tsrsilva Thiago Silva

Mazin tem de lidar, pela segunda vez em sua vida, com a perda de sua família. Após uma gigantesca tempestade de areia atingir a vila em que morava com sua irmã mais velha, destruindo-a completamente, a jovem se vê sozinha em meio a uma nova tragédia pessoal. Apesar disso, ela acredita que sua irmã não sucumbiu a catástrofe, estando disposta a percorrer o mundo a sua procura. Este conto é o prólogo da história "Cinzas de Mazin", publicada pela Amazon.


Conto Todo o público.

#fantasia #mistério #jornada #intimismo
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Cinzas de Mazin


Você se pergunta, Mazin, quando foi o começo disso tudo. Quando que as tramas do destino começaram a se cruzar. Quando tudo mudou. Talvez seja impossível ter estas respostas agora, a partir das profundezas do tempo. Porém, certamente, houve um momento em que você amou tanto e, ainda assim, odiou tanto; que feriu tantos e foi ferida por tantas vezes. E, apesar de tudo, você continuou correndo como o vento, enquanto seu riso ecoava sob aquele imenso céu azul."

I


“É confuso entender quando isso começou. Como chegamos aqui. Por onde estivemos, o que vimos. Como sobrevivemos.

Sempre olhei para o futuro esperando que ele chegasse logo. Esperando estar junto de você mais uma vez.

Mas chegando aqui e percebendo o que nos tornamos, não deixo de pensar sobre esse tempo em que estive te procurando. E não paro de pensar no que aconteceu.

Minha pele, meus olhos, minhas mãos. Meu corpo.

Um barulho constante na minha mente, uma violência de lembranças. Como se ouvisse gritos na minha cabeça, cada voz me dizendo o que fazer e o que sentir. Uma dor estranha, que não sei por quê existe.

É difícil viver assim. Viver procurando motivos, procurando explicações. Parece que eu passei toda minha vida atrás disso. Atrás de uma vida de sentidos, uma vida de modelos, uma vida de ídolos.

É difícil viver em função de ídolos. Pensar como outro alguém, com medo de esquecer de tudo que representa. Ter medo de não sonhar mais, de esquecer as razões da busca interminável. De acordar um dia qualquer e entender que tudo aquilo que havia feito, que planejava fazer, não era nada mais do que uma perda de tempo.

Eu tinha medo. Muito medo.

E, não sei por quê, eu também tinha esperança.

Esperança de que tudo aquilo era um motivo; de que a busca me ajudaria a entender melhor quem você era. Esperança em saber o que tinha acontecido com você naquela noite quente do deserto. Naquela noite que nunca saiu da minha cabeça.

Eu queria ter certeza do motivo de você sumir da minha vida. Eu queria confirmar o que sempre soube: que você sabia o que estava acontecendo com o mundo, o porquê de tudo morrer. E eu tinha certeza que você havia me deixado por que precisava salvar todos nós. Todo esse mundo minguante.

E, é engraçado, porque era justamente isso que você estava tentando fazer. Você sabia o que estava acontecendo. O porém - o único porém - é que eu não sabia.

Eu não sabia. Precisei passar por tudo que passei para, enfim, poder saber. E aquela noite foi o ponto de partida para eu entender.

A primeira lembrança que me vem daquele dia é a do vento áspero cortando a carne. A lembrança da dor estranha, quente e ardida, causada pela violenta rajada de areia atingindo a pele, como se um número infinito de insetos me cercasse e invadisse cada poro do meu corpo.

Depois disso, me lembro da solidão. Me lembro de me sentir sozinha, sem ideia do que fazer. Me vi só no meio da tempestade, me sentindo desamparada, com medo daquele caos comer o mundo e me deixar presa na escuridão.

E, por fim, me senti injustiçada. Depois de algum tempo, não me senti apenas sozinha. Me senti largada e abandonada; por você e pelo destino. Perdida mais uma vez no turbilhão da vida. Cercada pelas incertezas das areias do deserto. Ainda que eu tenha sido a única responsável pelo meu próprio abandono. Naquele momento, porém, eu não sabia. Eu não sabia que havia recebido a chance de me recuperar, a chance de renascer como Mazin. Eu não soube o que fazer com aquilo; com aquela possibilidade.

E me senti perdida, confusa, com medo.

Eu imagino que você saiba como deve ter sido aquela tempestade. Foi muito parecida com o nosso primeiro encontro com a morte. Ao contrário daquele dia, porém, não houve frio e fogo. Houve apenas areia e raios.

Podia ouvir ao longe os gritos secos das nossas mães; cada uma delas engolida pelo deserto e carbonizada pelos relâmpagos. Todas as janelas e portas da vila tremiam agressivamente, batendo de maneira incessante.

Eu não sabia o que fazer. Aninhada em um canto de nossa casa, enquanto desejava o fim daquilo ou o fim do mundo, minha mente mergulhava na lembrança do incêndio. Mais mortes, mais incertezas, mais solidão. Meus olhos vagavam frenéticos, clamando pelo silêncio, pelo fim do medo. Pelo fim da tempestade, do caos. Aninhada com a cabeça entre os joelhos, me abraçando e me embalando, me perguntava o motivo do deserto querer me engolir para sempre.

Queria saber por quê tudo queria o meu fim?

Suponho que, em algum lugar dentro de mim, eu já tivesse a resposta. Apesar de que a ideia me soa irônica, neste momento. Afinal, eu nunca tive respostas, nunca tive certezas.

Mesmo agora...

Naquela noite, eu senti que tinha algo errado no momento em que abri os olhos. Por algum motivo, senti a necessidade de te procurar, de te ver.

A chama da vela tremia em um canto do quarto, sua luz iluminando os mapas, papéis e tinta espalhados no tampo de madeira da escrivaninha. A cortina de seda tremia feroz, enquanto que a porta de entrada, até então entreaberta, rangia desesperada e se fechava com força. A boca do seu baú, então meio vazio e totalmente aberto, também se fechou rapidamente com a força do vento.

Eu lembro de saltar da cama e correr em direção à janela. Ainda hoje, não sei dizer o motivo de ter feito o que fiz. Não sei se foi alguma voz em minha mente a responsável por ordenar aquelas ações desesperadas, frente à uma ameaça que eu ainda nem sabia o que era. Talvez tenha sido. Ainda assim, mesmo correndo para o parapeito gritando seu nome, não consegui fechar a casa rápido o suficiente para evitar com que a tempestade tomasse conta.

Apesar de que não teria feito diferença, acho.

Lembrando daquela noite, tenho dificuldades em entender a imagem que criei em minha mente. Ainda não sei ao certo se a violência do vento, dançando pelos meandros da construção, foi a responsável pela bagunça dos móveis na casa, ou se eu destruí tudo enquanto tentava fugir ou me esconder. Agora, em minha memória, o barulho dos objetos caindo se confunde com o som do vento, dos relâmpagos, da areia e dos gritos. Os gritos que eu não sabia se eram meus ou de nossas mães.

Me lembro do meu peito doendo, minha garganta queimando e meu rosto completamente úmido de suor, lágrimas, saliva e muco. Sentia como se uma mão prendesse meu pescoço com uma força absurda, tentando impedir minha voz por trás de seus dedos, enquanto esmagava minha nuca tentando destruí-la completamente.

Em algum momento daquela cacofonia, daquele momento incompreensível, percebi meu corpo ceder, enquanto lutava para poder respirar. Tudo a minha volta saiu de foco de repente, enquanto o mundo se desfazia do lado de fora. O mesmo que aconteceu durante o incêndio. Como se aquela ferida antiga voltasse do passado, viajando no tempo, e retornasse a sangrar no presente com a mesma intensidade de antes.

Naquela noite eu achei que havia aprendido algo. Sobre o mundo lá fora e sobre nós. Mas eu não tinha aprendido nada. Eu não aprendi que a verdade não é uma só; que a realidade não é uma só.

Agora, tão longe daquele dia, tudo que vejo e penso parece tão mais real. Uma realidade diferente daquela que vivi naquela noite. Uma realidade que não se sustenta na ideia de que você é a única que tem um verdadeiro propósito neste mundo. Uma realidade em que eu não sou apenas um acessório.

Lá, porém, eu não sabia qual era a minha verdade. Eu não queria acreditar que minha realidade era apenas minha; que o meu propósito era apenas meu. Acho que, apesar disso, percebi que era minha vez de buscar. Mas eu acreditei que o seu propósito era agora o meu, independente do que ele era. Pensei que, neste processo, eu viveria minha realidade e descobriria minha verdade.

E pensei que aquele seria o meu papel no mundo.”


II


“Quando a tempestade acabou, já era dia.

Eu ainda não sei se você estava lá para ver tudo o que havia acontecido na vila. Eu me lembro que tudo parecia mais silencioso do que o habitual. Até mesmo os finos feixes de luz que entravam na casa pelas pequenas frestas entre as tábuas das janelas pareciam sem vida. Os sons do dia-a-dia haviam morrido na noite anterior: o martelo na bigorna, as cabras balindo, as azeitonas sendo depositadas em tonéis de salmoura. O próprio vento parecia ter morrido, deixando o ar denso, pairando sobre a vila como o ranço de um cadáver podre.

Ainda em dúvida se deveria sair, sem saber o que poderia encontrar do lado de fora, caminhei até a porta e a abri com cuidado. Como abrindo um portal para outra vida, deixando para trás a bela realidade que me cercou durante anos, me deparei com a completa destruição. A imagem de tudo morto. As minhas pernas ficaram fracas logo que pus os pés do lado de fora da casa e eu cai de joelhos.

Ainda hoje me impressiono como nossa casa permaneceu de pé depois da tempestade. Me lembro que, olhando de longe, depois de abandonar a vila à sua própria sorte, percebi as ruínas que nosso passado havia se tornado: tetos destruídos, paredes manchadas e quebradas, restos de pano e madeira em brasa, o silêncio sepulcral de um cemitério nos limites do deserto. Vários corpos de pedra se espalhavam pela paisagem; alguns despedaçados, outros tão perfeitamente intactos que era possível discernir cada traço de desespero na face acinzentada de nossas mães. Sinto até hoje que aquelas carrancas me ficaram marcadas, de modo tão profundo, que apagaram da minha mente o que antes eu julgava ser o ápice da destruição: a pungência da carne e pele queimadas.

É difícil lembrar o que se passou pela minha cabeça naquela hora. Um segundo choque na minha vida foi algo complicado de processar em um segundo.

Acho que só pensava em fugir.

Me lembro de correr em direção à cabana de cerimonias, em busca de algum recado seu. Eu não sei por quê. Ainda hoje considero minha ida até lá como um ato completamente irracional. Por que lá? De verdade, o que esperava encontrar lá?

Nada.

Apenas os galhos de oliveira pendurados sobre o altar e a porta, rachada e despedaçada, balançando com a brisa que vinha do oásis seco. Procurei a lembrança do seu rosto na pintura da Mãe da Noite atrás do grande altar desgastado, posicionada solenemente no fundo da grande cabana. O meu conforto, em momentos em que a sua distância parecia se estender eternamente.

Sempre achei engraçado você ser tão parecida com aquela pintura. Ou eu achava que você era parecida com aquela figura divina, que eu sempre concebi como sendo você própria. Aquela criatura intangível e incompreensível, que parecia estar tão perto e ainda assim tão longe.

O ídolo que eu havia criado, que eu não sabia quem era, mas que, ainda assim, era tudo para mim.

Naquela manhã seca e morta, mais do que em todas as outras manhãs, eu me confundi sobre quem eu via pintada atrás daquele altar. Era uma força cósmica cuidando de mim? Era você? As duas, talvez?

Deixando a cabana para trás, vagando sem rumo através do vilarejo morto, senti o peso da sua partida. Nada tinha sobrado da tempestade, apenas várias estátuas de pedra; dos animais e de nossas mães. Eu tentei reconhecer cada um dos rostos cinzas que olhavam para mim em súplica. Foi algo difícil. Perceber que as pessoas que nos acolheram, nos alimentaram e nos ensinaram não eram mais pessoas e sim objetos. E o mais triste é que não consegui chorar por nenhuma delas. Eu só queria te encontrar. Encontrar a sua estátua, ter certeza que você não tinha me deixado para trás. Mas não encontrei nenhum sinal seu.

Acho que foi justamente por isso que, naquela hora, a ligação entre a tempestade e a sua ausência fizeram sentido. Eu imaginei que você sabia. Você sabia o que a tempestade faria, quando ela chegaria. Era a única explicação.

E o meu coração apertou quando eu compreendi; quando me dei conta de que ainda não entendia o motivo de você ter me deixado para trás.

Mais do que nunca, eu precisava entender o seu motivo. Por que eu não queria ter de aceitar o abandono mais uma vez. Eu não queria aceitar uma nova perda, uma nova solidão. E algo dentro de mim dizia que você não havia ido muito longe. Era o que eu achava na época, pelo menos.

Voltei para o quarto e sentei na cama, sem saber ao certo o que faria. E, caso fizesse, por onde começaria. Eu não sabia o que fazer sem a presença de nossas mães, não sabia caminhar com meus próprios pés. Nada do que havia sobrado na casa dava indícios que pudessem me levar até você.

Ainda assim, tremendo de antecipação, decidi te seguir de qualquer modo.”

28 de Agosto de 2019 às 21:35 1 Denunciar Insira Seguir história
2
Fim

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Mario Ranzani Mario Ranzani
Emocionante, dramático, parabéns !
April 21, 2020, 20:59
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