The Lost Canvas - Chiaroscuro Seguir história

inouemukurolc Inoue Mukuro

Existe uma antiga técnica de pintura que retrata em poucas nuances os conceitos de trevas e luz. Ela defende que sem uma, não há outra. Metades que juntas, preenchem as cores do caos e da paz na tela do destino. Em um pequeno vilarejo na Itália, estes tons pintam as vidas de três irmãos, órfãos de um tempo difícil onde a Europa mergulhava em disputas religiosas e afundava em uma terrível penumbra. Tenma, Alone e Sasha sabiam bem de sua realidade, mas não deixavam de sonhar e ver felicidade em cada traço de suas vidas. Unidos, fizeram um juramento eterno de que jamais se afastariam, independente do rumo que tomassem. Mas uma terrível ameaça promete tingir os céus em breu e iniciar uma turbulenta revolução diante do sagrado símbolo do santuário, que decide afrontar o iminente caos à altura e assim, as duas forças começam a se movimentar para buscar seus respectivos guerreiros e dois dos mais poderosos deuses: Athena e Hades. A guerra santa se iniciará e mudará suas paletas, suas cores, trazendo novas perspectivas para suas aquarelas e destonando a paz dos irmãos que se vêem perdidos em meio ao terror e a pressão de um futuro incerto. Mas no fundo, para o jovem Alone, tudo sempre foi uma questão de perspectiva, pois trevas e luz sempre caminharam juntas, assim como para Sasha que considera que para haver trevas, a luz é necessária. Não importa se for no Reino de Athena ou no Submundo de Hades... O destino era reproduzido em preto e branco. Uma tela perdida a ilustrar suas vidas.


Fanfiction Anime/Mangá Para maiores de 18 apenas.

#cavaleiros-do-zodíaco
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Despedida das Flores


Segundo Pablo Neruda, "podes cortar todas as flores, mas não podes impedir que a primavera apareça". Esta nova história trata muito bem deste conceito e claro, convido-os a embarcar numa mágica guerra santa, aos tempos em que homens trajados em reluzentes e poderosas armaduras, regidos por suas constelações, defendiam o reino da Deusa Athena contra a escuridão do Deus Hades. Sou o Mukuro e junto da minha parceira e total idealizadora deste lindo projeto, LuInoue, damos boas vindas à Chiaroscuro, uma trama que divide e une bem e mal, e acima de tudo, o amor. Ah o amor, l'amour, amare, love, mas amor não é apenas amor, como também ódio, trevas, feridas e fortes emoções. Esta saga diverge um pouco da trama cânone de Lost Canvas, ou seja, algumas coisas foram alteradas para melhor imersão e para tapar alguns detalhes e respostas da obra de Shiori Teshirogi, bem como as relações entre personagens. Também mexemos um pouco na mitologia presente no enredo e já aviso aos "mitolomaníacos" de plantão que segurem suas rédeas, esta é uma obra ficcional, eu e a Lu buscamos muita coerência mas não deixamos de acreditar em novas possibilidades.

Há um tempo atrás esta louca me convidou para uma obra deste porte em parceria. Fiquei ressabiado, afinal esta é a minha primeira co-autoria e estou muito feliz, espero de coração que gostem deste trabalho, pois ele é feito disto. Fazia anos que a franquia CDZ não me despertava e ainda mais Lost Canvas que é extremamente nostálgica e especial, assim como para muitos fãs da série. Nas Notas Finais abordaremos algumas curiosidades e fatos respectivos aos cavaleiros de ouro que apareceram a cada capítulo, bem como alguns personagens da trama de Chiaroscuro. Sem mais demora, vistam suas armaduras, queimem seus cosmos e se unam à Athena!




Itália, século XVIII
Monteriggioni, Siena
Festa dei Fiori


Cercada por belas montanhas e planícies verdejantes, envolta em muralhas construídas com blocos de concreto, a pequena vila de Monteriggioni estava inusitadamente agitada naquela tarde. Crianças corriam pelas tradicionais vielas de pavimentos rudimentares, e embrenhavam-se entre as barracas coloridas, esbarrando vez ou outra nas pessoas que distraiam-se com a beleza da decoração. Os mais belos arranjos de flores, formando arcos vistosos, quebravam a o tom nude uniforme das paredes e telhados das construções rústicas que compunham o vilarejo.


Enquanto o crepúsculo tingia a festividade com suas cores alaranjadas e o som animado das palmas vibrava os corações dos presentes, uma melodia agitada era cantarolada pelo povo e tangida pelos músicos. Os tons vibrantes dos trajes típicos usados pelas senhoras, donzelas e meninas se contrastavam com as flores e fitas que as mesmas se esmeraram para embelezar o local. Cada qual tinha seu brilho naquela celebração. As senhoras se agrupavam usando seus xales para apresentar uma bela coreografia, as donzelas saltitavam e rodopiavam segurando em suas saias, combinando suas palmas e as meninas soavam seus pandeiros, também coreografadas.


Mas havia uma menina, uma em especial, cujos os longos cabelos violáceos ondulavam no ritmo animado da dança. As vestes típicas compunham-se de uma blusa branca sobreposta por um corpete preto adornado por fitas verdes, saia vermelha a altura dos joelhos e um avental branco, de longas meias brancas. Sasha Bianchi era o reflexo da felicidade, mesmo que suas condições precárias de uma órfã que muitas vezes quase não tinha o que comer, não lhe permitisse ter trajes como aquele, ficava feliz pela boa vontade de uma das donzelas em emprestá-la as roupas, mas o real motivo de seu contentamento era que aquela festividade viria a trazer benefícios ao orfanato onde vivia com seu irmão e seu melhor amigo.


Enquanto Sasha se apresentava entre as mulheres, seu melhor amigo Tenma Valentini, corria em meio as crianças ouriçadas. O garoto tinha se envolvido em mais umas de suas confusões ao tentar defender uma criança menor que teve seu confeito quase roubado por valentões. Tenma estava suado e desgrenhado, olhando temeroso para os lados, com receio de ser pego por irmã Beatrice. A madre que os acolhera e os cuidara desde pequenos, como uma dedicada mãe adotiva. Uma voz forte dentro da diocese local. Infelizmente o garoto menor após ser defendido, correu em busca dos pais e quando o autoritário padre Magno o viu batendo nos encrenqueiros… Compreendeu equivocado a situação.


Desanimado e sedento, o castanho cansou de se esconder, julgou que seria melhor se explicar e aceitar os possíveis puxões de orelhas, com um pouco de sorte escaparia de ficar ajoelhado no milho. Madre Beatrice era uma senhora doce e compreensiva, mas também era muito rígida às vezes. A garganta seca o incomodou, ao olhar em volta viu os mais diversos sabores de sucos sendo vendidos, enfiou a mão nos bolsos e bufou desanimado. Na correria perdera suas poucas moedas. Limpou o suor da testa com a manga de sua camisa e ao longe avistou uma cabeleira loira familiar, sua visão aguçou focando-se no copo de suco na mão do amigo.


Alone normalmente não gostava de festividades, agitação, pessoas por todos os lado falando ao mesmo tempo, algazarra e gritaria com vários aromas a se misturar. O loiro julgava que o excesso de informações sonoras e visuais poluíam sua capacidade de discernir e apreciar o que quer que fosse, tinha aceitado ir depois de muita insistência de sua irmã, Tenma e madre Beatrice que, vivia a reclamar de sua personalidade reclusa e silenciosa. Ele compreendia a madre, sabia que era a maneira da idosa mostrar que se preocupava com ele. Apesar do pouco ânimo, o loiro estava apreciando a comemoração ou talvez… Apreciando apenas ela.


Os olhos azuis celestes acompanhavam minuciosamente cada movimento que a dona das madeixas púrpuras realizava durante sua animada dança. Em meio à miscelânea de aromas, cores e sons, Sasha cativava sua atenção, ela tinha esse dom desde… Ele não sabia dizer desde quando, mas ela possuía uma luz, um calor, uma própria graça e nada no mundo, nem mesmo as cores que ele tanto amava, nem as figuras que se dedicava a reproduzir em uma tela, e nem mesmo a magia de ver seus rabiscos tomando a forma desejada enchia seu peito com tamanha adoração.


Era ela o motivo dele despertar todos os dias e suportar as dores do mundo, as agruras de quase não ter o que comer, de ver seus colegas padecerem de doenças cujos remédios eram caros demais para a direção do orfanato pagar, os dissabores de ter que presenciar as diferenças sociais onde uns tem tanto e outros lutam por ínfimas chances. Sim, por ela, pois Alone se recusava a acreditar em um Deus que promovia a distinção entre seus filhos, dando tanto a uns e deixando outros na miséria. Ele guardava para si essa opinião e cogitava ser esta a razão de sua reclusão.


E lá estava ela, a razão de sua existência, a única herança preciosa em sua vida miserável, pois viver era injusto, doloroso e ele não acreditava que alguém pedira para nascer neste mundo desigual. Porém, se era para ter o privilégio de estar com Sasha, se era para ver aquele sorriso se abrindo para ele, sentir seus abraços e poder protegê-la, sabia que podia suportar qualquer dor e injustiça.


Sasha saltitava e rodopiava entre as outras garotas seguindo passos sincronizados, esbanjando alegria e animação, enquanto as rajadas de vento desmanchavam as flores dos arranjos suspensos, dispersando-as pelo ar, e o tempo parecia passar vagarosamente.Para Alone era como se houvesse apenas ela sobre o crepúsculo e a chuva de pétalas que a solenizava.


Tenma piscou algumas vezes esperando que o amigo notasse sua presença ao seu lado, mas se deu conta de que o loiro parecia distante, perdido na apresentação das garotas. Sorriu zombeteiro e jogou algumas uvas contra o rosto de Alone, despertando-o de seu transe. Assustado, recuou ligeiro e esbarrou em algumas pessoas, se desculpando timidamente.


— Que idéia foi essa? — O loiro protestou com o cenho franzido, um tanto constrangido por ter sido tirado de suas divagações.


— No começo a ideia era vir aqui te pedir um pouco de suco, já que você não vai beber... Mas no caminho encontrei a dona Adelina da padaria, que montou uma barraquinha ali na esquina. — O castanho apontou para o local, tinha a mão enfaixada devido a teimar em realizar tarefas que não competem a alguém de sua idade. — Ela me pediu ajuda para carregar algumas caixas e me deu uns lanches como agradecimento. — Com um sorriso rasgado e orgulhoso ele ergueu a sacola ocre que tinha na outra mão. — Vamos esperar a Sasha terminar de dançar e dividir?


Um sorriso sutil se desenhou no rosto do loiro, poderia negar e dizer que não precisava, mas a verdade era que também tinha trabalhado muito ajudando a montar as barracas para o festival e já estava faminto e supunha que com que Sasha não era diferente, pois também ajudou desde cedo a decorar o local.


— Em que parte do plano você decidiu me acertar uvas na cara? — Fingiu zanga, cruzando os braços frente ao peito.


— Na parte em que você estava com a maior cara de bobo, com a boca aberta babando, eu não resisti, foi mais forte. — Pentelhou divertido e teve uma crise de risos ao ver que Alone enrubesceu e levou a mão sobre a boca.


— Eu não estava… — As safiras acanhadas buscaram um ponto aleatório para se focar. — Babando! — Emendou em um murmúrio oscilante, colocou algumas mechas loiras para trás da orelha e se encolheu. Tinha medo de confessar seu sentimento… Ou o que quer que fosse aquela sensação que o prendia à Sasha.


Às vezes Tenma não entendia o amigo, estava sempre corando por motivos bobos, mas achava divertido essa característica tão própria dele, gostava da companhia do loiro. Ele não era como as outras crianças, era doce, gentil, amava as plantas e animais, as cores, se comovia com o sofrimento alheio, era prestativo e estava sempre disposto a ajudar madre Beatrice ou os padres do orfanato com alguma tarefa.


Antes que continuassem o assunto, Sasha se aproximou e puxou o irmão pelo pulso o assustando novamente, mas dessa vez o loiro não esbarrou em ninguém.


— Vamos dançar? — Convidou animada.


— Ah, não, eu não sei dançar. — Negou tentando se soltar da irmã. — Não gosto, não levo jeito pra isso. - Um tremor interno percorreu seu corpo.


— Por favor Alone, não te peço isso todos os dias, hoje é uma comemoração, é especial. — Insistiu a violácea, os olhos esmeralda ganhando um brilho de súplica cativante, que sempre o convencia, desarmando-o.


Sasha por vezes distinguia em seu irmão uma melancolia profunda, ela reconhecia que levavam uma vida difícil e não o culpava, mas pensava que era sua missão fazer de tudo para levar alegria a ele e se desdobrava para fazê-lo, convencê-lo a sair de sua casca. E dançar não deveria ser tão difícil assim.


— Sasha, por favor… Eu não vou saber o que fazer. — Lamentou-se constrangido, lutando menos para se soltar da menina. — E estou segurando o copo de suco!


— Não por isso... — Tenma pegou o copo da mão do amigo e deu uma piscadela sacana. — Vá se divertir com a sua irmã, vou ser um bom amigo e segurar! — O sorriso alargou quando viu o garoto enrubescer mais uma vez com uma veia meio saltada na testa. — Não precisa agradecer! — Cantarolou debochado ao ver o loiro sendo arrastado com ares de quem estava indo para a forca.


Os irmãos pararam em meio a roda de dança e Sasha assinalava para que Alone imitasse seus movimentos, quando tudo que ele queria era que uma fissura abrisse para engoli-lo. Já que estava ali decidiu agradá-la e se pôs a copiar seus passos. Com o decorrer das voltas e palmas, aqueles movimentos já não pareciam tão vexatórios e ele tinha descoberto o segredo para não se sentir mais tão desconfortável, era só olhar dentro dos olhos verdes e imaginar que estavam apenas os dois. Mais nada além disto.


— Sasha conseguiu fazer o irmão dançar? Isso foi um milagre...— A voz de madre Beatrice é ouvida e Tenma volta sua atenção para ela.


Madre Beatrice era uma senhora de formas rechonchudas, trajava um hábito marrom e um avental branco, já passava dos sessenta anos e era única mulher a fazer parte da direção do orfanato Esperanza, era carinhosa e justa, mas sabia ser severa e aplicar as punições normais para aquela época. Amava cada um de seus órfãos como se fossem seus filhos, sentia pena deles pois sabia que nenhuma família adotava crianças crescidas e sempre estavam à procura de bebês recém chegados, cada vez mais raros. Sofriam com a incerteza de uma vida de migalhas. Nutria um carinho especial por Sasha, Alone e Tenma. Não sabia explicar seu amor pelo trio, sentia que sua missão era cuidá-los como verdadeiros filhos.


O garoto de cabelos castanhos, entre os três, sem dúvida era o que lhe dava mais inquietação. Tenma possuia um bom coração, mas também um dom nato para se meter em encrencas, tinha tanta fé em seus punhos a ponto de tentar confrontar os bandidos que roubaram uma carga de medicamentos destinados ao orfanato, embora sua intrepidez o tenha rendido muitos hematomas e algumas semanas acamado, sua façanha atrasou os bandidos e esses foram pegos pela polícia. Essa era apenas um de muitos feitos inconsequentes e corajoso do menino, que a madre se recordava no momento.


Dedicada, a madre sempre se esforçava para ensinar Sasha a costurar, bordar, realizar tarefas que uma menina deveria saber para se tornar uma dama, julgava que a pequena era madura para sua idade, pois sempre estava preocupada com todos e tinha uma visão sábia e justa.


Observara que Alone sempre fora solitário e esse isolamento a preocupava. Enquanto os outros órfãos brincavam e viviam de acordo com suas idades, o garoto parecia preferir a escuridão da biblioteca antiga e empoeirada. Não demorou para que ela o encontrasse rabiscando em um caderno surrado que deveria ter ganho de um dos padres para anotar orações. Beatrice admirou-se com o tamanho talento que o menino já demonstrava e o encaminhou a um dos padres com maior habilidade na área artística relacionada a pinturas. Alone era sensitivo e inteligente, surpreendendo-a sempre com seu dom artístico.


Contudo, havia algo que a intrigava relacionado aos irmãos. Desde que os conhecera notou um carinho especial que nutriam entre si, um laço, um sentimento quase palpável e que poderia ser considerado normal devido ao elo sanguíneo e à consciência de que um é tudo que restou para o outro, porém… Não era apenas um simples amor de irmãos. A freira se punia e rezava por sua alma, por talvez estar julgando e fazendo suposições equivocadas e, por Deus! Eram apenas crianças. Aquele amor era fraternal… Não podia passar daquilo.


Espantando seus pensamentos, madre Beatrice voltou seu olhar para os irmãos em meio a roda de dança, os passos já sincronizados e os olhares compassados, o sorriso de Alone, raro de ser visto, estava estampado em seu rosto, as orbes melancólicas adquiriram um brilho vivaz, não poderia negar que dariam um belo casal quando adultos, se não fossem irmãos.


Quando mais próximos de Tenma e da madre, Sasha estendeu a mão em um convite para que Tenma se juntasse a eles recebendo um imediato movimento negativo de cabeça.


— Vá se juntar a eles! — Incentivou a idosa.


— Minhas mãos estão ocupadas. — Ergueu as mãos mostrando o lanche e o suco. — Viu?


— Não estão mais. — O destino foi irônico com Tenma quando irmã Beatrice pegou o lanche e o suco o deixando de mãos livres, seus ombros caíram e um suspiro desanimado foi ouvido.


— Não existe dança a três. — O protesto de Tenma foi completamente ignorado enquanto seus braços eram induzidos pelos irmãos, iria se opor, mas quando viu o sorriso da menina e o riso raro do amigo, se deixou levar, mesmo que julgasse estar passando vergonha.


Ao som da Tarantella, os três amigos dançavam se divertindo em meio aos adultos e crianças, as flores que caíam, o sol se pondo aos poucos e as lanternas coloridas começando a acender. Aquele momento se eternizaria em suas memórias. Porém todo o instante mágico fora quebrado por uma súbita gritaria, algazarra e frenesi que eclodia de lugar algum.


Madre Beatrice apressou-se em buscar as crianças do meio de toda aquela repentina confusão. Barracas e decorações eram destruídas por fulminantes esferas de energia, causando sonoras explosões. Gritos de mulheres, choros infantis, exclamações desesperadas e clamores a Deus se misturavam em meio à histeria local, a senhora tentava encontrar suas crianças, mas a multidão polvorosa não permitia.


As esferas lilases de energia continuavam sendo lançadas, ferindo as pessoas. O trio estava estático no mesmo local onde a dança fora interrompida, os olhos arregalados e horrorizados fitavam as explosões. De repente surgiram quatro cavaleiros trajados em armaduras negras, intimidadores, gritando e gargalhando ao se divertir com o caos causado. Ágeis, saltaram do alto das pilastras ao notarem três crianças estagnadas em meio ao alvoroço, apavoradas. O horror estampado em seus pequenos semblantes atraiu a atenção dos misteriosos homens.


Tenma se posicionou para defender Sasha e Alone, que se abraçaram instintivos. Intimidado por uma estranha negritude que as quatro presenças emanavam diante de si, o menino tremulava. Os cavaleiros apenas se entreolharam e concordaram entre si.


— Parece que nossa missão foi um sucesso. — Comentou o mais alto entre eles.


— Devemos levá-lo? — Outro questionou.


— Não, nossa senhora tem outros planos, nossa missão era só encontrá-lo. Por hoje é o bastante.— Respondeu o primeiro a se pronunciar.


E assim como chegaram, os assustadores cavaleiros retornaram velozes, abandonando o vilarejo e partindo sobre telhados e vielas. O local estava destruído, escombros e sangue se misturavam, moradores agonizavam de dor caídos no chão, um rastro de destruição fora deixado para trás. As pessoas que não estavam feridas buscaram abrigo em suas casas e assim as ruas ficaram mais vazias.


No centro atacado, madre Beatrice encontrou suas crianças, após a partida dos inimigos. Sorriu aliviada ao notar os três abraçados e intactos, trêmulos e acuados. A senhora correu em desespero e os abraçou conferindo se estavam inteiros, dando graças a Deus por os proteger.


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Semanas se passaram desde o incidente na Festa Dei Fiori, como o evento era beneficente e arrecadaria fundos para o orfanato, Esperanza continuava se afundando em miséria e há dias que se alimentavam só com batatas. Naquela noite tinham comido as últimas, no dia seguinte não haveria nada. Preocupados com a situação, Sasha, Alone e Tenma esperaram as outras crianças dormirem e se encontraram na biblioteca para discutir uma forma de ajudar.


— Não sei mais o que fazer! — Começou o castanho. — Fui ao vilarejo oferecer serviço, mas a situação está complicada por lá. Todos estão capinando os próprios quintais, pintando suas cercas e todo tipo de serviço que antes poderia nos render algumas moedas... — Bufou desanimado.


— Pensei em fazer pinturas para vender, mas as tintas e telas são caras e o preço que me pagariam nem daria para repô-las, quanto menos para comprar alimentos. — Foi a vez de Alone se queixar.


— Também ofereci minha ajuda como auxiliar de costura, para cuidar de bebês, crianças, mas todas as famílias já têm empregadas que cumprem essa tarefa. — Salientou Sasha.


— Vou brigar por dinheiro. — Tenma anunciou impaciente, na época era comum esse tipo de atividade. Rapazes pobres do subúrbio europeu viajavam para clubes de lutas clandestinos nos portos, geralmente promovidos por companhias escusas. Era possível levantar um bom dinheiro… Se fosse bom o bastante para vencer consecutivos campeões.


— Tenma você enlouqueceu, tenho que te lembrar da sua idade? — Alone apontou racionalmente. — Além disso, sou contra a usar violência para resolver qualquer tipo de questão.


— Eu sei que sou novo, mas posso ganhar daqueles caras. — Insistiu ignorando a opinião do loiro sobre usar violência.


— Tenma, meu irmão tem razão. O que madre Beatrice iria pensar? O que os padres pensariam? Uma criança em brigas de tabernas em troca do nosso sustento, isso não faz sentido. — Ponderou a dona dos olhos verdes.— Pensa que ficaremos felizes comendo às custas de te ver cheio de hematomas?


— Droga! — O castanho extravasou sua revolta com um soco contra a parede. — Eu não posso ficar parado aqui e ver todo mundo morrer de fome!


— Nem nós queremos ficar de braços cruzados, mas por hora devemos ter calma, pensar em algo mais plausível. — O loiro se levanta depositando uma mão no ombro do amigo.


— Vamos encontrar um jeito. — Sasha pousa a mão sobre o outro ombro. — Que tal irmos pescar no rio e colher frutas? As frutas tanto podemos comer quanto fazer suco. — Ela sorriu como se a solução fosse simples e alcançável. Simples e resoluta, a menina era geralmente a primeira a encontrar soluções rápidas para os problemas urgentes!



✰✰✰✰


Um novo dia amanhecia em Monteriggioni, Sísifo acabara de chegar ao vilarejo e encontrava-se na casa paroquial tomando café junto aos padres que enviaram uma mensagem ao Santuário de Athena, descrevendo o ocorrido na Festa dei Fiori. Como as descrições eram compatíveis com as de espectros, o Grande Mestre o designou para a missão de encontrar o receptáculo de Hades, que certamente era o que procuravam.


— Se estes, tais espectros, ainda não o encontraram e ele estiver na vila, o que faremos? — Padre Magno questionou preocupado, seria estranho se alguma família tivesse que ficar sem seu filho.


— Irei levá-lo comigo para o Santuário, uma vez lá, encontraremos meios para deter o despertar de Hades.— Explicou o dourado, calmamente. — Não usaremos de violência com uma criança, não devem se preocupar.


— Que assim seja! — Exclamou frei Luiz, e ambos os eclesiásticos fizeram o sinal da cruz.


— Você pode ficar hospedado aqui o tempo que precisar, temos fé que encontre essa criança e a leve para o Santuário de Athena, esse vilarejo já sofreu demais.— Bradou padre Magno, seu tom cheio de preocupação. — Quando pretende iniciar as buscas?


— Neste exato momento. — Sísifo se levanta após terminar seu café.— Estou grato pelo desjejum e pela hospedagem, mas não posso me dar ao luxo de descansar com o receptáculo de Hades e espectros perambulando por aí. Tenho uma missão a cumprir!


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A ideia que Sasha teve a noite passada já estava em vigor, enquanto Tenma tentava pescar algum peixe no rio, Alone escalava as árvores e escolhia frutos em bom estado, lançando-os para Sasha que os guardava em um saco. Ao olhar para o horizonte o loiro avistou nuvens negras e carregadas se aproximando e se apressou em descer.


— O que foi, Alone? Ainda tem muitos frutos. — Observou Sasha, confusa.


— Temos que nos abrigar, está vindo uma tempestade muito forte. — Anunciou o loiro ajudando a irmã a guardar o restante dos frutos.


Ambos correram para perto de Tenma e o avisaram sobre a tempestade, mas ele fez uma pirraça por não ter conseguido pescar nada, antes que pudessem buscar abrigo as gotas de chuva começaram a cair fartas. Os três se desorientaram em meio à crescente enxurrada. Atento, Tenma apontou para uma grande figueira entre o bosque, sob uma clareira. Ressabiado, Alone relutou de que era perigoso se abrigar debaixo da majestosa árvore, pela possibilidade de atrair raios. Impaciente, Tenma não escutou o irmão e correu em direção à figueira.


Não demorou a um fulminante relâmpago a atingir, espantando o espevitado garoto. Sasha identificou uma caverna escondida na montanha em meio aos arbustos e sugeriu correrem para lá. Alone protestou alegando que poderia ter um urso, mas quando se deu conta já estava sendo arrastado pela irmã.


Assim que se acalmaram os três ouviram um ruído e se colocaram em alerta.


— É um urso! — balbuciou o loiro.


— Vou arrebentar a fuça dele. — Tenma se preparou para briga.

Mas em seguida ouviram um choro baixinho e Sasha sentiu que deveria se aproximar, encontrando um menino de aproximadamente uns quatro ou cinco anos, estava bem sujo, encolhido e com algumas escoriações. Sem pensar muito a menina se abaixou e acolheu a criança em seus braços, tranquilizando-a.


Durante a tempestade os três ficaram ali cuidando da criança, pela forma como comeu as frutas deveria estar a muito tempo sem comer. Tenma temeu que fosse mais um órfão a ser levado para Esperanza, mas Alone sugeriu que o levassem à vila, afinal suas roupas eram de aparência nobre, mesmo naquele estado.


Quando a chuva passou o trio seguiu para a vila levando a criança. Ao adentrarem Monteriggioni, Adelina, a dona da padaria, já gritou para que seu filho fosse buscar os pais da criança, que estava desaparecida a dois dias. A notícia se alastrou como chama em palha, as pessoas deixaram seus afazeres para verem a comoção dos pais e ouvirem os relatos de como e onde o trio encontrou o pequeno.


Em gratidão pelo resgate do filho e sabendo as condições do orfanato, os pais do pequeno doaram alguns sacos de mantimentos e pediram que o filho mais velho levasse as crianças de carroça para o local. Os três comemoravam que no fim, a missão de buscar alimentos tinha sido um êxito, eles formavam uma boa equipe, afinal.


Enquanto isso, Sísifo já tinha percorrido todo o vilarejo e chegara no local, atraído pela comoção. Enquanto cruzava a soleira da porta, as três crianças passaram correndo por ele, felizes com confeitos nas mãos. Num súbito arrepio, como um repentino alarme, identificou dois rastros de cosmos poderosos. Esfregou os olhos e aguçou a percepção. Sua longa viagem e a exaustão de procurar os vestígios astrais daqueles cosmos poderiam estar enganado-o, pregando-lhe uma peça. Analítico e confuso, encostou-se ao batente da porta e se pôs a fitar as crianças.


— A sua torta é de morango e as nossas de chocolate, que injusto. — Sasha brincou com o irmão.


— Não me importo, na verdade eu prefiro morangos. — Confessou o loiro admirando seu confeito.


— Podemos comer juntos, assim teremos torta de morango com chocolate. — Sugeriu a menina com um sorriso sapeca e o outro assentiu.


Sísifo os observava quase em choque, ele definitivamente tinha encontrado Hades, mas também encontrara Athena e por ironia do destino estavam juntos e pareciam ser tão próximos Observou as crianças subirem na carroça, seguindo-as. Em sua cabeça, um dilema se formou. Uma sensitiva aura emanava oculta no harmonioso Alone, como uma discreta e incomum energia negra. Já com Sasha sentia um cosmo quente e agradável, evidente para quem quisesse sentir. Uma carga tão calorosa quanto o sol. Sísifo riu, incrédulo, jamais testemunhou tais fenômenos e uma urgência aflorou em seu peito, ele sabia em seu âmago que não podia perder o rastro daquelas crianças.


A chegada em Esperanza não foi muito receptiva para o trio, os garotos foram pegos pelas orelhas e Sasha também não escaparia de um belo castigo, madre Beatrice estava vermelha e colérica, quase morrera de tanta preocupação, não sabia mais onde procurar e depois do que houve na vila e da conversa que teve com os padres, seu temor pela segurança de suas crianças tinha triplicado.


— Madonna mia! Vocês três querem me ver morta, dura, estirada em um caixão? Sim porque eu já não tenho mais um fio de cabelo preto na cabeça, ficaram brancos, agora estão caindo! Já estou velha, meu coração já não dá conta desse tipo de traquinagem... — Ela falava desesperadamente, não se calava nem para ouvir o rapaz que trouxera as doações e quase meia hora depois é que os três conseguiram se explicar.


Mesmo com as explicações, as doações e o ato heróico do trio, o coração preocupado de madre Beatrice ainda preservava sua insegurança pelas crianças. Tiveram sorte, ajudaram alguém, mas poderiam não ter tido um final feliz e ter acontecido algo ruim e isso que ela queria que entendessem.


Depois do jantar os três se encaminharam a cozinha onde normalmente eram aplicado os castigos, já previam o doloroso tempo que teriam de ficar ajoelhados sobre o milho, Alone e Tenma ainda esfregavam as orelhas doloridas. Chegaram de cabeças baixas e silenciosos, encostaram-se na parede próxima ao fogão de lenha e esperaram que a madre verificasse se todos já tinham se recolhido.


— Muito bem! — A voz firme da idosa foi ouvida os fazendo estremecer. — Estou muito orgulhosa de vocês, mas não quero que isso se repita. Eu faço o que posso para mantê-los seguros e não encontraria a paz divina se algo tivesse acontecido com vocês. Entendem isso? — Eles apenas assentiram. — Alimentos são importantes, claro, mas se estivermos juntos, seguros, vivos, daremos um jeito. Crianças tem que ser crianças, não tentem ajudar sem perguntar antes, tudo bem?


— Sentimos muito... — Responderam em uníssono.


— Tudo bem. Agora venham aqui! — Chamou com doçura na voz e os acolheu em um abraço caloroso. — Agora vão se recolher.


— Madre Beatrice. — Chamou Sasha. — Tenho algo sério a conversar com a senhora.

— Alone, Tenma, podem se recolher, conversarei com Sasha. — Os dois obedeceram a ordem.


Sísifo observava tudo atenciosamente. Padre Magno liberou sua entrada no orfanato para sua investigação. Quieto, o cavaleiro espiava por um dos cômodos próximos à cozinha, curioso para saber sobre o assunto da menina. Ao escutar atento a conversa das duas, seu coração se comoveu. Sasha era mesmo uma luz, uma menina muito especial. Não poderia seguir com aquilo sem revelar a verdade para aquela senhora que a tratava como sua própria filha. Chamou Magno e sugeriu que conversasse com a madre para que esclarecessem toda a iminente situação que se armava aos poucos.



✽+†+✽――――✽+†+✽


A tarde estava quente e embora o céu estivesse nublado, Alone não entendeu o motivo que levou Sasha a sair com madre Beatrice e não tê-lo avisado, não que ele a controlasse, mas era algo que ela sempre fazia e aquilo parecia estranho. Sísifo acompanhou de longe os movimentos da suposta Athena.


Acompanhada de madre Beatrice, a menina entrou em uma barbearia e quando saiu estava sem seus longos cabelos. O cavaleiro ouviu a conversa que ambas tiveram antes de entrarem no local e pode notar o quão decidida Sasha estava a vender seus longos cabelos para ajudar Esperanza, mesmo saindo um tanto cabisbaixa, a pequena não demonstrou estar arrependida.


Agora o dourado tinha certeza de que a menina era mesmo o receptáculo de Athena, depois da energia que sentiu, de tudo o que viu e ouviu sobre ela. Sísifo estava incrédulo, fora no encalço de Hades e encontrou Athena, prontamente estabeleceu contato telepático com o Grande Mestre e explicou a situação e recebeu ordens para tirar a garota daquela cidade imediatamente, ela era prioridade. Sísifo abandonou seu disfarce de camponês entre os moradores, vestindo sua tradicional e altiva túnica santa, o traje que identificava os cavaleiros a serviço do santuário. Era hora de sair das sombras. Sabia que sua presença seria informada aos espectros que atacaram Monteriggioni… E isto era bom, seriam avisados de que aquela vila agora seria uma das extensões do santuário. Do poder da justiça de Athena.


(...)


A tarde estava quase chegando ao fim, nem Alone e nem Tenma se atreveram a falar sobre os cabelos da menina e ela sabia que estavam sendo gentis, sentia-se menos bonita, amava seus cabelos longos, mas não se arrependera do que fez.


Tenma bocejava preguiçosamente recostado no espesso tronco da árvore, Alone estava com sua tela montada e pintava algumas flores do campo e Sasha havia acordado com um pressentimento estranho e não era sobre a perda de suas longas madeixas. Ela sentia um aperto, uma angústia como se estivesse prestes a ter alguém importante arrancado de si. Ela já conhecia bem essa sensação, fora assim ano passado quando padre Andrey falecera devido a idade, ela estava com medo, muito medo.


Olhou para os dois quietos, cada qual preso em seus pensamentos. Distraídos em seus mundos distantes. Aproveitando a quietude e suas distrações, agachou-se na macia relva e se pôs a colher as mais belas e delicadas flores que encontrou, usando os truques de enlaçadura de tecidos que madre Beatrice lhe ensinou para fazer três pequenas pulseiras da amizade, algo que os unisse para sempre. Não sabia explicar o que a motivou a produzir aqueles mimos, mas dentro de si sentia que devia fabricar algo que os ligasse. Após terminar de confeccionar as pulseiras ela se concentrou e sentiu-se como se tivesse o universo dentro de si, queria colocar parte de sua alma naquele presente.


— Alone, Tenma, sentem-se aqui comigo um momento. — Chamou carinhosamente e sentou-se sobre a grama.


— O que foi? — Tenma nem se levantou, apenas engatinhou de onde estava recostado, se aproximando da amiga.


— O que pode ser tão importante. — Alone prontamente abandonou seu pincel e sentou-se bem próximo a irmã. A verdade é que ele também sentia algo estranho naquele dia, uma prévia sensação de perda.


— Tenho um presente para vocês.— Abriu a mão revelando as pulseiras. — Quero que façamos uma promessa.


— Uma promessa? — Ambos questionaram em coro, observando a pulseira, sentindo uma energia diferente emanando dela.


— Sim, quero que me prometam que não importa o tempo que passar sempre estaremos juntos. Mesmo que o vento mude nossos caminhos, nós encontraremos uma forma de ficar juntos! — Os olhos verdes lacrimejaram, assim como os azuis e os castanhos.


— Porque isso agora, Sasha? — Alone indagou melancólico, seu peito se apertou, enchendo de tristeza.


— Eu faço a mesma pergunta! — Tenma reforçou o questionamento.


— Não... — Ela secou as lágrimas balançando a cabeça negativamente. — Não é nada. Só prometam, tudo bem?


— Certo, eu prometo. — Tenma forçou um sorriso colocando a pulseira.


— Sasha... — Alone tentou entender, mas temeu, tentou perguntar, mas a voz não saia.


— Só prometa, por favor. — Pediu a violácea com os olhos marejados novamente.


O loiro conseguiu apenas assentir enquanto a irmã lhe colocava a pulseira, ele queria dizer que não conseguiria, não saberia viver sem ela, só pensar na possibilidade já era quase uma morte. Porque? Porque isso agora? Ele se perguntava em pensamento.

(...)


A hora de dormir se aproximava e todos já tinham jantado e estavam de banho tomado. A chuva voltou a cair melancólica e Alone olhava por uma das vidraças da janela, a sensação de que algo terrível se aproximava não deixou seu peito e aos poucos as crianças foram entrando e se aconchegando em suas camas. Ele pegou seu primeiro caderno de desenho e começou a ver a evolução de seus traços, gostaria de saber o que acontece quando se evolui ao extremo. Riu-se com suas primeiras tentativas de desenhar o rosto da irmã, eram desastrosas, porém nostálgicas. Todos já haviam adormecido e só restara ele folheando seu caderno com baixa luz trêmula, de uma vela.


— Você acha que eu fiquei feia assim? — A voz de Sasha foi ouvida em um sussurro pesaroso e em meio a penumbra, acabrunhada andou até a luz alaranjada da vela e mirou o desenho onde ainda possuía suas longas madeixas.


— O que você faz… Não. De forma alguma.


— Não consigo dormir, parece que tem um nó em minha garganta, um aperto no peito, não sei definir e... — Passou os dedos pelos cabelos curtos. — Vocês foram gentis não comentando nada a respeito, mas me olhei no espelho e... — Fez uma pausa puxando o ar com dificuldade. — Não é que eu esteja arrependida, só que... — Sem conseguir se conter ela cai em um pranto copioso.


— Não chore, Sasha, por favor. — O loiro se levanta se acercando da irmã envolvendo-a em um abraço terno. — Você é linda, não importa como, com cabelos longos ou curtos, nada se compara a sua luz. Sua beleza é especial porque não é só física, entende? Você… Você é mais do que aparência, você é… - Alone parou de falar, emocionado e assustado por quase revelar seu verdadeiro sentimento por ela. Enrubesceu, sentindo um crescente calor no peito.


— Alone, eu estou assustada, estou confusa... — Desabafou e ele sabia que ela não se referia apenas ao choque de perder seus cabelos. — Estou com medo de…


Ele tinha certeza de que não queria ouvir aquilo, colocou a mão sobre os lábios da caçula, pois sentia-se da mesma forma e temia que uma vez que dito em alta voz seus temores se concretizariam.


— Não diga, não pense nisso! — A abraçou bem forte, acariciando-lhe as madeixas curtas. — Tudo vai ficar bem, nós vamos ficar sempre juntos.


— Você promete? — Choramingou entre fungadas.


— Prometo. Não importa o que eu tenha que fazer, não vou deixar ninguém tirar você de mim, nunca! — Enfatizou repetindo as próprias palavras em pensamento.


— Posso dormir com você hoje? — Sussurrou secando as lágrimas com o dorso da mão.


— Hm… Você já está bem grande. Será que cabe nós dois? — Olhou para as muitas camas de seu dormitório, encontrando a sua que era encostada á parede e analisando bem, sua irmã ainda poderia dormir consigo como fazia antes. — Vem. — A puxou consigo levando um pequeno castiçal com a vela na outra mão e seu caderno de desenho embaixo do braço.


Guardou o caderno embaixo da cama e arrumou os lençóis, fazendo sinal para que a menina se deitasse. Sasha se deitou e Alone apagou a vela, colocando o castiçal no canto e se deitou acolhendo a menina ao peito, lhe afagando os cabelos. Ela tinha fragrância de flores, lavanda talvez? Era suave e agradável como a própria, poderia ficar para sempre com ela aninhada a si. O doce e pacífico aroma de sua pele o aquietava, enchendo-lhe de harmonia e paz e a sensação era de que poderia protegê-la de tudo e todos, deixando-a segura e feliz. Sua energia era tão quente, como sair ao sol em um dia frio, não importando a temperatura ele era aquecido. Poderia sentir o calor dela para sempre…


Sasha suspirou pesadamente se acalmando e cessando seu choro, inalou profundamente o cheiro do irmão, era algo como incenso, não era de se admirar pelo tempo que ele passava trancado na biblioteca e mesmo onde guardava suas tintas era o local usado para guardar os incensos. Podia ouvir seus batimentos, queria conversar um pouco mais, mas também queria ficar em silêncio e aproveitar os afagos nos cabelos. Ele possuía uma energia diferente , ela não saberia definir, era gélida, mas não incômoda, era algo como o vento no topo de uma montanha, era refrescante como hortelã, sorriu com a tola comparação, mas era algo que a cativava, seu desejo era permanecer ali para sempre...


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De sobressalto, foi como Alone acordou, como se tivesse tido sua alma arremessada de volta para seu corpo com brutalidade. Ela não estava mais consigo. Sasha não estava mais em seus braços e aquela sensação de perda o deixou aturdido.


— Tenma, Tenma! A Sasha! — Correu por entre as camas, acordando os colegas de quarto que reclamaram do barulho tão cedo.


— O que? Como assim? Do que você está falando? Você teve um sonho, Sasha está no dormitório dela com os outros. — Sentou-se sobre a cama, mas espantou-se ao ver no rosto do amigo uma expressão que nunca vira antes.


— Não! — O loiro cerrou o punho, os olhos estavam arregalados e as pupilas diminutas, a expressão psicótica fez Tenma se arrepiar. Jamais vira Alone alterado. — Eu prometi a ela, prometi que não deixaria que a tirassem de mim. EU NÃO VOU DEIXAR!. — Disse a última frase, saindo em disparada do quarto.


Tenma pulou para fora de sua cama e correu atrás do amigo, ambos passaram pelo dormitório de Sasha, mas sua cama estava feita e seus colegas dormindo tranquilamente. Procuraram na capela, cozinha e quando entraram na biblioteca se depararam com padre Magno.


— Onde está minha irmã? — Alone questionou hostil e o mais velho demonstrou temor, o que confundiu Tenma.


— Eu sinto muito... — O padre murmurou temeroso.


— ONDE ESTÁ A MINHA IRMÃ? — Esbravejou furioso e até Tenma recuou. Pela primeira vez, sentiu uma estranha e perturbadora energia ser liberada do irmão em seu momento de fúria, chocando-o. Magno fitou estarrecido o garoto, boquiaberto.


O padre apenas apontou para fora, a mão velha e enrugada tremia como se encarasse um demônio.


O loiro correu para fora, seguido pelo castanho e a carruagem já estava partindo levando Sasha ainda adormecida nos braços de Sísifo. Tenma congelou com a visão, Madre Beatrice tentou segurar Alone, mas o garoto se desviou e passou por ela correndo desesperadamente e gritando pela irmã.

— SASHA! SASHA…


Sasha despertou com o chamado do irmão e se assustou com os braços estranhos que a envolvia, não lhe trazia temor, mas o horror de estar sendo arrancada de Alone já fora o suficiente para ela serpentear e tentar se soltar, estendendo a mão para o irmão, que estendeu de volta enquanto corria.


— ALONE! — Chamou desesperada, as lágrimas rolando abundantes.


As mãos estendidas em vão, não se encontram obviamente, não tinha como. Ela viu o irmão cair de joelhos em meio a lama da estrada enquanto vociferava por seu nome. Ele viu a irmã se contorcendo para sair dos braços do cavaleiro de ouro que a levara de si. Sasha gritava por ele até perder suas forças. E a carruagem se distanciou mais e mais até se perder de vista. Sísifo não teve coragem para encarar o menino que deixara a prantear, quanto mais olhar para a menina que levava consigo. Derramou uma tímida e imperceptível lágrima.


Ela chorou, chorou porque seu pressentimento se realizou, chorou porque sabia que Alone precisava dela. Era seu sol a tirar-lhe da escuridão. Era missão dela fazê-lo feliz e não deixar a dor chegar e agora… Agora tudo estava perdido!


Ele chorou, chorou porque prometeu a ela que ninguém a levaria dele, que ele não deixaria nada de ruim acontecer, não importava como, mas era um fraco. Um verme, um nada e não foi capaz, não teve forças para impedir. Chorou porque a viu gritar e se contorcer para não ser levada para longe dele e suas súplicas sendo ignoradas. Chorou porque se odiava, porque quase não tinha nada e o que tinha lhe foi roubado! Um ódio crescente se acumulou em seu peito, fazendo-o gritar como nunca imaginou que pudesse.


Sísifo se compadeceu da menina, sabia que ela demoraria para lhe dirigir a palavra, que provavelmente o via como um vilão, mas não tinha outra escolha, não poderia deixar que Athena permanecesse tão próxima a Hades, correndo tantos riscos. No Santuário ela seria educada e treinada para se tornar digna de vestir uma armadura e se tornar Athena, com certeza viria a entender seus motivos futuramente.


Tenma ainda estava em choque com tudo que vira, correu até o amigo e abaixou-se abraçando-o, tal como madre Beatrice chegou os acalentando, mas Alone não quis fitá-la, afinal ela fez parte de tudo aquilo. Rancoroso e com o semblante encharcado em lágrimas e suor, ignorou a velha, fugindo de seu abraço. O menino dos cabelos castanhos também se sentia impotente, mas intrigado do porquê um cavaleiro de Athena levaria sua amiga.


━━━━━━━━━★★━━━━━━━━


As fracas chamas lutavam para trazer alguma luminescência ao ambiente completamente escuro e tenebroso, tão negro quanto a noite fria lá fora. As paredes sombrias e repletas de enigmas, símbolos, criptografias e códigos ricocheteavam o gélido vento que corria pelo local, como um inquieto fantasma. As longas colunas que sustentavam o que outrora fora um majestoso e belo salão ameaçavam ruir e o cheiro de morte impregnado em cada canto daquele lugar era tão forte quanto a certeza da própria. Um velho trono se projetava na escuridão, iluminado pela luar refletido no antigo vitral católico. Um extenso tapete escuro e tecido em bordas douradas se estendia até a enorme porta que selava a sala. A única presença ali eram os passos nervosos de um homem alto e forte, trajado em uma reluzente e enegrecida armadura que projetava suas longas e metálicas asas curvadas, como a figura de um demoníaco gárgula. Loiro e de cabelos bagunçados, sua expressão beirava a uma personalidade agressiva e zombeteira através dos impacientes olhos amarelos. Visivelmente irritado, transitava de um lado a outro a resmungar frases inaudíveis. Nem mesmo a doce e relaxante melodia que soava do canto mais afastado do salão o apaziguava. A mágica e lírica ode executada pelas vibrantes cordas espalhava uma mística onda de fascínio pelo ambiente, preenchendo o vazio empoeirado de vida. Vida e morte. Contradições tão opostas e iguais ao mesmo tempo. Enquanto deslizava seus finos e delicados dedos pelas cordas da exótica harpa, a bela mulher de longas madeixas negras sorriu. De olhos fechados, sentia tudo à sua volta com uma espantosa percepção. Era linda como uma poesia, de traços afáveis e a pele clara, vestida em uma longa túnica escura que cobria seu corpo a partir dos ombros. Quem a observasse naquele momento… Deduziria estar na presença de um anjo. Porém não imaginaria o que tal beleza guardava dentro de si.


A melodia fora interrompida por um barulho à porta. Pesada, rangeu anunciando a chegada dos espectros vindos da Itália, voltando de sua missão de reconhecimento. Os quatro cavaleiros caminharam até a mulher e curvaram-se, uniformemente. Analítica, cessou seu dedilhar e levantou, inexpressiva. Radamanthys voltou sua atenção para os espectros, sério.


— Lady Pandora! Boas novas! - Reverenciou um deles, em uma saudosa prostração à sua líder. — Localizamos o verdadeiro receptáculo de nosso futuro mestre! Aparentemente é um órfão, um menino da diocese local que vive em um vilarejo em Siena, na Itália.


Pandora sorriu, satisfeita.


— Bom trabalho, podemos enfim agir antes que esta chance única se perca para sempre! — Exclamou Radamanthys, arrogante.


— Não foi apenas isto que avistaram lá, não é mesmo? — Indagou Pandora, caminhando em sua direção.


— Milady… — Balbuciou o cavaleiro, nervoso. — Junto ao garoto havia uma menina que possuía um intenso cosmo, tão poderoso e radiante quanto de nosso iminente senhor… Recebemos notícias de que o santuário enviou Sísifo de Sagitário para levá-la de lá. Estão cientes de nossa ameaça e vão proteger Monteriggioni contra qualquer um de nós que se aproxime da região.


— Um cavaleiro de ouro? — Questionou a líder, reflexiva. — Então o Grande Mestre já sabia de nossas ações de busca ao cosmo de nosso senhor, não ficou parado e também se mobilizou para encontrar Athena… Ou melhor… Seu receptáculo! — Era inacreditável, difícil aceitar que os receptáculos de Hades e Athena nasceram e moravam na mesma cidade. Ela se pegou ponderando se estes tinham algum laço, mas manteve seus pensamentos para si.


— Deviam tê-la matado, seus incompetentes! — Bradou Radamanthys, agarrando um dos espectros pela garganta. A velocidade com que alcançou o cavaleiro foi imperceptível, como um piscar de olhos. A atitude do cavaleiro de Wyvern assustou os espectros que suplicavam por outra chance.


— Fizeram bem em não encostar na garota… — Amenizou Pandora, acenando para que Radamanthys soltasse o servo. - Precisamos ser pacientes para não espantar o menino… À esta altura, somos alvos do santuário e todo cuidado é pouco. Vamos nos mover também, Radamanthys… — Se dirigiu para o cavaleiro, firme e autoritária. -— Convoque os espectros restantes, chame Minos de Griffon para liderá-los numa incursão silenciosa.


— MILADY! — Vociferou um cavaleiro distante que assistia indiferente à cena. Saindo das sombras, a fria e distinta figura surgiu calma. Um rapaz de cabelos escuros, mesclados com um azul cobalto, aparentemente quieto e de expressão tão séria quanto a de Radamanthys se ajoelhou perante Pandora. Revestido em uma pesada e cromada armadura negra semelhante a do cavaleiro de Wyvern, porém mais escura e detalhada, diamantada em diversas peças que lhe davam um tom soturno e lilás. Terminada em longas asas blindadas, a armadura emanava um vapor escuro de suas fendas, dissipando uma violácea nuvem. O ambiente aos poucos tornava-se denso, quente. — Deixe-me cuidar disto, eu lhe peço!


— Conseguirá… Kagaho de Benu, a estrela celeste da violência?


— Tem a minha palavra… — Consentiu Kagaho, levantando-se e caminhando até a saída, reservado. Estava prestes a mostrar seu valor… Estava finalmente prestes a mostrar que havia escolhido um lado para lutar, para se dedicar. Se aquela causa apaziguasse seu impetuoso coração e lhe trouxesse as respostas que tanto procurou, testaria sua fé em Hades… O imperador das trevas.




つづく

20 de Agosto de 2019 às 17:24 0 Denunciar Insira 4
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