Les Fleurs du mal Seguir história

psiu_psycho Billy Who

Perseguido por uma sombra, Tomas Wally, um músico renomado que compôs em homenagem à Baudelaire uma sinfonia, passa a divagar à respeito de seu talento, enquanto os versos de "As flores do Mal" são evocados por uma presença monstruosa que tem mais à dizer que ele imagina. *Esta história contém trechos retirados da obra de Charles Baudelaire*


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#suspense #drama #charles-baudelaire
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T-Wally.

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Leitor pacífico e bucólico,

Homem de bem, austero e lhano,

Joga fora este saturniano Livro, orgíaco e melancólico.

Se não herdaste o dom hipnótico De Satã, o astuto decano,

Irias ler-me por engano,

Ou me terias por neurótico.

Mas se, sem teus olhos piscar,

Do abismo os horrores conheces,

Lê-me afinal que me hás de amar;

Alma curiosa que padeces

E buscas no éden teu abrigo,

Tem dó de mim... Ou te maldigo!

EPÍGRAFE PARA UM LIVRO CONDENADO - Charles Baudelaire


As retinas fixas em um ponto no espaço, mirando através do teto branco onde o gesso acetinado imitava nuances de penas, o espaço, longínquo, onde outrora um anjo havia caído.

Estava acabado, um céu amargo, um céu sem nuvens onde trombetas agora não eram bem vindas, onde não haviam portões perolados, onde apenas o vácuo habitava, e ainda assim olhava para baixo, carrancudo e furioso.

Os irritantes tique-taques do relógio imitavam batidas do coração, deixando qualquer som isolado no mais perfeito silêncio que ostentava todo seu peso, uma densa parede separava o mundo barulhento daquele ambiente austero onde o branco parecia ter consumido tudo, sequer as moscas ousavam entrar, o cheiro adocicado da morte em olhos frios, parados.

Paredes cobertas de papel cor de marfim, uma cama bem arrumada, o leito final.

Não havia nenhuma plateia para maldizer seus atos.

O vácuo fitava o vácuo, um abismo de espelhos que se encaravam, os olhos castanhos nada mais tinham a dizer, apenas e tão somente o nada do não existir.

Enfim, a paz.



Uma semana antes.

Aspirinas não resolviam mais, era o veredicto final.

Lá fora a chuva caia tão intensamente que fazia tudo ser tornar um branco até os limites onde a vista podia ver, carros e buzinas soavam altas e as copas das árvores emitiam uivos que se assemelhavam a gritos de violinos, mas ali dentro as aspirinas já não resolviam mais e mesmo assim, não era como se fosse uma parte circunstancial para mais ninguém. Não havia sido ele quem certa vez havia deixado claro que seus problemas eram seus problemas e de mais ninguém?

Com a voz da juventude, o frescor da adolescência havia se apossado de sua garganta quando se amaldiçoou e foi embora, sem jamais olhar novamente para trás.

A vida é minha”, havia dito, desde então, realmente lhe pertencia, tal como todas as suas desculpas e escolhas e pecados e fardos e prazeres e amarguras e...

A vida era sua, tal como sua enxaqueca, ninguém lhe devia nada e assim, a enxaqueca vinha no mesmo fardo irônico, sim, era problema seu e de mais ninguém.

Tragueou o cigarro, enquanto observava a chuva, as pessoas correndo de um lado ao outro, tão estupidas, tão pequenas como formigas que não compreendem que toda aquela correria era tudo em vão. A morte iria chegar, não importava o quão elas corressem, se sujeitando à ideia que corriam para não se molharem.

As pessoas apressadas apenas correm de uma coisa, a morte, e esta, lenta e certeira não se importa com passos rápidos, suas garras se envolvem em toda criatura viva.

Apagou o cigarro, sentindo-se pouco culpado por fumar ainda em público, mesmo que a área de fumantes do teatro estivesse completamente vazia, seu vicio era problema seu também.

Verificou o relógio de pulso, o fim de tarde nada representava para a chuva que transformava aquele momento em uma quase noite cinzenta, nem eram seis horas e era como se tudo estivesse sendo consumido pela tediosa coloração.

Virou o corpo em direção ao camarim do auditório e os passos ponderados, único som naquele imenso vazio de mármore e chão de tablado parecia preceder uma marcha de homens, mesmo que tenha olhado para trás duas vezes, apenas ele estava ali, sozinho, como sempre, mesmo que acompanhado da enxaqueca que já havia se tornado uma velha amante. Os olhos, pouco curiosos olhavam para fora, a rua lá embaixo quase desértica se não fosse pelos carros na travessia, as pobres ovelhas já haviam corrido e estavam em segurança, com exceção de uma.

Franziu ligeiramente o cenho ao focar os olhos em um homem de estatura alta, esguia, vestia preto e andava lentamente, trazia em suas costas uma case gigantesca que em vez de arrastar como todo musico de apoio, parecia um samurai de violoncelo, o carregando errado, como uma espada.

E tal homem estava com o queixo, bem formado, erguido diretamente para o terceiro andar do teatro, olhando para ele com o mesmo interesse que era vigiado, mesmo de baixo de toda aquela chuva.

Que petulante”, pensou crispando os lábios.

A curiosidade o fez diminuir os passos, ao mesmo tempo em que o homem do outro lado da rua o imitava, andando agora lentamente sob a chuva. Não podia distinguir seu rosto, apenas pontinhos em uma massa pálida onde olhos e nariz, não eram distintos, mas uma boca enorme parecendo um risco feito à faca se projetava de maneira horrorosa; era um sorriso.

Um arrepio de asco percorreu sua coluna, o fazendo parar onde estava e se inclinar para olhar, tentando abrir os olhos o máximo que podia, para tentar entender a patética situação. Não era possível que alguém tão baixo, tão longe e ainda assim sob a chuva estivesse o vendo, não seria possível mesmo assim que estivesse o reconhecendo, isso estava fora de cogitação.

Permaneceu parado, os olhos arregalados ao homem que, também, parado e sorridente fazia uma reverencia debochada, fazendo seu observador soltar uma risadinha frouxa que se tornou um longo suspiro exausto, a mão esculpida em veias se ergueu em direção aos cabelos que em um gesto jogou para trás de modo elegante e arrogante, os olhos escuros fixos no homem que ria, pelo que via, gargalhava.

Olhos de espelho que refletiam apenas o que ele enviava, um oceano vazio, escuro, com imundície que faria um herege ser inocentado, o frio da desolação, onde o odor maculado por respingos de imoralidade, de insolência...

Sorriu em retribuição, acenou, obtendo como resposta um aceno reflexivo.

T-Wally! — disse a voz que o fez se virar completamente, fazendo se sobressaltar de sua recente distração.

Os sons da chuva ainda caiam insistentes quando virou o rosto, à tempo de ver uma moça de traços marcantes e orientais, vestia um pulôver preto de gola alta, uma saia lápis da mesma cor, deixando as pernas esguias surgirem logo abaixo, onde findavam em sapatos de salto alto, estes faziam renitentes sons ecoarem pelo ambiente silencioso, de modo irritantemente impar. Trazia consigo uma prancheta e rosto afobado.

T-Wally, o homem ao lado da janela lançou um novo olhar para a avenida castigada pela chuva, a fim de tentar dar uma última olhadela para seu sósia do outro lado da rua, mas ele havia muito provavelmente entrado no teatro.

— Venha! — dizia a moça, muito exasperada a ponto de estar ofegante. — A apresentação começa em sete minutos!

A pressa. A pressa sempre precedia os vivos onde quer que estivessem.

Seguiu-a em silêncio, pensando consigo mesmo que ainda não estava vestindo sua carcaça exuberante, não, ainda não era o T-Wally, que direito àquela mulher tinha de chamá-lo assim? T-Wally era o astro, o novo prodígio do violoncelo que alcançou uma fama exorbitante que se alongava além dos palcos restritos para a música clássica, muitos jovens estavam ouvindo em seus iPods e aplicativos modernos, mesmo que sua veia de orquestra ainda estivesse presente, devido á roupagem completamente nova, exprimia a alma humana com seus acordes e segundo muitos dos seus fãs, fazia poesia onde nenhuma voz precisava ser entoada.

No momento, estava em uma grande tour pelo país, que logo se estenderia para o estrangeiro. Seu álbum novo era sombrio, sôfrego e quase arrogante. Um colunista da Rolling Stones chamou de “tão amargo e belo como os poetas malditos” e por tal ironia, compôs uma das canções intitulada “Les Fleurs du mal”, assim como o poema de Baudelaire.

As flores do mal de Baudelaire que cresciam e se enraizavam dentro do âmago sôfrego do poeta, mas fertilizavam, lhe dando tardiamente o título de poeta do século. Não esperava nada menos que isso para si mesmo, pois a mesma boca que um dia deixou para trás a própria família e gritou por liberdade, também fez uma prece baixinho, entre a miséria e o desespero; “eu dou a minha alma se necessário para alcançar o sucesso”.

— Eu dou a minha alma... — repetiu para si mesmo, no corredor que agora penetrava logo atrás da mocinha que se virava para encará-lo, confusa, mas ele apenas deixou um sorriso resignado e passou por ela, adentrando o camarim.

Sentou-se em frente ao amplo espelho, observando seu rosto no reflexo, vendo ali a figura do homem, Tomas Wally, um homem de cabelos fartos, castanhos, olhos penetrantes e escuros, que fixavam sem mostrar interesse por nada que não fosse o próprio reflexo.

É o Tédio! O olhar esquivo à mínima emoção. — entoou alto, enquanto duas meninas trabalhavam em seu cabelo, e um rapaz europeu estava se debruçando para maquiá-lo.

Ninguém disse nada, sabiam o quanto era exigente nos momentos finais de preparação para que o gênio da música surgisse, mas sabiam com perfeição o que ele estava entoando, o poema que tanto o inspirava, “As flores do mal”.

Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado. — a risada jocosa começou a brotar quando seus cabelos tomavam a forma desordenada e charmosa, contendo uma longa mecha castanha cobrindo parte do rosto bonito e masculino, onde maquiagem esfumaçada realçava seus olhos que agora adquiriam uma coloração clara, esverdeada devido à lente. Os lábios sorriam, era única parte que via no reflexo tendo a mão de um dos maquiadores o cobrindo parcialmente, para que quando abrisse os olhos, visse a figura montada completamente de T-Wally que sorria daquele modo despudorado, selvagem. Inclinou-se se encarando nos olhos como se fosse um desafio e passou a declamar de forma sussurrada, quase lascivamente o restante do poema. — Tu conheces, leitor, o monstro delicado. Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!

Ergueu-se de um rompante e vestiu o terno de cetim, preso em frente ao peito por fivelas, ouvindo em suas entranhas o burburinho do clamor por sua música. Andou agora de modo elegante entre a fileira da equipe que fazia uma mesura, se direcionando onde sua amante o esperava para ser possuída.

Sentia o furor entorpecente da adrenalina à medida que os pés o guiavam para o leito nupcial, o palco, onde a tomaria com selvageria e habilidade, a enxaqueca era algo que já não lhe pertencia mais, aquilo era coisa de Tomas Wally, para si apenas rasgar o silêncio da maneira mais sensual possível importava, como se estivesse até mesmo estuprando o silêncio, rompendo sua inocência com clamores malditos do íntimo, dando de si para alimentar a multidão.

As cortinas se abriram a sua frente, não via nada, não via ninguém, como se as palmas e toda euforia que chegava para lhe arrepiar a pele não passasse de uma distração sem fundamento. Era amado, isso não restavam mais dúvidas e por tal razão o público nada mais era que apenas um grande aglomerado de cabeças e vozes, corações palpitantes e devoção; não precisava conhecê-los individualmente para saber que por baixo das luzes, estavam lá.

Direcionou-se ao seu banco, colocando a amante entre as pernas, acariciando suas curvas gentis com carinho, deu de mão ao arco e posicionou a mão esquerda no braço do instrumento, fechando os olhos momentaneamente antes de começar.

Ao abrir os olhos a primeira nota grave soou.

Passou a tocar de maneira rápida e experiente, as luzes diminuídas possibilitava ver a plateia estarrecida.

Ele não toca assim tão bem”, um sussurro chegou até seus ouvidos, fazendo com que os olhos percorressem os camarotes do teatro, onde a madeira pintada de dourado fazia menção á ouro, os tecidos carmesim assim como as cadeiras pareciam ligeiramente desfocados, precisando cerrar os olhos para encarar os rostos disformes, rostos que agora não lembravam caras humanas, mas apenas pele retorcida, sem olhos, sem narizes e sem bocas, apenas sussurros chegavam até si.

O suor estava escorrendo lentamente por seu pescoço enquanto os olhos vasculhavam aquelas pessoas, o arco que dançava sobre as cordas.

“Ele parece estranho hoje”.

Piscou algumas vezes, tentando manter o foco.

“Ele nunca tocou sem alma assim”.

Sorriu para si mesmo, negando, era tudo sua imaginação, nada daquilo era real, nada daquilo estava sendo dito realmente.

Os olhos focaram no final do amplo corredor, entre as cadeiras centrais, e lá ele observou o monstro da chuva entrando, batia palmas e agora ria mais alto ainda, mesmo que todas as pessoas estivessem ignorando completamente, trazia arrastando consigo seu próprio cello, como se sequer pesasse, as roupas escuras e molhadas pingavam gotas de chuva no chão, o sorriso escancarado e olhos atrozes o encaravam com malícia.

Era a si mesmo, o tempo todo, aquela figura ousada era a si mesmo e enquanto tocava, desesperadamente sabia, era T-Wally. Era T-Wally e no palco apenas restava Tomas Wally que agora sentia os fisgares da enxaqueca.

— Não... — sussurrou, tentando ignorar o desespero.



DIA 2

A apresentação havia sido um sucesso. Lia nos jornais e revistas, cada site que era mencionado dizia ter visto menções á outros paralelos, como sempre confessavam sobre o poder hipnótico de sua música, considerado por tantos como algo sobrenatural, havia até mesmo o relato de uma garota que disse poder ter visto Deus em um transe autêntico ao escutá-lo frente a frente.

Sua equipe lhe parabenizou, afirmou ter entendido certas referencias que desesperadamente ele não tinha a menor ideia sobre o que estavam falando.

Certa vez ouviu sobre um tal escritor, chamado Ren-Qualquer Coisa, em uma coluna da revista “Ito Magazine”, dizia que ele havia trazido a própria escrita para a realidade de carne e osso e esta inspiração o acabou fazendo escrever tanto que definhou, ao ponto de morrer de inanição, mas a medida que lia cada vez mais sobre os elogios para si, mais furioso ficava, pois sabia que seu caso era totalmente reverso; havia sido sua pior apresentação, não havia tocado com alma, pois sua alma estava pregada no altar do inferno.

E com sua alma vagueando por ai na forma de seu alter ego, não restava nada se não um homenzinho comum e distraído. Ainda sabia tocar, poderia viver disto, mas não havia mais alma.

Acabou.

Como ainda podiam olhar para aquele desempenho sem alma e elogiar algo tão, tão vago?

Acabou.

— Acabou. — disse quase como se estivesse recebendo a noticia de um câncer cerebral. — Acabou.



Dia 3

Barbeava-se em frente ao espelho, este que negava altamente que aquele mesmo homem fosse o famoso violoncelista, apenas um ser humano que no silêncio do banheiro levava o barbeador á água e lá deixava uma melodia, a água se movendo, o pingo insistente, o raspar dos pelos curtos do rosto, a apatia desmoralizante ao perceber que sequer os sons produzidos por aquele gesto pareciam atraentes, eram mais como uma série de trítonos proibidos e mal tocados, parecia evocar o demônio a cada som que fazia, sua voz, soava dissonante, os passos fora de ritmo, até mesmo um simples gemer da amante que tanto prezava parecia como um sexo forçado, um grito de socorro.

Apoiou as mãos na pia, deixando cair a lâmina que se barbeava enquanto encarava a cuba branca da pia, com água e espuma, vendo pequenas gostas de sangue pontilhando a pureza. Ergueu os olhos para si, à fim de investigar onde havia sido o corte e se deparou com um rosto maquiado, sorridente e mascarado a lhe observar.

As costas bateram contra a parede fria e os pulmões se encheram de ar, enquanto via no reflexo a imagem de T-Wally lhe encarando e zombando, enquanto declamava.

A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez

Habitam nosso espírito e o corpo viciam,

E adoráveis remorsos sempre nos saciam,

Como o mendigo exibe a sua sordidez”.

Com um salto pela porta do banheiro, jogou-se para fora fechando a porta e sentiu o piso de carpete abaixo do corpo, quando caiu, ouvindo as risadinhas de uma voz masculina e grave terminar de declamar em tom debochado, ironicamente não se remetia a sua própria voz, mas a dele, a dele. A voz da alma.

Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;

Impomos alto preço à infâmia confessada,

E alegres retornamos à lodosa estrada,

Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça”.



Dia 4

Havia sido arrogante, imaginando que todos os prazeres que a fama lhe trouxe não poderiam jamais arruinar sua alma, como se ela fosse de fato um item seu e apenas seu, como se até mesmo a fonte inesgotável jamais pudesse secar, mas percebia com horror que havia sido irresponsável; a fonte secou e com ela, trouxe a putrefação que coisas mortas trazem.

Sequer era melancolia o que sentia, quiçá rancor, mas um corpo sem alma, um cello sem um violoncelista é tão útil quando o instrumento sem ser tocado.

Sentou-se para tocar mais uma vez, pois ainda assim era teimoso, gostaria de sentir prazer mais uma vez, mas lá estava á sua espreita o T-Wally, zombando de que queria partir, não eram mais um do outro, sequer amigos, conhecidos, mas dois estranhos.

Não apenas isso! Não dois estranhos, mas dois estranhos que se odiavam.

Teimoso, encarando a figura risonha que o encarava do umbral da porta, tocou sentindo o desespero em possuir no lugar da alma um buraco gigante, um buraco que o deixava translúcido e mortal, sabia como tocar, sabia, mas por que... Por quê?

— Por quê? — gritou se erguendo e jogando o pesado instrumento contra a parede, fazendo uma fisgada de dor ser sentida em seu ombro, justamente o ombro da lesão que há tantos anos não o havia impossibilitado de tocar, mas agora nem mesmo a dor, a enxaqueca, o ombro ferido eram tão devastadores quanto o orgulho sendo lacerado.

T-Wally, da porta observava seu tormento sem comoção, apenas um vigia que parecia estar em estado avançado de decomposição. Os olhos esverdeados pareciam pálidos de mais, os lábios antes tão belos e saudáveis, macilentos onde ostentava um sorriso sem razão, insano.

— Sabe como As flores do mal termina, não sabe?

— Me deixe em paz! — berrou levando as mãos á cabeça.

“É o Diabo que nos move e até nos manuseia!

Em tudo o que repugna uma joia encontramos;

Dia após dia, para o Inferno caminhamos,

Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.

Assim como um voraz devasso beija e suga

O seio murcho que lhe oferta uma vadia,

Furtamos ao acaso uma carícia esguia

Para espremê-la qual laranja que se enruga”.



Dia 5

Ele entoava e entoava, aquelas frases infernais sem parar um só momento. O poema maldito, aquele que havia servido um dia de inspiração nada mais era que uma praga. Não havia mais talento algum, não havia mais alma, por mais que tentasse — e tentou ao ponto do pulso se endurecer, uma corda romper e chicotear nos dedos que sangrando, agora sem ajuda de nada mais, dedilhavam as cordas com total desespero.

Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos,

Em nosso crânio um povo de demônios cresce,

E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce,

Rio invisível, com lamentos indistintos.

Não era culpa do poema, não. Ele era apenas um lembrete de seu fracasso, de sua morte em vida por ter se deixado seduzir para algo que corroeu sua alma, infectou.

O que haveria de ser? O orgulho? A luxúria? A loucura ou a cegueira?

Jamais tive alma”, deu-se de conta enquanto ria e fazia os sons ecoarem pelo apartamento.

— Jamais tive alma alguma! Jamais tive alma!

T-Wally batia palmas, estava orgulhoso.

Sim, que amargura para que aquele pobre coitado arrogante percebesse enfim que nunca, nunca havia tido alma alguma.

Se na revista Ito Magazine, coubesse espaço para mais uma de suas aberrações estivesse ainda disponível, poderia competir com o homem de muito talento que deu a vida por sua paixão, ele, Tomas, sua antítese, estaria nas páginas amarelas por justamente jamais haver tido paixão por nada e talvez, muito talvez a percepção do teatro que se deixou iludir, poderia enfim ao ser encarada, o pivô da própria loucura.

“Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada

Não bordaram ainda com desenhos finos

A trama vã de nossos míseros destinos,

É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada”.



Dia 7

Como um animal enjaulado, que enfim, percebe que jamais esteve trancado, a liberdade da verdade pode ser perfeitamente devastadora.

Não havia sido um herege que vendeu a alma ao diabo e por tal pecado havia sido ceifado sua virtude, como a sereia que em troca das pernas ofereceu sua voz, era apenas ele mesmo, sozinho como sempre foi, mas sem as bandagens em torno dos olhos e ouvidos.

T-Wally era uma ilusão, nada além de uma grande ilusão.

Mesmo assim, não deixava de ser uma ilusão que fazia com que percebesse que ali, jamais existiu um grande gênio, não, apenas e tão somente o acaso.

O sucesso não escolhe, não há meritocracia nele, apenas uma coincidência cruel, que elege deuses falsos e os cultiva, as luzes tão fortes e abrangentes o deixava cego para ver, para ouvir...

Mas não mais.

Não mais. Não se deixaria enganar por sua própria fraude outra vez, não escutaria mais seus passos ou acordes.

Acabou.

Quando um dos tímpanos foi perfurado, ouviu-se gritar, no segundo, nada além da dor e do silêncio.

O sangue que corria nos travesseiros passou a ser um delicado lembrete de seu ato, mas T-Wally á porta já não o observava mais, afinal, não havia razão para estar ali, acabou como jamais deveria ter começado.

As retinas fixas em um ponto no espaço, mirando através do teto branco onde o gesso acetinado imitava nuances de penas. O espaço, longínquo, onde outrora um anjo havia caído. Estava acabado, um céu amargo, um céu sem nuvens onde trombetas agora não eram bem vindas, onde não haviam portões perolados, onde apenas o vácuo habitava, e ainda assim olhava para baixo, carrancudo e furioso.

Os irritantes tique-taques do relógio imitavam batidas do coração, deixando qualquer som isolado no mais perfeito silêncio que ostentava todo seu peso, uma densa parede separava o mundo barulhento daquele ambiente austero onde o branco parecia ter consumido tudo, sequer as moscas ousavam entrar, o cheiro adocicado da morte em olhos frios, parados. Paredes cobertas de papel cor de marfim, uma cama bem arrumada, o leito final.

Não havia nenhuma plateia para maldizer seus atos.

O vácuo fitava o vácuo, um abismo de espelhos que se encaravam, os olhos castanhos nada mais tinham a dizer, apenas e tão somente o nada do não existir.

Enfim, a paz.

E mesmo assim, seus lábios se moviam lentamente, enquanto o sono chegava, não se ouvia, mas dentro de sua mente, os versos eram entoados.

Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,

Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,

Aos monstros ululantes e às viscosas feras,

No lodaçal de nossos vícios imortais,

Um há mais feios, mais iníquo, mais imundo!

Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,

Da Terra, por prazer, faria um só detrito

E num bocejo imenso engoliria o mundo”.

30 de Agosto de 2019 às 08:00 0 Denunciar Insira 1
Fim

Conheça o autor

Billy Who Escritora de originais independentes pelo Clube dos autores, editora BolsiLivros e antologia Carcoma. Leitora e usuária de stand. Escrever é humano, editar é divino, eu sou um troll.

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