A Liberdade que Limita Seguir história

stefanippaludo Stéfani Paludo

"A sociedade não está pronta para aceitar toda forma de liberdade" Em um mundo dividido em duas classes, as mulheres são seres superiores e os homens inferiores. Cada um habita uma sociedade, que funciona de maneiras distintas, eles trabalhando e sobrevivendo como podem e elas usufruindo de toda a produção e lucro gerados por eles. Afinal, o sexo feminino tem capacidades mentais mais elevadas, e a lei da evolução as tornou mais adaptadas para as necessidades do mundo. É isso que as faz superior e permite que usufruam de toda a liberdade, fazendo o que desejarem, sem compromissos e buscando a felicidade acima de tudo, sem rótulos e sem preconceitos. Mas até onde essa liberdade é real? Luzia se sente entediada com tanto tempo livre. Já fez tudo que podia e precisa de mais emoções e mais experiências. É querendo saciar esse desejo que se arrisca a desvendar a sociedade dos seres inferiores conhecidos como homens, e descobre que eles não são seres tão horripilantes e diferentes como ouviu dizer e que ela mesmo não é tão livre quanto pensava.



Ficção científica Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#conto #machismo #feminismo #ficção-científica #scifi #distopia
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Parte I

— Onde você vai? Aconteceu alguma coisa? — perguntou Minerva olhando a colega com atenção.

Luzia estava visivelmente irritada. Seus cabelos azuis, pouco abaixo do queixo, estavam desgrenhados, como se a garota tivesse tentado os arrancar diversas vezes. Os olhos amarelos também encararam com fúria aquela que lhe dirigiu a palavra:

— Não consigo mais! Já tentei passar a intensidade que queria de várias maneiras. Mas não dá certo! Não aguento mais! Aqueles olhos não saem da minha mente e não sei como aliviar isso.

A garota nas suas quase duas décadas de existência jamais vira um homem em toda a sua vida antes do dia anterior. Agora a imagem de um deles a encarando com olhos negros aterrorizantes não lhe saia da cabeça. Mal dormiu aquela noite, pensando no ser estranho que a encarou durante breves segundos.

— Preciso de um novo propósito de vida! Estou cansada de fazer as mesmas coisas!

Disse isso e saiu pela rua, andando sem um destino certo. Quando se deu conta, Luzia já estava próxima do local que visitara na tarde anterior. O local onde conhecera o ser inferior dos olhos negros e cabelos azuis.

Se esgueirou pela pequena mata, tomando cuidado para dessa vez se manter escondida dos seres inferiores e ficou observando de longe os homens trabalhando. A aparência deles ainda a surpreendia. Eram muito semelhantes a elas.

Sempre ouviu falar que homens eram seres diferentes, perigosos e com muito menos capacidade mental, o que os tornava inferiores. Em sua mente, imaginava seres baixinhos, com cabeças pequenas e características assustadoras. Mas na verdade, o que via eram pessoas como elas, com seus cabelos coloridos, olhos nas mais diferentes nuances e peles nas mesmas tonalidades que as delas. O único aspecto que diferia eram as vestimentas. Luzia usava uma jaqueta de couro azul-marinho por cima da blusa vermelha e da calça amarela, enquanto os operários em sua frente vestiam todos um macacão cinza idêntico.

Luzia procurou no grupo de homens, o que havia visto no dia anterior. Apesar da semelhança entre as vestimentas cinzas, havia algo que o tornava inconfundível. Manteve sua atenção nele, enquanto aguardava. Algumas horas depois, o rapaz se aproximou de onde ela estava para realizar uma de suas tarefas e Luzia não perdeu tempo e o chamou:

— Psiu!

Ele se virou em sua direção e como no dia anterior a encarou. Ela fez um gesto para que lhe seguisse. A menina esperava que o ser compreendesse o que significava e viesse atrás dela.

E não demorou muito para que ele estivesse em sua frente, lhe analisando da cabeça aos pés.

— Quem é você? — perguntou.

Ela arregalou os olhos antes de responder:

— V-você fala-a?

— Sim. Eu e todos os outros — seu olhar desceu dos cabelos azuis de Luzia até a ponta de seus calçados. A menina sentiu o corpo tremer e ponderou se deveria correr para longe — Dizem para vocês que não sabemos nem falar?

— Não dizem nada sobre vocês — foi capaz de dizer, controlando o medo da voz —, apenas que são seres inferiores e por isso não merecem a liberdade.

— E então o que veio fazer aqui?

— Não sei.

— Não sabe? — ele riu — Então por que me chamou?

— Também não sei — a menina desviou os olhos para o chão. O olhar negro era intenso demais.

O ser inferior deu mais uma risada de desdém e revirou os olhos:

— Já que é assim, preciso ir trabalhar por mais quatro horas para que você e as outras possam desfrutar do que quiserem e serem felizes as nossas custas. Até mais.

E ele foi pelo mesmo caminho que viera. O rapaz dos cabelos azuis e olhos escuros estava já distante quando Luzia gritou:

— Espera! Vocês têm um nome? Qual é o seu?

Ela já acreditava que ele não havia escutado ou que não responderia quando o ouviu gritar em resposta:

— Gustavo. Meu nome é Gustavo.

* *

Luzia passou o resto do dia e toda a noite pensando em Gustavo e na conversa que tiveram. Mais do que antes, ela estava impressionada. E dessa vez não era pela expressividade do olhar dele ou qualquer coisa do tipo. Estava espantada porque lhe pareceu alguém normal. Era semelhante a uma mulher nos mais variados sentidos: pensava e falava como tal. E possuía até um nome!

Refletia sobre isso o dia todo, sem saber o que fazer com a experiência. Era a única que conhecia que havia conversado com um ser inferior. Como deveria agir? Contar a todos? Espalhar que eles não eram seres malignos como ela imaginava? Ou ela ter invadido a sociedade inferior e falado com um deles era crime?

Não deveria ser errado. Não pela facilidade com que passou de uma sociedade para a outra. Ambas as sociedades deviam se temer e por isso se mantinha distantes. As mulheres temiam as histórias aterrorizantes sobre os homens serem agressivos e eles temiam a superioridade delas. Afinal, as mulheres eram poderosas e poderiam fazer o que desejassem.

Mas Gustavo não pareceu amedrontado ao falar com ela. Ele pareceu normal. E isso só fazia a curiosidade dela aumentar ainda mais.Precisava de mais respostas, de mais explicações. E era isso que faria. Já sabia o que fazer com aquela experiência: a reviver mais uma vez e descobrir mais coisas.

1 de Setembro de 2019 às 14:43 2 Denunciar Insira 3
Leia o próximo capítulo Parte II

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Karimy Lubarino Karimy Lubarino
Olá, autora! Faço parte do Sistema de Verificação do Inkspired e escrevo a você a fim de parabenizá-la por ter recebido sua Verificação nesta história. A Liberdade que Limita é muito interessante. Senti-me atraída pela trama e pela inversão de papéis proposta por ela. Foi realmente intrigante perceber a perplexidade da personagem ao perceber que os homens, na verdade, são tão humanos quanto ela. O Gustavo me pareceu ser bastante mente aberta por ter aceitado falar com ela, mas imagino que ele também não deva se sentir tão confortável quanto pareceu. Afinal, ele é escravizado nessa sociedade em que vive. Também gostaria de aproveitar para apontar alguns erros que encontrei durante a leitura. Não é nada grave, porém, como responsável pela sua verificação, resolvi apontá-los para caso você resolva fazer uma correção futuramente. 1)Concordância: "ela mesmo" em vez de "ela mesma"; "ambas as sociedades deviam se temer e por isso se mantinha distantes" em vez de "ambas as sociedades deviam se temer e por isso se mantinham distantes". 2)Pontuação: "A garota nas suas quase duas décadas de existência jamais vira um homem" em vez de "A garota, nas suas quase duas décadas de existência, jamais vira um homem"; "Luiza procurou no grupo de homens, o que havia visto" em vez de "Luiza procurou, no grupo de homens, o que havia visto". 3)Acentuação: "não lhe saia da cabeça" em vez de "não lhe saía da cabeça". Parabéns! Sua história é promissora.
11 de Outubro de 2019 às 08:34
Rodrigo Borges Rodrigo Borges
Eu realmente gostei da proposta geral dessa história, de como a personagem Luzia se dispôs a conhecer outra classe de pessoas, submetendo-se ao um mundo novo e também desgastante para saber mais sobre aqueles que tanto falavam serem diferentes. Me impressiono porque o teor é universal, não se aplicando apenas aos diferentes sexos, mas também, em metáfora, a outras categorias de pessoas. Porém, como leitor, senti falta de uma motivação mais humanizada por parte de Luzia, do que simplesmente sair para conhecer mais. Como ela nunca teve vontade de se relacionar com uma mulher, saber da existência dos tais "seres inferiores" e ter visto um pela primeira vez, talvez o desejo primitivo do sexo fosse uma boa jogada para fazer Luzia sair da sua zona de conforto e ir saber mais sobre os homens. O mesmo acontece com Gustavo. Seria bom ver em sua reação certa repulsa pela imagem que Luzia representava: uma sociedade que os oprimiam. Mas ele parece disposto demais a abrir o bico e entregar de mão beijada tudo aquilo que Luzia precisa. Uma saída que vejo como leitor, seria tirar o excesso de falas de Gustavo e colocar mais cenas detalhadas de como eles realmente viviam ali, como um tour pelas fábricas e suas vielas, mostrando, e não falando, o que acontece todos os dias com os tais "seres inferiores", como uma espécie de sadismo praticada por Gustavo contra a imagem que Luzia representa. Enfim, não pretendo fazer uma crítica vazia, então, caso eu a tenha faltado com delicadeza em algum momento, sério, mil perdões. Ademais, eu adoraria receber críticas a respeito da minha única história postada, acredito que se a sociedade se ajudar, podemos crescer muito e juntos.
1 de Setembro de 2019 às 12:35
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