S04#25 - GÁRGULAS Seguir história

lara-one Lara One

O que fazem os Pistoleiros perdidos em Nova Iorque? Envolvidos num caso complicado e bizarro, sem poder contar com a ajuda dos amigos? Porque parece que os amigos, estão preocupados com outra coisa mais importante: Suas vidas.


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 18 apenas.

#x-files #arquivo-x
0
2.0mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

S04#25 - GÁRGULAS

"... atualmente, um homem que não contribui com sua cota de estórias sinistras, dificilmente terá acesso à república das letras. Ele está fadado a vestir uma máscara de morte como parte de sua insígnia. Se ele não aterroriza a todos, ele não é ninguém. Se ele não choca as damas, o que se pode esperar dele?"

Leigh Hunt, 1819



INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

[Som: Divano – Era]

New York – 6:26 P.M.

Amsterdam Avenue – Imediações da Cathedral Church of St. John the Divine

Close da velha gárgula preta sobre a igreja, voltada com o rosto para baixo.

Geral da rua. Congestionamento. Som de buzinas. O padre sai às pressas da igreja. Observa o tumulto. O motorista do táxi sai do carro, e começa a brigar com o outro, que o empurrou por sobre um hidrante. A água voa por metros acima. Os dois discutem, se empurram, começam a trocar socos, debaixo da água. Outro motorista aparece e tenta acalmar os agitadores. Alguns guardas aproximam-se. Os bombeiros atrapalham mais ainda o trânsito. O tumulto vai crescendo, enquanto o assaltante rouba a bolsa da mulher que para pra observar a confusão. Do outro lado da rua alguns garotos saem em disparada de uma mercearia, carregando pacotes de doces e algumas latas de refrigerante. O vendedor sai atrás deles aos gritos, erguendo um facão. Pronuncia alguma coisa em italiano. O caos instalado no meio da confusão, enquanto as pessoas andam apressadas e cabisbaixas, indiferentes, voltando para a casa.


6:56 P.M.

[Som: Divano – Era]

Geral da rua (mesmo ângulo). O trânsito flui mais normalmente. Algumas pessoas caminhando. O sol vai desaparecendo no horizonte, até deixar o breu da escuridão tomar conta.

Corta para o alto da Catedral. A estátua da gárgula permanece observando a cidade.

Aos poucos, o que é concreto negro vai adquirindo um tom avermelhado, enrijecido e enrugado, como a pele de um lagarto. Os olhos brilhantes e vermelhos resplandecem. As asas agitam-se, tomando o impulso e a Gárgula alça seu voo noturno, com um destino apenas conhecido por ela.

A vida noturna em New York está apenas começando.

VINHETA DE ABERTURA: A VERDADE ESTÁ LÁ FORA


BLOCO 1:

Sede dos Pistoleiros Solitários – Editora de 'A Bala Mágica'

Quinta-feira - 10:33 P.M.

[Som: Blitzkrieg Bop – Ramones]

Langly, dançando feito louco, som numa altura danada, varrendo o chão. Para. Toca a vassoura como se fosse uma guitarra, balançando a cabeça pra frente e pra trás, fazendo os cabelos se agitarem e os óculos quase caírem.

LANGLY: - (CANTANDO) One, two, three, four... Yeah!!!!!!!! Hey ho let's go! Hey ho let's go! Hey ho let's go! Hey ho let's go! They're forming in a straight line... They're going through a tight wind... The kids are losing their minds. The Blitzkrieg Bop...

Byers está ao computador, olhando pra tela. Pensativo, acariciando a barba. De repente digita algo. Aguarda. Digita de novo. Byers esmurra o teclado e levanta-se furioso.

Langly para. Empurra os óculos por sobre o nariz, ajeita os cabelos e olha pra ele.

LANGLY: - E aí?

BYERS: - Ela não quer vir. Diz que não pode se arriscar.

Langly escora-se no cabo da vassoura, olhando pra Byers.

LANGLY: - ... Quem sabe sai de Friends e tenta conversar com ela pela lista de discussão de Buffy, a Caça Vampiros? Talvez ela mude de ideia.

Byers olha pra ele.

BYERS: - Vou dormir. Não quero nunca mais falar com a Suzanne.

Byers vai pro quarto. Langly pega a vassoura e continua a tocando como se fosse uma guitarra. Frohike entra.

FROHIKE: - Dá pra abaixar isso?

LANGLY: - Qual o seu problema com os Ramones?

FROHIKE: - São barulhentos.

LANGLY: - ... (CANTANDO) Hey ho let's go! Shoot 'em in the back now what they want, I don't know... They're all reved up & ready to go... Hey, ho, let's go...

Frohike desliga o som. Langly faz uma cara de frustrado.

LANGLY: - Baixei um monte de música brasileira no Napster.

FROHIKE: - Você? Ouvindo Bossa Nova?

LANGLY: - Ok, ignorante. No Brasil tem mais coisas do que 'bosta nova'.

FROHIKE: - Samba?

LANGLY: - Não. Quer ouvir? Os caras se chamam Raimundos. É bem estilo Ramones, e eu tô tentando conseguir as traduções. Parece que tem palavrão pra caramba nas letras.

FROHIKE: - Ótimo. Grande cultura que você tem! Um dicionário de palavrões em todas as línguas.

LANGLY: - Foi o Mulder quem me falou dessa banda.

FROHIKE: - Ótimo. Vindo do Mulder e de você deve ser o máximo! Vocês dois passam as madrugadas todas pirateando tudo o que é tipo de som. Desde tecnos com mulheres tendo orgasmos até coisas escabrosas de ficção científica!

LANGLY: - Ah, não me enche! Não há som mais animador e divino do que uma mulher tendo orgasmos. Isso é como o canto dos anjos!

Frohike o encara, surpreso, segurando o riso. Langly continua varrendo o chão.

FROHIKE: - Onde está o Byers?

LANGLY: - No quarto, 'sofrendo'...

FROHIKE: - Byers e Mulder sofrem muito pro meu gosto. (GRITA) Ei, Byers, venha até aqui!!!

Byers entra.

FROHIKE: - Falei com Tuckermann. Vão ficar eufóricos por isso.

BYERS: - (MAL HUMORADO) Odeio o Tuckermann.

FROHIKE: - Ele obteve de fontes confiáveis a informação de que... Preparem-se. Isto vai chocar vocês.

Os dois o observam, curiosos.

FROHIKE: - Vai haver uma exposição no museu municipal em Nova Iorque. Com várias peças raras.

LANGLY: - ... Múmias?

FROHIKE: - Múmia é você! É uma exposição de música. Desde gramofones até...

BYERS: - (MAL HUMORADO) Está com saudades do seu Sansung-Garrard-Gradiente?

LANGLY: - Tá, vou com você. Tenho um camarada lá e a gente pode sair pra comprar card game...

Frohike desliza a mão pelo rosto.

FROHIKE: - Não, imbecis! Querem me escutar? A exposição é uma desculpa pra sairmos daqui. Na verdade, nosso interesse é uma peça rara que vai estar nesse museu no sábado. Por enquanto ainda está num depósito no cais do porto.

BYERS: - E o que seria?

LANGLY: - O sutiã da Barbarella... (SUSPIRA)

FROHIKE: - Não. Uma gárgula.

LANGLY: - Uma gárgula? Quá quá quá quá quá!!!

Byers e Frohike trocam olhares curiosos.

FROHIKE: - O que deu nele?

BYERS: - Hormônios?

FROHIKE: - Tá certo, ô Pato Donald, pode rir.

LANGLY: - O que mais há em Nova Iorque são gárgulas!

FROHIKE: - Mas essa é diferente. Veio da Inglaterra.

LANGLY: - Tem sotaque britânico e toma o chá das cinco?

FROHIKE: - Essa gárgula é amaldiçoada. E segundo a lenda, contém um mapa de tesouro dentro dela.

LANGLY: - Ah, não! Você não acredita nisso, acredita?

FROHIKE: - Comecei a acreditar quando Tuckermann disse que o governo está fazendo a segurança do armazém 35.

BYERS: - Como o Tuckermann obteve essa informação?

FROHIKE: - Através de um amigo, que trabalha na base aérea de Wright-Patterson. Foi um comboio inteiro de soldados pra lá. Tem algo estranho nessa história.

LANGLY: - Vai acreditar num cara que se autodenomina 'Bruxo Escarlate da Espada Laranja' no grupo de RPG?

FROHIKE: - Temos que falar com o Mulder. Só ele pode nos ajudar.

Frohike pega o telefone. Disca.

FROHIKE: - Vamos Mulder, atende...

LANGLY: - Já tentei ligar pra ele, mas o telefone da casa tá ocupado. E o celular tá desligado.

FROHIKE: - Deve estar pendurado na internet pirateando pornografia auditiva pra vocês dois.

LANGLY: - (RINDO) Deixa o cara se divertir, seu invejoso. Aposto que ele tá dando um trato na ruiva.

FROHIKE: - Apostaria mais na ruiva dando um trato nele. (DESLIGA) Dispostos a irem pra Nova Iorque?

Langly olha pra Byers.

BYERS: - Não temos nada melhor pra fazer no final de semana mesmo.

LANGLY: - Mas afinal de contas, o que o Tuckermann quer com isso? Pra quê vamos ir até Nova Iorque ver uma gárgula feia e velha?

FROHIKE: - Pra roubar a gárgula.

Langly escorrega o braço da vassoura, boquiaberto.

LANGLY: - Não está pensando em roubar o museu de Nova Iorque, está?

FROHIKE: - Não. Não vamos roubar o museu, mas o armazém 35.

BYERS: - Frohike, eu pensei que você não fosse um sujeito ambicioso.

FROHIKE: - Não me interessa essa coisa de mapa de tesouro. Eu não acredito nisso. Mas acredito em outra coisa.

LANGLY: - Na maldição?

FROHIKE: - Não. Onde o governo está é porque há alguma coisa a mais. E não acredito que fariam segurança de uma estátua só por causa de um tesouro.

BYERS: - Acha que a estátua... (SEGURA O RISO) Pode ser extraterrestre...

FROHIKE: - ???

Byers vai sorrindo, sorrindo e termina numa gargalhada alta. Os dois olham pra ele espantados.

BYERS: - Gárgulas alienígenas... Tá bom. Vou dormir. Me chamem quando começarem a falar sério.

FROHIKE: - O que andou bebendo, hein? Desinfetante de banheiro? Quem falou em gárgulas alienígenas por aqui?

Byers vai pro quarto rindo alto e debochando.

FROHIKE: - Acho melhor levarmos esse cara pra viajar. Está ficando maluco por causa daquela loira.

LANGLY: - Mas afinal de contas, se pegarmos a gárgula...

FROHIKE: - Não sei se vamos pegá-la. Eu desconfio que essa gárgula nem esteja lá. Deve haver algo mais interessante pra pegarmos naquele armazém.

LANGLY: - E dinheiro pra hotel? Tem algum?

FROHIKE: - (SUSPIRA) Temos onde ficar.

LANGLY: - Onde?

Frohike murmura algo pra não ser entendido. Langly olha pra ele.

LANGLY: - Ahn?

FROHIKE: - ... Termine a casa e arrume as malas. Vou até o apartamento do Mulder. Há mais de uma semana que tento falar com ele e não consigo nem no FBI. Deve haver algo errado. Onde esse cara se meteu? Será que não sabe que precisamos dele?

LANGLY: - Quem sabe tenta a Scully.

FROHIKE: - Sabe que estão sempre juntos. Vou até lá.

Frohike sai. Langly liga o som de novo.


Apartamento de Mulder – 11:39 P.M.

[Som: Against all Odds – Phil Collins]

Geral da sala, nenhum movimento. O abajur aceso. O telefone fora do gancho. Apenas a música vinda do aparelho de CD quebra o silêncio.

Foco em Mulder, deitado no tapete. Olhar perdido para o CD de Phil Collins que segura nas mãos, cuja etiqueta no estojo diz Dana.


Apartamento de Scully – 12:11 A.M.

Scully abre a porta. Frohike olha pra ela.

FROHIKE: - Posso?

SCULLY: - Claro.

Frohike entra. Percebe os móveis todos cobertos com panos. Apenas o sofá está descoberto, revelando um lençol e um travesseiro.

SCULLY: - Quer algo pra beber?

FROHIKE: - ... Scully, sem querer passei nessa rua e pensei em bater, mesmo sabendo que você não morava mais aqui. Aconteceu alguma coisa?

SCULLY: - Não, nada... Espaço, sabe? Estava precisando de espaço, tenho algumas coisas pra fazer no computador.

Frohike olha pro computador coberto com um lençol. Mas disfarça pra não deixa-la constrangida.

FROHIKE: - Scully, quer tomar um ar em Nova Iorque?

SCULLY: - Não, eu... Eu tenho coisas a fazer. Vai pra Nova Iorque?

FROHIKE: - Não quero falar aqui. Mas estou indo e talvez precise da ajuda de vocês.

SCULLY: - ... Ah, sim. Pode ligar se quiser.

FROHIKE: - Bom, então... A gente se fala.

SCULLY: - (NUM SORRISO TRISTE) É. A gente se fala.

Frohike vai saindo, mas não se contém. Vira-se pra ela.

FROHIKE: - Viu o Mulder?

SCULLY: - Não. Não está em casa?

FROHIKE: - Quase esmurrei a porta e ele não abriu. Deve ter saído e deixado o som ligado.

SCULLY: - ...

FROHIKE: - Ou tinha algum alienígena lá dentro, porque nunca vi o Mulder escutando Phil Collins, mais precisamente: Against all Odds. Ele curtia Gênesis, mas não Phil Collins solo cantando algo que fala 'você voltar pra mim é contra todas as chances'.

Frohike sai. Scully fecha a porta. Vai pro sofá e senta-se. Abaixa a cabeça e chora.


4:32 A.M.

Langly, Frohike e Byers no avião. Byers olha pra Frohike que está com um olhar ao longe.

BYERS: - Desistiu de fazer isso?

LANGLY: - Ele tá borrando as calças. Agora se deu conta de que pode estar amanhã, nesse mesmo horário, esperando pra ver o sol nascer quadrado.

FROHIKE: - ... Não. Mulder e Scully brigaram.

LANGLY: - Grande novidade! Eles brigam todo o dia! Se você me dissesse: faz uma semana que Mulder e Scully não brigam, aí sim, eu iria me preocupar...

FROHIKE: - Não, dessa vez foi sério. Ela voltou pra casa. E ele estava em casa, não quis me atender, ouvindo Phil Collins.

LANGLY: - Puxa, o Mulder tá mal mesmo.

BYERS: - Eu gosto de Phil Collins.

FROHIKE: - Querem deixar o Phil Collins na dele? A questão não é o Phil Collins, mas o Mulder.

BYERS: - Pensei que se preocupasse com a Scully.

FROHIKE: - Eu me preocupo é com ele. Ele é meu amigo.

Byers e Langly olham pra Frohike. Ele parece chateado.

BYERS: - E ela não é?

FROHIKE: - Não tenho com ela a intimidade que tenho com o Mulder. Eu conheço o cara. E ele está sofrendo mesmo. O pior de tudo é que eu sabia que isso ia acontecer. Quando ele me contou que estavam juntos, eu comentei com ele: Mulder ela não é mulher pra você. Ela não pertence ao seu mundo. Vão passar a vida toda num conflito eterno de interesses pessoais. Um sempre vai ter que ceder. Você é uma criança crescida. Ela é uma mulher decidida. Ou você amadurece, coisa que já passou do tempo de fazer, ou cai fora antes que se machuque. A Scully é esposa e você precisa é de uma namorada. Não tem experiência em relacionamentos simples e já quer se atirar de cara num compromisso sério?

BYERS: - Pode ser... (SUSPIRA) Mas a gente cansa disso.

Frohike olha pra Byers. Byers olha pela janela, divagando.

BYERS: - Entendo o Mulder. Ele está amadurecendo, querendo ter uma família, uma esposa, um lar. Mas nada dá certo pra ele. Por culpa dos outros ele acaba sofrendo e brigando com ela. Sempre é assim. Se não estivessem envolvidos nessa trama de conspiradores, eles poderiam viver tranquilos, sem preocupações.

LANGLY: - Ponto pra aqueles homens de novo.

FROHIKE: - Sempre. E você se cuide, Byers. A mesma coisa te espera.

BYERS: - ... Vocês acreditam que a gente possa se transformar por causa de uma mulher?

Langly o fita, curioso.

BYERS: - (FILOSOFANDO) Tem uma hora na vida que você para, olha ao seu redor, e mesmo tendo várias pessoas, você acha que é sozinho demais. Sente necessidade de ter alguém especial do seu lado. Dividir tarefas domésticas. Embalar um bebê e trocar fraldas.

FROHIKE: - Você??? O Mulder? Ora, você tudo bem. Mas o Mulder nunca faria isso! Não é da natureza dele.

BYERS: - Ele não é um ser humano? Isso não é da natureza do ser humano?

Frohike abaixa a cabeça. Langly perde o olhar no nada.

BYERS: - Vocês vivem se fazendo de durões. Ficam debochando de mim e do Mulder. Mas sabem que no fundo vocês também têm essa vontade.

Eles ainda em silêncio. Byers olha pra eles.

BYERS: - Essas foram as palavras dele pra mim naquela noite em que fomos ao American Man Club. Ele me disse que estava cansado de viver pra incomodar. Que ele queria viver por alguém. Pela mulher, pelo filho. Queria ter uma família, mas que ainda ele tinha dúvidas quanto a isto. Tinha medo de errar com a Scully, de não poder dar pra ela a família e a felicidade que ela conheceu. Errar como a família dele errou. Porque o sangue nunca renega o sangue. E você tem a sina de criticar e fazer o mesmo que sua família fez.

LANGLY: - ... O Mulder é um sujeito perturbado...

BYERS: - Tantos anos sozinho... É difícil mudar drasticamente... Ele disse que não sabia como se comportar com a Scully. Ele nunca viu uma família como ela viu. Ele tem medo de não corresponder às expectativas dela.

Langly abaixa a cabeça.

LANGLY: - Pobre Mulder... Foi fisgado!

Frohike olha pra Byers.

FROHIKE: - Seja o que for que esteja acontecendo com eles, aposte que a Scully começou. Ela sempre acha um jeito de fazer tempestade. A rainha do drama. O Mulder, por pior que esteja, sempre tenta levar a vida na piada. Ela não, ela complica tudo. Tem tanto medo de que o relacionamento deles acabe, que se eu mentir pra ela que Mulder estava com outra mulher, ela nem pensa em tudo que ele jurou pra ela e faz as malas. Acredita mais nos outros do que nele. Aposto que alguém falou alguma coisa pra atiçá-la intencionalmente e ela deixou o Mulder.

BYERS: - Mas ela não sabe que o Mulder não é um galinha?

FROHIKE: - Adianta dizer pra ela? Ela já colocou na cabeça que ele é um mulherengo. Insegurança. Ela é quem precisa de tratamento por ali.

LANGLY: - Aí, não quero estragar o papo de vocês, mas isso é problema deles, ok? Deixem que os dois se acertem. Uma hora vão aprender a lidar um com o outro. E tem o lance da criança que sumiu. Isso aí foi uma paulada na cabeça deles. Até se erguerem de novo...

BYERS: - É. Imagina você saber que nunca poderá ter um filho. Ela é estéril, ele quase ficou também. E o único filho que podiam ter foi levado. E mesmo que por um milagre da natureza eles consigam, sabem que é arriscado, porque vão toma-lo de novo.

FROHIKE: - Ele me jurou que iria buscar o filho até no inferno. Que mesmo que pague com sua vida, ele quer dar esse presente pra ela. Ele me disse que tudo o que mais queria fazer era colocar o filho nos braços dela e dizer: Scully, trouxe um presente pra você.

BYERS: - ... Já faz mais de um ano... Eu tenho pena do Mulder, mas tenho mais pena da Scully. Ela já perdeu uma filha crescida, que nem sabia que tinha. Depois perdeu um bebê. E tudo se repete: Tiraram o direito dela de segurar o filho, de amamenta-lo, apreciar cada momento da infância dele... Imagina se Mulder leva a vida toda e só acha o filho depois que ele estiver adulto? Olha tudo o que perderam! Não é à toa que a pobrezinha sofre. Ela pensa nisso, com certeza. Aposto que vive com o coração apertado, segurando as dores só pra ela. E o tempo passa, a vida passa, e ela não pode fazer nada, a não ser confiar que o Mulder consiga recuperar o filho. Ela sabe que só ele pode fazer isso. Por isso eu acho bonito o que eles têm. Praticamente ela confia sua vida nas mãos dele. Suas esperanças.

Os três ficam calados, perdidos em pensamentos.


BLOCO 2:

Arquivos X – 6:21 A.M.

Mulder assiste um documentário sobre Óvnis. Scully entra.

SCULLY: - ...

MULDER: - ...

Mulder levanta-se.

MULDER: - Quando cheguei aqui vi uma pasta sobre a mesa. Skinner quer que estejamos em Nova Iorque pra fazer a segurança de uma gárgula que vai para o museu.

SCULLY: - ...

MULDER: - Eu não vou.

SCULLY: - Por que não?

MULDER: - ...

SCULLY: - Eu sei porque não vai. Não quer me deixar constrangida com sua presença. Mas trabalhamos juntos. E temos de ser profissionais. O trabalho acima de tudo.

Ele olha pra ela, triste e incrédulo.

MULDER: - Como colocar o trabalho acima de tudo depois que você passou a ser o tudo que eu tinha?

Ele abaixa a cabeça e caminha até a porta. Ela enche os olhos de lágrimas.

SCULLY: - Mulder...

Ele vira-se pra ela.

SCULLY: - Eu... Eu acho que deveríamos conversar. Faz mais de uma semana que só nos vemos aqui, falamos do trabalho e ambos sabemos que temos outros assuntos sérios pra falar.

MULDER: - (MAGOADO) Vai falar sério comigo? Isso não é da minha natureza, Scully.

SCULLY: - ...

Ele fecha a porta. Olha pra ela.

MULDER: - Não é da minha natureza... Você acha que eu sou menos humano por causa do que sou? Acha que por ser uma cobaia de natureza desconhecida eu não tenho um coração, meu sangue não é vermelho e eu não sinto dor ou sangro quando me machucam? Acha que eu não sofro? Que não choro? Que eu não tenho sentimentos? Que até agora brinquei com você?

Ele já está derrubando lágrimas.

MULDER: - Você me magoou Scully. Eu sei que te magoei, mas você me magoou também. E fundo! As coisas que você disse pra mim podem ser verdades. Mas me doeram mais do que todas as coisas que eu passei quando me abduziram. Mas tudo bem, Scully. Eu sempre quis que a verdade entre nós fosse a base de tudo. Só nunca esperava que fosse o fim! Pensei que a sinceridade pesasse mais do que a raiva.

SCULLY: - ... Mulder... Eu... E-eu estava com raiva, com raiva daquele Watkins... Eu...

MULDER: - Você falou o que queria falar. Não jogue a culpa nos outros. Eu olho pra você e sei que está mentindo. Não tente se justificar pra me deixar melhor. Eu também sou culpado! Ia fazer uma besteira enorme por causa de você.

SCULLY: - ... Acha que era besteira?

MULDER: - O modo como conseguiria era. Agora o fim, o fim... O fim é tudo o que eu mais quero na minha vida. E sabe o que me dói mais? Eu sei que ambos queremos a mesma coisa. Mas pelo meu erro, você não pode me perdoar.

Ele esmurra a parede com raiva. Ela respira fundo.

SCULLY: - ...

MULDER: - Como se você nunca tivesse errado por amar alguém demais.

SCULLY: - (CABISBAIXA)

MULDER: - Eu... Eu só espero por você. Se me disser sim, estou aqui, Scully. Eu sempre estarei aqui esperando pelo seu sim. Sabe que eu seria capaz de passar o resto da minha vida acreditando que você voltaria um dia. E eu farei isso. Sabe que farei. Afinal, esperei metade da vida por alguém como você. Posso esperar a outra metade.

Scully olha pra ele. Mulder olha pra ela. Instintivamente, ao mesmo tempo, os dois se abraçam.

SCULLY: - (CHORANDO) Eu... eu precipito tudo, não é mesmo? Watkins tinha razão, eu faço você tomar meus atalhos porque tenho pressa em ser feliz... Mulder, me perdoa... Me ensina a ter paciência... A esperar que as coisas aconteçam no momento certo... (MURMURA) Me perdoa!

Ele a afasta. Segura-a pelo rosto.

MULDER: - Não há culpados aqui, ok? Eu e você somos vítimas de tudo o que nos fizeram. Se hoje estamos brigando por causa do nosso filho, é porque temos medo deles. Vamos sair daqui, Scully. Precisamos conversar sobre nossa vida. Sobre a minha e a sua. Eu... Eu não tenho sido fácil, sei disso.

Ela seca as lágrimas. Sorri pra ele. Abraçam-se fortemente.


Nova Iorque – 7:49 A.M.

Byers, Langly e Frohike descem do carro. Langly olha pro prédio em frente.

BYERS: - Quem mora aqui?

FROHIKE: - Uma antiga amiga. Vamos entrando.

Byers e Langly se olham meio desconfiados. Frohike aperta o interfone. A voz feminina e rouca pergunta quem é.

FROHIKE: - Sou eu... Frohike.

MARYAH (OFF): - AHHH!!! 'Tigrão'??? Tigrão, você chegou!!!

Byers e Langly se olham incrédulos.

BYERS: - Tigrão?

LANGLY: - (SEGURANDO O RISO) Foi o que ouvi.

FROHIKE: - (IRRITADO) Querem parar de ficar aí fuxicando e pegarem as malas?


Corta para os três saindo do elevador. A porta do apartamento em frente está semiaberta. Frohike entra. Langly e Byers entram também, voltando as atenções para o apartamento todo decorado com motivos esotéricos. Langly olha pra Byers e ergue os ombros.

LANGLY: - Quem mora aqui?

Uma voz feminina vinda da cozinha atrapalha a resposta.

MARYAH: - Tigrão, já estou indo! Fique à vontade com seus amigos! Tem bebidas no bar!

Byers e Langly trocam olhares curiosos. Frohike larga sua sacola sobre o sofá. Langly senta-se na confortável poltrona. Frohike olha pra ele.

FROHIKE: - Se sujar alguma coisa por aqui, vai se entender comigo.

Byers e Langly dirigem sua atenção para a morena, de uns 40 anos nada aparentáveis que entra na sala, segurando um pano de prato nas mãos. Cabelos encaracolados e presos no alto da cabeça. Vestido longo e hippie. Extraordinariamente bonita. Ela acena pra eles, timidamente.

MARYAH: - (SORRI) Oi!

Os dois ainda boquiabertos nem respondem. Ela abraça Frohike, revelando ser mais alta que ele.

MARYAH: - (FELIZ) Tigrão! Ai, que saudade!!!

Ela se afasta, olhando-o de cima a baixo.

MARYAH: - Puxa, você está em forma!

FROHIKE: - E você está a cada ano mais bonita.

MARYAH: - Hum, não escuto um elogio seu há uns 20 anos! Mas não comece. Sabe que isto é por um ou dois dias. Depois estaremos prontos pra nos matar.

Frohike vira-se pra eles.

FROHIKE: - Amigos, esta aqui é Mariah Campbell. Minha ex-mulher.

Byers e Langly trocam olhares curiosos.


12:11 P.M.

Mulder e Scully estão sentados no banco de uma praça. Ele com os braços apoiados sobre as pernas. Os dois em silêncio, observando as mamães que passam, empurrando carrinhos de bebês. Scully suspira. Olha pra ele. Ela ainda está com a credencial do FBI no peito.

SCULLY: - Por que essa minha obsessão?

MULDER: - Virou minha obsessão também.

SCULLY: - ...Mulder...

MULDER: - ... Fala.

SCULLY: - Vamos adotar uma criança?

MULDER: - Sabe que pra adotar uma criança precisamos ser legalmente casados. Casando com você, ambos perderíamos o emprego, nossa vida estável, nosso seguro, a aposentadoria federal... (RI) Mas mesmo assim, sei que a gente faria isso pra ter um filho.

SCULLY: - ...

MULDER: - Mas nós temos um, Scully. E eu quero o nosso filho. Ele é nosso por direito.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - ... Eu prometi, não prometi? Só que agora eu vejo que isto é por amor. Eu quero que seja por amor. Com todo o amor do mundo. No resto eu aplacarei o meu ódio. E não pode me pedir pra não fazer isso.

SCULLY: - Me promete então. Me promete que nosso filho vai fazer você aplacar essa revolta toda. Me promete que ele vai fazer você voltar a ser quem era.

MULDER: - Não posso prometer que voltarei a ser quem era. Imagina, Scully, eu como pai? Eu vou ser um homem novo! Eu vou ter uma família só pra mim!

SCULLY: - (SORRI)

MULDER: - Ainda acredita em mim?

SCULLY: - ... Não acredito em muitas coisas, mas em você eu acredito.

Ele sorri, mais animado.

SCULLY: - Mulder.

MULDER: - ...

SCULLY: - Chegou a hora. Eu não quero mais esperar.

MULDER: - (SORRINDO) Sério?

SCULLY: - Sério. Já me convenci que não haverá outra maneira, Mulder. É louco, é contra todos os meus princípios, mas pra mim chega. Meus princípios e a minha lucidez nunca me trouxeram nada. Só me fizeram perder. Estou cansada, Mulder. Eu quero ser feliz.

MULDER: - Já estamos atrasados. Mas se formos rápidos, podemos ainda ter garantias de que tudo funcione como o previsto... (SORRI) Até pareço aquele desgraçado falando...

SCULLY: - ... Mulder, eu... Eu só quero que antes de começar a proceder nosso intento, você vá fazer os exames que te pedi.

MULDER: - ... Tá bom, Scully.

SCULLY: - Só pra ter certeza.

MULDER: - Tá, só pra ter certeza. E se eu estiver errado?

Ela segura a mão dele.

SCULLY: - Não vai haver nada de errado, Mulder. Se ele roubou nosso destino, significa que você nunca vai morrer de um tumor cerebral. Agora posso entender todas as coisas que Watkins disse. Ele queria a sua morte porque não podia morrer! Ele sabia que as coisas que fizeram com você lhe dariam um tumor no cérebro e você futuramente morreria disso. Ele roubou o seu destino e por consequência, o nosso destino. Mudou tudo.

MULDER: - (DEBOCHADO) E se eu morrer agora e não quando ficar mais velho?

Ela olha pra ele, censurando-o. Ele sorri.

SCULLY: - (REPREENDENDO-O) Mulder... Não brinca com isso.

MULDER: - ... Obrigado.

SCULLY: - Obrigado por quê?

MULDER: - Por me ajudar a ser feliz. Por me ajudar a voar.

SCULLY: - (SORRI) ...

MULDER: -Eu não sei quem é o autor, mas li na internet.

SCULLY: - (OUVINDO-O COM ATENÇÃO)

MULDER: - Muito tempo atrás, Deus estava sentado, calado. Sob a sombra de um pé de jabuticaba.

SCULLY: - (SORRI)

MULDER: -Deus erguia suas mãos, colhia uma ou outra fruta e a saboreava. Então das nuvens, um de seus muitos arcanjos desceu e veio em suadireção.

Scully continua a ouvi-lo, enternecida com a doçura dele.

MULDER: - Ajoelhou-se aos pés de Deus e falou: "Senhor... visitei sua criação como pediu. Fui a todos os cantos. Estive no sul, no norte. No leste e oeste. Vi e fiz parte de todas as coisas. Observei cada uma de suas crianças humanas. E por ter visto, vim até o senhor... para tentar entender.

Scully continua prestando atenção nele. A velhinha que tricota no outro banco, presta a atenção neles. O bonito casal lhe chama a atenção. O olhar dela pra ele, lhe chama a atenção. E o carinho que ele tem por ela, transmitido pela voz, falando suavemente com ela, lhe contando uma estória, também lhe chama a atenção.

MULDER: -Por que cada uma das pessoas sobre a Terra tem apenas uma asa? Nós anjos temos duas... Podemos voar para a liberdade sempre que quisermos. Mas os humanos com sua única asa não podem voar. Deus respondeu ao seu anjo: Sei que fiz os humanos com apenas uma asa. Intrigado, o anjo queria entender e perguntou: Mas por que o senhor deu aos homens apenas uma asa, quando são necessárias duas asas para poder voar... Para poder ser livre?

SCULLY: - (OLHA-O APAIXONADA)

MULDER: -Deus respondeu: Eles podem voar sim meu anjo. Dei aos humanos apenas uma asa para que eles pudessem voar mais e melhor do que Eu ou vocês. Para voar, meu amigo, você precisa de suas duas asas... Embora livre, sempre estará sozinho. Talvez da mesma maneira que Eu... Mas os humanos com sua única asa precisarão sempre daras mãos para alguém a fim de terem suas duas asas. Assim eles aprenderão a respeitarem-se, pois ao quebrar a única asa de outra pessoa podem estar acabando com as suas próprias chances de voar. Assim meu anjo, eles aprenderão a amar verdadeiramente outrapessoa... Aprenderão que somente permitindo-se amar, eles poderão voar.

SCULLY: - Já encontrei a minha outra asa. E você?

MULDER: - Por que acha que te contei essa estória?

Ela sorri. Ele segura as duas mãos dela na sua.

MULDER: - Quer voar comigo? Por toda a vida? Por toda a eternidade? Dentro das nossas diferenças?

SCULLY: - (FAZENDO BEIÇO DE QUEM VAI CHORAR) ... Quero.

Ele sorri. Coloca o cabelo dela pra trás da orelha. A velhinha os observa, admirada. Mulder segura a mão de Scully. Os dois sorriem. Saem caminhando de mãos dadas. Mulder solta a mão dela e a envolve com o braço.

MULDER: - Tem certeza?

SCULLY: - Eu tenho. E você?

MULDER: - Nunca tive tanta certeza na vida. Nem quando ficamos juntos pela primeira vez... (PIDÃO) Diz que me ama.

SCULLY: - Eu te amo. Quer que eu grite isso aqui em público?

Mulder para. Olha ao longe.

MULDER: - (DEBOCHADO) Bem, estamos há uma quadra do Bureau. Duvido que grite.

Ela sobe no banco em que está a velhinha. A velhinha ergue a cabeça e olha pra ela, sorrindo, terminando de tirar o tricô da agulha. Scully abre os braços.

SCULLY: - (GRITA) Eu sou agente federal e amo meu parceiro de trabalho!!!!!!!!

Mulder arregala os olhos, incrédulo. A velhinha olha pra ela e sorri. As pessoas que passam param pra aplaudir. Mulder abaixa a cabeça, embaraçado, mas rindo. Scully inspira fundo.

SCULLY: - (GRITA) Mulder, eu te amo!!!! Eu te amo! Eu te amo!

Mulder olha pra ela, num sorriso de paixão. Ela desce do banco. A velhinha olha pra ela.

VELHINHA: - Já que ama tanto esse rapaz... Leve isso pra dar sorte. E aumente seu número de asas. Vão voar melhor, com toda a certeza.

Scully pega o xale branco de bebê recém terminado. Olha pra velhinha, com os olhos cheios de lágrimas de alegria.

SCULLY: - Vai dar certo, senhora. Isto aqui é a benção que eu precisava.

Scully beija a velhinha no rosto. Olha pra Mulder. Coloca o xale nos ombros dele.

SCULLY: - Papai, cuida do xale que o bebê virá logo.

Ele sorri emocionado, derrubando lágrimas.

SCULLY: - Eu acredito em você.

Os dois se dão as mãos e saem rindo. Numa felicidade nunca vista antes.


Nova Iorque – 9:23 P.M.

Frohike olha pra Langly. Os dois cochicham.

LANGLY: - Por que não me disse que viríamos pra casa da sua ex?

FROHIKE: - E daí? Faz alguma diferença?

LANGLY: - Ex é ex! E não mora, habita num covil, sempre preparada pra ataca-lo com uma faca no meio da noite!

Mariah entra na sala, arrumando a mesa. Volta pra cozinha. Eles continuam cochichando.

LANGLY: - Ainda não acredito!

FROHIKE: - Não tínhamos outro lugar!

LANGLY: - Não estou falando disso. Ainda não acredito que uma mulher como ela se casou com um tipo escroto como você.

Frohike o puxa pelos cabelos.

LANGLY: - Ai!!! Para com isso!

FROHIKE: - Escuta aqui, ô cabeludo, vê se relaxa e se concentra no objetivo que nos trouxe até aqui.

LANGLY: - Acho que tudo isso foi pretexto pra você vir vê-la.

FROHIKE: - Olha aqui, se eu quisesse vê-la, não traria 'meus filhos' pra festa.

Mariah entra, servindo um prato sobre a mesa.

MARYAH: - Meninos, por favor. Prestigiem o meu jantar.

FROHIKE: - Mariah, preciso dar um telefonema antes.

MARYAH: - Fique à vontade.

Frohike vai até o telefone. Langly senta-se à mesa. Byers entra, abrindo o vinho. Os dois ficam conversando com Mariah. Frohike disca um número e os observa. Espera, espera, espera...

MULDER (OFF): - Alô?

FROHIKE: - (SUSPIRA) Mulder, até que enfim! Onde está?


Corta para Mulder, saindo de um prédio, debaixo da chuva fina, segurando o celular contra a orelha, vestido num sobretudo. Completamente sério.

MULDER: - O que quer?

FROHIKE (OFF): - Mulder, estamos investigando um caso envolvendo paranormalidade. Precisamos da sua ajuda.

Mulder para na calçada em frente a uma placa. Percebe-se a palavra 'clínica' escrito, mas não se pode ler o resto. Mulder com uma fisionomia preocupada. Tensa.

FROHIKE (OFF): - Onde está?

MULDER: - ... No FBI. O que está acontecendo? Por que me ligam de minuto em minuto?

FROHIKE (OFF): - Mulder, sabe aquela história da gárgula amaldiçoada que escondia um tesouro? Pois sabemos onde está.

MULDER: - (INCRÉDULO) Sério?

FROHIKE (OFF): - O governo está fazendo a guarda, eles a querem. Precisamos sumir com ela, entendeu?

MULDER: - ... Sim. Relacionei agora.

FROHIKE (OFF): - A Scully está com você?

MULDER: - ... Tentem entrar em contato com o Chuck, do FBI. Ele vai ajudar vocês.

FROHIKE (OFF): - Mulder, não quer nos ajudar? Estou falando da Maldição da Gárgula! O maior dos Arquivos X!

MULDER: - ... Sei... Lamento, Frohike. Mas estou ocupado agora... Eu... Eu estou perseguindo um suspeito. Me ligue se precisarem de alguma coisa.

Mulder desliga. Coloca o celular no bolso. Entra no prédio às pressas, segurando as lágrimas.


Corta pra Frohike, que desliga. Senta-se à mesa.

BYERS: - Ele vem nos ajudar?

LANGLY: - O que ele disse?

FROHIKE: - Que estava no FBI. Depois se desmentiu dizendo que estava atrás de um suspeito e pediu que eu ligasse pro tal Chuck no FBI. Tem coisa aí.

BYERS: - Acha que o Mulder mentiria pra nós?

FROHIKE: - Acho que o Mulder está nos escondendo alguma coisa.

MARYAH: - Quem é Mulder?

BYERS: - Um amigo. Um grande amigo.

LANGLY: - Acha que ele e a Scully...

FROHIKE: - Ele não me pareceu estar chateado com ela. Me pareceu nervoso, tenso. Triste seria a palavra. Tem alguma coisa acontecendo com ele, que não quer nos contar.

BYERS: - Mas o que estaria acontecendo com o Mulder? Ele só nos esconderia alguma coisa pra nos poupar.

LANGLY: - Ou se fosse algo muito sério mesmo. Um caso de vida ou de morte.


BLOCO 3:

1:29 A.M.

Frohike pega o telefone e disca. Byers e Langly arrumam algumas coisas numa sacola. Langly olha pra Mariah.

LANGLY: - Tem alguma meia de náilon que não precise mais?

MARIAH: - Vou buscar.

Ela vai pro quarto. Langly pega um aparelho e anexa na tomada do telefone. Frohike continua aguardando a chamada.

FROHIKE: - ................... Mulder?

Corta pra Mulder. Ele sai por uma porta, indo pra um corredor extenso, de paredes brancas, falando ao celular. Camisa aberta e mangas arregaçadas.

MULDER: - Fala, Frohike.

FROHIKE (OFF): - Sei que deve estar ocupado fazendo alguma coisa que não é da minha conta.

MULDER: - (TENSO) Estou em casa.

FROHIKE (OFF): - Ligo pro seu telefone?

MULDER: - Não... Vamos falar por esse mesmo. Estou no banheiro.

FROHIKE (OFF): - Mulder, o que sabe sobre gárgulas? Tem alguma historinha pra me contar?

Mulder senta-se no banco. Scully sai pela mesma porta, vestida num jaleco. Olha pra ele, preocupada. Mas lhe dá um sorriso de conforto. Ele retribui o sorriso.

MULDER: - Segundo correntes místicas, as Gárgulas são uma raça de seres alados muito poderosos. Durante o dia, eles são transformados em pedra como estátuas nos parapeitos das construções. Quando o sol se põe, a pedra se transforma em carne e eles têm a tarefa de defender seu lar. Eles não têm nomes, mas eventualmente recebem um para lidar mais facilmente com os humanos. A palavra Gárgula tem origem em "gargouille", uma antiga palavra francesa que significa garganta.

FROHIKE (OFF): - ...

MULDER: - Os grandes responsáveis pelo nascimento destas criaturas foram os arquitetos gregos, mas só na idade média é que tiveram a sua grande aparição com quatro finalidades diferentes. Mas para se poder compreender melhor estas figuras, têm que se pôr em causa a poderosa opinião sobre os deuses nas pessoas medievais. Os deuses eram a manifestação da fé, onde cada pessoa na comunidade contribuía sempre para algo. Onde estamos mais habituados a vê-las é suportando a água da chuva das igrejas góticas, nos paços dos bispos, em edifícios nobres do séc.XII... Tá anotando aí?

FROHIKE (OFF): - Langly está gravando.

MULDER: - A primeira finalidade foi a instrução religiosa descrevendo passagens da bíblia e criar a ilusão de vida eterna. A segunda foi proteger as casas e habitações, sendo colocado sobre elas, dando a entender a presença dos espíritos bons e guardiões. A terceira finalidade foi ter sido uma peça importantíssima para os rituais católicos ajudando a separar o Pré-Cristianismo do Cristianismo atual, através de símbolos, figuras e criaturas. A quarta finalidade, de teor prático, utilizado nas catedrais góticas da Europa Ocidental, e edifícios municipais fazendo escorrer as águas dos telhados através das suas câmaras ocas.

FROHIKE (OFF): - Continua. Qualquer dado é importante.

MULDER: - Podemos assim encontrar gárgulas de todos os estilos e tamanhos, representando o espírito de quem lá vivia. Podemos encontrar gárgulas de jardim que servem para embelezar os mesmos, ou em forma de relógio para proteger todas as horas do dia da família ou comunidade. Poderiam ser encontradas réplicas, nos interiores das casas, principalmente nos quartos de bebês, protegendo o espírito das crianças, adolescentes e daqueles que lá viviam. Outros povos vêem as gárgulas de maneira contrária. Para esses povos as gárgulas representam almas perdidas, trazendo a morte, por causa da forma facial e olhares ferozes que elas têm, como também eram vistas como guardiões do Diabo, que durante a noite saiam da sua forma fria para buscar almas para o inferno.

FROHIKE (OFF): - ... Sentidos dúbios. Anjos ou demônios...

MULDER: - Todas as gárgulas têm em comum o material de que são feitas. Todas são esculpidas em pedra preta ou escura. Nos dias de hoje pode-se encontrar vários tipos de gárgulas, em vários edifícios em torno do mundo. Todas elas indicam o estilo gótico do edifício e o seu século. Só uma coisa não mudou desde a era gótica.

FROHIKE (OFF): - O quê?

MULDER: - Elas estão lá, dia e noite para nós as observarmos... ou para nos observarem?

FROHIKE (OFF): - Tem medo de gárgulas, Mulder?

Mulder olha pra um médico que sai nervoso da sala, segurando um exame.

MULDER: - Tenho medo de tudo o que não posso controlar, Frohike.

Mulder desliga. Abaixa a cabeça. Scully senta-se ao lado dele. Segura em sua mão. Com a outra afasta a franja de sua testa.

SCULLY: - Vai dar certo, Mulder.

Ele se abraça nela chorando. Ela segura as lágrimas, o envolvendo num abraço.


Cais do Porto de Nova Iorque – Depósito 35 - 2:24 A.M.

Luz de apenas um poste. Três silhuetas surgem como sombra, projetadas contra a parede dos fundos do cais. As sombras vão aumentando de tamanho. Byers, Langly e Frohike passam pela frente da câmera, correndo sem fazer barulho.

LANGLY: - (COCHICHA) O mais difícil foi pular o muro...

BYERS: - (COCHICHA) Tem certeza de que é aqui?

Frohike usa uma toca de lã, luvas e segura uma mochila no ombro e um rolo de corda. Byers vestido de jaqueta e calças pretas, com uma escuta no ouvido, microfone sem fio, binóculos pendurado no pescoço. Langly de jeans e jaqueta de couro, cabelos amarrados, com duas bananas de dinamite nas mãos, explosivos plásticos, fios e detonador. Byers tira um papel do bolso das calças. Mira-o contra a luz da lanterna.

BYERS: - (COCHICHA) Pela planta... é, é aqui mesmo.

FROHIKE: - (COCHICHA) Vou entrar. Sabem o que fazer. Se o plano A der errado, passem para o plano B de emergência.

LANGLY: - (COCHICHA) Tá.

Frohike aproxima-se do armazém. Encosta-se contra a parede. Espia a frente do prédio. Há 4 soldados jogando cartas, rindo e fumando. Frohike se esconde. Toma distância e atira a corda pra cima. A corda cai. Frohike olha pra Byers.

FROHIKE: - (SUSSURRA) Dá pra me ajudar, ô grandão?

Byers vai até ele. Pega a corda. Arremessa-a. Verifica se está firme. Langly agacha-se atrás de caixas e prepara o detonador. Byers ajuda Frohike a subir. Afasta-se. Vai pra perto de Langly. Agacha-se atrás das caixas e fica observando Frohike pelo binóculo infravermelho. Fala pelo microfone sem fio.

BYERS: - (SUSSURRA) Há guardas do lado de fora. Tome cuidado.

FROHIKE (OFF): - (SUSSURRA) Eu sei, idiota.

BYERS: - (SUSSURRA) A três telhas de onde você está, vai achar a entrada. Tome cuidado, o prédio é velho e as telhas podem estar podres.

FROHIKE (OFF): - (SUSSURRA) Grande! Agora que você me diz isso?

Frohike caminha por cima do telhado. Olha pras telhas.

FROHIKE (OFF): - (SUSSURRA) Encontrei.

BYERS: - (SUSSURRA) Quando entrar, diga bingo.

FROHIKE (OFF): - (SUSSURRA) E se quiser dizer cassino?

Byers franze os lábios.

BYERS: - (SUSSURRA) Diga o que quiser, contanto que eu entenda o sinal. Anda!

FROHIKE (OFF): - (SUSSURRA) Ei, quem dá ordens por aqui sou eu.

Byers olha pra Langly.

BYERS: - (SUSSURRA) Síndrome de Moe. Ele pensa que é o chefe por aqui.

FROHIKE (OFF): - (SUSSURRA) Ei, eu ouvi isso.

BYERS: - (SUSSURRA) E daí? Tô tremendo de medo.

Langly olha pra Byers.

LANGLY: - (SUSSURRA) O que está acontecendo com você ultimamente? Está estranho...

BYERS: - (SUSSURRA) Estou em crise. E quando estou em crise eu fico irritado.

LANGLY: -(SUSSURRA) Susanne?

BYERS: - (SUSSURRA) Pode ser.

Langly ergue as sobrancelhas. Tira explosivos dos bolsos. Aproxima-se sorrateiro do armazém, segurando explosivos e fios. Gruda os explosivos em pontos determinados. Coloca os fios e volta rapidamente pra perto de Byers, enquanto guia os fios por suas mãos.

FROHIKE (OFF): - (SUSSURRA) Bingo!... Mas não vejo a estátua.

BYERS: - (SUSSURRA) Deve estar aí. Tem que acha-la.

FROHIKE (OFF): - (SUSSURRA) Isso é mais difícil que roubar a Monalisa. Tá cheio de caixas aqui... E essa lanterna é uma droga, tá falhando.

Langly agacha-se. Conecta os fios no detonador. Byers olha pra ele.

LANGLY: - (SUSSURRA) Tudo pronto. Se o plano A falhar, vamos explodir isso. Seja o que estiver lá dentro, azar o do governo. Vão ficar sem.

BYERS: - (SUSSURRA) Eu era um funcionário do governo! O que sou agora? Um terrorista?

Langly tira os óculos. Os dois colocam meias de seda pretas na cabeça.

BYERS: - (SUSSURRA) Tem certeza de que checou os equipamentos mesmo?

LANGLY: - (SUSSURRA) Por quê?

BYERS: - (SUSSURRA) A lanterna do Frohike tá falhando.

LANGLY: - (SUSSURRA) Mas tava funcionando legal quando saímos.

BYERS: - (SUSSURRA) Frohike, talvez haja alguma coisa aí que esteja afetando as pilhas.

FROHIKE (OFF): - (SUSSURRA/ ASSUSTADO) Radiação???

BYERS: - (SUSSURRA)... Pode ser algum tipo de energia muito forte que afeta a carga das pilhas.

FROHIKE (OFF): - (SUSSURRA) Se eu sair daqui com coloração verde, eu mato o Tuckermann!

BYERS: - (SUSSURRA) Vamos, temos pouco tempo.

Byers olha pro relógio. Olha apreensivo para o armazém.

FROHIKE (OFF): - (SUSSURRA) Estou descendo. Não há ninguém aqui dentro. Está escuro como breu. Caixas... Espera aí, Byers... Tem uma coisa estranha aqui.

Byers retira a meia do rosto. Cara de pânico. Langly olha pra ele.

BYERS: - (SUSSURRA/ ASSUSTADO) Que coisa?

FROHIKE (OFF): - (SUSSURRA) Parece... Parece uma espécie de câmara criogênica, mas... eu não sei o que é, nunca vi isso na vida... Sabe aquelas coisas de filmes como Alien? Pelo tamanho... Eu diria que cabe um cara como o Mulder aqui dentro. Ou maior do que ele.

Byers fecha os olhos.

BYERS: - (SUSSURRA) Frohike... Me diga que não há nada aí dentro.

FROHIKE (OFF): - (SUSSURRA) Não, não há nada. Está aberta.

Byers sente as pernas amolecerem.

BYERS: - (SUSSURRA) Frohike saia já daí. Se está aberta é porque... Alguma coisa fugiu.

FROHIKE (OFF): - (SUSSURRA) Se queria me assustar, você conseguiu!

BYERS: - Vamos Frohike.

FROHIKE (OFF): - ...

BYERS: - Frohike?

FROHIKE (OFF): - ...

BYERS: - Frohike, está me escutando?

FROHIKE (OFF): -...

BYERS: - Frohike?

FROHIKE (OFF): - Pelo amor de Deus, que diabos é isso?

BYERS: - Frohike, o que está acontecendo?

Byers tira as escutas, ensurdecido pelos gritos desesperados de Frohike.


2:58 A.M.

Mulder, sentado num banco, derruba lágrimas. Segura um lenço de papel contra o nariz que sangra. Olha pro celular tocando insistentemente. Mas não tem ânimo, está abatido. Olha pra Scully.

SCULLY: - Mulder, não quero que fique preocupado. Eu estou aqui. Eu sou médica. Me deixe fazer a minha parte.

MULDER: - Eu... Eu perdi pra eles de novo, Scully.

Um médico aproxima-se deles. Mulder levanta-se. Beija Scully na testa e entra na sala. O médico olha pra ela. Scully pega o celular de Mulder. Desliga-o. Guarda no bolso. Entra na sala, abatida, fechando a porta.


3:04 A.M.

Byers desliga o celular. Langly olha pra ele.

LANGLY: - E agora? Só o Mulder poderia nos ajudar.

BYERS: - Teremos de nos virar por nós mesmos, Langly. Não sei o que está havendo com o Mulder pra simplesmente virar a cara pra gente. Logo agora que mais precisamos dele.

LANGLY: - Sabe que o Mulder é de lua... Vai ver está fazendo 'as pazes' com a Scully... Bem, em último caso, chamaremos a polícia.

BYERS: - É? E o que vamos dizer? Como vamos explicar pra eles o quê o Frohike foi fazer lá dentro?

LANGLY: - Não podemos entrar pela porta. Tá cheio de militares.

BYERS: - Eu entrarei pelo telhado.

LANGLY: - Byers...

BYERS: - Alguém precisa entrar. Eu vou. Você fica aqui e me dá cobertura.

Langly ajeita os óculos. Observa Byers subindo pela corda.

BYERS: - (RECLAMANDO) ... Se aconteceu algo ao Frohike, o Tuckermann vai se entender comigo. Ele me paga dessa vez, aquele punk maluco...

Corte.


Trailer de Tuckermann - Nova York - 3:14 A.M.

[Som: Do You Remember Rock'n Roll Radio – Ramones]

Música alta.

Câmera de aproximação, por dentro do trailer. Equipamentos de escuta. Computador ligado. Som alto. Fitas espalhadas pelo chão, completamente quebradas e estragadas.

Corta para o corpo do rapaz punk, cabelos azuis e verdes, jogado contra a geladeira aberta, entre latas de cerveja. Um tiro certeiro na cabeça. O cérebro esparramado pelo chão. Os olhos ainda gélidos, revelando o último olhar em vida.

Corta para Marita Covarrubias, numa sensual roupa de couro. Guarda a arma na cintura. Pega uma fita K7 sobre a escrivaninha. Na fita, um pedaço de fita crepe, colado, com um escrito em letra de fôrma: P/ Pistoleiros - transmissão alienígena.


BLOCO 4:

Byers segurando-se na corda, tocando o chão com os pés. Tira a lanterna do bolso. O lugar está na penumbra. Byers mira a lanterna em várias direções. Há apenas caixas fechadas. Ele caminha lentamente, assustado. Alguma coisa o segura pela canela. Byers fecha os olhos.

BYERS: - (SUSSURRA) Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco...

FROHIKE: - (SUSSURRANDO ALTO) Byers! Cala a boca!

Byers olha pra Frohike, estendido no chão, atrás de uma caixa.

FROHIKE: - (SUSSURRA) Esconda-se!

Byers agacha-se no chão, ao lado de Frohike.

BYERS: - (SUSSURRA) O que aconteceu? Pensei que você tivesse...

FROHIKE: - (SUSSURRA) Tem alguma coisa aqui, Byers. Me agarrou, mas consegui escapar. Está a espreita.

BYERS: - (SUSSURRA) Coisa? Você viu o que era?

Frohike ergue a barra da calça, revelando uma marca estranha como uma ferroada gigante.

FROHIKE: - (SUSSURRA) Não, mas me pegou em cheio.

BYERS: - (SUSSURRA) Frohike, vamos dar o fora daqui. Eu ajudo você a subir, ok?

Barulho de caixas. Os dois calam-se. Byers desliga a lanterna. Uma luz toma conta do ambiente. Os dois, arregalam os olhos assustados. Mas logo percebem que é a porta do depósito que está sendo aberta. Eles recuam, ficando na penumbra.


Corta pra Alex Krycek e o Homem das Unhas Bem Feitas. Os dois entram no depósito. O Homem das Unhas Bem Feitas segura um recipiente criogênico.

KRYCEK: - Está aqui?

HUBF: - Está. Sabe o que deve fazer.

O Homem das Unhas Bem Feitas entrega o recipiente criogênico.

HUBF: - Leve isto com você. Tome cuidado, não obteremos mais desta amostra... Se acontecer algo com isso, estaremos perdidos... Entregue aos novos operários. Eles saberão o que fazer.

KRYCEK: - Eu a levarei daqui, em segurança.

O Homem das Unhas Bem Feitas sai rapidamente. Krycek passa por Byers e Frohike, mas não os vê. Para no meio do depósito. Olha pra todos os lados.

Byers e Frohike observam Krycek. Krycek fecha os olhos e começa a falar algo numa língua desconhecida. Byers e Frohike se entreolham.


Corta para uma silhueta monstruosa que surge na parede. Krycek vira-se pra ela. Fala alguma coisa. Byers observa assustado. A criatura sai espreitando-se pelas sombras. Krycek caminha até a saída. Pode-se perceber a silhueta alta e bizarra da criatura pela luz da porta, antes que ela se feche.

Ao ouvir o barulho da porta fechando-se, Byers e Frohike soltam o ar dos pulmões.

FROHIKE: - Pelo amor de Deus! O que era aquilo?

BYERS: - Como vou saber? Acho que era um alienígena...

FROHIKE: - Mas e a Gárgula?

BYERS: - Eu não disse que Tuckermann sabia alguma coisa que não sabíamos? Desgraçado, eu vou mata-lo!

FROHIKE: - Se acalme, Byers. Queria que o Mulder estivesse aqui. Ele poderia nos dizer que droga era aquela. Agora vamos dar o fora daqui rápido. Quero seguir aquele cara.

Byers ajuda Frohike a subir pela corda.


Aeroporto de Nova Iorque - 5:41 A.M.

Langly coloca a moeda na máquina de chocolates. Observa Krycek sentado num banco. Ao lado dele, o recipiente criogênico. Frohike, sentado em outro banco, disfarça que lê um jornal. Byers sai do telefone e senta-se no banco atrás de Frohike.

BYERS: - (SUSSURRA) Nada do Mulder. Celular desligado. O telefone da casa não atende. Nem a Scully. Tentei até o FBI.

FROHIKE: - (SUSSURRA) Que droga! Ele está perdendo isto tudo!

BYERS: - (SUSSURRA) O russo vai pra Ohio.

FROHIKE: - (SUSSURRA) O que há em Ohio ligado a criogenia?

BYERS: - (SUSSURRA) Onde está a criatura?

FROHIKE: - (SUSSURRA) Você viu, assim como eu e o Langly vimos quando ele saiu do carro. Estava sozinho.

BYERS: - (SUSSURRA) Droga! O Mulder adoraria ver isso.

FROHIKE: - (SUSSURRA)... Acho que não, Byers... Acho que agora até agradeço que Mulder não esteja aqui.

Byers disfarça e olha pra trás.

Close em Diana Fowley que senta-se ao lado de Krycek. Byers volta o rosto rapidamente.

BYERS: - (SUSSURRA) Eu não acredito!

FROHIKE: - (SUSSURRA) Nem eu. Tome cuidado, ela nos conhece muito bem.

Langly, escondido atrás de uma planta, lança um olhar questionador pra Frohike. Este ergue os ombros.

Krycek nada fala com Diana. Os dois levantam-se ao mesmo tempo, ao ouvirem a chamada do voo. Krycek leva o recipiente com ele.

Byers indigna-se. Levanta-se. Langly arregala os olhos. Byers caminha rapidamente até Diana e a segura pelo braço.

BYERS: - Odeio você.

Diana olha pra ele numa expressão de indiferença. Byers fica boquiaberto olhando pra ela. Krycek e Diana entram no portão de embarque. Frohike aproxima-se de Byers.

FROHIKE: - Ficou maluco? Acaba de nos arranjar encrenca com E maiúsculo!

BYERS: - (BOQUIABERTO) ...

Langly aproxima-se.

LANGLY: - (DESESPERADO/ MEDROSO) Nos entregou pra eles! Aquela desgraçada nos conhece, ela vai ferrar com a gente... Estamos mortos! Aquele desgraçado do 'nicotina man' vai nos pegar, torturar, cortar em pedacinhos e depois atira-los pros alienígenas no café da manhã!

BYERS: - (INCRÉDULO) Não era ela.

Frohike olha pra ele numa fisionomia de intriga.

FROHIKE: - Como assim 'não era ela'?

BYERS: - Ela não me reconheceu.

FROHIKE: - Tem certeza disso?

BYERS: - Absoluta. Ela não me reconheceu. Não era a Diana.

LANGLY: - Um clone?

Os três se entreolham assustados.

BYERS: - (PÂNICO) Pelo amor de Deus, temos que falar com o Mulder! Tem algo fedendo aqui e é demais pra nossa cabeça.

FROHIKE: - Vamos voltar pra Washington. Temos que informar o Mulder sobre isto. E ele vai ter que parar de palhaçada e nos ouvir!


Apartamento de Mulder - 11:19 A.M.

O apartamento na penumbra, apenas iluminado por fachos da luz do sol que entram pela persiana. Mulder e Scully sentados no sofá. Scully aconchega a cabeça no ombro dele. Envolve os braços na cintura dele. Segura as lágrimas. Mulder a envolve em seus braços também. Silêncio. Mulder derruba lágrimas. Afaga os cabelos dela, num sorriso cansado.

Batidas na porta.

Mulder fecha os olhos, inconformado.

FROHIKE (OFF): - (AOS GRITOS) Mulder! Se estiver aí, por favor abra essa porta! Precisamos realmente falar com você!

LANGLY (OFF): - Mulder, tá acontecendo uma coisa estranha! Precisamos de ajuda, Mulder.

Mulder olha pra Scully.

MULDER: - Acho melhor atender.

Mulder enxuga as lágrimas e abre a porta. Os três entram apressados. Mulder acende as luzes. Scully olha pra eles, secando as lágrimas, abrindo um sorriso.

SCULLY: - Oi, rapazes!

FROHIKE: - Scully, sei que não chegamos num momento nada propício, não brigue com a gente porque estamos perturbando o Mulder...

Ela abaixa a cabeça, sorrindo.

SCULLY: - Perturbem o Mulder o quanto quiserem. Vou fazer um café.

Scully vai pra cozinha. Pega a chaleira.

LANGLY: - Mulder, nos desculpe, cara. Sei que vocês dois estão tentando fazer as pazes mas...

MULDER: - (PREOCUPADO) O que aconteceu? Por que estão brancos como neve?

FROHIKE: - Vimos a Diana Fowley.

Scully deixa a chaleira cair no chão. Eles viram-se pra porta da cozinha. Scully coloca a mão sobre os lábios, segurando um choro de medo, derrubando lágrimas. Byers vai até ela.

BYERS: - Scully, não fique nervosa. Não acho que era a Diana.

Mulder olha pra Byers e vai até a cozinha. Langly e Frohike o seguem. A confusão começa. É muita informação truncada.

MULDER: - O que está acontecendo aqui afinal? Que história é essa? Vocês não estavam verificando a história da gárgula?

SCULLY: - Que gárgula?

MULDER: - Aquela que o Skinner queria que investigássemos.

BYERS: - Fomos pra Nova Iorque. O Krycek tava lá.

SCULLY: - Mas o que aquela mulher tem a ver com isso?

LANGLY: - Gárgula...

BYERS: - Eles foram pra Ohio.

MULDER: - Quem? Krycek e a Gárgula?

SCULLY: - Diana Fowley é uma gárgula?

FROHIKE: - Krycek falava num dialeto esquisito.

MULDER: - Quê?

LANGLY: - Krycek tava com ela.

BYERS: - E com um tubo de criogenia.

LANGLY: - Tinha um monte de soldados.

SCULLY: - E a gárgula?

FROHIKE: - Bem que o Tuckermann falou.

LANGLY: - Que gárgula?

FROHIKE: - Ela me picou na perna!

MULDER: - Quem? A gárgula?

SCULLY: - A Diana?

MULDER: - Mas que diabos...

Mulder grita. Todos olham pra ele.

MULDER: - Querem se acalmar, estão dando um nó na minha cabeça! ... Vamos por partes, tá legal? Quem picou quem, que coisa de Gárgula é essa, o que Krycek tem a ver com isso e onde estava a Diana? E quem diabos é Tuckermann?

Scully olha preocupada pra Frohike.

SCULLY: - (FURIOSA) Onde aquela vaca te mordeu?

FROHIKE: - Vaca?

MULDER: - A gárgula te mordeu?

LANGLY: - Não tinha vaca nessa história.

BYERS: - Foi coisa do Tuckermann.

MULDER: - (INCRÉDULO) O Tuckermann te mordeu?

Frohike arregaça a calça. Scully arregala os olhos.

SCULLY: - Oh, Deus!

MULDER: - O cara mordeu o Frohike?

BYERS: - Não, foi a coisa!

SCULLY: - Que coisa?

MULDER: - A gárgula?

FROHIKE: - Não, aquilo. Era um alienígena.

MULDER: - Alienígena? Agora tem até alienígenas nessa história?

LANGLY: - Alienígenas tem dentes?

MULDER: - Era um híbrido que carregavam no tubo criogênico?

LANGLY: - Quê?

FROHIKE: - Não sei, poderia ser o ET.

SCULLY: - Que ET?

Mulder abaixa a cabeça. A balança negativamente. Scully sai da cozinha.

MULDER: - O que seria de mim sem minhas amizades... Rapazes, querem por favor se acalmar e vomitar tudo o que sabem?

Os três se entreolham.

BYERS: - Sentem-se. A história é longa.

Scully entra com uma maletinha.

SCULLY: - Sente-se aí, Frohike. Vou cuidar disso.

Frohike senta-se. Coloca a perna sobre a cadeira.

MULDER: - Esperem aí. Não falem mais nada.

Mulder vai pra sala. Eles se olham desconfiados. Mulder liga o som alto.

[Som: Blitzkrieg Bop – Ramones]

Frohike e Scully se entreolham.

FROHIKE: - Quer casar comigo?

SCULLY: - O que me oferece?

FROHIKE: - Nada de Ramones.

SCULLY: - Hum... Aceito.

Mulder entra na cozinha. Senta-se.

MULDER: - Ok, falem.

FROHIKE: - Está com problemas de escutas novamente?

MULDER: - E câmeras de vídeo. Mas desistam. Se retirar essas coisas eles ficam mais desconfiados ainda.

Scully ergue a calça de Frohike. Olha assustada.

SCULLY: - Oh, meu Deus! Mas o que é isso?

Mulder aproxima-se. Agacha-se.

MULDER: - Frohike, quem fez isso com você?

FROHIKE: - O quê fez isso comigo, Mulder. Não quem.

MULDER: - (NERVOSO) Começa a falar, Frohike, porque tenho a sensação de que não vou gostar disso também.


12:47 P.M.

[Som: Do You Remember Rock'n Roll Radio – Ramones]

Frohike com a canela enfaixada. Mulder olha seriamente para os três. Respira fundo. Byers toma um café, com as mãos trêmulas.

MULDER: - Ok. Ouvi tudo o que me disseram.

BYERS: - E então, Mulder? Vai verificar a informação?

MULDER: - Ele estava indo pra Ohio, com um tubo criogênico, na companhia da Diana Fowley, ou melhor, de algo que se parecia com ela.

Os três olham pra Mulder, impacientes, esperando uma resposta. Mulder olha pra eles.

MULDER: - Esqueçam disso.

FROHIKE: - Mas Mulder...

MULDER: - Rapazes, vocês não perceberam que isso foi só uma jogada pra me afastar da verdade de novo?

BYERS: - Como assim?

MULDER: - Usaram vocês pra nos enganar. Eu e a Scully fomos designados pra esse caso, mas eu não quis ir. Sabia que deveria haver alguma coisa estranha aí. Por isso não fomos, não é, Scully?

Ela reluta em confirmar. Mas o olhar dele a fita, esperando a confirmação.

SCULLY: - Sim... Foi por isso.

LANGLY: - Mas e a gárgula?

MULDER: - A gárgula? Bem, a gárgula era só uma maneira pra atrair vocês, os bodes expiatórios. Não existia gárgula nenhuma.

FROHIKE: - Mulder, você tem certeza?

MULDER: - Absoluta.

BYERS: - E o que foi aquela coisa que vimos? E que picou o Frohike?

MULDER: - Não se preocupe, o Frohike vai ficar bem. É só tomar os antibióticos que a Scully receitou.

FROHIKE: - Mulder, eu não acredito que...

MULDER: - Relaxem. Eu vou verificar isso. Mas não se preocupem, foi apenas mais uma mentira.

Os três levantam-se. Mulder vai pra sala e desliga o som. Os acompanha até a porta.

FROHIKE: - Mulder, você está bem?

MULDER: - Obrigado por perguntar, Frohike, mas estou. Por quê?

FROHIKE: - Parece abatido.

MULDER: - Sono. Sono atrasado.

FROHIKE: - Mulder, tem certeza de que fomos usados pra um plano...

MULDER: - Absoluta. Fiquem tranquilos, não há nada de estranho aí.

Eles saem. Mulder fecha a porta. Olha pra Scully. Scully está tensa. Mulder aproxima-se dela, tenso também. Olha pro teto.

MULDER: - (FALA ALTO) Scully, que tal a gente ir pra cama fazer amor como dois malucos?

Ela olha pro teto.

SCULLY: - Mulder, adorei essa ideia.

Corte.


Mulder e Scully entram no quarto. Mulder aproxima-se do som.

MULDER: - Que tal uma musiquinha, Scully? Pra dar mais clima?

SCULLY: - Hum... Pode ser.

[Som: For Your Babies – Simple Red]

Scully fecha a janela e apaga as luzes. O quarto fica na penumbra. Os dois deitam-se na cama. Mulder sobe sobre ela, aproximando os lábios da orelha de Scully, fingindo beija-la.

MULDER: - (SUSSURRA) O que era aquilo na perna do Frohike?

SCULLY: - (SUSSURRA) Mulder, e-eu... Eu não sei explicar, parecia a ferroada de algum inseto... Sabe quando se leva uma ferroada? O local estava inchado e o tamanho dos ferrões sugeria um inseto muito grande. Guardei os ferrões para analisar no FBI.

MULDER: - ... (SUSSURRA) Scully...

Scully olha pra ele. Percebe sua aflição. Mulder fica em silêncio, olhando nos olhos dela.

MULDER: - (SUSSURRA) Precisamos falar com um entomologista.

SCULLY: - (PENSANDO) Mulder, acha que aqueles homens estão novamente fazendo experiências com abelhas?

MULDER: - (SUSSURRA) Não, Scully. Eles não. Tem alguma coisa aí, e eu preciso descobrir.

SCULLY: - (PENSANDO) O que carregavam naquele tudo criogênico? A matriz de alguma aberração?

MULDER: - (SUSSURRA)... Scully, eu faço uma ideia do que carregavam ali, ok? Mas é melhor não falar sobre isto. Até que eu consiga achar Krycek. Ele é a minha prova.

SCULLY: - (PENSANDO) Mulder, você não pode confiar nele!

MULDER: - (SUSSURRA) Eu não confio no Krycek.

SCULLY: - (PENSANDO) Acha mesmo que era a Diana Fowley?

MULDER: - (SUSSURRA) Não. Seja o que for, aquela criatura deve ter assumido a aparência da Diana pra poder circular por aí sem ser notada.

SCULLY: - (PENSANDO) Mas por que logo daquela mulher?

MULDER: - (SUSSURRA) Por que eles não sabem se o que carregam naquele tubo criogênico será o suficiente pra concluir seus planos. Senão, terão de obter mais 'amostras' de uma cobaia quase estéril, usando a forma da Diana pra isso.

SCULLY: - ...

MULDER: - (SUSSURRA) Minha cabeça tá doendo. 'Preciso de um banho'.

Mulder levanta-se. Vai pro banheiro. Ela vai atrás dele. Mulder entra na banheira cheia de água, com roupa e tudo. Mergulha. Scully senta-se ao lado da banheira, olhando pro nada. Fecha os olhos. Mulder ergue-se. Empurra os cabelos molhados para trás. Olha pra ela.

MULDER: - (SUSSURRA) Scully, mantenha-se perto de mim, ok? Eles tentarão de tudo. Se ficar do meu lado estará a salvo. Confia em mim.

Scully suspira profundamente. Mulder sai da banheira. Estende a mão pra ela. Scully recosta-se nele. Mulder olha pra ela.

MULDER: - Scully, o resto agora será questão de tempo. Confie em mim. Eu não vou deixar que nada de mal te aconteça.

Ela sorri. Abraça-se nele.

SCULLY: - Eu amo você.

Os dois trocam um beijo suave. Mulder desliza pelo corpo dela. Ergue sua blusa e beija-lhe ternamente a barriga.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - Scully, este será o nosso símbolo. Do nosso filho. Você e ele me dão forças pra continuar nessa luta. Não temos mais tempo, Scully. Precisamos acabar logo com isso. Eles já começaram o Armagedom. E eu não vou ficar assistindo.

Mulder recosta-se na barriga de Scully, afagando-a ternamente. Beija-a com amor. Scully afaga-lhe os cabelos. Os dois fecham os olhos.

SCULLY: - (PENSANDO) Mulder...

MULDER: - O que é?

SCULLY: - (PENSANDO) Com todas essas desgraças acontecendo... Eu já chorei tanto... Mas... eu quero rir.

Ele olha pra ela. Ela começa a rir. Mulder ergue-se. Os dois se olham nos olhos.

SCULLY: - Eu amo você, Mulder. E amarei você até a que a morte nos separe.

Os dois trocam um beijo apaixonado.


Corta pra rua. Câmera subindo o ângulo lentamente até o alto do prédio de Mulder.

Close da gárgula preta, sentada no alto do prédio. Cabisbaixa. Olhos em vigia.

X


30/01/2001

13 de Agosto de 2019 às 04:54 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~