S05#17 - SPOOKY BUNNY Seguir história

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O que poderia acontecer de tão mágico numa Páscoa? Você acredita no Coelhinho??? Parece que tem gente que acredita...


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S05#17 - SPOOKY BUNNY

INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Virgínia – 7:59 P.M.

[Som: You Never Can Tell – Chuck Berry]

Mulder sentado dentro do carro. Observa a chuva que cai forte. Os para-brisas que vão de um lado para o outro, tentando inutilmente conter a água. Mulder fecha os olhos, sentindo a música. As lágrimas correm dos olhos dele. O celular toca, o tirando de seus pensamentos mais secretos. Mulder atende.

MULDER: - Fala.... Não, não estou em casa. Estou verificando uma informação... Eu... Nos falamos na reunião, Krycek... Diga ao Fumacinha que fique tranquilo.

Mulder desliga. Olha pro telefone, com ódio. Observa a chuva. Desliga os para-brisas. Põe as mãos no rosto, cansado. Volta a seus devaneios. Recosta a cabeça no banco. Observa a chuva deslizando pelo vidro do carro.

MULDER (OFF): - Essa música... Me lembra a nossa última páscoa, Scully... A que ficou na história... Ainda me lembro como se parecesse ontem... (SUSPIRA) Coelhinho... Coelhinho da Páscoa... Moisés...

Mulder esboça um sorriso saudoso nos lábios.

VINHETA DE ABERTURA: THE TRUTH IS IN HERE


BLOCO 1:

Meses antes...

[Som: You Never Can Tell – Chuck Berry]

Mulder sentado dentro do carro parado na frente de uma loja. Batuca no volante ao som da música. De camisa social, a arma no coldre, o paletó atirado por cima do banco. Olha para o relógio. Olha para a rua. Abaixa-se e olha pelo vidro do carona. Suspira. Olha pro relógio. Fisionomia de quem está indignado. Brinca com os lábios. Olha pra fora de novo. Suspira.

MULDER: - (RESMUNGANDO) Páscoa... Natal... Ação de graças... Dia da independência... Esses caras inventam essas drogas de feriados pra ganhar dinheiro e deixar os otários esperando dentro do carro.

Mulder olha pro relógio. Suspira novamente.

MULDER: - (RESMUNGANDO) Sem contar os aniversários! Aniversário dos sobrinhos, da amiga, do afilhado, do cachorro... Por que as mulheres adoram comprar coisas? Deve ser uma falha genética no sistema imunológico do bolso.

Scully abre a porta do carro. Coloca uma cesta enorme de ovos de páscoa no banco de trás.

SCULLY: - Pronto. Acho que agora não esqueci de nada.

MULDER: - ... (FAZENDO CARA FEIA)

Ela entra no carro.

SCULLY: - Demorei muito?

MULDER: - (DEBOCHADO) Não. Duas horas e trinta e três minutos pra comprar uma cesta. Foi um recorde!

SCULLY: - Senti um pingo de ironia aí?

MULDER: - Não, foi uma cascata mesmo. Poderia ter aproveitado e ter feito as compras de natal também. Assim me pouparia de servir de seu motorista particular.

SCULLY: - Ei, ei, ei! Você quis vir junto!

MULDER: - (INDIGNADO) Ah, eu quis? Eu não quis! Eu fui intimado pela sua mãe! E não sabia que teria uma parada no meio do caminho.

SCULLY: - Eu esqueci, tá bom? Esqueci que o Charles estaria lá.

MULDER: - Comprou isso pra ele ou pro Gafanhoto?

SCULLY: - Claro que pro Will.

Mulder olha pra loja e vê um homem (Guz) entrando, vestido num sobretudo.

(Guz é um cara alto, barba por fazer, aparência musculosa, com uma tatuagem atrás do pescoço)

Mulder olha pra ela.

MULDER: - (RESMUNGA) Tá perdoada.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - ...

SCULLY: - Está melhor?

MULDER: - (DEBOCHADO) Por que, estou com cara de quem está morrendo?

SCULLY: - Eu estou perguntando se o seu humor está melhor.

Ele olha pra ela.

MULDER: - (PÂNICO) Por que eu tenho a nítida sensação que parar nessa bomboniere no meio da viagem foi uma coisa ínfima diante da turbulência que me espera atrás dessa sua pergunta?

SCULLY: - ...

MULDER: - Fala, Scully. Não deve ser pior do que passar um feriado na companhia do Bill Dog ou assistir o 'Super Macho-Man-Dumbo' na TV às 9 da noite de quarta... Protetor das donzelas indefesas... Se duvidar, você ainda vai vê-lo salvando a heroína Baixinha Charmosa, que estava amarrada aos trilhos do trem pelo vilão, Dick Vigarista do Tabaco. Com a 'quadrilha de morte' tendo um ataque e observando tudo numa Kombi Chugaboom repleta de equipamentos de escuta.

SCULLY: - Mulder, todos os anos, na páscoa, minha família tem uma tradição.

MULDER: - Queimam as bruxas?

SCULLY: - Nós... Nós sempre entregamos os chocolates pra todos... Através de um familiar vestido de coelho. As crianças adoram isso.

MULDER: - (RI) Isso é sério?

SCULLY: - É.

MULDER: - Quem é a vítima?

SCULLY: - Nesse ano será você.

Ele fica catatônico, olhando em pânico pra ela.

MULDER: - (IRRITADO) Tá legal, você superou as minhas ironias, tá satisfeita? Você é melhor do que eu.

SCULLY: - ... (SÉRIA)

MULDER: - (TENSO) Foi piada, não foi?

Ela faz que não com o rosto. Ele revira os olhos recostando a cabeça no banco.

MULDER: - (IRRITADO) Não. Não e não! Não vou pagar mico pro seu irmão! Além do mais eu não deveria ir nessa coisa de páscoa, eu deveria estar numa sinagoga jejuando e comemorando o Pessach.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Desde quando virou judeu convicto?

MULDER: - (IRRITADO) Desde que me casei com você, uma católica fervorosa!

SCULLY: - Ah, foi tão mau assim? Pois não seja por isso, você vai vestido de coelho na sinagoga!

MULDER: - Eu não vou me vestir de coelho! Olha pra minha cara! Eu tenho cara de coelho?

SCULLY: - (CHANTAGEANDO COM CHARME) ... Puxa, pensei que você quisesse se vestir de coelhinho...

MULDER: - Não!

SCULLY: - Peludinho, fofinho...

MULDER: - Não!

SCULLY: - Eu poderia me vestir de coelhinha durante a noite... Quem sabe a gente sofria uma influência enorme e acabaria tendo uma ninhada?

MULDER: - É, pensando bem não é má ideia... Mas não! Você não vai me comprar com seu corpo! Você faz sempre isso! Fica aí me seduzindo porque eu sou apenas um homem!

SCULLY: - Tá bom... Esqueça a coisa do coelho.

MULDER: - ... (IRRITADO)

SCULLY: - Tadinha das crianças...

MULDER: - ... (IRRITADO)

SCULLY: - Vão ficar sem o coelho nesta páscoa...

MULDER: - ... (OLHA PRA ELA)

SCULLY: - Ficarão traumatizadas pelo resto de suas pobres vidas...

MULDER: - ... (ELE PERDE O OLHAR AO LONGE, LEMBRANDO ALGUMA COISA)

SCULLY: - Sinto que seja isto que vá acontecer... Mas tudo bem, num mundo de adultos, donos da verdade, quem se importa com os pequeninos indefesos, não é mesmo?

MULDER: - (COM REMORSO)

SCULLY: - Perder um pedaço tão lindo da ingenuidade e beleza da infância...

MULDER: - Tá bom, Scully! Para! Eu me visto de coelho!

Ela beija-o no rosto.

SCULLY: - Então desça daí e vamos comprar uma roupa de coelho pra você.

MULDER: - Mas pelas criancinhas, tá legal?

Os dois descem do carro. Mulder com uma cara de poucos amigos.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - O que é?

SCULLY: - Vai entrar armado na loja?

Mulder percebe que está com o coldre. Abre a porta do carro. Pega o paletó e o veste.

MULDER: - Tá bom assim?

SCULLY: - Mulder, pode ao menos retirar o crachá?

Ele olha pra lapela do casaco. Ao ver o crachá, dá um sorriso sem graça. Tira o crachá e coloca no bolso.


3:27 P.M.

Os dois entram na loja. Há apenas três funcionários: dois homens e uma mulher. Guz está observando as prateleiras e não os percebe.

MULDER: - Já reparou que o seu saldo no banco sempre está negativo? Por que será?

SCULLY: - Eu gosto de presentear as pessoas. Faz parte da minha educação.

MULDER: - Você gosta é de gastar dinheiro à toa! Deveria fazer umas economias.

SCULLY: - Pra quê? Pra levar junto pro meu túmulo?

MULDER: - Vazio isto, não?

SCULLY: - Acha que todo mundo deixa pra comprar na última hora, no meio da viagem?

MULDER: - (DEBOCHADO) É, não vejo mais nenhuma ruiva por aqui.

SCULLY: - Isso foi pejorativo, Mulder, como piadas sobre loiras.

MULDER: - Não tenho nada contra loiras. Você pode usa-las pra enfeitar a casa e trazer sua bebida. As ruivas é que dão problemas. Elas gastam demais em besteiras. Mas até que cozinham bem.

Ela o fulmina com os olhos. Outro homem (Bob) extremamente mal vestido, entra na loja, olhando pra todos os lados. Scully caminha ao lado de Mulder, sem olhar pra ele.

SCULLY: - Os meninos estavam na sala, muito assustados. Lá dentro do quarto, papai e mamãe sozinhos. De repente, os meninos ouvem estranhos gemidos vindo do quarto e a voz da mulher: - Não, Jacó, agora não. Por favor, espera mais um pouco!

Mulder olha pra ela, curioso.

SCULLY: - Mais gemidinhos e os meninos com os ouvidos atentos. Novamente a voz feminina: - Ai, Jacó, põe tudo, Jacó! Um susto geral e a voz concluindo: - Põe tudo no meu nome, Jacó!

Mulder olha pra ela indignado. Ela segura o riso. Continua caminhando.

SCULLY: - Isaac foi até o balcão de anúncios porque queria colocar uma nota na seção de óbitos. 'Quero colocar anúncio aí. Meu mulher morreu.' 'Pois não, que tipo de nota?' 'A mais barata possível!' 'E qual a mensagem?' 'Raquel morreu.'

Mulder olha desconfiado pra ela.

SCULLY: - 'Mesmo no anúncio mais barato, o senhor tem direito de usar pelo menos cinco palavras.' 'Coloca aí então: Raquel morreu. Vendo Gol 99.'

MULDER: - (DEBOCHADO) Há há há. Gosta de piadinhas sobre judeus é?

SCULLY: - Isso foi pra você saber o que as loiras sentem com esse tipo de piada.

MULDER: - (DEBOCHADO) Posso colocar no anúncio do seu óbito que estou vendendo seu apartamento? Posso fazer um seguro de vida pra você em meu nome?

Ela olha pra ele debochada. Ele ri. Scully pega uma cesta de compras, encarando Mulder seriamente e coloca mais ovos de chocolate. Mulder arregala os olhos.

MULDER: - (ASSUSTADO) Já não chega?

SCULLY: -(VINGATIVA) Não. Estes são os que o titio Mulder vai comprar pra seus sobrinhos.

MULDER: - Ai, ai, ai... Minhas chances de ter aquele sítio com uma casinha de varanda estão ficando piores...

SCULLY: - Por causa de uns miseráveis tostões pra deixar seus sobrinhos felizes? Que crueldade, Mulder! Sabe que de todos os seus defeitos, este é o que mais me deixa irritada, seu sovina!? Imagina se eu não trabalhasse? Teria que depender de você e se duvidar, passaria a lavar a cabeça com sabão pra não gastar em xampu!

Scully anda pela loja, comprando mais chocolate. Mulder ao lado dela, rindo.

MULDER: - Não me engane. Nem por um momento você me engana.

SCULLY: - Como assim?

MULDER: - Pensa que não sei que esses chocolates são todinhos pra você?

SCULLY: - O que acha desse enorme ovo de chocolate?

MULDER: - O que tem ele? Se eu amassar você bem, até que caberia aí dentro e daria um bom recheio. (TARADO) Isso seria interessante...

SCULLY: - Mulder!

MULDER: - (OLHA PRA PRATELEIRA) Ah, pode parar! Eu quero bombons. Eu quero que o Coelhinho me traga bombons!

SCULLY: - (DEBOCHADA) Mulder, o Coelhinho da Páscoa não existe.

Ele olha pra ela sério, com cara de criança frustrada.

MULDER: - Sério?

SCULLY: - Sério.

MULDER: - (DEBOCHADO) Você tá mentindo pra mim.

SCULLY: - (RI) Não tô não.

MULDER: - (FRUSTRADO) Puxa, vida, Scully... Então eu não vou ganhar bombons? Bem que desconfiei que desde os meus 10 anos o Coelhinho não aparecia mais lá em casa. Até pensei que fosse porque eu era um mau menino...

Ela sorri. Pega uma caixa de bombons.

SCULLY: - Mas a Coelhinha da Páscoa existe.

Ele sorri. Ela vira-se para o lado, procurando mais alguma coisa pra comprar. Então percebe a mulher bem jovem (Sophie) que entra na loja com um bebê de pouco mais de um ano, num carrinho.

Sophie usa roupas de cores berrantes e escandalosas, minissaia muito curta, mini-blusa, meia arrastão, piercing nas orelhas e umbigo. Tatuagem no braço.

Scully perde os olhos pro bebê.

MULDER: - (DEBOCHADO) O que você acha de levar bombons de rum pra Meg e deixar ela 'doidona'?

Scully não o escuta, continua olhando para o bebê.

MULDER: - Scully?

SCULLY: - ...

Mulder percebe o bebê. Olha pra Scully, com tristeza. Coloca a mão no ombro dela. Ela vira-se pra ele, triste.

SCULLY: - Vamos pra casa.

MULDER: - Por quê?

SCULLY: - Eu vou ligar pra mamãe. Não quero mais ir nessa droga de Páscoa.

MULDER: - Scully...

SCULLY: - Não.

MULDER: - (TENTANDO ANIMÁ-LA) Eu vou me fantasiar de coelho, vai perder essa? Vai perder a chance de rir de mim pelo resto da sua vida?

Ela abaixa a cabeça, secando as lágrimas. Mulder olha pra ela com ternura.

MULDER: - Já temos o nosso filho, Scully. Só precisamos encontrá-lo.

SCULLY: - É diferente.

MULDER: - ... Tudo bem. Se você não quer ir a gente não vai.

SCULLY: - (QUASE CHORANDO) Eu... Eu pensei que ele estaria conosco numa data dessas, que as páscoas e natais seriam diferentes por termos uma criança ao nosso lado e... Mulder, eu me importo com ele ainda, sabia?

Mulder a abraça.

MULDER: - ... Scully, eu não quero que sofra à toa.

SCULLY: - À toa?

MULDER: - É, você sabe do que estou falando. Você só não quer acreditar. Nós sabemos onde ele está, Scully.

Mulder percebe que ela vai chorar.

MULDER: - Tá certo, vamos embora. A gente fica quietinho em casa, os dois juntos, tá bom?

Mulder dá a mão pra ela. Scully olha pra ele.

SCULLY: - Eu só não quero admitir que ele está morto. Se anjos o levaram, então o significado é esse.

MULDER: - Ele não está morto. Está dormindo. Hum? Pense nas suas crenças, Scully? Nosso filho não está num lugar melhor do que este? Cuidado pelo seu Deus. Talvez até no colo dele. Hum? Dizem que crianças que morrem são anjos que passaram rapidinho por aqui para deixar seu amor e voltaram pra casa.

SCULLY: - Você não acredita nisso. Você acredita que ele vai voltar pra gente. Essa coisa de reencarnação. Eu não acredito nisso, mas quero acreditar. Pelo menos me consola mais.

Scully suspira desconsolada. Os dois saem caminhando.

SCULLY: - Eu não sei porque insisto em ficar com minha família nessas datas. Eu nunca me sinto bem. Vejo meus sobrinhos e me dá vontade de chorar.

MULDER: - Scully, até o natal você não terá mais motivos pra chorar. Vai pode exibir o nosso filho por aí. Te prometi isto, não prometi? Confia ou não no seu Mulder?

SCULLY: - Confio.

MULDER: - ...

SCULLY: - (SORRI) Acho que mudei de ideia. Pegue a fantasia de coelho.

MULDER: - (SORRI) E vou pegar uns bombons de rum pra Meg. Vou deixa-la doidona!

Scully ri. Mulder vai para o outro corredor da loja. Scully, respira fundo, mais calma. Olha novamente para o carrinho do bebê. Dá um sorriso.

A fisionomia de Scully muda quando ela percebe a mãe da criança retirar um rifle automático do carrinho. Tão rápido que quando Scully se dá conta, Bob aponta um 38 para o gerente e Guz retira do sobretudo outro rifle automático mirando na cabeça da moça do caixa. Bob tranca as portas da loja. Guz engatilha o rifle automático num gesto rápido, com o cano mirado pra cima.

GUZ: - (GRITA) Ok!!!!!!!!! Todos quietinhos e ninguém vai se ferir! Isso é uma porra de assalto, tá legal? Só queremos a porra do dinheiro e vocês podem comemorar a porra da páscoa depois! Se reagirem, podem apostar que a porra da ceia acabou aqui pra vocês.

Bob empurra os três funcionários contra a parede. Guz olha pra Scully.

GUZ: - Você aí, ruiva! Venha pra cá e seja boazinha!

Scully ergue as mãos e caminha até eles. Guz a empurra pra perto dos funcionários.

GUZ: - Bob, verifique se há mais alguém nessa porra de loja.

Bob sai correndo pelo corredor, carregando o 38 em punho. Scully olha pra loja, tentando ver Mulder. Guz olha pra eles.

GUZ: - Quero que sentem a porra dos traseiros de vocês no chão. Se tentarem bancar os engraçadinhos acionando a porra do alarme, eu furo vocês, me entenderam?

Os reféns assustados sentam-se no chão. Scully entre eles.

GUZ: - Quantos clientes há aqui dentro?

SCULLY: - Apenas eu.

Guz olha pra um dos funcionários.

GUZ: - Seu nome!

GERENTE: - (MEDO) Jason.

GUZ: - Você é o gerente dessa porra?

GERENTE: - S-sou.

GUZ: - Seu incompetente! Só há uma cliente aqui dentro? Onde está a porra do seu senso de vendas?

GERENTE: - ...

Bob volta.

BOB: - Ninguém mais, Guz.

Scully olha pra ele.


BLOCO 2:

Guz olha pra Bob.

GUZ: - Verificou em todos os lugares? Na porra dos banheiros?

BOB: - Esqueci dos banheiros.

GUZ: - Pois volte lá, seu imbecil!

Bob volta. Guz olha pra Sophie. Olha pro gerente.

GUZ: - Ok, Jason, sua única cliente, que com certeza agora nunca mais será, e seus funcionários podem sair vivos daqui. Basta você querer.

GERENTE: - ...

GUZ: - Quero toda a porra do dinheiro. E não minta, eu sei que vocês têm a porra de um cofre!

BOB: - (RINDO) Ei, Guz!!!!

Scully olha nervosamente procurando Bob com os olhos e não o vê.

GUZ: - (GRITA) O que foi?

BOB: - (RINDO) Venha ver o que eu achei aqui atrás! Cara, isso é hilário!

Guz fica parado, olhando.

Corta pra Mulder, vestido numa roupa de coelho, segurando uma cesta no braço, e uma garrafa de tequila na outra. Bob o empurra. Mulder vai se aproximando com cara de sono.

GUZ: - Mas que porra dos diabos é isso? Quem é você cara?

MULDER: - (SE FINGINDO DE BÊBADO) Eu? Eu sou o Coelho da Páscoa, imbecil.

Guz engata o rifle e mira em Mulder. Scully treme.

MULDER: - Ei, o que é isso irmão? Será que um cara não pode nem dormir um pouco nessa droga de loja?

GUZ: - Quem é você, Coelho?

MULDER: - Olha, "Hortelino", eu não sei que merda tá pegando aqui, ok? Eu fui apenas contratado pelo gerente pra me vestir nessa roupa ridícula e dar balinha pra fedelhos. Ah! Já entendi. Você foi o otário antes de mim a usar essa roupa. Ele não te pagou né? Sabia que ele não ia me pagar, esse filho da mãe!

Scully olha pra Mulder desconfiada. O gerente olha pra Mulder, incrédulo. Scully olha pro gerente e mexe os lábios. Ele acena afirmativamente com a cabeça. Guz abaixa a arma. Começa a rir. Mulder os estuda, discretamente, com os olhos de um psicólogo que traça perfis e estuda o caminho pra se aproximar.

GUZ: - Eu jamais trabalharia vestido com uma roupa dessas, seu mané! Cara, você é o filho da mãe mais desgraçado que já conheci. Essa porra de loja nem clientela tem!

MULDER: - É, pode apostar nisso. Por que acha que fui dormir? Ei, vocês são ladrões? Se forem, pelo menos deixem o meu pagamento antes de irem. Ou esse cara aí vai ficar me devendo. São dois dólares por hora.

GUZ: - O quê?

Guz encara o gerente.

GUZ: - Jason, seu filho da puta miserável de uma figa. Como tem coragem de pagar a porra de dois dólares a hora pra um cara ficar pagando um mico desses vestindo a porra de uma roupa de coelho?

O gerente, sem saber o que fazer, só ergue os ombros num gesto de "fazer o quê". Guz cospe pro lado, indignado.

GUZ: - Você tá vestido desse jeito pra ganhar uma porra de dois dólares por hora? Cara, você tá numa merda pior que a minha pra topar uma porra dessas!

MULDER: - Aí, ô esperto. Fazer o quê?

GUZ: - Tá bom, Coelho. Sente-se com eles ali.

MULDER: - (RESMUNGA) Eu sou um pé frio mesmo. Primeiro perco o emprego, depois minha mulher vai embora, acabo numa roupa ridícula dessas e ainda sendo assaltado.

Mulder senta-se ao lado de Scully. Olha pra ela.

MULDER: - Olá, boneca. Gosta de caras azarados?

Scully vira o rosto, fingindo. Mulder olha pra Guz.

MULDER: - É, ela não gosta.

GUZ: - Nenhuma porra de mulher gosta de caras sem grana e azarados.

MULDER: - Por que diz isso?

GUZ: - Ela é minha mulher.

Guz aponta pra Sophie.

GUZ: - E por causa dela estou metido nessa porra de assalto! Deveria ter encontrado outra porra de loja pra roubar! Azarado aqui sou eu!

O bebê começa a chorar. Guz olha pra Sophie.

GUZ: - (GRITA) Cale a porra da boca dessa criança! Ele me deixa irritado!

Sophie começa a empurrar o carrinho num vai e vem. Mas o bebê não pára de chorar. Guz aponta a arma pros reféns.

GUZ: - Quero que se levantem. Vamos pro fundo da loja.

Eles se levantam. Guz vai mirando a arma neles. Bob vira a placa de entrada para 'closed'. Eles se dirigem pro fundo da loja.

GUZ: - Sentem-se aí no canto. Qualquer gracinha e eu atiro na porra da cabeça de vocês. E serve pra você também, Coelho. Alguma gracinha e eu estouro seus ovinhos.

MULDER: - É, cara. É só o que me falta mesmo. Além de estar na miséria, ferrado e sem mulher, ainda vou ficar sem o meu playground.

Bob ri. Olha pra Guz.

BOB: - (RINDO) Gostei do cara. Aí, Coelho, você tá na profissão errada, sacou?

O bebê continua chorando. Guz olha pra Sophie.

GUZ: - (GRITA) Pela última vez, cale a boca dessa porra de pirralho ou eu vou cala-lo pra sempre!

Ela continua empurrando o carrinho, mas o bebê continua chorando.

GUZ: - Mas que droga!

Guz aproxima-se com o rifle em punho, mirando na criança. Scully levanta-se rapidamente. Guz vira-se e mira o rifle em Scully. Ela ergue as mãos.

SCULLY: - Ele não vai parar. Precisa pegá-lo no colo.

GUZ: - Pra quê?

Scully olha pra Sophie.

SCULLY: - Ele está com as fraldas molhadas.

Mulder olha pra ela, incrédulo, como se perguntasse: 'como ela sabe disso?'. Guz abaixa a arma.

GUZ: - Pegue a porra do fedelho. Faça-o calar a boca ou todo mundo aqui vai morrer.

Scully olha pra Sophie.

SCULLY: - Tem fraldas?

SOPHIE: - Sim.

Scully pega o bebê no colo. É um garotinho, numa roupa azul. Olhos azuis arregalados, cabelos claros. Chora convulsivamente. Scully o embala.

SCULLY: - Pronto, pronto... Vamos deixar você sequinho, tá bom?

O bebê olha pra ela e começa a sorrir. Mulder abaixa a cabeça. Põe as mãos no rosto.

GUZ: - O que foi, Coelho? Bebeu demais?

Mulder olha pra ele, tentando conter as lágrimas.

MULDER: - Não, estou pensando na minha vida miserável.

Scully olha pra Sophie.

SCULLY: - Limpe aquele balcão. Vou trocá-lo ali.

Sophie retira as cestas de páscoa que decoravam o balcão. Scully começa a trocar o bebê. Guz pega o gerente pelo braço.

GUZ: - Quero a porra do dinheiro, me entendeu?

GERENTE: - (ASSUSTADO) Sim.

GUZ: - Bob, vá com ele. Se tentar alguma palhaçada, atire nos miolos.

Bob empurra o gerente. Eles sobem as escadas.

Corta para Scully. Ela termina de trocar o bebê. Pega-o no colo. Olha pra Sophie, que está abrindo um pacote de gomas de mascar, levando uma à boca. Scully vai entregar o bebê pra ela.

SCULLY: - Pronto, ele vai ficar quietinho agora.

SOPHIE: - Não.

SCULLY: - ???

SOPHIE: - Fica com ele. Você parece ter mais jeito pra lidar com crianças.

Sophie dá as costas. Senta-se num caixote. Scully sorri. Olha pro bebê. Ele morde as mãozinhas, se babando todo e sorrindo pra ela. Scully começa a brincar com ele. Guz olha pra ela.

GUZ: - É...

Guz olha pra Sophie.

GUZ: - Aprenda com a ruiva o que é ser uma porra de mãe, sua cadela.

Scully olha pra ele, o fulminando com os olhos. Sophie levanta-se e corre em prantos para o banheiro. Mulder olha pra Guz.

MULDER: - Ei, Guz?

GUZ: - O que é, Coelho?

MULDER: - Tem grana aí suficiente pra quatro?

GUZ: - (RI) Não.

MULDER: - Puxa, que pena.

GUZ: - Já atirou em alguém, Coelho?

MULDER: - Você não sabe as coisas que eu fazia antes de me tornar um coelho.

GUZ: - Coelho, você tem a cara de quem gosta de ver a porra de um sangue correndo, sabia?

MULDER: - É, eu vejo muitos filmes do Tarantino. Mas não gosto de ver o meu sangue.

Guz olha pra Scully. Olha pra Mulder.

GUZ: - Gostou da ruiva?

MULDER: - É, ela é interessante.

GUZ: - Dou ela pra você.

MULDER: - Ah, não, Guz. Isso vai dar encrenca, você sabe.

[Som de tiros]

Mulder levanta-se, olhando pro alto das escadas.

GUZ: - (GRITA) Bob!!!!!!!!!!

Bob desce as escadas correndo, sujo de sangue.

BOB: - O gerente! Eu tive de estourar os miolos dele quando percebi que havia acionado o alarme da polícia.

Mulder fecha os olhos.

MULDER: - Idiota.

Guz olha pra Mulder.

GUZ: - Quem é a porra do idiota aqui, Coelho? Hein? O gerente foi idiota?

MULDER: - Esse seu comparsa aí! Por que não verificou se o cofre não tinha alarme? Não sabe que há cofres com alarme? Nem sabe nada de cofre, esse idiota.

Guz observa Mulder.

MULDER: - Agora isso aqui vai encher de tiras! Estão ferrados! Eu tô ferrado! Era só o que me faltava mesmo...

Mulder suspira e abaixa a cabeça, demonstrando nervosismo. Guz analisa Mulder.

GUZ: - Temos a porra dos reféns. Mulheres e crianças.

MULDER: - É, vocês têm reféns. Mas a polícia nem sempre se importa com a porra dos reféns.

GUZ: - Como você sabe disso?

MULDER: - Já disse que você não sabe o que fui antes de ser coelho.

Bob olha pra Guz.

BOB: - O Coelho tem cérebro. Ele não é um idiota.

Guz encosta Mulder contra a parede. Scully, segura o bebê contra o corpo, assustada.

GUZ: - Ok, Coelho. Melhor abrir a porra da sua boca e me contar quem você é.

Mulder abre o zíper da roupa. Entrega sua arma pra ele. Guz olha pra Mulder boquiaberto.

MULDER: - Eu ia assaltar essa merda antes de vocês chegarem.

Scully olha pra Mulder, incrédula. Guz coloca a automática de Mulder na cintura.

BOB: - E seo Coelho for um policial? Ahm?

Guz encara Bob com deboche.

GUZ: - Você é um miolo mole! Se ele fosse policial nunca me daria a arma! Se fosse policial já tinha começado uma merda aqui dentro e todos estaríamos mortos!

Guz encara Mulder.

GUZ: - Por que não atirou na gente antes? Por que não nos pegou desprevenidos?

MULDER: - Não mato colegas.

Guz ri.

GUZ: - Tá bom, Coelho. Você é fodido mesmo! Agora entendi porque tá de mal com a vida, seu porra de um azarado. Até o assalto que ia fazer deu errado. Nós chegamos antes.

MULDER: - E eu ia adivinhar que mais alguém ia se interessar justo por essa merda de loja? Não acha que eu ia trabalhar pra eles por dois dólares a hora! Isso já foi motivo pra querer roubar esses canalhas!

Guz entrega a arma pra Mulder. Scully fica boquiaberta.

GUZ: - Percebi que você tem mais quilômetros rodados em porras de assaltos do que nós. Se nos tirar daqui vivos, Coelho, leva a porra da sua parte.

MULDER: - Acha que eu não quero sair vivo daqui também?

GUZ: - Mas eu dou a porra das ordens por aqui, sacou?

BOB: - (ASSUSTADO) O que faremos agora, Guz? Os tiras já devem estar chegando!

MULDER: - Sei que você dá as ordens por aqui. Mas posso dar uma ideia?

GUZ: - Fala, Coelho.

MULDER: - Precisamos trancar todas as portas e janelas. Verificaram a porta dos fundos? Os tiras podem entrar aqui e fazer um estrago.

GUZ: - Bob, vá fazer isto.

BOB: - Certo.

Bob sai correndo.

MULDER: - Guz, me ajude a virar aquelas prateleiras. Teremos uma barreira a mais para nos defender, caso eles resolvam atirar. Se não percebeu, a frente da loja, apesar de cheia de chocolates é vitrine de vidro. Somos alvos fáceis para atiradores de elite.

Guz e Mulder viram a prateleira, formando uma proteção.

MULDER: - Isso é divertido, não é, Guz?

GUZ: - Aposto que nunca pensou em morrer na porra de uma loja de chocolates vestido de coelho, Coelho.

MULDER: - Não e nem pretendo. Agora me ajuda a abrir uma brecha entre esses ovos de chocolate. Assim veremos os tiras, mas eles não nos verão.

GUZ: - Você tem uma porra experiência nisso, hein Coelho?

Scully observa Mulder. Olha pra Sophie, que está distraída, mascando chicletes. Então Scully olha para os dois funcionários. Pisca o olho pra eles.

[Som de sirenes da polícia]

Guz começa a ficar nervoso. Bob aproxima-se.

BOB: - Tranquei tudo.

GUZ: - Merda, os tiras chegaram. Já que não roubamos nada, acho melhor começar a matar essa gente!

Guz aponta o fuzil na funcionária. Mulder coloca a mão sobre o fuzil.

MULDER: - Guz, não fode tudo. Me escuta primeiro. Quero que vocês dois me escutem, tá legal?

Guz abaixa a arma.

MULDER: - Não vamos conseguir abrir aquele cofre lá em cima com esse monte de tira aí fora, contando o tempo pra entrarem aqui e nos matarem. Com sorte, saímos algemados e eles nos acusam de tentativa de roubo e de sequestro. Eu não quero sair daqui num saco preto e menos ainda pegar 30 anos de cadeia com um negão enorme cutucando o meu traseiro toda a noite e me chamando de cachorra.

Bob e Guz se assustam.

MULDER: - E vocês também não. Acho que já perceberam que é muito pouca grana pra arriscar o pescoço. Podemos fazer isso melhor e por muito mais grana. Eu tenho um esquema aí, grana e joias, mas sozinho não dá. Agora com vocês...

Os dois bandidos abrem um sorriso.

GUZ: -Tem razão. Pelo movimento dessa porra não tem muito pra se roubar mesmo.

MULDER: -Nossa preocupação agora é sair daqui sem sermos pegos. Os tiras lá fora, estão putos com a gente. Precisamos mostrar que estamos dispostos a negociar.

GUZ: - Eu não vou negociar com porra de tira nenhum, Coelho!

MULDER: - Nem eu! Mas não podemos deixar que eles saibam disso.

GUZ: - Coelho, eu não estou gostando da porra dos seus métodos.

MULDER: - Me dá uma chance, Guz. Me deixa falar. Eu já passei por esta merda dentro de um banco!

BOB: - (EMPOLGADO/ RINDO) Você roubava bancos?

MULDER: - Eu roubava qualquer coisa que tivesse um cofre. Mas pegaram meus parças e sozinho não dá pra fazer esquema de grana alta.

Eles param de falar ao ouvirem a voz do xerife local pelo megafone.

XERIFE: - Sabemos que estão aí. Saiam com as mãos para cima! Estamos com a loja cercada! Não vão ter como escapar.

GUZ: - Droga!

MULDER: - Calma, aí, Guz. Precisa agir com calma. Precisamos mostrar pra eles que estamos pensando em nos render, ok?

GUZ: - E o que pretende fazer?

MULDER: - Nós vamos sair daqui como reféns.

GUZ: - (INCRÉDULO) O quê?

MULDER: - Ouviu o que eu disse. Funciona. Já fiz isso.

GUZ: - Você está louco? Que porra de ideia maluca é essa, Coelho?

MULDER: - (SORRI DEBOCHADO) Eles não sabem que o gerente está morto. E não sabem quem são os ladrões.

Bob começa a rir.

BOB: - (RINDO/ ABOBADO) Aí, Guz, o Coelho é esperto. Eu te disse, eu te disse!

MULDER: - Você será o gerente da loja, Guz.

GUZ: - Mas os funcionários vão abrir a porra da boca.

MULDER: - Tranque-os no banheiro. Até os tiras chegarem aqui, revirarem a loja, estaremos longe.

GUZ: - Isso é um plano maluco, Coelho. Uma porra de um plano maluco!

SOPHIE: - Guz...

Guz olha pra Sophie.

SOPHIE: - Acho que pode dar certo.

GUZ: - Cale sua boca, mulher! Você não entende disso! Cuide da porra dos reféns!

Ela volta pra um canto. Larga o rifle contra a parede. Senta-se no chão. Abre um ovo de chocolate e começa a comer, olhando com raiva pra Guz.

GUZ: - E vai virar uma porca do jeito que come!

MULDER: - Prestem atenção no meu plano, ok?

Mulder os puxa pra um canto, enquanto olha pra Scully, segurando o bebê, que dorme tranquilamente em seus braços. Scully olha para os funcionários. Senta-se ao lado de Sophie. Olha para o bebê. Olha pra ela.

SCULLY: - Que idade ele tem?

SOPHIE: - (INDIFERENTE) Mais de um ano. Não sei bem.

SCULLY: - Qual o nome dele?

SOPHIE: - Moses.

Scully olha pra Sophie.

SCULLY: - Por que 'Moisés'?

SOPHIE: - Sei lá, ideia do pai dele que tem mania de ler a Bíblia.

SCULLY: - ... Tem problemas em seu casamento. Mas não ligue, os homens são assim.

Sophie ri. Scully tenta conforta-la. Sophie puxa um baseado do bolso e acende.

SOPHIE: - Quer?

Scully olha assustada pra ela.

SCULLY: - Não deveria fazer isso. Está amamentando ainda?

SOPHIE: - Tá louca é? Seus peitos ficam caídos e eles ficam por aí exibindo saúde enquanto crescem. Droga, esse fumo é horrível!

Ela atira o baseado longe.

SCULLY: - (INCRÉDULA) ... Que idade você tem?

SOPHIE: - ... Faço 21 no próximo mês.

SCULLY: - Seu marido parece não ligar muito pro filho.

SOPHIE: - (RI) Moses não é filho de Guz.

SCULLY: - Não?

SOPHIE: - Nem sou casada com ele. Eu sou mãe solteira, resolvi morar com Guz.

SCULLY: - O pai de Moses não o assumiu?

SOPHIE: - Assumiu sim. Peter queria casar comigo, me levou pra morar no apartamento dele. Mas conheci Guz na boate. Ele me prometeu uma vida, sabe? Coisa que o pai do garoto não podia me dar. É um idiota, trabalha como operário o dia todo. É um ferrado na vida.

Scully suspira. Olha pra ela.

SCULLY: - Fez isso por seu filho. Entendo o que uma mãe faz por um filho.

SOPHIE: - Não, eu não fiz isso pela criança. Fiz por mim. Eu ia dar Moses pra adoção, mas depois vi que seria um erro.

Scully olha pro bebê em seus braços.

SCULLY: - Seria sim. Ele é lindo. Perfeito.

SOPHIE: - Pensei que se o meu filho era tão bonito, eu não devia dá-lo. Deveria vendê-lo.

Scully olha pra ela, incrédula.

SOPHIE: - Uma amiga vendeu o dela. Disse que sempre há casais por aí desesperados pra terem um filho e a gente pode pedir o que quiser que os idiotas pagam. Estão ferrados mesmo, doidos pra passarem a noite acordados com uma peste dessas chorando nos ouvidos... Malucos... Mas não foi bem assim. Não consegui vende-lo. Agora vou ter de dá-lo mesmo.

SCULLY: - Por que não quer o seu filho, Sophie?

SOPHIE: - Ele chora muito. Baba muito. Toda hora está molhado. Não consigo mais dormir de noite. Eu sou bailarina, sabe? Trabalho numa boate. E chegar em casa de manhã, bêbada e cansada, encontrar ele chorando e querendo mamar... Guz não gosta disso e eu não o culpo.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Você deixa o bebê sozinho em casa durante toda à noite?

SOPHIE: - Aí, qual é a sua? Algum problema nisso? Ele tá bem, pode ver. Melhor do que eu! Esse maldito só atrapalha a minha vida! Se soubesse que não o venderia teria deixado ele com o idiota do pai dele.

SCULLY: - Como pode dizer uma coisa dessas de uma criança?

SOPHIE: - Ei, vai dar uma de mãe pra cima de mim, é? Eu sou mãe dele, ele é meu filho! Vá cuidar dos seus à sua maneira.

SCULLY: - Não tenho filhos.

SOPHIE: - Se me pagar mil dólares, fica com ele. Mas Guz não pode saber.

Scully olha pro menino. Olha pra ela e derruba lágrimas.

SCULLY: - O quê está me dizendo?

SOPHIE: - Me dá mil dólares em dinheiro vivo e pode ficar com ele. Preciso arranjar dinheiro pra sair do estado e fugir de Guz. Ele tá me torrando a paciência.

SCULLY: - Eu não tenho mil dólares aqui.

SOPHIE: - Você o quer?

Scully olha para o bebê como se visse o filho que perdeu.

SCULLY: - (DERRUBANDO LÁGRIMAS) Eu o amo.

SOPHIE: - Tá legal, quanto tem aí?

SCULLY: - Cem dólares. Mas posso te pagar em cheque.

SOPHIE: - Dinheiro vivo. Olha, se quer a criança, arranje o dinheiro. Se não quer, eu venderei pra outro.

SCULLY: - Comprará drogas com isso não é?

SOPHIE: - Escuta aqui, você tem alguma coisa a ver com a minha vida? Por que não vai cuidar da sua? Fazer seus próprios filhos então?

Sophie pega o menino dos braços dela.

SOPHIE: - Mil dólares. Quando sairmos daqui, eu ligo pra você. Me deixe seu telefone. Se abrir a boca pra polícia não terá a criança. Quero dinheiro vivo, entendeu?

Scully olha pro menino. Abaixa a cabeça e derruba lágrimas. Mulder percebe que algo está acontecendo, mas continua falando com os ladrões, disfarçando.


BLOCO 3:

5:12 P.M.

Mulder olha pra Guz.

MULDER: - Entendeu?

GUZ: - Entendi. Mas por que você vai falar com os tiras e eu não? Eu serei a porra do gerente da loja!

MULDER: - Acha que ladrões profissionais mandariam o gerente lá pra fora pra informar a negociação, sendo que o gerente é o principal refém?

Bob ri. Guz olha pra ele seriamente.

BOB: - Aí, o Coelho sabe mesmo.

MULDER: - Eu vou negociar com os tiras. Vocês ficam aqui. Vou dizer que sou refém, trabalho na loja e vocês querem um helicóptero pra sair daqui. Vou chorar, implorar, dizer que vocês nos matarão, que são uns selvagens prontos pra tudo... Aquela novela mexicana. Já que estou perito nisso, a minha ex só assistia novela...

Bob ri.

GUZ: - Se você nos trair, Coelho, eu juro que você é uma porra de um sujeito morto.

Mulder aproxima-se de Scully. Puxa-a pelo braço.

MULDER: - Levanta daí, ruiva.

Scully levanta-se. Mulder olha pra ela. Mostra a arma.

MULDER: - Tá vendo isto, mulher? É uma automática, tá legal? E ela pode furar sua cabeça imbecil se fizer alguma coisa errada.

GUZ: - Mas que porra esse Coelho tá fazendo?

SOPHIE: - Deixa ele, Guz. A gente tá ferrado mesmo. Deixa o Coelho tentar.

Mulder retira o pente de balas e entrega a arma vazia pra Scully.

MULDER: - Quero que fique parada ali atrás daquele balcão mirando a arma em mim, entendeu? Eu vou sair e negociar com os tiras. Não tente chamar atenção ou meus amigos vão fazer um buraco na sua cabeça. Compreende, ahn? Vai fazer o que mandei?

Scully olha pra Mulder e afirma com a cabeça. Mulder volta pra perto de Guz e Bob.

MULDER: - Eles vão pensar que ela é Sophie, caso tenham a informação sobre uma mulher ser do grupo.

Bob ri.

BOB: - Coelho, você é mais esperto do que o Pernalonga.

Mulder vira-se pra Scully.

MULDER: - Ok, ruiva. Faça o que mandei. Confie em mim, me obedeça e tudo dará certo.

Scully vai pra trás do balcão apontando a arma em Mulder. Mulder sai caminhando em direção à porta da frente, com as mãos pra cima.

GUZ: - Coelho, você é uma porra de um sujeito corajoso.

MULDER: - (DEBOCHADO) Corajoso nada. Quem atiraria no Coelhinho da Páscoa?

BOB: - Verdade! Viu como o Coelho é esperto? Quem ia desconfiar de um coelho assaltante? Nem a gente desconfiou! Os tiras vão cair direitinho!

Corte.


Na frente da loja os policias apontam as armas se protegendo atrás dos carros. Mulder sai pela porta com as mãos pra cima.

MULDER: - (GRITA) Não atirem, estou desarmado! Sou refém!

O xerife faz sinal para os policias não atirarem. Mulder vai se aproximando. O xerife aproxima-se dele, segurando a arma no coldre. O revista.

Dentro da loja Guz e Bob escondidos observam Mulder pela vitrine.

Mulder olha para o xerife, falando baixinho.

MULDER: - Tá vendo o carro azul escuro? Disfarce quando olhar. Somos colegas.

O xerife olha discretamente para o lado.

MULDER: -Está aberto. Dentro do porta-luvas vai encontrar dois distintivos. Sou agente do FBI, meu nome é Fox Mulder. Mas os caras lá dentro não sabem disso. Ligue pro FBI e confirme.

O xerife faz sinal pra um dos homens ir até o carro.

XERIFE: - Qual a situação?

MULDER: - São dois homens e uma mulher. Dois fuzis automáticos e um 38. O gerente está morto. A ruiva que me aponta a arma é minha parceira, Dana Scully, e eles também não sabem disso. Há mais dois funcionários e um bebê de pouco mais de um ano.

O xerife fecha os olhos.

XERIFE: - Droga! Que merda!

MULDER: - Finja que estamos negociando. Ganhei a confiança deles. Eles pensam que sou um assaltante frustrado e me adotaram no grupo deles.

O policial aproxima-se com a identificação de Mulder e Scully. O xerife observa.

XERIFE: - Ligue para o FBI e confirme as identidades dos agentes. Depois me avise.

O policial se afasta e o Xerife encara Mulder.

XERIFE: -Agente Mulder... E o que faz numa roupa de coelho?

MULDER: - Tendo uma 'feliz páscoa'. E acredite, o Coelhinho aqui quer dar a melhor páscoa pra esses filhos da mãe aí dentro.

XERIFE: - O que planejou?

MULDER: - Os reféns ficarão trancados no banheiro, junto com minha parceira. Preciso que em uma hora um helicóptero pouse no meio da rua, vou dizer que negociei um helicóptero com vocês. Mas eles sairão comigo, disfarçados de gerente e funcionários, ajam como se viessem até eles para ajuda-los pensando que são vítimas. Eu rendo o falso gerente. A mulher e o outro vocês pegam. O 'gerente' é o mais esperto dos três. Mas todos são novatos na coisa.

XERIFE: - Sabe os nomes?

MULDER: - Guz, Sophie e Bob. A criança é filho de Sophie.

XERIFE: - Ah, meu Deus! Eles vão sair com o bebê. Não vamos poder atirar se algo der errado!

MULDER: - Não atirem, eles sairão desarmados. Confiem em mim, sei lidar com esses maníacos. Me deem mais uma hora pra ajeitar tudo em segurança.

XERIFE: - Agente Mulder, o Coelho do FBI?

MULDER: - (SORRI) Sim?

XERIFE: - Nos dê uma feliz páscoa. Pode nos trazer, como presente, aquela gente inocente viva?

MULDER: - (DEBOCHADO) Não acredita no Coelhinho da Páscoa, xerife?

O xerife sorri. Mulder dá as costas e entra na loja. O xerife vai até os homens. Agacha-se. O policial se aproxima agachado.

POLICIAL: - Verifiquei. Ele não está mentindo. São agentes do FBI.

XERIFE: - Ok. A situação é essa rapazes: Não atirem no Coelho da Páscoa e nem na ruiva, são dois federais disfarçados... No lugar certo e na hora certa. O federal bolou um plano e vamos segui-lo a risca. É o seguinte...

Corte.


Mulder entra na loja. Passa por Scully e pisca o olho pra ela. Puxa-a pra um canto.

MULDER: - Ok, ruiva, me devolva a arma.

Mulder puxa a arma da mão dela. Olha pra Guz, enquanto coloca o cartucho na arma novamente.

MULDER: - Em uma hora os tiras vão largar um helicóptero na rua. Nós sairemos como vítimas e seremos levados pra um hospital. Enquanto isto, eles ficarão aqui esperando pelos bandidos saírem pra pegar o helicóptero, pensando e rindo sozinhos no quanto somos burros por trocarmos todos os reféns por um transporte. E nós já estaremos com a grana bem longe daqui.

GUZ: - (RINDO) Coelho, você é demais. Tá a fim de entrar pra porra do nosso time?

MULDER: - (DEBOCHADO, OLHANDO PRA SCULLY DE CIMA A BAIXO) Preciso me divertir e relaxar primeiro. Depois te dou a resposta, Guz. Entende?

Guz entende. Olha pra Scully.

GUZ: - Vai Coelho. Pega a safada. Ela tá a fim de você.

Mulder aproxima-se de Scully.

MULDER: - Se ficar quietinha, nada de mal vai te acontecer, vadia gostosa. Vem aqui, vou te dar uma coisa inesquecível.

Mulder a puxa pelo braço e a leva para o banheiro. Tranca a porta.

MULDER: - (SUSSURRA) Finja que estou te estuprando.

Os dois começam a derrubar as coisas no banheiro, fazendo muito barulho. Scully dá um grito. Mulder olha pra ela, assustado. Ela ergue os ombros. Ele balança a cabeça negativamente e sorri. Os dois falam aos sussurros.

SCULLY: - O que está tentando fazer?

MULDER: - Salvar a pele de vocês. Vou te explicar a coisa toda e quero que fique com os reféns aqui dentro do banheiro. O xerife e eu já combinamos.

SCULLY: - Mulder, e o bebê?

MULDER: - Scully, eu...

SCULLY: - Mulder, ela quer vender o filho pra mim!

MULDER: - (INCRÉDULO) O quê?

SCULLY: - Ela quer vender a criança, Guz não se importa, não é filho dele.

MULDER: - Scully...

SCULLY: - Mulder, pelo amor de Deus! Eu quero aquele bebê!

MULDER: - Scully...

SCULLY: - Até o nome dele é Moses!

Mulder olha pra ela com ternura. Percebe que ela está confusa, movida pelos sentimentos. Segura em suas mãos. Olha em seus olhos.

MULDER: - Me escuta, ok? Vamos ser racionais. Scully, não é assim que as coisas funcionam. Ela vai vender o filho e vai ser presa, e vai sair da prisão, vai querer o filho de volta e você sabe que a justiça sempre deixa o filho com a mãe natural, por mais cretina que ela seja. E eu não quero ver você sofrer.

SCULLY: - Mas ela não gosta dele!

MULDER: - Mas ela é a mãe dele... Scully, ela não presta. Vai tentar tirar a criança de você pra vender pra outro, essa gente faz isso.

SCULLY: - Mas a gente podia fugir, deixar o endereço errado, sei lá... Ele precisa de carinho...

MULDER: - Scully, ele vai ter carinho. Vai achar uma família que dê isso à ele.

SCULLY: - Não podemos entregá-lo pra adoção! Vão deixa-lo com uma família qualquer, não temos garantias de que serão bons pra ele! A gente pode forjar papéis falsos de paternidade e...

MULDER: - Scully, está ouvindo o que você está dizendo?

Ela começa a chorar. Se abraça nele.

SCULLY: - Mulder, eu quero o meu filho. Ele é o meu filho.

MULDER: - Scully, ele não é o seu filho. Eu sei que você está vendo o nosso filho nele. Mas não é.

SCULLY: - (CHORANDO) Eu só queria ter um bebê nos meus braços!

MULDER: - Scully, você vai ter seu bebê em seus braços, mas temos que ser cautelosos agora. Eu te pedi um tempo, não pedi? Eu vou te dar esse presente. Você confia em mim, não confia?

SCULLY: - Sim.

MULDER: - Scully, você é a melhor mãe do mundo, sabia? Então, se você quer ser mãe pra aquele menino, agora é a chance. Quero que entregue seu cartão de crédito pra ela, dinheiro, tudo o que tiver e fique com a criança aqui. Tenho medo de que algo saia errado lá fora e o bebê se machuque. Vamos mantê-lo aqui dentro, você cuidará dele.

SCULLY: - Tá.

MULDER: - E eu te prometo, Scully. Se quiser, a gente se casa e entra na fila de adoção pra tentar ganha-lo, mas pelos meios legais. Isto é, se você acha que vai ter condições de cuidar de dois bebês, porque o nosso estará conosco no natal.

Ela sorri, secando as lágrimas.

SCULLY: - Eu cuidaria até de mil.

MULDER: - Ah, Scully, só porque estou nessa fantasia de coelho, não fica pensando que agora estamos prontos pra uma ninhada.

Ela sorri. Ele a beija na testa. Olha pra ela ternamente.

MULDER: - Tá, finja que o pior aconteceu aqui e pegue o garoto. Quando eu sair com eles, você continua aqui com o bebê e os dois reféns até a polícia chegar.

SCULLY: - Mulder, estou preocupada com você.

MULDER: - Estarei bem, não se preocupe.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - O que é?

SCULLY: - Você vai me deixar gastar dinheiro com uma criança?

Ele sorri.

MULDER: - Gaste tudo Scully. Vidas não têm preço.

Scully aproxima-se dele e beija-o nos lábios, suavemente.

SCULLY: - Eu amo você, Mulder.


Corta para Guz. Ele olha pra Sophie. O bebê chora.

GUZ: - Não sabe cuidar dessa porra de criança?

SOPHIE: - Eu não sei o que ele tem! Ele não para de chorar.

GUZ: - Dá uísque pra ele. Sempre funciona.

Mulder senta-se ao lado de Guz. Guz o olha com uma cara safada.

GUZ: - Aí, Coelho... Deu a páscoa pra ruiva?

MULDER: - É, digamos que eu dei a páscoa inteirinha pra ela. Acho que ela gostou.

GUZ: - (GRITA/ OLHANDO PRA SOPHIE) Cale essa criança!

SOPHIE: - (GRITA) Ela não quer se calar!

Scully aproxima-se com os cabelos revirados, fechando o blazer e arrumando a roupa, olhando com ódio pra Mulder.

SCULLY: - Seu animal desgraçado! Tenho nojo de você!

Scully pega o bebê. O embala. Gus começa a rir.

GUZ: - Acho que ela não gostou da sua performance, Coelho. Também, com uma roupa dessas...

SCULLY: - Não chora, não... Eu sei que você está com fome... Mas logo logo isso tudo vai terminar...

Scully encosta o bebê contra si, tentando acalma-lo. Mulder olha pra ela com ternura indisfarçável, de quem admira aquela coragem e aquele amor tão grandes, com uma vontade enorme de chorar. Mas se contém. Scully olha pra Sophie com raiva.

SCULLY: - Tem a mamadeira dele aí?

SOPHIE: - Não.

Scully, enquanto embala o menino, faz sinal pra Sophie com a cabeça, a chamando. Afasta-se. Sophie olha pra Guz. Guz está distraído, carregando a arma. Sophie levanta-se. Vai até Scully.

SOPHIE: - O que foi?

SCULLY: - Darei meus cartões de crédito, meus cheques assinados e o dinheiro que tenho. Mas fico com ele.

SOPHIE: - (SORRI) Sério?

SCULLY: - Sim.

SOPHIE: - Mas Guz não pode saber.

SCULLY: - Ele não saberá.

SOPHIE: - Quanto tem no banco?

SCULLY: - Mais do que os mil dólares de que precisa. Quando sair daqui, você saca em um caixa eletrônico. Até que eu esclareça que não sou uma ladra pra polícia, você já terá pego o dinheiro.

SOPHIE: - Por que está fazendo isso?

SCULLY: - (ÓDIO) Por ele. Porque ele não merece a mãe que tem. Você sabia que tem mulheres que sofrem horrores, gastam um monte com tratamentos, que tomam hormônios, mesmo sabendo que já tiveram um câncer e que isto seria mortal, só pra tentarem ter um filho?

SOPHIE: - ...

SCULLY: - (ÓDIO) Não, você não pode saber essas coisas... Você tem um organismo perfeito. O que me faz pensar no quanto a natureza é injusta! Agradeça à Deus por isto. Por poder sentir um filho dentro de você, por sentir as dores de um parto, uma criança se alimentando em seu seio e a grandeza única e maior do universo que é dar a vida.

Scully vira-se de costas a desprezando. Sophie ri.

SOPHIE: - Puxa, quanta poesia...


6:03 P.M.

Mulder levanta-se. Olha pros reféns.

MULDER: - Ok, eu quero que tirem a roupa. Bob, você fica com o uniforme do rapaz e Sophie com o da moça. Guz, vai ter que ir lá em cima e tirar o uniforme do gerente. Enquanto isso eu prendo os reféns no banheiro.

Guz sobe as escadas. Scully olha pra Sophie. Mulder olha pra elas e disfarça, chamando a atenção de Bob, para que não perceba a negociação das duas. Scully coloca o bebê no carrinho e põe a mão no bolso do blazer.

MULDER: - Bob, depois que eles tirarem a roupa, você os amarra pra mim, pode ser?

BOB: - Deixa comigo, Coelho.

Corta para Scully. Ela retira o cartão de crédito, cheques e dinheiro da carteira. Sophie pega tudo das mãos dela. Scully olha pra ela assustada. Sophie coloca tudo no bolso. Olha pra ela, enquanto masca chicletes.

SOPHIE: - Eu levo tudo. Pode ficar com ele. Se me der a senha errada, eu te encontro e pego ele de volta. Acredite, eu te acho.

SCULLY: - Acredito. A senha é 1013. Não vou mentir pra você. Não quero que chegue perto de Moses novamente.

Sophie empurra o carrinho com o pé. Scully pega o bebê nos braços. Mulder vira-se pra ela.

MULDER: - Ok, ruiva, larga a criança e vá para o banheiro.

Sophie olha pra ele.

SOPHIE: - A criança vai ficar com ela. Eu dei pra ela.

MULDER: - Você deu o seu filho?

SOPHIE: - (DESAFIANDO-O) O filho é meu! Eu dou, eu mato, eu faço o quiser com ele e você não tem nada a ver com isso, Coelho.

MULDER: - Então ruiva, vá com a criança para o banheiro. E vocês dois aí também. Bob e Sophie, coloquem as roupas depressa. Eu vou trancar esses imbecis.

Corte.


Mulder leva os reféns assustados e Scully com o bebê. Abre a porta do banheiro e entra com eles.

MULDER: - (SUSSURRA) Ok, ok, gente. Somos agentes federais, fiquem calmos. Quero que obedeçam a minha parceira aqui e tudo sairá como planejamos, ok?

O rapaz e a garota chegam a suspirar de alegria.

[Barulho do helicóptero]

Mulder sai do banheiro fechando a porta e dá de cara com Guz.

GUZ: - Os prendeu?

MULDER: - Estão amarrados e amordaçados. Agora vamos sair daqui. Quanto mais rápido melhor.

Mulder empurra Guz. Olha pra Bob e Sophie.

MULDER: - Vamos embora. Sairemos com as mãos pra cima, ok? Correndo. Quero até que Sophie finja estar chorando. E façam uma cara de abatidos e assustados. Vocês ficaram como reféns numa bomboniere por quase três horas!

SOPHIE: - (RINDO) Deixa comigo...

MULDER: - E deixem as armas.

GUZ: - Você tá maluco?

MULDER: - Você é que deve estar maluco, Guz! Reféns saindo com armas? Quer nos entregar pros tiras? É isso o que você quer? Eu não vou sair num saco preto e menos ainda ser chamado de fofura e servir meu rabo no chuveiro pra um negão tatuado de dois metros de altura.

BOB: - O Coelho tem razão, Guz! Não vão saber quem somos, vão pensar que somos reféns!

SOPHIE: - Se sair armado por aquela porta eles vão sacar o nosso plano!

Guz abaixa a cabeça. Larga a arma no chão.

GUZ: - Tá certo. Mas você vai na frente, Coelho.

MULDER: - Tudo bem. Eu vou. Não sou um maricas.

Bob ri. Sophie também. Guz passa por Mulder, colocando as mãos na cabeça e se dirigindo pra porta.

GUZ: - Eu vou na frente.

Mulder vai atrás dele. Sophie e Bob o seguem.


BLOCO 4:

O helicóptero pousado na rua. O xerife os vê aproximando-se da porta. Procura Mulder e o bebê com os olhos.

XERIFE: - O federal é o segundo. O bebê não está com eles. Abaixem as armas pra que os sacanas não percebam.

Os policiais abaixam as armas. Guz sai gritando.

GUZ: - Não atirem, somos os reféns!

O xerife olha pra eles.

XERIFE: - Estão bem? Tem mais alguém lá dentro?

GUZ: - Só os bandidos!

XERIFE: - Ok, corram depressa pra viatura. Vamos leva-los pra longe daqui. Estão salvos agora.

GUZ: - Viatura?

MULDER: - (COCHICHA) Cala a boca, Guz! Eles vão nos deixar no hospital. É o procedimento desses caras.

O xerife aproxima-se. Olha para os três assaltantes.

XERIFE: - Podem baixar os braços.Machucaram vocês?

SOPHIE: - Não, senhor.

XERIFE: - Ótimo. Meu pessoal os deixará no hospital. Mas preciso revistar vocês primeiro.

Os policiais aproximam-se e os revistam, inclusive Mulder.

XERIFE: - Ok, estão limpos. Vão ter que ir ao hospital e depois a gente pega o depoimento de vocês. Enquanto isso vamos pegar esses cretinos. Uns idiotas. Achavam mesmo que a gente ia entregar um helicóptero se nos dessem os reféns? Vamos encher aqueles imbecis de chumbo se reagirem.

MULDER: - Ladrões são burros, xerife.

XERIFE: - Realmente, são a raça mais burra que conheço.

Sophie corre até a viatura. Bob vai atrás dela. Guz entra na viatura também. O policial fecha a porta. Guz olha pra Mulder. Mulder continua parado, falando com o xerife.

GUZ: - Mas que porra aquele Coelho maluco tá fazendo?

Mulder aproxima-se, colocando sua credencial contra o vidro da janela.

MULDER: - Estão presos. FBI. Como eu disse, ladrões são burros.

Guz olha pra Bob que está impressionado, boquiaberto.

GUZ: - (RAIVA) Grrrrrr.... Eu vou matar você, seu idiota!!!!!!!!! A ideia foi sua!!!!

Os dois se pegam a socos dentro da viatura. Sophie chora.

SOPHIE: - Eu não posso ser presa, eu tenho um filhinho pra cuidar!

GUZ: - Cala a boca, sua cadela!

BOB: - Como eu ia desconfiar que o Coelho era um tira?

MULDER: - (DEBOCHADO) Não confiem no Coelho da Páscoa.

Mulder afasta-se da viatura, que parte levando os ladrões. Scully sai da bomboniere com o bebê e os reféns. A polícia aplaude. Os policiais vêm cumprimentar Mulder, rindo, fazendo festa. Os paramédicos vem prestar socorro aos dois reféns.

POLICIAL: - Esse aí é o verdadeiro Coelho da Páscoa.

XERIFE: - Puxa, agente Mulder... Nunca peguei bandidos de uma maneira tão fácil. Não precisei nem de algemas! Foi como apanhar galinhas selvagens. Aprontar a armadilha, esperar e fechar a jaula.

MULDER: - Estou cansado de assistir filmes onde mostram policiais burros e bandidos espertos. Nós não somos burros. Eles nunca foram espertos. Lamento não ter salvo o gerente. Ele se precipitou.

Mulder vira-se. Vê Scully, acariciando o bebê contra o peito, afagando seus cabelos enquanto ele dorme. Mulder faz uma fisionomia de piedade. Deixa os policiais e vai até ela.

MULDER: - Você está bem?

SCULLY: - Estou.

MULDER: - E como ele está?

SCULLY: - Acho que ele não sabe o que estava acontecendo.

MULDER: - Ah, ele sabe. Você sabe que eles sabem de tudo.

Scully olha pra Mulder e sorri. Mulder beija-lhe a testa. O xerife aproxima-se deles.

XERIFE: - Ora, que bebê bonito!

SCULLY: - Gostaria de leva-lo ao hospital e verificar se ele está bem. A mãe pouco cuidava, acredito que nunca o levou ao médico.

XERIFE: - São... Casados?

Mulder abaixa a cabeça e sorri. Scully olha pro xerife. Estende uma das mãos.

SCULLY: - Sou a senhora Mulder.

XERIFE: - Muito prazer, senhora Mulder.

O xerife olha pra Mulder.

XERIFE: - Tudo bem, agente Coelho. Ou melhor, raposa na pele de coelho.

MULDER: - (SORRI)

XERIFE: - Vou precisar do depoimento de vocês e depois poderão ir pra casa. O dono da loja disse que agradece vocês por tudo e como recompensa vai lhes dar um monte de ovos de chocolate.

Mulder olha pra Scully.

MULDER: - (PÂNICO) Mais?

Scully sorri.

XERIFE: - Depois vocês podem ir pra casa comer chocolate com seus filhos. Os garotos vão adorar o presente.

Scully abaixa a cabeça e beija o bebê nos cabelos. Vira-se de costas. Aspira o perfume dele. O xerife olha pra Mulder. Mulder está chateado.

XERIFE: - O que foi?

MULDER: - Não temos filhos.

XERIFE: - Recém casados?

MULDER: - Não podemos ter filhos. E nem adota-los, não somos casados no papel.

O xerife olha pra Scully. Pode ouvir ela chorando. Olha pra Mulder.

XERIFE: - Eu não sei quem é essa criança. Ela desapareceu no meio da confusão, entende? Não há nenhum registro de criança desaparecida nesta cidade. Nenhum dos meus homens ouviu falar de criança alguma. Palavra da polícia, compreendeu? Se vocês quiserem ir até a delegacia, me darem o depoimento e depois irem embora com seu filho, tudo bem.

Mulder olha incrédulo pro xerife. Scully começa a chorar de alegria. O xerife tira o chapéu e olha pra ela, se despedindo.

XERIFE: - Senhora. Tenha uma feliz páscoa.

Mulder aproxima-se de Scully. Olha pra ela. Olha pro bebê. Derruba lágrimas. Os dois se abraçam.


8:21 P.M.

Scully entra na delegacia, com o bebê no colo e uma sacola na mão. Mulder está sentado na poltrona, ainda vestido de coelho. Conversa com os policiais, contando o que passou. Os policiais riem. Scully se aproxima. Mulder levanta-se a vai até ela. Passa a mão na cabeça do menino.

MULDER: - E então? Como está o garotinho risonho, hein?

O bebê sorri pra Mulder.

SCULLY: - Um pouco fora do peso normal pra idade dele e com sinais de início de anemia. Mas tudo pode ser perfeitamente medicado se com as devidas atenções.

Mulder olha para a sacola.

MULDER: - O que é isso?

SCULLY: - Fraldas, leite em pó, mamadeira, lenços perfumados, xampu, sabonete, deo colônia... E alguns remedinhos... Hum, artigos de primeira necessidade. Não acha que vamos viajar com o nosso filho por aí sem levar isto.

Ele sorri.

MULDER: - Me dá ele aqui.

SCULLY: - Sabe pegar uma criança?

MULDER: - Ora essa, me deixa treinar!

Mulder pega o bebê no colo. O ergue, começa a brincar com ele. Scully olha pros dois.

SCULLY: - Mulder.

MULDER: - O que é?

SCULLY: - Você fica bem como pai, sabia? Combina tanto com você.

MULDER: - Bom, agora que está tudo bem, vamos embora.

Mulder entrega o bebê pra ela. Scully aproxima-se da porta dos fundos da delegacia.

Corta para a porta de entrada. O homem aflito entra em desespero. Os olhos vermelhos de chorar. Parece que nem forças têm. Uma senhora mais velha entra atrás dele. O xerife olha pra eles.

XERIFE: - O que aconteceu?

PETER: - Xerife, eu... Meu nome é Peter Richardson. Eu recebi a informação de que minha mulher estava nesta cidade. Olha, sou um homem honesto, o meu único defeito é não poder dar a ela tudo o que ela queria. Eu trabalho com dificuldades e tento levar a vida como posso... Esta é minha mãe. Estamos na pista da minha mulher há mais de três meses. Aquela drogada maluca fugiu com o nosso filho.

Scully para. Fecha os olhos. Abraça-se ao bebê.

PETER: - Xerife, a polícia toda ainda não encontrou pistas. Eu tenho medo, eu só quero o meu filho. Ela não vale nada, eu tentei dar a ela uma vida decente, tira-la da prostituição, e isso só fez ela ir embora e fugir com o bebê. Ela ameaçava vende-lo! Ela... (CHORA/ DESESPERADO) Queria vender o meu filho! Tenho medo, ela não sabe cuidar dele, ela não liga pra ele. Ela nem sabe a idade da criança! Deixa o garoto com as fraldas sujas, não o alimenta...

XERIFE: - (PRESSENTINDO) ... E como é o seu bebê?

PETER: - (CHORANDO) Ele tem cabelos claros, olhos azuis grandes... Um ano e 4 meses de idade. O nome dele é Moses Richardson. Pelo amor de Deus, ajude este pobre pai desesperado!

O homem apoia o corpo sobre o balcão. Chora cabisbaixo. Mulder fica angustiado ao ver o homem. Fecha os olhos, sentindo sua dor.

PETER: - (CHORANDO) Meu Deus, ninguém me ajuda a encontrar o meu menino! As pessoas não se importam com a desgraça alheia! Eu não sei mais o que fazer, eu só penso em me matar!

Mulder olha pra Scully, com a fisionomia de compaixão. Suspira. Scully olha pra porta. Olha para o homem. Beija o menino. Caminha em direção ao homem. O pai quando vê o filho abre um sorriso entre as lágrimas. Corre até Scully.

PETER: - Oh, meu Deus! Moses! Meu filhinho!

Ele pega o filho nos braços, chorando. Scully olha pra ele entre lágrimas. Ele beija o filho, abraça-o, olha-o com carinho. Olha pra Scully.

PETER: - Obrigado, senhora. Muito obrigado! Não pode saber a dor de um pai que perde um filho.

Scully olha pra Mulder, que está chorando também.

SCULLY: - Eu... Posso imaginar.

Mulder aproxima-se dela e a abraça. Ela olha para o pai brincando com o filho. O bebê sorri, como que o reconhecendo. Scully entrega a sacola. A voz parece sair cortada pela garganta.

SCULLY: - Aqui tem... Algumas coisas pra ele e os remédios... Dê os remédios que indiquei, eu sou médica...

Scully aproxima-se do balcão. Pega papel e caneta. O delegado olha pra ela com ternura. Scully coloca o cabelo pra trás das orelhas, enquanto escreve a receita e derruba lágrimas.

SCULLY: - Dê isso ao Moses, ele está com início de anemia e sinais de desnutrição.

PETER: - Sim, senhora. Mas ele está bem?

SCULLY: - Sim, fiz todos os exames nele. Alimente-o com sucos, frutas... Sopinhas.

PETER: - Sim, senhora.

SCULLY: - Ele tomou todas as vacinas?

PETER: - Sim, eu tenho a carteirinha dele aqui, a senhora quer ver?

SCULLY: - (SORRI) Tudo bem. Cuide muito bem dele. É uma criança especial.

O homem aperta o filho contra o peito, derrubando lágrimas de emoção.

PETER: - Obrigado. Muito obrigado. Eu sou eternamente grato à vocês por tudo isso. Foi a melhor páscoa que eu já tive na minha vida.

Mulder pega Scully pela mão. Olha pro menino. Afaga seu cabelo.

MULDER: - Cuide-se Moses.

O homem olha pra eles.

PETER: - Eu não tenho dinheiro, mas queria os recompensar de alguma maneira. Se quiserem, eu posso consertar coisas, pintar a casa...

MULDER: - (SORRI) Não se preocupe, senhor Richardson. Saber que Moses tem alguém que se importa com ele já nos é recompensa.

Os dois saem pela porta. O homem grita.

PETER: - Ei!

Mulder e Scully viram-se.

PETER: - Se não se importam, eu deixarei meu número com vocês. Eu sou um homem modesto, de casa simples, mas eu gostaria que vocês viessem ver Moses.

Scully olha pro bebê.

PETER: - E eu gostaria muito que fossem os padrinhos dele.

Mulder sorri. Scully sorri também. Os dois se olham.

MULDER: - Algum problema pra você?

SCULLY: - Pra mim não.

O homem sorri. Mulder olha pra ele.

MULDER: - Temos que confessar que Moses foi o presente de páscoa de muita gente por aqui.

XERIFE: - E agradeça ao Coelho da Páscoa aí!

Corte.


Mulder e Scully entram no carro. Ele ainda vestido de coelho. Colocam o cinto.

MULDER: - Por essa ninguém esperava.

Scully observa o número de telefone anotado em um papel. Sorri.

SCULLY: - O batismo dele será no dia da páscoa. Amanhã.

MULDER: - Você tem programa melhor pra fazer na páscoa?

SCULLY: - Hum... Não. E você?

MULDER: - Também não. Ganhei meu primeiro afilhado.

Ela sorri. Mulder olha pra ela.

MULDER: - Pensei que sairia correndo por aquela porta com o bebê.

SCULLY: - Eu também pensei. Mas quando vi o desespero nos olhos daquele homem pra ter seu filho de volta eu...

MULDER: - ...

SCULLY: - Eu vi nos olhos dele os olhos do meu Mulder. Eu não teria esse direito.

Mulder olha pra ela com ternura. Olha pra trás.

[Close na parte de trás do carro. Repleto de ovos de páscoa.]

MULDER: - Bem, pelo menos ficamos com os chocolates.

SCULLY: - O que vamos fazer com tanto chocolate, Mulder?

MULDER: - Por que você acha que ainda estou nessa roupa ridícula de coelho?

SCULLY: - Não sei...

Mulder liga o carro. Olha pra ela.

MULDER: - Vamos embora, Scully. O Coelho da Páscoa precisa fazer umas entregas nos orfanatos ao longo do caminho. E precisa de uma ajudante ruiva.

Ela sorri. Os dois trocam um beijo.

[Fade in]


[Fade out]

TEMPO PRESENTE:

Mulder, dentro do carro, olha pra chuva que continua caindo. Sorri. Olha pra casa de luzes acesas. Olha para a sacola ao lado e os dois presentes que há nela.

MULDER (OFF): - Vamos lá, Coelhinho da Páscoa. Encare a chuva. Nada pode detê-lo em sua missão. Mesmo que não seja Páscoa, todo o dia é dia de comemorar a vida e os sacrifícios que fazemos para proteger essa vida.

Corte.


Na sala, Scully vestindo um pijama de seda por baixo do roupão felpudo de mangas longas, encontra-se sentada numa confortável poltrona colocada bem à frente da lareira, que está acesa. Segura uma caneca nas mãos, da qual sai fumaça. Leva a caneca à boca, mantendo o olhar perdido nas labaredas que se projetam da madeira que queima vagarosamente. Suspira. Um misto de solidão e carência tomam conta dela. Coloca a caneca sobre mesinha mais próxima, e volta sua atenção para a barriga pronunciada, sentindo o bebê chutar. Leva as mãos à barriga, acariciando-a. Sorri. Perde novamente o olhar nas labaredas.

SCULLY: - Papai está chegando, é?

De repente, ela ouve o barulho do motor de um carro se aproximando. Olha pela janela e nota os faróis acesos do veículo. Scully abre um sorriso. Corre pra cozinha e retira o jantar do forno de microondas. Coloca sobre a mesa.

Batidas na porta, que obedecem a um intervalo de tempo regular, em uma espécie de código. Scully corre até a sala e abre a porta. Mulder está parado ali todo encharcado. Segura uma mochila e uma sacola nas mãos.

MULDER: - Foi daqui que solicitaram os serviços sexuais de um rapaz alto, loiro, solteiro e que topa todas?

SCULLY: - (SORRI) Sim, foi daqui mesmo. (ESPIA PARA FORA/ DEBOCHADA) Mas cadê o rapaz?

MULDER: - (FAZENDO UMA EXPRESSÃO DE PENA) Olha, moça, eu peço mil desculpas, porque todos os rapazes com essa descrição que foi solicitada já estavam previamente comprometidos nesta noite. Houve um pequeno erro de comunicação na nossa 'empresa'. Então meu chefe me mandou largar a vassoura que uso para fazer a faxina nas dependências da firma e pediu que eu viesse quebrar o galho...

Scully segura o riso. Ele retoma o olhar maroto e aproxima sua boca do ouvido dela.

MULDER: - (SEDUTOR) E então? A senhorita me aceita por esta noite?

Scully toma a mochila e a sacola das mãos dele, jogando-as no sofá. Puxa-o bruscamente para dentro, bate a porta com o pé.

SCULLY: - Banho ou jantar?

MULDER: - (DEBOCHADO) Que tal cama?

SCULLY: - Oba!!!!!

Scully o puxa pela mão. Mulder para.

MULDER: - (RINDO) Calma... Me deixa pegar a sacola!

Mulder pega a sacola. Ela o puxa escada à cima e ele a segue rindo. Os dois entram no quarto. Scully fica na ponta dos pés, leva a mão direita à nuca de Mulder, puxando-o em sua direção e beijando-o loucamente. Solta os lábios dele. Mulder olha pra ela empolgado.

SCULLY: - (RETOMANDO O FÔLEGO) Definitivamente você está aprovado, rapazinho. Mas vai ter que mostrar muito mais do que isso para ganhar gorjeta.


10:01 P.M.

Mulder e Scully estão deitados na cama, abraçados embaixo do edredom. Scully estampa felicidade pura no rosto. Mulder está pensativo, parece maquinar algo em sua mente. De repente, levanta-se. Pega a sacola e volta pra cama.

SCULLY: - O que é isso?

MULDER: - Isso aqui é seu. Não deveria ter comprado, mas... Como resistir ao seu beicinho pidão de 'Mulder, eu quero...'?

Mulder entrega o primeiro embrulho para ela. Scully abre rapidamente, curiosa. Mulder coloca a mão sobre a barriga de Scully.

SCULLY: - (SORRINDO) Ai!!!!! Meus bombons de avelã!

MULDER: - Senão era capaz do bebê nascer com cara de bombom! Nunca vi gostar tanto assim de chocolate!

SCULLY: - (PROTESTANDO, EM TOM DE BRINCADEIRA) Mas papai, mamãe tá aproveitando a gravidez para poder degustar tudo aquilo que ela evita em nome da boa forma... (BOCA CHEIA) Entendeu?

Mulder sorri. Projeta-se sobre ela, beijando-a com paixão.

MULDER: - (SAFADO) Scully, sabe que tenho saudade desses beijinhos com gostinho de chocolate?

SCULLY: - (MAIS SAFADA AINDA) Não seja por isso...

Scully, lentamente, fazendo charme, tira um chocolate da caixinha e o coloca na boca. Abre os braços, num pedido silencioso e irresistível para que ele a beije novamente. Mulder coloca a língua dentro da boca de Scully. Trocam um beijo ardente. Mulder afasta-se, controlando-se.

MULDER: - Calma... Calma... Não podemos exagerar...

SCULLY: - Quem disse?

MULDER: - Não queira saber o que pensei em fazer com esses chocolates... Deixa pra lá... Depois pode acabar influenciando a criança e quando ela crescer e começar a namorar eu vou me ferrar ouvindo você reclamando: Mulder, seu filho é um tarado, puxou ao pai...

Scully começa a rir.

SCULLY: - E se for menina?

MULDER: -Se for menina, eu terei de dizer que puxou a mãe. Quente como o inferno.

Scully ri mais ainda.

MULDER: - Brincadeira. Se for menina, eu mato o filho da mãe que chegar perto dela antes dos trinta anos.

SCULLY: - (SÉRIA) Ah, vai pensando que vou criar uma carola como eu fui! Ela vai ser uma mulher sexualmente resolvida. Pode apostar nisso. A mãe dela aqui tem experiência de vida o suficiente pra passar pra ela. Minha filha não vai ser uma idiota para os homens, não mesmo!

MULDER: - Scully, você já tá querendo me dar dor de cabeça antes do tempo?

Scully começa a rir. Mulder afaga a barriga de Scully.

MULDER: - Pinguinho não terá os parafusos soltos como nós. Não pense que papai esqueceu de você, Pinguinho. Trouxe aquele que vai ser o seu primeiro amiguinho. Depois de mim, da mamãe e daquele orelhudo do Cookie, é claro.

SCULLY: - (SORRI) ...

Mulder desfaz o embrulho, retirando o papel decorado com motivos infantis. Revela a pequena raposa de pelúcia, praticamente uma miniatura exata da raposa que ele deu pra Scully. Scully derruba lágrimas, emocionada com a devoção de Mulder.

MULDER: - Pra você, Scullyzinha. Ou Scullyzinho. Pra se lembrar do papai.

Mulder entrega a raposinha pra ela. Scully sorri entre lágrimas e segura fortemente o bichinho de pelúcia em suas mãos.

SCULLY: - Mulder... Meu Mulder... Que pai maravilhoso você é.

Mulder abre um sorriso. A abraça ternamente, afagando seus cabelos e beijando seu rosto.


X


13/04/2001

21 de Agosto de 2019 às 00:15 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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