Invisível Notável Seguir história

jvleite Juliana Leite

Filho de militar, Juliano D'Alva passou sua vida cercado de amor e proteção. Com apenas oito anos de idade, conheceu Caio, um adolescente de treze e que conquistou a primeira vista o coração de Juliano, fazendo dele seu melhor e único amigo. Peça importante na vida de Juliano, Caio fez com que, aos doze anos, Juliano entendesse o real significado das palavras amor e saudade. Um adolescente que tinha tudo e de repente a crueldade do destino transformou a vida de Juliano num enorme vazio. Não foi apenas a morte que lhe tirou pessoas importantes, mas a vida também. Ele acreditava que não lhe restava mais nada. Quando Juliano tem oportunidade de recomeçar sua vida, fazer novos amigos e de se apaixonar novamente, Caio ressurge em sua vida, já um homem feito, aspirante a aviador, enquanto Juliano ainda é apenas um adolescente. Será que Caio se libertará dos dogmas militares e assumirá seu amor por Juliano? Até onde o amor é capaz de vencer tabus? Descubra em Invisível Notável.


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― Juliano, acorda!

A voz grave e rouca do meu pai me despertou abruptamente de um sono profundo. Meu coração acelerou, tanto pela forma como fui acordado quanto pela presença do meu pai em meu quarto, que nos últimos tempos se mostrava um homem extremamente instável, e eu passei a evita-lo.

Ele atravessou o quarto, desligou o ventilador e abriu as janelas.

― Hum... ― Apertei os olhos com o incômodo que a claridade me causou.

― Vem tomar café da manhã comigo, quero conversar com você.

― Quer conversar comigo? ― Repeti suas palavras, pois ainda não estava conseguindo raciocinar, estava meio atordoado.

Mas situei-me no instante que meu pai levantou meu lençol e pôs a mão no colchão, bem na altura dos meus quadris, verificado se o colhão estava molhado. Eu congelei, temi ter mijado na cama sem ter notado, e se isso tivesse acontecido de novo, o inferno voltaria a reinar dentro de casa. Sabe aquele ditado de que quem mexe com fogo faz xixi na cama? É a mais pura verdade. Desde que a merda toda com minha mãe aconteceu, eu fazia xixi na cama com certa frequência, e meu pai, atribuído de toda sua psicologia paterna, me obrigou a usar fraldas geriátricas, e esse foi o ponto máximo de todo nosso distanciamento.

(...)

― Toma... ―Meu pai empurrou uma sacola de supermercado no meu peito, estávamos no pé da escada de três degraus que fica entre a cozinha, as salas de estar e jantar e o acesso aos quartos. Já era noite e eu estava indo dormir.

Peguei a sacola e não entendi de início o motivo dele me dar um pacote de fraldas geriátricas. Mas meu pai não precisou explicar, com dezesseis anos na época eu já conseguia entender bem de certas coisas. Tranquei os lábios de tanta raiva.

― Não vou usar isso nem a pau. ― Joguei o pacote no chão, subi os degraus quase que numa passada só e tranquei-me no banheiro.

― Abre essa porta, Juliano! ― Os murros na porta me estremeceram. Ele iria me obrigar a usar aquilo e eu me recusaria, mesmo que para isso tivesse que levar a surra do ano, que por sinal ainda estava começando.

― Eu não vou usar isso... ― Disse assim que abri a porta, eu não poderia desobedece-lo, era arriscado demais, mas quanto às fraldas... ― Você não pode me obrigar, eu já tenho dezesseis anos, pai. Eu não sou criança.

― Crianças fazem xixi na cama. ― Ele estava com o pacote na mão. Ele abriu e pegou uma fralda. ― E crianças usam fraldas. Você vai usar sim, porque eu não vou comprar outro colchão pra você. Agora veste! ― Ele estendeu a mão, mas eu não peguei a fralda.

― Não... ― Falei com toda a raiva que eu estava sentindo.

― Veste. ― Ele aumentou o tom da voz.

― Não! ― Gritei. Meus olhos lacrimejaram.

Meu peito subia e descia descompassadamente, minha mandíbula contraída e eu não queria que meu pai percebesse o quanto eu estava fragilizado. O Major D’Alva era um homem forte e não conhecia o filho que tinha, chorar na frente dele era algo fora de cogitação.

Ele me encarou por segundos. Meu coração quase saindo pela boca. Ele respirou fundo.

― Essa é sua última chance. Se você fizer xixi na cama mais uma vez, você vai usar fraldas. Estamos entendidos?

Confirmei com a cabeça.

― Estamos entendidos? ― Ele berrou.

― Sim senhor! ― Falei de supetão. Só voltei a respirar quando ele saiu do banheiro e fechou a porta.

Naquele dia eu pensei muito na minha mãe e desejei que ela estivesse viva.

Desejei ter morrido no lugar da minha irmã.

Programei o despertador do celular para me acordar de hora em hora.

Nunca mais fiz xixi na cama.

(...)

Levantei-me, vesti uma bermuda e fui atrás do meu pai para saber o que ele queria tanto conversar. Quando saí do quarto senti um cheiro de ovo frito vindo da cozinha e senti-me agradecido por aquele mimo, pois meu pai raramente se dava ao trabalho de me preparar uma refeição.

Cheiro tá bom! Falei ao me sentar à mesa, meu estômago se revirando de fome.

Havia dias que não tinha uma refeição decente. Desde que voltei da casa dos meus avós, vinha me alimentado praticamente de miojo e nescau. Saberia que seria assim até Dona Aurélia voltar das férias.

O ano está começando e de agora em diante as coisas vão ser bem diferentes por aqui... Disse meu pai ao se aproximar com a frigideira na mão. Engoli a saliva que encharcou minha boca. Ele dividiu os ovos para nós dois.

Mas já temi por suas palavras. As coisas já estavam bem diferentes desde que saímos de Santa Maria e fomos morar em Manaus, e pioraram consideravelmente quando saímos de Manaus e fomos morar em Natal. Meu apetite começou a sumir.

― Quero que você se dedique mais aos estudos, não vou tolerar notas baixas como no ano passado. Ele dizia e comia ao mesmo tempo. Já de farda para começar seu expediente, ele mal olhava para mim.

Minha respiração acelerou. Será que ele não conseguia perceber que o ano que passou tinha sido bem duro para mim? Perder uma mãe de forma trágica um ano após perder uma irmã de forma mais trágica ainda não era o bastante para que um garoto como eu se sentisse perdido e sem vontade de viver? Quanto mais estudar? Não! Ele não percebia. Ele não percebeu os sinais da minha mãe, por que diabos iria perceber os meus?

Se não fosse o Caio eu teria desistido de tudo, até de mim mesmo!

― Você não vai comer?Meu pai me olhou, por segundos, mas ele olhou para mim, e não era um olhar duro, era afável.

― Sim. Eu vou. Respondi quase sem voz, peguei um pão, recheei com o ovo que ele havia fritado e devorei com algumas dentadas. Minha fome tinha voltado.

― Bom, mas não é sobre isso que eu quero conversar... Meu pai limpou a boca com um guardanapo. ― Você lembra o garoto do Major Vilaça? Não lembro o nome dele... Era um nome de príncipe ou rei.

― Não, pai. Não lembro nem desse Major que o senhor falou.

― Vocês eram bem pequenos quando moramos em Santa Maria. Mas isso não importa... Eles se mudaram para a vila e eu quero que você vá a casa dele e o chame para brincar.

― Pra brincar? Nem acreditei. ― Quantos anos ele tem? Oito, nove?

Meu pai riu dessa vez, algo raro ultimamente.

― Não, meu filho. Ele tem sua idade, é força do hábito, a gente sempre acha que os filhos são crianças.

― Então ele tem dezessete anos?Não sabia distinguir se isso era bom ou não. Não queria me sentir obrigado a ser amigo de ninguém, mas por outro lado seria bom ter alguém da minha idade por perto, já que meus amigos de escola moravam há quilômetros da Vila dos Oficiais da Aeronáutica, e meu pai não me deixava frequentar a casa de ninguém, pois Natal, diferentemente do que todos pensam, é hoje uma das capitais mais violentas do país.

― Exatamente, ele tem sua idade. Ele mora no bloco A, casa um. Vá agora pela manhã. Já conversei com o Vilaça e o garoto está te esperando. ― Meu pai levantou-se. ― Mas antes arrume a cozinha.

Relaxei os ombros e resmunguei. Destetava arrumar a casa, lavar o carro, limpar o jardim e muito menos lavar a louça, mas era obrigado a fazer, caso contrário o bicho pegava dentro de casa, e eu estava fugindo de intrigas com meu pai.

― A propósito... ― Meu pai voltou. Estremeci, temi que ele tivesse me visto resmungando. ― Tenente Prates ligou pra mim e perguntou por você. Ligue pra ele depois. ― E meu pai finalmente saiu de casa.

― Ligar porra nenhuma... ― Falei alto. Tenente Prates, Caio, Caio Prates.... Que se foda!

Quero mais é que ele lasque todinho no Acre. Não queria, mas gargalhei alto quando lembrei que ele estava morando no Rio de Janeiro... do Acre! Mas o sorriso sumiu dos meus lábios quando lembrei o tapa na cara que levei quando debochei dele. Filho da puta! Se meu pai soubesse....

(...)

― Vim me despedir de você. ― Disse o Caio. ― Tô indo morar no Rio de Janeiro.

― Tchau. ― Falei emburrado, passei por ele, o ignorando completamente, morto de ciúmes. Rio de Janeiro era uma perdição e ele provavelmente me esqueceria para sempre.

― Para com isso Ju. ― _Ele segurou meu braço. ― Quantas vezes eu vou ter que te explicar... Nós não podemos ficar juntos... Você é só um garoto.

― Seu garoto estrela? ― Quase berrei, queria lhe acertar um soco na cara, tamanha minha ira.

― Sim, meu garoto estrela. ― Ele tentou me abraçar.

― Me larga... ― Eu o empurrei. ― Você me usou... Isso sim. Dizia que me amava e só queria me iludir. Quero que seu avião caia no mar quando você tiver pilotando, lá no Rio de Janeiro, em plena Copacabana, pra todo mundo ver.

― Não diz merda. ― Ele se enfezou. ― E vou morar no Rio de Janeiro do Acre. E você não quer que eu morra, ou quer?

― Quero sim! ― Gritei, mas eu não queria que ele morresse. Queria mesmo era ir com ele. ― E eu sei que você vai comer os indiozinhos de lá... Lá deve ter o garoto onça, garoto floresta... Ah não, vai ser o Mogli, é dele que você vai dar conta dessa vez. ― Eu berrava, eu queria que a vila inteira ouvisse. ― Você é pederasta! ― Mas calei quando um tapa na cara que eu não esperava fez minha cabeça virar para o lado.

― Eu já mandei você parar. ― Ele me pressionou conta à parede. ― Você é um moleque, é por isso que jamais daria certo nós dois juntos. Vê se cresce Juliano! Eu sou um piloto da aeronáutica e você é filho de um oficial. Você acha mesmo que existe um futuro pra nós dois?

Não respondi. Ele saiu da minha casa pisando firme e sem olhar para traz.

(...)

Faz um tempo que não o vejo. Faz um tempo que não aceito suas ligações e nem leio suas mensagens. A mágoa que carrego é grande demais.

É uma merda amar alguém que está longe. É uma merda maior ainda quando esse amor não é correspondido. É uma merda gigantesca você amar uma pessoa, que tá longe, que te ama também, mas vocês não podem ficar juntos.

Droga! Sinto saudades.

27 de Agosto de 2019 às 12:29 0 Denunciar Insira 1
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