S05#09 - SOME FLOWERS SHOULD BE FORGOTTEN Seguir história

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O passado de Scully volta através de um misterioso acontecimento com uma criança. E traz todas as lembranças ruins de sua adolescência que ela fazia questão de esquecer. Nossa agente entra num estado depressivo, tentando esconder sua tristeza de Mulder. Mas será que algumas vezes não vale a pena sofrer no presente, enfrentar o passado e perceber que tudo é lição para o futuro? E que nele só há coisas boas?


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

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S05#09 - SOME FLOWERS SHOULD BE FORGOTTEN

"Que mistério pode haver na lágrima de uma mulher? Quando abre o seu segredo? Que momentos de aflição, há no tremor da sua mão? Onde esconde os seus medos? No abandono do teu pranto eu me perdi. Não sabia o que dizer pra consolar. Tive raiva dessas mágoas que puseram em você. Tive pena dos que nunca te puderam conhecer. Eu sinto muito cada dor que te marcou ou que modificou seu jeito de amar. Os estragos improváveis de um carinho te curar. Os escudos invisíveis para um homem penetrar..."

Lágrima de uma mulher - Guilherme Arantes


📷



INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

[Fade out]

Wilmington – Carolina do Norte – 4:16 P.M.

Close no carrinho de compras. O pacote de biscoitos é colocado dentro dele.

René Biggs, a mãe, olha atentamente as prateleiras.

O filho, de uns quatro anos, cabelos bem loirinhos, a observa com curiosidade, em pé ao lado dela. Usa uma jaqueta colorida, segura um urso envelhecido de pelúcia pela orelha. Olhinhos atentos, olhando para cima.

RENÉ: - São esses que você quer, meu amor?

Ele acena positivamente com a cabeça num sorriso. Ela retribui o sorriso.

RENÉ: - Hum... Acho que você tem bom gosto.

René pega a caixa de biscoitos e coloca no carrinho. Ele a puxa pelo vestido.

RENÉ: - O que foi filhinho? Quer subir no carrinho?

Ele afirma com a cabeça. Ela o coloca no carrinho. Empurra o carrinho. Para em outra prateleira.

RENÉ: - E agora? Precisamos comprar cereais...

JONATHANN: - Mamãe...

RENÉ: - O que foi?

JONATHANN: - Por que você vai me deixar de novo?

RENÉ: - (SORRI) Eu? Deixar você? De onde tirou isso filhinho? Mamãe não vai deixar você em lugar nenhum.

JONATHANN: - ... Não me deixa, mamãe. Não me deixa de novo.

Ela olha para o menino.

RENÉ: - Jonathann, mamãe não vai deixar você. Isso é mais uma daquelas suas conversas estranhas? Mamãe não gosta disso.

JONATHANN: - ...

RENÉ: - E então? Vamos levar cereais?

Ele sorri e afirma com a cabeça.

RENÉ: - Qual deles você quer?

Ele aponta com o dedinho.

RENÉ: - Hum... Esse parece ser gostoso... E vem um brinquedo dentro.

JONATHANN: - Mamãe, a gente vai se ver de novo?

RENÉ: - Jonathann, pare com isso.

Ela ergue a mão para pegar a caixa. Sente-se tonta. Revira os olhos e cai ao chão. O menino faz um beiço e começa a chorar. As pessoas se aproximam para ajuda-la. Ela se contorce no chão, olhando para o filho. Ele chora desesperado. Ela fecha os olhos. Para de se mover.

VINHETA DE ABERTURA: A VERDADE ESTÁ LÁ FORA



BLOCO 1:

Apartamento de Mulder – 6:57 A.M.

Mulder termina o café. Vai até o quarto, enquanto fecha a camisa.

MULDER: - Scully, pode me ajudar com a gravata? Você faz isso melhor do que eu e...

Scully, na frente do espelho, tenta fechar o blazer. Ele olha pra ela. Ela encolhe a barriga. Suspira. Senta-se na cama, colocando as mãos no rosto.

SCULLY: - Tudo o que eu visto está pequeno pra mim. Mulder, daqui a pouco vão reclamar. A gorda aqui está começando a explodir... Ou vão rir da minha cara dizendo que agora estou com gravidez psicológica.

MULDER: - (SORRI) ... Pra mim você continua linda. Deixe que riam.

SCULLY: - Estou me sentindo mal, Mulder.

MULDER: - Scully, você não está gorda. É apenas um aumento de peso repentino... Causado por estresse. Isso é normal, diante da situação tensa que estamos vivendo... Um filho que procuramos, a minha doença... É demais pra sua cabeça.

SCULLY: - Me empresta uma camisa sua?

MULDER: - Claro... Se acha necessário... Você exagera demais, sabia? Nem é tanto não. Pra mim você não está gorda.

SCULLY: - Bem, o outono está aí, mas não dá pra usar sobretudo ainda. Disfarça um pouco o peso... Mas se eu usar, vão me chamar de louca. E se olharem pra mim desse jeito vão me dar um cargo interno no FBI porque eu estou fora do peso de uma agente de campo.

MULDER: - E eu, Scully. Olha pra mim? Meu cabelo... Minha magreza... Entende? Eu... Acho que vou passar a máquina na cabeça novamente. O que eu não posso comer, você tá comendo... Scully, nossa vaidade foi completamente para o brejo por depressão. O careca definhando de câncer e a gorda preocupada com a saúde do parceiro.

SCULLY: - ... (SORRI) Mulder, eu... Eu quero ficar em casa hoje... Não estou me sentindo bem pra ir trabalhar.

MULDER: - Está doente?

SCULLY: - Não... Eu... Eu estou num daqueles dias de querer ficar quietinha num cantinho.

MULDER: - (SORRI) Eu seguro a barra pra você. Qualquer coisa te ligo.

Ela ajeita a gravata dele. Os dois trocam um beijo.

MULDER: - Me liga se quiser falar. Eu venho correndo.

SCULLY: - (SORRI) Tá.

Mulder sai do quarto. Ela deita-se na cama, puxando o edredom. Fecha os olhos, num suspiro angustiado.


11:46 A.M.

Scully, deitada no sofá, com o cobertor por cima. Bebe um copo de suco de laranja, enquanto assiste TV.

NARRADOR: - Os textos antigos relatam que, após a morte do corpo físico, o homem, antes do novo nascimento, recolhe-se em si mesmo e vai passando por vários planos ou estágios sempre meditando sobre o aprendizado que teve nas vidas anteriores, particularmente a última pois, a vivência que vai tendo em cada plano, aumenta a compreensão de si próprio e do mundo que o cerca. Ao fim do tempo necessário, o homem sente o desejo ou a necessidade de reencarnar no plano físico para ter novas experiências. Para isso ele escolhe como quer ser, o ambiente onde nascerá e o tipo de vida mais apropriado para o cumprimento de seus objetivos. Esse processo de escolha é feito com a ajuda de seres mais elevados, chamados os "Senhores do Karma".

Scully observa atenta. Cookie sobe no sofá, se deitando perto dela.

NARRADOR: - Esses Seres se encarregam de planejar esta nova expressão do ser humano imortal e criar todas as condições necessárias para que o objetivo seja alcançado. Vamos apenas descrever as fases iniciais: Primeiramente escolhem-se os pais, a nova família. Observem que interessante: buscam-se pais cujas características físicas, psicológicas, espirituais e sociais sejam adequadas para esse novo estágio de evolução. Não apenas para melhor educá-lo mas também para que ele herde certas características. Dizem que o óvulo materno emite um som muito suave chamando o espermatozoide apropriado. Essa é a explicação esotérica do porquê, entre milhões destas células, apenas uma atinge o alvo.

Scully fecha os olhos. Sorri. Olha para a TV.

SCULLY: - Seria muito bonito se fosse verdade.

NARRADOR: - A Ciência nada sabe a esse respeito mas, acreditando ou não nesta ideia, você não concorda que é de grande beleza poética?

Scully balança a cabeça concordando.

NARRADOR: - Nesse momento, os chamados Elementais construtores, orientados pelos Devas, que correspondem aos anjos da religião católica, aos Sephirots da Cabala, etc. moldam o chamado corpo etérico organizando o arranjo estrutural dos átomos, formando as moléculas, criando, enfim, um molde que servirá de modelo para o novo corpo físico do homem. O material utilizado provém do corpo etérico da mãe, daí a grande importância das condições satisfatórias, sob todos os aspectos, em que esteja vivendo a mãe para a boa formação da criança. Desde o início desse processo, os novos corpos físico e etérico, em formação, são vitalizados graças à canalização do prana ou energia vital. Algum aspecto dessas descrições lhe recordam os achados da ciência?

Scully mexe a cabeça concordando.

NARRADOR: - Vamos adiante: afinal o corpo nasce mas, nem sempre está pronto, ainda, para receber o Ser Eterno consciente, o ego, de modo que a criança ainda está vinculada à mãe biológica pois esta ainda continua sendo a fonte de material etérico e canalizador do prana. Quando o ser está totalmente pronto, o ego, que durante todo o processo de concepção esteve ao lado da família, com seu átomo primordial contendo todas as experiências vividas nas encarnações passadas, assume o corpo. Assim, mesmo após o nascimento, as vibrações mentais maternas influem no trabalho dos elementais construtores, facilitando ou dificultando o mesmo.

Scully leva o copo à boca, sem desgrudar os olhos da TV.

NARRADOR: - É curioso lembrarmos que, na década de 1950, o psiquiatra infantil D. W. Winnicott levantou uma ideia revolucionária na época. Ele observou que, no início do desenvolvimento da nossa personalidade, o bebê e a mãe se constituíam num conjunto unido e só aos poucos ganhávamos a noção de individualidade. Em consequência, percebia que, se essa união mãe-bebê fosse satisfatória, aspectos do nosso desenvolvimento emocional seriam bem estruturados. Não é curioso?

Ela concorda com a cabeça.

NARRADOR: - Mais uma vez notamos que é como se os antigos soubessem muito sobre nós mesmos. Pergunto a você: como isso aconteceu se esses povos não tinham o avanço científico e tecnológico que temos hoje? Que recursos usaram? Procure pensar um pouco sobre isso até o nosso próximo programa onde abordaremos sobre a paternidade.

Scully desliga a TV. Barulho na porta. Mulder entra.

MULDER: - Ah que maravilha, eu trabalho feito um burro e você fica aí na vida mansa, hein folgada? (DEBOCHADO) Mulher, cadê o meu almoço?

Ela sorri. Ele espanta Cookie do sofá. Senta-se ao lado de Scully. Pega o copo e bebe um gole. Faz cara feia.

MULDER: - Argh! Isso está forte! Ácido demais!!!!!!!!

SCULLY: - Não tá nada. Seu reclamão.

MULDER: - Temos um caso interessante. Não fomos designados, mas eu quero ir.

SCULLY: - (EMPOLGADA) Vou com você.

MULDER: - O que estava fazendo? De repente ficou tão alegre...

SCULLY: - Hum... Encontrando explicações que não tenho para assuntos que desconheço, Mulder.

MULDER: - Enigmática Dana Scully... Leve seu sobretudo. Faz frio na Carolina.


Residência dos Biggs – Wilmington – Carolina do Norte – 2:38 P.M.

Mulder estaciona o carro na frente da casa. Scully olha para ele.

SCULLY: - Não entendi. O que temos a ver com uma mulher que sofre um ataque cardíaco num supermercado? Onde está o crime?

MULDER: - Não há crime.

SCULLY: - Então o que estamos fazendo aqui?

Mulder olha pra ela.

MULDER: - Pouco antes de morrer, um casal de testemunhas disse que o filho da senhora Biggs, de 4 anos, perguntou por que ela ia deixa-lo de novo.

SCULLY: - ... Tenho até medo de perguntar...

MULDER: - Os policiais que prestaram socorro à vítima, disseram que o menino não parava de chorar e dizia que queria ir com a mamãe porque não ia mais ficar esperando ela voltar.

SCULLY: - ... Mulder...

MULDER: - Sei o que vai dizer. Se quiser ir comigo, tudo bem. Se não quer, fique. Eu preciso dessa verdade Scully. Porque eu quero acreditar nela.

SCULLY: - Eu vou com você, Mulder. Mas como vamos falar com o senhor Biggs? Argumentar o quê pra que ele nos deixe falar com o garoto?

MULDER: - Eu não sei.

SCULLY: - Ele vai nos correr a tiros daí se falarmos a que viemos.

MULDER: - Que tal: a polícia precisa verificar para um relatório... Apenas rotina.

SCULLY: - Tem algo melhor?

MULDER: - Não. Meu estoque de desculpas esfarrapadas acabou.

SCULLY: - Ótimo. Vamos ser recebidos com uma cara feia e barrados na entrada.

Os dois descem do carro. Caminham até a porta da casa. Mulder aperta a campainha.

SCULLY: - Prepare-se Mulder.

A porta abre-se. A emprega olha para eles.

ROSE: - Sim?

Mulder puxa a credencial. Scully também.

MULDER: - O senhor Biggs por favor. Agentes Mulder e Scully, do FBI.

ROSE: - Senhor Biggs???

MULDER: - Sim, não era aqui que morava a senhora René Biggs?

ROSE: - Ah! O Senhor Smith. Eles não são casados. Um momento, entrem por favor.

Mulder e Scully trocam um olhar segurando o riso e entram.

ROSE: - Fiquem à vontade, eu vou chamá-lo.

A empregada sobe as escadas. Mulder anda pela sala. Ambiente austero, confortável, repleto de troféus. Scully observa tudo com olhos curiosos.

SCULLY: - Hum... Isso sim é luxo.

MULDER: - O cara deve ser campeão... Tem mais troféus em futebol do que eu caçando aliens.

SCULLY: - (SORRI) ...

MULDER: - Hum... É preparador físico...

SCULLY: - Prepare-se Mulder. Além de não recebermos um sorriso de cortesia, vamos sair daqui impulsionados por um arremesso.

MULDER: - Não se preocupe, Scully. Ele vai fazer score com a gente nos acertando direto sobre a mesa do Skinner.

O homem alto, de porte atlético, cabelos castanhos claros, entra na sala.

SMITH: - Pois não, em que posso ajuda-los?

Scully vira-se pra ele. A fisionomia dela muda. O homem olha para ela, surpreso. Mulder estende a mão.

MULDER: - Eu sou o agente Mulder e esta é minha parceira, Scully. Viemos até aqui por causa da morte de sua esposa. Rotina policial.

SMITH: - (SORRINDO/ OLHANDO PRA SCULLY) FBI? Quem diria!

MULDER: - Sim... Poderia nos dizer se ela sofria de algum problema cardíaco? Só estamos checando informações.

Scully continua olhando pro homem, sem que Mulder perceba. O corpo dela treme. Olhar de incredulidade e choque.

SMITH: - Ela não era minha esposa. Veio morar comigo há uns dois anos. Sim, René sofria do coração. Foi um infarto fulminante.

MULDER: - E seu filho, como está?

SMITH: - Ele não é meu filho. Eu o assumi como filho. Mas o menino não está reagindo bem. Confesso que tenho o maior trabalho pra tentar anima-lo.

MULDER: - Senhor Smith... Gostaríamos de conversar com o garoto.

Mulder puxa um cartão do bolso.

MULDER: - Pode me ligar para combinarmos isso?

SMITH: - Isso tudo é necessário?

MULDER: - Sim. É necessário.

SMITH: - Sim, eu ligarei. (OLHA PRA SCULLY/ SORRI) Com o maior prazer.

Scully passa por eles séria, como se tivesse sido humilhada e sai porta à fora. Mulder não percebe nada. Agradece ao homem.

MULDER: - Obrigado pela sua ajuda.

SMITH: - Eu agradeço o interesse, agente...

MULDER: - Mulder.

SMITH: - Mulder... Sua parceira é...

MULDER: - Scully. Dana Scully.

SMITH: - Ah sim. Dana Scully...

MULDER: - Está com algum time?

SMITH: - Não no momento. Estou negociando contrato.

MULDER: - Boa sorte.

Mulder sai da sala.

[Corte]


[Som: Woman in Chains - Tears for Fears]

Scully sentada dentro do carro, já com o cinto de segurança. Mulder entra.

MULDER: - E de pensar que esperávamos sermos mordidos...

SCULLY: - ...

MULDER: - O que houve?

Ela põe a mão no rosto e olha pela janela.

SCULLY: - Nada. Não estou me sentindo bem.

MULDER: - Quer ir a um médico?

SCULLY: - Não, eu... Eu só preciso me deitar.

MULDER: - Ok, vamos arranjar um lugar pra ficar.

Mulder liga o carro. Scully observa através da janela. Fecha os olhos, mas as lágrimas correm.


Motel Maroon – 5:28 P.M.

[Som: The Archies – Sugar Sugar]

Mulder caminha pelo estacionamento, carregando um pacote de supermercado. Para. Abre um sorriso enorme.

Corta para a Kombi trailer estacionada, de onde vem a música. Toda florida, estilo anos 60.

Mulder começa a dançar, cantarolando, segurando o pacote. Parece um abobado.

MULDER: - ... Ah sugar... Ooh honey, honey... You are my candy girl... And you got me wanting you...

Dança em volta da Kombi, com olhos de quem redescobriu um brinquedo antigo. Passa a mão na lataria, analisando, enquanto canta e faz passos de coreografia dos anos 60, empolgado.

MULDER: - Ooh honey... Ooh sugar, sugar... You are my candy girl... And you got me wanting you.

IVAN: - (SORRI) Gostou?

Mulder vira-se. Pânico. Para de dançar. Dá um sorriso sem graça.

Ivan, um homem magro, alto e barbudo, bem estilo hippie, de medalhão no pescoço, se aproxima.

MULDER: - Ah, me desculpe. É que...

IVAN: - Tudo bem, também tenho mania dos anos 60. Adoro essas músicas.

MULDER: - Por isso não jogo fora meus vinis...

Ivan põe as mãos na cintura e olha para a Kombi.

IVAN: - É uma beleza, não é?

MULDER: - Sim... Acabo de lembrar da minha infância. Tinha um vizinho, logicamente ele era um adolescente na época, eu uma criança boba... Ele tinha uma dessas... Eu ficava namorando a Kombi por horas...

IVAN: - (SORRI) Herdei essa do meu pai. Ela está com a família. Ah, me desculpe!

Ivan estende a mão.

IVAN: - Ivan Adams.

MULDER: - Mulder. Fox Mulder.

Os dois se cumprimentam.

IVAN: - Você tem um nome bem hippie.

MULDER: - Mas garanto que não tive pais hippies como você ou hoje também teria herdado uma Kombi e não estaria babando aqui pela sua.

Os dois riem. Mulder ainda observa a Kombi.

MULDER: - Mas é uma beleza... Mora nela?

IVAN: - Eu e minha esposa.

MULDER: - (SORRI) Viajam por aí?

IVAN: - Sem destino.

MULDER: - Deve ser uma vida muito legal.

IVAN: - Ah sim. Você não cria raízes, você anda pelo mundo, observa o mundo... Afinal, não temos pernas e invenções para nascer e morrer num mesmo lugar!

MULDER: - É, acho que não.

IVAN: - Faz o quê, Mulder?

MULDER: - Sou policial. E você?

IVAN: - Escritor. Ativista ecológico. E a lista se estende, acredite.

Mulder sorri.

IVAN: - Quer entrar, Mulder? Posso te chamar assim?

MULDER: - Sim... Mas... Hoje não dá. Deixei minha esposa sozinha. Fica pra outra hora.

IVAN: - Tudo bem. Traga ela. Aposto que se entenderá com minha esposa.

Os dois riem. Mulder dá as costas, ainda olhando pra Kombi.

Corte.


Mulder entra no quarto. Está vazio. Barulho do chuveiro.

MULDER: - Scully, trouxe algumas guloseimas pra você se fartar de comida longe dos olhos censores do bureau...

Mulder coloca o saco de compras sobre a mesa.

MULDER: - (EMPOLGADO) Você não vai acreditar! Tem um casal aí fora que mora num trailer hippie... Precisa ver Scully... Uma Kombi. É a coisa mais bonita que já vi na minha vida. Lembrei de você dizendo que adoraria dar uma de louca e viver on the road...

Mulder aproxima-se da porta do banheiro. Gira a maçaneta. Está trancada. Mulder bate.

MULDER: - Scully? Você está bem?

SCULLY: - ... Só estou tomando banho.

Ele sorri. Senta-se na cama.

MULDER: - É, é uma boa vida pra se viver. Não parar em lugar algum, não criar raízes... Conhecer o mundo, culturas, pessoas diferentes...


Corta para o banheiro.

[Som: Woman in Chains - Tears for Fears]

Scully, sentada nua dentro da banheira, abraçada às pernas. A água do chuveiro cai sobre ela. Scully coloca as mãos sobre o rosto, chorando convulsivamente.

SCULLY: - (MURMURA CHORANDO) Eu te odeio! Eu te odeio... Desgraçado! Por quê agora? Meu Deus por quê?

Ela abaixa a cabeça.


BLOCO 2:

6:09 P.M.

Mulder assiste televisão. Alterna o olhar pra porta do banheiro, desconfiado. Scully sai do banheiro. Olhos inchados. Sorri pra ele.

SCULLY: - (DISFARÇANDO) Nossa, estava tão gostoso o banho quente que até me esqueci do tempo... Meus olhos até incharam! O que comprou pra mim?

MULDER: - (SORRI) Coisas que você gosta.

Ela aproxima-se da mesa e abre o pacote. Ele senta-se na cama e a observa.

SCULLY: - Hum, Mulder... Chocolate???

MULDER: - (SORRI) ...

Ela olha pra ele. Corre até a cama. O abraça forte, segurando lágrimas.

SCULLY: - Por que é tão bom pra mim?

MULDER: - ??? Ora, que pergunta! Como assim?

SCULLY: - ... Você é bom pra mim.

MULDER: - E por acaso eu deveria ser como pra você? Malvado?

SCULLY: - ...

MULDER: - Não entendi.

SCULLY: - É que você cuida de mim, zela por mim, você me ama.

MULDER: - Mas Scully, isso é natural. É instintivo. Humano. A gente não costuma nem ser mal pra quem odeia. Pra quem ama então...

Ela olha pra ele. Os olhos enchem-se mais ainda de lágrimas.

SCULLY: - Oh, Mulder...

Ela se abraça nele. Mulder não entende nada. A abraça.

MULDER: - Tá carente hoje né? Hormônios?

SCULLY: - (CHORANDO) Tô... Eu quero colo...

Ele sorri. Afaga os cabelos dela.

MULDER: - Vem, vem deitar.

Os dois se deitam, ela se agarra nele chorando. Ele afaga seus cabelos, grudado nela.

SCULLY: - Me abraça forte, Mulder... Eu preciso me sentir segura.

Ele a abraça fortemente. Ela se aninha nos braços dele, chorando.

MULDER: - Chora, Scully... Chorar alivia a gente. Eu sei que sou eu o culpado dessas lágrimas, mas você ainda insiste em dar amor a quem só traz problema.

SCULLY: - Mulder... Você nunca foi um problema.

MULDER: - Quer falar sobre isso?

SCULLY: - Não.

MULDER: - Tá bom. Então chora. Eu tô aqui com você.

Ele a beija na testa e fica acariciando os cabelos dela. Ela chora no ombro dele.


7:21 A.M.

Mulder sai do quarto. Vestido de moletom, camiseta e tênis. Espreguiça-se. Ivan, agachado ao lado da Kombi, verifica os pneus.

IVAN: - Bom dia vizinho!

MULDER: - Bom dia... O que aconteceu?

IVAN: - Tive a impressão que um deles furou. Mas não.

Mulder aproxima-se de Ivan. Ele levanta-se, limpando as mãos num pano.

MULDER: - Já está indo embora?

IVAN: - Não, vou ficar por aqui mais uns dias. Mas não me disse o que faz por aqui.

MULDER: - Uma investigação.

IVAN: - (PREOCUPADO) Não tem nenhum maluco a solta por aqui não é?

MULDER: - Não, não se preocupe. Nada oficial.

IVAN: - Extra-oficial me preocupa mais ainda. Vocês do governo escondem tanta coisa. Depois me chamam de paranoico.

MULDER: - (SORRI) Não se preocupe. Não estou atrás de grupos ativistas ecológicos e nem de formadores de opinião. Isso fica pra CIA.

Ivan sorri.

IVAN: - Vai correr?

MULDER: - É. Um exercício faz bem numa manhã assim.

IVAN: - Se eu puder ajudar você em alguma coisa...

MULDER: - Tudo bem. Eu vou incomodar você se precisar.

IVAN: - Boa corrida pra você. Eu vou meditar um pouco nessa floresta aí. Respirar o verde enquanto ainda o temos. Ei, você acredita em extraterrestres?

MULDER: - Acredito.

IVAN: - Sabe que algumas vezes penso que eles estão é de olho na Terra pela riqueza natural. Assim como os governos estão de olho em outros planetas pela riqueza que eles têm em recursos energéticos que o homem já liquidou.

MULDER: - Teoria interessante...

IVAN: - Já parou pra pensar que talvez eles se interessem pela diversidade biológica que temos aqui? Isto explicaria porque levam plantas e animais... Talvez venham de planetas muito distantes do sol, o que explicaria sua pele clara e olhos de retina escura... Não estão acostumados com tanta vida.

MULDER: - Ivan, acho que nos daremos muito bem.

IVAN: - Traga a vontade. Eu entro com as cadeiras e a cerveja. Seis da tarde o pôr do sol visto daqui inspira altas discussões teóricas. Mas vá pensando nisto durante o dia: Talvez querem nos exterminar porque não sabemos como aproveitar nossos recursos.


8:23 A.M.

Scully abre as cortinas do quarto. A luz do sol entra, revelando o brilho da manhã. Scully senta-se numa cadeira. Olha para o nada. Fecha os olhos.


FLASH BACK:

Pátio da escola. Muitos alunos.

Scully, de uns 16 anos, de óculos, sardas no rosto, trança nos cabelos, carrega livros e cadernos contra o peito. Ellen ao lado dela.

ELLEN: - Eu te falei. Por sua culpa tomei uma bomba na prova.

SCULLY: - Por minha culpa? Por sua culpa! Você deveria ter estudado.

ELLEN: - Você sabe que detesto química! Poderia ter me passado cola.

SCULLY: - Ora, Ellen... Isso não é algo justo. Eu me ofereço pra ensinar você, mas você prefere ficar correndo atrás dos rapazes.

ELLEN: - Olha ali, Douglas Smith... O melhor jogador da escola.

SCULLY: - É. O mais bonito da escola também.

ELLEN: - E aquela chata da Kim.

SCULLY: - Ela é bonita.

ELLEN: - Ah, ela só tem peitos. A mãe dela dava fermento com leite pra ela.

Scully ri. As duas sentam-se.

ELLEN: - Olha como ele é lindo...

SCULLY: - Ele é lindo mesmo. É o sonho de toda a garota.

ELLEN: - É, mas é um idiota. A Nancy disse que ele é burro e ainda por cima um mau caráter. E covarde. Foge das brigas. Só tem tamanho. Apanha sempre.

SCULLY: - Com quem será que ele vai ao baile?

ELLEN: - Com a Kim, é claro.

SCULLY: - É, afinal, os dois são o casal mais lindo da escola. Estão namorando...

ELLEN: - Eu não vejo nada de especial naquela seca esquisita. O cabelo dela nem é loiro.

SCULLY: - Vai com quem ao baile?

ELLEN: - Ah não sei ainda. Pensei em convidar até o Joe Tartaruga.

SCULLY: - (RINDO) Tudo isso é desespero, Ellen?

ELLEN: - Você já tem companhia né?

SCULLY: - Sim, o Robin vai comigo. Acho.

ELLEN: - E aí? Já transaram?

SCULLY: - Ellen para! Eu não estou pronta pra isso.

ELLEN: - Mas admita, minha cara nerdizinha que você tá doidona pra fazer isso.

SCULLY: - (RI) Eu tô mas... Ô Ellen, as coisas não são fáceis pra mim como são pra você. Eu sou muito complicada.

ELLEN: - Deveria deixar de pensar e agir, sabia? Ou vai acabar sozinha. Dana é só sexo! Amor livre! Os tempos mudaram! Acorda!

SCULLY: - ... Ah, não é bem assim.

ELLEN: - Ser virgem é feio! Eu já te disse, você não sabe o que está perdendo. Não dói nada.

Scully fica ruborizada.

SCULLY: - Ahn! Cada um tem sua hora, Ellen... Olha, cuida da sua vida e deixa a minha em paz. Se meus pais viajarem com meus irmãos, eu e a Melissa vamos dar aquela festinha e... Quem sabe?

ELLEN: - (SORRI) Você só tem carinha de boba nerd. Quem não te conhece que te compre!


TEMPO PRESENTE:

MULDER: - Terra chamando Dana Scully... Terra chamando Dana Scully...

Scully sai de seus pensamentos. Olha pra ele. Mulder, todo suado, esbaforido.

MULDER: - Onde estava?

SCULLY: - Em algum lugar do passado.

MULDER: - Tava melhor lá?

SCULLY: - Não.

MULDER: - Ótimo. Vou tomar um banho e vamos até a casa dos Biggs.

SCULLY: - Mulder, eu não vou.

MULDER: - Por quê?

SCULLY: - E-eu... Eu quero ficar aqui, não estou bem.

MULDER: - Scully, não quer mesmo ir ao médico? Ou é alguma coisa com esse caso...

SCULLY: - Não, Mulder. Não tem nada a ver com isso. Eu só estou um pouco bucólica.

MULDER: - Tá legal. Mas eu ainda acho que sorriso combina melhor com seu rosto. Opinião de um homem completamente apaixonado.

Ela sorri.

MULDER: - Ah! Agora sim.

Ele entra no banheiro. Ela fecha os olhos.


FLASH BACK:

Scully sentada nas arquibancadas, lendo um livro. Algumas vezes olha para o campo. Os rapazes jogam. Smith é o que mais corre, recebe aplausos do treinador, marca pontos. Scully olha pra ele, o admirando.

ROBIN: - Vai ficar muito inteligente, sabia?

Ela se assusta. Robin senta-se ao lado dela.

ROBIN: - Está se esquecendo de que mulher tem que ser bonita e sensual. O resto é acréscimo. E você já é linda por natureza...

Scully o fulmina com os olhos.

ROBIN: - Olha, eu sei que está furiosa comigo porque eu saí com a Pam. Mas só conversamos no carro.

SCULLY: - É, eu sei. Você só conversou dentro da boca da Pam, tão profundamente que quem viu jurou que você estava com a cabeça lá dentro. Se não estava com outra coisa.

ROBIN: - Dana... Olha, Dana, você há de convir comigo. Eu quero transar e você não quer.

SCULLY: - E você há de convir comigo que se me ama tanto quanto diz, deveria saber me respeitar e esperar.

ROBIN: - ... Olha, esse papo não vai levar a nada. Ainda vai ao baile comigo?

SCULLY: - Estou pensando. Minha mãe gosta tanto de você que se eu não for com você ao baile, ela vai ficar magoada. Mas meu pai te acha um idiota.

ROBIN: - E você, o que acha de mim?

SCULLY: - Não sei. Estou magoada demais pra ter alguma opinião. Sai daqui, Robin. Me deixa em paz. Não quero falar com você.

Ele se levanta e vai embora. Ela o acompanha com os olhos. Percebe que os jogadores estão num grupinho. Alguns olham pra ela. Smith é um deles. Eles riem. Ela fica corada e abaixa a cabeça, tentando estudar.


TEMPO PRESENTE:

MULDER: - Yhaaaaaaaa... Altas concentrações...

Ela sai dos pensamentos. Mulder procura uma roupa no armário.

MULDER: - (DEBOCHADO) Scully zen é algo preocupante... Principalmente porque não acho que estava meditando.

SCULLY: - Mulder, eu... Eu...

Ele vai colocando as calças.

MULDER: - Fala. Se quiser incensos pra isto, eu trago quando voltar.

SCULLY: - Eu... Eu queria muito ir com você mas... Não vai dar.

MULDER: - Tudo bem Scully. Eu já disse que se você não está preparada pra algumas verdades, o tempo vai te preparar.

SCULLY: - Não é isso... É que... Eu tô cansada.

Ele termina de vestir a camisa. Joga o paletó por cima.

MULDER: - Volto pro almoço. Vamos almoçar fora ou quer almoçar aqui?

SCULLY: - Acho que quero almoçar aqui.

Mulder a beija.

MULDER: - E relaxa, viu? Se não estou enganado, tem desenho do Taz a essa hora.

SCULLY: - (RINDO) Para, seu bobo!

MULDER: - (DEBOCHADO) Estou indo. Mas pensarei em Taz no meio do caminho.

Ela ri. Ele sai.


Residência dos Biggs – 10:34 A.M.

Mulder senta-se no sofá. Smith senta-se.

SMITH: - Rose vai trazer Jonathann aqui. Espero que não faça perguntas que deixem o menino mais constrangido.

MULDER: - Não se preocupe, senhor Smith. Não quero deixar o garoto pior do que está.

SMITH: - Sua parceira não veio?

MULDER: - Ah não, ela está doente.

SMITH: - Doente?

MULDER: - É, não está se sentindo bem.

O menino entra na sala com a empregada. Olha pra Mulder. Mulder sorri.

MULDER: - Você é Jonathann?

Ele afirma com a cabeça. Mulder retira a credencial e entrega pra ele.

MULDER: - Eu sou Mulder. Sou um policial.

O menino examina a credencial num sorriso.

MULDER: - Gostou?

JONATHANN: - Sim.

SMITH: - Rose, traga um café para o agente Mulder.

ROSE: - Sim senhor.

SMITH: - Melhor, vou com você.

Os dois saem da sala. Mulder olha pra Jonathann.

MULDER: - Tio Mulder queria perguntar uma coisa pra você.

JONATHANN: - Mamãe se foi há dois dias... Lá pra cima...

Mulder segura as lágrimas. O menino continua brincando com a credencial dele.

MULDER: - Você fala coisas que as pessoas grandes não entendem.

O menino continua brincando.

MULDER: - Diz pro tio Mulder. Eu não vou brigar com você. Eu quero entender.

JONATHANN: - ...

MULDER: - Sei que mamãe se foi. Mas a mamãe sempre estará aqui, cuidando de você. E ela terá muito orgulho se você continuar sendo o bom menino que é.

JONATHANN: - Eu sei...

Mulder sorri.

MULDER: - Então você sabe que mamãe quer que você cresça, seja um bom homem...

JONATHANN: - Pra depois voltar pra mim.

MULDER: - Ela vai voltar?

JONATHANN: - Vai. Mas só quando eu crescer. Ela me disse.

MULDER: - Ela disse?

JONATHANN: - Sim...

MULDER: - E o que mais mamãe disse pra você?

JONATHANN: - Que ela está bem... Que me ama...

MULDER: - (SORRI)

JONATHANN: - Ela mandou dizer uma coisa pra você.

MULDER: - Pra mim???

JONATHANN: - Ela disse que quem ama sempre volta para os seus.

Mulder enche os olhos de lágrimas.

JONATHANN: - E ela pediu pra você ver uma coisa na cozinha.

MULDER: - Que coisa?

JONATHANN: - Não sei. Ela disse agora.

Mulder olha pela sala, não vê nada.

MULDER: - Você vê a mamãe?

JONATHANN: - Não... Eu só escuto. Ela canta pra mim...

Mulder levanta-se. Passa pelo menino e vai sorrateiramente até a cozinha. Empurra a porta lentamente com a mão. Flagra Smith transando com a empregada. Mulder afasta-se e volta pra sala. Senta-se no sofá.

MULDER: - Jonathann, mamãe está aqui ainda?

JONATHANN: - Sim.

MULDER: - Pergunte a mamãe há quanto tempo ela sabia disso.

JONATHANN: - ... Mamãe disse que sabe disso há muito tempo.

MULDER: - E o que mamãe quer que eu faça?

JONATHANN: - Ela disse que vovó vai vir. Pediu que viesse amanhã à noite, vovó vai estar aqui.

MULDER: - E o que devo fazer?

JONATHANN: - Mamãe vai dizer.

Mulder levanta-se. Olha pro menino com ternura.

MULDER: - Titio precisa levar isso. Mas vai trazer um presente pra você.

Ele sorri. Entrega a credencial pra Mulder.

MULDER: - Vai me prometer que será um bom menino?

Ele afirma com a cabeça. Mulder sorri.

MULDER: - Vou te contar um segredo. Pode guardar?

JONATHANN: - Sim!

MULDER: - Também espero alguém que vai voltar.

O menino sorri.

MULDER: - Eu sei que é triste, mas a gente supera. E você já é um homenzinho. Vai superar.

JONATHANN: - Mamãe disse que ele é canalha... O que é um canalha?

MULDER: - Um homem mau.

JONATHANN: - Mamãe falou pra você ir. Que tem alguém que ele feriu.

MULDER: - Como assim?

Mulder olha pro menino. Smith entra na sala. Mulder olha pra Smith com nojo.

SMITH: - Então?

MULDER: - Conversamos. Ele é um bom garoto. Cuide bem dele.

Smith sorri. Afaga a cabeça do menino. Mulder sai.


Motel Maroon – 10:56 A.M.

Scully recostada na cabeceira da cama, debaixo do edredom. Assiste TV. Mulder entra.

MULDER: - Oi.

SCULLY: - Falou com o menino?

MULDER: - Falei.

SCULLY: - E?

MULDER: - A verdade está lá fora, Scully.

Ela sorri. Mulder tira a roupa. Fica só de cuecas. Deita-se ao lado dela. Ela se aconchega nele.

MULDER: - Você não vai acreditar no que eu vi.

SCULLY: - O que viu?

MULDER: - Aquele cafajeste tava transando com a empregada. E a mulher dele nem foi enterrada ainda.

SCULLY: - ...

MULDER: - Tem gente pra tudo nesse mundo, sabia? E-eu... Eu já vi de tudo, mas fico chocado algumas vezes. Aquele garotinho... Deus, tem que haver algum motivo pra morte! Tem que haver! Devem ser planos muito bem estruturados cosmicamente, porque eu não posso mais admitir o sofrimento da perda... A ideia não me cabe mais, sabe?

SCULLY: - ...

MULDER: - O que está assistindo?

SCULLY: - Estou esperando começar um programa que vi ontem.

MULDER: - Sobre?

SCULLY: - ... Não vai rir?

MULDER: - Não.

SCULLY: - Paranormalidade.

MULDER: - Hum... Estou começando a achar que vou pedir uma tele-entrega. Ninguém mais me tira daqui.

Ela sorri. Mulder senta-se, recostando-se na cabeceira da cama.

MULDER: - Que tal tornar isto mais aconchegante?

SCULLY: - O que sugere?

MULDER: - Colinho????

Ela senta-se entre as pernas dele. Ele a envolve com o edredom, entre seus braços.

MULDER: - Quentinha?

SCULLY: - Hum, Mulder, não me vicie... Posso nunca mais querer sair daqui. Vou criar raízes nessa cama.

MULDER: - Sabe que passaria a minha vida toda nessa cama com você? Sua preguiça está me afetando...

SCULLY: - Acho que vai começar...

MULDER: - Uhu! Scully pontualíssima em um programa sobre paranormalidade? Os tempos mudam...

SCULLY: - Acho que vai gostar do assunto, Mulder...

Ela sorri. Aumenta o volume.

NARRADOR: - Continuaremos falando um pouco mais sobre a formação de um novo ser. Hoje, enfocaremos o papel da figura paterna durante esse tempo tão curto e precioso: a gestação e os primeiros meses de vida de uma criança.

SCULLY: - Acho que estou adorando esse programa...

MULDER: - (SORRI) ...

NARRADOR: - A sociedade tende a colocar o pai, basicamente, como um provedor de bens materiais. Já viu alguém ensinando a um futuro papai como ele deve trocar as fraldas ou fazer uma mamadeira?

MULDER: - Bem lembrado... Aulas???

Scully sorri. Aconchega-se mais nele.

NARRADOR: - Mas sem dúvida todo mundo sabe de quem deve vir o dinheiro para comprar o leite. Para as ciências biológicas, o pai é apenas um provedor de genes ou seja, após doar o espermatozoide deixa de ser fisiologicamente necessário. A psicologia tradicionalmente se ocupa da figura paterna depois que a criança atingiu uma certa etapa do seu desenvolvimento emocional. Felizmente toda essa visão vem mudando. Hoje vamos olhar a função paterna apenas do ponto de vista esotérico.

SCULLY: - Interessante não é?

MULDER: - Realmente.

NARRADOR: - O pai, após fornecer o germe para a criança, estabelece um vínculo espiritual com o novo ser. Esta ligação existe mesmo que este ignore a existência da criança, e vai influenciar a vida do seu filho durante toda a sua vida, queira ou não. Esse fato é muito fácil de entendermos pois, como já explicamos, o pai não é escolhido ao acaso, mas por profundas ligações cármicas. Está na vontade deste pai tornar positiva essa influência, favorecendo o desenvolvimento espiritual de ambos. Creio que bastaria meditarmos um pouco sobre esse ponto e já seria o suficiente para olharmos o pai com outra atenção.

MULDER: - Até que enfim alguém se lembra dos pobres pais...

NARRADOR: - Há outros aspectos, entretanto. Sabe-se que os pensamentos de uma pessoa, quando intensos e sobretudo carregados de emoções, emitem energias que adquirem formas no plano astral e influenciam todo o ambiente ao nosso redor. A qualidade deste pensamento pode ser positiva ou negativa, e contribuem para melhorar ou piorar a nossa qualidade de vida. Chamamos a isto, pensamentos-forma.

Os dois olham atentos para a TV. Mulder sorri.

MULDER: - O que eu te disse? Não estava tão errado...

NARRADOR: - Sendo assim, podemos compreender que as emoções e pensamentos, tanto do pai quanto da mãe, gerando pensamentos-forma, criam um campo energético positivo ou negativo que influencia diretamente a formação dos corpos físico e etérico da criança. Mais grave ainda são os traumas acrescentados à vida deste novo ser. Explicamos como esse fenômeno ocorre: Durante a formação do homem, de início, o Ego imortal que assumirá o novo corpo físico em formação, encontra-se em volta da sua nova família, apenas conhecendo-a. Em um dado momento, este fenômeno ocorre por volta do terceiro mês após a fecundação do óvulo, o Ego é atraído para o seu novo corpo físico e, sobre ele, lança o seu Raio vivificador. Ao emitir esse Raio, a consciência dos pais é tocada. Talvez corresponda àquele momento mágico, indescritível, quando a mulher sente os primeiros movimentos
do feto e se percebe centro gerador de vida.

Os dois se olham. Sorriem.

NARRADOR: - A maneira como os pais vivenciam esta hora e as que se seguem são percebidas pelo Ego que, como mero expectador mas consciente, é capaz de compreender esses sentimentos, registrando todos os momentos. Se eles são bons ou maus vão ser memorizados.

SCULLY: - Mulder... Eu não acredito nessas coisas, mas isso me comove...

NARRADOR: - A psicologia vem estudando os traumas antes do nascimento que os antigos já tão bem conheciam. Talvez tudo isso esteja lhe parecendo um conto fantástico. E muito comprido. Mas aguarde nossos próximos encontros onde mostraremos alguns achados científicos recentes relacionados a esse "conto fantástico". Aliás, ele me faz lembrar uma propaganda de pneus para automóveis que mostrava, em um dia ensolarado, um pai caminhando com o filho e dizia: "Tão seguro quanto a mão do papai..." Mentalize essa imagem pois o pai precisa ser um provedor de bens materiais, mas também está destinado a ser um foco de amor que, mesmo antes de a criança nascer, ajuda a iluminar os seus passos.

MULDER: - (FRUSTADO) Acabou?

SCULLY: - Sim.

MULDER: - Puxa, tava tão bom...

SCULLY: - Descobri isso ontem. Achei interessante.

Os dois se olham. Trocam um beijo.

MULDER: - Ainda bem. Pra você se conter quando resolver me chamar de chato... Acho que eu quero fazer aquela coisinha...

Ele se afasta dela, enfia-se pra baixo do edredom. Ela começa a rir.

SCULLY: - (RINDO) Para, Mulder!

MULDER: - Ah, Scully, deixa vai...

SCULLY: - Hum... Tá bom, mas não perturbe demais.

MULDER: - Eu não vou perturbar.

SCULLY: - ...

MULDER: - Lembro-me bem de um dia quando fomos investigar um caso de vampiros...

SCULLY: - (RINDO) Ah não! Você vai lembrar disso!

MULDER: - Eu admito, ela estava apaixonada pelo delegado. Ele era feio, tinha dentes tortos, um caipira feio de lascar...

SCULLY: - Mulder, seu safado mentiroso e ciumento. O homem era bonito!

MULDER: - Ah, se era ou não, eu acabei tendo que escapar fazendo uma cruz com dois pães, mas não resolveu muito...

SCULLY: - (RINDO) Você devia parecer um bobo!

MULDER: - Ora, mas na hora do aperto, você apela pra qualquer coisa...

SCULLY: - (RINDO) Para Mulder! Isso faz cócegas! Sai daí!


BLOCO 3:

4:16 P.M.

Mulder dorme profundamente. Scully, sentada perto da janela, observa a paisagem.


FLASH BACK:

A jovem Scully sobe as escadas da escola. Sente a mão que lhe toca e vira-se para trás.

SMITH: - Seu nome é Dana, não é?

SCULLY: - (NERVOSA) S-sim...

SMITH: - Oi Dana, eu sou...

SCULLY: - Douglas Smith.

Ele sorri galanteador. Ela fica tímida.

SCULLY: - Desculpe, todos conhecem você na escola.

SMITH: - E você também, sabia? É mais popular do que pensa.

Ela olha pra ele.

SMITH: - Dana, eu... Eu queria te pedir uma ajuda. Vamos ter prova de química novamente e eu confesso que sou péssimo nessa matéria. Não tenho frequentado as aulas de reforço porque estou treinando para o jogo do sábado. Queria saber se não tem um tempo pra me ajudar, estudar comigo...

SCULLY: - (APAIXONADA) Sim.

SMITH: - (SORRI) Ótimo. Pode ser na sua casa? Afinal acho que não vai ficar legal se você for à minha casa... Sabe como são as línguas... Não quero criar confusão pra você.

SCULLY: - Tudo bem. Pode ser amanhã à tardinha?

SMITH: - Certo. Depois do treino eu passo na sua casa. Sei onde mora.

SCULLY: - (OLHOS BRILHANDO) Sabe?

SMITH: - Como eu não iria saber onde mora a menina mais atraente da escola? Ao contrário dos demais, eu sei apreciar inteligência.

Ele entra na escola. Ela suspira, o acompanhando com os olhos brilhando. Apaixonada.

ELLEN: - Ei!

SCULLY: - Ahn?

ELLEN: - Acorda! O que Dana Scully faz babando aqui na escadaria?

SCULLY: - (EMPOLGADA) Ellen... Você não vai acreditar!

ELLEN: - No quê?

SCULLY: - Ele sabe que eu existo. O garoto mais lindo da escola sabe que eu existo. E disse que eu sou atraente.

ELLEN: - Você não tá falando do Douglas...

SCULLY: - Estou.

ELLEN: - Dana... Seja esperta.

SCULLY: - (FELIZ) Ele me pediu ajuda pra estudar...

ELLEN: - No quarto dele?

SCULLY: - Ellen, você vê malícia em tudo, sabia? Pois não. Ele é um cavalheiro. É educado. Pediu que fosse na minha casa, pra não me causar apuros.

ELLEN: - Ou por que o popular não quer ser visto com a nerdizinha pra não virar piada?

SCULLY: - ...

Scully faz beiço e sobe as escadas correndo.

[Corte]

Meg, bem mais jovem, abre a porta. Smith olha pra ela com um sorriso, todo simpático e educado.

SMITH: - Boa noite, senhora Scully. Sei que não é hora, mas...

MARGARET: - Ora, entre Douglas. Dana me falou. Está esperando você na biblioteca.

Ele entra.

MARGARET: - Suba as escadas, fica ao fundo do corredor.

SMITH: - Obrigado, senhora Scully... E seu marido, como está?

MARGARET: - Em treinamento no Atlântico. Esses jogos de guerra...

Ele sorri. Pede licença e sobe as escadas. Meg o acompanha com os olhos.

[Corte]

Scully e Smith sentados à escrivaninha. Livros abertos. Ela explica alguma coisa. Ele só perde os olhos pro decote da blusa dela.

SCULLY: - Entendeu?

SMITH: - Sim. Acha que vão nos deixar pelo menos espiar a tabela periódica?

SCULLY: - Não conseguiu decorar?

SMITH: - Não.

SCULLY: - ... Douglas, eu... Eu preciso te perguntar uma coisa.

SMITH: - Pergunte. Se eu souber responder...

SCULLY: - Você prefere estudar aqui porque não quer que ninguém veja o popular da escola junto da nerd? É isso? Tem medo de que seus amigos vão rir se verem você comigo?

SMITH: - De onde tirou isso, Dana? Não. Eu só não quero constranger você. Se preferir na minha casa, tudo bem.

SCULLY: - Não, é... Me desculpe.

SMITH: - Eu preciso ir agora. Amanhã espero você na minha casa. Pra provar que não tenho vergonha de você. Você é uma garota muito bonita. Por que eu teria vergonha de você?

Ele levanta-se e sai. Ela suspira.


TEMPO PRESENTE:

[Som: Woman in Chains - Tears for Fears]

Scully sai de seus pensamentos, olhando para fora da janela, derrubando lágrimas. Ivan aproxima-se da Kombi com flores nas mãos. Entra. Ela observa curiosa. Levanta-se. Olha para a cama. Mulder continua dormindo.

SCULLY: - Eu tenho que resolver isso. Preciso matar esse fantasma...

Scully pega uma caneta e um papel. Começa a escrever.


Residência dos Biggs - 5:16 P.M.

Scully anda pela sala, de um lado para outro. Mãos trêmulas. Smith entra na sala.

SMITH: - Fico surpreso de ver você aqui. Está fugindo de mim? Ou tem medo que seu parceiro saiba do seu passado? São parceiros ou algo mais?

Ela vira-se pra ele, com ódio nos olhos.

SCULLY: - Deixe Mulder fora disso. Ele é apenas meu parceiro. Nada mais.

SMITH: - Sente-se Dana. Não vou morder você.

Ele se aproxima e a abraça. O medo dela é tanto que não consegue abraça-lo, menos ainda empurra-lo. Ele se afasta.

SMITH: - Puxa, o tempo foi generoso com você. Quer beber alguma coisa?

SCULLY: - Não.

SMITH: - A velha Dana santinha... Não mudou ainda?

SCULLY: - ...

SMITH: - E Ellen? Sabe dela?

SCULLY: - Está bem.

Ele serve um uísque.

SMITH: - Confesso que fiquei surpreso ao ver você na minha sala como uma agente do FBI... Não seguiu a medicina? O que houve com sua vida, me conta, estou curioso.

Ele senta-se. Scully senta-se na poltrona.

SCULLY: - Eu... Eu me formei em medicina. Sou legista.

SMITH: - Eu sabia! Você teria de seguir algo assim, adorava dissecar as rãs na aula de biologia da senhora Parker...

SCULLY: - Bons tempos aqueles... E a Kim?

SMITH: - Não a vi mais. Fomos pra universidades diferentes, conheci minha esposa lá, nos casamos, tivemos dois filhos... Depois me divorciei. Casei de novo. Divórcio. Já me casei e divorciei umas 5 vezes. Por fim conheci René.

SCULLY: - Seguiu a carreira do futebol americano...

SMITH: - Sim. Sou preparador físico. Parei de jogar há uns dez anos. Tive problemas no tornozelo, não podia correr. Impossível avançar qualquer jarda. E a sua família? E o Robin?

SCULLY: - Estão bem. Não deu certo meu relacionamento com Robin.

SMITH: - Não se casou? Não teve filhos?

SCULLY: - Não.

SMITH: - Puxa, mas agora você não tem sardas. Até que está bonita. Nem dá pra dizer que era a sardentinha feia da escola. Só está mais gorda, não é?

Ela olha pra ele, com raiva.

SMITH: - É, continua a mesma nerd que era, com a diferença de que agora não usa mais óculos. Sabe que nunca tinha reparado que seus olhos eram azuis? Por trás daquelas lentes não dava pra dizer...

SCULLY: - Sai da minha vida.

SMITH: - ...

SCULLY: - Você nunca me fez bem. Encontrar você de novo foi a pior coisa que podia ter me acontecido. Meu parceiro está interessado no caso, que ele acredita que há, envolvendo a morte de sua esposa. Mas não espere que eu volte aqui com ele.

SMITH: - Dana, por que está sendo estúpida comigo?

SCULLY: - Você não sabe? (RI) Claro que não sabe. Você nunca teve cérebro, portanto não pode ter memória.

SMITH: - (SORRI) Você ainda remói mágoas de uma brincadeira boba de adolescente? Aquilo é passado, já era, está enterrado.

SCULLY: - (ÓDIO) Brincadeira? Agora você chama aquilo de brincadeira? Enterrado???

SMITH: - (SORRI) Dana...

SCULLY: - (ÓDIO/ SEGURANDO LÁGRIMAS) Pois saiba que a sua brincadeira boba de adolescente me deixou marcas até hoje que não consigo esquecer. Eu pensei durante todos esses anos por onde você andava. O que estava fazendo. Eu desejava que estivesse morto. Você nunca saiu da minha cabeça. Mas como um maldito tumor que me corrói!!!

Scully levanta-se. Ele levanta-se e a segura pelo braço.

SMITH: - Nunca recebeu as flores? Eu mandei flores pra pedir desculpas.

SCULLY: - (MAGOADA) Algumas flores devem ser esquecidas.

SMITH: - A velha Dana puritana... E encalhada ainda. O que faz a falta de um homem... Quando admitir pra você mesma que eu fui o tudo da sua vida, você vai conseguir me esquecer. Ou vai implorar pra voltar pra minha cama.

Scully sai, batendo a porta com raiva. Ele sorri.


Corta para o lado de fora. Mulder estaciona o carro. Ao ver Scully saindo em prantos da casa de Smith, ele fica surpreso. A observa. Ela sai andando pela rua, chorando, em estado de desespero. Mulder olha pra casa de Smith. Começa a ficar desconfiado. Desce do carro. Caminha rapidamente até a porta. Aperta a campainha. Smith abre a porta.

SMITH: - Agente Mulder?

MULDER: - (SECO) Jonathann pediu que eu viesse até aqui. Gostaria de falar mais um pouco com ele.

SMITH: - Acho que ele não tem mais nada a dizer.

MULDER: - Senhor Smith, eu sou psicólogo. Deixe-me ajudar o menino.

SMITH: - Ele não precisa mais de ajuda. Boa noite.

Smith fecha a porta na cara de Mulder. Mulder faz uma fisionomia de desconfiança. Afasta-se. Olha para a janela do segundo andar. Jonathann o observa. Mulder afasta-se e volta para o carro. Escora-se no carro, cruza os braços e fica esperando.


Motel Maroon – 6:11 P.M.

[Som: Woman in Chains - Tears for Fears]

Scully entra no quarto. Corre para o banheiro e tranca-se. O choro dela pode ser ouvido, entre os soluços.


FLASH BACK:

Ellen caminha com Scully pela calçada.

ELLEN: - Sei não. Ele disse isso?

SCULLY: - Disse.

ELLEN: - Dana...

SCULLY: - Ele vai todos os dias lá em casa! Faz um mês que ele vai. Ele me respeita. Ele gosta de mim.

ELLEN: - E a Kim sabe disso?

SCULLY: - Ele me pediu um tempo. Não podemos ser vistos juntos na escola. Não agora.

ELLEN: - E o Robin?

SCULLY: - O Robin continua comigo, mas somos mais amigos do que namorados. Nem nos tocamos. E-eu não sei como vou dizer pra ele que estou gostando de outro cara.

ELLEN: - Dana, eu amo você. Você é a minha melhor amiga, mora no meu coração. E eu tenho medo de que esse cara está jogando alto com você e vai acabar te magoando.

SCULLY: - (CEGA DE AMOR) Acha que se ele quisesse só sexo comigo já não teria tentado? Ele vai à minha casa, conversa com meus pais... Ellen, você não pode acreditar no amor?

ELLEN: - Amiga eu acredito! Só que eu sei bem o que falam dele. Ele é um oportunista.

SCULLY: - Ellen, você está com ciúmes. Eu entendi. Você o queria pra você é isso.

ELLEN: - Dana, se lembra do nosso juramento? De que se algum dia nos apaixonássemos pelo mesmo cara, falaríamos uma pra outra? Não, eu não estou com ciúmes de vocês. Estou é preocupada com você.

SCULLY: - Eu estou bem... Ellen, olha pra mim.

As duas param na calçada.

SCULLY: - Eu sou o gêniozinho da escola. Todo mundo me encara como uma calculadora ambulante! Como uma coisa fria, feia e sardenta. Ele é o garoto mais lindo da escola, o capitão do time. Eu me sinto muito feliz em saber que um cara como ele, cercado de atenções, lindo, se sinta atraído por mim. Isso é amor verdadeiro. Ele não me vê apenas como a feia inteligente. Ele me vê como uma garota atraente e bonita. Ele ama o que eu sou, não a minha aparência!

ELLEN: - ... (NERVOSA)

SCULLY: - Me diz se não é sorte grande um cara como ele olhar pra mim? Eu sempre sonhei em ter um homem lindo, alto, inteligente, sensível, forte... Eu sempre gostei dos caras importantes, de homens de alta posição, daqueles que tem um lugar no mundo... E que me amasse de verdade. Só que eu pensava que isso era loucura, nenhum cara bonito ia se apaixonar por mim, a esquisita.

ELLEN: - ...

SCULLY: - Então ele se apaixona? Amiga, o Douglas é o homem da minha vida. Ele me ama e eu posso ver a sinceridade nos olhos dele.

ELLEN: - (SUSPIRA) O que eu posso dizer pra você pra te convencer do contrário? Seus olhos brilham, você sorri, até está usando roupas diferentes, penteados diferentes... A escola toda está notando que você está mudando... Você fica sonhando acordada na sala, roendo a ponta do lápis... A última vez que vi você fazer isso foi pelo professor de literatura.

Scully sorri.

ELLEN: - Eu sou sua amiga. Vou apoiar você no que acredita. Mas tome cuidado, Dana. Não vá se ferir. Você é muito ingênua...

SCULLY: - Não vou me ferir. Estou apaixonada.

ELLEN: - Então, a festa vai rolar?

SCULLY: - Vai.

ELLEN: - Douglas vai ir?

SCULLY: - Não. Ele tem um compromisso.

ELLEN: - Que compromisso?

SCULLY: - Olha, ele me disse que não acha legal ir à festa, porque todo o pessoal da escola vai estar lá. Alguém vai comentar no ouvido da Kim. Ele me pediu um tempo porque está tentando criar coragem de dizer a verdade pra ela.

ELLEN: - E o Robin?

SCULLY: - Ele vai.

ELLEN: - Você sabe de si, Dana. Não vou bancar sua mãe e dar conselhos...

SCULLY: - Ele me respeita tanto, Ellen... Dia desses quase me beijou, mas pediu desculpas... Imagina se Robin ia ser cavalheiro assim? Robin se faz de panaca, mas só comigo. Com a Pam ele teve coragem, aquele idiota...


TEMPO PRESENTE:

Residência dos Biggs – 7:23 P.M.

A velha senhora elegante desce de seu carro do outro lado da rua.

Corta pra Mulder que desce do carro. Aproxima-se, segurando um ursinho de pelúcia vestido de policial. Mostra o distintivo.

MULDER: - Senhora Biggs?

SRA. BIGGS: - Sim?

MULDER: - Agente Mulder, do FBI.

SRA. BIGGS: - Oh, meu Deus... Ela não morreu. A mataram!

MULDER: - Não senhora Biggs, sua filha morreu sim. Estou aqui por outro motivo.

SRA. BIGGS: - Algo errado? Aquele cafajeste está maltratando o menino?

MULDER: - ???

SRA. BIGGS: - Sinto, desculpe. Nunca quis o relacionamento dela com esse homem. Ele é mulherengo demais, nunca a respeitou. Mas o senhor não tem nada a ver com isso, desculpe.

MULDER: - O senhor Smith maltrata o menino?

SRA. BIGGS: - Minha filha sempre negou. Mas nunca o deixava sozinho com ele. Ele é um imoral, senhor Mulder. Não pode criar uma criança. O pai verdadeiro de Jonathann já não prestava, porque deixou minha filha grávida. Então esse aparece na vida dela, só porque ela era bonita. René se iludiu com ele. Mas não vou deixar meu neto com esse sujeito. Mas não veio aqui para evitar isto, não é?

MULDER: - Não, senhora. A senhora é avó materna e...

SRA. BIGGS: - Pois acredita que precisei entrar na justiça para ficar com meu neto?

MULDER: - ...

SRA. BIGGS: - Alegam que ele está no lugar de pai, que tem mais direitos do que eu. Que eu não tenho testemunhas que aleguem terem visto uma das sacanagens dele.

Mulder sorri. Abaixa a cabeça.

MULDER: - Eu agora entendi o que ela estava tentando me dizer...

Mulder olha pra janela da casa. Vê Jonathann. Atrás dele, a intensa luz que parece protegê-lo. Mulder sorri. Olha para a velha senhora.

MULDER: - Senhora Biggs, eu posso ser sua testemunha. E o faria com prazer pra ajudar o menino.

SRA. BIGGS: - Conhece o canalha?

MULDER: - Não, mas... De certa forma, considere isto como um favor que sua filha me pediu. Eu vi alguma coisa que com certeza vai ajuda-la a vencer essa batalha.

SRA. BIGGS: - Senhor Mulder... Obrigado. Muito obrigado. Em nome de todas as mães e avós deste mundo.

Mulder sorri. Entrega o cartão pra ela.

MULDER: - Pode me encontrar neste telefone. E pedir a seu advogado para conseguir um mandado e ficar com Jonathann até a audiência. Se precisar de mim, me ligue, senhora Biggs. Eu não conheço o senhor Smith, mas começo a ter uma certa repulsa inexplicável por ele.

Mulder entrega o ursinho pra mulher.

MULDER: - Dê isso ao Jonathann. Prometi um presente a ele.

SRA. BIGGS: - (SORRI) Ele vai adorar! Um ursinho policial! Ele adora tudo o que se refere à polícia.


Motel Maroon – 8:21 P.M.

Mulder desce do carro. Ivan está sentado ao lado do trailer.

MULDER: - Desculpe, Ivan... Não pude vir conversar com você.

IVAN: - Esquece Mulder... Você acredita em destino?

MULDER: - Um cara chamado Saul Watkins me fez acreditar.

IVAN: - Então sabe que as pessoas que cruzam nosso caminho sempre acabam voltando a cruzar nosso caminho. Nunca ninguém entra em sua vida por nada.

MULDER: - Você tem razão... Ninguém se cruza por aqui ao acaso.

IVAN: - Lições de vida a aprender, erros a serem corrigidos, faltas a serem pagas, auto-aprendizagem... Linha da vida... Sinal de que ainda vamos tomar essa cerveja juntos algum dia. Alguma coisa existe de importante pra que o universo conspirasse a favor desse encontro.

Mulder sorri.

IVAN: - Nem que seja na outra reencarnação.

MULDER: - (RINDO) Ah, não acredito que vamos esperar tanto tempo...

IVAN: - Ei, Mulder, sua esposa não é muito de sair não é?

MULDER: - Não, ela é mais sociável do que eu... Costumo dizer que ela é o meu lado humano. Mas não anda se sentindo muito bem...

IVAN: - Minha esposa adoraria conversar com ela. Mas também anda meio chateada, fica só na cama... Sei lá. Quem entende as mulheres?

Mulder sorri. Caminha até o quarto.

Corte.


Mulder entra no quarto. Escuta o barulho do chuveiro. Aproxima-se da porta. Está trancada. Mulder respira fundo. Liga a TV e se atira na cama. Observa a porta do banheiro, preocupado. O celular toca. Mulder senta-se na cama e atende.

MULDER: - Mulder.

SMITH: - Agente Mulder? É Smith.

MULDER: - Ah, senhor Smith... (JOGANDO) Posso conversar com o garoto?

SMITH: - Bem, eu... Eu não liguei para isso. Eu... Eu gostaria que me desse o telefone de sua parceira.

MULDER: - (INVOCADO) Da minha parceira? Senhor, Smith, o que tiver pra falar com ela, pode falar comigo. Trabalhamos juntos.

SMITH: - Bem... Peça pra ela me ligar. Gostaria de falar com ela sobre... Bem, sobre o menino.

MULDER: - Por que não fala comigo, senhor Smith?

Smith desliga.

MULDER: - Alô?

Mulder desliga o celular. Fica desconfiado. Olha pra porta do banheiro. Olha pro celular. Atira ele na poltrona com raiva. Cruza os braços numa fisionomia séria e brava. Scully sai do banheiro. Olhos inchados de chorar. Ao vê-lo sorri, disfarçando.

SCULLY: - Desculpe...

MULDER: - Banho quente...

SCULLY: - É.

MULDER: - Incha os olhos, né?

Ela aproxima-se da mesa e senta-se. Começa a abrir um chocolate.

MULDER: - Scully...

SCULLY: - Ahn?

MULDER: - Não tem nada pra me contar?

SCULLY: - Adoro chocolate com amêndoas...

MULDER: - O senhor Smith me ligou agora.

Ela começa a tremer. Ele a observa.

MULDER: - Queria seu número de telefone.

SCULLY: - (FECHA OS OLHOS/ TENSA) ... V-você deu?

MULDER: - Sabe por que ele iria querer seu número?

SCULLY: - Para falar sobre o caso?

MULDER: - ... O que Smith e você tem a ver um com o outro?

SCULLY: - ...

MULDER: - É só um palpite. Scully, sei que deve ter seus motivos para não querer me contar isso. Eu não fico chateado. Mas saiba que quando quiser se abrir, eu ainda sou seu amigo.

Mulder levanta-se da cama e sai pra fora do quarto. Ela apoia a cabeça sobre a mesa e chora.


BLOCO 4:

9:34 P.M.

Ivan abre a porta da Kombi. Mulder está parado ali. Sorri.

MULDER: - Posso te pedir um favor?

IVAN: - Claro.

MULDER: - Você tem internet?

IVAN: - Tenho, entra aí.

Mulder entra na Kombi. Toda adaptada como trailer. Percebe a mulher de cabelos castanhos com duas trancinhas hippies. Ela cozinha sentada, enquanto com a outra mão afaga a barriga de grávida. Olha pra Mulder e sorri.

JOAN: - Oi!

MULDER: - Desculpe, não queria incomodar...

IVAN: - Não é incômodo. Venha até aqui. Sente-se.

Mulder senta-se de frente pra Ivan.

MULDER: - Eu costumo trazer um laptop, mas dessa vez esqueci.

IVAN: - Essa é minha esposa, Joan.

Ela cumprimenta Mulder.

JOAN: - Muito prazer.

MULDER: - (SORRI) É o primeiro de vocês?

Joan e Ivan se abraçam, sorrindo.

JOAN: - É.

MULDER: - Meus parabéns.

JOAN: - Obrigada.

MULDER: - Vai ficar pequeno pra três aqui.

IVAN: - Onde cabem dois cabem três. Joan esse é o Mulder. O cara que te falei. Aquele que ficou de tomar uma cerveja comigo e não apareceu.

MULDER: - (SORRI) Prazer, Joan.

IVAN: - Mas tudo bem. Eu falei das teorias pra ele.

JOAN: - Olha, Mulder, não se acanhe com Ivan. Meu marido é meio doido, ok? Nós somos doidos.

IVAN: - Mas é o que nós dois sempre dissemos, Joan. Eu disse ao Mulder que algum motivo teve pra que a gente se esbarrasse aqui neste lugar. Nada na vida é em vão. Quem pode dizer o que o futuro nos reserva?

MULDER: - É, o futuro é algo meio perigoso.

IVAN: - Estava pensando. Quem sabe, Mulder, a energia do universo fez com que a gente se esbarrasse porque você é policial. Quem sabe um dia eu não me meto numa enrascada com o governo pela minha causa ativista e você não livra a minha barra?

MULDER: - Ou eu posso precisar de alguém pra me explicar sobre mudanças climáticas ou sobre a preservação das espécies...

Os dois riem. Joan segura a barriga.

MULDER: - Já sabem o sexo?

JOAN: -É o Kevin. Kevin Adams. E chuta muito. Acho que Kevin vai curtir futebol...

MULDER: - É um nome bonito. (DEBOCHADO) Embora Adams persigam a minha vida... Mas essa é outra história...

IVAN: - E vai ser um grande ativista ambiental. Vai seguir os passos do pai.

JOAN: - Ei! E eu? Não mesmo! Ele vai ser biólogo. Igualzinho a mãe.

Os três riem.

IVAN: - Fique à vontade, Mulder. Quer uma cerveja?

MULDER: - Ah não, obrigado.

Mulder liga o laptop de Ivan.

IVAN: - Tá atrás de algum criminoso?

MULDER: - Não sei se é culpado, mas é suspeito. E pra dizer a verdade, nem sei qual o crime ao certo...

Ivan pega uma cerveja.

IVAN: - Então você é o culpado do ocultamento de provas do governo.

MULDER: - (SORRI) Bem, na verdade eu tento expor esse governo... Mas ficaria um dia inteiro aqui contando pra vocês as coisas que eu faço. Que incluem busca por extraterrestres, assuntos paranormais e a verdade absoluta.

JOAN: - Mulder... Acho que você e Ivan têm muita coisa pra conversar.

Mulder sorri. Digita alguma coisa. Olha pra eles. Joan sorri, passando a mão na barriga.

JOAN: - Ele mexeu de novo... Está agitado o dia todo. Não para de se mexer...

IVAN: - Agitado?

JOAN: - É... (RINDO) Sei lá, parece pressentir coisas boas por perto, energias positivas... Está feliz. Acho que ele gosta do Mulder.

Mulder olha pra eles. Sorri.

MULDER: - Essas coisinhas é que dão felicidade na vida de gente. E a gente muitas vezes só dá importância pra elas quando é tarde demais.

IVAN: - Tem filhos Mulder?

MULDER: - Um.

IVAN: - Eu mal vejo a hora desse aqui nascer e olha que vai ser a qualquer momento.

Mulder sorri. Olha pra tela. O sorriso diminui.

Corta para a tela. A foto de Smith. Ao lado da foto, a ficha: Smith, Douglas.

Ivan percebe. Olha pra Mulder.

IVAN: - O que foi Mulder?

MULDER: - ... Nada, Ivan. Apenas achei a resposta pra uma pergunta que eu fiz há muito tempo: Quem é Douglas...

IVAN: - E...?

MULDER: - Não gostei da resposta.


10:34 P.M.

[Som: Woman in Chains - Tears for Fears]

O quarto na penumbra. Apenas a luz do abajur.

Scully sai do banheiro, vestida num roupão preto. Olhos inchados de chorar. Mulder, ainda vestido, deitado na cama, finge que dorme, mas a observa. Scully olha pra ele. Ele fecha os olhos, fingindo dormir. Ela caminha até a mesa. Senta-se, olhando pela janela. Põe as mãos sobre o rosto, chorando calada. Mulder abre os olhos. Perde o olhar em Scully, relembrando.


FLASH BACK:

MISTERY: - Eu comecei bem. Traí o meu primeiro namorado.

MULDER: - (RI) Sério?

MISTERY: - Ah, por favor! Não era todo o dia que o ídolo do time de futebol do colegial olhava pra você. E mesmo ouvindo os avisos, eu ignorei. (ÓDIO) Como me arrependo, nem quero falar nisso. Só não me arrependo mais porque não era mais virgem. Se tivesse perdido minha virgindade pra aquele canalha, eu acho que hoje seria freira!

MULDER: - (SÉRIO) Tão ruim assim?

MISTERY: - (MAGOADA) É. Ruim é pouco.

MULDER: - Não quer falar mesmo? Eu queria saber o que te fez ficar furiosa com o ídolo do time de futebol...

MISTERY: - (MAGOADA) Ora, você é uma garota, tá? Não é das mais bonitas e sensuais da escola e de repente o cara mais lindo, o mais cobiçado por todas está caindo de quatro nos seus pés, você nem pensa duas vezes. Adolescentes são burras! Depois que ele... Depois que conseguiu o que queria, fiquei sabendo que eu era uma aposta.

Mulder olha pra ela, compadecido.

MULDER: - Por isso você me disse que tinha medo de homens bonitos?

MISTERY: - ... Agora respondi sua pergunta. (ÓDIO) Tenho nojo de lembrar dele até hoje! O desgraçado foi tão convincente, tão perseverante! Ficou um mês me tentando, se fazendo de apaixonado, chegou até a frequentar a minha casa, adular meus pais. Tudo pra não perder... Meia dúzia de cervejas!

MULDER: - (RAIVA) Juro que se eu pegasse esse desgraçado eu o mataria.

MISTERY: - (IRRITADA) E você? Você devia ser o centro das atenções também. Aposto que as meninas ficavam enlouquecidas com seu físico, jogando basquete. Quantas latas de cerveja apostou com os amigos pra levar a mais feia e sem graça pra cama?

MULDER: - Acho melhor perguntar pras garotas do colegial quantas latas de cerveja elas apostavam pra levar o nerd de óculos e alienado pra cama.

MISTERY: - (INCRÉDULA) Não, para com isso! Você tá brincando comigo.

MULDER: - Eu era o excluído. Todo mundo ria de mim, embora na hora das provas, você precisava ver como eu tinha amigos!


TEMPO PRESENTE:

[Som: Woman in Chains - Tears for Fears]

Mulder olha pra Scully, com tristeza e cumplicidade. Ela chora calada. Mulder fecha os olhos.


FLASH BACK:

Mulder e Scully caminham pela enorme galeria de esgotos.

MULDER: - ... Scully... Quem é Douglas?

SCULLY: - ...

MULDER: - (ENCIUMADO) Scully... Não temos segredos um com o outro. Quer dizer, achava que não tínhamos.

SCULLY: - Coisas de adolescente, Mulder. Nunca aconteceu com você? Nunca nenhuma garota disse que estava preocupada, que poderia estar grávida e...

MULDER: - (CORTANTE) Não.

SCULLY: - Mulder, não minta! Adolescentes fazem besteiras por impulso!

MULDER: - (FICANDO MAIS SÉRIO) Scully, sempre fui cuidadoso com essas coisas. Sabe o meu ponto de vista a respeito de crianças. Eu não era um irresponsável. (ENCIUMADO) Como o 'Douglas'.

SCULLY: - ...

MULDER: - Aposto que na época foi um susto. Mas agora, gostaria que tivesse acontecido. Aposto que esse tal Douglas aí deve ter sido muito importante.

SCULLY: - Não.

MULDER: - (PROVOCANDO) Mas se tivesse acontecido, você hoje teria um filho bem grandinho. (IRRITADO) E com o 'Douglas'.

SCULLY: - Não. Há hora pra tudo, Mulder. Talvez minha vida não tivesse seguido esse rumo.

MULDER: - (INSTIGANDO) O que não seria má ideia...

SCULLY: - (IRRITADA) Mulder, para de me provocar! Não vai ouvir o que quer.

MULDER: - ...

SCULLY: - Foi passado. Não me culpe pelo passado! E você? Acha que vou ficar jogando seu passado na sua cara?

MULDER: - Não estou jogando nada na sua cara.


TEMPO PRESENTE:

Mulder levanta-se da cama. Vai até a mesa, meio sem jeito. Senta-se de frente pra Scully. Permanece calado. Scully abaixa a cabeça. Mulder olha pra ela. Coloca a mão sobre a dela, a afagando com ternura. Ela continua chorando.

SCULLY: - (CHORANDO)

MULDER: - ... (SUSPIRA) Scully, fala. Fala porque eu não consigo mais fingir que não sei o que está acontecendo. Estou relacionando coisas e está doendo em mim também. Eu sinto as suas dores. Você sabe bem disso.

SCULLY: - ...

MULDER: - ... O que Douglas Smith realmente fez pra que você sinta isso até hoje?

Scully olha pra ele, derrubando lágrimas.

SCULLY: - Eu já falei dele pra você. Não quero falar mais nisto.

MULDER: - Eu sei que já falou. Mas você nunca me deu a entender o que esse cara realmente te aprontou... Scully, reviver o passado dói, mas você precisa acabar com isso de uma vez. Por que não me conta?

SCULLY: - ... Não quero te contar... Você é capaz de fazer besteira. E não quero causar mais problemas pra você...

MULDER: - Eu sei que você pensou que estivesse grávida dele. E agora acho que foi ele também quem apostou com os amigos, que armou todo um show pra levar a sardenta nerdizinha pra cama e com isso ganhar meia dúzia de cervejas. Já é motivo o suficiente para que você o odeie. Mas o que mais aconteceu, Scully?

SCULLY: - ...

MULDER: - Posso dar uma de quem entende as mulheres?

SCULLY: - ... Não. Você nunca entenderia.

MULDER: - ... Tudo bem. Pode ser que eu não possa entender, afinal, o que Mulder o Estranho sabe sobre sentimentos humanos? Eu... Eu só quero ser aquele que te entende. Me dá esse direito? Me deixa ser o seu amigo, como a gente era... Me dá o direito de retribuir o tudo que você me dá?

SCULLY: - ...

MULDER: - (TRISTE) Se eu não posso mudar isso, pelo menos desabafa. Põe essa mágoa pra fora. Divide o fardo comigo... Eu não queria desrespeitar você, me intrometer em algo que você não quer falar... Mas não posso mais olhar pra você assim... Eu estava deitado, fingindo que dormia, mas... Eu só observava a sua angústia, o seu medo...

SCULLY: - ...

MULDER: - Eu... Eu sei o que mais marca a vida de uma mulher... Posso ser um homem, mas eu sei. Sei as questões mais importantes e sagradas para qualquer mulher.

SCULLY: - ... (MÃOS TRÊMULAS/ NERVOSA/ CHORANDO)

MULDER: - Não foi com Robin... Nunca foi. Você tentava mentir pra si mesma. Pra não sofrer mais.

SCULLY: - ... (DERRUBANDO LÁGRIMAS)

MULDER: - Douglas foi o seu primeiro homem. Você perdeu sua virgindade pra um canalha, pensando que era amor, se entregando de corpo e alma, e era apenas uma aposta, uma mentira. Você foi usada.

Ela põe as mãos no rosto e chora convulsivamente. Mulder olha pra ela com ternura e piedade. Abaixa a cabeça.

MULDER: - ... Nada do que eu disser vai apagar isso, Scully. Eu nem sei o que vou dizer pra consolar você... São em momentos como estes, que sinto uma enorme raiva dentro de mim... Desse cara e de todos os outros... Eu... Eu posso entender a mágoa que carrega dentro de você.

SCULLY: - (NERVOSA/ DERRUBANDO LÁGRIMAS) E-eu... Eu não conseguia, sabe? ... Foi algo forçado, horrível, que me machucou... Eu fiquei com medo de transar de novo... Depois que ele... Conseguiu o que queria... Foi embora, com a desculpa de que tinha jogo no outro dia... (CHORA) Quando eu fui pra escola de manhã, todos riam de mim. Eu não sabia porque até a Kim, a namorada dele estava rindo...

MULDER: - ... (OLHA-A COM TRISTEZA)

SCULLY: - Então eu o vi com os amigos. (CHORA) Eles pagando o dinheiro das cervejas pra Douglas. Falando alto. Ouvi tudo. (CHORA) Ouvi muito bem a frase 'você teve coragem, cara. Transar com aquela coisa feia e sardenta?'

Mulder olha apiedado pra ela, enchendo os olhos de lágrimas.

SCULLY: - Ele... (CHORA) Ele ainda olhou pra mim! Viu que eu estava ali. Abraçou-se em Kim e rindo da minha cara, mentiu pros amigos que nem virgem eu era, que eu mexia feito prostituta. (CHORA) Que nem sabia de onde tirou estômago pra fazer aquilo... Deus! Por que não dei ouvidos à Ellen! Por que fui acreditar que amor existia? (COM RAIVA DE SI) Mas eu era uma garota boba, que sonhava com príncipes encantados e contos de fadas! Acordei da pior maneira! Percebi que ser mulher implicava apenas em dar prazer! Em ser usada!

Mulder está angustiado. Seca as lágrimas que querem sair. Scully levanta-se. Mulder levanta-se também. Scully anda de um lado pra outro.

SCULLY: - (CHORANDO) O pior de tudo foi passar dois meses em estado de crise. Era meu último ano, eu não podia ir mal nas provas, eu precisava ir pra faculdade... Não conseguia mais ir pra escola de vergonha das pessoas. E ainda pensava que estava grávida dele.

MULDER: - ...

SCULLY: - Ellen se irritou... E-eu nunca a tinha visto daquele jeito, tão revoltada.... Ela foi comigo até a casa daquele desgraçado. (CHORA/ ÓDIO) Douglas nos atendeu apenas pela fresta da porta... Ellen queria fazer escândalo, eu pedi que não fizesse... Me humilhei, chorei, contei pra ele que podia estar grávida. Ele riu, mandou que eu me virasse sozinha, afinal eu era a culpada... Eu tinha ficado grávida, a culpa era só minha...

Mulder fecha os olhos.

SCULLY: - Então desapareceu... Pegou a bolsa de estudos que ganhou e foi pra longe. Ser jogador... E eu... Eu rezando todas as noites pra que não estivesse grávida... O desgosto que eu poderia causar a minha família. E ainda ter um filho daquele bastardo... (SEGURA O CHORO) Deus! Ele acabou com a minha vida! Ele me deixou marcas emocionais que nunca mais consegui superar, que se refletiram em todos os meus relacionamentos... Inclusive com você! E agora, esse desgraçado aparece de novo, reabrindo velhas feridas, trazendo de volta o que eu queria enterrar! (CHORA CONVULSIVAMENTE) Por quê? Por quê???

MULDER: - Scully...

SCULLY: -(CHORANDO) Entende agora por que eu não tinha coragem de falar sobre os meus sentimentos pra você? Por que tenho insegurança? Por que homens bonitos me dão medo? Por que me acho feia?

MULDER: - (MORDE OS LÁBIOS) Traumas psicológicos profundos.

SCULLY: - E-eu... (CHORANDO) E-eu reluto em aceitar que perdi a minha inocência e a minha ilusão para um aproveitador. A verdade dói, Mulder! Dói demais! Eu não abri o jogo antes com você porque pensei que você fosse reagir drasticamente se eu falasse sobre aquele desgraçado...

MULDER: - ...

SCULLY: - Mas ao invés de ciúmes e brigas, o que se espera de um homem neste tipo de circunstância, que se vê diante da existência do outro que já esteve numa cama com sua mulher... (CHORANDO) Você foi compreensivo, carinhoso... Mulder, você me surpreende a cada dia... Quando precisa ser o adulto... Você o é admiravelmente! Muito mais do que eu!

Mulder coloca a mão no pescoço dela. Olha em seus olhos. Scully está nervosa, não consegue olhar pra ele. Mulder a puxa pra um abraço, que ela reluta.

MULDER: - (MURMURA) ... Faz uma coisa por mim?

SCULLY: - ... (MURMURA CHORANDO) Tudo, Mulder...

MULDER: - (MURMURA) Quando fechar seus olhos à noite, imagine que aquela nossa primeira noite foi também a sua e a minha primeira vez. Porque emocionalmente foi. Você foi minha primeira mulher de verdade. E agora eu acho que eu fui o seu primeiro homem de verdade, porque o nosso passado está carregado de relacionamentos abusivos que deixaram mais sequelas emocionais do que lembranças boas.

Scully se abraça nele, chorando contra o peito de Mulder, que lhe afaga os cabelos. Mulder apoia o queixo no ombro dela e a embala, entristecido.

MULDER: - ... (MURMURA) Estamos dançando...

SCULLY: - (MURMURA) Sim...

MULDER: - (MURMURA) Não se faz isso com música?

SCULLY: - (MURMURA) É. Geralmente...

MULDER: - (MURMURA) Então eu vou cantar pra você...

Mulder recosta a testa no rosto dela. Envolve seus braços na cintura dela. Dançam suavemente, como se embalassem um ao outro. Scully fecha os olhos. Ele começa a cantarolar baixinho 'Three Times a Lady, de Lionel Richie'.

MULDER: - Thanks for the times... That you've given me... (Obrigado pelos momentos que você tem me proporcionado) The memories are all in my mind... (As lembranças estão todas em minha mente) And now that we've come... To the end of our rainbow(E agora que chegamos ao final do nosso arco-íris) There's something I must to say out loud... (Existe algo que preciso dizer em voz alta)

Mulder toma o rosto dela nas mãos, secando suas lágrimas com os polegares e olhando profundamente nos olhos dela.

MULDER: - You're once... Twice... Three times a lady... And I love you... (Você é uma, duas, três vezes uma dama e eu te amo.)

Scully morde os lábios querendo chorar novamente. Ele a envolve nos braços, fechando os olhos e a apertando contra o peito.

MULDER: -Yes, you're once... Twice... Three times a lady... (Sim, você é uma, duas, três vezes uma dama...) And I love you ... I love you... (E eu te amo... Eu te amo)

Os dois se afastam. Mulder olha sério pra ela. Ela seca as lágrimas com as mãos.

MULDER: - Não quero mais ver você chorar... Acabou.

SCULLY: - ... Tá.

MULDER: - Sorri pra mim. Esquece isso agora. Não deixa esse cara estragar mais nenhum segundo da sua vida. Se ele machucou você, eu quero te curar. Se ele te usou, eu quero te venerar. Se ele deixou feridas em você, me deixe cicatrizar...

SCULLY: - ... (EMOCIONADA) Mulder...

MULDER: - (TENTANDO ANIMÁ-LA) Ou eu vou ter que te contar sobre a minha primeira transa e acredite, você vai catalogar como um Arquivo X.

SCULLY: - ... (SORRI/ CABISBAIXA)

MULDER: - Vem... Vamos dormir. Amanhã é outro dia. O sol vai continuar nascendo. Mas você vai acordar sem um peso enorme nos ombros. E vai perceber a verdade disso tudo.

SCULLY: - Que verdade?

MULDER: - Que nada na vida é por acaso. A gente apanha, aprende da pior maneira... Toma tapas e fica se lamentando, tentando entender o que fez pra isso acontecer... Só há uma verdade nisso tudo. Não era ele. Não seria nenhum outro. Assim como foi comigo, que nunca fui feliz em relacionamento nenhum. Estávamos fadados um ao outro, minha amiga, minha parceira, minha esposa, mãe do meu filho. Estava escrito em algum lugar e assinado por Deus.

Mulder a beija na testa.

MULDER: - Agora vamos dormir. Eu quero ter a honra de deitar nessa cama com a mulher que deixou um monte de homens em estado de convulsão numa boate, até mesmo mulheres em estado de convulsão e fez o diretor 'Carter Duvidoso' admitir uma ereção.

Scully sorri. Leva as mãos à camiseta dele e a ergue. Mulder olha pra ela. Scully deixa seu roupão cair pelos ombros, ficando nua. Mulder aproxima os lábios dos dela.

[Fade in]


[Fade out]

Os dois nus entre os lençóis, abraçados, trocando um beijo. Mulder desliza a mão pelo corpo dela, descendo o lençol até sua cintura, a acariciando. Ela suspira, pele arrepiada. Ele olha apaixonado pra ela. Deita-se sobre ela. Olha em seus olhos. Scully olha nos olhos dele, com expectativa. Mulder aproxima os lábios. Os dois trocam um beijo. Mulder aprofunda o beijo. Scully envolve os braços nele. Mulder desce os lábios pelo seu pescoço. Desliza a língua suavemente para o seio. Scully fecha os olhos, sentindo a pele se arrepiar. Mulder brinca com a língua no mamilo dela. Ela sorri. Ele sobe com a língua até o pescoço dela.

MULDER: - (MURMURA) Eu quero você... Mas tem certeza de que isso...

SCULLY: - (SORRI) Cala a boca Mulder!

Ele toma os lábios dela num beijo profundo. Ela agarra as grades da cama, soltando um gemido. Ele apoia as mãos no colchão, erguendo o corpo, movendo-se suavemente contra ela. Scully inclina a cabeça pra trás, apoiando as mãos no peito dele. Fecha os olhos soltando um murmúrio incontido.

SCULLY: - Hum... Isso é bom...

Ele sorri olhando pra ela.

MULDER: - Eu adoro ver você gozar... Você fica linda...

Ela sorri. Envolve as mãos nos cabelos dele e o puxa pra um beijo de língua.


2:21 A.M.

Scully vestida no roupão. Mulder entre os lençóis. Ela deitada com a cabeça no colo dele, numa fisionomia de realização. Ele afaga seus cabelos, olhando pra ela apaixonado e rindo feito bobo.

SCULLY: - Você consegue me animar sempre... Me fazer sentir a mulher mais desejada do universo.

MULDER: - Minha mãe dizia que paciência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém... (RINDO) Olha eu dizendo isso!

SCULLY: - Hum... Estou feliz de novo. Não estou mais sofrendo.

MULDER: - ... (RINDO) O sujeito tinha uma namorada chamada Wendy e resolveu tatuar o nome dela no raposão... Obviamente, era tão pequeno, que em estado normal só mostrava as letras W e Y...

Scully olha pra ele, rindo.

SCULLY: - (CURIOSA) E então?

MULDER: - Ah quer saber?

SCULLY: - Quero.

MULDER: - (RINDO) Um dia ele estava urinando em um banheiro público, quando observou que o negrão ao lado dele também tinha as letras W e Y tatuadas no raposão.

SCULLY: - (RINDO) Ah não Mulder! Era a mesma garota? Que chato!

MULDER: - Bom, o cara ficou curioso como você. Então teve que perguntar pro negrão se ele também tinha uma namorada chamada Wendy, afinal tinha um W e um Y ali.

SCULLY: - (RINDO) Tô com medo de perguntar... Mas o que ele respondeu?

MULDER: - O negrão respondeu que não. Aquilo era outra coisa. E começou a mexer no bendito pra ficar duro...

SCULLY: - (RINDO)

MULDER: - Foi então que o nosso já pouco complexado personagem conseguiu ler: Welcome to Jamaica, have a nice daY.

Scully tem um acesso de riso. Mulder olha debochado pra ela.

MULDER: - (DEBOCHADO) Até pensei em tatuar Dana Scully no meu.

SCULLY: - (RINDO) Fala sério Mulder!

MULDER: - Ficaria bonitinho... Mas teria que colocar o 'Katherine' no meio pra preencher espaço.

Ela dá um tapinha nele, rindo.

MULDER: - Au!

SCULLY: - Seu convencido!


Hotel Maroon – 9:18 A.M.

Scully acorda-se com as batidas na porta.

SCULLY: - Mulder?

Scully olha pra cama. Vazia. Levanta-se. Veste um robe. Vê o bilhete pendurado na porta: 'Estou na Kombi negociando discos velhos'.

Scully sorri. Abre a porta. A fisionomia dela muda pra medo.

SCULLY: - O que quer aqui? Como sabia aonde eu estava?

SMITH: - Olha Dana, não somos mais adolescentes. Não se faça de boba.

SCULLY: - ???

SMITH: - Não teve coragem de me chamar, então pediu ao seu parceiro pra fazer isso. Recebi o recado dele hoje de manhã. Você queria me ver.

Scully abre a boca com espanto. Mas um certo sorriso vingativo surge em seu rosto. Ele entra sem ser convidado. Ela deixa a porta aberta.

SMITH: - Dizem que as pessoas não mudam nunca. Você não mudou. Continua sem coragem.

SCULLY: - E você continua se achando o máximo, não é, Douglas?

SMITH: - Seus olhos são azuis mesmo. Realmente eu nunca havia reparado que eram azuis.

SCULLY: - Puxa vida... Sabe que eu nunca havia reparado que você não é aquele deus grego que eu achava? Aliás, a vida ensina não é Douglas? Hoje sei a diferença entre um homem e um bicho asqueroso. Você não me atinge mais.

SMITH: - Dana, você gostou. Eu não entendo porque me culpa. Olha, se eu não tivesse comido você, você ia ser virgem até hoje. Devia me agradecer!

Ela olha pra ele com os olhos cheios de lágrimas. Abaixa a cabeça.

SMITH: - Tanto é que ainda está só! Dana, coisinhas feias e insignificantes como você devem dar graças por serem motivos de apostas. É a única chance que têm.

Smith sente a mão no seu ombro. Vira-se pra trás. Vê Mulder.

SMITH: - Olá, agente Mulder. Não posso mais lhe ajudar com o menino, a avó dele o tomou.

MULDER: - Só me responde uma pergunta: Quem é Douglas?

SMITH: - Eu sou Douglas.

Mulder mete um murro certeiro na cara de Smith que cai no meio do quarto. Ele se levanta, assustado.

MULDER: - Muito prazer Douglas. Eu sou o marido dela.

Mulder acerta outro soco em Smith. Scully arregala os olhos. Smith se levanta, tentando se localizar.

SMITH: - O que eu fiz?

MULDER: - Você? Nada.

Mulder mete outro soco nele. Scully se encolhe contra a parede. Abre um sorriso.

SMITH: - Ei cara, o que tá havendo?

MULDER: - Eu já disse que nada, ou além de burro você é surdo?

Mulder o empurra.

SMITH: - Eu vou denunciar você! Não pode agredir um cidadão!

Mulder vira-se de costas pra ele. Olha pra Scully.

MULDER: - (RINDO) Cidadão... Eu não tô vendo nenhum cidadão aqui. Você tá vendo, Scully? Eu só vejo um verme covarde. Metido a galã. Cara, você devia comprar um espelho, sabia?

Mulder vira-se e acerta outro soco em Smith. Ele voa pela janela, espatifando os vidros. Mulder limpa as mãos uma na outra. Olha pela janela.

MULDER: - Isso é pra você aprender a não se meter com a mulher dos outros.

SMITH: - Ahn???

Ele se levanta. Apenas a janela quebrada os divide.

SMITH: - Olha cara, quando eu a conheci você não tava na história.

Mulder acerta outro soco. Dessa vez Smith desaba no chão. Mulder olha pela janela.

MULDER: - Estava sim. Além de bicha é mentiroso.

SMITH: - Ahn?

Scully começa a rir. Coloca as mãos na boca.

MULDER: - Palhaço. Da próxima vez verifique uma coisa chamada alma, imbecil. Lá tava o meu nome gravado. Ela era minha. E se eu te pegar a um metro de distância da Scully, eu juro que vou te fatiar feito mussarela, veadinho.

SMITH: - Você é louco!

MULDER: - Ahn, louco? Ahhhhhhh... Você me chamou de louco? Não... Você não me viu louco ainda. Vem aqui na minha cara dizer quem é sardenta e feia. Vem, palhaço. Não vai sobrar um ossinho seu pra contar a história.

Mulder pula a janela, encanzinado, e sai atrás de Smith. Scully ri vingada.


11:01 A.M.

Mulder sentado na cama. Scully deitada, com a cabeça no colo dele. Assistem TV, comendo biscoitos.

NARRADOR: - No Congresso de endocrinologia realizado este ano no Canadá, a endocrinologista Dra. Katherine Wynne-Edwards impressionou a todos ao concluir que os futuros pais também estão sob a influência mágica das grandes variações hormonais durante a gravidez de suas mulheres e isso parece ser importante para que estes homens se tornem melhores pais.

Scully ri. Mulder também.

NARRADOR: - Primeiro vamos esclarecer um fato que talvez algumas pessoas desconheçam. O homem possui hormônios femininos assim como as mulheres possuem hormônios masculinos. A diferença está na quantidade presente no organismo ou seja, no homem os hormônios femininos existem em quantidades muito pequenas e, nas mulheres, claro, os hormônios masculinos existem em baixos valores. Como diziam os sábios chineses, nós, assim como todas as coisas, somos a resultante de duas forças: uma masculina, positiva, de expansão ou Yang e outra feminina, negativa, de contração ou Ying.

Os dois concordam com a cabeça.

NARRADOR: - ... Para a pesquisa escolheram 50 casais que estavam esperando um filho e os hormônios dos pais foram dosados, diariamente, durante a gravidez da mulher e após o nascimento do bebê. Verificou-se que os níveis de testosterona do futuro pai estão elevados durante toda a gestação mas, próximo ao parto, caem acentuadamente e, os níveis de estrogênio que normalmente são baixos no homem, se elevam chegando a valores maiores que os da mãe. Posteriormente essas taxas hormonais voltam ao normal, elevando-se novamente a testosterona. A prolactina, o hormônio responsável pelo aparecimento do leite materno, também se eleva no homem. Os cientistas pensam que isto seria como uma preparação para o pai, também, nutrir, cuidar e proteger a criança. Por outro lado, os maridos que apresentavam gravidez empática ou seja, apresentavam náuseas, ganho de peso e variações de humor também apresentavam níveis de prolactina e estrogênio mais altos.

MULDER: - Faz parte...

NARRADOR: - Estes fenômenos biológicos, entretanto, não ocorriam em todos os homens. Aqueles que não se envolveram socialmente ou emocionalmente com o processo da gestação e nascimento da criança, não apresentaram alterações hormonais mas, por outro lado, eram menos atenciosos e cuidadosos com os seus filhos. Estes achados científicos mostram o quanto a sociedade subestima o papel do pai no cuidado e atenção ao bebê, sempre reforçando a ideia de que "cuidar de criança é coisa de mulher." Um pai que larga todas as tarefas com a mãe pode achar muito cômodo, mas não percebe que está contrariando sua programação genética e fisiológica. Esse comportamento, muitas vezes gerado apenas por condições psíquicas e sociais, tem, portanto, profunda importância no desempenho de seu papel kármico e, em consequência, o homem não realiza inteiramente suas funções biológicas e espirituais.

Mulder coloca um biscoito na boca de Scully. Ela morde. Ele coloca o resto do biscoito em sua boca. Não tiram os olhos da TV.

NARRADOR: - Pai, alguém que gera, cria e protege em cada momento do dia. Assim, aparentemente, é o que a natureza espera. Estes dados lhe surpreendem? Então olhe para o universo à sua volta. Nele está escrito tudo o que podemos extrair de verdade. E, se pudermos ouvir o pulsar da vida e nos integrarmos a ela, melhor desempenharemos os nossos papéis.

Scully morde um biscoito e leva o outro pedaço à boca de Mulder.

NARRADOR: - Você já observou um casal de passarinhos? Os pássaros constroem o seu ninho juntos, carinhosamente, juntando as palhas e minúsculos gravetos e, enquanto o fazem, cantam. Quando nascem os filhotes, juntos, pai e mãe vão procurar a comida para os filhotes, voando e revoando milhares de vezes e, quando encontram o alimento, voltam ao ninho. Fazem o mesmo gesto, incansáveis, inúmeras vezes. Você sabia que os pássaros estão entre os melhores pais no reino animal?

Os dois balançam a cabeça negativamente ao mesmo tempo com olhares curiosos pra TV.


12:34 P.M.

Mulder aproxima-se da Kombi. Bate à porta. Ivan desce.

IVAN: - Mulder? (SORRI/ CURIOSO) O que foi aquilo? Vi você chutando o traseiro de um cara, sem parar, no meio da rua. A maior confusão, parou o trânsito! O que ele te fez?

MULDER: - Detesto gente ignorante. Ele não sabe que não deve se meter entre almas gêmeas. A gente já nasce marcado com o nome de quem ama... Eu só estava lavando a alma.

IVAN: - Puxa, quando for estendê-la no varal me avisa, tá? Vou pra bem longe.

MULDER: - Estou indo embora. Se quiser vender a Kombi algum dia, já tem comprador.

IVAN: - Essa não, é da família. Não divido. É a herança do meu filho. Arranje uma boa desculpa e me convença a fazer esse trailer ir parar na sua família.

Os dois riem.

IVAN: - E a cerveja?

MULDER: - Vai ficar pra próxima ocasião, de acordo com a sua teoria.

Joan desce do trailer.

JOAN: - Já? Mas nem conheci sua esposa. Quem sabe ficam pro almoço?

Scully fecha a porta do quarto. Aproxima-se deles.

SCULLY: - Oi, sou Dana.

JOAN: - Oi, sou Joan.

Joan e Scully se olham sorrindo. Joan faz um beiço de incômodo, levando a mão à barriga.

SCULLY: - Conheço você de algum lugar?

JOAN: - Não sei, mas... Também tenho uma sensação dentro de mim de que... Tem algo em você que algo dentro de mim conhece...


X

26/06/2001

17 de Agosto de 2019 às 01:32 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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