra a credencial.

MULDER: - FBI e estou investigando essa instituição.

SOLDADO: - Lamento, senhor, a jurisdição do FBI se encerrou. É uma investigação militar agora, não foi informado disso?

MULDER: - Não, não fui informado. O que estão fazendo? Por que estão levando tudo?

SOLDADO: - Não tenho essa informação, senhor. Agora volte para o carro e vá embora.

MULDER: - Eu não vou sair daqui. Estou nesse caso ainda. Não fui comunicado de...

Scully aproxima-se. Olha pra Mulder.

SCULLY: - Mulder... Skinner acaba de me ligar. Ordens expressas de Kersh para voltarmos a Washington.

MULDER: - Quem está chefiando essa esculhambação aqui? Eu quero falar com o responsável! Não vou voltar, Scully.

Mulder avança. O soldado aponta o rifle. Scully segura Mulder, nervosa.

SCULLY: - Mulder, por favor. Vamos voltar.

MULDER: - (FRUSTRADO/ COM RAIVA) ...

SCULLY: - Mulder... Por favor.

Mulder solta-se de Scully, irritado e volta pro carro. Scully vai atrás dele. Mulder senta-se no carro e esmurra o volante com raiva.

MULDER: - É sempre assim! Sempre! Quando chegamos a algum lugar, eles nos cortam pra longe da verdade! Que droga! Será que nunca vamos ter alguém que nos ajude?

VICTORIA: - ... 'Ox'...

Scully senta-se e fecha a porta. Victoria olha triste pra Mulder.

MULDER: - Mas pelo menos temos as fitas. E devem estar a caminho de Washington. Chuck vai encontrar alguma coisa nelas. Se ele não encontrar, os rapazes encontrarão.

Scully coloca as mãos na boca. Mulder olha pra ela.

MULDER: - O que foi?

Scully abre a porta do carro e começa a vomitar. Mulder pega os lenços de papel do porta luvas. Victoria abaixa a cabeça, triste.


7:11 A.M.

O furgão de encomendas expressas para no acostamento da rodovia, barrado por soldados. Os soldados retiram o motorista para fora. Outros abrem o furgão, revirando as caixas de encomendas. Saem com duas delas.

Corta para o carro do outro lado da rua. O Canceroso escorado nele, fumando um cigarro, observando a operação.


Motel Holden – 8:39 A.M.

Mulder beija Scully na testa. Ela dorme na cama. Victoria dorme ao lado dela, com a mão em seus cabelos. Mulder olha pra TV. Arranca-a da tomada. Abre a porta do quarto e chuta a TV pra fora.

MULDER: - Já vi algo parecido num filme.

Mulder sai do quarto, fechando a porta atrás de si. Pega o celular. Aperta uma tecla.

MULDER: - Sou eu. Skinner que diabos está acontecendo? ... Não, eu não vou voltar agora pra Washington, Scully está doente... Não sei, o médico disse que pode ter sido uma virose... Olha, Skinner, o que me deixa puto com a situação é o fato de que minha filha está vendo alguma coisa que ninguém mais pode ver e se ela vê eu acredito nela... Esquecer disso? Skinner, façamos o seguinte. Mandei duas caixas pra Washington, uma pro Chuck e outra pros rapazes. Depois vamos ver quem tinha razão.

Mulder desliga, furioso.

MULDER: - Acho que um bom café vai me deixar mais calmo.


9:13 A.M.

Victoria desperta. Senta-se na cama. Olha pra Scully. Leva a mãozinha nos cabelos dela, fazendo um carinho desajeitado. Olha pro canto onde estava a TV. Sorri ao não vê-la mais ali. Olha pra fita de vídeo aos pés da cama. Olha pra porta.

Victoria engatinha pela cama. Senta-se. Pega a fita. Olha pra porta. Olha pra fita.

A porta do quarto se abre.

Dr. Zernicke entra sorrateiramente, segurando uma arma.

ZERNICKE: - Olá, neném... Você tem nas mãos algo que eu quero.

VICTORIA: - (BEIÇO)

Zernicke se agacha aos pés da cama e estende a mão.

ZERNICKE: - Titio precisa dessa fita. De todas, ela é a mais importante. Dê aqui pro titio.

VICTORIA: - Nah!

ZERNICKE: - Me dá essa fita, garotinha. Ela é a maior prova que o otário do seu pai poderia ter. Se não me der isso... (APONTA A ARMA PRA SCULLY) Ela morre. E eu sei que você está me entendendo.

Victoria olha pra ele. Zernicke olha pra ela. Victoria cerra as sobrancelhas olhando fixamente pra Zernicke que começa a tremer sem conseguir desgrudar os olhos dela. Deixa a arma cair ao chão. Põe as mãos nos ouvidos. As artérias do rosto começam a inflar e pulsar. Zernicke arregala os olhos, desesperado. Victoria com ódio continua a olhar pra ele fixamente. Zernicke grita e cai de bruços por cima da cama.

Scully acorda-se assustada, sentando-se na cama. Ao ver Zernicke aproxima-se rapidamente tomando o pulso dele.

SCULLY: - Está morto...

Scully olha para as orelhas do médico que derramam muito sangue. Scully olha pra Victoria. Victoria olha pra ela num suspiro e abre um sorriso de alívio.

SCULLY: - Filhinha, o que aconteceu?

VICTORIA: - 'Obo'.


Residência dos Mulder – 10:12 P.M.

Mulder e Scully deitados na cama. Victoria entre eles. A TV ligada num desenho animado. Victoria sorri dos personagens.

SCULLY: - Não entendo. A necropsia do corpo de Zernicke indicou derrame cerebral. Se ele estivesse tão doente assim, não teria tido capacidade para ir até lá e tentar me matar. Aliás, por que ele foi até lá? Será que foi realmente pra me matar? Ou queria Victoria? Ou o que ele queria?

MULDER: - Talvez estivesse atrás das fitas, sem saber que eu já as tinha despachado. Que por sinal, foram interceptadas. Só nos sobrou aquela fita da terapia que pouco nos serve.

SCULLY: - Mas e o jogo? Você disse que gravou um pedaço da transmissão, mas eu não encontrei.

MULDER: - Sim, eu procurei também, mas não gravou nada. A fita continua inteira lá, só com aquele psicólogo nada ético, induzindo o pobre do paciente.

SCULLY: - Induzindo?

MULDER: -Sim. É o pior exemplo que já vi de um cara que se diz psicólogo fazer com um paciente. Aquilo é hipnose regressiva induzida. Ele sugere coisas que o paciente acredita serem reais.

SCULLY: - Ainda não entendo como Zernicke morreu. Se Victoria falasse...

Mulder olha pra Victoria. Sorri. Ajeita-se na cama. Fecha os olhos. Scully desliga o abajur. Ajeita-se também, fechando os olhos. Victoria permanece assistindo desenhos.

MULDER: - Eu só queria saber o que ela conseguia ver que nós não víamos. Que tipo de bicho era? Algum animal? Isso não faz sentido. Por que bicho?

SCULLY: - Nunca saberemos, Mulder. Não enquanto ela não crescer pra nos dizer o quê é o tal 'iço' que ela viu.

Corta para a TV. The Gold Coin observa Victoria.

THE GOLD COIN: -Você ainda não me venceu, coisinha babante.

O canal sai fora do ar, ficando apenas chuviscos, até a TV se desligar sozinha. Victoria sorri. Vira-se pro lado, recostando o rostinho no peito de Scully, se aconchegando nela. Scully envolve a mão na filha, ternamente.

VICTORIA: - (SUSPIRA) Mama...


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17/02/2002


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9 de Setembro de 2019 às 05:52 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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