Fogo Oculto Seguir história

venanciobastos Pedro Venancio

Faziam doze dias desde que saíram de Nightstand, ao Sul das Luas Silenciosas e rumavam para a Vigia Solitária no Norte. E, o Sacrifício da Década, estava prestes a acontecer na última alvorada do ano, muitos dos homens perguntavam-se, desta vez, qual criança iria ser morta para salvar o povo de Liszcentia.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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A Noite Continua de Pé

As brasas do fogo enfraqueciam naquele corredor úmido e gélido, o vento frio de fora vinha ferozmente contra os cavaleiros errantes que vagavam nos caminhos sombrios e noturnos das Luas Silenciosas. O cinza preenchia a visão dos viajantes, a cautela os dominava assim que cruzaram os grandiosos portões negros rumo ao Norte e o único ruído que podiam ouvir naquela região isolada eram os passos dos companheiros, os tufões de vento que declinavam-se pela quietude da estrada e o rumorejo singelo das corujas brancas deleitadas em seus galhos escuros enfeitados por ligeiros sopros de neve.
Perante ao ar gelado vindo do leste, nas camadas oscilantes de neve onde caminhavam, os ombros dos recentes Asas de Pássaro alargavam-se para o pescoço em busca de conforto e calor. Trajavam vestimentas velhas com grandes graus de espessura e alguns vestiam acima dos braços penas de pássaro, outros de corvos e o líder tinha grandiosas penas de uma águia se alastrando até as costas.

Jaryl Bornstick solavancou seus pés mais rápido que o restante dos parceiros recém-graduados, tivera sido o recruta mais resistente e perseverante da Companhia Errante e não se deixaria perder para eles em longas caminhadas. Seguia na mesma velocidade que os Asas de Corvos e tão esguio quanto o líder Lucion Weston, um homem robusto com uma abundante barba-castanha rígida e olhos florescentes de diferentes tonalidades e contrastes.
— Como está a viagem? — a estatura relativamente alta de um adulto, brandindo uma tocha com a mão esquerda e passeando os dedos na bainha da espada com a mão direita se revela detrás de Jaryl como um fantasma.
— As Luas Silenciosas são quietas e entediantes, ouço apenas o fervor de nossos passos e a ira do vento. — respondeu Jaryl, espiando por cima dos ombros e visualizando o rosto moreno de Banhern.
— Aprenda a ouvir o silêncio, garoto. Se consegui-lo, não vão o pegar de surpresa. — aconselhou Banhern, desta vez ao lado de Jaryl e alinhando seu pescoço acanaveado que correspondia aos seus vários anos como cavaleiro.
— Como ouvirei algo que não tem som? — disse o menino, enfatizado e com o longo manto movendo-se pela neve a cada movimento brusco da cintura.
— Não ouvirá com os ouvidos — interrompeu Banhern, a sombra minguante da lua refletiu em seus olhos enquanto a neve pousava nos cílios castanhos. —, sentirá com o instinto. Pense que pode ser apunhalado a qualquer instante e em qualquer circunstância, então, ninguém vai ser páreo contra sua lâmina.
— Exceto se eu estiver desarmado. — brincou Jaryl em um sorriso desdenhoso que foi retribuído por uma gargalhada aerada.
— Se você estiver desarmado, a sua cabeça vai sair rolando pela neve.
Lucion Weston pestanejava por conta do afugento do vento em seu rosto, na liderança do pequeno grupo de cavaleiros ele parecia confiante e hábil para comandá-los, sua caminhada era a mais austera e rigorosa que Jaryl Bornstick já vira, a visão do robusto homem estava esbelta e tão afiada quanto um predador no meio da vanguarda de seus guerreiros. Na barba do homem haviam amontoados de neve e os cabelos tinham pequenos fiascos brancos.
— Estamos perto! — gritou aos vassalos.
Faziam doze dias desde que saíram de Nightstand, ao Sul das Luas Silenciosas e rumavam para a Vigia Solitária no Norte. E, o Sacrifício da Década, estava prestes a acontecer na última alvorada do ano, muitos dos homens perguntavam-se, desta vez, qual criança iria ser morta para salvar o povo de Liszcentia.
Em Nightstand, chovia e ventava muito, como ás várias terras em Liszcentia tinha cinza por todas as partes e em todos os horizontes, era o conjunto de diversos acampamentos e de torres negras, onde as sombras da lua deitavam-se quando anoitecia e as oriundas luzes do dia se camuflavam nos passageiros e denegridos corredores que entrelaçavam perfeitamente como um labirinto. Muitos da Companhia Errante olvidavam a direção de seus quartos, em qualquer lugar e em qualquer torre das quais perdiam-se com facilidade. Rúbeo Norren fora o primeiro cavaleiro de Nightstand, na idade venerável e o primeiro a domar feras selvagens, fundou "A Noite de Pé" que estava designada a serem os guerreiros que lutariam por todas as regiões de Liszcentia, serviçais do povo e do rei. Apelidados de "Asa da Tormenta", os guerreiros errantes de Nightstand cumprem seu dever explorando as terras afins das montanhas desconhecidas e castigando os mal-feitores de toda Liszcentia.
A partir do momento em que atravessaram o Fosso Bastardo, a jornada começara a ficar duradoura, distante, alta e inalcançável para os onze cavaleiros de Nightstand. A penumbra modificou-se quando penetravam mais a fundo as terras invernias, os ventos cinzas se transformaram em gélidos e brancos, o cheiro ácido foi trocado por uma rude brisa gelada que esfriava todo o rosto e clareava a visão. Os vândalos do Norte deram-lhes olhos venenosos e amargos, não respeitavam os povos do sul e queriam atacá-los, mas o mandato não os permitia derramar sangue enquanto houvesse um Hawke os liderando e Lucion calhava bem ao cargo, sua opinião era ouvida por todo sul da Asa Leste e o nome "Weston" tinha lá seu poder em Noite de Pé. Jaryl sabia que Lucion esperava um filho de sua esposa, ela morava em Solthiea na Asa Oeste e aguardava uma criança cujo o nome seria Nicholas, embora os bens de um Hawke não são dados aos filhos havia pessoas na Companhia Errante que torciam para que ele assumisse o lugar do pai.
Vigia Solitária é um bom lugar para meditar, pensou Jaryl, andando pelo encalço dos membros de nível mais hierárquico do grupo enquanto apreciava a paz do lugar, durante o caminho, havia notado que quanto mais andavam; o sossego tornava-se cada vez maior e nenhum dos amigos dirigiram-no alguma palavra e também pareciam admirar o silêncio. Tão quieto como um cemitério, anuiu Jaryl no pensamento após esforçar-se para continuar ao ritmo dos relevos de neve. Não, discordou de si mesmo, Isto É um cemitério, concluiu no momento em que alcançou altitude o suficiente para observar oque acontecia no outro lado.
De frente ao grupo a terra começara ficar enegrecida e exalando odores fedorentos. O frio penetrante arrepiou-os e em alguns passos de distância, pilhas de corpos alastravam-se por todo o arvoredo, o chão era feito por cabeças e braços lançados pelo solo encobertos a sangue flácido, a textura pantanosa do ambiente moldava uma sensação de angústia suja e maliciosa, tinham sido mortes brutais; haviam corpos esquartejados, queimados ao fogo e enterrados em escombros das árvores. O ritmo da caminhada diminuiu subitamente, Jaryl viu Lucion ficar pálido e depois mórbido após deparar-se com a atrocidade daquela região. Ele cambaleou para o lado pensando que iria vomitar, porém antes que tivesse a chance de abrir a boca, vira que os amigos novatos estavam ajoelhados com olhos desesperados e os veteranos mantinham seus semblantes serenos e frios. Tiveram sons de corvos ecoando em seus ouvidos numa trilha sonora fúnebre, repararam que haviam espadas de aço fincadas ao chão e resquícios de lâminas negras largadas por todo o local e então, o cenário decaia quanto mais avançavam na chacina e redemoinhos de vento misturados com sangue esvaiam-se para cima, o sopro da neve enfureceu e estavam terminando de atravessar os corpos mortos quando chegaram nos pacatos portões da Vigia Solitária.

Tudo por ali estava em completos destroços, vestígios de cinzas dançavam com o ar para lá e para cá, tinham madeiras quebradiças esmagando soldados incendiados pelas chamas que habitavam aquele lugar pouco tempo atrás. As taliscas dos fortes laterais que contornavam o castelo abriam-se em fendas descomunais destruídas por opressões de vento demasiadamente fortes, o grandioso castelo de vigia se juntava com a das Colinas Invernias onde a neve esgueirava-se e a única resistência dos cavaleiros no Norte não havia perecido. Jaryl golpeou a ferida que tinha no portão com os ombros para forçar sua entrada, invadiu o salão abruptamente e resguardou-se assim que viu todos aqueles corpos, pela primeira vez em sua vida amaldiçoou o silêncio, cerrou um dos punhos e avantajou o outro palmar contra o cabo da espada, a desembainhando e marchando contra as profundezas do edifício em ruinas.
— Garoto! — a voz do comandante limpou a quietude, os outros já tinham brandido suas espadas e os seus olhos remetiam a um medo obscuro. Mas Jaryl não parou.
Continuando a avançar, empurrou todos os escombros com agressividade e pisando acima de crânios abertos, mãos mutiladas, pernas acidentadas e peitos sangrentos. A perna oscilou em uma viga de carne-viva que borbulhava sangue escaldante, lutou contra o chão e intensificou a perna, porém aquela coisa não cedeu e outras delas começaram a amarrá-lo.
— O que está acontecendo? — disse. — O QUE ESTÁ ACONTECENDO? — repetiu, desesperadamente e balançando a espada para todos os lados para acertar aquilo que o prendia, entretanto não houve sucesso.
Um choro infantil, cheio de dor, surgiu como uma luz ao fim do corredor destruído, parecia suplicar por ajuda e estar machucado. Jaryl batalhou mais contra o que pendia em sua perna, acertou a ponta da espada em uma das vigas e teve a chance de escapar, correu de onde vinha a melodia, um sobrevivente. Quando chegou, havia um bebê nú nos braços de uma estátua em um santuário, a figura de pedra era uma mulher com um véu sombrio em todo o corpo e sorria para oque carregava nas mãos, a criança estava absurdamente ferida; o sangue jorrava dos vários cortes feitos em sua pele, ferimentos graves circulavam suas pernas e algumas partes do seu corpo estavam abertas, ainda sim, ele resistia e chorava mais alto. Jaryl entreolhou para trás, homens em carne-viva se aproximavam, ele recuou com passos assustados para trás e o coração saia pela garganta, ficou próximo ao pequeno bebê e eles pararam. Deu-lhe a vontade de segurar a criança no braço, era tão bela, um garoto de cabelos loiros e olhos verdes com a pele branca como neve mas tão machucado quanto um soldado de guerra porém ainda viva, guardou a espada na bainha e pegou-a nos braços, neste instante, os mortos ajoelharam-se para ele que erguia acima do peito a criança com as duas mãos e os cortes do menino iniciaram uma cicatrização rápida, pouco a pouco o garoto parou de berrar e olhou para o jovem com seus grandiosos olhos verdes tão radiantes como chamas acesas em tormentas de neves. Ele sabia porque ela tinha aqueles ferimentos, foi a criança sacrificada para salvar Liszcentia, mas ainda viva e respirando. Vão a matar, pensou Jaryl olhando para os companheiros que chegavam, a cabeça doía e notou que os mortos ainda estavam ajoelhados, andou cuidadosamente para a saída no final dos escombros e eles abriram-no caminho para passar.
Saiu ás pressas pela neve, expulsou-as com as botas ásperas e espessas, correndo o mais rápido que podia no solo oscilante das Colinas Invernias, rumo a algum lugar que salvasse o pequeno menino.

27 de Agosto de 2019 às 23:35 1 Denunciar Insira 3
Fim

Conheça o autor

Pedro Venancio Olá! Eu sou o Pedro, um adolescente comum que deseja completar o fundamental com boas notas e raramente lia até uns sete anos atrás, desde aí, compartilhando o sonho de todos os outros garotos apaixonado por literatura épica e tentando torná-lo realidade.

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