Terras de Xisto Seguir história

manuelamaro Manuel Amaro Mendonça

Nos princípios do século XX, o poder dos ricos sobre os pobres era ainda quase absoluto. As arbitrariedades cometidas sobre Maria Sobreira e o seu marido, vão deixar marcas em várias gerações.


De Época Todo o público.

#romance #crime #conto #portugal
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A Festa Fatal

Corriam os primeiros anos do século XX.

Na longínqua Lisboa, reinava despreocupado o bom rei D. Carlos e o mundo parecia ordenado e em paz;

O rei reinava, o governo legislava, os regedores mandavam, os proprietários enriqueciam e os pobres trabalhavam…

Engordavam os primeiros, enriqueciam os segundos e morriam de fome os últimos.

Tempos duros aqueles, com o pão de cada dia arrancado à força de braço nos terrenos de xisto. Longínquas as terras, agora tornadas próximas por autoestradas lavradas nas montanhas e máquinas possantes que devoram quilómetros.

Nos remotos montes do Norte do país, muito para trás deles, havia uma aldeia. Vista de cima, até não era pequena, com quase dois quilómetros de ponta a ponta. O casario estendia-se ao longo de uma sinuosa rua monte acima ramificando-se em pequenos becos. O ponto mais baixo da rua central era dominado pelo palacete setecentista onde vivia a família mais importante da região e no extremo mais alto pela Igreja tornada rica pelo fervor dos pobres e ostentação dos ricos.

O extremo, próximo do palacete, estava sossegado e as luzes das casas apagadas há algum tempo. Já passava das 23:00 horas e amanhã avizinhava-se um novo dia de árduo trabalho.

O céu daquela noite de inverno, excecionalmente sem nuvens, era dominado pela lua cheia cujos raios prateados iluminavam a paisagem.

Passadas apressadas de tamancos de madeira perturbaram a paz da noite ecoando rua fora.

Na casa verde junto da fonte, as pancadas violentas na porta acordaram a jovem mulher que ainda há pouco adormecera.

– Ó ti Maria! – Uma voz esganiçada de jovem gritava num dueto com as pancadas na porta – Ti Maria, abra a porta!

A jovem ergueu-se gritando um “Quem é?” mal-humorado enquanto desamarrotava a camisa de noite e se cobria com uma pequena manta. Os cabelos negros compridos, que lhe chegavam ao meio das costas, estavam pendurados sobre o nariz fino e afilado dançando à frente dos olhos azuis.

As pancadas e os chamamentos repetiam-se como se a não ouvissem:

– Ó ti Maria!

– Mafarricos te levem rapaz! Já lá vou! – Gritou novamente enquanto atravessava a cozinha e se dirigia para a entrada.

– Acuda à porta, depressa.! – Os gritos insistiam.

Abriu a porta com brusquidão surpreendendo o ofegante adolescente, escanzelado e de cabelos negros revoltos, que a olhava entre o surpreendido e o assustado.

– Que foi? Que queres rapaz, que acordas as almas deste mundo e do outro? – Maria, senhora dos seus quase trinta anos, enfrentou o jovem.

– Venha depressa! – Ofegou – Venha depressa, foi o Ti Zé…

Estas últimas palavras disse-as já em corrida de regresso para onde viera, tamanqueando rua fora e insistindo: – Venha depressa!

– Espera, rapaz! – Gritou ela – Rapaz! Tiago! Espera! Que aconteceu com o meu Zé? Fala!

Era inútil. Já não a ouvia, tamancando que ia de volta.

Correu para o interior da casa gemendo – Mafarrico… que terá acontecido? Aquele endemoninhado já se meteu em sarilhos outra vez.

Vestiu uma saia, cobriu-se com um xale e saiu correndo atrás do rapaz.

Agora eram os tamancos dela que ecoavam na rua ritmados com a respiração ofegante em crescendo com a sua aflição:

– Não há ninguém na rua… que terá acontecido… está toda a gente para lá…

O seu marido, Zé, não perdia uma festa e era normal, como era grande e forte, haver sempre alguém com um copito a mais que resolvia medir as forças com ele. A maior das vezes saía vitorioso, arranhado, pisado, mas vitorioso.

Maria sentia-se cada vez mais inquieta e, ao chegar à taberna, onde começavam os archotes iluminados, ouvia já o burburinho que havia para lá da esquina.

O frio mordia-a nas pernas mal protegidas e queimava-lhe as mãos e o rosto deixando-a corada. O seu respirar ofegante transformava-se em nuvens de vapor que saíam da boca.

Reduziu a velocidade instantaneamente assim que encontrou o ajuntamento.

Todos se começaram a calar e a abrir alas à sua chegada, rostos apreensivos, preocupados ou mesmo zangados.

– Que aconteceu? – Perguntava à direita e à esquerda sem que lhe respondessem. – Que houve, vizinha? – Perguntava à mais próxima que a olhava tristemente com as lágrimas nos olhos. – Diga-me por amor de Deus o que aconteceu, Ti Eduardo. – Pediu, sem parar os passos cada vez mais curtos, ao homem dos olhos grandes que desviou o olhar para o chão.

Acabou chegando ao centro do ajuntamento… uma obscena poça de sangue negro como a noite estendia-se no meio do círculo.

Uma nascente de lágrimas brotou dos olhos de Maria ao deparar com tão terrível vestígio e colocando as mãos enclavinhadas ao peito, chorou desesperadamente:

– Ai, valha-me Deus, o meu Zé! Ai, meu Senhor Misericordioso, valei-me.

– Cala-te mulher! – A ordem com uma voz forte carregada de desprezo veio do outro lado da poça. – Cala-te, que choras por quem o não merece. - Por entre os soluços, olhou surpreendida o fidalgo que a olhava com porte altivo com o pingalim na mão esquerda batendo no cano da bota. – Maldita és que trouxeste a desgraça à minha casa.

Com as mãos no peito, ela olhava incrédula em todas as direções à procura de uma alma caridosa que lhe explicasse o que se passava e porque era ela a causa da fúria do Senhor Samões, o homem mais importante da aldeia.

– Esse sangue que aí vês, pertence ao meu filho que acabaram de levar daqui entre a vida e a morte vítima do maldito assassino que é o teu marido. – Apontou o pingalim ao peito dela, como se tratasse de uma espada e ameaçou: – Cautela, Maria Sobreiro, hoje mesmo o Zé Sobreiro há de ser caçado como um cão e trazido de rastos aos meus pés para responder pelo crime que cometeu. Se te atravessares no meu caminho ou dos meus homens hás de levar tamanha tareia que nunca mais poderás andar pelo teu pé. Palavra de André Samões. Que sejas maldita tu e o perro canalha com quem te casaste com a minha bênção, amaldiçoada a hora. A ele, hei de esfolá-lo de chibatada como a um miserável que é e a ti, se me voltas a aparecer à frente, mato-te com as minhas próprias mãos.

Terminou a ameaça com uma chibatada na diagonal, muito perto do rosto da tão apavorada como espantada jovem e fez meia volta empurrando da sua frente os mais lentos à medida que se afastava em passos rápidos e decididos.

9 de Agosto de 2019 às 23:27 0 Denunciar Insira 0
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