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Em progresso - Novo capítulo Todas as Sextas-feiras
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Para me conhecer

São 14:22 de uma tarde chuvosa no sul do Brasil e eu não sei bem o que vou escrever aqui mas esse é o desabafo.

Veja, eu sempre soube que era diferente mas ouvir isso de alguém com um diploma médico nunca é fácil. A história curta e simples é que meu cérebro não funciona como deveria, meu humor flutua do bom para o mau em poucos minutos e bem, eu projeto imagens mentais de coisas que na verdade não existem. Apesar de meus problemas aumentarem no ano de 2016 por causa de um pico de estresse muito alto, eu identifico sinais da desordem desde a minha infância. Eu sempre fui diferente.

Enquanto as crianças ocupavam o dia olhando na tv um programa de uma famosa apresentadora, eu ficava na rua estudando caracóis porque achava engraçado como eles caminhavam devagar.

Para as crianças eu era estranha, para os adultos excêntrica. Tem amigos de infância que não falam comigo hoje porque eles não sabem lidar com o que eu me tornei.

Eu não tenho vergonha de ser diferente, eu já tentei muito me encaixar na sociedade imitando o que as outras pessoas faziam, só que não adianta, eu sempre serei a menina retraída e estranha que não tem maneiras sociais.

Eu queria gritar para todo mundo que está tudo bem, que eles podem ser meus amigos, que eu sou estranhamente normal.

Mas sabe, a sociedade precisa que todos sigam um padrão de comportamento para funcionar como uma engrenagem, e eu sou um desvio do padrão, sou como um elemento corrosivo que enferruja a engrenagem e faz com que tudo exploda e se torne uma bagunça.

Mas não sou a única assim, cada vez mais nascem cérebros diferentes. Ser diferente também é ser normal.

Veja, eu sinto quando as pessoas me desprezam por ser diferente, isso dói, porque tenho sentimentos como qualquer oura pessoa.

A sociedade está claramente doente, despreza qualquer diferença mas é formada por elas. Somos seres únicos e plurais, organismos parecidos e diferentes ao mesmo tempo. Parecidos por sermos da mesma espécie e mesmo assim com códigos genéticos diferentes.

O padrão está se desfazendo enquanto falamos e as grandes massas seguem míopes acreditando que quanto mais esteticamente e mentalmente parecidos, melhor.

Alguém, lá em cima na cadeia de poder espera que nos tornemos robôs, seres obedientes que não tem pensamento próprio.

Discutimos sobre isso outro dia na aula de filosofia.

Eu sinto que o que eu sou não parece ser suficiente para a sociedade, eu não me encaixo no padrão: Nasça, estude, trabalhe e morra.

Meu cérebro pensa e analisa tudo cuidadosamente, as vezes eu penso até demais. Eu quero fazer algo que eu gosto, ser alguém, fazer a diferença nesse mundo, ser um desvio de padrão bem aproveitado. Eu queria gritar a minha verdade para que o máximo de pessoas pudesse ouvir, mas provavelmente seria colocada em uma instituição que cuida da saúde mental, então eu escrevo. Escrevo em um novo blog furiosamente como se cada dia fosse único e como se minha vida dependesse disso. Eu escrevo.

Depois de sair da consulta com o psiquiatra, eu tinha um questionamento. Minha mãe notou que eu estava séria e pensou que eu não tinha gostado do médico, mas não era isso eu estava simplesmente pensando. “Ok, eu não sou igual as outras pessoas, mas será que eu sou suficiente?”

Suficiente para mim, será que eu me basto?

De novo pensando demais.

Emocionalmente, alguma parte de mim luta para se encaixar na sociedade enquanto outra parte quer que eu me expresse como o ser diferente que sou, como se tivesse dois bonequinhos coloridos brigando dentro da minha cabeça, como em inside out. Na verdade, eles não estariam brigando fisicamente, seria mais como uma discussão baseada cientificamente com dois bonequinhos de óculos conversando ao redor de uma mesa.

Será que eu sou suficiente?

Suficiente para deixar uma marca no mundo?

Emocionalmente eu sou uma bagunça, sempre oscilando dos bons dias para os maus, esses dias tem sido maus a um bom tempo e eu estou lutando para sair do buraco.

Novo médico, medicação muda, eu me sinto bem por um tempo e depois sinto mais do mesmo, da escuridão que teima em me cercar.

Aí vem um novo médico e mais testes de medicação, eu me sinto um ratinho no grande laboratório da vida, sempre correndo atrás do prejuízo.

Eu não estou esperando uma cura milagrosa, porque eu sei que Deus tem algum tipo de missão maluca para mim dentro da minha estranheza, eu só quero ter uma vida funcional?

É pedir muito?

Eu tinha muita fé, mas ela parece ter desvanecido quando os dias maus chegaram, agora ela é um grão de mostarda.

Um grão de mostarda que acredita que Deus tem suas razões para me criar diferente, que acredita que ele deve ter um plano bem maluco para a minha vida no futuro.

Se eu me tornar pesquisadora de ciências humanas ou não, eu vou esperar pelos planos Dele.

O grão de mostarda resiste.

Hoje eu sou suficiente, com o tratamento e a ajuda adequada, talvez amanhã eu não seja mais, a vida é uma grande linha cheia de curvas que ocorrem de maneira diferente para cada pessoa.

Para mim as curvas são rápidas como um carro de fórmula 1, meus sentimentos borbulham na garganta como se cada mal dia fosse o fim do mundo, mas hoje o dia está bom, hoje eu sou suficiente e vou aproveitar apreciando quem eu me tornei. Hoje eu sou suficiente e vou aproveitar, vivendo um dia por vez.

30 de Agosto de 2019 às 16:59 1 Denunciar Insira 1
Continua… Novo capítulo Todas as Sextas-feiras.

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Ironi Jaeger Ironi Jaeger
Tenho orgulho de você. Tens um coração bom e um talento nato para a escrita. E acredite, és melhor do que as pessoas ditas normais que viram o rosto pra ti. Beijos a tia te ama.
31 de Agosto de 2019 às 07:16
~