S05#22 - THE OLD INDIAN Seguir história

lara-one Lara One

Você tem medo de esculturas? Pois deveria ter. Algumas vezes, as esculturas têm vida própria... E buscam sua própria vingança.


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 18 apenas.

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05#22 - THE OLD INDIAN

INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Condado de Red Dust – Arizona – 8:17 P.M.

Close da placa na beira da estrada que balança ao vento:

‘The Old Indian – Motel & Cafe – Open 24 hours.’

O carro vermelho sai da estrada entrando no estacionamento de chão. Freia na frente do estabelecimento, levantando poeira.

Uma velha tabacaria conservada pelo tempo, que agora é um café de beira de estrada com o motel em anexo.

O velho índio de madeira segurando charutos, já envelhecido pelo tempo, do lado de fora da porta. Esculpido com trajes típicos indígenas, cocar de penas e botas de pele de búfalo amarradas. Contrasta o passado com o presente, ao lado da máquina de refrigerantes.

Os dois ladrões encapuzados descem rapidamente, puxando as armas. Calças e jaquetas jeans rasgadas. Entram no estabelecimento, fechando a porta de vidro e virando a placa para ‘closed’.

Foco na porta fechada.

[Som de gritos. Confusão. Tiros]

Os ladrões saem correndo, carregando cervejas e doces, as armas dentro das calças jeans. Entram no carro e tomam a estrada.

Corta para a velhinha índia que sai do café, baleada. Ela tenta pedir socorro, mas cai morta no chão ao lado da estátua de madeira. O sangue da velhinha escorre pela terra vermelha, sendo absorvido rapidamente. A moça índia, Stumbling Bear, sai do café aos gritos, chorando, com as mãos na cabeça desesperada.

Corte.


[Som: Limp Bizkit - Breakstuff]

Os dois ladrões no carro retiram os capuzes. São dois jovens brancos. Snake dirige, rindo, soltando os cabelos crespos até os ombros. A jaqueta jeans sem mangas, revela no braço uma tatuagem enorme de uma cobra naja. T.J., de cabelos amarrados, abre uma cerveja. Snake balança-se no banco ao som da música, batucando no volante. T.J. coloca um chapéu de cowboy.

T.J. : - Você tinha razão. Nesse horário a velha fica sozinha!

SNAKE: - Cara, pelo menos agora dá pra comprar o pó!

T.J. : - Mas não precisava ter matado a velha!

SNAKE: - Qual é? Ela tava pegando o telefone! O que você queria que eu fizesse? Deixasse a vaca chamar socorro?

T.J. : - A gente podia ter agarrado a grana e dado uns tabefes na velha!

SNAKE: - Porra, T.J! Era só uma droga de uma índia velha! Qual é o problema?

T.J. : -...

SNAKE: - Fizemos um favor pra população. Ninguém gosta desses índios fodidos por aqui mesmo. Seu pai até sentiria orgulho de você! Me dá uma cerveja. Esquece isso.

T.J entrega a cerveja pra Snake.

T.J. : - Pra onde vamos?

SNAKE: - Ora, vamos até o Black Bird buscar o pó!

T.J: - Você já viu a cara desse Black Bird?

SNAKE: - Ninguém nunca viu. Ele é cuidadoso.

T.J. empina a lata de cerveja. Olha pra frente.

T.J. : - O que é aquilo na estrada?

SNAKE: - Não sei. (OLHA PRO OUTRO) Mas vamos brincar?

T.J. : - O que você vai fazer?

Snake acelera.

T.J. : - Cara é uma pessoa! Tá parada no meio da estrada!

SNAKE: - (RINDO) Não é lugar pra ficar parado!

T.J. : - Para, Snake! Você vai atropelar o cara! Tá doido?

SNAKE: - Tô. Bem doidão, mano.

T.J. : - É um índio velho!

SNAKE: - Melhor ainda! Uma porra de índio fedido a menos por aqui! (RINDO) Estou fazendo limpeza étnica hoje!

Pelo vidro frontal observa-se o vulto parado no meio da estrada. Snake acelera.

O carro bate tão fortemente que o corpo dos dois atravessa o vidro frontal, enquanto o carro é rasgado ao meio como se fosse uma folha de papel.

Close das duas metades do carro que ainda seguem mais alguns metros pela estrada até tombarem no chão.

Corta para os pés de madeira, esculpidos com botas de pele de búfalo amarradas, que se movem lentamente, rangendo, caminhando pela estrada.

VINHETA DE ABERTURA: A VERDADE ESTÁ LÁ FORA?



BLOCO 1:

Necrotério de Red Dust – Arizona – 4:21 P.M.

Mulder observa o cartaz na parede com a foto do chefe índio Geronimo. Abaixo escrito: índio bom já nasce morto.

Mulder olha com nojo para o legista gordinho, que comendo uma coxa de frango, puxa a gaveta revelando o corpo coberto por um lençol. Mulder olha pra mão do legista incrédulo. O legista descobre o corpo. É o corpo de Snake. A cabeça solta, todo desmembrado. Mulder vira o rosto com nojo. O legista fecha a gaveta, enquanto mastiga.

LEGISTA: - (BOCA CHEIA) Quer ver o outro?

MULDER: - (ESTÔMAGO REVOLTADO) Não, obrigado.

LEGISTA: - Garotos no volante... Um carro na mão, uma arma.

MULDER: - Que choque tão forte pode fazer isso?

LEGISTA: - Bem... Já vi corpos mutilados em acidente... Mas nunca igual a isto... (DÁ OUTRA DENTADA NA COXA DE GALINHA) Se visse o carro... A cidade toda está comentando.

MULDER: - Tem alguma teoria?

LEGISTA: - (MASTIGANDO) Podiam ter batido num poste de concreto.

MULDER: - (INCRÉDULO) No meio da pista?

LEGISTA: - Produtos ACME... (MASTIGA) O Coyote pode estar tentando armar uma para o Papa-Léguas.

Mulder olha pra ele debochado.

MULDER: - Obrigado. Foi de grande valia essa sua observação.

LEGISTA: - De nada. (ERGUE A COXA DE GALINHA) Servido?

MULDER: - (NOJO) Não, obrigado. Já vi carne demais por hoje. Escuta, por que toda a arquitetura da cidade se parece com o velho oeste? A cidade em si é um parque temático?

LEGISTA: - (BOCA CHEIA) Isto é Red Dust. Acostume-se.

Corte.


Mulder sai do necrotério. Olha de um lado pra outro da cidade de prédios antigos e rua de terra.

MULDER: - Aonde diabos eu vim parar? Esse lugar nem existe no mapa! Acho que nem sei voltar pra casa! Tem até cavalos nas ruas em meio aos carros!

Uma galinha passa voando e cacarejando em frente à câmera. Mulder a acompanha com os olhos. Coça a cabeça.

MULDER: - Que maldito lugar esquisito...

Mulder para. Acompanha algo com os olhos.

Corta para o homem que pinta um letreiro no vidro da loja de armas: ‘Mate um índio. Temos balas’.

Mulder esfrega os olhos. Olha novamente. Puxa as chaves do bolso e aproxima-se do carro. Para. Abaixa a cabeça, olhando curioso pra dentro do carro. Abre a porta. Olha pro banco do carona, boquiaberto.

[Som: Apache Indian – Boom Shack A Lak]

Close do velho índio em trajes típicos, um cocar enorme, de braços cruzados, sentado no banco, sério. Mulder olha pra ele debochado.

MULDER: - O que faz dentro do meu carro, Chefe?

WOLF'S SLEEVE: - O carro gostar de mim.

MULDER: - Como sabe que o carro gosta de você?

WOLF'S SLEEVE: - Estava com a porta destrancada.

MULDER: - Quem é você, vovô? O que faz aí?

WOLF'S SLEEVE: - Carona.

MULDER: - Não poderia ter pedido antes de invadir meu carro?

WOLF'S SLEEVE: - Não invadir. Entrar. Se não quiser, ir embora.

MULDER: - (SORRI/ IMPRESSIONADO) Não, pode ficar aí.

Mulder entra no carro. Wolf’s Sleeve olha pra frente, sério.

MULDER: - Tá indo pra onde, vovô?

WOLF'S SLEEVE: - Pra lugar onde passam carros.

MULDER: - Poderia ser mais claro?

WOLF'S SLEEVE: - Fora da cidade.

MULDER: - A rodovia?

WOLF'S SLEEVE: - Sim.

MULDER: - Mas não estou indo pra lá.

WOLF'S SLEEVE: - Mas eu estar indo.

Mulder coça a cabeça. Sorri. Liga o carro.

MULDER: - Tá bom, vovô. Eu largo você no ‘grande lugar onde passam carros’. Porque eu tenho admiração por índios. Vocês são um povo rico em cultura, místico e ligado às forças primitivas da natureza. Mora aqui?

WOLF'S SLEEVE: - Não. Morar fora da cidade.

MULDER: - Meu nome é...

WOLF'S SLEEVE: - Fox. Fox Mulder.

MULDER: - (IMPRESSIONADO) Como sabe meu nome? Algum aviso dos deuses?

O velho índio pega o papel do aluguel do carro sobre o painel.

WOLF'S SLEEVE: - Estar escrito aqui.

MULDER: - (DESANIMADO) Ah!

Mulder toma a rua. Olha frustrado pro índio.


Delegacia de Polícia - 6:12 P.M.

Mulder desce do carro. Um casal de namorados passa pela rua numa moto. O rapaz vestido de cowboy. Mulder olha incrédulo. Volta-se pra delegacia. Um rapaz passa pela frente dele, carregando uma espingarda e uma caixa de disquetes, também vestido de cowboy. Mulder olha espantado.

MULDER: - Ei! Você!

COWBOY: - Sim?

MULDER: - Tem alguma festa à fantasia por aqui hoje?

COWBOY: - (SORRI) Percebe-se que é de fora, cara. Aqui é Red Dust. Terra de ninguém.

MULDER: - Não pode andar armado pelas ruas.

COWBOY: - As leis aqui são outras, meu amigo. Andar sem armas significa tomar uma flecha de um maldito índio pelas costas.

O rapaz continua caminhando. Mulder o acompanha com os olhos, incrédulo. O rapaz entra num prédio. Mulder dá passos para trás pra olhar o prédio em que o rapaz entrou.

MULDER: - (PÂNICO) ‘Cyber Saloon’??? Mas que diabos, eu voltei no tempo e não estou sabendo? Ou isto é o futuro???

Mulder se dirige à delegacia, desviando das galinhas na calçada.

MULDER: - (DEBOCHADO) Puxa, eu não sabia que a Diana Fowley tinha tantas irmãs assim morando no Arizona...

Mulder entra na delegacia. Procura algo com os olhos. Arregala os olhos ao ver o policial puxando um cavalo em plena delegacia.

MULDER: - (DEBOCHADO) Polícia montada canadense? Não, não no Arizona...

STONE: - Agente Mulder?

Foco em Mulder de frente, boquiaberto, em pânico. O xerife entra no foco da câmera tapando Mulder, ocupando a tela toda de tão grande.

STONE: - É o agente Mulder?

Close em Mulder ainda boquiaberto.

MULDER: - S-sim.

STONE: - Sou o Xerife Stone.

MULDER: - (PÂNICO) Percebe-se.

STONE: - Então? O que está fazendo na minha cidade?

MULDER: - Xerife, recebi um chamado do escritório do FBI no Arizona e estou tentando montar as peças do quebra-cabeça.

STONE: - Sei. E quem chamou o FBI?

MULDER: - Alguma denúncia anônima.

STONE: - Já que está aqui, eu quero saber o que aconteceu com meu filho T.J. Quero pegar o desgraçado que fez isso.

MULDER: - Sinto pelo seu filho. Chamei alguns especialistas do Bureau para analisarem o que aconteceu com o carro. Nenhuma testemunha?

STONE: - Não. Olha, agente Mulder, sinceramente, isto não é um caso para o FBI.

MULDER: - Não é o que o FBI pensa.

STONE: - Sei que tenho pouco pessoal. Apenas um auxiliar e esse policial que acaba de sair. Mas aqui nesta cidade não temos muitas encrencas. Os cidadãos se defendem por si próprios.

MULDER: - Percebi. Sabe pra onde Snake e seu filho estavam indo?

STONE: - Na certa, iam fazer alguma festa. Mulheres, cervejas, garotos, rock’n roll... Sabe como são essas coisas... Agente Mulder, acho que isso é uma vingança contra mim, vinda daqueles índios bastardos. Eles não gostam de brancos... Conte comigo para o que precisar. Já se hospedou no hotel?

MULDER: - Pra dizer a verdade não. Vi um motel fora da cidade e...

STONE: - Não recomendo. Lugar de índio, sabe? Não serve pra nós. Melhor ficar afastado desses índios. Tem um hotel aqui na cidade ao final da avenida.

Mulder observa o xerife.

MULDER: - Seu filho e esse tal Snake... Eram amigos?

STONE: - Sim. Amigos de escola. Mas eu já falei com os amigos deles, ninguém sabe pra onde estavam indo.

MULDER: - Sei... Xerife, vou me instalar e dar uma olhada por aí.

Mulder puxa um cartão de visitas.

MULDER: - Me ligue se tiver alguma informação nova.

Corte.


Mulder sai da delegacia. Desvia das galinhas. Tira uma de cima do carro. Entra no carro. Toma a avenida.

MULDER: - (INDIGNADO) Cidade de primeira... Se eu engatar a segunda saio da cidade... Igreja, prefeitura, delegacia de polícia e aposto que ali é o bordel!

Mulder sai da avenida tomando a rodovia. Para o carro no meio da estrada. Abre a porta e olha para o chão, incrédulo. Acompanha alguma coisa erguendo o rosto para olhar ao horizonte. Põe a mão sobre a testa, observando a distância, impressionado.

Close do asfalto com uma grossa linha vermelha desenhada, que se estende pelo campo, dividindo a cidade da rodovia. Mulder coça a cabeça. Fecha a porta e toma a estrada.

MULDER: - Acho que preciso decorar as sinalizações de trânsito novamente. Essa aí eu não conhecia.


The Old Indian – Motel & Cafe – 6:59 P.M.

Mulder estaciona o carro. Desce, carregando o laptop debaixo do braço. Sacode o sobretudo. Olha para os sapatos cobertos de poeira vermelha. Suspira. Caminha até a cafeteria. Olha para o velho índio de madeira. Para. Analisa-o, curioso, num sorriso de criança que descobre uma novidade. Olha para o índio. Ergue a mão.

MULDER: - Saudações, Grande Chefe! Não vim perturbar seu território, só encontrar a verdade.

Mulder sorri. Olha pro lado.

[Som: Apache Indian – Boom Shack A Lak]

Mulder fica incrédulo. O velho índio que lhe pediu carona parece ter surgido do nada.

WOLF'S SLEEVE: - Cuidar o que fala. Grande Espírito ouvir.

MULDER: - Mas vovô, larguei você do outro lado! O que faz aqui?

WOLF'S SLEEVE: - Ter pernas.

MULDER: - Então por que não veio a pé antes?

WOLF'S SLEEVE: - Porque você ter carro bonito. Eu ser velho, mas não ser bobo!

Mulder balança a cabeça, negativamente, num sorriso. Entra na cafeteria.

Corte.


A cafeteria vazia. Stumbling Bear prepara um lanche. Veste roupas de índia, tranças, faixa na cabeça, colares. Mulder senta-se ao balcão, colocando o laptop sobre ele. A moça vira-se. Ao ver Mulder, recua com medo.

MULDER: - Boa tarde.

STUMBLING BEAR: -(ASSUSTADA) ???

Mulder percebe. Vira-se pra trás, mas não vê ninguém. Olha pra moça.

MULDER: - Olha, eu sei que sou esquisito, mas...

STUMBLING BEAR: -(ASSUSTADA) ???

Um índio de uns 40 anos, White Horn entra pela porta dos fundos, carregando uma caixa de verduras. Usa jeans e camiseta. Ao ver Mulder, cerra a fisionomia. Larga a caixa sobre uma mesa e aproxima-se. Mulder alterna o olhar entre a moça e o homem.

MULDER: - Oi... Eu... Vocês falam a minha língua?

WHITE HORN: - O que quer aqui?

MULDER: - Bem... Eu quero um café e um quarto.

White Horn e a moça se entreolham desconfiados. White Horn analisa Mulder dos pés à cabeça.

WHITE HORN: - Por que um branco iria querer quarto e café de índio?

Mulder olha pra ele.

MULDER: - E tem alguma diferença entre café e quarto de índio ou de branco?

White Horn olha pra moça.

WHITE HORN: - Faz café pra ele.

A moça afirma com a cabeça. White Horn pega a caixa de verduras e vai para trás do balcão. Veste um avental.

WHITE HORN: - Não é daqui. De onde vem?

MULDER: - Washington...

WHITE HORN: - Tem um hotel pra brancos na cidade.

MULDER: - Eu sei, mas não gostei. Tem muita galinha por lá. Prefiro ficar aqui, mas se estou criando algum problema...

WHITE HORN: - Não.

A moça serve o café pra Mulder. Mulder sorri pra ela. Ela retribui num sorriso tímido, afastando-se, cabisbaixa. Mulder, enquanto bebe o café, olha para White Horn que lava as verduras.

WHITE HORN: - O que faz aqui nessa cidade, homem branco de Washington?

MULDER: - Meu nome é Mulder... Fox Mulder.

A moça deixa cair um prato no chão. White Horn e Mulder olham pra ela. Ela recolhe os cacos do chão, sem desviar os olhos de Mulder. Mulder alterna o olhar entre a moça e White Horn.

MULDER: - (EMBARAÇADO) Sou do FBI. Estou investigando duas mortes inexplicáveis.

White Horn larga as verduras. Aproxima-se de Mulder, secando as mãos no avental.

WHITE HORN: - Volte pra estrada.

MULDER: - Alguém por aqui pode me dizer o que está acontecendo nessa cidade? Porque eu percebo que há uma certa guerra estabelecida entre brancos e índios e sinceramente, me sinto num daqueles filmes de faroeste em preto e branco.

A moça aproxima-se. Toca no braço de White Horn.

STUMBLING BEAR: - Pai, deixe-o. Não acho que esteja mentindo ou criando confusão.

WHITE HORN: - Ele é policial. Defende lei de branco.

STUMBLING BEAR: - Não foi você que me ensinou a ouvir primeiro para depois tomar opinião?

White Horn abaixa a cabeça. Senta-se. Mulder os observa, tomando o café. A moça olha pra Mulder.

STUMBLING BEAR: - Você é bem vindo aqui, senhor Fox. Se vem com o coração puro e sem maldade. A cidade não gosta de nós. Não podemos ir até a cidade. Índios são presos se transpassarem a linha vermelha.

Mulder solta a xícara no pires.

MULDER: - (INCRÉDULO) Quer dizer que aquela linha vermelha na estrada é pra dividir territórios?

WHITE HORN: - Sim. Índio que cruzar o limite é morto.

MULDER: - (SORRI SEM GRAÇA) Vocês estão brincando comigo não é mesmo? Isso é uma piada... Estamos no século 21!

Os dois olham sérios pra Mulder. Mulder fica sério.

MULDER: - Mas e as leis? Estamos num país livre! Temos uma constituição!

WHITE HORN: - Quem faz a lei do condado são os moradores. Índio não tem voz. Desde que xerife Stone sentou na cadeira da delegacia. Povo dele gostar dele. Povo índio não. Ele fechar escolas, posto de saúde, proibir índio de entrar na cidade. Acusar índio de ladrão e traficante. Limitar índio a rodovia e reserva. Branco só vem aqui matar, roubar e fazer maldade pra índio.

White Horn levanta-se. Tira o avental. Ergue a camiseta, mostrando várias marcas de facadas. Mulder olha incrédulo. Ele abaixa a camiseta.

WHITE HORN: - Pensei que você fosse um deles.

MULDER: - Eu sou um policial. Se tiver alguma violência aqui contra os direitos humanos eu quero saber!

WHITE HORN: - Você falar que veio aqui investigar duas mortes. Mas se realmente diz a verdade sobre quem é, então são três mortes.

MULDER: - Três? Mas o xerife me falou que só havia dois garotos no carro.

WHITE HORN: - Mas xerife não falar que garotos vieram até aqui, mataram minha velha mãe e nos roubaram.

Mulder olha pra ele.

MULDER: - Snake e TJ?

WHITE HORN: - Sim. Vieram aqui, roubaram e mataram minha mãe. Minha filha viu tudo.

STUMBLING BEAR: - Quando eles entraram, eu estava agachada, limpando o chão da cozinha... Estavam drogados... Ouvi a confusão e quando fui me erguer, vi eles matarem minha avó. Com medo, me escondi debaixo da mesa até eles saírem. Levaram dinheiro, cervejas e doces...

WHITE HORN: - Minha filha se escondeu. Aquele garoto branco com nome de cobra, dias antes violentou minha filha aqui dentro. E alguém fez justiça?

MULDER: - (CHOCADO) Eu... Eu sinto muito.

WHITE HORN: - (INDIGNADO) Escola pra brancos. Índio não ter escola. Índio não ter nada por aqui. Só a reserva lá embaixo. Como um cercado pra gado não fugir. Vá embora, Homem Branco de Washington. Vai achar confusão se levar adiante a verdade.

MULDER: - Meu amigo, não pode imaginar em quanta confusão eu estou metido por causa da verdade.

Stumbling Bear olha fixamente pra Mulder. Mulder percebe e olha pra ela. Stumbling Bear cochicha pra White Horn.

STUMBLING BEAR: - (SORRI) A lenda, pai... ‘A raposa com coração de mulher’.


12:19 A.M.

Mulder deitado na cama, conversa pelo telefone. Senta-se na cama.

MULDER: - ... Queria que estivesse aqui e visse com seus próprios olhos. Estou numa cidadezinha esquisita... Cheia de tipinhos estranhos... Há uma briga entre brancos e índios... O xerife pensa que é a reencarnação do General Custer.

A imagem se divide em duas. De um lado Mulder, de outro Scully, sentada no sofá, lendo uma revista, despreocupada. Lareira acesa.

SCULLY: - Não descobriu nada ainda?

MULDER: - Pelo que entendi os rapazes assaltaram e mataram a velhinha dona do café, e algo aconteceu na estrada.

SCULLY: - (OLHOS NA REVISTA) ... Hum... O que pensa quando pensa em mim?

MULDER: - Que tipo de pergunta é essa?

SCULLY: - Estou respondendo um teste de uma revista feminina pra saber se você é meu par perfeito. Então? O que pensa quando pensa em mim?

MULDER: - (DEBOCHADO) Sexo?

Scully coloca o telefone na frente do rosto e olha indignada. Leva o telefone a orelha.

SCULLY: - Quando não está pensando em mim, pensa em quê?

MULDER: - (DEBOCHADO) Sexo.

SCULLY: - (INDIGNADA) Quando vê outra mulher, o que compara entre ela e eu?

MULDER: - (IRRITANDO) Sexo.

SCULLY: - Se está apaixonado, o que mais valoriza numa relação?

MULDER: - Sexo.

SCULLY: - (SUSPIRA/ LARGA A REVISTA) É... Realmente você não é meu par perfeito, Mulder.

MULDER: - (RINDO) Sabe quais são as três coisas mais importantes pra um homem?

SCULLY: - (DEBOCHADA) Sexo, sexo e sexo?

MULDER: - Não. Um bife suculento.

SCULLY: - Hum... Gostei da ideia... E o que mais?

MULDER: - O canal de esportes.

SCULLY: - ... Sei. E a terceira coisa mais importante?

MULDER: - (DEBOCHADO) Uma mulher do seu lado pra fazer o bife suculento e ligar no canal de esportes e depois fazer sexo.

Scully desliga o telefone. Mulder rindo, liga novamente. Ela atende com desprezo, levanta-se e sobe as escadas, fazendo pouco caso.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Alô? É você Ricardão? O corno idiota foi viajar, estou sozinha, venha imediatamente, já coloquei sais na banheira e servi o vinho tinto. Estou indo pra cama.

Mulder sorri e se levanta. Caminha até a janela. Scully entra no quarto. Senta-se na cama, puxando o edredom.

MULDER: - Estou doido pra voltar pra casa.

SCULLY: - Como está o clima por aí?

MULDER: - Infernal... Um calor horrível. Ar quente e pesado. E aí?

SCULLY: - Muito frio. Já estou na cama. Até sua filha tá congelada.

MULDER: - Me diz o que sabe sobre índios.

SCULLY: - Hum... Kevin Costner estava lindo em Dança com Lobos. Eu trocaria açúcar com ele.

MULDER: - (ENCIUMADO) Kevin Costner? Aquele cara é ridículo!

SCULLY: - (PROVOCANDO) Não acho... Ele tem uma bunda linda.

MULDER: - É ridículo sim! Ele é feio, você tem um mau gosto impressionante!

SCULLY: - (DEBOCHADA) Claro que tenho. Afinal me casei com você.

Mulder olha pro telefone incrédulo. Aproxima o telefone da orelha.

MULDER: - Muito engraçadinha. Como você tá engraçadinha hoje.

SCULLY: - Eu sou engraçadinha sempre. Mulder, por que as mulheres gostam tanto da bunda dos homens?

MULDER: - Por que são taradas!

SCULLY: - Não. Porque é o lugar mais próximo da carteira.

Mulder abre a boca, incrédulo. Scully segura o riso, movendo os lábios, vitoriosa num ‘Yes!Yes!Yes!’

MULDER: - Está tratando bem da minha filha?

SCULLY: - Não. Hoje tomei soda cáustica.

MULDER: - ...

SCULLY: - Pergunta cretina, resposta imbecil.

MULDER: - Ok, ‘Lobinha’. Vá dançar com o lobo do Kevin Costner que a raposa aqui vai dormir.

SCULLY: - Já? (BOCEJA) Puxa, sua conversa me anima tanto...

MULDER: - (RINDO) Sério, vou dormir mesmo. Acabou a palhaçada de hoje.

SCULLY: - Ai não! Agora que eu tava gostando de brincar de brigar...

MULDER: - Ah! Deixa um pouquinho pra amanhã. Meu repertório tá ficando pobre!

SCULLY: - Como está o placar?

MULDER: - A sua da carteira ganhou a noite. Tá em 5 pra você e 4 pra mim.

SCULLY: - Oba! Tá bom... Vá descansar. Eu amo você Mulder. Sonha com os anjos. E me liga se precisar de algo.

MULDER: - (DEBOCHADO) No momento eu preciso, mas não dá pra fazer por telefone...

SCULLY: - (RINDO) Você não presta, Mulder...

MULDER: - Amo você também... Tô com saudades.

SCULLY: - (SORRI) Se cuida, viu? Não arranja encrenca.

MULDER: - Beijos em você e no Pinguinho. E não deixa o Ricardão encardir minha banheira!

Mulder desliga. Deita-se na cama num sorriso. Scully desliga. Sorri, passando a mão na barriga.


BLOCO 2:

2:21 A.M.

[Som de grilos]

A cafeteria aberta. Estrada vazia. A brisa quente passa levantando a poeira do chão.

Mulder sai do quarto, cabelos revirados, com uma camiseta mal vestida por cima das calças jeans. Caminha até a máquina de refrigerantes, ao lado do índio de madeira. Retira uma moeda do bolso e coloca na máquina. Aperta o botão. Nada. Mulder fica indignado. Bate na máquina até a lata cair.

MULDER: - Jeitinho americano...

Mulder pega o refrigerante. Abre. Começa a beber, então olha pro índio de madeira.

MULDER: - Sabe, Chefe, eu sempre quis ter um índio de madeira no meu apartamento. Acho uma coisa tão rústica, intrigante... Duvido que Scully me deixaria ter um índio de madeira na sala...

Mulder percebe alguma coisa. Abaixa-se olhando pras pernas do índio. Percebe as marcas de tinta vermelha. Observa curioso.

[Som: Apache Indian – Boom Shack A Lak]

WOLF'S SLEEVE: - Muito quente.

Mulder dá um pulo assustado, olhando pra trás.

MULDER: - (INCRÉDULO) Você? O senhor de novo?

WOLF'S SLEEVE: - Algum problema?

MULDER: - Não. É que... Aparece tão rápido que parece um fantasma.

WOLF'S SLEEVE: - Não atravessar paredes ainda. Mas tentar se pagar uma soda.

Mulder sorri. Pega uma moeda e coloca na máquina. Esmurra a máquina de novo. O refrigerante cai.

WOLF'S SLEEVE: - Jeitinho americano.

MULDER: - Sim, jeitinho americano.

WOLF'S SLEEVE: - Um dia mostrar jeitinho de índio americano.

MULDER: - É diferente?

WOLF'S SLEEVE: - Sim. Chutar é mais fácil e não doer mão. Botas resistentes.

MULDER: - (RINDO) Você é engraçado vovô. Qual o seu nome?

WOLF'S SLEEVE: - Mah-vip-pah, em Apache. Wolf’s Sleeve em sua língua.

Os dois sentam-se na plataforma de madeira da entrada do café. Mulder olha pro céu. O velho índio bebe refrigerante. Mulder olha pra ele.

MULDER: - Wolf’s Sleeve, sabe alguma coisa sobre o que aconteceu por aqui?

WOLF'S SLEEVE: - Chamar de vovô. Eu gostar. Ter muitos netos.

MULDER: - (SORRI) Mas eu não poderia ser seu neto. Sou velho demais.

WOLF'S SLEEVE: - Poder sim. Eu ter 128 anos.

Mulder olha incrédulo pra ele.

MULDER: - Tá, é mais uma piadinha sua...

Wolf’s Sleeve acena negativamente com a cabeça. Mulder olha pra ele admirado.

MULDER: - (IMPRESSIONADO) Eu não chego nem na metade disso! Qual é o segredo da juventude? Comida natural?

WOLF'S SLEEVE: - Paz de espírito. Senso de humor. Respirar fundo. Banho de chuva. Dormir pouco... E não ter esposa.

O velho índio olha pra Mulder e solta um sorriso. Os dois riem.


2:47 A.M.

Mulder caminha ao lado do velho pelo deserto, segurando uma lanterna e o refrigerante. Aproximam-se de uma tenda, com uma fogueira acesa.

WOLF'S SLEEVE: - Morar aqui.

MULDER: - Por que não mora na reserva se é o chefe da tribo?

WOLF'S SLEEVE: - Gostar de ouvir espíritos. Reserva ter muita gente nova, que perdeu o costume índio. Chefe agora pra eles ser o Bush.

Mulder sorri. O velho índio senta-se perto da fogueira. Mulder senta-se também.

MULDER: - De que tribo você é vovô?

WOLF'S SLEEVE: - Eu ser Apache. Mas ter Kiowas e Sioux na família.

MULDER: - Conhecia a senhora que morreu?

WOLF'S SLEEVE: - Ser minha filha.

MULDER: - Sinto muito...

WOLF'S SLEEVE: - Eu ver muitas coisas ruins por aqui... Xerife ser homem mau... Nunca fazer justiça... Por isso eu chamar FBI.

MULDER: - (IMPRESSIONADO) Foi você?

WOLF'S SLEEVE: - Por isso estar em seu carro. Queria ver se podia confiar em você... Fox é seu nome, não é?

MULDER: - Sim.

O índio sorri. Da tenda do índio, sai uma raposa selvagem. Mulder observa a raposa meio assustado.

WOLF'S SLEEVE: - ... Ser minha amiga.

O velho afaga a raposa. Mulder observa impressionado.

MULDER: - Como consegue isso? É um bicho selvagem!

WOLF'S SLEEVE: - Ela conhecer espíritos selvagens como ela.

A raposa aproxima-se de Mulder, se esfregando nele.

WOLF'S SLEEVE: - Raposa gostar de você. Espírito das raposas.

Mulder sorri. Afaga a raposa que se deita ao lado dele.

WOLF'S SLEEVE: - ... Fox, há muito tempo atrás, quando homem branco e índio se gostar por aqui... Eu ter um xamã Kiowa na tribo. Era homem muito poderoso.

MULDER: - ...

WOLF'S SLEEVE: - Numa noite como essa ele ter ouvido barulho do vento sussurrar que brancos ficariam contra índios novamente. E que espírito da floresta criaria vida para vingar, trazendo mais sangue. Ele dizer que falso índio trazer essa guerra. Mas que espírito forte chamado Ma-ye-lata, chegaria parindo. Na forma de raposa, mas com alma tocada por índio. E devolveria a paz, usando apenas a linguagem de sua alma. Então espírito velho da floresta descansar e abençoar Ma-ye-lata...

MULDER: - Vovô, a lenda é bonita.

WOLF'S SLEEVE: - Você ser Ma-ye-lata.

MULDER: - Eu? Mas vovô, acho que sua lenda fala de uma mulher. Mulheres é que dão à luz.

WOLF'S SLEEVE: - Você me dizer que ter sido salvo por índios muitas e muitas luas atrás. Ter alma tocada por índios. Você ser raposa. Você ser Ma-ye-lata.

MULDER: - Eu não sou nenhum espírito... Esse nome aí que você disse. Aliás, o que significa?

WOLF'S SLEEVE: - Ma-ye-lata. Em idioma Kiowa significa Coração de Mulher.

MULDER: - Por quê ‘Coração de Mulher’? Vovô, acho que a sua profecia fala de uma mulher...

WOLF'S SLEEVE: - Também pensar, mas agora entender que Ma-ye-lata ser homem. E ser você. Porque você ter alma de mulher. Ser frágil como mulher. Piedoso feito mulher. Chora como mulher.

MULDER: - Tudo bem que minha esposa está grávida... Mas eu? Posso até dizer que estou, mas não carrego meu filho.

O índio olha pra Mulder sério.

WOLF'S SLEEVE: - Não carregar filho em ventre. Mas carregar filho em espírito. Estar agora com você. Raposa pressente espírito que você carrega. Você ser Ma-ye-lata. Coração de Mulher.

Mulder olha pra ele, curioso.

MULDER: - (LEVA O REFRIGERANTE À BOCA) E isso é bom ou ruim?

WOLF'S SLEEVE: - Se ter espírito de mãe, que significa lutar pela vida, ser bom, então ser coisa boa.

MULDER: - (SORRI) ... Vovô, por que aquele índio de madeira na porta do café? Quem é ele?

WOLF'S SLEEVE: - Ser um índio de madeira que segura charutos.

MULDER: - (SORRI) Eu sei vovô. Mas o que ele significa?

WOLF'S SLEEVE: - Ver? Você ter alma de mulher, Ma-ye-lata. Curioso feito mulher.

MULDER: - (SORRI) ...

WOLF'S SLEEVE: - Era hábito ter um índio de madeira em lugar que vende fumo. Não sei o que significar, talvez seja até uma maneira de dizer: índio bom não se mexer... Veio junto com café, era uma loja de fumo. Comprar loja de homem branco.

MULDER: - Algum significado religioso?

WOLF'S SLEEVE: - Não. Mas se Ma-ye-lata colocar flores e disser aos quatro ventos que recebeu milagre do índio de madeira, amanhã ter gente de todo mundo aqui. Virar religião então. Deixar eu segurar a sacola de doação.

MULDER: - (RINDO) E sabe quem o esculpiu?

WOLF'S SLEEVE: - Não saber. Mas se quiser levar um índio pra sua casa, eu ir. Se tiver televisão e torta na geladeira. Raposa e tenda ir junto.

MULDER: - Não conhece minha esposa, vovô. Ela me colocaria pra correr se visse um índio morando numa tenda dentro da sala e uma raposa no quintal...

Mulder começa a rir. O velho índio olha pra ele e sorri.

WOLF'S SLEEVE: - Pegar cachimbo pra você fumar.

MULDER: - Não fumo.

WOLF'S SLEEVE: - Mentir ser feio. Por isso ter nariz grande, Ma-ye-lata.

MULDER: - (RINDO) É... Algumas vezes fumei, mas estou começando a gostar, então é melhor parar.

WOLF'S SLEEVE: - Não pode recusar fumar comigo. É falta de educação, Ma-ye-lata.

MULDER: - Tá bom, vovô. Já que insiste...


7:11 A.M.

Mulder sai do quarto, já de terno e gravata. Aproxima-se da porta da cafeteria. Olha intrigado para o índio de madeira. Entra na cafeteria.


7:21 A.M.

Mulder sai da cafeteria com um guardanapo de papel na mão. Aproxima-se disfarçadamente do índio de madeira. Com a unha raspa um pedaço da tinta pra cima do guardanapo. Enrola o guardanapo rapidamente, colocando no bolso. Entra no carro. Pega o celular. Aperta uma tecla.

MULDER: - ... Chuck?... Sim, sou eu... Olha vou mandar uma encomenda expressa pra você e não use pra limpar o nariz, ok? ... (SORRI) Pra hoje ainda... Sem folga, Chuck, você não tem nada pra fazer aí que eu sei... Te ligo de noite.

Mulder desliga. Liga o carro. Observa a estátua, desconfiado. Morde os lábios. Pega o celular. Aperta outra tecla.

MULDER: - ... Bom dia, Foxy Roxy! ... Preciso de informações sobre animação de objetos... Tipo coisas que não deveriam se mover, mas que se movem, como a múmia do seu irmão... (SUSPIRA) Não, Scully. Eu não estou atrás de pedras que andam, mas é como se fosse isso... Verifica meus arquivos pessoais sobre animismo... Eu vou até a escola dos garotos, tentar descobrir alguma coisa... Te ligo depois.

Mulder desliga. Então parte com o carro.

Corta para a porta da cafeteria. Stumbling Bear o observa.

STUMBLING BEAR: - (SORRI) Ma-ye-lata... Veio trazer paz.


10:41 A.M.

Mulder para o carro no acostamento da rodovia. Desce. Atravessa a pista, olhando para o precipício. Põe as mãos na cintura.

Geral da reserva indígena lá embaixo. Mulder volta pra pista. Observas as marcas de pneus no chão. Agacha-se no meio da rodovia. Passa os dedos na pista, sentindo neles uma espécie de serragem.

MULDER: - (CURIOSO) Madeira...

Mulder olha pra todos os lados, nenhuma árvore há quilômetros. Mulder retira um saco plástico do bolso e esfrega os dedos dentro, lacrando-o. Observa os fragmentos de madeira contra a luz do sol.

MULDER: - (INTRIGADO) Espírito da Floresta que faz vingança...

Trovoadas. A chuva desaba. Mulder guarda a prova no bolso. Suspira, tentando olhar pro céu.

Som de uma buzina forte. Mulder vira-se e consegue escapar por um triz rolando da pista para o barro vermelho. O caminhão passa veloz pelo asfalto. Mulder levanta-se, todo sujo de lama, assustado. Observa o caminhão. Atrás dele escrito ‘mudanças’.


Delegacia de polícia – 11:12 A.M.

Trovoadas. Mulder entra na delegacia, todo molhado e sujo de lama. O policial está na recepção, alimentando o cavalo.

MULDER: - O xerife Stone, sou o agente Mulder.

POLICIAL: - Sofreu algum inconveniente?

MULDER: - (DEBOCHADO) Não. É que eu gosto de rolar na lama, sabe? Minha esposa sempre me chama de ‘Mulder, meu porquinho atrapalhado...’

O policial segura o riso.

POLICIAL: - O xerife Stone está num interrogatório. Enquanto aguarda, quer um café?

MULDER: - Não, obrigado... Bonito animal. Usa ele nas rondas?

POLICIAL: - Pra dizer a verdade não. Ele é mascote da polícia.

Mulder anda pela delegacia. Observa os cartazes de procurados. Percebe que só há índios.

MULDER: - Engraçado... Uma cidade de brancos e só vejo cartazes de índios sendo procurados.

POLICIAL: - Eles arranjam confusão...

MULDER: - Não tem bandido branco por aqui?

O xerife Stone sai de uma sala, empurrando um índio algemado.

STONE: - Leve ele pra cela 3.

O policial sai empurrando o índio. Mulder aproxima-se do imenso xerife.

MULDER: - O que ele fez?

STONE: - Ultrapassou a linha vermelha.

MULDER: - Não pode mantê-lo preso por isso! Você é um xerife, sabe que esse tipo de coisa é crime racial!

STONE: - Meta-se com seu serviço de federal, agente Mulder. Na minha cidade eu mando.

MULDER: - Não sabe mesmo onde seu filho e Snake estavam indo?

STONE: - Não. E o que isso tem a ver com a morte deles? Como eu disse, agente Mulder, acho que é uma vingança contra mim vinda daqueles bastardos que moram em tendas lá no vale.

MULDER: - Por que não me falou que uma velha índia foi morta?

STONE: - E o que me interessa se essa gente morre?

MULDER: - Seu filho e T.J. assaltaram a cafeteria na estrada. Mataram a mulher. Tomaram a rodovia e alguma coisa aconteceu. Tenho uma testemunha que afirma que os dois estavam completamente drogados.

STONE: - Meu filho nunca faria isso. Por nenhum maldito tostão de índio.

MULDER: - Tem certeza?

STONE: - Ele tem tinha tudo que um rapaz da idade dele poderia querer.

MULDER: - Inclusive drogas?

O xerife olha pra Mulder. Acuado. Surpreso.

STONE: - (RELUTANTE/ MEDO) Não... Meu filho não usava drogas!

MULDER: - Não foi o que me disseram, xerife Stone. Eu fui até a escola e descobri coisas que você não descobriu. Por ser pai dele.

STONE: - (GRITA/ VERMELHO DE RAIVA) Meu filho não usava drogas!!!!!!!!!

Stone peita Mulder, que perto dele parece um mosquito.

STONE: - Olha aqui, agente Mulder, se está insinuando que meu filho era um drogado, vai arranjar confusão por aqui.

MULDER: - Quero os nomes dos suspeitos de vender droga nessa cidade. Se não me fornecer, eu terei que pedir ao FBI em Washington... E quem vai arranjar confusão será você.

O xerife Stone olha pro policial que se aproxima.

STONE: - Diga pra esse federal idiota quem é que vende drogas na cidade. Porque se eu falar, ele vai me chamar de racista mentiroso.

POLICIAL: - Black Bird. Mas não temos ficha, nem foto, nem onde se esconde. Sabemos que vive nas montanhas.

MULDER: - Como chegaram a esse nome?

STONE: - Pressionando seus amiguinhos peles vermelhas, agente Mulder. E acredito que o nome Black Bird já deve dizer de que raça o desgraçado é.

O xerife dá as costas e entra numa sala.

Corte.


Mulder sai da delegacia, indignado, desviando das galinhas. Caminha até o carro, resmungando algo em tom muito baixo. Entra no carro.

[Som: Apache Indian – Boom Shack A Lak]

Mulder olha pro banco do carona, incrédulo.

MULDER: - Vovô?

WOLF'S SLEEVE: - (ERGUE A MÃO) Haw!

MULDER: - Não devia passear por aqui. Podem machuca-lo.

WOLF'S SLEEVE: - Não ter medo da polícia. A terra não ter dono.

MULDER: - Olha aqui, vovô, acho que tá na hora de me dar umas explicações. Estou começando a ficar irritado com todo mundo!

WOLF'S SLEEVE: - Dar carona no carro bonito?

MULDER: - Dou carona sim, mas quero explicações. Acho que o senhor sabe mais do que fala. Quem é Black Bird?

WOLF'S SLEEVE: - Ser uma música dos Beatles.

Mulder suspira.

MULDER: - É um traficante, não é?

WOLF'S SLEEVE: - Não saber quem é Black Bird. Perguntar para Stumbling Bear. Jovem sabe de jovem.

MULDER: - Desculpe, vovô... Mas é que comecei bem a minha manhã. Quero ir pro hotel tomar um banho e mudar a roupa, antes que pensem que eu sou pele vermelha por causa do barro!

WOLF'S SLEEVE: - Poder ser índio. Ter nariz grande também.

MULDER: - Estou perdido. Achava que o delegado era um cretino, mas ele tem suas razões também, vovô. Afinal um traficante índio matou o filho dele.

WOLF'S SLEEVE: - Quando um homem aponta para o céu, o tolo olha para o dedo.

MULDER: - ???

WOLF'S SLEEVE: - Ma-ye-lata estar olhando para o dedo. Não para o céu.

MULDER: - E como posso olhar para o céu?

WOLF'S SLEEVE: - Olhando dentro de sua alma. A verdade está dentro de você e não lá fora.

MULDER: - Sinto, vovô, eu estou cego e surdo. Não consigo decifrar suas charadas.

WOLF'S SLEEVE: - Ma-ye-lata cheio de problemas. Esqueceu sua alma. Quando homem entra na floresta e encara urso, sai arranhado. Ma-ye-lata está arranhado. Por isso não ver mais que floresta não ter só ursos. Mas ter outras coisas que tempos atrás Ma-ye-lata conseguia ver. Porque tinha sua alma que o guiava.

Mulder liga o carro. Fisionomia abatida.


The Old Indian – Motel & Cafe - 7:19 P.M.

Foco no motel. A chuva cai forte, tornando o pátio enlameado. Apenas um quarto com as luzes acessas e um vulto que caminha de um lado para outro.

Corta para dentro do quarto.

Mulder anda de um lado para outro, pensativo, chupando o polegar. Para na frente da janela. Abre a persiana com os dedos e olha pra chuva.

MULDER (OFF): - Nada mais tem graça sem ela... Como Scully me faz falta. É como se eu estivesse aqui apenas cumprindo uma ordem. Não estou aqui pela emoção de um caso inexplicável... E como se aproximar de uma suposição sem ao menos desejar se aproximar disso? Não há anseio algum de investigar qualquer coisa sem ela do meu lado contestando minhas teorias... (SUSPIRA) Me tornei dependente dela... Cada hipótese que ela descartava me fazia ficar irritado e arrumar outra rapidinho. Como se ela me instigasse a ser bom no que eu fazia... E agora, quem está aqui pra me instigar? Qual a emoção disso? Não consigo nem formular uma teoria... (SORRI) O velho tem razão... A verdade está dentro de mim e não lá fora... E eu não posso mais viver sem essa verdade. Sem Scully eu fico cego. Não posso ver com a alma porque deixei minha alma em Virgínia... E não posso mais resolver os Arquivos X sem ter alma...

Mulder continua observando a chuva. Então vê o carro do xerife estacionando na frente do motel. O xerife Stone desce com uma espingarda. Caminha em direção ao café.

MULDER: - Ah não, merda... Vem confusão aí...

Mulder veste o coldre e sai pra rua.

Corte.


Dentro da cafeteria, o xerife Stone dá um tiro pra cima com a espingarda. Stumbling Bear recua assustada. Mulder entra.

STONE: - Quero saber sua índia desgraçada, o que fizeram com meu filho!

MULDER: - Xerife Stone...

O xerife vira-se.

MULDER: - Acho que pode dispensar essa coisa aí. Ou costuma usar armas pra falar com moças?

STONE: - Não é uma moça é uma maldita índia vagabunda!

MULDER: - Por favor, xerife. Controle-se. Solte essa espingarda. Não me faça ter que leva-lo preso por abuso de autoridade. Você tem tamanho. Mas estou armado também.

Stumbling Bear os observa apavorada.

MULDER: - Por favor, colega. Estamos aqui para cumprir as leis.

O xerife ameaça largar a espingarda. Mas vira-se rapidamente e começa a atirar na cafeteria, quebrando tudo. A moça índia se abaixa atrás do balcão, aos gritos. Mulder tenta se aproximar, mas o xerife vira-se rapidamente lhe apontando a espingarda na testa.

STONE: - Não se atreva, federal. Aqui é a terra de ninguém. Não me faça ter que machucar você. Volte pra Washington, ninguém aqui pediu sua ajuda.

MULDER: - Realmente. Fui notificado de que havia alguma coisa errada por aqui. Acho que já descobri o que é.

STONE: - Pois então dê o fora da minha cidade. Eu cuido dos meus problemas por aqui.

O xerife sai. Dá um último tiro na porta, estraçalhando o vidro. Mulder apavorado, se protege atrás do balcão. O xerife parte rapidamente no carro. Mulder levanta-se. Olha pra moça. Ela chora assustada.


9:18 P.M.

Mulder dentro do carro, parado no acostamento da rodovia. Pensativo. Olha para a estrada. Para a chuva. Suspira. Pega o celular e disca.

MULDER: - ... (SORRI) Sim, sou eu... (TRISTE) ... Não, eu não quero saber agora. Eu só liguei pra... Dizer que aquele agente que você conheceu não existe mais... Eu... Scully, eu não consigo mais nem sequer chegar num palpite... Eu sou um péssimo detetive. As coisas não se juntam na minha cabeça... Eu fico aqui, mas fico pensando no Fumacinha e...

Mulder abaixa o celular. Tem um insight.

MULDER: - Esqueça o urso, o vovô falou... (SORRI) ... Como ele sabia disso?

Mulder volta pro celular.

MULDER: - Desculpe... É que eu estou sentindo falta de você... (SORRI) Não é sexo não... Scully, eu... Eu já senti falta da mulher, da amiga... Mas hoje eu sinto falta também da minha parceira... Da minha alma... Eu preciso da minha alma pra enxergar a verdade, Scully. Eu preciso de você. (DESESPERADO) Não dá pra trabalhar sozinho! Eu quero minha parceira cética de volta! Funcionava melhor assim!

A tela se divide em dois. Scully está sentada na cadeira da cozinha ao telefone, mexendo em coisas de bebê sobre a mesa.

SCULLY: - Mulder, sua parceira está à distância, mas pode ajudar...

MULDER: - Esquece, Scully. Você me chamaria de louco.

SCULLY: - (SORRI) Ora, Mulder, o que importa? Quantas vezes eu já te chamei de louco? Faz parte da minha vida profissional te chamar de louco.

MULDER: - Tenho saudades de ser chamado de louco.

SCULLY: - Hum... Comece a contar. (RINDO) Quero saber o que está acontecendo aí. Sou curiosa, Mulder!


BLOCO 3:

The Old Indian – Motel & Cafe - 9:53 P.M.

Mulder entra no quarto. Tira a camisa e se atira na cama. Pega o celular. Aguarda.

MULDER: - ... Continuando, Scully. E ele saiu feito doido. Juro pra você que eu pensei que ia me matar também!

Abre a tela em dois. Scully na cozinha, ainda mexendo em artigos de bebê.

SCULLY: - Mulder, posso dar a minha teoria?

MULDER: - (SORRI) Claro. Deve. Você é a minha parceira.

SCULLY: - Tudo bem, se eu sou sua alma, faz de conta que estou aí ao seu lado e pense comigo. Mulder, como espera que um pai desesperado reaja ao saber pela boca dos outros que seu filho era um viciado?

MULDER: - Desespero... É, você tem razão. Foi uma atitude desesperada do xerife.

SCULLY: - Não, Mulder... Me escute. Se você passasse por uma desgraça dessas com seu filho, você sairia dando tiros por aí? Acha que justifica a atitude dele? Descontar sua raiva nos outros?

MULDER: - Não justifica, Scully. Eu sei que não justifica. Mas eu posso entender...

SCULLY: - Mulder, eu quero que veja os dois lados!

MULDER: - Scully, simplifica pra mim, não tô a fim de fazer aposta de quem é o mais esperto hoje.

SCULLY: - Stone não sabia que o filho se drogava.

MULDER: - (RI) Óbvio!

SCULLY: - Mas o que não é óbvio é a reação dele. Mulder, Stone tem culpa no cartório e a raiva dele é que matou o próprio filho!

MULDER: - Como assim?

SCULLY: - Pensa comigo, Mulder. Stone deve estar protegendo esse traficante. Esqueça a coisa da estátua, esqueça a profecia do índio... Pegue o traficante, Mulder. Se você pegar esse cara, vai chegar ao fim do problema. E X vai ser igual a Y.

MULDER: - (SORRI) ...

SCULLY: - Mulder?

MULDER: - Como não vi isso antes?

SCULLY: - (CONVENCIDA) Porque está sem alma...

MULDER: - (SORRI) Ok, alma. Vou desligar. Acho que Fox Mulder acordou dos mortos. Te ligo mais tarde.

SCULLY: - Aonde vai?

MULDER: - Subir as montanhas... Ia ia iô...

A tela com Scully sai de foco. Mulder desliga. Veste a camisa e o sobretudo. Abre a porta do quarto. Olha pra chuva num sorriso. Observa o caminhão que passa no asfalto escrito ‘mudanças’.


12:14 A.M.

Mulder sentado dentro do carro, estacionado no acostamento da rodovia, falando ao celular.

MULDER: - Tem certeza? A tinta é a mesma do carro? Obrigada, Chuck. Estou te mandando lascas de madeira... Hehehehe... Sem graça Chuck. Não estou atrás de nenhum velho armário com cupins assassinos.

Mulder desliga. Observa a chuva que cai pelo vidro.

MULDER: - Animismo... Do latim animus, alma... Um conjunto de fenômenos parapsíquicos produzidos pela própria pessoa, sem interferência externa... Alguma mente induz o índio de madeira a andar... Talvez essa pessoa nem saiba que coloque seus desejos no índio de madeira e este apenas corresponde... Numa vingança... Eu poderia chamar isso de telecinese, mover objetos com a mente, mas não... É animismo, sem dúvida.

Mulder suspira, pensativo. Começa a divagar em voz alta.

MULDER: - Como num lugar tão deserto desses tem tanta mudança? Dois caminhões de mudança num mesmo dia? ... Eu devia ter seguido aquele caminhão! Tem coisa ali dentro e algo me diz que não são móveis.

[Som: Apache Indian – Boom Shack A Lak]

Mulder percebe um vulto aproximar-se debaixo da chuva. Tenta limpar o vidro com o para-brisa para ver melhor, mas só percebe o índio que se aproxima. Mulder desce o vidro do carro.

MULDER: - (INCRÉDULO) Vovô? Na chuva?

WOLF'S SLEEVE: - Chuva ser bom.

MULDER: - Vai se resfriar!

WOLF'S SLEEVE: - Tomar chuva há 128 anos e nunca ter gripe.

Mulder desce do carro na chuva. Fica de frente pro velho, tremendo de frio.

MULDER: - Chuva é bom! Mas tá fria!

WOLF'S SLEEVE: - Parece que Ma-ye-lata agora encontrou caminho.

MULDER: - Sim, vovô. Já estou com a minha alma, já espantei o urso. E parei de olhar pro dedo. (RINDO) Embora não dê pra ver a lua com a chuva!

WOLF'S SLEEVE: - (SORRI) Isso é bom, Ma-ye-lata.

MULDER: - Quer carona?

Som de buzina.

Mulder puxa o velho índio pro acostamento. O caminhão de mudanças passa rapidamente. Mulder olha pro velho.

MULDER: - Ei vovô, quer ser policial por um dia? Preciso de um guia nas montanhas!

WOLF'S SLEEVE: - (DEBOCHADO) Feito, cara pálida. Mas sem cavalo. Índio gostar de carro bonito.


1:11 A.M.

Mulder estaciona o carro no deserto. Faróis apagados. O velho índio observa curioso as montanhas.

MULDER: - Eu sabia que tinha coisa aí, vovô... Deve ser a droga que o sujeito vende. Que eu vi, foram três caminhões. Ele deve ter um ponto de distribuição aqui. E aquele xerife desgraçado, ao invés de se preocupar com um traficante em suas terras, se preocupa com índios!

WOLF'S SLEEVE: - Ma-ye-lata...

MULDER: - Fala vovô.

WOLF'S SLEEVE: - Querer minha sala atapetada em FBI. Raposa ir junto.

MULDER: - Olha vovô, o FBI não aguenta uma raposa lá dentro. Imagina duas e um índio? Nem pensar! Meu chefe Carter odeia índios e indianos. Pra ele tudo é a mesma coisa. Por isso a piada dessa música como trilha sonora...

Mulder pega o celular. Aperta uma tecla.

WOLF'S SLEEVE: - E também querer uma coisa dessas que fala com gente de longe.

Mulder sorri.

MULDER: - ... Escritório do Arizona? Aqui é o agente Fox Mulder, preciso falar com o responsável... Aguardo... Agente Stanley, é o agente Mulder... Preciso de vocês. Acho que peguei um traficante em Red Dust... Estou no deserto, km 3, perto das montanhas.

Mulder desliga. O velho olha pra ele.

WOLF'S SLEEVE: - Agora sim você estar começando a ver a lua, Ma-ye-lata.


2:34 A.M.

Movimento de agentes do FBI. Homens brancos sendo algemados e levados nos carros. O agente de bigode, baixinho, aproxima-se de Mulder.

STANLEY: - Que batida! Mais de mil quilos de cocaína, mil de maconha... Negócio grande esse sujeito tem por aqui. Atravessa a fronteira. Ponto estratégico. Pena não pegarmos o sujeito. Pelas informações que temos é um índio. Deve ter fugido. Eles conhecem bem essas bandas.

O carro do xerife se aproxima. O xerife desce. Caminha até eles com as mãos na cintura. Olha pra Stanley.

STONE: - O que está havendo por aqui? O que é isso na minha jurisdição, sem permissão minha?

Stanley mostra a credencial.

STANLEY: - FBI, xerife. E tráfico de drogas é crime federal. Portanto a jurisdição aqui é nossa. Entendeu?

STONE: - Pegaram Black Bird?

MULDER: - Não.

STONE: - Mas eu vou pegar esse índio desgraçado.

O xerife dá as costas e entra no carro, partindo. Stanley olha pra Mulder.

STANLEY: - Sujeitinho chato, estou no pé dele há anos!

MULDER: - É, eu sei...

STANLEY: - Se lhe causar problemas, me chame. Vou adorar comprar encrenca com ele. Me mantenha informado do que descobrir.

MULDER: - ... Pode me fazer um favor?

STANLEY: - Claro.

MULDER: - Quero a ficha do xerife. Não acredito que ele tenha alguma briga com esse Black Bird. Nenhum xerife fecharia os olhos pra algo tão grande em sua jurisdição.

STANLEY: - Acha que ele está envolvido nisso?

MULDER: - Digamos que alguma ‘alma’ me assoprou isso no ouvido.

STANLEY: - ... Vou mandar pra você via e-mail. Tem um laptop?

MULDER: - Prefiro que mande isso pelo correio. Não uso programas e e-mail convencional.

STANLEY: - Não conhece a tecnologia do Bill Gates ainda, agente Mulder?

MULDER: - Não sei o que a tecnologia do Bill Gates monitora dentro do meu computador a cada acesso na rede, agente Stanley...

Mulder afasta-se. Stanley olha pra ele curioso.


3:48 A.M.

Mulder, de camiseta e cuecas, desliga o telefone. Deita-se na cama. Puxa o lençol. Apaga o abajur. Fecha os olhos.

Pela janela, a estranha silhueta do índio que passa, movendo-se lentamente.

[Som de rangidos de madeira]

Mulder abre os olhos. Mas os fecha novamente. Vira-se de lado.


4:11 A.M.

O xerife Stone entra às pressas em sua casa. Tranca a porta. Caminha até o telefone. Disca, nervosamente, olhando para todos os lados.

STONE: - Pegaram o carregamento todo, seu imbecil! ... Eu sei, eu sei! Droga! Eu disse pra você não trazer esse desgraçado pra cá, mas você ficou com medo de dizer não pra Washington! ... Sim, esse tal Mulder... Precisamos tirar esse cara da cidade, antes que comece a descobrir o que não tem que descobrir.

A sombra do índio usando um cocar, erguendo uma machadinha, surge na parede.

STONE: - Quero que matem Mulder. Tem um deserto enorme por aí pra esconderem o corpo. Não sabemos de nada, foram os índios...

Stone desliga. Ao virar-se para trás, arregala os olhos.

STONE: - Não... Não pode ser, meu Deus!

[Som de pancada forte]

O sangue espirra por sobre os móveis.


5:37 A.M.

Mulder acorda com o celular tocando. Acende o abajur, meio dormindo. Atende.

MULDER: - Mulder... (INCRÉDULO) Quem? Estou indo.

Mulder desliga. Pula da cama e começa a se vestir rapidamente.


The Old Indian – Motel & Cafe - 7:16 A.M.

Mulder estaciona o carro na frente da cafeteria. Desce do carro. Caminha até o café. Olha pra escultura. Olha para os pés dela. Estão fora do lugar de origem, onde deixaram marcas mais claras. Mulder pega o celular. Aperta uma tecla. Aguarda, impaciente. Afasta-se da estátua.

MULDER: - Sou eu... Está ocupada?

A tela se divide em dois. Scully no banheiro, apoiando o telefone no ombro, retirando as luvas de plástico. A maior bagunça de tinta de cabelo castanho pelo balcão da pia.

SCULLY: - Não, estava apenas transformando Suzanne Modesky em morena...

MULDER: - Sério?

SCULLY: - Nossa vizinha não para de olhar pra cá, já fiquei sabendo que ela acha que Suzanne é a sua esposa traída que veio tirar satisfações. Está esperando a briga. Juntou um comitê inteiro no quintal dela. Público enorme, Mulder...

MULDER: - (RINDO) Mente fértil tem a ‘Dona Florinda ‘ aí do lado. Scully, console-se. Você não tem cara de esposa. Você tem cara de destruidora de lares.

SCULLY: - Hum, Ellen sempre me disse isso... E se você tem cara de marido...

MULDER: - (ENCIUMADO) Nem pense! O dia em que te pegar na cama com outro cara, não me responsabilizo pelas consequências! Eu acabo com os dois!

SCULLY: - (DEBOCHADA) Não se preocupe Mulder. O corno é o último a saber...

MULDER: - (ENCIUMADO) Confia nisso... Mataram Stone.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Como?

MULDER: - Uma machadinha. A cena mais interessante foi o escalpo dele pendurado dentro do armário.

SCULLY: - ... Imagino. Mas como um sujeito poderia matar um homem tão forte como Stone? Por que não dois ou três assassinos?

MULDER: - Quer minha teoria?

SCULLY: - Manda.

MULDER: - Alguma coisa sobrenatural e muito mais forte.

SCULLY: - Ah, sim... Estava demorando...

MULDER: - Você tinha razão. Stone devia estar protegendo Black Bird. Mas depois da batida que demos ontem, Black Bird mandou mata-lo. Acho que é Black Bird quem manipula o índio de madeira. O índio de madeira é o assassino.

SCULLY: - Por que insiste no índio de madeira?

MULDER: - Porque estou olhando para os pés dele agora. Há uma marca na plataforma. Ele não está sobre ela, portanto se moveu. E não me venha com suas leis da física de dilatação e movimento de madeira, porque nem em séculos essa coisa se afastaria tanto!

SCULLY: - Alguém não ergueu para tirar o pó?

MULDER: - Sem graça Scully. Essa coisa é pesada, precisa de uns 3 homens pra tirar isso daqui.

SCULLY: - Sei... E o local do crime?

MULDER: - Não encontramos nada no local do crime. Mas aí entra o meu Arquivo X... Achei fragmentos de madeira novamente. Acabo de despachar pro Chuck... (OLHANDO PRO ÍNDIO DE MADEIRA) Sei que parece loucura, mas até mesmo na cultura judaica temos o mito do monstro de barro que cria vida a partir do desejo de seu senhor. Aquilo que chamamos de Golem... Eu não sei quem ou o quê anima aquela estátua, mas ela cometeu os crimes... Talvez os faça por vontade própria, mas isso é ilógico. O mais plausível no paranormal, se é que isto é possível, é que algum poder psíquico use a estátua...

SCULLY: - (INCRÉDULA) Mulder, está insistindo nisso de novo? Está me dizendo que um índio de madeira sai caminhando pela cidade e matando gente? Hum, será que é o espírito de Geronimo? Ahn? Buuuu!

MULDER: - Deixa de deboche, Scully. Esse índio de alguma maneira saiu daqui e matou aqueles dois rapazes na estrada e o xerife Stone!

SCULLY: - Mulder, está escutando o que diz? Índios de madeira não andam por aí desfilando, Mulder!!!!!

MULDER: - Mas este anda! Os pés dele estão fora do lugar!

SCULLY: - Talvez tenha ido até a cidade buscar mais charutos...

MULDER: - Scully, por favor! A tinta vermelha do carro dos garotos... Tenho todas as provas.

SCULLY: - ...

MULDER: - O que foi? Por que está calada?

SCULLY: - Deve ter um posto médico na cidade. A batida na cabeça pode ter sido feia...

MULDER: - Ah Scully! Esse índio saiu daqui, ele tem vida própria.

SCULLY: - Tudo bem, Mulder. Mas me promete que quando voltar pra casa, vamos fazer uma tomografia nessa cabeça.

Mulder desliga.

MULDER: - (RESMUNGA) Cética... Não muda nunca mesmo... (SORRI) Que bom!

Mulder observa a estátua, curioso, a analisando.

MULDER: - Impressionante...

[Som: Apache Indian – Boom Shack A Lak]

WOLF'S SLEEVE: - O que ser?

Mulder dá um pulo. O velho índio ao lado dele. Mulder põe a mão no peito, ofegante.

MULDER: - Vovô, até o final desse caso eu vou ter enfartado!

WOLF'S SLEEVE: - Mas sempre ter musiquinha no roteiro pra avisar quando estar chegando... Não prestar atenção no script?

Mulder olha indignado pro lado.

WOLF'S SLEEVE: - Por que encarar o Grande Chefe?

MULDER: - Porque o Grande Chefe, de alguma maneira saiu daqui e matou aqueles dois rapazes na estrada e o xerife Stone!

WOLF'S SLEEVE: - Ar do deserto não fazer bem pra Ma-ye-lata... Estar zunzum da cachola.

MULDER: - (IRRITADO) Eu não tô zunzum da cachola! Será que virou moda me chamarem de louco?

Uma índia sai da cafeteria e esbarra em Mulder.

ÍNDIA: - Saia do meio do caminho, seu louco.

O velho índio põe a mão nos lábios soltando um ‘hihihi’.

MULDER: - (INDIGNADO) Tá bom, vovô. Já folgou em mim o suficiente por toda a eternidade. Você não disse que espírito da floresta traria mais sangue?

WOLF'S SLEEVE: - Disse.

MULDER: - E que depois descansaria quando Ma-ye-lata trouxesse paz?

WOLF'S SLEEVE: - Mas você dizer que não ser Ma-ye-lata.

MULDER: - Vovô, por favor... Não dá nó na minha cabeça "louca".

WOLF'S SLEEVE: - Eu dizer sim. Mas espírito da floresta ser espírito da floresta. Não significar que estar em velho índio de madeira.

MULDER: - Olha aqui, vovô! Olha essas marcas aqui e me diz se esse índio não saiu daqui andando?

WOLF'S SLEEVE: - Hum... Ma-ye-lata ter razão... Índio de madeira não estar em seu lugar certo. Perguntar ao meu neto White Horn. Ele deve saber.

O velho índio abre a porta e entra no café. Mulder está irritado. Encara a escultura.

MULDER: - Ok, Chefe, confesse. Não vai ir preso, porque seria um atestado de insanidade mental eu chegar na delegacia com um índio de madeira algemado ao meu pulso!

Mulder coloca a mão debaixo do nariz da escultura. Ri. Põe as mãos no rosto.

MULDER: - (RINDO) Eu devo estar ficando louco! Índios de madeira não respiram! O que estou fazendo? (RI FORA DE SI) Mas ele se mexeu! Eu sei que se mexeu!

Corta para a porta. Stumbling Bear e Wolf’s Sleeve olham pra Mulder, curiosos. Mulder olha pra eles, constrangido.

STUMBLING BEAR: - Quer um café, senhor Fox? Vai se sentir melhor.

MULDER: - Eu quero saber como esse índio se mexeu!

STUMBLING BEAR: - Ele não se mexeu. Meu pai o tirou daí pra lavar.

MULDER: - Pra quê?

STUMBLING BEAR: - Terra vermelha. Pó fica incrustado por tudo!

MULDER: - Onde está seu pai?

STUMBLING BEAR: - Na reserva.

MULDER: - Ótimo. Agora eu quero aquele café, porque não saio daqui sem respostas.

Mulder passa entre os dois e entra no café. Stumbling Bear olha pro velho. Suspira.


8:47 A.M.

Mulder sentado ao balcão, com uma xícara de café à sua frente. Wolf’s Sleeve ao lado dele, comendo uma torta. O celular toca. Mulder atende.

MULDER: - Fala.

A tela se divide em dois. Scully sentada ao computador.

SCULLY: - Checou a ficha do xerife Stone?

MULDER: - Chequei. Nada demais.

SCULLY: - Como assim ‘nada demais’? Há dez anos atrás ele enfrentou um processo no estado do Novo México, que não resultou em nada por falta de provas. Foi acusado de participar do tráfico de drogas pela fronteira do México com o Arizona!

MULDER: - Não. Você deve ter checado o nome errado. Phillip Stone. Vi os arquivos, recebi por entrega rápida.

SCULLY: - Sim, Phillip Stone, delegado de Red Dust.

MULDER: - Mas nos arquivos que recebi do escritório do FBI no Arizona, mandados pelo agente Stanley... (FECHA OS OLHOS) Merda! Agora eu entendi.

SCULLY: - Mulder o que foi? Estou começando a ficar preocupada com você...

MULDER: - Claro, Scully. Stone não agia sozinho, menos ainda esse Black Bird! O agente Stanley deve estar encobrindo tudo isso... Eu te ligo depois.

SCULLY: - Mulder, por favor, não se meta em encrenca!

Mulder desliga. Scully desliga, nervosa.


BLOCO 4:

Residência do xerife Stone - 9:31 A.M.

Mulder vasculha o lugar, que já está revirado. Revira gavetas, armários.

MULDER: - Eles tem que ter esquecido alguma prova... Qualquer coisa!

A sombra enorme projeta-se na parede. Mulder pressente algo atrás dele. Vira-se rapidamente. Percebe a mulher, Jennifer, que caminha lentamente sem chamar atenção até a porta, segurando uma sacola de viagem.

MULDER: - Parada aí!

Jennifer tenta correr, mas Mulder a segura. Ela grita, tentando se desvencilhar.

JENNIFER: - (CHORANDO) Não! Não me mate, não me mate! Eu só vim pegar as coisas do meu filho!

Mulder olha pra ela sem entender nada.

MULDER: - Quem é você? Quer se acalmar?

JENNIFER: - (ASSUSTADA/ CHORANDO)

Mulder mostra sua credencial.

MULDER: - Sou o agente Mulder, do FBI.

JENNIFER: - Ai meu Deus!

Jennifer cai ao chão, chorando.

JENNIFER: - Não me mate... Não me mate!

MULDER: - Senhora...? E-eu não estou entendendo, por que eu iria mata-la? Quem é você, que diabos faz aqui?

JENNIFER: - Você sabe, não tente me enganar...

MULDER: - Eu não sei do que está falando! Eu cheguei de Washington há alguns dias e sinceramente, já não entendo mais nada!

Jennifer olha pra ele. Abre um sorriso. Seca as lágrimas.

JENNIFER: - Washington?

MULDER: - Sim.

Ela se levanta, rindo, confusa.

MULDER: - Quem é você?

JENNIFER: - Jennifer. Ex- senhora Stone.

MULDER: - Eu lamento muito pelo ocorrido...

JENNIFER: - Não lamente, agente Mulder. Ele teve o que merecia.

Jennifer senta-se no sofá.

JENNIFER: - Desculpe... Pensei que fosse amigo do meu ex-marido... (EMBARAÇADA) Eu... (COMEÇA A CHORAR) Eu vivo com medo, entende?

MULDER: - Quer me dizer o que está acontecendo por aqui? Eu não posso ajuda-la se não me disser em que seu ex-marido estava metido.

JENNIFER: - (NERVOSA/ ESFREGANDO AS MÃOS) Eu...

MULDER: - Quer um chá?

JENNIFER: - Não... (CONTÉM-SE) Eu acabo de chegar do México. Soube ontem da morte do meu filho. Eu disse, T.J., fuja comigo. Seu pai não vale nada. Mas ele não me ouvia. O pai dele fez a cabeça do menino.

MULDER: - Por que fugiu daqui?

JENNIFER: - Pelas surras... Ou pelos negócios escusos que Phillip mantinha. Eu sabia demais, entende? Ou ficava e morria ou arriscava ir pra bem longe, e fugir dele. Mudei meu nome, vivia assustada, com medo de que alguém me descobrisse. Ele tinha um amigo no FBI. Seria fácil saber onde eu estava se não trocasse meu nome, falsificasse documentos e saísse do país...

MULDER: - Jennifer... Preciso de provas. Eu já sei que seu ex-marido tinha proteção dentro do FBI. Mas eu preciso de provas, isso é uma acusação séria.

JENNIFER: - Stanley. O nome do safado é Stanley.

Mulder respira fundo.

MULDER: - Pode me conseguir provas do que está falando, Jennifer? Vai manter seu testemunho num tribunal? É uma acusação muito séria.

JENNIFER: - Eu faço qualquer coisa, agente Mulder, para me livrar deste tormento. Não posso mais viver fugindo, com medo da polícia!

MULDER: - Terá toda a proteção que precisar, senhora.

JENNIFER: - Eu sei onde Phillip guardava notas, recibos. Tenho o número da conta de banco... O agente Stanley lavava o dinheiro das drogas para meu ex-marido.

MULDER: - E quem é Black Bird? Você conhece o índio Black Bird?

Jennifer sorri, entre lágrimas.

JENNIFER: - Black Bird... Ele não é um índio. Era o codinome do meu ex-marido, o delegado dessa cidade.

Mulder fecha os olhos.

MULDER: - Vovô... E a sua profecia do ‘falso índio’...

JENNIFER: - Usava um nome índio para afastar as atenções. Culpar os índios. Ele criou esse asco que a cidade tem por índios. Ele sabia que a reserva indígena ficava próxima ao esconderijo das drogas. Queria que os pobres índios não tivessem palavra para incrimina-lo. Fez a cidade inteira odiá-los, mantê-los afastados... Enquanto ele, o bom homem branco... Nem sabia que seu filho consumia as próprias drogas que vendia.


The Old Indian – Motel & Cafe - 10:33 A.M.

Mulder estaciona o carro no acostamento da estrada, em frente ao café. Jennifer sentada ao lado dele.

Um tumulto de pessoas na frente do café, armadas com rifles, pás e foices. A maior parte vestida de cowboy. Mulder desce assustado. Passa por entre elas, abrindo caminho. Jennifer vem de mãos dadas com Mulder, assustada.

Na entrada do café, ao lado do velho índio de madeira, dois homens armados seguram White Horn, todo machucado. Um terceiro segura Stumbling Bear pelas tranças. Mulder para, puxando a credencial.

MULDER: - FBI, soltem essas pessoas!

NELSON: - Ninguém vai soltar ninguém aqui!

Mulder observa o sujeito de meia idade, de jeans e camisa xadrez vermelha, que vem em sua direção com uma espingarda. O clima fica tenso.

MULDER: - Quem é você?

NELSON: - Meu nome é Billy Nelson. Queremos esses índios desgraçados fora daqui! Eles só trazem desgraça pra nossa cidade e ainda mataram nosso xerife! (GRITA) Assassinos!!!! Traficantes!!!

Todos começam a gritar ‘assassinos traficantes’. As pessoas estão tensas, ameaçando destruir tudo. Mulder puxa a arma e atira pra cima. Todos olham pra ele.

MULDER: - (GRITA/ ERGUENDO O DISTINTIVO) Sou o agente especial Fox Mulder, do FBI. E estamos numa cidade dos Estados Unidos! Existem leis e uma constituição a ser cumprida! Não somos um bando de neandertais fora da lei!

NELSON: - (GRITA) Uma ova! Eu vou quebrar essa merda toda e matar esses desgraçados! Estou no meu direito de cidadão!

Mulder se impõe com a voz. Fisionomia de irritação.

MULDER: - (GRITA) Quem der um passo pra dentro do café vai tomar um tiro. Estou no meu direito de policial. Bagunça, vandalismo e desordem são crimes!

Mulder olha pros homens que seguram White Horn e Stumbling Bear.

MULDER: - (FURIOSO/ GRITA) Soltem os dois. Agora!

Eles soltam.

MULDER: - Vão pra dentro.

White Horn e Stumbling Bear entram no café, rapidamente. Mulder continua olhando pras pessoas. Se põe na frente da porta do café, segurando a arma.

MULDER: - (GRITA) Como é fácil pra vocês julgarem as pessoas baseando-se no tom de pele delas! No maldito preconceito racial!

NELSON: - (GRITA) São uns índios safados! Eles mataram o xerife. Assassinos!!!!!!!

Todos afirmam, indignados.

MULDER: - (GRITA) Não temos prova alguma disso!

NELSON: - (GRITA) O velho Martinez viu! Ele viu um índio saindo da casa do xerife! Ele foi morto com uma machadinha!

MULDER: - (GRITA) E o que isso prova? Vocês se julgam espertos demais, não é mesmo? Que moral tem pra acusar os índios de assassinato se estão aqui com foices e armas?

NELSON: - (GRITA) Prenda Black Bird! Todos nós sabemos que a desgraça aqui é esse maldito índio traficante!

Mulder olha pra Jennifer.

MULDER: - Quero que entre no café. Feche as portas e não saiam de lá. Ligue pro FBI em Washington e fale com o diretor Skinner. Diga que preciso de agentes pra uma auditoria interna, sem passar pelo escritório do Arizona. Pode dizer o motivo. E o nome de Stanley. Quero que o peguem antes que fuja.

Jennifer confirma com a cabeça e entra no café, trancando a porta. Mulder olha pra Nelson.

MULDER: - Se você acalmar sua gente aqui eu posso contar uma verdade.

Nelson caminha até Mulder. Olha pro povo, erguendo as mãos.

NELSON: - (GRITA) Vamos ouvir o que o policial da cidade tem pra dizer! Depois vamos quebrar essa droga toda e colocar fogo na reserva!

O povo aplaude. Mulder olha pra Nelson, indignado. As pessoas se calam. A viatura da polícia estaciona. O auxiliar do xerife desce, armado, indo até Mulder.

CORNELL: - O que está havendo, agente Mulder?

MULDER: - Querem matar os índios. Preciso de reforços policiais agora.

CORNELL: - Posso chamar policiais das cidades vizinhas.

MULDER: - Faça isso por garantia, antes que a coisa termine em sangue.

O policial sai correndo até a viatura. Mulder olha pras pessoas.

MULDER: - (GRITA) Black Bird foi assassinado!

Todos se entreolham. Batem palmas.

MULDER: - (GRITA) Portanto, seus filhos estão livres das drogas e essa cidade agora pode viver em paz.

Uma mulher no meio da multidão grita.

MULHER: - (GRITA) Você o matou?

MULDER: - Não. Alguém matou Black Bird. Ontem à noite.

NELSON: - (GRITA) Foi o xerife! Eu disse! O xerife matou o índio desgraçado, por isso o mataram! Vamos colocar fogo nessa gente!

Eles começam a falar alto, empolgados, ameaçando entrar. Mulder dá um tiro pra cima. Todos param.

MULDER: - (GRITA) Black Bird era o xerife Stone.

Todos se entreolham. O silêncio paira no ar.

MULDER: - (GRITA) O inimigo de vocês estava entre vocês.

NELSON: - (GRITA) Está mentindo pra salvar esses índios!

MULDER: - (GRITA) Não estou mentindo! Eu sou um agente federal! Melhor irem se dispersando daqui porque a polícia está chegando. E eu juro que levo todo mundo em cana debaixo de porrada! Pouco me importa cumprir leis onde as leis não existem!

Nelson aponta a espingarda pra Mulder.

NELSON: - Leve todo mundo em cana, mas o xerife Stone é inocente. Não macule a imagem de um homem morto!

MULDER: - Vai me matar? Pensei que ia matar os índios. Ou brancos aqui matam brancos também?

NELSON: - ...

MULDER: - (GRITA) Aliás, vocês todos aqui não tem vergonha na cara! Deveriam se envergonhar do que fizeram contra um povo que nunca incomodou ninguém! Vocês se matam a si mesmos! Vocês consumiam drogas de brancos e não de índios! Foram enganados por um branco. Mas o ódio racial de vocês não deixava ver que brancos também são maus!

Jennifer sai do café. Todos olham pra ela.

JENNIFER: - (GRITA) Lembram-se de mim? Eu sou Jennifer Stone!

Nelson abaixa a espingarda.

NELSON: - Você está morta! Seu marido disse isso! Que os índios a mataram!

JENNIFER: - (GRITA) Meu marido queria me matar! Foram os índios que me tiraram daqui pelo deserto! Ele mentiu pra vocês sobre minha morte! E acham que foi apenas sobre isso que ele mentiu?

O alvoroço é geral.

JENNIFER: - (GRITA) O xerife de vocês não prestava! Ele era um assassino, um maldito traficante, que matou o próprio filho! Quem são os assassinos por aqui? Quem é que tem ódio no coração? Quem é que não tem vergonha na cara? Vão pra suas casas e reflitam!

O povo começa a se dispersar. Nelson olha pra Mulder. Dá as costas e sai. Mulder o acompanha com os olhos. Desvia o olhar para a estrada, onde algo lhe chama a atenção. Wolf’s Sleeve parado, no meio da rodovia, com a raposa no colo. Ergue a mão pra Mulder, num sinal de paz, abrindo um sorriso.


3:34 P.M.

Dentro da cafeteria, Mulder apoiado com a mão na parede. Fala ao celular. Jennifer faz curativos em White Horn, sentado num banco.

WHITE HORN: - Estar bem melhor. Obrigado.

Stumbling Bear entra correndo, sorrindo.

STUMBLING BEAR: - Tudo bem na reserva. Tem policiais por lá, dando proteção. O povo da cidade está reunido no clube.

Mulder desliga o celular e se aproxima.

MULDER: - O que estão fazendo reunidos?

STUMBLING BEAR: - O auxiliar do xerife está com eles. Está lendo um fax que chegou do FBI, afirmando o envolvimento do xerife Stone em drogas.

MULDER: - Stanley está preso. Acho que agora pode haver paz entre as raças... Mas ainda tem algo me incomodando...

Mulder pega White Horn pelo braço. Caminha até a porta com ele. Os dois saem pra fora. Mulder aponta pro índio de madeira.

MULDER: - Isso ainda me incomoda.

WHITE HORN: - (SORRI) Era madrugada, quando eu tirar índio de madeira e levar pro lado do motel. Lá ter a minha oficina. Eu lavar e depois passar veneno contra cupim. Como ser pesado, eu fui agachado empurrando índio com as costas.

MULDER: - E por que o tirou dali pra lavar? Não era mais fácil lavá-lo ali?

WHITE HORN: - Ser mais fácil. Mas chão de terra, enlamear sapato de cliente. Depois leva tempo pra índio secar. Eu passar verniz nele, não notar?

MULDER: - Tá, mas e o que aconteceu com os garotos?

WHITE HORN: - Pode ter sido grande espírito da floresta. Mas não ter sido índio de madeira.

MULDER: - Como explica as marcas de madeira na estrada?

O índio aponta pra rodovia. Uma camioneta velha passa fazendo barulho, carregando várias tábuas, que saem pra fora da camionete.

WHITE HORN: - O dono da serralharia. Fica há quilômetros daqui. Acaba espalhando serragem pela rodovia.

MULDER: - E por que é o mesmo tipo de madeira?

WHITE HORN: - Não ter outro tipo de madeira na região.

MULDER: - E o que faz essas marcas de tinta vermelha no índio?

WHITE HORN: - Desculpar. Eu arrumar ele na oficina. Sem querer sujar com tinta vermelha de carro.

MULDER: - Vocês ainda não me convenceram.

WHITE HORN: - (SORRI) O que vai dizer em seu relatório. O que eu disse ou que índio de madeira andar e fazer justiça por aí?

MULDER: - ... Sem comentários.

WHITE HORN: - Eu não acredito que você ser Ma-ye-lata. Você não acreditar em índio de madeira também. Estamos quites?

White Horn sorri. Mulder olha pro índio de madeira.

MULDER: - Vou pro meu quarto descansar e depois arrumar minhas coisas. Preciso voltar pra Washington.


8:23 P.M.

Mulder termina de fazer a mala. Está com os cabelos molhados, camiseta e jeans.

[Som de multidão]

Mulder fecha a mala. Aproxima-se da janela. Abre a persiana e espia.

MULDER: - Ah não, de novo não!

Mulder sai pra fora do quarto assustado.

Corte.


Os carros estacionam na frente do café, que fica tumultuado de gente. Várias pessoas vêm entrando, rindo, conversando. Índios e brancos juntos, contando piadas. Mulder sorri, aliviado. Nelson surge no meio da multidão, puxando um cavalo malhado pela rédea. Olha pra Mulder.

NELSON: - Vamos tomar uma cerveja, FBI?

MULDER: - Não sei... Tenho que estar cedo em Washington!

Nelson se aproxima. Entrega a rédea do cavalo pra Mulder.

MULDER: - O que é isso?

NELSON: - Um cavalo.

MULDER: - Eu sei. Mas por que estou segurando essa rédea?

NELSON: - Os índios e o povo da cidade querem dá-lo a você. Em gratidão por trazer a paz ao nosso povoado. É puro sangue. Meu filho mesmo o treinou.

Mulder olha pro cavalo empolgado. Nelson entra na cafeteria. Mulder passa a mão no cavalo, impressionado, num sorriso. Então desfaz o sorriso.

MULDER: - (PÂNICO)Como vou levar um cavalo pra Virgínia?

[Som: Apache Indian – Boom Shack A Lak]

WOLF'S SLEEVE: - Lenda se cumpriu, Ma-ye-lata.

Mulder dá um pulo. Olha pra trás e sorri.

MULDER: - Vovô... O senhor não aprende mesmo.

WOLF'S SLEEVE: - Bonito animal.

MULDER: - Eu sei... Mas...

WOLF'S SLEEVE: - Velho índio saber. Esposa de Ma-ye-lata expulsar marido se ver cavalo no quintal. Mulher brava... Brava feito vento que vem da montanha.

MULDER: - (SORRI)... O vento? Não. O vento é fraco perto dela!

Mulder entrega a guia para o velho índio.

MULDER: - Sei que não se costuma dar presentes recebidos. Mas não posso ficar com ele. Acho que ele deve ficar aqui, em sua terra, com você.

WOLF'S SLEEVE: - Eu ganhar um cavalo puro sangue de Ma-ye-lata? Não poder aceitar.

MULDER: - Então faz assim, vovô. Você toma conta dele. Nas férias eu venho com a minha esposa e vamos andar a cavalo.

WOLF'S SLEEVE: - Ter uma égua bonita. Cruzar com cavalo. Então nas férias ter pônei pra dar a seu filho. E ele estar me escutando. Vai cobrar isso.

MULDER: - (SORRI) ... Vovô, acho melhor não incentivar meu filho... Imagina um pônei no quintal?

WOLF'S SLEEVE: - Achar que você deve levar pra Washington cavalo, pônei, raposa, tenda e velho índio. Se desfazer de esposa, assim chegar aos 128 anos.

Mulder começa a rir.

MULDER: - Não dá vovô... Como vou me desfazer da minha alma?

WOLF'S SLEEVE: - Não contar pra ela sobre pônei. Ou voltar pra cá mais rápido que pensa. Ela gostar da ideia.

MULDER: - A Scully? (SORRI) Não. O senhor não conhece a Scully. Ela jamais iria me deixar ter um pônei no quintal. Ela é toda da cidade... Quando disse a ela que meu sonho era morar numa fazenda, quase que ela teve um ataque.

Stumbling Bear sai da cafeteria. Aproxima-se deles.

STUMBLING BEAR: - Todos estão lá dentro, esperando você Ma-ye-lata. Depois vamos pra reserva comemorar.

Os três caminham em direção ao café.

MULDER: - Acho que não volto pra Washington amanhã... Vou acordar de porre...

WOLF'S SLEEVE: - Eu saber fazer mistura que passar porre.

MULDER: - (EMPOLGADO) Sério? Com ervas, preces, aquelas coisas todas?

WOLF'S SLEEVE: - Não. Água e pastilhas pra estômago.

Mulder olha desanimado pra ele. Stumbling Bear ri.

STUMBLING BEAR: - Desista, Ma-ye-lata. Ninguém ganha do meu bisavô.


9:37 A.M.

Mulder ao lado do carro, sorri. White Horn, Wolf’s Sleeve e Stumbling Bear olham pra ele. Stumbling Bear, vestida com um avental por sobre a roupa.

MULDER: - Eu... Não costumo dizer isso, mas... Vou sentir saudades de vocês. Principalmente de você, vovô... Não vou ter mais ninguém pra me assustar.

WOLF'S SLEEVE: - Um dia ir pra Washington. Raposa vai junto.

Mulder sorri. Olha pra eles.

MULDER: - Não vão me falar do índio de madeira, não é mesmo?

WOLF'S SLEEVE: - Ma-ye-lata... Certos segredos devem permanecer segredo.

MULDER: - Eu não sou Ma-ye-lata.

STUMBLING BEAR: - Mas a lenda se cumprir. Você trazer paz e união de branco e índio.

MULDER: - Foi um golpe de sorte.

Stumbling Bear abraça Mulder num sorriso. Afasta-se secando as lágrimas

STUMBLING BEAR: - Obrigada, Ma-ye-lata. Agora eu voltar a estudar.

Mulder sorri. A moça retira do bolso do avental um embrulho de papel. Entrega com as duas mãos pra Mulder.

STUMBLING BEAR: - Eu fazer isto com meu coração. Levar pra sua esposa. Vá com os espíritos bons pra sua casa.

Mulder pega o embrulho. Sorri.

MULDER: - Obrigado, Stumbling Bear. Fiquem com os espíritos bons também.

Mulder entra no carro. Acena pra eles. Eles acenam pra Mulder. Mulder desce o vidro.

MULDER: - Cuide bem do Ma-ye-lata, vovô.

WOLF'S SLEEVE: - Cuidarei. Buscar pônei do filho nas férias!

Mulder sorri. Liga o carro. Toma a estrada. White Horn olha pro velho.

WHITE HORN: - Quem é Ma-ye-lata? Pensei que fosse ele.

WOLF'S SLEEVE: - Ser o cavalo dele também.

WHITE HORN: - Ele não era Ma-ye-lata.

WOLF'S SLEEVE: - Era sim.

Trovoadas repentinas. O céu começa a se fechar de nuvens, anunciando tempestade. White Horn olha pra cima, impressionado. Stumbling Bear e Wolf’s Sleeve acompanham o carro de Mulder ao longe. E a raposa branca que corre atrás do carro, ambos sumindo no horizonte, enquanto se aproxima a tempestade.

WOLF'S SLEEVE: - Vá em paz, Ma-ye-lata. Espírito da Floresta abençoar você e agora poder descansar.

Corte.


[Som: Apache Indian – Boom Shack A Lak]

Mulder dirige o carro. Pega o celular e aperta uma tecla. Aguarda. Abre um sorriso maquiavélico.

MULDER: - Bom dia Foxy Roxy...

A tela se divide em dois. Scully lixa as unhas, com o telefone apoiado no ombro.

SCULLY: - Bom dia, Fox Mulder...

MULDER: - O que você acha de um pônei pra nossa filha?

SCULLY: - (SORRI EMPOLGADA) Ai, Mulder! Eu sempre quis ter um pônei!

MULDER: - (PÂNICO) Como ele sabia???

SCULLY: - Quem?

MULDER: - Nada. Esqueça. Estou indo pra casa.

SCULLY: - Ótimo. Agora descobri sua espécie biológica de corno. É o corno prevenido, aquele que avisa antes de chegar...

MULDER: - Pois sabia que em alguns países da África, o noivo só conhece a mulher depois que casa? Grande coisa! Igualzinho aqui nos Estados Unidos.

SCULLY: - Sabe, estava lendo o relatório da sua última consulta com seu psicólogo. A pergunta dele: Pode me contar tudo deste o princípio, Mulder. Sua resposta: Pois bem doutor! No princípio eu criei o céu e a terra...

Mulder morde os lábios, segurando o riso. Ela lixa as unhas num semblante debochado.

MULDER: - Scully, você sabe qual é a maior alegria do homem?

SCULLY: - Algo a ver com bifes suculentos e canal de esportes?

MULDER: - Não. A maior alegria de um homem é saber que sua mulher está grávida. E a maior tristeza?

SCULLY: - Hum...

MULDER: - Saber que a empregada também...

SCULLY: - Mulder, não temos empregada.

MULDER: - (DEBOCHADO) Ufa! Que boa notícia...

SCULLY: - Como se faz para deixar um idiota curioso?

MULDER: - (CURIOSO) Como?

SCULLY: - Ah, te conto amanhã...

MULDER: - Ah é assim? Ok, Scully. Certas coisas são muito difíceis de encarar de frente. O sexo anal por exemplo.

SCULLY: - Sério? Mas apesar de tudo o sexo continua em alta, Mulder. Ou o seu já baixou?

MULDER: - Agora eu entendi porque você me chama de tarado. Tarado não é aquele que fica atrás de um monte de mulher, mas sim o cara que depois de anos de casado, ainda faz amor com a própria esposa.

SCULLY: - Desventuras do casamento, Mulder. Casamento é igual a circo. Você é equilibrista, domadora, mágica ou palhaça.

MULDER: - Mas contudo eu sou feliz com você. A mulher pequena é a ideal. Dos males o menor.

SCULLY: - Tá bem, Mulder. Eu sei que você está estressado. A partir de hoje, aqui em casa vamos dividir tudo. Eu fico com os direitos e você com os deveres.

MULDER: - Tudo bem, Scully. Mas se for ao médico diga que nos últimos dias, eu resolvi te pendurar no teto para fazer amor. Pode dizer que você chegou a pensar que fosse alguma tara, mas que eu disse que era recomendação médica. Afinal, ele não disse que depois do oitavo mês de gravidez, as relações deveriam ser suspensas?

SCULLY: - ...

MULDER: - ... (EMPOLGADO) Placar?

SCULLY: - Hum... Confesso que a da gravidez foi bem engraçada...

MULDER: - 10 a 10. Em casa a gente desempata.

Mulder desliga rindo. A tela com Scully cede lugar a imagem apenas de Mulder. A chuva começa a cair forte. Mulder liga os pára-brisas. Observa a estrada molhada sem movimento algum. A visibilidade é pouca pela chuva. Mulder olha para o banco do carona. Sorri. Abre o pacote com uma das mãos, curioso. Percebe o pequenino casaquinho índio, costurado a mão, feito por Stumbling Bear. Mulder volta a olhar para a estrada.

MULDER: - Sabe de uma coisa? Ainda fiquei cismado com o índio de madeira...

Mulder passa desapercebido pelo chefe índio parado na estrada, de costas para a câmera. Ao lado dele uma raposa branca.

Foco no índio, feito de madeira. Ergue a mão abençoando Mulder. Então caminha para o deserto, lentamente, segurando a machadinha, ao lado da raposa, os dois desaparecendo no nada.



X

20/09/2001

22 de Agosto de 2019 às 21:07 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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