S04#17 - TERAPIA SEXUAL – PARTE II Seguir história

lara-one Lara One

Continuação da fic anterior. Quem vencerá, o médico ou o monstro?


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

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S04#17 - TERAPIA SEXUAL – PARTE II

INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Sala de Terapia – 9:23 A.M.

Câmera de aproximação. Marshall fala aos casais atentos. Um dos casais, Mulder e Scully, estão realmente atentos é em Marshall.

MARSHALL: - Se existe um romance perfeito? Todos nós buscamos uma fórmula de eternizar nossa felicidade. A tentativa de encontrar um companheiro ou companheira ideal é, sem dúvida, o maior desafio que temos na vida. E o pior é que, tendo encontrado essa pessoa, nem sempre conseguimos viver com ela o tempo idealizado e suficiente para a tal felicidade.

Scully abaixa a cabeça. Mulder percebe. Leva sua mão de encontro à mão dela e a segura com carinho.

MARSHALL: - Os casais vivem uma época difícil pois, segundo as estatísticas, metade dos casamentos acaba em divórcio. Embora fato, isso não inviabiliza a possibilidade de se viver um grande romance que possibilite eternizar um grande amor. Precisamos aprender a identificar o que acontece em relacionamentos estáveis, assim como o que acontece com relacionamentos problemáticos: o que leva um casal a se separar, e outros a passar a vida inteira juntos. Seria a síndrome do "até que a morte os separe”? Seguramente, não. Se for preciso coragem para estar numa relação por algum tempo, imagine por uma vida inteira. Sem dúvida, nem todos os casais devem permanecer casados, porém, muitos que poderiam continuar casados não sabem identificar o momento de agir para conservar o relacionamento.

Marshall olha para os casais.

MARSHALL: - Agora, eu quero que cada um de vocês vire para o lado e olhe nos olhos do seu parceiro ou parceira. Sei que isto é muito difícil, vocês perceberão. O objetivo é que nos olhos do outro, vocês busquem o ponto de fuga para voltarem no tempo. Relembrem porque essa pessoa um dia se tornou o objetivo mais importante da sua vida.

Mulder vira-se pra Scully. Ela pra ele. Olhos nos olhos.

MULDER: - (SORRI) Isso é fácil.

SCULLY: - (SORRINDO) Olhar nos olhos?

MULDER: - É. E também relembrar porque você se tornou o meu objetivo mais importante. Eu relembro isso todo o dia quando acordo e olho pra você.

Ela sorri. Marshall observa os casais. Pára os olhos em Mulder e Scully. Eles não percebem.

NARRADOR (OFF): - O que aquele casal em particular tinha? Marshall não sabia responder. Entre todos os casais presentes, apenas este se sentia muito à vontade com o exercício dos ‘olhos nos olhos’. Marshall estava curioso. A energia deles era diferente e ele poderia identificá-la à distância. A admiração por este casal crescia dentro do coração do médico. E o desejo de roubar-lhe tudo o que tinham crescia no coração do monstro. Ele sentia... Sentia toda a psicologia dos dois em sua própria carne. Mas precisava saber mais. Precisava saber muito mais sobre eles.

VINHETA DE ABERTURA:


BLOCO 1:

10:29 A.M.

Marshall falando. Mulder solta um suspiro profundo. Bob olha pra ele, segurando o riso. Mulder olha pra Scully.

MULDER: - (COCHICHA) Quero um clone pra ficar aqui enquanto durmo. Vou buscar Ed Van Blundt e já volto.

Ela sorri.

MARSHALL: - O melhor que posso dizer para homens e mulheres é que somos diferentes. Por motivos biológicos e culturais, você nunca poderá esperar que o sexo oposto entenda completamente quem você é e o que deseja. No casamento acontecem dois casamentos: o seu e o do seu cônjuge. Somente será possível coexistirem em uma união forte e harmoniosa, se homem e mulher conseguirem compreender isso.

Marshall caminha entre eles. Mulder cruza os braços, tentando se acordar.

MARSHALL: - Vejamos o que acontece. O menino cresce cercado do zelo da família e da sociedade exigindo dele que, sendo homem, comporte-se como tal, isto é, com força, determinação, firmeza e coragem.

Ele pára na frente de Mulder. Fala, olhando pra ele.

MARSHALL: - Quando um menino chora, a mãe diz: "você é um homem ou um saco de batatas? Você está parecendo uma mulherzinha etc", sempre na conotação de menosprezo ao sentimento de dor e desespero com a situação conflituosa que o mesmo está vivendo. O menino, então, interrompe o choro com a expectativa de corresponder ao que pessoas esperam com relação ao comportamento dele, de homem. Raras serão as exceções masculinas que nunca terão medo de chorar e mostrar sua fragilidade.

Marshall afasta-se. Mulder fica desconfiado. Marshall aproxima-se de Scully.

MARSHALL: - Com a menina acontece exatamente o contrário. Quando ela chora, a mãe diz: "chora filha, desabafa, depois passa", e a menina assim tem condições de esvaziar a angústia da dor que está sentindo com relação ao mesmo fato do menino, que corresponde a má situação também conflituosa por que está passando. Algumas meninas, chegam a ponto de ficarem tão transtornadas que relacionam isto ao machismo social. Elas então fazem questão de segurar seu choro, sua tristeza mais profunda e os disfarçam em força, alimentando o medo de que se agirem como uma mulher, poderão ser pisoteadas pelo homem ao seu lado. Elas acabam vendo o homem como um rival, um opressor.

Scully ergue as sobrancelhas. Marshall afasta-se, voltando pra frente de todos.

MARSHALL: - Não é de se estranhar a facilidade com que as mulheres choram e a dificuldade que os homens têm para chorar, e o pior é que precisam tanto... Transformam esta necessidade em angústia chorosa e revoltada, e são mais irritados com coisas de menor importância. Coisas do tipo: o cachorro comeu meu sapato.

Mulder e Scully trocam um olhar de desconfiança.

MARSHALL: - Dentro desta premissa, os dois crescem e vão se encontrar exatamente no momento em que um se interessa pelo outro, no final da adolescência, em que começam os envolvimentos afetivos mais significativos. O que acontece é que os dois coexistem em realidades diferentes com relação aos próprios sentimentos e são estes dois que imaginam viver felizes pelo resto de uma mesma vida partilhada. Daí a dificuldade imensa que todos nós temos em conviver com o sexo oposto na relação de casamento.

Marshall caminha de um lado para o outro.

MARSHALL: - Na vida matrimonial, a mulher precisa conseguir deixar claro que é amor o que sente, mesmo quando critica as ações do marido, pois o mesmo pode entender que está sendo desprezado, reagindo com agressões desnecessárias, facilitando o caminho para o fim da relação. Por outro lado, o comentário será mais bem recebido por ele e o manterá envolvido se a mulher souber mostrar a necessidade de discutirem juntos o que está incomodando a relação, possibilitando, sem dúvida, mostrar a maneira mais fácil de manter vivo o amor e a compreensão entre os dois. As mulheres são melhores do que os homens na lida dos sentimentos afetivos e principalmente na denúncia de mostrar quando as coisas não estão caminhando bem. A mulher tem uma facilidade enorme em criar um prato diferente e gostoso. O mesmo não acontece com os homens que, no mínimo, deixariam o prato queimar ou ficar sem gosto. O mesmo acontece com as emoções. Os homens têm muita dificuldade em encarar críticas, as mulheres entretanto, ficam encantadas com os homens que conseguem reconhecer os próprios erros. O sexo para a mulher está diretamente relacionado com amor, um tem muita dificuldade de conviver sem o outro, o homem em contrapartida vê o sexo como prazer, independente do amor, donde se conclui que mulher faz sexo por amor e homem faz amor por sexo. Em suma, lembrem-se disto: O amor é a invenção que todos precisamos aperfeiçoar. A relação de amor é uma constante de transformação e troca.

Marshall olha pros casais.

MARSHALL: - Quero agora realizar uma atividade com vocês. Quero que as mulheres formem um grupo e os homens outro. Cada grupo avaliará o seu comportamento e as dificuldades próprias que sentem em relação ao sexo e a convivência matrimonial.

Marshall dirige-se a Scully e Mulder.

MARSHALL: - Eu preciso falar com vocês na minha sala.

Os dois se olham surpresos. Levantam-se e o seguem à distância.

SCULLY: - (SUSSURRA) Será que ele descobriu nossos disfarces?

MULDER: - (SUSSURRA) Não sei. Pode ser. Também, com aquele "problema" que me inventaram. Era claro que ele iria achar algo suspeito.

SCULLY: - (SUSSURRA) Acho que se ele descobriu algo, não foi por causa disso. Você é muito cheio de tabus. Tenho certeza que ele já deve ter tratado casos bem mais complexos e exóticos.

MULDER: - (OLHA INCRÉDULO PRA ELA) Eu??? Cheio de tabus? Não sou eu quem grita só de escutar uma palavrinha digamos... mais pesada.

Scully olha de lado para ele totalmente contrariada, sem conseguir responder.


Sala do Dr. Marshall – 10:47 A.M.

Marshall, sentado em sua cadeira, analisa Mulder e Scully com os olhos, enquanto brinca com uma caneta entre as mãos.

MARSHALL: - Eu gostaria de saber se acham que o tratamento está surtindo efeito e se os exercícios que passamos estão sendo executados.

SCULLY: - (NERVOSA) Ah, claro! Estamos achando tudo muito instrutivo.

MARSHALL: - Então por que não estão seguindo o que eu falei?

SCULLY: - (MAIS NERVOSA AINDA) Como?

MARSHALL: - Vocês não seguiram as nossas recomendações. Não praticaram o coito proibido.

MULDER: - (JOGANDO VERDE) Como é que você sabe se fizemos ou não? Anda espionando seus pacientes? Ou por acaso tem câmeras escondidas nos quartos? É assim que você “acompanha” o tratamento?

MARSHALL: - (OFENDIDO) É claro que não!

MULDER: - Então como é que você pode afirmar que não estamos cumprindo as regras?

MARSHALL: - É psicólogo, senhor Manners?

MULDER: - Não. Entendo tanto de psicologia quanto de economia doméstica.

MARSHALL: - Eu sinto.

SCULLY: - Sente? Você espera que acreditemos nisso?

MARSHALL: - Eu não espero que acreditem em nada, a não ser na eficácia do meu tratamento. Olhe, eu não estou querendo ser rude, mais se vocês não seguirem o tratamento não melhoram. E se não melhoram, estão manchando a minha reputação.

SCULLY: - O que você quis dizer com "sente" que não seguimos ordens?

MARSHALL: - Senhora Manners, eu estudei sexologia, meditação e Yoga durante muitos anos. E também sou muito sensitivo. E esta sensitividade cresceu com meus estudos e experimentos. Podem revistar os quartos. Não temos câmeras escondidas ou algo do gênero. Respeitamos a sua privacidade. Só os chamei aqui e comentei este assunto delicado porque quero ajudar. Mas se não seguirem nosso tratamento, infelizmente terão que partir. Não quero comprometer a reputação da minha clínica.

MULDER: - Não, tudo bem. Nós é que pedimos desculpas por não termos levado o curso a sério. Mas queremos tentar de novo.

MARSHALL: - Sugiro que repitam agora o exercício que não fizeram ontem à noite.

Eles se despedem e saem da sala. Caminham pelo corredor.

SCULLY: - Esse homem é muito estranho. Enquanto ele falava na minha frente, na palestra, parecia que estava falando pra mim! Que conhecia meus medos, meus problemas. O que tudo isto significa?

MULDER: - (DEBOCHADO) Que temos lição de casa pra fazer!

SCULLY: - Mulder! É sério. Você acreditou mesmo no que ele falou?

MULDER: - É possível que seja verdade. Mas tem alguma coisa estranha aí, Scully. Se ele realmente é sensitivo, pode captar a energia sexual de um casal.

SCULLY: - Tá brincando!

MULDER: - Não. Como eu já te disse uma vez, Scully, corpos são compostos de energia. Imagine a energia de dois corpos juntos? E se ele capta esta energia?

SCULLY: - Mas como assim capta? Mulder, como alguém pode captar energia sexual?

MULDER: - Você faz isso. Quando assiste minhas fitas e depois vem pra cima de mim como uma maluca me chamando de ’meu cachorrão’.

Ela olha pra ele, incrédula. Ele sorri.

MULDER: - Viu como ele tem obsessão pela reputação do curso. Como ele pode se gabar disso, tendo relato de casais sumidos em sua propriedade?

SCULLY: - Nós sabemos disso, mais esta informação não chegou aos ouvidos da imprensa. E acho que é com isso que ele se importa, com a reputação do curso.

MULDER: - Não. Ele não me parece estar preocupado com a reputação do curso. Me parece estar preocupado é com outra coisa. Como alguém poderia estar tão tranquilo enquanto sua fonte de renda está ameaçada?

SCULLY: - A menos que ele fosse o assassino.

MULDER: - Exato.

SCULLY: - Mulder, mas por que ele recuperaria os casais e os mataria depois? Estamos lidando com um psicopata?

MULDER: - Ele não é um psicopata, Scully. Não tem nenhuma característica. Não se enquadra no perfil. Tem alguma coisa aí que não se encaixa. Ele disse que sente a energia sexual das pessoas.

SCULLY: - Fala, Mulder. Sei que tem uma teoria.

MULDER: - E se Marshall roubasse a energia sexual desses casais? Se ele precisasse dessa energia para se alimentar, como um vampiro sugador de energia?

SCULLY: - Mas não haveria motivos pra sumir com os corpos! Que autópsia revelaria o roubo da energia de um ser?

MULDER: - Tem alguma coisa aí, Scully. Falta o elo de ligação. Esse sujeito é esperto. Confesso que ele é inteligente e competente no que faz. Ele se encaixaria mais no perfil de um serial killer: padrão de ataque, similaridade de vítimas, culto e educado, simpático e de uma aparência nada ameaçadora.

SCULLY: - E se estivéssemos vendo um Arquivo X onde não há, Mulder? Se ele está desconfiado de nós e apenas falou aquilo pra nos afastar da verdade?

MULDER: - É uma possibilidade, Scully. (SORRI) Mas, mudando de assunto, imagine que prático seria sentir as vibrações sexuais dos outros?

SCULLY: - Prático?

MULDER: - (DEBOCHADO) Claro! Se eu tivesse esse "dom" eu teria descoberto há tempos que de ‘Ice Queen’ você não tinha nada. E teria te atacado muito antes...

Scully sorri.

SCULLY: - Vamos para o quarto. Temos um trabalho a fazer. Mais lembre-se: estou fazendo isto por causa do disfarce. É um esforço puramente profissional!

MULDER: - (DEBOCHADO) Puxa Scully, trabalhar com uma parceira como você é um privilégio. Você realmente é uma boa profissional. Esforçada, competente, dedicada, leva seu trabalho a sério. Aviso: Não me provoca. Não ando muito pra brincadeiras.

SCULLY: - (ERGUE AS SOBRANCELHAS)


Quarto de Mulder e Scully – 11:14 A.M.

Mulder empurra a cadeira pra baixo do lustre. Sobe. Começa a examinar, procurando escutas. Scully também revira o quarto, a começar pela cama.

SCULLY: - (INDIGNADA) Acho isso um absurdo!

MULDER: - ...

SCULLY: - Já chega em casa, que nunca sabemos se temos privacidade!

MULDER: - Mas pelo menos sabemos que a intenção deles é nos vigiar e não vender fitas de vídeo caseiro pra tarados de plantão. Já esse cara aqui, eu não sei.

Ela levanta o colchão.

SCULLY: - (CHATEADA) Estou cansada disso! Muito cansada!

MULDER: - Acha que eu gosto disso? Dessa invasão de privacidade?

SCULLY: - Claro que não.

Ele desce da cadeira. Começa a examinar as gavetas.

SCULLY: - Mulder, você tem algum tipo de fantasia sexual?

Ele continua revirando as gavetas enquanto fala.

MULDER: - Como assim?

SCULLY: - A da enfermeira não conta. Todo homem tem fantasia com enfermeiras.

Ele olha pra ela debochado.

MULDER: - Mas aposto que nenhum recebeu um diagnóstico tão completo e profissional.

Ela nem olha pra ele. Começa a procurar escutas atrás dos quadros.

SCULLY: - O que te deixa excitado?

Ele pára. Olha pra ela.

MULDER: - Por que esse tipo de conversa?

SCULLY: - Sei lá, já que estamos aqui, envolvidos nesse caso, num momento propício...

Ele continua revirando os armários. Ela os quadros.

SCULLY: - Então?

MULDER: - Você me deixa excitado.

SCULLY: - Isso é simplista, Mulder.

MULDER: - Já te disse que estímulos auditivos funcionam bem comigo. Principalmente esses seus diminutivos e quando você faz uma cara de menina malvada.

Ela sorri, enquanto revira o vaso de flores.

SCULLY: - Vídeos, revistas?

Ele olha pra ela. Mas para não embaraçá-la, desvia o olhar batendo nas paredes, procurando alguma coisa.

MULDER: - Não. Isso funcionava quando eu era solteiro. Agora não me interessa mais.

SCULLY: - Solteiro? Você ainda é solteiro.

MULDER: - Na minha cabeça eu não sou mais.

Ela olha pra ele, sorrindo. Ele passa por ela. Examina a janela com os olhos.

SCULLY: - (NERVOSA) Eu... Eu já te disse que tento quebrar essas minhas barreiras. Não me culpe, Mulder, eu vivi criada em tabus. Minha mãe talvez se censurasse por causa do meu pai. Já você nunca teve esse tipo de coisa.

MULDER: - Acha que não? Meus pais não eram religiosos, mas tabus haviam espalhados por todos os lados.

SCULLY: - Você tem barreiras também?

MULDER: - Claro que tenho. Todas as pessoas têm, Scully.

Ele começa a examinar a tomada do telefone. Retira um canivete do bolso. Começa a abrir a tomada.

SCULLY: - Eu sei que tem.

MULDER: - Mas minhas barreiras são diferentes das suas.

SCULLY: - Como assim?

MULDER: - ...

Ela olha pra ele. Escora-se no balcão, cruzando os braços.

SCULLY: - Fala.

MULDER: - Acho melhor não.

SCULLY: - Por que não? Mulder, eu contei minha vida pra você e pedi que me ajudasse. Aos poucos eu estou conseguindo me libertar de certas coisas porque você me dá espaço pra isso.

MULDER: - ...

SCULLY: - Sabe do que desconfio?

MULDER: - (DEBOCHADO) Que eu estou te traindo?

SCULLY: - (RINDO) Não!

Ele dá um sorriso, entretido na instalação telefônica.

SCULLY: - (SÉRIA) Eu desconfio que você me esconde alguma coisa. E é pra não me magoar.

Ele pára. Olha pra ela.

MULDER: - Tipo?

SCULLY: - Tipo você se censura com medo da minha reação.

MULDER: - ...

SCULLY: - Eu sabia!

Ele olha pra ela. Esquece a instalação telefônica. Aproxima-se dela.

MULDER: - Por que acha isso?

SCULLY: - ...

MULDER: - Já que entrou nesse assunto, eu vou te dizer uma coisa.

SCULLY: - ...

MULDER: - Quando você diz que eu não sou criativo, você nem imagina o quanto eu sou. Mas não quero fazer alguma coisa que te deixe magoada. Eu já te disse isso.

SCULLY: - ...

MULDER: - Sabe qual é o meu problema? Enquanto você luta dentro de si para se libertar do fantasma chamado tabu, eu luto dentro de mim contra o fantasma chamado ‘ela é minha amiga, tivemos uma amizade antes disso, vá com calma e não jogue fora a única pessoa que realmente ama você’.

SCULLY: - ...

MULDER: - Algumas vezes eu supero. Outras são impossíveis.

Ele vai pro banheiro. Ela fica olhando pro nada.

SCULLY: - Você se censura por minha causa?

MULDER: - ...

SCULLY: - Ainda bem que esses nossos joguinhos e piadinhas aliviam isso.

Ele escora-se na porta do banheiro, olha pra ela.

MULDER: - Podem ser uma fuga, mas também são uma particularidade do nosso relacionamento. Talvez seja nossa maneira de fugir da rotina.

SCULLY: - Pode ser.

Ele abaixa a cabeça, enquanto brinca com os dedos, nervoso.

MULDER: - Me desculpe por aquela besteira do carro, ok? Eu desrespeitei você.

SCULLY: - ... Tá.

Ele volta pro banheiro. Ela coloca o polegar na boca, olhando ao longe. Pensativa.

MULDER: - Será que eles podem colocar escutas no chuveiro?

SCULLY: - Achou algo?

MULDER: - Nada.

SCULLY: - ... (RINDO) Examina bem esse banheiro, Mulder. Depois quero que lave as minhas orelhinhas.

MULDER: - (RI) ...

SCULLY: - Não vai dançar pra mim hoje?

Ele escora-se na porta do banheiro. Olha sério pra ela.

MULDER: - Não. Hoje você vai dançar pra mim. E sem um gole de bebida no corpo.

Scully fica séria. Corada. Mulder observa a reação dela. Ele está completamente sério. Ela desconcertada.

MULDER: - Algum problema?

SCULLY: - (EMBARAÇADA) N-não.

MULDER: - Que tipo de homens você teve em toda a sua vida?

SCULLY: - ... Como assim?

MULDER: - Você sabe do que estou falando. E nada de piadas. Isso é sério.

SCULLY: - (NERVOSA) Ah, eu acho que vou buscar uma refrigerante, você quer?

MULDER: - ... (OLHANDO SÉRIO)

SCULLY: - (DEBOCHADA/ PROVOCANDO) Depois você lava as minhas orelhinhas. Tá?

Ela vai saindo e ele a puxa fortemente pelo braço, a segurando. Olha nos olhos dela. Scully fica acuada.

MULDER: - (SÉRIO) Eu já te disse que não sou desses homens, Scully. Eu quero mais de você. Portanto, não me provoca. Uma hora eu posso perder a minha compostura. E você pode sair assustada.

Mulder a solta. Scully caminha até a porta. Mulder a observa. Scully coloca a mão na maçaneta. Pára. Abaixa a cabeça.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - Fala.

SCULLY: - ... Nada.

Scully abre a porta. Mulder adianta-se e empurra a porta com a mão. Ela olha pra ele, assustada. Ele olha pra ela.

MULDER: - (SÉRIO) Se quer ir buscar seu refrigerante, cai fora de uma vez. Se não quer, eu não me responsabilizo por sua decisão de ficar aqui.

Scully fecha os olhos, imóvel, assustada. Mulder abre a porta. Começa a rir.

MULDER: - Vai, Scully. Parece uma gata assustada.

SCULLY: - ...

MULDER: - Sabe que foi bom ter falado isso pra você. Mas saiba que eu tenho paciência. Esperei muito pra ter você. Posso esperar mais pra ter muito mais com você. Eu já te disse que quero que você supere suas culpas. E eu vou te ajudar.

Ela pega as mãos dele e as coloca em sua cintura, recosta-se nele, com as mãos em seu peito. Mulder afasta-se dela.

MULDER: - (NERVOSO) Preciso de um refrigerante.

Ele sai em disparada, porta à fora, suando frio. Ela abaixa a cabeça.


BLOCO 2:

Sala do Dr. Marshall – 1:28 P.M.

Marshall está compenetrado, lendo alguns papéis. Batidas na porta.

MARSHALL: - Entre!

Scully entra, meio receosa. Marshall olha pra ela com surpresa. Levanta-se.

MARSHALL: - Sente-se, senhora Manners.

SCULLY: - E-eu... Eu nem sei se deveria vir aqui e...

Ele aponta o sofá.

MARSHALL: - Por favor...

Scully fecha a porta. Senta-se no sofá, numa fisionomia de tensão e dúvida. Marshall senta-se na poltrona.

MARSHALL: - Quer um chá, café...

SCULLY: - Não, obrigado.

SCULLY: - ... E-eu... Acho que não foi uma boa ideia ter vindo e...

MARSHALL: - Se você está aqui é porque quer falar alguma coisa. Respeite sua necessidade interior de fazer isso.

SCULLY: - ... Na verdade...

MARSHALL: - ...

SCULLY: - ... Temos dificuldades no nosso relacionamento. E não é pelo motivo citado.

MARSHALL: - Eu sei.

Scully olha pra ele.

MARSHALL: - Eu sei que seu marido não sente compulsão por garotinhos ou lingeries. Ele não me parece ser do tipo. Eu sei que o relacionamento de vocês é baseado na confiança mútua, mas que o medo entre vocês ainda é grande e cria barreiras por demais dolorosas de serem ultrapassadas.

SCULLY: - Como sabe disso?

MARSHALL: - Eu sinto.

SCULLY: - ...

MARSHALL: - E presumo que antes de serem amantes, eram os melhores amigos. Estou errado?

SCULLY: - Não.

MARSHALL: - O problema nisso são as imagens de amizade que ainda permanecem. Embora seu problema, por usar essa cruz no pescoço, me parece ser uma luta interna contra pecado e desejo. Quer falar sobre isso?

SCULLY: - ... O que posso fazer pra quebrar com essa culpa de vez?

MARSHALL: - Admita que tem a vontade e a necessidade de que ele te proteja.

SCULLY: - (RI) Mas eu sou uma mulher que sabe se defender sozinha. Eu não preciso de um homem que fique me defendendo. Eu não preciso me esconder atrás de um homem.

MARSHALL: - Você não precisa de muita coisa, não acha? Então, do que precisa?

SCULLY: - ...

MARSHALL: - Não sabe?

SCULLY: - ... E-eu...

MARSHALL: - Precisa chorar.

SCULLY: - ...

MARSHALL: - Precisa se entregar e tem medo do que ele possa pensar. Medo de que ele se assuste com isso, porque afinal, essa não é você, a mulher forte, a barreira intransponível que ele conheceu.

SCULLY: - ...

MARSHALL: - Medo porque isso quebraria com tudo, principalmente com a necessidade de proteção dele. Imagina ele, o indefeso... Tendo de sentir-se o protetor? Ele odiaria, não é? Você o perderia, não é mesmo? Afinal você é forte, ele não. Se você pedir pra ser fraca, ele vai ficar assustado, porque ele é fraco também...

SCULLY: - ...

MARSHALL: - Será que não é você que pensa que ele é fraco? E assim alimenta negativamente a insegurança da qual ele tenta se livrar desesperadamente? Pensa que o ajuda e no entanto, o afunda mais em seus medos.

SCULLY: - ...

MARSHALL: - Não percebe que ele grita desesperadamente pedindo por um voto de confiança? Ele luta internamente pra mostrar que ele é responsável. Que por ter sensibilidade, isso não o torna menos homem. Ele pede inconscientemente pra você lhe dar a oportunidade dele provar pra si mesmo que não é mais uma criança e que ele também pode ser forte. Ele precisa chorar tanto quanto precisa secar as lágrimas da sua mulher. E você, a mesma coisa. Porque os dois, independente de serem um homem e uma mulher, são seres humanos. E é próprio dos seres humanos sentirem necessidade de chorar.

SCULLY: - ... Acha mesmo?

MARSHALL: - Eu? Eu só quero saber se você acha isto. E sua pergunta me parece mais um pedido de confirmação do que de dúvida.

SCULLY: - ...

MARSHALL: - Acha que o fato de se entregar totalmente ao relacionamento vai fazer a mulher decidida e forte perder pra ele?

SCULLY: - ...

MARSHALL: - Trabalham juntos, posso perceber. Isto ajuda você a ter mais medo de que ele, por ser homem, a supere profissionalmente. O velho tabu social machista. Você inveja o status profissional que ele atingiu e leva isso pra cama. Você, dentro da cultura machista, acha que tem que provar pro mundo que é melhor do que ele, o homem. Você é machista. Ele não é. Porque se fosse, não mostraria sua vulnerabilidade pra você. Então você não se entrega, porque acha que isso a tornará uma mulher submissa. Confunde submissão com entrega.

Ela abaixa a cabeça. As palavras são certeiras.

MARSHALL: - E não suspeita por um instante que ele leva a colega de trabalho e amiga pra cama?

SCULLY: - ...

MARSHALL: - Você acha que se entregar pra ele significa que ele venceu no trabalho e venceu na vida de vocês. E você é uma mera perdedora submissa.

SCULLY: - ...

MARSHALL: - Por que vocês não podem simplesmente deixar de ser o que são, do lado de fora da porta da casa? Deixar apenas o homem e a mulher dentro dela? Com suas diferenças aceitas, seu medo exposto e sua entrega total?

SCULLY: - Fala como se fosse fácil.

MARSHALL: - Não, não é fácil. É um objetivo a ser conquistado. Se realmente acha que isto é um objetivo. Se não acha, esqueça. Continue na sua culpa inexistente. E deixe-o com sua culpa também irreal. Dois culpados. Perdendo a chance de se envolver cada vez mais num relacionamento que muitos dariam a vida pra ter.

SCULLY: - ...

MARSHALL: - Mas isso é problema de vocês. Assim como ganharam, podem jogar fora e ninguém tem nada a ver com isso.

SCULLY: - Eu quero deixar de ser assim! Mas eu não consigo!

MARSHALL: - Consegue. Quando a gente quer consegue. O inconsciente nos leva a fazer isso. O consciente é que impede. Fique surda pra esse consciente.

SCULLY: - O que eu posso fazer? E-eu...

MARSHALL: - Nada.

SCULLY: - Como assim?

MARSHALL: - Pare de estimula-lo. Ele se acostumou com sua culpa. Não o estimule mais. Deixe que ele perceba isso.

SCULLY: - ...???

MARSHALL: - Ele vai ficar nervoso. Ele espera sempre que você tome a iniciativa. Não tome. Vai quebrar a expectativa dele. Se ele vier com piadas, fique séria. Ele não espera por isso.

SCULLY: - Vou desconcerta-lo.

MARSHALL: - Com certeza. E é disso que ele precisa. Pra ver que você espera que a mudança parta dele. Que se ele não começar, você nunca vai dar um passo à frente. Entregue essa responsabilidade pra ele. A força em suas mãos. Ele finalmente vai sentir-se maduro e forte pra encarar você, se livrando da culpa... E você, vai perder sua culpa também. Porque você olha pra ele gritando pra que ele tire sua culpa. Ele, em sua culpa, mesmo percebendo, ainda espera por você.

Ela sorri.

MARSHALL: - (SORRI) A cena que pode imaginar é vocês dois, um de frente pro outro gritando e nenhum dos dois ouvindo. Não é absurdo?

SCULLY: - Com certeza.

MARSHALL: - É ou não é o que está acontecendo?

SCULLY: - Como pode saber tanto das pessoas?

MARSHALL: - Sensibilidade, senhora Manners. A vida me ensinou a conhecer as pessoas pelas atitudes. E o que eu quero fazer pela vida é ensinar essas pessoas a serem felizes. Porque é muito mais fácil do que se pensa. Quem está de fora vê o quão ínfimo é o problema, que parece não ter solução pra quem está mergulhado nele.

SCULLY: - Obrigada, Dr. Marshall.

MARSHALL: - Agradeça a você mesma, por ter superado seus medos e estar sentada aí. Nunca poderia fazer minha parte, se não tivesse feito a sua. O que mostra que você é uma mulher de força. Uma mulher de coragem. E isto não será perdido se você for mãe e esposa.

Scully dá um sorriso tímido, mas aliviado. Levanta-se.

MARSHALL: - Não se esqueça: Primeiro os exercícios.

Ela sorri e sai.

NARRADOR (OFF): - Marshall observa a pequena ruiva saindo, com uma sensação de alívio estampado no rosto. Mas ele apenas não revelou um fato. Um fato que ele sabia. Que ela não era nenhuma senhora Manners. E que, mesmo sendo sincera e demonstrando o quanto acreditava nele, ela jamais poderia revelar que era uma agente do FBI. E que a intenção deles era outra.

Marshall levanta-se. Olha pela janela.

NARRADOR (OFF): - Dentro do médico, havia um sorriso de satisfação por ter ajudado. O médico sabia que a pequena agente acreditava nele. Na sua competência como médico, na sua bondade como ser humano. Que seu próprio e particular objetivo havia mudado. Ela chegou ali em busca de provas, mas agora, ela queria ajuda. Aliviar sua carga emocional com alguém em quem confiava.

Marshall põe as mãos no rosto.

NARRADOR (OFF): - Mas dentro do monstro, o inimigo havia sido descoberto. E ele precisava se alimentar... A fome voltava com mais força, o prato a ser digerido era o melhor que havia sido servido até agora. Ele não poderia mais esperar pra fazer a ceia. Embora o médico lutasse, o monstro reagia. E sua fome era implacável.


Quarto de Mulder e Scully – 11:27 P.M.

Scully entra no quarto.

SCULLY: - Mulder?

Ele grita do banheiro.

MULDER: - Fala!

SCULLY: - Falei com Marshall.

MULDER: - Sobre?

SCULLY: - Hum... Ele disse que temos de fazer os exercícios. E disse outras coisas.

MULDER: - Que coisas?

SCULLY: - ... (MURMURA PRA SI MESMA) É melhor fazer os exercícios. Pelo menos até lá criarei coragem pra seguir o conselho...

MULDER: - Que coisas?

SCULLY: - Nada! Temos que fazer os exercícios. Não vamos nos tocar hoje, e dessa vez é sério.

Ele sai do banheiro, enrolado numa toalha.

MULDER: - Falou alguma coisa?

NARRADOR (OFF): - A simpática agente ruiva ao deparar-se com a cena, acaba esquecendo tudo o que tinha falado. Inconscientemente, olhou pro seu parceiro como se medisse a presa dos pés à cabeça.

MULDER: - Scully?

SCULLY: - ...

MULDER: - Scully?

SCULLY: - (SAI DO TRANSE) Ahn?

MULDER: - O que falou?

SCULLY: - Eu?

MULDER: - É. Você?

SCULLY: - (AINDA OLHANDO PRA ELE) Eu falei?

MULDER: - Falou.

SCULLY: - ... Acho que preciso de um banho.

Ela corre pro banheiro e tranca a porta. Ele fica com uma fisionomia de quem não entendeu nada.

MULDER: - (COÇANDO A CABEÇA) O que houve com essa mulher?


12:31 A.M.

Scully anda de um lado pro outro no quarto. Nervosa. Aponta pra um canto.

SCULLY: - (FURIOSA) E vai ficar aí!

Corta pra Mulder, sentado por sobre as pernas, na poltrona, coberto com uma manta até a cabeça, deixando apenas o rosto parcialmente de fora. Ele segura a manta, olhando pra ela.

MULDER: - Mas o que eu fiz?

SCULLY: - Vai ficar aí e ponto final.

MULDER: - Tá quente.

SCULLY: - Não quero ver nenhuma parte do seu corpo, Mulder!

MULDER: - ... (PIDÃO)

SCULLY: - (NERVOSA) Mulder, por favor! Você sabe que é sensual por natureza. Portanto, fique enrolado aí. Ou eu não vou conseguir realizar o bendito exercício... E cubra já esse nariz!

MULDER: - Mas eu não posso respirar! O que tem meu nariz?

SCULLY: - Ele é sexy. Eu sou louca por esse nariz.

Ela anda de um lado pro outro, com os braços cruzados, tensa. Ele a acompanha com os olhos, descobrindo um pouco do rosto.

MULDER: - Posso falar?

SCULLY: - Não!

MULDER: - Por quê?

SCULLY: - Porque você só diz besteiras.

MULDER: - (BEIÇO) Eu te amo é besteira?

SCULLY: - Proibido falar qualquer assunto que se refira a sentimentos e desejos.

MULDER: - (DEBOCHADO) Tá bom, tá bom. Mas não se irrite...

SCULLY: - ... (RESPIRA FUNDO)

MULDER: - Scully, você fica tão sensual nessa camisola, andando de um lado pra outro, que realmente não dá pra ficar imóvel.

SCULLY: - Pára!

MULDER: - ... Gostosa!

SCULLY: - Mulder!

MULDER: -... Quero te chupar todinha.

Ela atira um travesseiro nele.

MULDER: - Au!

SCULLY: - Pára de falar palavrão!

MULDER: - (PROVOCANDO) ... Quero te agarrar, te atirar nessa cama, enfiar a sua cara no travesseiro e fungar no seu cangote...

Ela avança nele. Ele levanta-se, rindo, segurando a manta e pula por cima da cama, fugindo dela.

SCULLY: - Tem medo mas não tem vergonha, né?

MULDER: - (DEBOCHADO) Scullyzinha, você não entendeu o exercício. Eu como psicólogo posso te explicar a técnica. A regra é não haver penetração. Você considera o uso da língua como algo ‘penetrativo’?

Ela pula por cima da cama, ele sai correndo, solta a manta e se tranca no banheiro. Está só com a calça do pijama.

SCULLY: - Mulder, pára de me irritar!

MULDER: - Mas só a língua!

SCULLY: - (ELA PÕE A MÃO NAS ORELHAS) Não!!!

MULDER: - Só a pontinha!

SCULLY: - (GRITA ESCANDALIZADA) Pára!

MULDER: - Dedinho pode?

SCULLY: - Mulder!!!!!!

Ele abre uma fresta da porta. Espia.

MULDER: - Scully?

SCULLY: - Não fala comigo! Seu cachorro tarado e sujo!

Ela volta pra cama e se deita. Ele sai do banheiro e se deita do lado dela. Ela vira-se pra ele.

SCULLY: - O que está fazendo?

MULDER: - Não acha que o cachorro tarado e sujo aqui vai dormir no tapete, acha? E não podemos ficar em quartos separados. A regra é resistir à tentação.

Ela vira-se com um beiço, de costas pra ele.

SCULLY: - Cala a boca, eu quero dormir.

MULDER: - (SORRI SAFADO) Ótimo... Fecha os olhinhos, vai.

SCULLY: - Se me acordar, Mulder, vai se arrepender.

MULDER: - E o exercício de toque?

SCULLY: - Vá fazer o seu no banheiro.

MULDER: - (DEBOCHADO) Quer que eu bata uma pra você?

Ela solta um grito. Nem se vira, só joga a braço pra trás acertando nele.

MULDER: - Au!

SCULLY: - Não fala essas coisas!!!!!

MULDER: - Mas como um psicólogo experiente, eu me sinto na obrigação de explicar detalhadamente pra você. Assim não correrá riscos de fazer errado.

Ela olha pra ele indignada. Ele olha pra ela com aquela cara safada e cínica.

SCULLY: - Você não sabe o que é não?

MULDER: - Não.

Ela vira-se de costas novamente. Apaga a luz.

SCULLY: - Boa noite, Mulder.

Silêncio de segundos. O quarto na penumbra.

SCULLY: - Mulder!!!!!

MULDER: - (ASSUSTADO) Aiiiiii! O que foi?

SCULLY: - Quer se desencostar do meu traseiro?

MULDER: - Tô com frio.

SCULLY: - Pega um cobertor!

MULDER: - Chata! Sem graça! Uma hora dessas eu te agarro e vou ficar surdo. Aí você me paga. Pra aprender a não me provocar.

SCULLY: - Não estou provocando.

MULDER: - Está sim. Sua presença me provoca. Seu cheiro me provoca. Seus pés gelados me provocam!

SCULLY: - Pense em outra coisa.

Silêncio de segundos.

MULDER: - Scully, por que eu só consigo pensar em melões, bolachas e orquídeas?

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - Não tem pena do seu Mulderzinho? O seu pobre e miserável agente do FBI? Scully, eu tô sofrendo.

SCULLY: - Vai sofrer embaixo da água fria, Mulder.

MULDER: - Snif... Snif...

SCULLY: - (RINDO) Mulder, pára!

MULDER: - Que culpa eu tenho se você me deixa excitado?

SCULLY: - Tô com dor de cabeça.

MULDER: - Essa não cola, porque é cientificamente provado que sexo alivia a dor de cabeça. E tô falando da cabeça que pensa, ok?

Ela acende a luz. Olha pra ele.

SCULLY: - Quer fazer o favor de ir dormir?

MULDER: - Eu não consigo! Eu tô sofrendo de nervoso!

Ela ergue o lençol. Arregala os olhos.

SCULLY: - Nooosssaaaa! Que desperdício! Mulder, acho que você tem razão... Não dá pra desperdiçar algo tão perfeito anatomicamente e incrivelmente contra a lei da gravidade.

Ele vira-se de costas pra ela.

MULDER: - Não quero nada com você. Me deixa sofrer sozinho. Nós somos anatomicamente incompatíveis. Lembra-se?

SCULLY: - É, mas... Você sabe que eu facilito as coisas...

MULDER: - (CÍNICO/ RINDO QUIETO) Não entendi.

SCULLY: - ... (NERVOSA) Bem... Eu quero dizer que... Ahn... Hum...

MULDER: - (PROVOCANDO) Por que faz tanto drama só pra dizer que está completamente molhadinha?

Ela o empurra com os pés pra fora da cama.

SCULLY: - Seu asqueroso indecente!

MULDER: - Au! Vai, me maltrata! Pisa em cima daquele que te tirou da sarjeta, que te deu um nome e um lar.

SCULLY: - Mas que desaforo! Eu tirei você da sarjeta!

Ele se deita de novo.

MULDER: - Puritana! Eu ainda vou tirar toda a tua pureza, e de uma vez só.

SCULLY: - Há há há. O que eu tinha de puro, já perdi com outro.

MULDER: - (SORRI MALICIOSO) Tem certeza que perdeu tudo?

Ela enfia o travesseiro na cara dele.

SCULLY: - Se atreve. Se atreve pra ver seu eu não atiro em você.

MULDER: - Au! Vou chamar a polícia!

SCULLY: - Eu sou da polícia! Você é da polícia.

MULDER: - É. Então tem policiais demais nesse quarto. Vou chamar a máfia. Ou quem sabe você quer que eu faça o primeiro turno, ahn?

SCULLY: - Mulder, você não tá com sono, né? Vai dar uma volta, aspirar a brisa noturna...

MULDER: - Eu quero é aspirar o teu cheiro.

SCULLY: - Não vou mais tomar banho, daí você me deixa em paz.

MULDER: - (ELE DÁ UM SORRISO MALICIOSO) Ah, Scully, eu não queria, mas você deixou picando...

SCULLY: - (SUSPIRA/ DESCONSOLADA) ... Tá. Vai, Mulder. Faz o ponto de uma vez.

MULDER: - Não precisa tomar banho. Eu te lavo inteirinha com a minha língua.

SCULLY: - Ugh! Eu podia ter ido dormir sem ouvir essa.

Ela apaga a luz. Silêncio de instantes.

SCULLY: - Mulder, quer tirar a mão daí?

MULDER: - Não.

SCULLY: - Quer tirar sua língua da minha orelha?

MULDER: - Não.

SCULLY: - O que você quer então?

MULDER: - Ou você é muito tontinha ou eu realmente não me faço expressar.

Ela solta uma gargalhada.

SCULLY: - Hum... Pobre do meu Mulderzinho, tadinho... Tão carente e sofredor...

Ele acende a luz. Senta-se na cama e começa a rir. Ela ri com ele.

MULDER: - Scully, a gente não vai crescer não?

SCULLY: - Pra quê?

MULDER: - Boa pergunta.

Ele apaga a luz.

MULDER: - Posso te molestar sexualmente?

SCULLY: - Boa noite, Mulder.

Corta para o lado de fora do quarto. Marshall está parado em frente à porta.

NARRADOR (OFF): - Dentro do monstro, a raiva e a frustração. Dentro do médico o alívio por ter vencido mais uma vez. Mas ele sabia que o monstro voltaria. E agradecia por não ter sido naquela noite.


BLOCO 3:

Sala de Terapia – 9:19 A.M.

Nossos dois agentes sentados. Mulder com uma cara de pânico. Scully de olhos arregalados, nervosa. Marshall olha pra um dos casais.

MARSHALL: - Não deve haver medo em admitir, senhor Reynolds. Todos estamos aqui para partilharmos experiências e desejos. E isto é muito importante para que o parceiro ou parceira saiba mais intimamente o anseio do cônjuge. E para que os outros casais percebam que fantasias sexuais são elementos comuns da psique humana. E por favor, precisam ser sinceros. Não devem ter medo de falar a verdade.

Reynolds olha pra todos. Meio desconcertado.

REYNOLDS: - ... Bem... Minha tara é por mulheres submissas, que se entreguem totalmente para mim, que gostem de ser amarradas, vendadas e que se considerem minha fêmea particular.

Mulder olha pra Scully.

MULDER: - (PÂNICO) Agora sou eu quem quer cavar um buraco aqui pra se enterrar...

SCULLY: - Você? Está vendo? Agora faz piadinha disso, faz.

MULDER: - Eu não tenho que dizer nada!

SCULLY: - (DEBOCHADA) Vou adorar ver isso. Há há há.

MULDER: - Scully, não brinca com uma coisa dessas... Acho que vou ao banheiro...

SCULLY: - Não vai não. Não vai me deixar aqui. Se vou ter de me ferrar você vai junto.

Mulder olha incrédulo pra ela.

MULDER: - Que vocabulário, não?

SCULLY: - Aprendi com você. (DEBOCHADA) E lembre-se: sempre juntos. Na saúde e na doença, na tristeza e na alegria.

MULDER: - Isso inclui ‘no pagamento de mico ou na saída rápida pela direita?’

SCULLY: - Não. Mas inclui a verdade. (DEBOCHADA) Não ouviu o que o Dr. Marshall disse? Não pode mentir, Mulder. Lembre-se daquele nosso outro acordo: nada de mentiras, por pior que seja a verdade.

MULDER: - Scully, essa foi a maneira mais sacana que você encontrou pra descobrir meus segredos mais obscenos. Está conspirando com o Marshall, é?

SCULLY: - (DEBOCHADA) Ah, como é gostoso o sabor da vingança... Debocha agora, Mulder. Estou esperando seus comentários irônicos. Ou seu repertório de besteiras terminou?

MULDER: - Se surpreenderia com o tamanho do meu repertório. É tão grande quanto...

SCULLY: - O seu nariz?

MULDER: - Sabe que eu tenho outra parte em meu corpo maior do que o meu nariz.

SCULLY: - Não é não.

MULDER: - Não blasfema, Scully...

SCULLY: - Eu passo a noite inteira tentando encontrar...

MULDER: - (DEBOCHADO) É? Já procurou ao redor do seu pescoço?

Ela faz um beiço, cruzando os braços. Ele sorri debochado.

MULDER: - Desista, Scully. Nunca vai conseguir me ganhar em ironia. (DEBOCHADO) O fato é que você vai ter de falar também, encantadora agente Scully. E não pode mentir.

SCULLY: - (IRRITADA) Não mentirei. Você sabe qual é a minha fantasia sexual. Nisso você está em desvantagem, Mulder. Quem vai rir sou eu. Você é quem está ferrado.

Marshall aproxima-se de uma televisão.

MARSHALL: - Percebo que vocês estão meio inibidos. Ok... Vou apresentar algumas entrevistas que nossa equipe fez na rua, com pessoas que passavam. Talvez isto os deixe mais à vontade, sem medo algum.

Marshall liga o vídeo. Mulder abaixa a cabeça.

MULDER: - Realmente este não é o meu dia... Não deveria ter saído da cama.

SCULLY: - Pára de reclamar!

MULDER: - Eu só vou parar de reclamar quando este maldito caso terminar!

SCULLY: - E as suas teorias?

MULDER: - Se você as comprovasse estaríamos longe daqui.

SCULLY: - Ah, quer dizer que a culpa é minha? Por que não pega aquela chave e tenta descobrir de onde é?

MULDER: - Acha que já não pensei nisso? A chave sumiu da gaveta desse Woody Allen aí.

Corta para a TV. Um careca baixinho está falando.

ENTREVISTADO 1 (OFF): - Eu tenho várias fantasias, mas as que mais me dão tesão são a de transar em situações de risco como lugares públicos, em ruas movimentadas, em salas ou quartos em que a qualquer momento alguém possa entrar.

MULDER: - Grande coisa. Isso é trivial.

Scully olha pra ele surpresa.

MULDER: - (RESMUNGANDO) É trivial sim. Pra nós dois isso não é fantasia, é rotina. E se ele soubesse que saco é isso, jamais pensaria numa coisa dessas.

ENTREVISTADO 1 (OFF): - E como não poderia faltar, com a melhor amiga da minha namorada...

Scully cerra os punhos.

SCULLY: - (FURIOSA) Imbecil tarado de uma figa!

Mulder segura o riso.

SCULLY: - Vocês são uns asquerosos! Uns nojentos!

MULDER: - Ei, me tira dessa, tá legal? Foi o mini-Skinner ali quem falou, não eu. Não generaliza.

ENTREVISTADO 2 (OFF): - Minha fantasia, apesar de já ter realizado, é ver minha mulher transar com um outro homem na minha frente. Acho isso muito excitante.

Mulder balança a cabeça negativamente. Debochado.

MULDER: - (DEBOCHADO) Tisc, tisc... Tem corno por acaso do destino e corno por vocação. Vai entender essa gente! E ainda se presta a assumir isso em público!

ENTREVISTADO 3 (OFF): - Minha tara é transar com uma garota vestida de colegial, sabe como é, blusa branca semitransparente, saia azul marinho, meias 3/4, pés pequenos e bonitos, não importa aonde, pode ser no carro, em casa...

Scully chega a se revirar na cadeira. Mulder coloca a mão sobre os lábios, segurando o riso.

SCULLY: - Como pode haver esse tipo de imbecil sobre a face da Terra? Daqui à pouco vai aparecer algum cretino pronto pra assumir que gostaria de estuprar crianças.

MULDER: - Credo, Scully. Não exagera.

ENTREVISTADO 4 (OFF): - Minha fantasia é fazer sexo a três, com duas mulheres.

MULDER: - Grande coisa. Isso é tara comum masculina.

Scully olha pra Mulder. Ele disfarça.

ENTREVISTADO 5 (OFF): - Tenho a fantasia de atender a fantasia de uma mulher que goste de fazer de tudo. Quero ser o seu escravo sexual. Obedecer a tudo que ela pedir sem dizer não.

MULDER: - Vou dormir. Quando algum desses caras disser algo fora do trivial, me acorde. Quero algumas idéias novas.

Scully cruza os braços.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Será que eles têm o telefone dele?

Mulder olha pra ela.

MULDER: - Não vai me irritar, Scully. Não sou ciumento. Você tem isso em casa. E mais ainda. Eu confio no meu taco.

SCULLY: - Vai confiando...

Mulder olha em pânico pra ela. Ela segura o riso.

ENTREVISTADA 1 (OFF): - Minha fantasia é ter meu corpo todo coberto por sorvete e morangos, estrategicamente espalhados nas partes que o sorvete "derretesse" mais rápido. Depois de ser saboreada calmamente pelo meu parceiro com a língua. Será que encontro algum homem que saiba fazer massagem tailandesa?

Mulder dá um sorrisinho cínico.

MULDER: - (REVIDANDO) Será que eles têm o telefone dela? Essas coisas são minha especialidade...

Scully dá um tapinha nele.

ENTREVISTADA 2 (OFF): - Minha tara é fingir que eu e meu parceiro somos estranhos que acabaram de se conhecer. Ou fazer sexo, com pressa, na escada do prédio ou no elevador, com o risco de aparecer alguém...

Mulder balança a cabeça negativamente.

MULDER: - (DEBOCHADO) É, Scully... Há duas teorias pra isso: ou nós dois somos completamente pervertidos, ou nosso sexo nunca foi normal. Não tem nada aí que já não experimentamos. Acho que entramos na rotina.

ENTREVISTADA 3 (OFF): - Minha fantasia é ser uma prisioneira, ser algemada, torturada com carícias, sexo oral, sendo obrigada a fazer sexo, sexo, sexo e a realizar todas as fantasias do meu amado.

Mulder boceja.

MULDER: - Que gente sem criatividade! O que houve com essa mulherada?

SCULLY: - (DEBOCHADA) E você? Tem mais alguma coisa criativa?

MULDER: - Ah, Scully, não me provoca... Não sabe quantas ‘coisas criativas’ eu tenho na minha cabeça. Se falasse todas aqui eu acabaria sendo preso por falta de decoro.

SCULLY: - Acredito, afinal você é Mulder, o tarado. Nada que preste sai dessa mente doentia.

ENTREVISTADA 4 (OFF): - Levar o carro num mecânico daqueles bem másculos, e aí enquanto ele descobre o defeito, começar a acariciá-lo, depois vestir suas roupas com cheiro de graxa e deixar que ele me toque com aquelas mãos grosseiras e espalhe por todo o meu corpo aquela graxa... deitar em cima do capô do carro mais próximo e deixar tudo rolar deliciosamente.

Scully ergue as sobrancelhas.

SCULLY: - (EMPOLGADA) Hum... Uau! Gostei dessa.

MULDER: - (SÉRIO) Experimenta fazer e vai ver rapidinho com quantas pás se enterra um cadáver de uma ruiva baixinha.

SCULLY: - Mas Mulder, preciso trocar o óleo de vez em quando.

MULDER: - (ENCIUMADO) Por via das dúvidas, Scully, se não quiser brigas naquele apartamento, de hoje em diante eu levo o carro ao mecânico, ok?

SCULLY: - (CONVENCIDA) Mulder? Está com ciúmes? Você, o belo, com ciúmes dessa baixinha sem graça alguma?

MULDER: - Ah, pára com isso. Não estou com ciúmes. E você realmente é uma baixinha sem graça. Portanto nem tente ou vão rir de você.

Ela sorri, convencida com o ciúme dele.

SCULLY: - Não confia em mim?

MULDER: - Confio. Não confio é no mecânico.

ENTREVISTADA 5 (OFF): - Bom... Minha fantasia sexual é transar com o chefe na mesa do escritório, no fim de expediente. Mas com a sensação de que alguém vai chegar.

Mulder olha pra Scully seriamente.

MULDER: - Antes que comente alguma coisa, eu subirei com você cada vez que quiser falar com o Skinner.

Scully arregala os olhos, olhando incrédula pra Mulder.

SCULLY: - Credo! Eu, hein?

MULDER: - Credo, é? Seguro morre de velho. E corno morre de cirrose hepática.

Scully ergue as sobrancelhas. Marshall desliga o vídeo.

MARSHALL: - Creio que agora vocês sintam-se mais à vontade pra falarem sobre isto. Senhora Reynolds?

Sra. REYNOLDS: - ... Bom, eu.... (SORRI) Minha fantasia é fazer amor num cemitério, sobre uma sepultura de mármore preto, numa madrugada fria, nublada, e com uma ventania pra deixar o clima bem tenebroso!!!!

Mulder e Scully trocam um olhar de pânico.

MULDER: - E depois eu e você não somos normais... Scully, isto sim é um Arquivo X.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Hum... Achei interessante... Oportunidades não nos faltarão.

Mulder olha apavorado pra ela. Cerra a fisionomia, ficando sério.

MULDER: - Aposto que você adoraria que eu ficasse por baixo.

SCULLY: - Como assim?

MULDER: - Por baixo do mármore enquanto você se divertia vestida de preto com o coveiro.

SCULLY: - O que deu em você? Ficou estranho de repente.

MULDER: - Eu sou estranho.

SCULLY: - Tá com ciúmes?

MULDER: - Não sou ciumento.

SCULLY: - Que dirá se fosse.

MULDER: - Conhece a piada da velhinha que toda a noite ia ao cemitério e fazia xixi sobre o túmulo do marido?

SCULLY: - (INCRÉDULA) Qual a moral disso?

MULDER: - (DEBOCHADO) Cada um chora por onde sente mais falta.

SCULLY: - (INDIGNADA) Mulder, como você é sujo! E como pode pensar que eu seria capaz de trair você em cima do seu próprio túmulo?

MULDER: - Como eu disse, seguro morre de velho e corno de cirrose hepática. E eu me lembro bem do que pensava antes de acabar na cama com você.

SCULLY: - (INDIGNADA) Tenho até medo de perguntar...

Scully faz um beiço enorme e cruza os braços. Marshall aproxima-se deles.

MARSHALL: - Senhor Manners...

Mulder dá um pulo da cadeira, pego distraído. Todos olham pra ele, curiosos.

MULDER: - Sim?

MARSHALL: - Qual a sua fantasia sexual?

MULDER: - A m-minha fantasia?

MARSHALL: - É, senhor Manners.

MULDER: - (SORRINDO CÍNICO) Eu... Eu não tenho fantasias. Sou um cara sem criatividade. Minha esposa sempre reclama disso (CUTUCA SCULLY), não é amor?

Marshall o encara. Mulder olha pra ele como um menino embaraçado por ter cometido uma travessura. Scully segura o riso.

MARSHALL: - Senhor Manners, não deve se envergonhar de partilhar com os outros seus desejos secretos. Todos aqui expuseram suas fantasias. Só faltam vocês dois... Senhora Manners, quem sabe a senhora nos conta seu segredo. Quem sabe ajuda a desembaraçar seu parceiro. Ou sente-se embaraçada pra falar também?

Scully olha furiosa pra Mulder. Olha pra Marshall.

SCULLY: - Eu não me sinto embaraçada. Minha fantasia sexual é transar com dois homens ao mesmo tempo.

As mulheres aplaudem. Scully olha vingativa pra Mulder. Ele olha incrédulo pra ela. Marshall o encara.

MARSHALL: - Então, senhor Manners? Qual sua fantasia sexual? E lembre-se, não pode mentir.

Mulder olha pra Scully, catatônico. Todos o observam, curiosos. Mulder abaixa a cabeça.

MULDER: - Bom... A minha fantasia sexual é...


2:31 P.M.

Scully presta atenção em Marshall, ignorando Mulder. Mulder, de braços cruzados, presta atenção nas pernas de Scully. Scully percebe e puxa o vestido, mas pouco resolve.

MARSHALL: - Bem, vamos para o próximo estágio do nosso curso. Depois da experiência do coito proibido, agora iremos fazer um exercício para aumentar a qualidade e a quantidade de orgasmos.

MULDER: - (DEBOCHADO) Escuta a dica, Scully! É a sua chance de bater o recorde mundial!

Ela o fulmina com os olhos.

MARSHALL: - Recomendo longas preliminares. Desta vez a penetração é permitida. Mas quando sentirem que o orgasmo está chegando, deem um tempo e recomecem. Façam isto o máximo de vezes. Verão que quando acontecer, a energia sexual acumulada será liberada, resultando no que, possivelmente, será o melhor orgasmo que já tiveram.

MULDER: - (SE ABANANDO/ NERVOSO) Scully, eu tô sofrendo! Não aguento mais! Esse cara tá me deixando nervoso, nos dois sentidos! Ele é cruel. Ontem de noite eu quase explodi. Tô parecendo um vulcão em erupção!

SCULLY: - (SE ABANANDO E ENXUGANDO O SUOR/ IRRITADA) Por que esse desgraçado não fecha logo essa matraca? Quanto mais ele vai falar?

MULDER:- (SURPRESO) Scully? É você quem está aí?

SCULLY: - Desculpe Mulder. Esse calor está me deixando fora de mim! Se ele não acabar essa palestra logo, não respondo por nenhum ato que eu cometa. Vou te agarrar aqui mesmo!

MULDER: - (SE ABANANDO) E o pior é que eu nem vou fazer questão de te segurar!

MARSHALL: - Então é isso. Terminamos por aqui. Vocês têm o resto do dia livre para se divertirem e fazerem este último exercício.

Os dois se levantam rápidos e ansiosos. Procuram rapidamente a saída, sempre se abanando. Acabam se esbarrando no casal de conhecidos. Scully fica em pânico.

BOB: - Oi, tudo bem?

MULDER: - (DOIDO PRA SE LIVRAR) Ah, Bob é você?

BOB: - Nossa, vocês estão suando! E nem está calor aqui! Estão doentes?

MULDER: - (APROVEITANDO A IDEIA) É, é uma gripe fortíssima (E FAZ CARA DE ABATIDO). Estamos nos sentindo muito mal.

Mulder olha pra Scully com uma cara de desespero.

MULDER: - (QUASE IMPLORANDO) Vamos querida?

SCULLY: - (FINGIDA) Claro, estou muito fraca. Acho até que vou desmaiar.

MULDER: - Bob, espero que nos desculpe por os deixar assim, mais temos que repousar.

BOB: - Desejamos melhoras.

Ele nem termina de falar e os dois agentes já estão saindo rapidamente pela porta.


BLOCO 4:

Mulder tenta abrir a porta do quarto, mais está tão atrapalhado que não consegue.

SCULLY: - (IRRITADA) Mulder, abre logo essa porta!

MULDER: - Calma mulher, eu tô tentando!

SCULLY: - (DESESPERADA) Ai, deixa que eu faço isto!

Ela pega a chave da mão dele e abre a porta. Eles entram já se beijando. Mulder fecha a porta com o pé. Eles vão tirando um a roupa do outro. Aos beijos, vão conversando.

MULDER: - (OFEGANTE) Você pensou em tudo! Vestido! Tão fácil de tirar.

SCULLY: - (OFEGANTE) E o melhor... é que não tem nada por baixo!

MULDER: - Scully... eu tô maluco por você...

SCULLY: - (BRAVA) Já você... parece que não pensou em nada. Cinto? Mulder, você está usando cinto? (DENGOSA) Por que você fez isto comigo?

MULDER: - Calma, deixa que eu tiro...

SCULLY: - (PREOCUPADA) Mulder, o que... hum... está acontecendo com a gente?

MULDER: - Não sei, mas estou gostando...

SCULLY: - Mulder, parecemos dois animais e...

Mulder a empurra contra a parede, erguendo o vestido dela. Scully fecha os olhos, se agarrando nele. Mulder desliza as mãos pelo corpo dela, agarrando com força suas coxas. Os dois falam enquanto se beijam, enlouquecidos.

SCULLY: - (OFEGANTE)... Mulder... Vamos com calma...

MULDER: - (OFEGANTE) Eu não quero calma alguma... Você me provocou a semana toda...

SCULLY: - (OFEGANTE) Mulder...

MULDER: - Eu quero você, Scully...

SCULLY: - ... Por que não me contou sua fantasia antes, Mulder? Se eu soubesse disso, eu já a teria realizado há muito tempo...

MULDER: - Não a realize. Eu nunca poderei realizar a sua.

Scully o empurra.

SCULLY: - Não peço que realize, isso é fantasia e eu nem sei porque fui confessar isso pra você. Não vamos tocar nesse assunto, eu me sinto constrangida.

MULDER: - ... (RESPIRA FUNDO) Tá... Assunto proibido. Não falaremos mais nisso.

SCULLY: - ... Droga!

Ela senta-se no sofá.

SCULLY: - Mulder, algumas vezes sinceridade demais cria situações constrangedoras.

MULDER: - Scully, mentiras seriam hipocrisia. Eu gosto que a verdade seja a base do nosso relacionamento. Mesmo que nem sempre ela seja agradável. E depois, até eu tenho vontade de transar com duas mulheres. E ambos sabemos que isto é um assunto delicado. E fora de cogitação.

SCULLY: - Eu nunca admitiria ver você com outra então eu sei que você nunca admitiria me ver com outro.

Ele aproxima-se dela. Ajoelha-se a seu lado.

MULDER: - ... Que tal uma piada pra aliviar o clima?

SCULLY: - Não. Eu não quero piadas. Eu quero fazer amor com você.

Ela o observa. Ele a observa.

MULDER: - O que foi?

SCULLY: - Somos dois doentes. Esta é a verdade. Tenho vergonha de mim mesma. Mulder, eu nunca admiti isso na frente de nenhum homem que tive. Por que admito logo na frente do homem que eu mais amei na vida? Ou sou estúpida ou folgada, como você diz.

MULDER: - (SORRI) Você confia em mim. Nosso relacionamento é verdadeiro e sem mentiras.

SCULLY: - Sabe de uma coisa? Eu e você. Realmente, nós dois fomos feitos um pro outro. Nós nos merecemos. Você é maluco assumido e eu sou uma maluca disfarçada. Nunca pensei que entre nossas divergências houvesse tanta semelhança entre nós dois. Só você mesmo pra ouvir uma coisa dessas. Me desculpe, eu não deveria ter falado aquilo.

MULDER: - Mentiu? Não. Então, por que tem vergonha? Ô Scully, ao contrário do que pensamos, os seres humanos tem um lado animal regido por instinto. O racional tenta reprimi-lo, mas algumas vezes, as nossas raízes afloram e é inútil lutar contra isso.

Ela sorri aliviada. Põe a mão no rosto dele o afagando.

SCULLY: - Você é real ou estou sonhando?

MULDER: - Acho que você está tendo um pesadelo. É mais provável, se tratando de mim.

SCULLY: - Por que se menospreza tanto, Mulder? Acha que eu falaria algo assim se não fosse pra você? Você não é o tipo que me criticaria. Tanto que está aqui tentando me fazer sentir melhor.

Ela se abraça nele.

SCULLY: - Me desculpe. Me desculpe por ter sido tão sincera.

MULDER: - Eu não sei qual a sua neurose, Scully. Você já havia me dito isto muito antes!

SCULLY: - É que me sinto culpada por ter falado na frente de tanta gente.

MULDER: - Culpada? Por acaso foi você quem disse que tinha a fantasia de transar sobre o mármore de um túmulo?

SCULLY: - (SORRI) É... Isso foi constrangedor.

MULDER: - Constrangedor? Isso foi bizarro. Embora não sejamos os mais corretos para criticar, depois que transamos dentro de Alcatraz, numa hora nada propícia em um ambiente menos propício ainda...

Mulder levanta-se. Estende a mão pra ela. Sorri, tentando acalma-la.

MULDER: - Vem. Vamos dormir.

Scully levanta-se. Ergue a cabeça e olha pra ele.

SCULLY: - Não. Eu preciso fazer uma coisa antes.

MULDER: - Que coisa?

SCULLY: - Realizar sua fantasia. Mas não fique preocupado, não é com intenção de que você se sinta obrigado a realizar a minha. Eu mesma não teria coragem. Eu apenas falei, Mulder, mas eu não teria coragem de fazer isso.

Ele fica tenso.

MULDER: - (DISFARÇANDO) Acho que vou tomar banho. Que tal?

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - Scully, não quero que faça o que não tem vontade de fazer...

SCULLY: - Quem disse que eu não tenho? Eu me empolguei com a ideia. Mulder, como eu poderia imaginar que sua fantasia era justamente o que eu tenho mais medo de fazer? Me ajuda, vai.

MULDER: - Scully, não é o momento, ok? Não quero que faça o que você não quer fazer só pra me agradar. Dizer coisas que você tem medo de dizer. (TENSO) Eu... Não está com sede? Eu vou pegar um refrigerante...

Mulder abre a porta.

SCULLY: - Mulder... Vem aqui.

MULDER: - (DEBOCHADO) ... Eu não, você vai me morder.

Scully fica séria. Mulder ao ver a seriedade fica mais nervoso. O silêncio se estabelece por instantes. Até que ela o quebra.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - O que é?

Ela empurra a porta com o pé, a fechando. Olha pra ele, com o olhar de quem trava uma batalha dentro de si.

SCULLY: - Seu... seu estímulo auditivo... escutaria um pedido de socorro?

Ele olha pra ela, sem entender. Ela aproxima os lábios da orelha dele. Fecha os olhos, desliza a mão pela camisa dele e sussurra como se a expressão lhe cortasse a garganta.

SCULLY: - (SÉRIA/ MURMURA) Mulder... Fuck me.

Mulder a agarra, enlouquecido, arrancando o vestido do corpo dela, a deixando nua e a empurrando contra a parede. Ela abre a camisa dele arrancando todos os botões num só puxão. Retira a camisa e envolve as mãos no corpo dele, segurando-se nele. Fecha os olhos. Sorri, sentindo os lábios dele percorrerem seu pescoço e o impacto do corpo dele entrando no seu. Ela morde os lábios, agarrando-o mais forte, mordendo-lhe o ombro com desejo.

MULDER: - (MURMURA/ OFEGANTE) Eu amo você...

Mulder segura as pernas dela com mais força. Scully solta um gemido de êxtase, sentindo o corpo dele mover-se mais rapidamente contra o seu, num desespero incontido, de quem a deseja com loucura. Ela aproxima seus lábios do ouvido dele. Morde sensualmente sua orelha e lhe fala algo baixinho, que o deixa mais enlouquecido. Mulder a segura firmemente pelo bumbum e a carrega até a mesa, enquanto ela geme enlouquecida, agarrada nele. Scully deita-se sobre a mesa e Mulder a puxa pelas pernas mais de encontro ao seu corpo. Ela grita. Ele a segura pelas pernas, movendo-se contra ela. Inclina seu corpo pra trás, ofegante. Ela agarra-se nas bordas da mesa, gemendo baixinho. Ele a segura por uma das pernas e com a outra mão, afaga-lhe a barriga. Ela começa a gemer mais alto, entrando em êxtase.

SCULLY: - Mulder... Hum, Mulder... Assim... Assim...

Ele começa a entrar em êxtase com ela. Os corpos suados. Incansáveis. Desejo que transborda.


10:39 P.M.

Marshall está parado em frente ao quarto de Mulder e Scully. A mão em contato com a porta.

NARRADOR (OFF): - Ele sente. Ele sabe. O monstro está de volta, e mais faminto. A carne é fraca. Ele sabe que não pode fugir mais. O monstro vence o médico, outra vez.

Marshall abre a porta e entra no quarto.

NARRADOR (OFF): - É este. É este o casal escolhido. Com corpos que se abrigam num enrolado de lençóis, exalando a energia pura e condensada do ato sexual. Eles fornecem o que ele necessita.

Marshall aproxima-se da cama na penumbra. A luz do abajur acende-se rapidamente. Scully, aponta a arma pra ele, em pé, ao lado da cama.

SCULLY: - Acabou, Dr. Marshall.

Mulder aproxima-se por trás de Marshall e o algema.

MULDER: - Infelizmente, seu desgraçado, você vai ser solto, porque não temos como provar a forma como matou aquelas pessoas. Não há digitais nos corpos e não há ciência que explique como roubar a energia sexual das pessoas.

Marshall não reage. Abaixa a cabeça.

MARSHALL: - Me ajudem.

Scully e Mulder se olham. Marshall, segurando lágrimas, olha pra Mulder.

MARSHALL: - Me ajudem... Eu confesso meus crimes. Eu quero ser preso. Eu preciso ser preso, antes que mate mais alguém...

NARRADOR (OFF): - Mal termina de dizer essas palavras e o monstro começa a reagir, fazendo com que o bom Dr. Marshall acabe por se contorcer, lutando para que o monstro não saia. Os dois agentes do FBI mal acreditavam no que viam. O médico deixava as lágrimas correrem enquanto gritava por ajuda e se contorcia, sedento por energia.

Mulder, assustado, abre as algemas. Marshall o ataca, o empurrando contra a parede. Segura Mulder pelo pescoço, tentando asfixia-lo. Scully grita.

SCULLY: - Pare! Pare ou vou atirar!!!

Mulder consegue se desvencilhar e empurra Marshall.

MULDER: - Não atire, Scully! Ele não sabe o que está fazendo.

Mulder consegue render Marshall. Dá uma chave de braço nele. Segura-o com força pelos braços. O médico, cansado, desiste.

MULDER: - Precisa de ajuda. Você tem dupla personalidade. Vai conseguir superar isso.

MARSHALL: - (SORRI/ CANSADO) Não entende, não é, senhor Manners ou seja lá quem você for... Nunca me livrarei dele.

Marshall, cansado, olha pra Scully.

MARSHALL: - Ele não me deixa. Eu não quero fazer isso. Mas ele não me deixa.

Scully pega o celular e se dirige à porta.

SCULLY: - Vou chamar ajuda.

Marshall olha pra ela. Os olhos insanos do monstro brilham mais fortes.

MARSHALL: - (DEBOCHADO) Sabe por que vocês fazem tanto sexo? Não é por fuga.

Scully pára. Olha pra ele.

MARSHALL: - Ambos tentam semear em solo infértil.

MULDER: - Cala a boca!

MARSHALL: - (RI) Claro que não sabiam disso. Está no inconsciente de vocês... Esse desespero e essa tara toda é só uma tentativa desesperada de que por um acaso do destino isto resulte num milagre. (SORRI DEBOCHADO) Vocês querem acreditar que possam ter um filho... Mas isso é apenas uma ilusão. (RI) Uma tola ilusão.

Mulder o empurra, furioso. Scully sai pela porta, segurando as lágrimas. Marshall observa Mulder.

MULDER: - (IRRITADO) Se abrir sua boca mais uma vez, eu vou encher você de porrada.

Marshall suspira. Olha pra janela.

MARSHALL: - Não há cura pra mim, senhor Manners...

Marshall desvencilha-se de Mulder e pula pela janela. Mulder corre até a janela. Olha pra baixo. Fecha os olhos.

Corta para o corpo de Marshall atirado por sobre uma cerca de ferro, com um dos ferros atravessando seu peito. Nos olhos dele o brilho de quem encontrou a paz.


FBI – Gabinete do Diretor Assistente – 11:33 A.M.

Skinner, sentado na cadeira, segura o relatório na mão. O lê, atento e incrédulo.

MULDER (OFF): - Descobrimos que a estranha chave pertencia a porta do porão da clínica. Encontramos cinzas no incinerador e a agente Scully, após análise minuciosa, descobriu que eram as cinzas do casal Tyller. Era assim que Marshall se livrava dos corpos após o crime, os incinerando no porão.


Corta para o apartamento de Mulder.

[Som: Stuck on You – Lionel Ritchie]

Os dois agentes sentados no sofá. Mulder com o braço por sobre Scully. Os dois com o olhar triste e perdido no nada, como se ainda refletissem as palavras de Marshall. Scully brinca com um dos sapatinhos de bebê que ganhara do velho Papai Noel há anos atrás.

Escuta-se apenas a voz de Mulder narrando o relatório.

MULDER (OFF): - Este agente descobriu nos pertences do Dr. Nick Marshall um caderno de anotações, que mais se parecia com um diário. Nele, havia claro o motivo que transformou o bom médico em um monstro assassino. Uma espécie de rascunho de uma autobiografia estava sobre a escrivaninha de Marshall, a vista de todos, como se o seu lado bom pedisse socorro, desejando que alguém abrisse aquelas páginas e pudesse ajuda-lo. Ele que ajudava tanto as pessoas, precisava de ajuda mas não sabia como pedi-la. Marshall era um bom psicólogo, e devo relatar que segundo minha experiência como profissional desta área, Marshall tinha notável conhecimento da psique humana que deixaria muitos profissionais com inveja. Eu mesmo me senti com inveja da capacidade de percepção e análise dele em relação às ações humanas e ao desespero inconsciente destes agentes.

Scully suspira. Mulder segura a mão dela. Os dois em silêncio.

MULDER (OFF): - A mãe era uma ex-freira que fora seduzida por um cafajeste que a deixara grávida e fugiu. Ela enlouqueceu e ficou obcecada com a ideia de que o sexo era a causa de todos os males do mundo. O maior de todos os pecados. Quando Marshall cresceu e começou a se transformar em um homenzinho, ela num ataque de loucura, cortou os órgãos sexuais do filho, dizendo que ele não iria se transformar no monstro que seu pai era.


Corta para a sala de Skinner. Skinner fecha os olhos, aterrorizado.

MULDER (OFF): - Marshall, que ficou totalmente traumatizado, se dedicou a estudar formas alternativas de se ter prazer sexual, numa forma de suprir seus desejos. A teoria deste agente é que ele chegou a desenvolver uma técnica própria que fugia do seu próprio controle, pois além de roubar a energia sexual de outros, agora também roubava a vital. Marshall não tinha dupla personalidade. Ele apenas acreditava que seu lado médico deveria ajudar as pessoas a serem felizes e aproveitarem o que ele nunca poderia ter. E seu lado de monstro, queria vingança por nunca ter tido a oportunidade de sentir prazer carnal na vida.


Corta para o apartamento de Mulder.

[Som: Stuck on You – Lionel Ritchie]

Mulder olha pra Scully. Ela disfarça, secando as lágrimas. Levanta-se e larga o sapatinho sobre o sofá. Vai pro quarto. Mulder acompanha-a com os olhos, triste ao ver o sofrimento da parceira.

Som da porta do quarto se fechando. Mulder perde o olhar no vazio. Em seus olhos o brilho do ódio.

MULDER (OFF): - Na verdade, Marshall não era tão diferente de qualquer um de nós, porque todos temos dentro de nós mesmos, um médico e um monstro. O nosso lado bom e o nosso lado mau. Cabe a nossa racionalidade saber o momento de revelar cada um deles ao mundo.

Mulder olha pro sapatinho de bebê. Pega-o num olhar de ternura. As lágrimas rolam. Ele levanta-se. Vira-se para a janela. Observa o céu azul. Seca as lágrimas com o braço. Em seus olhos, o brilho dos olhos de um monstro sedento de vingança e ódio. Faminto por justiça.


X

05/12/2000

9 de Agosto de 2019 às 17:34 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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