Sob o Calor da Lua Seguir história

kamysouza Kamy Souza

"Havia algum tempo que a mulher não ia ao seu encontro, ela não se permitia, não até que se sentisse tão vazia que mal conseguisse se manter de pé, como naquele momento." Guaraci x Jaci x Anhangá - História também postada no Nyah! Fanfiction e Wattpad com o mesmo nome de usuário - DESAFIO O LIVRO DE OURO DO FOLCLORE • GRUPO CANETA TINTEIRO


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Capítulo único

A lua havia atingido seu ápice quando a mulher surgiu no meio da mata, se materializando da luz azulada. De longos cabelos esbranquiçados e pele avermelhada marcada por desenhos prateados, ela caminhou descalça pelas folhagens secas, sem emitir nenhum som sob seus pés. Era meio de Inverno, as temperaturas oscilantes e o clima seco seguindo ferrenho com o final de Agosto, mas ainda que fosse frio e úmido, seu corpo coberto por uma fina túnica branca, com os ombros desnudos, não seria afetado.

Enquanto caminhava sem pressa em meio a folhagem densa, seus olhos alcançaram o grande veado de pelos pálidos. Anhangá não pareceu notar a presença da Deusa da Lua por um instante, levando um momento para mover a cabeça, com pesados chifres pontudos, em sua direção, e Jaci perdeu o fôlego, mais uma vez, ao encarar os olhos em chamas que a escrutinaram no meio da noite.

Com longas passadas, Anhangá se direcionou para Jaci, o som de suas patas contra o chão seco ecoando pela floresta, e diante de seus olhos, o Deus das trevas e do submundo se metamorfoseou de veado em homem.

— Guaraci não ficará feliz de saber que está aqui. - o Deus falou, sua voz tão quente quando seus próprios olhos, ainda se aproximando, deleitoso, o rosto pintado com vermelho e os cabelos, da mesma cor da pelagem do veado, lhe cobrindo parte da face.

Havia algum tempo que a mulher não ia ao seu encontro, ela não se permitia, não até que se sentisse tão vazia que mal conseguisse se manter de pé, como naquele momento.

Jaci sentia ter muito em comum com Anhangá, a noite podia ser tão sombria quanto as trevas, mesmo que a lua a iluminasse tão belamente, assim como o fogo podia fazer. Talvez por isso continuava a voltar ali, para ele.

— Eu sou a protetora da noite, não há razão para Guaraci saber qualquer coisa que se passe durante ela.

— Mas ele é seu marido. A noite pode não ser uma preocupação para ele, mas imagino que você sim. - Anhangá tornou a provocar.

— E quanto a sua esposa? - A expressão etérea da Deusa não se alterou.

— Não que eu tenha ido até você. - Anhangá se resguardou. - Mas não foi por isso que veio até aqui, não é mesmo?

Anhangá ergueu a grande mão em direção ao rosto de Jaci, deixando os dedos indicador e médio acariciarem a pele macia de sua bochecha.

— Não pode negar que chamou por mim, virando seus olhos em chamas para a lua e cantando cantigas para ela. - Jaci continuou, sem largar mão da pequena guerra por poder entre eles.

— Eu não nego. É verdade que a desejo, ainda mais profundamente que qualquer desejo que você tenha em me encontrar. - Os olhos em chamas a fitaram profundamente.

— Então… você não deveria me provocar com suas palavras.

— Por que não? Essa é uma das melhores partes.

— Não será melhor quando eu me for e não tornar a voltar.

— Se o fizesse, eu teria que ir até você - Ele virou seus olhos para cima, para a lua, antes de voltá-los para ela. - e isso não seria bom para nenhum de nós. Mas não se preocupe, minha Deusa, não tenho intenção de deixar minhas palavras a afligirem essa noite. Apenas lisonjeá-la.

Anhangá cumpriu com suas palavras. Pelo resto da noite, Jaci foi lisonjeada pelas palavras do Deus, mas não apenas por elas, também pelos olhos que a fitaram sem se desviar, pelas mãos que a acariciaram, pelos lábios que lhe beijaram a pele e por cada centímetro de seu espírito presente.

Quando os sinais da manhã surgiram no horizonte, levando consigo a noite e a lua, chegou a hora de partir. Anhangá beijou as palmas de Jaci, que voltou para casa, para o Deus Sol, com o calor tão distinto ao do seu marido, que lhe queimava a pele, ainda aquecendo seu corpo.

Guaraci já estava pronto para partir quando Jaci atravessou os portões de sua casa sobre as nuvens. Eram apenas em momentos fugazes como esse que eles permaneciam no mesmo recinto que o outro. Parecia óbvio, ele o Deus do Sol, ela, a Deusa da Lua. A solidão era sua herança de nascimento e a maldição de suas eternidades.

— Você demorou. - Não foi difícil para Jaci perceber o tom de julgamento na voz do Deus de pele avermelhada e marcas douradas ascendentes pelo rosto.

— Acho que perdi a noção do tempo. - ofereceu a resposta, passando por ele, ombro a ombro, sem fazer contato com sua pele. - Foi uma noite adorável.

Guaraci fitou a esposa, com olhar severo pelas suas costas, a expressão rígida, a única que seu rosto conhecia.

— Não deveria se deixar distrair tão facilmente. Devo partir agora.

— Tudo bem, eu não irei. - Jaci respondeu, mas Guaraci já havia partido, seguindo a passos firmes para o único lugar onde já havia sentido o toque acalorado em sua pele.

27 de Agosto de 2019 às 19:20 0 Denunciar Insira 3
Fim

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