Frescura Mata Seguir história

netunochase Netuno Chase

"Vai passar, é só uma fase"; "Não tem essa de ajuda, só quem pode te ajudar é você!"; "Você é forte, vai aguentar" - diziam eles. E o maior erro dela foi acreditar.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#drama #original #depressão #tragédia #suicídio #reflexão #falta-de-apoio
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Capítulo único

AVISOS: Conteúdo hipersensível, tratando de temas como depressão e suicídio.


Antes de mais nada, é bom deixar claro que existe um número sempre disponível pra quem não está se sentindo bem; 188 é este número.

Se você tem problemas de depressão ou algo do tipo e está se sentindo só, liga lá, com certeza alguém com real vontade de ajudar estará lá para te atender!

E se você tá procurando um ombro amigo, posso tentar oferecer! Chama no privado ou manda mensagem: 11 96881-3048; apoio nunca é demais.

É isso, espero que se sensibilizem com a história e entendam a importância de SEMPRE PROCURAR AJUDA!


**********

Lara se olhou no espelho e suspirou. Gorda e negra, era o que ela era. Isso não devia significar muita coisa, era sua aparência, e era bonita se fosse olhada de um ponto de vista não preconceituoso e aberto a beleza fora dos padrões. Mas infelizmente, a sociedade é feita mais de pessoas preconceituosas do que de pessoas abertas as diferença.

O resultado disso era que pessoas como Lara - ou seja, pessoas fora do padrão - não se amavam. Já é difícil para qualquer mulher se amar, pois os padrões femininos são muito mais estreitos nesse mundo. Então imagina-se facilmente que para Lara a tarefa é muito mais difícil.

A baixa autoestima era um agravante em suas questões pessoais, na sua "tristeza" que ela julgava ser depressão, mas que ignorava pelos comentários alheios.

"Não tem nada a ver, isso de depressão é frescura."; "Amiga, se você emagrecer um pouco aposto que melhora!"; "Você é forte, sabe lidar com isso sozinha, não precisa perder tempo com psicólogo."; "É só questão de reflexão e força de vontade que você supera."

Esses eram os mais comuns, os mais irritantes no início. Agora nem importavam mais, Lara estava na inércia, nada mais parecia despertar-lhe realmente algum interesse. Mas não era depressão, ela era forte, não podia ter aquelas coisas. Tinha uma família pra cuidar, com seus dois filhos e marido, que também nada viam de seu estado deplorável. Lara estava sozinha mesmo repleta de pessoas "próximas". Ela estava sozinha e sequer percebia o quão grave era aquilo, sequer entendia o impacto daquilo em sua situação.

Saiu do banheiro e seguiu para a cozinha, pronta para comer a fim de se preparar para o trabalho. Não sentia vontade de ir, mas precisava. Suspirou novamente e sentou-se na mesa para se alimentar. Aquele ia ser um longo dia...


****


As lágrimas caíam sem cessar. Não eram controláveis, simplesmente caíam uma atrás da outra, e sem um motivo. Lara estava trancada no banheiro há uns cinco minutos, tendo uma crise que começara do nada, sem aviso prévio e no meio do trabalho. Céus, aquilo não podia acontecer naquela hora! O que havia de errado consigo? Era tão fraca assim? Inútil? Incapaz de lidar com seus problemas sozinha?

"Por que não consigo lidar com isso? Por que estou chorando sem motivos? Qual é o meu problema?" – pensou consigo mesma enquanto tentava limpar as lágrimas sem sucesso algum. Ela estava tão cansada daquele sentimento de vazio, daquele nada mórbido que preenchia sua alma. Não queria estar ali trabalhando, mas não queria estar em casa também.

"Queria estar morta. Não sirvo mais pra esse mundo, o que ainda faço aqui?" – aquele pensamento invadia constantemente sua mente nos últimos tempos, mas naquele momento, veio com tanta força que Lara sentiu as pernas cederem, levando-a ao chão. Caída de joelhos, teve certeza que havia arranjado a solução para seu problema. Ninguém se importava afinal, não iriam sentir sua falta. E finalmente ela teria paz; de qualquer forma já estava morta mesmo, sua alma nada mais sentia, não havia nada ali, apenas um corpo sendo obrigado a continuar suas tarefas rotineiras. Mas aquilo ia acabar, Lara acabava de decidir que assim seria. Num impulso súbito, levantou-se de uma vez e enxugou as lágrimas, não podia deixar que vissem. Logo elas nunca mais rolariam também, então podia segurá-las mais um pouco.

Saiu do banheiro assim que terminou de lavar o rosto e foi em direção aos armários, pegando sua bolsa e tudo que possuía. O RH não sentiria falta dela, ninguém sentiria. Após ter pego todos os seus pertences, saiu sem sequer dar satisfação a uma alma, apenas se foi. Aos que perguntavam-lhe, ela dizia apenas que estava passando muito mal e que depois se acertaria com a gerente. Sem despedidas, sem palavras falsas, sem muitas desculpas. Não havia tempo.

Foi até o estacionamento e entrou em seu carro, tinha um destino certo. Até a praia do Boqueirão levaria apenas alguns minutos, e naquele momento Lara não podia agradecer mais por morar em Santos e trabalhar no RH Libras. Se pensasse bem, podia concluir que era o destino agindo a seu favor. Estava tudo lhe favorecendo naquele momento; o dia estava nublado e chuvoso, – uma raridade em Santos – quase não tinham pessoas na rua, e graças ao tempo a praia estaria vazia. Haveriam alguns barcos velhos por lá, com certeza, porém ninguém para realmente vê-la ou impedi-la. Estava prestes a realizar uma cena de filme, a ideia viera do nada e lhe parecera prática e fácil de fazer, e sem riscos de falha. O tempo até seu destino era pouco, não seria o suficiente para fazê-la refletir racionalmente sobre o assunto.

Dez minutos após sua louca corrida até a praia do Boqueirão, ali estava Lara estacionando sua Tucson preta. Não tinha tido trabalho para arrumar vaga, pois como o previsto, a praia estava vazia. Já com o carro parado, esticou-se até o banco de trás - onde jazia sua mochila - e pegou-a com pressa. Esvaziou seu conteúdo, chacoalhando o objeto com fúria. Estava desesperada, não havia tempo para perder, precisava aproveitar aquele impulso de coragem.

Sim, coragem para dar um fim naquela existência inútil que era a sua. Fraca, gorda, feia e patética, não possuía nada de bom para oferecer; virudes físicas: zero. Virtudes de caráter: menos um. Era assim que se enxergava, e fora aquela baixa autoestima, possuía inúmeros transtornos que ajudavam-na a afundar-se ainda mais naquele poço.

Mas infelizmente, sem apoio e sem compreensão, Lara não via que aquilo era depressão. Sabia sobre a doença, aliás sabia muita coisa relacionada ao ser humano devido ao seu trabalho. Quantas vezes já lidara com casos de depressão no RH? Com trabalhadores que tiravam licenças longas por causa da doença, ou até mesmo pediam demissão por não aguentarem mais? Não que cuidasse daqueles casos, mas as notícias sempre se espalhavam, e cabia a Lara garantir o direito de cada trabalhador naqueles casos graças a área que lhe era confiada. Mas mesmo lidando indiretamente com a situação, a mulher tinha uma noção da doença.

Porém quando algo acontece conosco, é mais difícil de aceitar, ainda mais quando todos fazem questão de mostrar o quão nós não podemos viver tal situação. De acordo com todos que a rodeavam, Lara não possuía um motivo para ter depressão. Era bem sucedida, tinha uma ótima família, um bom emprego, uma bela casa e carro, uma localização ótima – considerando que muitos dariam tudo para morarem em Santos (ainda mais perto das praias).

E graças a tudo o que ouvia, Lara acreditava que não estava doente, mas sim que era um peso excessivo no mundo, um peso fraco que não conseguia lidar com seus problemas. Sua solução para o problema era covarde, sabia daquilo. Porém tudo o que fazia era covardia, Lara era uma covarde, então não fazia diferença afinal. O que importava era que livraria as pessoas de terem de lidar com sua fraqueza. Livraria as pessoas do desgosto de sua companhia. E o mais importante; se livraria daquela vida sem sentido, vida vazia e perdida.

Finalmente saindo do carro, a mulher se direcionou a um local específico da praia; um canto mais afastado no lado norte em relação a posição do seu corpo. Lá encontravam-se rochas fincadas no chão, além de pedras pesadas que se soltavam das suas raízes graças a insistência do mar. Naquele momento a maré estava alta e o mar extremamente agitado devido ao vento forte que soprava. A chuva tinha parado, mas ameaçava voltar a qualquer instante.

Satisfeita com o "deserto" frio em que se encontrava, Lara pôs-se a pegar as mais pesadas pedras que via pela frente a fim de jogá-las na mochila que carregava. No local afastado onde se encontrava, ninguém que passava de carro ou a pé na rua (se é que tinha algum louco fazendo aquilo no momento) poderia enxergá-la, portanto não havia risco de interrupções.

Lara entupiu a bolsa com o máximo de pedras que pôde, até quase não conseguir mais levantá-la. Com muito esforço, jogou-a nas costas e pendeu para trás devido ao peso. Demorou um bom tempo até se estabilizar em pé e conseguir equilíbrio para andar.

Quando finalmente conseguiu, começou a caminhar em direção ao seu destino. A mochila pesava muito, mas Lara não se importou, apenas continuou caminhando até o mar. Chegou na beira dele, e pode sentir a água gelada invadir seu tênis, trazendo consigo a areia. O vento gelado açoitava seu rosto, agitando a água que corria por seus pés.

Devagar, a mulher foi andando dentro da rasidade do mar, no objetivo de ir até a parte mais funda que pudesse alcançar. Sentia agora a água gelada agredir sua pele por baixo da roupa, mas aquilo não importava; nada importava na verdade. Lara estava disposta a pagar o preço que fosse, até porque sabia que aquela era a dor e agonia que antecediam a calmaria – isso no seu ponto de vista naquele momento.

Depois de alguns longos minutos, a mulher já podia sentir a água em seu pescoço, afogando-a a cada onda que vinha. Mesmo assim, ela continuou seu caminho até imergir completamente. As águas cobriram-na até a cabeça, e Lara sentiu o gosto do sal, além de sentir a água agredir seus olhos. Após mais alguns passos desesperados, seus pés se perderam e ela sentiu que ia afogar-se.

E então, a ficha caiu: ia morrer, e nunca mais veria a luz do sol a brilhar. Quando se deu conta disso, sucumbiu totalmente ao desespero. Lara tentou nadar, mas o peso da mochila em suas costas a impediu. Desvencilhar a bolsa do seu corpo não era mais possível; sua razão havia se esvaído, levando consigo a coordenação motora.

Um filme passou pela sua cabeça em um milésimo de segundo; família, amigos, sonhos há muito esquecidos... Sua vida descortinava-se em sua mente num flash rápido e doloroso. Era a primeira vez em tanto tempo que Lara conseguia se recordar dos momentos bons, porque antes era como se eles nunca tivessem existido.

Se ela estivesse num roteiro de filme, naquele momento alguém apareceria do além para salvá-la, posteriormente podendo até tornar-se o amor de sua vida. E apesar do método suicida escolhido ter sido inspirando em filmes, aquele não era um. Ninguém surgiria do nada para salvar Lara, e aquele seria o seu fim.

Fim de uma vida que poderia ter se prolongado caso tivesse buscado ajuda, superando assim a "frescura" fatal – que provava naquele momento que nenhuma doença devia ser subestimada. Mas aquilo não aconteceria, aquela vida não se prolongaria, e enfim todos se dariam conta de que não fora só uma fase ruim, só então perceberiam o quanto haviam atrapalhado com seus discursos "motivadores".

Depois de uns minutos naquela luta, o corpo de Lara cansou-se e começou a deixar-se levar pelas ondas, enquanto a alma da mulher chorava lágrimas que seu eu físico nunca poderia expelir. O que quer a esperasse do outro lado não seria nunca capaz de apagar o sentimento de arrependimento que transbordava do seu ser.

Os pulmões se encheram d'água, agora sem ter oxigênio algum. A mente dela se apagava aos poucos, sussurrando repetidamente a frase: "é o fim, você destruiu tudo." Aquele foi seu último pensamento.

Lara acabava de deixar o mundo, sem ao menos ter a oportunidade de saber que não era culpa dela. Morreu sem saber que todos aqueles que a pressionaram para que aguentasse sozinha também eram culpados. Na Terra, em seus últimos momentos, Lara não sentiu paz nem alívio, mas sim dor e arrependimento, além de culpa.

E o que lhe aconteceu no pós morte não pertence a nós saber, porque esse é um direito reservado aos mortos, e só eles sabem.



31 de Agosto de 2019 às 16:40 3 Denunciar Insira 3
Fim

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Netuno Chase Afogando as mágoas na escrita! Contas: Wattpad; Netuno_Chase Spirit; Netuno_Chase2

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Blue Martell Blue Martell
Achei incrível e de uma sensibilidade extraordinária. Lara é, assim como eu imagino, a versão mais crua do suicida. Muita gente diz que se matar seria um alívio, uma redenção, mas vemos que não. Há só culpa, desespero e dor. Sinto muito pelas Laras que ainda estão por aí, esperando apenas uma oportunidade pra ter pedras na mochila e se atirar ao mar.

  • Netuno Chase Netuno Chase
    Obrigada pelo comentário, incentiva bastante! Pior de tudo é saber que eu conheço uma Lara, convivo com ela todo dia e não sei como ajudar. Eu tento, mas não sei se possuo um sucesso. Pelo menos eu sei que a mochila ela não vai encher de pedras, por consideração a mim e a família, mas ainda assim dói saber que se não fosse isso, talvez ela já tivesse se jogado ao mar sem pensar duas vezes. Tomara que essas Laras cheguem aqui antes de chegarem ao mar, para terem uma dimensão do que as espera, e então mudarem de ideia enquanto há tempo né. 2 weeks ago
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