S05#03 - INSTINCT Seguir história

lara-one Lara One

Mulder e Scully são chamados para investigar três assassinatos e o desaparecimento de cinco policiais envolvidos na busca pelo assassino. Apenas uma testemunha pode guia-los. Inspirado no filme ‘Mortos de Fome’ (Ravenous) – 1999


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S05#03 - INSTINCT

INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Condado de Williansburg – Carolina do Norte – 10:33 P.M.

[Som: Only You – The Platters]

[Fade out – tela escura se abrindo]

[Som dos grilos, misturados ao som da canção]

Câmera de aproximação lenta até o velho Cadillac azul, abandonado no alto da colina, de portas abertas, aparentemente ninguém dentro dele.

A câmera aproxima-se fechando o ângulo dentro do carro.

Foco nas poças de sangue espalhadas com pedaços de tecidos humanos, recobrindo os bancos da frente.


Corta para o carro da polícia que estaciona atrás. O policial desce, puxando a arma. Acende a lanterna e aproxima-se do carro com receio.

POLICIAL1: - Ei! Há alguém aí?

O policial caminha mais um pouco. Mira a lanterna dentro do carro.

POLICIAL 1: - (PÂNICO) Oh meu Deus!

Ele recua assustado, deixando a lanterna cair no chão.

Corta para a lanterna caída. Na direção em que a luz se projeta, surgem dois pés, usando tênis velhos. O policial mira a arma, pressentindo que não está só.

POLICIAL 1: - (ASSUSTADO) Eu vou atirar!!!!!!!!! Aproxime-se devagar e erga as mãos!!!!!!!!!!!

O policial completamente nervoso continua mirando a arma. O vulto aproxima-se dele revelando ser um homem, Frederic Nolan, de aparentemente uns 45 anos de idade, com as mãos pra cima.

NOLAN: - (GRITA/ ASSUSTADO) Não atire, por favor!

O policial pega a lanterna do chão rapidamente e mira no rosto de Nolan, que cego pela luz, coloca o braço na frente dos olhos. Suas roupas estão esfarrapadas, está sujo de terra e completamente assustado.

NOLAN: - (DESESPERADO) Precisa me ajudar!

POLICIAL 1: - Quem é você? O que aconteceu por aqui?

Nolan, num estado de nervos começa a chorar.

NOLAN: - (DESESPERADO) Pelo amor de Deus, vamos embora daqui, ele vai voltar!

POLICIAL 1: - Ele quem?

NOLAN: - (GRITA) Ele vai voltar!

POLICIAL 1: - Terei de algemá-lo, senhor.

NOLAN: - Não fiz isso! Pelo amor de Deus precisamos ir embora daqui!

O policial pega as algemas e aproxima-se de Nolan.

NOLAN: - (DESESPERADO) Não entende? Me leve pro distrito, faça qualquer coisa, mas vamos dar o fora daqui!

POLICIAL 1: - Vou pedir reforços.

NOLAN: - Não há tempo!!!!!!! Pelo amor de Deus, me escute, ou vamos morrer!!!!! Ele está atrás de mim!!!!!!!!

O policial deixa Nolan algemado no para-choques do Cadillac. Aproxima-se da viatura. Pega o rádio.

POLICIAL 1: - Aqui é Philips.

POLICIAL 2 (OFF): - Fale Phillips.

POLICIAL 1: - Tenho um homicídio na colina Clifford. O suspeito está algemado. Solicito refor...

Ele não termina de falar quando Nolan solta um grito. O policial ao virar-se sente o metal duro e afiado da machadinha em sua testa, rachando-lhe os miolos. Cai de joelhos no chão, com a fisionomia da morte estampada nos olhos abertos e o sangue que lhe escorre pelo rosto. Ao som da canção.

VINHETA DE ABERTURA: THE TRUTH IS OUT THERE



BLOCO 1:

Residência dos Montandon – Virgínia – 7:21 A.M.

Mulder e Scully entram no carro. Colocam o cinto de segurança.

SCULLY: - Acho que a senhora Montandon não terá mais problemas.

MULDER: - É, eu espero. Por que toda vez que alguém nos chama pra resolver um enigma, eu sempre tenho que levar a pior?

Ele liga o carro e toma a rua nada movimentada.

MULDER: - Ela me agrediu com a vassoura.

SCULLY: - Confundiu você com o suspeito.

MULDER: - Eu, hein? Olha pra mim e vê se eu tenho cara de suspeito?

SCULLY: - Hum... Acho que você ficaria muito bem naquelas fotos de perfil segurando uma placa com números...

Ele olha pra ela debochado. Dobra numa rua, subindo uma ladeira.

MULDER: - E agora? Vamos tomar a interestadual e ir pra Carolina?

SCULLY: - Por mim... Teremos de ir mais cedo ou mais tarde.

MULDER: - Vou dirigir mais um pouco, depois você assume.

SCULLY: - Para o carro!

Ele freia.

MULDER: - O que foi?

Ela olha pela janela. Ele abaixa a cabeça, olhando pelo vidro. Sorri. Scully perde os olhos pra alguma coisa, segurando um suspiro.

MULDER: - Por que todas as vezes que viemos pra Virgínia você quer parar aqui?

SCULLY: - Eu gosto de olhar pra ela.

MULDER: - Quer descer?

SCULLY: - Pra quê? Já me basta olhar.

Ele fica olhando pra Scully com ternura, sem que ela perceba. Ela continua olhando pra fora. Suspira.

SCULLY: - Tá, já olhei. Vamos embora.

MULDER: - Que tal você dirigir?

Mulder desce do carro, olhando para o que Scully olhou. Ela desce também. Entram novamente. Colocam o cinto. Scully liga o carro. Mulder pega um jornal que estava sobre o painel. Abre-o.

MULDER: - Confesso que tô caindo de sono... Isso é muito chato principalmente porque a semana começou hoje... (SORRI) Uhuhu!!!! Você leu isso?

SCULLY: - Não, eu não costumo ler esse tipo de jornal.

MULDER: - (OLHA PRA ELA) Hum... Isso quer dizer alguma coisa?

SCULLY: - (SORRI) ...

MULDER: - Fúria sexual: Casal "engata" durante sexo e acaba no hospital.

Ela olha pra ele. Ele rindo.

SCULLY: - (RINDO) Eu não acredito!

MULDER: - Escuta essa, Scully: Um casal de amantes acabou nu em um hospital, na cidade de Ipoh, na Malásia, depois de ficar "engatado" enquanto fazia sexo. Os dois não conseguiram se separar porque a mulher, de cerca de 50 anos, estava "anormalmente excitada" depois de ter tomado um estimulante sexual semelhante ao Viagra. (RINDO) O homem, de 60 anos, não conseguiu se desengatar.

SCULLY: - (BALANÇA A CABEÇA)

MULDER: - Não, olha só, o mico foi maior: Diante do problema, o casal entrou em pânico e pediu ajuda aos vizinhos. Acabou levado às pressas a um hospital, onde um médico aplicou uma injeção na mulher e a fez relaxar. Diante do caso, a imprensa local apelidou os amantes de "gêmeos siameses". (RI) "Mas o embaraço não acabou. Eles agora são alvo de curiosidade e risadas de seus vizinhos e as notícias da aventura se espalham como fogo", afirma o jornal The Straits Times, da Inglaterra.

SCULLY: - Imagina que situação...

MULDER: - Sabe o que é pior?

SCULLY: - Hum?

MULDER: - (DEBOCHADO) Eu não sabia que esse tipo de coisa podia acontecer... (RINDO) Ainda bem que não nos aconteceu na primeira vez...

Ela dá um tapa no ombro dele.

MULDER: - Au! ... (DEBOCHADO) Mas já me serve de aviso pra quando você ficar uma velha tarada...

SCULLY: - Mulder!!!!!!!!


Delegacia do Condado de Williansburg – 10:22 A.M.

Scully estaciona o carro na frente da delegacia. Mulder lê alguma coisa na pasta de Arquivo X que segura na mão, enquanto come batatinhas fritas.

MULDER: - Frederic Nolan, dado como desaparecido em 1995, juntamente com a esposa Kate Nolan. Sem filhos. O casal partiu em lua de mel com destino ao Mississipi e nunca mais ninguém teve notícias. Até a semana passada.

Mulder fecha a pasta. Scully olha pra ele.

SCULLY: - Abdução?

MULDER: - Não. Eu achava que era. Lembro bem da época em que desapareceram... Havia um fenômeno intenso de avistamentos de ÓVNIS e eu investiguei o caso.

SCULLY: - Não me lembro de ter ido com você.

MULDER: - Bem, digamos que eu fui sozinho. Era uma época em que eu não tinha nada de interessante pra fazer nas madrugadas a não ser caçar alienígenas e verdades.

Ela sorri. Abaixa a cabeça.

SCULLY: - E encontrou o que procurava?

MULDER: - Digamos que encontrei algo que eu não estava procurando, mas que foi a maior e melhor verdade que eu poderia ter encontrado.

Ela sorri, numa felicidade discreta. Mulder olha apaixonado pra ela. Os dois descem do carro. Scully fecha o sobretudo e coloca as mãos no bolso. Os dois caminham até a porta da delegacia.


Close do cartaz na porta de vidro: somente emergências, sem pessoal disponível.

Mulder e Scully trocam um olhar de questionamento. Mulder abre a porta pra ela. Scully entra, e ele a segue. Param no balcão. O Xerife Grossberg está ao telefone.

GROSSBERG: - Não, senhora Graham. Eu não posso ir até aí tirar seu gato da árvore. Sinto muito.

Mulder esboça uma fisionomia de deboche, enquanto Scully anda pela delegacia, pousando seus olhos curiosos por tudo. Grossberg olha pra Mulder.

GROSSBERG: - Só um momento, já atendo vocês... Não, senhora Graham, sinto muito.

Grossberg aperta outra tecla da central telefônica.

GROSSBERG: - Delegacia de Williansburg... Sim, me desculpe deixa-lo no telefone, senhor Martin, mas não posso verificar se há um intruso na sua casa. Pegue sua arma e qualquer coisa encha o cretino de bala.

Scully olha pra Mulder, assustada. Mulder olha pra ela, erguendo os ombros. Grossberg desliga. Olha pra eles.

GROSSBERG: - Espero que tenham lido o cartaz. Se não for nada que envolva morte, por favor, peçam ajuda aos bombeiros. E se já estiver morto, chamem o necrotério.

MULDER: - Quero falar com o xerife Grossberg, por favor.

GROSSBERG: - Eu sou o xerife.

Scully aproxima-se.

SCULLY: - Pensei que fosse o policial da recepção.

GROSSBERG: - (RI) Eu sou o recepcionista, o fazedor de café e confesso que até os banheiros eu estou limpando.

MULDER: - Onde está seu pessoal?

GROSSBERG: - Em algum lugar daquela colina ali atrás. Provavelmente mortos. Ei, de onde vieram? Não sabem das notícias da cidade?

Grossberg sai de trás do balcão, revelando ser um sujeito gordo. Aproxima-se deles. Mulder puxa a identificação.

MULDER: - Sou o agente Mulder, esta é a minha parceira, a agente Scully.

Mulder troca um aperto de mão.

GROSSBERG: - (FELIZ/ QUASE DESTRONCANDO O BRAÇO DE MULDER DE TANTO CUMPRIMENTÁ-LO) Ah, meu Deus! Obrigado, obrigado por terem vindo.

MULDER: - (DEBOCHADO) Chamou o FBI pra salvar gatinhos das árvores e fazer café, xerife? Sinto muito, até temos referências como limpadores de banheiro, mas nos aposentamos.

GROSSBERG: - (SORRI) Pra dizer a verdade, eu não sei o que é um bom café há dias!


Corta pra cozinha da delegacia. Scully faz um café, enquanto o xerife exibe as fotos grotescas do crime.

GROSSBERG: - Noite passada.

Mulder ao olhar as fotos, coloca as mãos na boca, fazendo cara de nojo.

GROSSBERG: - (INCRÉDULO) Horror a sangue?

MULDER: - (DEBOCHADO) Não, apenas um enjoo temporário. Acho que estou grávido. Sabe como são essas coisas...

Grossberg sorri, revelando sua simpatia.

GROSSBERG: - Gosto de policiais com senso de humor, Mulder. Acho que vamos nos dar bem. Olha, eu mandei o que sobrou dessa gente pro pessoal de vocês em Washington e com a placa do carro, descobri que se tratava de um casal de namorados, Jenny Holdberg e Bob Duffley. Ainda não encontramos os corpos.

MULDER: - E Nolan?

GROSSBERG: - Nolan foi encontrado na cena do crime. Aí está o bizarro, mas confesso que prefiro chamar Nolan aqui e faze-lo explicar tudo o que me disse.

MULDER: - E o que exatamente ele disse? Pode me adiantar algo?

Scully serve o café. O xerife chega a cheirar a xícara, aspirando o aroma do café, com um sorriso de satisfação. Scully senta-se.

GROSSBERG: - Mulheres... O que seria dos homens sem esses anjos que Deus colocou ao nosso lado aqui na Terra?

Scully olha pra ele.

GROSSBERG: - Senhorita, aposto que seu café não chega aos pés da sua competência como detetive e muito menos da sua beleza.

Scully dá um sorriso meio tímido. Grossberg fala e gesticula muito.

GROSSBERG: - O policial que encontrou o carro foi morto. Não encontramos o corpo dele, apenas sangue, espalhado por todo o local. Quando chegamos, Nolan estava algemado ao Cadillac, histérico, em choque. O trouxemos até aqui. Depois de o interrogarmos, Nolan nos disse que nunca acharíamos os corpos. Apenas as ossadas. Mandei meu pessoal revirar a floresta de cabeça pra baixo e o resultado disso é que o único policial que ainda está vivo sou eu. Por isso estou sozinho aqui. Porque não subi aquela colina.

MULDER: - Espera aí, mas como seu pessoal sumiu? Como Nolan reapareceu?

SCULLY: - Ossadas???

GROSSBERG: - Vão escutar isso da boca de Nolan, agentes. Eu já não duvido mais de nada. O fato é que estou arrepiado até os ossos com isso. E preciso de vocês pra pegar o canalha que está escondido naquela colina. E quando eu o pegar, vou esfola-lo vivo!


11:36 A.M.

Na sala de interrogatórios, Nolan acende um cigarro. Senta-se na cadeira. Scully o analisa com os olhos. Mulder o interroga. Grossberg apenas escuta, tomando café.

MULDER: - Onde estava, senhor Nolan, durante todo esse tempo?

NOLAN: - ... Agente Mulder, eu e minha esposa estávamos indo pra nossa lua de mel. E resolvemos dar carona a um estranho. No meio do caminho, paramos num restaurante e quando voltamos pro carro, o estranho estava acompanhado de mais três homens. Nos fizeram de reféns. Já tinham planejado isto, eu calculo, porque eu queria parar antes, mas ele disse que o melhor local pra se comer alguma coisa era esse restaurante.

MULDER: - (DEBOCHADO) Ficaram sequestrados por sete anos? Sem pedido de resgate?

NOLAN: - Eles nos trouxeram pra cá, nos levaram pra floresta. Nos mantiveram em uma caverna, num buraco. Então começou o pesadelo. (NOLAN PÕE AS MÃOS NO ROSTO/ TENSO)

SCULLY: - Que pesadelo?

Nolan olha pra ela, de cima a baixo. Disfarça.

NOLAN: - Esse estranho era o chefe da gangue. Chama-se Cunningham. Ele começou a matar seus capangas um por um. E a devora-los.

MULDER: - Como assim?

NOLAN: - Canibalismo, agente Mulder. E foi assim que nos alimentava, nos mantendo vivos.

Dessa vez é Scully quem coloca as mãos na boca. O xerife olha pro café e larga a xícara.

NOLAN: - Ele... (NERVOSO) Ele... Ele mata as pessoas pra come-las. Alimenta-se de carne humana. O cara... O cara é um maluco. Chegou a ponto de dizer pra mim e Kate que precisava de gente nova na turma, por isso estava devorando os amigos.

SCULLY: - Eu não estou entendendo nada. Me explique isso direito. Como você reapareceu?

NOLAN: - Fugi dele. Só restou Cunningham, eu e minha esposa. Minha esposa está ferida. Eu percebi que não haveria mais nada a fazer, precisava pedir ajuda e tentar fugir daquele buraco.

SCULLY: - Você comeu carne humana por sete anos?

NOLAN: - Sim, agente Scully. (COMEÇA A CHORAR) Não havia mais nada, era questão de sobrevivência... Deus me perdoe... Me perdoe...

Mulder olha pra ele com piedade. Segura-lhe o braço, tentando conforta-lo.

NOLAN: - ... A gente nunca sabe do que é capaz de fazer! É o instinto de sobrevivência que nos rege nessa hora. Ele atirava pedaços de carne pra dentro do buraco, enquanto comia e nos observava. No início relutamos. Mas eu estava definhando e Kate já começava a apresentar estágio avançado de anemia... Até que não houve outra alternativa.

MULDER: - Ele alguma vez disse que ia matá-los?

NOLAN: - Não, ele disse que nos queria como companheiros dele. Bichinhos de estimação. Então saía e voltava com um corpo. Havia comida ali pra uma semana.

XERIFE: - Canalha desgraçado... Eu digo que esse país está cheio de gente maluca!

NOLAN: - Ele é um maníaco! Ele é um louco! Eu consegui fugir do buraco, precisava tentar conseguir ajuda! Foi quando vi o casal de namorados no Cadillac. Mas o desgraçado do Cunningham veio atrás de mim. Ao ver comida fresca, não resistiu.

MULDER: - E por que ele matou o policial e não levou você com ele?

NOLAN: - Por que eu estava algemado. Isto me salvou. Ele levou três corpos, o que significa que terá alimento por um bom tempo e assim, minha esposa ainda ficará viva. Eu preciso que voltem comigo até lá, lhes mostrarei o caminho. Preciso salva-la! Pelo amor de Deus, não podem deixar Kate lá em cima com aquele louco!

GROSSBERG: - Mandei meus homens, agente Mulder, mas Nolan voltou sozinho. Cunningham os pegou. Acho que vocês do FBI tem um treinamento melhor pra lidar com esse tipo de coisa.

NOLAN: - (DESESPERADO) Eu só quero minha mulher de volta! Eu... Eu estou nervoso, ela está lá em cima, sozinha com aquele louco!


Motel Hill's Breeze – 8:49 P.M.

A televisão ligada no noticiário. Scully já está deitada, de camisola, lendo atentamente a ficha de Nolan.

APRESENTADORA: - Ainda continua a polêmica dos terroristas que roubaram tecnologia do exército americano, há duas semanas atrás.

Scully aumenta o volume e presta atenção na TV.

APRESENTADORA: - O governo ainda não quer divulgar a nacionalidade dos terroristas. Conforme o porta voz da presidência, essa medida foi tomada para reafirmar a política de paz, proposta pelo novo governo. O presidente afirmou que um grupo terrorista não deve ser motivo para gerar uma guerra entre países e que está tratando disso diplomaticamente com o país envolvido. Os terroristas, mortos numa explosão de um antigo depósito militar, em Utah, haviam roubado tecnologia secreta de guerra do exército americano e estavam utilizando em experimentos genéticos. Cerca de 100 pessoas foram alvos da tirania. Hoje, houve muitas manifestações na frente do congresso, por líderes pacifistas, vítimas e ufólogos... Alguns afirmam que eram experiências alienígenas. O exército afirma que este tipo de comentário por parte das vítimas é normal, pois as substâncias a que essas pessoas foram expostas, causam alucinações. O Senador Richard Matheson, declarou que já abriu um inquérito junto ao senado para apurar realmente o que aconteceu e punir os culpados.

SCULLY: - (INDIGNADA) Ouviu isso, Mulder? E só 100 pessoas estavam lá. As outras quinhentas foram delírio nosso. Afinal, fomos expostos a substâncias alucinógenas, isso é normal. Inclusive, esses pontos aí na sua barriga são ilusão de ótica!

MULDER: - (GRITA DO BANHEIRO/ DEBOCHADO) É, Scully... Esses terroristas de outro planeta são um problema. Mas deixa que Matheson vai apurar a verdade e punir os culpados... Junto com o Fumacinha...

Scully desliga a TV, indignada. Volta a ler os papéis.


BLOCO 2:

Mulder sai do banheiro, cabelos molhados, usando pijama.

MULDER: - (RESMUNGANDO) Eles pensam que eu sou doido de subir num lugar daqueles durante a noite, com um canibal maluco? Nem morto! Preferia estar num cemitério cheio de espíritos zombeteiros.

Scully olha pra ele.

SCULLY: - Mulder? Você com medo de alguma coisa? Principalmente uma coisa lógica como um serial killer ou um canibal, como disse Nolan?

Mulder se enfia debaixo do lençol. Ajeita o travesseiro e se estende todo na cama.

MULDER: - Aí é que está, Scully. Minha mãe dizia: a gente deve temer os vivos porque os mortos não incomodam.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Mulder, você está bem?

Ele vira-se pra ela, mexendo as sobrancelhas num ar safado.

MULDER: - Não. Eu tô sofrendo.

Ela não desgruda os olhos dos papéis, mas presta atenção em Mulder, segurando um riso.

SCULLY: - Sofrendo?

MULDER: - (PIDÃO) Humhum. Não tem peninha de mim?

SCULLY: - (SE DEIXANDO CAIR NO JOGO) Por que você está sofrendo?

MULDER: - (PIDÃO) Porque estou sendo deixado de lado, trocado por um Arquivo X, indefeso, sozinho, com frio, abandonado, sem carinho...

Ela morde os lábios, segurando o riso, mas continua olhando pros papéis.

SCULLY: - Precisamos trabalhar.

MULDER: - Eu sei. Eu quero trabalhar. Mas de outro jeito.

Ela olha pra ele.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Está me cantando?

MULDER: - (CÍNICO) Eu? Ora, imagina!

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - (DEBOCHADO) Scully...

SCULLY: - Leia esses papéis.

MULDER: - Já li. Agora quero ler outra coisa.

Mulder se enfia embaixo do lençol. Scully dá um pulo.

SCULLY: - (RINDO) Mulder! Chama isso de leitura?

MULDER: - É braile, Scully. Não conhece braile?

SCULLY: - Mulder, desde quando você é cego?

MULDER: - Desde que me apaixonei por você, virei um cego errante.

Ela ergue as sobrancelhas. Ele sai de baixo do lençol e olha pra ela.

MULDER: - Essa foi terrível, né? Confessa. Foi a pior de todas.

SCULLY: - Concordo.

MULDER: - Preciso melhorar minhas cantadas.

SCULLY: - Você podia ter dito assim: Estou cego de amor por você.

MULDER: - É... Podia.

SCULLY: - Não acha que isto ficaria mais... Vamos dizer... Simples, direto e atrativo?

MULDER: - Aceito aulas particulares.

Ela ri. Senta-se sobre as pernas dele. Começa a abrir o casaco do pijama. Ele olha pra ela.

MULDER: - (PIDÃO) Ah, não... Scully...

SCULLY: - Sim senhor! E se não me deixar fazer isto, não vai conseguir nunca mais fazer 'exercícios abdominais'.

MULDER: - Você é uma sádica, sabia???

Ela abre o pijama dele, revelando o enorme curativo na barriga.

MULDER: - (MEXE AS SOBRANCELHAS/ SAFADO) Já curou. Posso até fazer ginástica.

Ela olha pra ele, debochada. Aperta. Ele grita.

SCULLY: - Ah, curou né? Mulder se não cuidar disso vai acabar infeccionando os pontos.

MULDER: - Mas dói!

Ela puxa o curativo com toda a força.

MULDER: - Aiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!!

SCULLY: - Não senti nada.

MULDER: - Método de depilação a seco???

SCULLY: - Não. Método de depilação no grito... Você deveria estar em casa, tentando se recuperar.

MULDER: - (BIRRENTO) Eu não quero ficar em casa!

Mulder mostra os dentes imitando Hannibal.

MULDER: - Clarice...

Scully sorri. Levanta-se e vai pegar sua maleta médica. Começa a tratar dele.

SCULLY: - Caiu na do Nolan? Mulder, estou seriamente desconfiada de que tem alguma coisa estranha nessa história.

MULDER: - O álibi dele é que estava algemado no carro. Não poderia atacar o policial. A menos que tivesse um cúmplice.

SCULLY: - Cunningham?

MULDER: - Scully, eu te confesso que acredito nele. Você viu como ele estava nervoso.

SCULLY: - Mulder, se você é chefe de uma gangue e é canibal, por que você devoraria os da sua confiança e deixaria os estranhos por último?

MULDER: - ... Bichinhos de estimação?

SCULLY: - Se eu estivesse ferida e correndo perigo, você me deixaria num buraco e fugiria pra pedir socorro?

MULDER: - Não, mesmo sabendo dos riscos eu te levaria junto ou chamaria a atenção do sequestrador pra você fugir.

SCULLY: - Algo aí não se encaixa, Mulder. Já pensou que isto pode ser um álibi? Nolan mata a esposa, inventa essa coisa toda de canibalismo, mata o casal do Cadillac, induz os policiais a uma busca e desaparece com eles para fazer crédito ao mito que criou.

MULDER: - Mas mesmo assim, Scully, quem matou o policial do carro naquela noite?

SCULLY: - Um cúmplice de Nolan?

MULDER: - Talvez.

SCULLY: - Quer minha opinião? Estamos lidando com um maluco, um sujeito psicótico que quer chamar as atenções pra ele como maneira de provar que é mais esperto. Tanto que você ouviu do próprio xerife: Nolan deu a ideia de chamar o FBI.

MULDER: - (PENSATIVO)

SCULLY: - Mulder, esse homem está jogando alto. Ele quer ser mais esperto, provar que é mais inteligente que a polícia, talvez seja até mesmo um caçador de troféus. Lembra-se das nossas muitas conversas até altas horas sobre a natureza humana e sua complexidade? Enganar o FBI deve ser a medalha de ouro que Nolan quer em sua coleção.

MULDER: - Scully temos um Arquivo X aqui. Não há dúvidas. E só vou obter a resposta se subir naquela colina.

SCULLY: - Por quê? Pelo sumiço dos corpos? Mulder, e se ele tem um cúmplice, como eu acho que tem? E este cúmplice está nos esperando lá em cima daquela colina?

MULDER: - Vamos pensar. Se Nolan está mentindo, ele segue um padrão. Então é um serial killer e seriais killers matam sozinhos. Bem, geralmente. Se há um cúmplice, então teríamos de descartar a hipótese de Nolan ser um assassino em série. Caímos na pergunta: então por que ele e o cúmplice mataram essas pessoas? Não há ligação alguma entre elas.

SCULLY: - Matar por prazer? Você sabe muito bem que o ser humano é o único animal que mata por prazer. Ainda acho que Nolan é um exibicionista, um caçador de troféus.

MULDER: - Scully, eu acredito em Nolan. Acho que há algo acontecendo lá em cima. E pode ser canibalismo, por que não?

SCULLY: - Mulder, mas ele afirma que ficou por sete anos sequestrado! Não acha que isto é algo estranho demais? Por que alguém sequestraria uma pessoa pelo simples fato de manter a vítima em cativeiro?

MULDER: - Já ouve casos assim, mas envolviam crianças e pedofilia.Nolan esconde algo, disso eu tenho certeza. Talvez ele tenha sido abduzido e inventou a coisa dos canibais porque dariam crédito pra ele. Afinal, canibalismo é algo mais plausível para as pessoas. Extraterrestres não. Talvez haja uma nave lá em cima, um portal... E Nolan quer que encontremos, porque sua esposa esta lá. Isso explicaria porque sugeriu ao xerife que nos chamasse. (RI) Estamos ficando famosos, Scully...

SCULLY: - Mulder, canibalismo e extraterrestres são duas coisas completamente bizarras! Se o caso fosse esse, ele poderia ter inventado outra coisa, mas não canibalismo, como forma de justificar uma abdução! Poderia ter dito que sofreu amnésia, sei lá.

MULDER: - ... Ai! Vai com calma aí!

SCULLY: - Pronto.

Ela abotoa o pijama dele e deita-se.

SCULLY: - Estou pressentindo algo ruim, Mulder. Eu não gosto daquele homem. Ele tem alguma coisa ruim dentro dele.

MULDER: - (EMPOLGADO) Pressentindo?

SCULLY: - Sim... E a experiência me diz que devo dar ouvidos.

Mulder dá um sorriso. Abraça-se nela, recostando a cabeça em sua barriga. Fecha os olhos. Ela afaga os cabelos curtíssimos dele.

MULDER: - Amanhã vou até aquela colina. Você fica aqui.

SCULLY: - Ah, não vai não. Eu vou com você. Sozinho você não vai.

MULDER: - Não sei o que há lá em cima, Scully. Não quero colocar você em risco. Você pode fazer coisas úteis por aqui.

SCULLY: - Como o quê?

MULDER: - Salvar gatinhos que subiram em árvores e fazer café.

SCULLY: - Mulder, eu sou uma agente federal e não tenho treinamento pra salvar gatinhos e fazer café, mas pra pegar canalhas mentirosos e assassinos. Eu vou com você e ponto final. Ser sua mulher não te dá o direito de me proteger.

MULDER: - Scully, agora tenho uma justificativa. Você fica aqui e eu vou. E não vamos mais discutir isso. Eu sou o seu marido e você tem que concordar comigo diante das circunstâncias. Portanto, você não vai e ponto final. Afinal de contas, quem é o galo da casa? Quem é que manda nessa merda?


Colina Clifford – 7:21 A.M.

Mulder sobe a colina, acompanhado do xerife e Nolan. Todos de mochila nas costas.

MULDER: - Quanto tempo até o topo?

GROSSBERG: - Uma hora, uma hora e meia de caminhada. Mas é bom trazer equipamentos, caso precisemos passar a noite na floresta. Acampa muito, agente Mulder?

MULDER: - É, eu não fui um bom escoteiro.

GROSSBERG: - Fazia as fogueiras ou pescava?

MULDER: - Contava piadas de sacanagem enquanto os outros faziam isto.

Corta pra Scully, que vem atrás deles, ao longe, usando botas, casaco de lã e carregando uma mochila. A pobre vem torta de tanto peso. Mulder espera por ela.

MULDER: - (INDIGNADO) Você é a rainha da teimosia. Sabia disso?

SCULLY: - Sabia que sou uma Scully? Se não sabia deveria ter se precavido antes de dividir sua vida comigo, ô 'galo da casa'. Deveria ter checado as informações sobre as mulheres da família Scully. Todas, com exceção da minha avó, são teimosas.

MULDER: - Sua avó não é teimosa? Por quê?

SCULLY: - Porque ela já morreu.

MULDER: - Se alguma coisa te acontecer eu não vou chorar.

SCULLY: - Ótimo.

MULDER: - Teimosa!

Ele sai na frente dela, emburrado. Ela o segue, com dificuldades.

SCULLY: - Mulder!

Ele para. Olha pra ela. Ela se aproxima.

SCULLY: - (SÉRIA) Mulder, não leve a mal, é só mais outra dica, visto que sua mãe era péssima em matéria de educação de filhos.

MULDER: - O quê eu fiz dessa vez?

SCULLY: - Não é nada educado sair caminhando e deixar uma mulher pra trás. Você já está abrindo portas e puxando cadeiras. Precisa ao menos saber disso.

MULDER: - ????

SCULLY: - Você sempre fez isso. Há anos você faz isso! E não é educado. Pouco importa se sou sua amiga, sua esposa ou uma estranha. Isto não é cavalheirismo. É falta de educação.

MULDER: - ... (INDIGNADO) Mulheres...

SCULLY: - Só estou te ensinando. Você não tem culpa se não sabe. É como a coisa dos farelos pela casa.

MULDER: - ...

Os dois continuam caminhando. Mulder, sem olhar pra ela, resmunga.

MULDER: - Me chame a atenção quando eu fizer isso. É inconsciente. Hábito adquirido por andar muito tempo sozinho.

Ela sorri. Ele continua sério. Para, como se atinasse alguma coisa. Ela para também. Mulder aproxima-se dela.

MULDER: - Me dá a mochila. É peso demais pra você.

SCULLY: - Mulder...

Ele retira a mochila dela e carrega no ombro.

SCULLY: - Vai conseguir levar duas mochilas?

MULDER: - Você também deve cansar de carregar coisas pra mim, não é?

Ela sorri.

SCULLY: - Nunca.

MULDER: - Mas tudo bem, deixa que essa carga eu carrego.


8:19 A.M.

Mulder caminha ao lado de Nolan. Scully e o xerife vão na frente.

MULDER: - Cunningham falava alguma coisa pra você?

NOLAN: - Como assim?

MULDER: - De onde adquiriu o hábito de canibalismo?

NOLAN: - Nunca.

MULDER: - Dizem que quem come carne humana uma vez acaba se viciando. Dizem que o gosto é diferente. Que nenhuma carne é igual.

NOLAN: - Já experimentou, agente Mulder?

MULDER: - ... Infelizmente. E me dá nojo de lembrar.

NOLAN: - (CURIOSO) Por vontade própria?

MULDER: - Não. Eu comi sem saber. O "delicioso filé da senhora Lee". Argh!

NOLAN: - Dizem que a carne humana tem poder.

MULDER: - Existem vários significados pra isto. Algumas tribos primitivas dizem que quando você se alimenta da carne de outro ser humano você adquire o conhecimento, o espírito, a força daquela pessoa. Sua alma torna-se forte e imortal. Também é parte de um mito dos índios americanos. Segundo eles, quando um homem come a carne de outro homem, ele aprisiona a força e o espírito da vítima. Assim como os vampiros em relação ao sangue, quanto mais carne humana o canibal ingere, mais poderoso ele se torna. E mais incapaz de resistir a repetir o prato.

NOLAN: - Acha que eu comeria aquilo de novo?

MULDER: - Poderia sentir a necessidade.

NOLAN: - Você sentiu? Ora, isso é mito, agente Mulder. Só de lembrar do gosto fico enjoado. Ou você acredita nestes mitos?

MULDER: - Não, eu não acredito. O canibalismo é uma forma antiga de humilhar o inimigo, de triunfar sobre ele. Uma crença completamente arcaica.

NOLAN: - E se fosse apenas pelo prazer de comer carne?

MULDER: - Chamaria isto de insanidade.

NOLAN: - Penso que Cunningham deve ter algum cunho religioso, alguma seita... Talvez foi criado comendo carne humana e não consiga se alimentar de outra coisa.

MULDER: - Filho de uma sociedade de canibais?

NOLAN: - Por que não?

MULDER: - Interessante sua teoria. Uma comunidade canibal, onde todos se alimentavam de carne humana e então, os descendentes continuam o ritual dos antepassados...


Corta para Scully e o xerife.

GROSSBERG: - Não é um bom lugar pra uma mulher, agente Scully. Não me interprete como um machista, apenas estou tentando ser cavalheiro.

SCULLY: - Eu sei cuidar de mim mesma, xerife.

GROSSBERG: - Não duvido disso. Mas sempre me perguntei porque mulheres como você entram para a polícia.

SCULLY: - Como assim?

GROSSBERG: - Me desculpe, não me interprete mal. Mas você é uma jovem bonita. Poderia fazer qualquer coisa por aí e seria notada. Qualquer coisa mais segura do que ser policial.

SCULLY: - (SORRI)

GROSSBERG: - Mas arriscar sua vida na polícia??? Nunca teve dúvidas?

SCULLY: - ... Bem, eu tive. Pensei muito, mas era uma boa oportunidade de carreira.

GROSSBERG: - Mas você é médica, não é? Quer carreira melhor e mais respeitável do que ser médica?

SCULLY: - Sabe xerife, algumas coisas parecem ser predestinadas. Estão escritas. É como se gente nascesse com um rótulo dizendo a quê ou a quem pertence. Eu não sei. Acho que escolhi isto por birra. Pra mostrar que eu era forte. Que eu podia contrariar minha família, sei lá...

GROSSBERG: - Um karma?

SCULLY: - Talvez. Mas não me arrependo. Antes eu me questionava do porquê havia entrado no FBI. Mas agora não questiono mais.

Ela olha pra trás. Olha pra Mulder e sorri.


BLOCO 3:

Mulder e Nolan estão conversando, enquanto caminham.

MULDER: - Em várias partes da Ásia a antropofagia foi resultado da fome, da guerra e do desejo de vingança. O desejo canibalístico de devorar inimigos. Embates furiosos e desesperados que o Rei Suriyavarman II e Vishnu travaram contra inimigos e demônios, chamados Danavas. Na Batalha de Lanka, o exército de Rama e o deus-macaco Hanuman lutam contra soldados de Ravana, o rei demoníaco de dez cabeças, arrancando e mastigando pedaços de carne. Na Índia e no Nepal, a adoração de ícones de deuses canibalísticos está arraigada aos rituais cotidianos. Deuses e deusas hindus, tântricos e budistas são representados em manifestações horrorosas e amedrontadoras. Hayagriva, Hevajra Heruka, Yamantaka, Samvara são ferozes, flamejantes e terríveis, suas múltiplas cabeças e membros ornamentados com objetos feitos de osso e colar em que as "contas" são 51 cabeças recém-decepadas.

Nolan olha pra Mulder, impressionado.

NOLAN: - Interessante, mas ao mesmo tempo um pouco medonho... Comer o inimigo por vingança, por raiva... Comer por prazer...

MULDER: - Na suprema tradição ioga, Tantra, Kalachakra, Guhyasamja, Mahakala surgem como ícones coléricos, em posição de cópula, com seus consortes, enquanto dançam. A força feminina chamada sakti, evocada na adoração de deusas, e a adoração da genitália feminina, muitas vezes estão relacionadas com a devoração de carne e fluidos humanos. Em Madras, uma escultura de pedra mostra um devoto em pé entre as pernas de uma deusa, bebendo "a sublime essência", ou yoni-tattva. No saktismo, o fluido menstrual é considerado sagrado e, portanto, venerado. O sangue-alimento pode ser tomado como bebida ritual, ao prestar-se homenagem à yoni, tocando-a com os lábios.

NOLAN: - (INCRÉDULO) Você está falando sério?

MULDER: - Meu cunhado estuda muito essas coisas de religiões e crenças orientais. Ele é Budista.

NOLAN: - Fascinante! Medonho, mas fascinante!

MULDER: - Kali, uma das personificações da energia primordial mais inebriante, é representada como feroz e assustadora. Porta uma guirlanda de cabeças humanas e uma cinta de mãos humanas, seus três olhos vermelhos são flamejantes. Entre gargalhadas terríveis, devorou o exército demoníaco. Kali é adorada como Mãe Divina e também como A Senhora da Morte. Assim como Devi, muitas vezes Kali aparece montada em Shiva, em ato de fornicação, enquanto bebe seu próprio sangue para nutrir uma nova vida gerada pelo sangue-néctar que escorre de seu pescoço decepado. Para os ascetas Aghori, indianos da seita Shiva, ruim é bom, vida é morte e sujo é limpo. Vê a dualidade das coisas se quebrar? Para nós ocidentais isto seria loucura.

NOLAN: - Então na verdade o universo foge à dualidade. Deus pode ser bom. Mas pode ser mal. E na verdade, as duas coisas se completam. Ele é as duas coisas. Tudo é duo no universo.

MULDER: - Exatamente. Yin-Yang. Por isso as pessoas tendem a ficar presas em suas concepções, separando tudo. Mas tudo é parte do mesmo elemento, uma coisa só. Alguns deles comem carne humana em decomposição e misturam suas próprias excreções corporais com água para beber, na crença de ganhos espirituais.


Corta para o xerife. Ele olha pra Scully.

GROSSBERG: - Seu parceiro está me assustando com esse assunto... Ele é meio estranho...

SCULLY: - Não ligue pro Mulder. Quando ele acha algum desavisado, despeja seus conhecimentos, empolgado pra que alguém discuta contra ou reforce suas teorias...

GROSSBERG: - (ASSUSTADO) É, eu faço isso sempre. Mas com futebol.


9:56 A.M.

Mulder larga as mochilas no chão. Scully senta-se numa pedra, massageando as pernas. Mulder aproxima-se do xerife.

MULDER: - Se esse atalho caminhando leva menos tempo do que pela estrada de carro, eu não sei. Mas que realmente percebi que estou fora de forma...

GROSSBERG: - (SORRI) Isso é bom pra queimar aquela maldita cervejinha e os quitutes da esposa durante os jogos nos finais de semana.

MULDER: - (SORRI) ...

GROSSBERG: - Embora você me pareça magro.

MULDER: - Estou de dieta rígida. Não posso fugir.

GROSSBERG: - Colesterol? Eu sofro disso. E de pensar que meu avô comia pão com banha de porco pura e viveu até os 100 anos. Isso deve ser invenção da mídia pra nos fazer consumir produtos dietéticos que alteram nosso organismo.

MULDER: - (SORRI) Eu digo isso pra Scully e ela diz que eu sou doido...

GROSSBERG: - Bem, foi aqui que encontramos o carro. Pode ver pelas marcas de pneus.

Nolan, distante, observa a paisagem. Scully aproxima-se deles. Mulder olha pra ela.

MULDER: - Está bem?

SCULLY: - Ótima. Precisava de exercícios.

MULDER: - Desculpe, xerife. Prossiga.

GROSSBERG: - Bom, o carro estava aqui. Nolan preso nele, mas nenhuma pista do corpo do Phillips. Se alguém o arrastou pra dentro dessa floresta, fez questão de limpar as marcas.

Mulder olha pra floresta. Olha pra Scully.

MULDER: - Quer desistir?

SCULLY: - Meu nome é Scully. A palavra desistir não consta no meu dicionário.

Scully respira fundo e entra na floresta. O xerife olha debochado pra Mulder.

GROSSBERG: - Entendeu, né?

MULDER: - É, entendi. Entendi que se arranjar uma amante e pedir divórcio, estou ferrado!

Os dois riem. Mulder pega as mochilas e entra na floresta. O xerife olha pra Nolan.

GROSSBERG: - Vamos, Nolan! Vamos buscar sua esposa. E encher esse canibal cretino de bala.


11:39 A.M.

Mulder para. Encosta-se numa árvore, ofegante. Fisionomia de dor. Nolan observa o lugar.

Geral do lugar, há apenas árvores.

Nolan coloca as mãos na cintura.

NOLAN: - Eu não entendo...

GROSSBERG: - Tem certeza de que este é o caminho?

NOLAN: - Sim, eu tenho! Mas não encontro a caverna!

Mulder senta-se no chão, coloca as mãos na barriga. Scully vai até ele, agacha-se a seu lado.

SCULLY: - Mulder, está sentindo dor?

MULDER: - Estou.

Scully levanta-se. Olha pro xerife e Nolan.

SCULLY: - Podemos parar um pouco?

GROSSBERG: - O que ele tem?

SCULLY: - Ele sofreu uma cirurgia há duas semanas e nem deveria estar caminhando tanto.

Nolan olha pra Mulder. O xerife senta-se ao lado de Mulder.

GROSSBERG: - Vamos descansar.

Scully dá um comprimido pra Mulder e uma garrafa de água. Nolan fica procurando com os olhos. Scully aproxima-se dele.

NOLAN: - Não sei... Acho que estou perdido.

SCULLY: - Ou não existe caverna alguma?

Nolan olha pra ela incrédulo.

NOLAN: - Não está achando que eu estou envolvido nis...

Scully dá as costas. O xerife olha pra ela. Olha pra Mulder.

GROSSBERG: - Alguma teoria que não sei?

MULDER: - Minha parceira acha que Nolan está envolvido, mas eu descarto a hipótese.

GROSSBERG: - ... (ASSUSTADO) Sua cirurgia aí não tem nada a ver com colesterol, têm?

MULDER: - (SORRI) Não. Eu não sofro de colesterol. Fui atacado.

GROSSBERG: - Faca?

MULDER: - Garras.

GROSSBERG: -O que estava perseguindo? Um urso?

MULDER: - Deixa pra lá, xerife, não acreditaria mesmo...


7:39 P.M.

O xerife termina de fazer uma fogueira. Mulder, sentado contra um tronco de árvore, abatido. Scully em pé, com as mãos na cintura.

SCULLY: - Incrível, senhor Nolan. Caminhamos o dia todo e não encontramos caverna alguma. Por que será?

NOLAN: - Olha, agente Scully, eu vou conseguir me localizar, ok? E vou provar que está errada. Eu sou a vítima aqui!

SCULLY: - Vamos ver isso, senhor Nolan.

Scully retira a arma e a mostra. Coloca atrás das calças novamente. Olha pra Nolan com raiva e afasta-se dali. Mulder olha pra ele.

MULDER: - Desculpe. Eu não sei o que está acontecendo com ela. Minha parceira não costuma ser agressiva desse jeito.

Nolan senta-se ao lado da fogueira. Fica olhando perdido para o fogo.

NOLAN: - (DERRUBANDO LÁGRIMAS) Eu não contei uma coisa.

Mulder e o xerife olham pra ele.

NOLAN: - ... Ela não está sozinha com Cunningham... Nós temos um filho.

Mulder fecha os olhos, angustiado. O xerife olha incrédulo pra Nolan.

GROSSBERG: - Vocês tiveram um filho durante esse tempo?

NOLAN: - Sim...

GROSSBERG: - Meu Deus! Essa criança corre perigo.

Scully aproxima-se. Passa por Nolan o ignorando. Senta-se ao lado de Mulder.

SCULLY: - Não vamos poder continuar a busca. Melhor dormimos e começarmos cedo.

Scully puxa Mulder e o envolve nos braços, aquecendo-o. Olha pra Nolan, com raiva.

SCULLY: - Mulder, eu faço o primeiro turno.


10:34 P.M.

O xerife dorme num saco de dormir ao lado da fogueira. Nolan, sentado bem longe, numa pedra, olhar perdido pra floresta.

Corta pra Scully, ainda com Mulder em seus braços. Mulder acordado.

MULDER: - O canibalismo nunca envolve somente o ato de comer. Este ato poderia ser visto como na hipótese freudiana de frustração e agressão, a imaginação não-desenvolvida do canibal faz com que ele coma uma pessoa como reação psicológica a raiva e frustração oral. Incidentes de canibalismo psicótico praticado por assassinos seriais foram diagnosticados como uma forma aguda de parafilia relacionada a fixações infantis da fase de desmame. Atividades eróticas tais como mordidas sádicas ou estimulação oral dos órgãos genitais masculino e feminino levaram homicidas a praticar atos de tortura, vampirismo e necrofilia.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Ahn???

MULDER: - (DEBOCHADO) Não se preocupe... Assassinos antropófagos tornaram-se conhecidos por sua concupiscência em torturar e devorar suas vítimas.

SCULLY: - (OLHANDO PRA TODOS OS LADOS) Não, imagina, eu não estou preocupada em virar ensopado não...

MULDER: - (SORRI) Então por que parece uma coruja com esses olhos atentos e esbugalhados?

SCULLY: - Continue falando, mantenha esta coruja acordada.

MULDER: - Posso contar uma historinha de terror?

SCULLY: - Pode.

MULDER: - Fato verídico: Em Caracas, na Venezuela, um mendigo foi preso há alguns anos por antropofagismo. Ele matou e devorou 10 homens. Enterrava partes como as mãos, cabeça e pés, no fundo do quintal. Não as comia porque produziam indigestão.

SCULLY: - Sério?

MULDER: - Sim. Ele saía à noite com um cano de ferro, caçando vítimas. Apenas homens.

SCULLY: - Por que apenas homens, Mulder?

MULDER: - Depois de preso ele admitiu à polícia que a carne dos homens é mais saborosa. A das mulheres tem gosto de flor.

SCULLY: - Isso é sério ou é piada sua?

MULDER: - É sério... Diz o cara. Agora dorme um pouquinho, vai?

SCULLY: - Está melhor?

MULDER: - Tô.

Ele senta-se. Puxa ela pra seu braço.

MULDER: - Fecha os olhinhos de coruja assustada e deixa que eu cuide de você. Embora digam que eu não possa fazer isso direito, porque eu não sou homem pra você...

Ela sorri. Fecha os olhos. Puxa os braços dele para a envolverem mais.

SCULLY: - (SUSSURRA) Sou feminista convicta, Mulder, não dependo de homem pra nada! Nem em situações em que esteja vulnerável... Eu só me deixo ser cuidada por você.

MULDER: - Por quê?

SCULLY: - Ora, porque Yoko, Watkins, minha mãe e até anjos me disseram que eu tenho que confiar em você, entregar minha vida em suas mãos e admitir que você é meu homem! Quem sou eu pra questionar?

Scully fecha os olhos. Mulder sorri. Pega o saco de dormir e coloca por sobre ela. Olha pra ela com carinho. Depois olha pra Nolan, preocupado com ele.


11: 59 P.M.

Scully deitada sobre o saco de dormir. Mulder senta-se ao lado de Nolan. Nolan com o olhar perdido pra floresta.

MULDER: - Eu entendo o que você está passando... Não dorme, não se alimenta direito. Pesadelos que não vão embora. Raiva. Algumas vezes se questiona por que isto foi acontecer justamente com você.

Nolan olha pra ele, derrubando lágrimas.

NOLAN: - Se eu pudesse ter evitado esse destino... Você pensa sempre na sobrevivência da sua família, você quer que nada falte a eles, quer dar segurança, carinho... Você é capaz de fazer tanta coisa por eles que teria até vergonha de se olhar no espelho. Você mataria, mentiria, daria sua vida...

MULDER: - (FECHA OS OLHOS/ DESNORTEADO DE TRISTEZA) É, eu entendo.

NOLAN: - Eu... Eu estou aqui pensando na minha vida. Que tudo que mais amo está aí, em algum lugar. Sabe, eu já tive outra mulher e tenho um filho com ela. Um filho que me odeia, porque a mãe dele encheu a cabeça dele contra mim. E eu estava aqui pensando nele também.

MULDER: - ...

NOLAN: - Um pai tira de sua boca pra dar ao filho. Um pai rala pra dar condições dignas de vida. Acorda nas madrugadas com aquele chorinho, sabe? (DERRUBA LÁGRIMAS) Mulder, acho que algumas vezes a natureza foi injusta conosco. Quando um casamento acaba, sempre a mãe fica com o filho. A gente sai sem casa, sem filhos, sem nada. Apenas com alguma roupa e os cochichos dos vizinhos de 'ele não prestava, eu sabia'. A gente só pode é doar uma semente que nem germinará dentro da gente.

MULDER: - ...

NOLAN: - E o pior disso tudo é que a gente o leva de carro pra nascer...

MULDER: - (SORRI)

NOLAN: - A gente se esforça... Compra tudo, fica preocupado com o parto, paga o hospital, a escola, até o casamento... Fica dias fazendo horas extras pra que consiga pagar aquela prestação... Corre na farmácia no meio da madrugada. A nós, apenas sobraram as coisas mais distantes. Somos os auxiliares da criação. A gente só completa o que falta.

MULDER: - Mas nosso papel também é importante. Proteger, auxiliar... Não significa que um pai não faz falta.

NOLAN: - Algumas vezes você até quer ser mais participativo. Mas a primeira palavra que seu filho vai dizer é sempre mamãe.

MULDER: - ...

NOLAN: - Desculpe, estou recordando velhas mágoas, não é o momento. Acho que vou dormir.

Nolan levanta-se. Ajeita o saco de dormir perto da fogueira e deita-se. Mulder agora é quem perde o olhar no nada, segurando lágrimas. Perdido em seus pensamentos mais secretos. Sem perceber que alguma coisa se aproxima por trás dele.


2:19 A.M.

Scully acorda-se. Senta-se. Cabelos desgrenhados. Procura Mulder com os olhos. Vê o xerife e Nolan dormindo. Scully levanta-se.

SCULLY: - Mulder???

Nenhuma resposta. Scully puxa a arma.

SCULLY: - (GRITA) Mulder!!!!!!!!!!!

O xerife se acorda. Nolan também.

GROSSBERG: - O que aconteceu?

SCULLY: - (DESESPERADA) Mulder! Mulder sumiu!

Nolan levanta-se rapidamente.

NOLAN: - Ele estava ali quando fui me deitar!

Scully corre até a pedra. Olha pra todos os lados.

SCULLY: - Mulder!!!!!!!!!

O xerife pega o rifle e vai até ela. Nolan também.

NOLAN: - Oh meu Deus!

Todos olham pra ele.

Close nas manchas de sangue pelo chão.

Scully avança em Nolan.

SCULLY: - (GRITA COM ÓDIO) Seu desgraçado! O que você fez com o Mulder???

NOLAN: - Eu não fiz nada...

SCULLY: - (FÚRIA) Eu vou matar você!!!!!!!!

O xerife segura Scully pela cintura, ela está fora de si, possessa de ódio.

GROSSBERG: - Agente Scully, por favor se acalme...

SCULLY: - Eu não vou me acalmar! O que ele fez com Mulder????

NOLAN: - Eu não fiz nada, eu estava aqui e fui dormir. A gente conversou...

SCULLY: - Seu cretino, hipócrita, mentiroso! Me solta, xerife!

GROSSBERG: - Agente Scully, precisa se acalmar.

SCULLY: - (GRITA) Ele é um mentiroso!

Nolan abaixa a cabeça.

GROSSBERG: - Precisamos procurar seu parceiro! Cunningham deve tê-lo pego. Precisa se acalmar, temos que ser rápidos!

Scully se acalma. O xerife solta-a. Ela ajeita a roupa. Olha pra Nolan com raiva. O xerife vai fazer a mochila. Scully engatilha a arma e aponta na cabeça de Nolan.

SCULLY: - Tem meia hora pra achar essa caverna. Se dentro desse tempo não achar, é porque não existe. E se existir, eu posso achar sozinha também.

Nolan fecha os olhos. O xerife olha pra Scully aterrorizado.

SCULLY: - Vamos! Mexa-se e pegue suas coisas. Se alguma coisa acontecer com Mulder, eu mato você! Não me teste!!!

Nolan vai arrumar suas coisas. Scully guarda a arma e arruma as mochilas. O xerife olha pra ela, assustado.


BLOCO 4:

2:46 A.M.

Os três caminham com lanternas nas mãos, por entre as árvores. Nolan na frente, Scully atrás, o xerife atrás dela.

GROSSBERG: - O pior disso é que o canibal desgraçado limpa as trilhas.

SCULLY: - (DANDO INDIRETA) Deve estar tão acostumado a fazer isso que aprendeu a eliminar provas rapidamente.

Nolan para. Vira-se pra ela.

NOLAN: - Duvida de mim, não é?

Nolan aponta a lanterna.

NOLAN: - Pois lá está o que eu disse que haveria.

Corta para a caverna encravada na rocha.

O xerife abaixa a cabeça, constrangido por Scully. Nolan olha pra Scully com arrogância. Scully não se intimida e ergue o nariz também. Está possessa de ódio.


3:11 A.M.

Scully caminha pela caverna, apontando a lanterna pra todos os lados.

SCULLY: - Isso não está acontecendo...

O xerife, atrás dela, também parece assustado, mirando a lanterna pra todos os lados.

SCULLY: - (MAL HUMORADA) Estou começando a odiar cavernas! Elas estão me perseguindo há semanas!

Nolan, à frente de Scully vai caminhando.

NOLAN: - Estamos perto do buraco.

Nolan para. Vira o rosto, apontando pra um canto. Scully mira a lanterna.

[Close das ossadas humanas atiradas ao chão, em meio a terra.]

NOLAN: - Eu disse! Eu disse e você não acreditou!

Scully puxa a arma. Treme de medo. O xerife olha assustado pra todos os lados. Desliga sua lanterna e guarda-a. Pega o rifle e o engatilha, carregando-o contra o corpo.

GROSSBERG: - Temos que ser cuidadosos, agente Scully. O sujeito deve estar aí dentro.

SCULLY: - Temos que ficar juntos! Não podemos nos separar.

NOLAN: - Não brinquem com ele! O cara é um sádico, mantenham os olhos abertos...

Eles continuam caminhando.

GROSSBERG: - Sentem o cheiro de carne pútrida?

SCULLY: - Deus, eu vou vomitar!!!!!!!!

Scully se escora contra uma pedra, baixando a cabeça. Corta pra Nolan que a observa.

NOLAN: - Agente Scully, quem sabe você sai? Acho que não vai ter estômago pra ficar aqui.

SCULLY: - ...

NOLAN: - Eu e o xerife vamos atrás de Mulder. Está bem?

SCULLY: - ...

NOLAN: - Olha, agente Scully, eu não a culpo por desconfiar de mim. Se estivesse em sua situação também desconfiaria. Está só tentando proteger seu marido. Sua família. E eu sei o que é ter de proteger uma família.

Scully limpa os lábios com um lenço e olha pra Nolan.

SCULLY: - Você não sabe de... Onde está Grossberg?

Nolan vira-se para onde estava o xerife. Arregala os olhos.

Corta para o local. O xerife desapareceu.

Scully começa a procura-lo, mirando a lanterna.

NOLAN: - Ele estava aqui há poucos minutos...

SCULLY: - Eu sei disso!

Scully percebe um túnel. Olha pra Nolan.

SCULLY: - Você vai na frente.

NOLAN: - Eu não vou! Você está armada, eu não! Se o maluco me atacar...

Scully engatilha a arma e mira nele. Nolan suspira e entra no túnel.


3:26 A.M.

Scully mirando a arma em Nolan e a lanterna por onde passam.

SCULLY: - Se tentar alguma gracinha eu acabo com você aqui mesmo.

NOLAN: - Pelo amor de Deus! O que você é, uma policial que serve aos cidadãos ou uma sádica por violência?

SCULLY: - Você tem a resposta.

NOLAN: - ... Por que não acredita em mim?

SCULLY: - Não sei. E nem vou me questionar.

NOLAN: - ...

SCULLY: - Tenho um anjo em mim que me guia.

Scully mira a lanterna no chão. Percebe pedaços de corpos mutilados, descarnados. Para. Fecha os olhos.

SCULLY: - Meu Deus!

NOLAN: - ... Eu disse que ele é doido.

SCULLY: - Mulder...

NOLAN: - Acho melhor você se concentrar em pegá-lo. Mulder já deve estar morto.

Scully começa a ficar abalada.

NOLAN: - Embora confesso que eu gostava dele. Sujeito culto, divertido...

SCULLY: - ...

NOLAN: - Sempre as pessoas boas morrem antes, não é? Já se perguntou por quê? Por que os justos e os bons se vão antes?

Scully já está chorando, sentidos abalados. Nolan segue caminhando. Para.

NOLAN: - Agente Scully!!!!!!!!!!!

Ela vira-se pra ele.

NOLAN: - Achei!!!!!!!!!

Scully corre rapidamente até Nolan. Mira a lanterna.

Close do buraco no chão. Várias ossadas descarnadas. Mulder atirado sobre elas, sangue que escorre da cabeça. Desacordado. Scully arregala os olhos.

SCULLY: - (DESESPERADA) Mulder!!!!!!!!

Ela não termina de falar quando sente a pancada que lhe acerta a cabeça. Scully cai no buraco por cima de Mulder. Sente o sangue escorrer por entre seus cabelos. Vira o rosto, meio desalentada e olha pra cima.


Câmera subjetiva simulando o olhar de Scully, que vê tudo meio distorcido, sem foco. Mas distingue a silhueta de Nolan.

NOLAN: - Desculpe, agente Scully.

Ela olha ainda, desatinada.

NOLAN: - Mas eu precisava ir até o supermercado e traze-lo até a minha casa.

SCULLY: - ???

NOLAN: - Minha família precisa comer.

No foco da visão de Scully entra uma mulher, segurando um porrete de madeira e duas crianças. Scully revira os olhos e desmaia.

[Fade in]


[Fade out]

Mulder abre os olhos. Sente que está sendo suspenso por alguma coisa. Percebe as ossadas dentro do buraco, que vão aos poucos ficando mais distante dele.

Nolan desata a corda que amarra o corpo de Mulder, com a qual o puxara. Vira o corpo de Mulder. Ele, ainda tonto, não reage.

NOLAN: - Desculpe, Mulder...

MULDER: - ...

NOLAN: - Eu sei que você entende o sacrifício e as coisas que um pai tem que fazer por um filho...

MULDER: - ...

NOLAN: - Eles precisam de comida, Mulder. Eu não posso deixar meus filhos morrerem... Preciso abastecer a despensa, antes que o inverno chegue.

MULDER: - ...

NOLAN: - Sei que deve estar me achando um monstro. Mas Mulder, eu sou menos monstro do que quem nos colocou nisso. Nesse hábito alimentar destrutível e sem retorno...

Mulder olha pra ele. Nolan olha pra Mulder.

NOLAN: - Você tem razão. Vicia. Mas não é por prazer, Mulder. Não é por vingança... No meu caso é por sobrevivência.

MULDER: - ... (FECHA OS OLHOS)

NOLAN: - Sabe o que eu disse pra você sobre uma comunidade antropofágica? Sim, Mulder, elas existem aqui na América. Eu e minha esposa somos descendentes desses bastardos religiosos. Desde criança nós comemos carne humana. Nosso organismo não consegue assimilar outro alimento.

MULDER: - ... (OLHA PRA ELE)

NOLAN: - E como consequência, nossos filhos também. Me desculpa, Mulder, mas entre a sua família e a minha, eu vou optar pela minha.

Nolan arrasta Mulder. Mulder consegue ver Scully desmaiada. A cabeça dela sobre uma pedra. O sangue lhe vertendo. A machadinha pronta ao lado.

MULDER: - (MURMURA ALGO INAUDÍVEL)

NOLAN: - O que foi, Mulder?

MULDER: - (MURMURA) Não faz isso com ela...

NOLAN: - Mulder, eu não posso deixa-la ir. Ela vai contar e virão atrás de nós... Eu tenho uma família pra proteger e cuidar.

MULDER: - (MURMURA) Eu... Também tenho.

Nolan olha pra Scully. Olha pra Mulder.

NOLAN: - Sinto, Mulder...

MULDER: - Fique comigo... Deixe-a ir...

NOLAN: - Não posso fazer isso. Você sabe. Mas se não quer ver o que vai acontecer a ela, eu mato você primeiro.

Mulder olha pra ele.

MULDER: - Preciso te contar... uma coisa.

NOLAN: - Que coisa, Mulder?

MULDER: - Estou com câncer... Posso contaminar sua família e mata-los se ingerirem meu corpo.

NOLAN: - ... Mulder, isso é sério?

MULDER: - É... Pode ligar para o FBI... Pega meu celular e verifique...

Nolan olha pra ele.

NOLAN: - Mas entende que não vou poder deixar você ir.

MULDER: - Não quero ir... Não lhe disse que já senti o gosto?

NOLAN: - ...

MULDER: - Quero senti-lo novamente.

NOLAN: - ...

Nolan levanta-se. Olha pra Mulder.

NOLAN: - Está delirando Mulder. Não faça isso. Mas por via das dúvidas, vou ter de achar outra pessoa. Não vamos comer você.

A mulher de Nolan surge, trazendo pedaços de um corpo, que pela cor do uniforme, se identifica como o xerife Grossberg. Mulder fecha os olhos. Nolan o cutuca com o pé. Mulder não acorda.

KATE: - Ele era muito pesado. Tive que trazer aos poucos.

NOLAN: - Vou despedaçar ela também. Mulder não nos serve.

KATE: - Eu disse que ele era muito magro!

NOLAN: - Ele tem câncer... Como não percebi que estava doente? A aparência dele já diz tudo!

KATE: - Aposto que aquela cirurgia em sua barriga diz que ele está com câncer por todo o corpo.

Mulder abre um dos olhos, observando os dois.

NOLAN: - Vou atrair mais alguém e você faz o serviço.

KATE: - Está bem.

Nolan aproxima-se dela. Afaga seus cabelos, olhando-a com amor. Beija-a na testa. Ela se afasta. Nolan pega a machadinha. Agacha-se. Olha pra Scully. Ajeita a mecha de cabelo dela que lhe cobre o rosto.

NOLAN: - Desculpe. Você era a única que estava certa. Talvez por ser mulher, seu instinto tenha percebido algo que os outros não perceberam por serem homens... Mas eu tenho que fazer isso. Você tem um tipo de carne rara que não se consegue fácil. E esse tipo de iguaria cai muito bem neste momento.

Nolan ergue a machadinha. Mulder pula em cima dele, lhe segurando o braço. Nolan cai pra trás, por cima de Mulder. Mulder continua tentando tirar a machadinha de Nolan. Os dois lutam no chão. Nolan se desvencilha e tenta acertar Mulder com a machadinha. Mulder desvia, sentindo o barulho e as fagulhas da lâmina afiada contra o chão de pedra. Nolan vem pra cima dele novamente, e Mulder o empurra com os pés. Nolan bate com as costas contra a parede. Mulder percebe a arma de Scully jogada num canto. Arrasta-se. Nolan vem pra cima dele, segurando a machadinha com as duas mãos, na altura da cabeça. Mulder desvia de novo e Nolan acerta o chão. Nolan, ergue a machadinha novamente e parte pra cima de Mulder. Mulder consegue alcançar a arma. Pega a arma e rola o corpo rapidamente, mirando em Nolan.

[Fade in]

[Som de um tiro]


Motel Hill's Breeze – 11:34 A.M.

[Fade out]

Scully abre os olhos. Meio tonta, sente o pano úmido que lhe cobre a testa. Vê o sorriso de Mulder, sentado ao lado dela.

MULDER: - Oi.

Scully sorri.

MULDER: - Tá doendo?

SCULLY: - Um pouco. E você está bem?

MULDER: - (DEBOCHADO) Já estou acostumado a levar pancadas, cirurgias, golpes, tudo nessa cabeça dura aqui. Nada mais me derruba.

SCULLY: - (SORRI)

MULDER: - (SÉRIO) Fiquei com medo de que não acordasse. Não levei você pro hospital porque não confio em hospitais.

SCULLY: - Onde está Nolan?

MULDER: - No hospital, sob vigilância do FBI. Será transferido para a prisão até ser julgado.

SCULLY: - E o xerife?

MULDER: - (TRISTE) Está morto.

Scully fecha os olhos.

MULDER: - A mulher de Nolan ouviu os tiros e veio me atacar. Tive que atirar nela, para imobiliza-la.

SCULLY: - ...

MULDER: - Chamei os bombeiros. Queriam te levar pro hospital, mas eu disse que levaria você. A mulher de Nolan está no hospital aguardando julgamento também.

SCULLY: - E as crianças?

MULDER: - Foram levadas pra uma instituição. Serão reabilitadas ao mundo 'normal'.

SCULLY: - ... Mulder...

MULDER: - Entendo o que Nolan estava fazendo, Scully.

Mulder suspira. Deita-se ao lado dela, colocando a cabeça em seu ombro.

MULDER: - Eu entendo... Mas só havia duas opções ali. Ou a família dele ou a minha. E eu não ia pensar duas vezes.


Apartamento de Mulder – 11:34 P.M.

Mulder digita o relatório no computador. Cabeça enfaixada. A sala, iluminada pela pouca luz que vem do abajur. Ao lado dele, uma caneca de café.

MULDER (OFF): - Em síntese, Frederic Nolan foi uma vítima. Uma vítima indefesa, submetida a um tipo de cultura que não questionou, que não teve o direito de escolher. Cultura esta, que lhe foi imposta. Me pergunto se nós também, muitas vezes, não questionamos a cultura que nos impuseram. Os hábitos a que fomos submetidos. A maneira de pensar, de reagir, sentir. Coisas do comportamento dito humano, enquanto os animais não matam pelo prazer de matar, apenas quando têm fome ou para auto-defesa. Poderia dizer que Nolan não era um ser humano. Ele era um animal. Ele não matou por prazer. Matou para alimentar sua família. O que me faz perguntar se a sociedade humana, considerada 'normal', também não age canibalisticamente, nos ensinado a devorar uns aos outros, pisar, destruir e humilhar.

Mulder bebe um gole de café. Volta a digitar.

MULDER (OFF): - Nos sistemas sociais contemporâneos, a compulsão canibalística vem sendo observada como forma elementar de agressão institucionalizada. Quando forças civilizadoras cessaram, a satisfação de necessidades agressivas levou ao genocídio de milhões de pessoas na Alemanha, Bósnia-Herzegóvina e Ruanda. A limpeza étnica durante o regime de Pol Pot impôs a assimilação das minorias e uma carnificina generalizada, que resultou no massacre de mais de um milhão de habitantes no Camboja. No Paquistão, milhares foram vítimas da violência política, étnica e sectária que tornou os cidadãos vulneráveis às formas de terrorismo praticadas nas ruas e pelo Estado. Ativistas, seitas e a própria polícia do governo, contribuíram para a destruição entre os grupos. A missão norte-americana, cujo objetivo era manter a paz mundial e combater o comunismo na Guerra do Vietnã, resultou num desastre de proporções catastróficas, uma vez que o lançamento de 7,85 milhões de toneladas de bombas mataram cerca de 3 milhões e feriram 4 milhões de vietnamitas.

Corta para Scully, sentada no sofá. Cabeça enfaixada também. Ela observa o peixinho que vai de um lado pra outro dentro do aquário, como se os movimentos calmos do bichinho, lhe trouxessem um sentimento de paz.

MULDER (OFF): - O desejo de devorar o outro, o inimigo, é mais evidente na atual doutrina mundial de salvação política e econômica. A integração global por meio de empreendimentos de livre comércio ditados por organizações econômicas mundiais, resulta num capitalismo turbinado que solapa a estabilidade democrática e a capacidade de funcionamento do Estado. As fusões transnacionais e transferência de controle acionário de empresas, o colapso das finanças, todos são sintomas do canibalismo institucionalizado. Na Índia, a miséria transforma o comércio de sangue e a venda de órgãos em negócios lucrativos. Na Nigéria e no Sudão, crianças entre 8 e 15 anos de idade, vendidas para serem escravas. A espoliação cria um processo de armadilha, de modo que as culturas parasitárias ou predatórias procuram devorar e exaurir a riqueza das mais fracas, para crescer em conforto e opulência.

Scully olha pra Mulder. Mulder digita sua última frase.

MULDER (OFF): - Em suma, continuo me perguntando: quem são verdadeiramente os animais?

[Fade in]


X


11/03/2001

14 de Agosto de 2019 às 17:07 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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