S03#21 - THE BRIDGE Seguir história

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Scully, triste e abatida com o desaparecimento de Mulder, começa a refletir as coisas que aconteceram até agora em sua vida. A verdade se revela a seus olhos cruelmente. Mas nossa guerreira resiste, mesmo depois da descoberta. Faz as malas e resolve ver sua amiga Ellen. Scully vai fugir de tudo, pensando na segurança de seu filho. Mas ela nunca imaginaria o que iria encontrar.


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 18 apenas.

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S03#21 - THE BRIDGE

“ Did you ever think of me, as your best friend. Did I ever think of you, I’m not complaining. I never try to feel. I never try to feel. This vibration. I never try to reach. I never try to reach. Your eden. Your eden... Your eden...”

(Sarah Brightman)


INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

[Som: Eden - Sarah Brightman]

Câmera de aproximação alta (acompanhando o ritmo da música): do céu azul, cheio de nuvens, descendo para a terra, passando por sobre árvores, até um imenso campo florido, com capim alto e bem verde, e pela ponte branca, onde está Scully, escorada na amurada. Dando voltas sobre ela e afastando-se. (algo como a simulação do vôo de um pássaro).

Câmera baixa, aproximando-se de Scully sobre a ponte.

[Início da letra da música]

Corta para Scully, parada sobre a ponte. Apoiada com os braços na amurada, ela inclina a cabeça para trás, fechando os olhos e aspirando a brisa, que faz seus cabelos mais longos, o casaco e o vestido voarem para trás. Ela parece estar numa sintonia única com o momento.

Scully olha pro riacho de águas claras. Tira uma moeda do bolso e atira na água. Fecha os olhos, como se fizesse um pedido. Slow motion da moeda caindo até a água. A moeda afunda, caindo sobre as pedras. Scully olha pra água. Ergue a cabeça, olha pro céu azulado. As nuvens passam bem devagar. Scully fica admirando os pássaros que voam. Uma brisa suave sopra por seus cabelos novamente. Scully fecha os olhos, aspirando o perfume das flores. Admira a paisagem, enquanto afaga sua barriga de pouco mais de sete meses.

VINHETA DE ABERTURA


BLOCO 1:

Arquivos X – 11:56 A.M.

Scully sentada na cadeira de Mulder, pesquisando alguma coisa no laptop. Óculos no rosto, fisionomia de concentração. Os cabelos mais longos, pouco acima dos ombros. Pilhas de pastas de Arquivos X sobre a mesa.

SCULLY (OFF): - Antes do pesadelo começar, sentia em meu coração que todas as coisas que passei seriam tolas em vista do que passaria agora. Sinto que o câncer que tive não me aproximou menos da morte do que esta gravidez. Não quero acreditar que gero em mim uma aberração da natureza, que mais uma vez fui usada para propósitos que agora, eu não mais desconheço.

Scully olha pra tela, pensativa.

SCULLY (OFF): - Minha vida mudou muito, desde que nós dois passamos a ser um só, em corpo e em alma. Quando me entreguei à você, como mulher e não mais apenas como amiga, abracei sua verdade sem questioná-la. Meu instinto de entrega foi muito maior do que minha razão. E quando não questionei sua verdade, eu pude vê-la com meus próprios olhos. Agora eu sei, que tudo o que passamos até agora, todas as coisas que investigamos, chegam exatamente ao único ponto em comum: extraterrestres. A resposta de todos os Arquivos X se resumem a isso. Você já havia me dito, mas eu relutava em acreditar. Agora, eu acredito. E descobri a verdade da pior maneira.

Scully fecha o laptop.

SCULLY (OFF): - Se fiquei menos cética, não significa que não precise de provas. Preciso delas mais do que nunca, porque somente elas vão provar a nossa verdade. Se o mundo racional aceita apenas provas, eu as darei em nome da nossa verdade e da verdade de tantas pessoas que foram injustiçadas, usadas e algumas vezes, pagaram com sua própria vida... Olho pra essa sala apertada, entulhada de pastas, arquivos e papéis. Agora tenho a certeza absoluta de que aqui está a minha vida também. Porque aqui está a sua. E se isso é o que você ama, amo isso também. Porque amo o que você ama e odeio os que te querem mal. Por mim desistiria disso tudo. Mas levaram você de mim e percebo que foi uma retaliação, uma espécie de aviso, de que você é uma peça chave do jogo e que nunca sairá desse porão. Então, isso significa que eu também não sairei. Porque meu lugar é do teu lado.

Scully suspira, segurando lágrimas que já não tem.

SCULLY (OFF): - Cresce dentro de mim um ódio tão grande, que peço à Deus que me perdoe por isso. Nem as coisas que fizeram contra mim me machucaram tanto quanto o que fizeram com você... Ainda sinto suas mãos escorregarem das minhas, seu corpo sendo afastado do meu, enquanto eu observava sem poder reagir... é como se esses homens, que no passado tiraram pedaços do meu corpo, agora tirassem a minha própria alma. Porque você é minha alma.

Scully fecha os olhos.

Fade out.


FLASH BACK – Gabinete do Diretor-Assistente

Scully entra na sala, apreensiva. Skinner desliga o telefone. Scully senta-se, segurando a barriga. Começa a chorar.

SCULLY: - Eles o pegaram! Eu sei que o pegaram!

Skinner está nervoso. Puxa uma cadeira e senta-se ao lado dela.

SKINNER: - Scully, tente se acalmar, isso não vai fazer bem pro seu bebê. Volte pros Pistoleiros e descanse. Deixa isso comigo, eu vou achar o Mulder.

SCULLY: - Não posso descansar, senhor. Não consigo fechar meus olhos eu... Eu estou temendo por ele! Não sei o que querem com o Mulder, mas alguma coisa dentro de mim diz que ele está sofrendo!

Scully se abraça em Skinner. Skinner a abraça, afaga seus cabelos.

SKINNER: - Scully, preciso que fique calma, está bem? Nós dois vamos achá-lo. Eu prometo à você. Vamos achar o Mulder.

Ela continua chorando, grudada nele. Skinner está compadecido dela.

Fade in.


TEMPO ATUAL:

Batidas na porta, tirando Scully de suas lembranças. Skinner entra.

SKINNER: - Quer companhia para o almoço?

SCULLY: - ... Não, eu vou almoçar em casa. Obrigado.

Skinner coloca as mãos no bolso. Olha pra ela, relutante nas palavras.

SKINNER: - Scully, não sei como vou dizer isso, mas... Querem que saia de licença. Já deveria ter saído.

Scully olha pra ele, como se implorasse.

SCULLY: - Não posso sair daqui agora. As respostas que preciso para encontrar Mulder estão todas aqui.

SKINNER: - Scully, são ordens. Não pode permanecer no trabalho... Sabe que pode fazer isso longe daqui. Sabe que sou seu amigo e que quero ajudá-la a encontrá-lo, mas sabe que não pode desrespeitar as leis do Bureau. Só vai se prejudicar se insistir nisso.

SCULLY: - ...

SKINNER: - Tire sua licença. Vá pra casa, tome um banho, tente relaxar. Pense nessa criança. O que precisar, eu levo pra você. Não é se matando aqui embaixo que vai encontrar Mulder. Recolha tudo o que puder, eu juro que usarei isto pra trazer Mulder de volta.

Scully levanta-se. Pega sua bolsa. Olha pra Skinner.

SCULLY: - Senhor, vou cumprir as ordens porque agora, mais do que nunca, preciso da proteção do FBI. Mas eu não vou desistir.

SKINNER: - ... Descobriu de onde era aquela chave que lhe entreguei?

SCULLY: - Sim, senhor. De um cofre de banco. Mulder deixou alguns papéis pra mim. Algumas provas do que estava tentando me dizer, mas que eu não dava ouvidos. Vou até o laboratório analisar algumas amostras que tenho, porque eu preciso de provas. Se Mulder é um híbrido, tudo vai se esclarecer agora... Senhor, sabe os monstros da semana que eu e Mulder perseguimos a vida toda?

SKINNER: - O que tem eles, Scully?

SCULLY: - (SORRI) Todos são mitologia... Todos estão ligados a mitologia... São apenas faces diferentes do enigma da nossa existência e das nossas diferenças genéticas. Todas as respostas dos Arquivos X estão lá em cima. Porque a verdade, senhor, está lá fora. No espaço. E a mentira está aqui, na Terra.

Ela sai da sala, cabisbaixa. Skinner suspira, fechando os olhos.


Apartamento de Scully – 2:24 P.M.

No quarto, roupas pela cama. Bagunça total. Scully dobra as roupinhas do bebê e as coloca numa sacola. Antes de fechar a sacola, coloca uma foto de Mulder. Fecha. Suspira. Pega uma mala no armário e começa a colocar suas roupas.


Apartamento de Mulder – 6:33 P.M.

Scully entra carregando uma mala e uma sacola de bebê. Tranca a porta. Tira o sobretudo, pendura no cabide. Caminha até a estante. Olha pros peixes.

SCULLY: - Oi, peixinhos! Se comportaram bonitinho? Mamãe vai dar comidinha pra vocês.

Scully dá comida pros peixes. Os observa.

SCULLY: -... Devem estar com saudades do papai. Também estou.

Scully afasta-se do aquário. Vai para o quarto. Senta-se na cama. Olha pros móveis, para os objetos de Mulder. Distante, pensativa, segurando o choro.

SCULLY (OFF): - ... Sei o que vi, e agora entendo os meus limites. Mas não posso desistir... Preciso ficar sozinha... Menti aos rapazes que estaria na casa da mamãe. Eles não entenderiam. Posso me algemar, ficar acordada, enterrar minhas pernas no concreto... Mas eu sei que se eles querem, eles podem. E não adianta fazer nada. Vai acontecer. É questão de tempo. Vou defender nosso filho, Mulder. Não tive coragem de dizer o que sei à Skinner. Até porque eu preciso encaixar os fatos todos na minha cabeça. Me desculpe, se não acreditei em você. Agora entendo porque querem essa criança. Porque é seu filho.

Scully atira-se na cama. Olha para o teto.

SCULLY (OFF): - Antes eu não entendia. Estava com nojo de mim. Mantinha meu silêncio, mas quando todos se afastavam eu esmurrava minha barriga com ódio, implorando pra que ele morresse. Tentei tirá-lo de dentro de mim, mas a coragem me faltou. Olhava pra meu rosto no espelho e chorava, desistia. Queria machucá-lo, forçá-lo a sair. Algumas noites me pegava sentada, pensando num meio de matá-lo e, de repente, a lucidez vinha à tona e eu ficava com medo de mim mesma. Eu não mais me reconhecia.

As lágrimas correm.

SCULLY (OFF): - Medo dos meus pensamentos. Se antes eu estava feliz por realizar um sonho, isto agora me parece um pesadelo. Sei que anjos guardaram meu sono, mas talvez fosse apenas minha fé cega. Existem muitas dúvidas dentro de mim, e eu não sei mais no quê acreditar. Então busco força nas suas palavras: ‘Se tiver de confiar em alguém, confie no Fumacinha. Ele vai mentir menos’. Eu não sei, Mulder, mas eu quero acreditar.

Ela levanta-se. Vai pro banheiro, tirando a roupa.


9:11 P.M.

Scully, de pijamas, deitada, coberta com o edredom. Bebe chá enquanto lê alguns papéis.

SCULLY (OFF): - Ontem fiz mais exames e não há anomalias no bebê. Então chorei. Chorei porque teria matado o nosso filho por medo de morrer. Por isso eu disse que agora entendia. É nosso filho. Não o querem por ser meu, mas o querem por ser seu.

Scully abaixa os papéis sobre a barriga. Olha pro nada.

SCULLY (OFF): - A chave que você deixou pro Skinner... Mulder, eu encontrei o que você guardou. Eu fiz análises minuciosas em seu DNA e o que você me escreveu naquele diário se confirma com os papéis que o Krycek me entregou. Agora tenho as respostas. Há dois caminhos, Mulder: Como num processo de clonagem, esvaziaram um dos óvulos de sua mãe e o preencheram com uma célula de seu pai que continha uma mutação no DNA. Ou o processo de concepção foi normal, mas seu pai tinha alterações genéticas também. Eu não sei... Mas é uma mutação que poucos têm. Por isso sua rapidez de raciocínio, por isso sua inteligência anormal e suas reações à paranormalidade. Você sempre via as coisas por outro ângulo. Não era loucura. Apenas vidência, mediunidade... Não em grandes proporções, mas diferentemente das pessoas comuns. Todos temos essas partes cerebrais desativadas, mas em você elas estão ativas. O que me faz concluir que todos provemos de extraterrestres... E o que me faz concluir que o que chamamos de dons em algumas pessoas, não são dons. São partes do cérebro ativadas em maiores proporções do que em outras pessoas. Talvez por acidente da natureza, da evolução. Mas em você, isto foi provocado por um deus bem humano. E talvez, Mulder, seu pai tenha sido a primeira experiência.

Scully rabisca os papéis.

SCULLY (OFF): - Analisando as amostras de DNA, provenientes de um fio de seu cabelo, verifiquei algumas resistências imunológicas que me são desconhecidas. Parece que nem células cancerígenas atingem suas células. Nunca vi algo parecido. Seu sistema imunológico copia rapidamente a célula invasora e a destrói. No entanto, doenças corriqueiras, como uma gripe, podem lhe afetar. Mas isto eliminaria a probabilidade de seu pai ser imune, pois ele está morrendo.

Scully bebe o chá.

SCULLY (OFF): - ... Como fizeram com Dolly, precisaram criar um filho da mutação, uma Polly. Já haviam feito isso há muitos anos com humanos e você foi um deles. Ou talvez o único que sobreviveu. Agora eles querem o filho da experiência. Porque seu filho é a chave para a cura dessas doenças. Ele tem todos os genes ativados, sem mutação alguma. Ele é a criança perfeita. Então agora compreendo o sentido desta gravidez. Mas ao mesmo tempo, sinto que o objetivo deles é alterar a espécie humana. Como os nazistas tentaram durante a Segunda Guerra, num processo chamado eugenia. Esses homens querem uma nova raça. Um mundo onde cada vez haverá mais excluídos. Apenas os super-homens sobreviverão ao caos.

Scully fecha os olhos, nervosa.

SCULLY (OFF): - Meu coração compreende o quanto eles querem seu filho. Mas eu não os deixarei levá-lo. Tiraram você de mim. Não vão tirar o único pedaço que resta de você e que carrego aqui dentro. Pouco me importa como fizeram isso, ele é nosso filho. E darei minha vida por ele. Amanhã estou partindo, Mulder. Preciso pensar no que fazer. Ficar por aqui me traz lembranças do quanto fomos felizes, do quanto dos amamos. Em nome de todas as coisas que temos, do nosso amor e da nossa amizade, eu vou lutar até o fim. Se eu sempre fui sua força, você sempre foi a minha alma. Se eu era seu lado humano, você sempre foi o meu lado de monstro. E agora, Mulder, eu me tornei um monstro. Sou capaz de tudo pra achar você e ficar com nosso filho. Realmente, eles terão de me matar para pegá-lo... A única dor que sinto é a de não ter acreditado, ajudado você a dividir esse fardo pesado. Imagino as dúvidas que passaram na sua cabeça, o quanto foi difícil saber que você era diferente das outras pessoas e ao mesmo tempo tentar salvar sua família... Calado. Sem me dizer, com medo de que eu te chamasse de louco, paranoico, que eu duvidasse, como sempre fiz... E como você sempre fez, tentou me poupar do sofrimento, carregando tudo sozinho em suas costas... Me sinto culpada, Mulder. Eu não percebi. Estava cega. Fora da sua sintonia... Na verdade, Mulder, acho que nunca estive em sua sintonia... Agora, sinto que estou.

Scully fica pensativa, triste, culpada.


10:14 P.M.

Scully deitada na cama.

SCULLY (OFF): - Faz 10 graus lá fora. Sinto falta de você. Do calor do teu corpo... (SORRI) Das tantas vezes que entrava debaixo desse edredom, gelada, tremendo de frio e me encostando em você, tão quentinho... Você nunca resmungava. Me abraçava, esquentava o meu corpo... meus pés gelados...

Scully vira-se na cama. Afaga o colchão, olhando para o travesseiro de Mulder. Fecha os olhos.

SCULLY (OFF): - Quando fecho meus olhos, imagino você do meu lado. Posso até sentir o seu calor. Mágica... Seu perfume está embrenhado nesse travesseiro e, se eu ficar de olhos fechados, posso dormir, sentindo teu cheiro, me tranquilizando. É como se, ao fechar os meus olhos e não ver nada, eu mentisse pra mim mesma, porque imaginar tua presença nessa cama me reconforta.

Scully aninha-se na cama.

SCULLY (OFF): - Seu filho parece que sabe o que está acontecendo. Parece não, agora eu sei que ele sabe. Ele é especial. Fiquei com medo, porque ele não mais se mexia dentro de mim. Mas ele está bem. Apenas está triste. Me parece isso. Tento não ficar deprimida pra não agitá-lo mais. Mas ele sabe, é em vão. As crianças normais são muito sensíveis, e ele sendo tão especial deve sentir isso em proporções maiores do que um feto comum. Esta gravidez foi tumultuada desde o início... Fico preocupada por ele. Parece que quando durmo aqui, ele fica mais feliz. (SEGURA AS LÁGRIMAS) Ele puxou ao pai, é um sentimental completo. Mas ele resiste, talvez o seu ladinho Scully lhe diga pra fazer isso. Minha mãe está tão feliz que não tenho coragem de dizer a verdade. Nem mesmo disse que levaram você. Não quero que ela sofra.

Scully suspira.

SCULLY (OFF): - Tem gente demais sofrendo nessa história. Skinner está triste, revoltado. Briga à toa com todos. Frohike tem estado nervoso e angustiado. Byers... (SORRI) Byers tá sempre me levando alguma guloseima, tentando me agradar... Até o Langly! Quando fica comigo, disfarça que joga no computador, mas eu vejo que o olhar dele não é pra tela. É para o nada. Mulder, devia ver o quanto as pessoas te consideram importante na vida delas. O quanto todos eles estão sendo bons comigo e estão tentando trazer você de volta. Pra quem se dizia sozinho, você tem grandes amigos. Cabem todos na palma da mão, mas considere-se feliz por isso. São poucos, mas são verdadeiros.

Scully abraça-se no travesseiro de Mulder. Fecha os olhos. Beija o travesseiro.

SCULLY (OFF): - Boa noite, Mulder. Falo com você amanhã. Afinal, hoje é Sexta-feira, temos os finais de semana juntos, não é mesmo?

Scully começa a chorar, agarrada ao travesseiro.


BLOCO 2:

11:18 A.M.

Scully, sentada numa poltrona, dentro de um trem. Observa os campos pela janela. Olha pro dia ensolarado, o céu azul. Ajeita os óculos escuros. Afaga a barriga.

SCULLY (OFF): - Lembro de tudo o que passamos juntos. Das vezes que fui teimosa, das vezes que caí, das vezes que eles me levavam e você, como um desesperado, saía atrás de mim. Mulder, você sempre me amou. E vejo que eu não correspondi seu amor. Agora é a hora de mostrar que eu também posso fazer loucuras pra te encontrar... Quando adoeci, você me deu a cura. Quando chorava, você me reconfortava. Penso que eu fiz tão pouco por você. Presa a razão, nunca conseguiria fazer 1/3 das coisas que você fez por mim. Me sinto culpada. Agora entendo a culpa que você carregou por tanto tempo com relação à sua irmã. Assim como você, eu vi eles te levarem e não pude fazer nada. Sei que estão te machucando. Mas Mulder, preciso ter essa criança primeiro, escondê-la e depois voltarei pra te encontrar. Sinto que você concordaria comigo. Eles não podem te matar. E no meu íntimo, sinto que aquele homem, por mais bárbaro que seja, não deixaria que alguém tentasse isso. Se ele me salvou de ser morta naquela estrada, é porque precisava de mim. Aposto que precisa de você também. Você é a verdade, Mulder. Ela está dentro de você.

Scully recosta-se na poltrona.

SCULLY (OFF): - Existem coisas que eu não entendo, me perdoe. Uma delas é como um pai pode ser tão mal pra um filho. Meu pai daria sua vida por mim. No meu conceito, pode parecer uma loucura, mas seu pai está tentando salvar você. Alguma coisa me diz que sim. Acho que seu filho me provoca essa paz, essa fé inabalável, essa força e me faz ver as coisas de uma maneira menos racional, Mulder. Ele me torna mais leve, mais debochada, irônica, sensitiva. Nunca estive grávida pra saber as reações sentimentais que uma mulher pode ter nesse momento. Mas ao conversar com a Meg, percebi que meus sentimentos e minha intuição estão muito além das mulheres grávidas comuns. Posso dizer com certeza que, apesar desse sol todo, em quatro dias irá nevar. Como eu sei? Não sei. Mas vai nevar. Até previsão do tempo eu consigo fazer. E, embora pareça insano, tenho alguns flashes em minha cabeça, onde vejo você numa superfície, algo como uma mesa. Sinto que está com frio, mas não sente dor. Sinto que está fora de seu corpo, que a única dor que sente é a dor espiritual, a dor da traição, a dor de descobrir a verdade e ter a certeza dela. E as coisas que passei, quando me levaram e deixaram Duane Barry... Todas... Todos os detalhes me surgem agora. E me preocupo. Encaixo os fatos todos em minha cabeça e percebo que o que fizeram comigo estão fazendo com você. Se temos uma ligação tão forte, essa criança é o elo da minha alma com a sua. Porque sinto você através dela e sinto a sua angústia.

Scully tira os óculos. Perde o olhar num ponto de fuga.

SCULLY (OFF): - Bonnie Beaver... Irving Sander... Duane Barry... Talvez Cassandra... Teena... Samantha... Betty... Primeiro clonaram humanos usando nossos óvulos. Quantas Emilys existirão ainda? Agora entendo, Mulder. Tudo se encaixa no que vimos. Nos clonaram para criar híbridos humano-alienígenas. Enquanto isso, você já existia, longe dos olhos deles e seu pai sabia. Se escondeu, era pra te proteger. Não há outra explicação. Pra te proteger ele criou tanta violência e até me usou pra isso. Então, Mulder, há alguma coisa a mais nesse velho que você odeia. Sei que ele não é um altruísta, e temo em pensar que ele vê o neto como a cura do câncer dele... Mas eu não sei. Por que ele deixaria que te levassem, se quer te proteger? Talvez por que você falou ao Krycek que era filho dele? Por que descobriram sua real identidade biológica, expondo seu pai?


Residência de Ellen – 2:44 P.M.

Scully parada na porta da casa. Ellen abre a porta, secando as mão num pano de prato.

ELLEN: - (SURPRESA) Não!

Scully sorri. Ellen olha pra barriga de Scully.

ELLEN: - Não duas vezes! O que você andou aprontando?

As duas se abraçam. Ficam abraçadas por segundos.

ELLEN: - Deus, entra aí, tá muito frio. Vamos terminar o abraço lá dentro.

Scully entra. Ellen fecha a porta. Põe a mão no rosto. Olha pra Scully de cima a baixo.

ELLEN: - Dana, quem fez isso com você?

SCULLY: - Sem culpados.

ELLEN: - Puxa, lamento, mas seu afilhado tá na casa do pai dele. Férias da escola e ele fica louquinho pra passar uma semana com o pai. Mas estou fazendo um bolo, vamos correndo pra cozinha porque acho que você tem muita coisa pra me contar!

Ellen vai pra cozinha. Scully tira o sobretudo e pendura no cabide. Vai atrás dela. Ellen puxa uma cadeira.

ELLEN: - Sente aí e comece... Deus, Dana! Há quanto tempo! Achei que tivesse se esquecido de mim.

SCULLY: - Ai, Ellen, não exagera.

ELLEN: - Mas é sério. Há dois ou três natais que você manda o presente do monstrinho pelo correio. São dois anos que eu não sei nada de você. Desapareceu! Se não fosse do FBI, eu já tinha colocado a polícia atrás de você.

SCULLY: - Andei... por aí. Ocupada com o trabalho.

ELLEN: - É, deu pra perceber que anda ‘trabalhando‘ muito.

SCULLY: - (SORRI) Vou pedir seu banheiro emprestado.

ELLEN: - Vai lá, vou fazer um chocolate quente pra nós.

SCULLY: - Menina, eu tenho ido ao banheiro mais de 30 vezes por dia!

ELLEN: - Sei bem como é isso.

Scully sai da cozinha. Ellen sorri.

ELLEN: - (GRITA) Ah, eu quero saber tudo, Dana! Não vai me esconder nada! Quero o nome e sobrenome do responsável por isso!

Ellen coloca água na chaleira. Acende o fogão. Coloca uma luva e verifica o bolo no forno.

ELLEN: - (GRITA) Parece que adivinhou! Estou fazendo bolo de cenoura! Havia meses que eu não fazia um bolo de cenoura. Acho que meu inconsciente estava dizendo: Faz um bolo de cenoura que a sua amiga vai chegar!

Ellen tira o bolo do forno. Scully entra na cozinha.

SCULLY: - Hum, ouvi bolo de cenoura? Não pode me negar uma fatia, ou meu filho nasce de boca aberta.

Scully senta-se. Ellen senta-se também.

ELLEN: - Vai falando. Não vi aliança, então não casou. Algum caso ou foi ‘acidente’?

SCULLY: - Bom, digamos que... não estava nos planos, mas aconteceu.

ELLEN: - Vai dizer que o canalha desapareceu?

SCULLY: - Não... bom... Ah, Ellen, é muito complicado.

ELLEN: - Tenho a tarde toda, a noite toda e sou capaz de pendurar uma placa na porta de ‘não perturbe’ e tirar o telefone do gancho.

SCULLY: - Você não muda mesmo.

ELLEN: - Quantos meses?

SCULLY: - Sete.

ELLEN: - Nossa, tá pertinho! Já sabe o que é?

SCULLY: - Mamãe diz que é menina, porque estou explodindo. Mas eu tenho dúvidas. Acho que é um garoto. Ando comendo feito louca, passei do peso... Engordei quase dez quilos! O médico quer me matar!

ELLEN: - Parecem gêmeos.

SCULLY: - Sabe que se fosse eu adoraria?

ELLEN: - Fez tratamento? Eu não sei porque toda mulher que faz tratamento para engravidar sempre tem gêmeos!

SCULLY: - Não, é um só. Mas é bem grandinho! Puxou ao pai.

ELLEN: - Tá, e o pai?

SCULLY: - ... (SORRI ENIGMÁTICA)

ELLEN: - (PREOCUPADA) Dana... Ele é solteiro?

SCULLY: - Chega de encrencas, Ellen. Segui seus conselhos. Já tive relacionamentos tumultuados, embora esse me pareça tumultuado também.

ELLEN: - E o seu colega, o bonitão, o que achou disso?

SCULLY: - Adorou a ideia.

ELLEN: - Sério? Pra um sujeito bobo, que só pensa em discos voadores...

SCULLY: - Ele é o pai da criança, Ellen.

ELLEN: - (INCRÉDULA) O quê? Não... Eu não acredito!

Ellen começa a rir.

ELLEN: - (DEBOCHADA) Então ele não pensa só em discos voadores... nem é tão bobo assim...

SCULLY: - (CONSTRANGIDA) Ô, Ellen, me dá um tempo, tá?

ELLEN: - Bom, ele não deu tempo algum... Menino rápido, hein? O que ele fez? Aposto que levou você pra um lugar deserto, mandou você ficar olhando pro céu como uma tonta, procurando discos voadores, enquanto ele voava pra cima de você!

SCULLY: - (RINDO) Ellen!

ELLEN: - Na verdade, você nem imaginava que veria era um foguete supersônico...

SCULLY: - Ellen, pára! Como você é maldosa!

ELLEN: - É grande?

SCULLY: - O quê?

ELLEN: - (RINDO) O foguete?

SCULLY: - (VERMELHA) Ellen!!!

ELLEN: - Dana, mas ele não era um ‘bobo’?

SCULLY: - As coisas mudam... Hum... Ellen, eu amo aquele bobo.

As duas se abraçam.

ELLEN: - Dana, estou... (DERRUBA LÁGRIMAS DE FELICIDADE) ... tão... feliz!

SCULLY: - Ô, Ellen...

ELLEN: - Me desculpe, é que te ver assim... Puxa, você realizou um sonho... Ele é legal pra você?

SCULLY: - Ele é maravilhoso. Ele é um sonho... é um doce de pessoa.

ELLEN: - E os discos voadores?

SCULLY: - Nossas divergências são no trabalho. E nem são tão grandes assim. Não mais.

ELLEN: - Puxa vida! Estamos falando daquele sujeito que há anos atrás você dizia que era bonitão, mas era um bobo?

SCULLY: - (SORRI)

ELLEN: - É, as coisas mudam mesmo... Pra quem dizia ‘Deus me livre dessa praga’, você agarrou rápido demais.

SCULLY: - Rápido? Se acha que isso foi rápido, imagina se eu demorasse!

ELLEN: - E o ciúme? Dana, eu te conheço.

SCULLY: - Continuo uma ciumenta incurável. Mas se conhecesse ele, teria ciúmes também.

ELLEN: - Puxa, por que não o trouxe?

Scully abaixa a cabeça.

ELLEN: - Dana, algum problema?

Scully começa a chorar. Ellen agacha-se ao lado dela. Scully se abraça em Ellen.


4:19 P.M.

Ellen e Scully sentadas no sofá. Scully com os olhos vermelhos, a cabeça no ombro da amiga.

ELLEN: - (TRISTE) ... Dana, nem sei o que dizer...

SCULLY: - ... (SECA AS LÁGRIMAS)

ELLEN: - Não... Deus, se ouvisse isso da boca de outra pessoa, eu chamaria um psiquiatra...

SCULLY: - Parece loucura, eu sei... Ellen, eu precisava muito contar essas coisas pra alguém. Sabe que nem tudo se pode falar pra mãe da gente.

ELLEN: - Fico feliz que ainda confie em mim, Dana. Eu quero que saiba que estou aqui e se precisar de ajuda, sabe que pode bater naquela porta.

SCULLY: - No momento, tudo o que preciso é encontrá-lo.

ELLEN: - E seu filho?

SCULLY: - ... Não sei, Ellen. Eu não sei o que vai acontecer, mas... eu quero evitar.

Ellen levanta-se. Olha pra Scully. Estende as mãos pra ela.

ELLEN: - Dana, vamos fazer uma coisa? Uma coisa que desde a adolescência a gente não faz?

SCULLY: - O quê?

ELLEN: - Que tal você relaxar, esquecer esses problemas e me falar do seu novo namorado? Do quanto você gosta dele? Se lembra que a gente ficava falando dos garotos que estávamos a fim?

Scully sorri. Dá as mãos pra ela. Levanta-se.

SCULLY: - Tá saindo com alguém?

ELLEN: - (DEBOCHADA) Não. Mas se conhecer algum, interessante e disponível... Tarado e bem dotado...

Scully ri. Ellen a puxa pelas mãos.

ELLEN: - Vamos lá pra cima, amiga. A gente senta na cama, põe uma música e fica divagando. Que tal?

SCULLY: - (SORRI) Hum... Quer saber mesmo o quanto ele é maravilhoso?

ELLEN: - Claro que quero! Quero saber o que ele tem de especial que conseguiu carregar a minha amiga e deixá-la com os olhos brilhando...

As duas sobem as escadas de mãos dadas, Ellen puxando Scully.

ELLEN: - Vem, sua louca! E eu quero os detalhes! Os detalhes!


7:12 P.M.

Scully e Ellen sentadas na cama. De pijamas. Bagunça total pelo quarto. Scully segura um urso de pelúcia e Ellen comendo biscoitos.

ELLEN: - Sério? Dana, você é sortuda! Casamento na beira de uma lagoa? (SUSPIRA) Ele tem um irmão que você possa me apresentar? Um primo? Até um tio em Idaho serve!

SCULLY: - (RI) Não.

ELLEN: - Oh, desgraça! Quer dizer que você agarrou o único exemplar da espécie?

SCULLY: - Viu quando eu te falava que valia a pena esperar? Que o cara certo aparece um dia?

ELLEN: - Desculpe, mas eu sempre fui afobadinha! Agora tô mais calma. A idade vai acalmando a gente... Mas ainda tô procurando o cara certo.

SCULLY: - No lugar certo?

ELLEN: -... Pra dizer a verdade, estou esperando que ele bata na minha porta.

SCULLY: - Sério? Não tem saído, marcado encontros?

ELLEN: - Não. De que jeito? Tenho um filho, trabalho...

SCULLY: - E os homens que trabalham com você?

ELLEN: - São uns bobos!

SCULLY: - Olha que eu também comecei assim!

As duas riem.

ELLEN: - Não, eles são bobos mesmo. Os mais interessantes são casados... Não, homens casados não dá certo. Não quero ser a outra. Tive uma ‘outra’ por aqui que levou meu marido. Não quero tirar o marido de ninguém.

SCULLY: - Ele não servia pra você. Pense que pelo menos foram felizes e que têm um filho maravilhoso.

ELLEN: - ... Tento pensar assim. Tento pensar que nós dois não éramos aquilo que chamam de almas gêmeas. E que a minha alma gêmea deve estar por aí me procurando também. Mas eu vou esperá-lo bater na minha porta. Ainda tô muito machucada pra me envolver. Quem sabe não será o jornaleiro, um vendedor de livros? Quem sabe não vai ligar pra mim e pedir desculpas, dizendo que foi engano? Ou tentar me vender carpetes pelo telefone?

SCULLY: - Nunca se sabe.

O telefone toca. As duas se olham. Começam a rir, bobas, como duas adolescentes.

ELLEN: - Deve ser ele, o meu príncipe encantado!

Ellen ajeita o cabelo, pigarreia e atende o telefone, olhando pra Scully. Faz charme. Scully ri.

ELLEN: - (SENSUAL) Alô? Você ligou para Ellen. Divorciada, 36 anos, carinhosa, sabe cozinhar e passar... (ENVERGONHADA) Sim. Só um momento.

Ellen tapa o telefone. Faz uma cara de quem deu furo.

ELLEN: - Um tal de Skinner!

SCULLY: - (RI) Tá vendo? Quem manda ficar dizendo besteira no telefone? Pensei que tinha perdido essa mania.

ELLEN: - (DEBOCHADA) Algumas coisas a gente não perde. Virgindade não é uma delas.

Scully atende o telefone.

SCULLY: - Senhor? Alguma novidade?

Ellen fica olhando pra Scully.

SCULLY: - ... Não, eu acho que ficarei uns dois dias por aqui... Sim, deixei o celular em casa... Tá. Eu... Entendo. Agradeço sua preocupação. Obrigado.

Scully desliga. Ellen olha pra ela.

ELLEN: - Então? Notícias sobre o Mulder?

SCULLY: - Nada. Nenhuma novidade. Eu tomei a liberdade de dar seu número pra ele, deixei meu celular... Ele está preocupado, ligou só pra saber se estou bem.

ELLEN: - Ele é solteiro?

SCULLY: - (RINDO) Divorciado.

ELLEN: - Filhos?

SCULLY: - Não. Mas sempre quis ter filhos... Acho que será um bom pai.

ELLEN: - Hum... Acho que tenho que ir pra Washington...

As duas começam a rir.

SCULLY: - Ele é bem interessante. Bonito. Charmoso. Sério. Humano. Elegante. Amigo. Tem um porte físico bem atraente... Faz boxe, musculação...

ELLEN: - Casaria na beira da praia?

SCULLY: - Olha, acho que casaria. Na verdade, acho que ele só espera a mulher certa pra ficar louco.

ELLEN: - Dana, me apresente!!! Me apresente!!!

As duas riem.

SCULLY: - Bom, ele é amigo do Mulder. Você é minha amiga. Seria bem interessante.

ELLEN: - A voz é maravilhosa... Adoraria ouvir aquela voz na madrugada... Hum, acho tentador me chamar Ellen Skinner.

SCULLY: - (PENSATIVA) Interessante. Sabia que foi ele que nos uniu? Acho que eu poderia agradecê-lo, lhe apresentando minha melhor amiga...

ELLEN: - Juro que não vou te decepcionar.

As duas voltam a rir.


BLOCO 3:

8:33 A.M.

Scully entra na cozinha. Ellen olha pra ela, debochada.

ELLEN: - Ia te levar café na cama. Mas fiquei meio preocupada, você poderia me confundir com o Mulder...

SCULLY: - (RI) Amiga, acho que vou caminhar um pouco.

ELLEN: - Quer companhia?

SCULLY: - Não. Preciso pensar.

ELLEN: - Tá. Olha, tem um lugar lindo, perto daqui, a uns 10 minutos de carro. Siga a avenida principal. No final, perto da rodovia, dobre à esquerda. Vai ver de longe, tem uma ponte. Não vai se perder. É um campo florido, lindo. Gosto de ir lá quando preciso pensar.

Scully sorri. Veste o sobretudo e sai. Ellen olha pela janela, a acompanhando.

ELLEN: - Pobre Dana... Por que relacionamentos sempre foram difíceis pra ela?


9:11 A.M.

[Som: Eden - Sarah Brightman]

Câmera de aproximação alta (acompanhando o ritmo da música): do céu azul, cheio de nuvens, descendo para a terra, passando por sobre árvores, até um imenso campo florido, com capim alto e bem verde, e pela ponte branca, onde está Scully, escorada na amurada. Dando voltas sobre ela e afastando-se. (algo como a simulação do voo de um pássaro).

Câmera baixa, aproximando-se de Scully sobre a ponte.

[Início da letra da música]

Corta para Scully, parada sobre a ponte. Apoiada com os braços na amurada, ela inclina a cabeça para trás, fechando os olhos e aspirando a brisa, que faz seus cabelos mais longos, o casaco e o vestido voarem para trás. Ela parece estar numa sintonia única com o momento.

Scully olha pro riacho de águas claras. Tira uma moeda do bolso e atira na água. Fecha os olhos, como se fizesse um pedido. Slow motion da moeda caindo até a água. A moeda afunda, caindo sobre as pedras. Scully olha pra água. Ergue a cabeça, olha pro céu azulado. As nuvens passam bem devagar. Scully fica admirando os pássaros que voam. Uma brisa suave sopra por seus cabelos novamente. Scully fecha os olhos, aspirando o perfume das flores. Admira a paisagem, enquanto afaga sua barriga de pouco mais de sete meses.

[Apenas o instrumental da música]

SCULLY (OFF): - ... Eu poderia falar todas as línguas que se falam na terra e até no céu, mas, se não tivesse amor, as minhas palavras seriam como o barulho do gongo ou o som do sino... Poderia ter o dom de anunciar mensagens de Deus, ter todo o conhecimento, entender todos os segredos e ter toda a fé necessária para tirar as montanhas dos seus lugares; mas, se não tivesse amor, eu não seria nada. Poderia dar tudo o que tenho e até entregar o meu corpo para ser queimado; mas, se eu não tivesse amor, isso não me adiantaria nada. O amor é paciente e bondoso. O amor não é ciumento, nem orgulhoso, nem vaidoso. Não é grosseiro, nem egoísta. Não se irrita, nem fica magoado. O amor não se alegra quando alguém faz alguma coisa errada, mas se alegra quando alguém faz o que é certo. O amor nunca desanima, porém suporta tudo com fé, esperança e paciência.

O vento sopra pelos cabelos dela.

SCULLY (OFF): - O amor é eterno. Há mensagens espirituais, mas durarão pouco. Existem dons de falar em línguas estranhas, mas acabarão logo. Há conhecimento, mas terminará também. Pois os nossos dons de conhecimento e as nossas mensagens espirituais existem somente em parte. Mas, quando vier o que é perfeito, então o que existe em parte desaparecerá... Quando eu era criança, a minha maneira de falar, de sentir e de pensar era de criança. Agora que já sou adulta, não tenho mais essas maneiras de criança. O que agora vemos é como uma imagem confusa num espelho, mas depois veremos face a face. Agora conheço somente em parte, mas depois conhecerei completamente, assim como sou conhecida por Deus. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor. Porém o maior desses é o amor.

Um menino, de uns 10 anos, aproxima-se. Cabelos dourados e até os ombros, olhos castanhos escuros bem reluzentes, cara de moleque. Veste uma jaqueta, calça jeans e tênis cano alto. Usa uma mochila nas costas.

MENINO: - Oi!

Scully vira-se pra ele, notando sua presença.

SCULLY: - (SURPRESA) Olá!

MENINO: - Nunca vi você por aqui.

SCULLY: - Hum, sua mãe sabe que fala com estranhos?

MENINO: - Você me parece inofensiva.

SCULLY: - E se não fosse?

MENINO: - É nova na cidade?

SCULLY: - Só estou de passagem.

MENINO: - Como a ponte?

SCULLY: - ?

MENINO: - A ponte é uma passagem, não é? Ela liga um lado do riacho ao outro lado. Sua passagem liga um lado a outro da sua vida?

Scully sorri pra ele.

SCULLY: - Você é bem espertinho.

MENINO: - Já tenho idade pra ser bem espertinho.

O menino sobe na amurada da ponte fica debruçado, olhando pro riacho.

MENINO: - Vi você jogar a moeda na água.

SCULLY: - Hum, nunca jogou?

MENINO: - Acredita realmente que se jogar uma moeda nesse riacho e fazer um pedido, o pedido vai ser atendido?

SCULLY: - Quem sabe?

MENINO: - Ah, isso é besteira! Minha mãe sempre diz que nada se consegue de graça. Desejar é o primeiro passo, mas tem que conquistar para ter o que se quer. Desejo é uma coisa, conquista é outra. E sabedoria para manter o que se conquistou, é outra coisa bem diferente.

SCULLY: - Sua mãe é muito inteligente.

MENINO: - O que não posso dizer de você. Acabou de perder cinquenta centavos aí dentro.

Scully sorri.

SCULLY: - Qual é o seu nome?

MENINO: - As pessoas me chamam de Sore.

SCULLY: - Sore? Mágoa, dor? Por quê?

MENINO: - Talvez porque eu gosto de brincar aqui e as pessoas geralmente vêm aqui só pra chorar. Não sei como podem sentir dor num lugar como esse.

SCULLY: - Mora aqui perto?

MENINO: - Do outro lado do campo.

SCULLY: - E por que não está estudando? Vejo a mochila nas suas costas... Gazeando aula, é?

MENINO: - Não. Estou de férias. Carrego minha mochila sempre, nunca se sabe quem vai encontrar pelo caminho pra brincar com você. Carrego meus brinquedos. Mas eu sou um bom aluno, tá?

SCULLY: - Pelas palavras que usa, diria que é inteligente e lê bons livros. Aposto que sua mãe deve ser uma mulher muito culta.

MENINO: - (EMOCIONADO) Minha mãe é uma das melhores mães do mundo. Ela é o amor em pessoa!

SCULLY: - (IMPRESSIONADA) Puxa, que elogio mais lindo pra uma mãe ouvir.

MENINO: - (CURIOSO) Você tá grávida, né? Falta muito?

SCULLY: - Hum, pouco menos de dois meses.

MENINO: - Que nome vai dar?

SCULLY: - Não sei ainda.

MENINO: - Não chame de Bob. Todo mundo que conheço se chama Bob e são todos uns encrenqueiros. Nem Pamela. As Pamelas são loucas.

Scully sorri. O menino se balança, apoiado na amurada, batendo os tênis na madeira.

SCULLY: - Não quer atirar uma moeda?

MENINO: - Não... Onde está seu marido?

SCULLY: - ... Ele viajou.

MENINO: - Pra muito longe?

Scully olha pro céu.

SCULLY: - (TRISTE) Pra bem longe.

MENINO: - E ele vai voltar?

SCULLY: - Um dia, quem sabe.

MENINO: - Aposto que vai voltar. Vai voltar bem rápido pra você.

SCULLY: - Hum, por acaso você é adivinho?

MENINO: - Não. Você é uma mulher bonita. Ele não é bobo.

Scully sorri.

SCULLY: - Ora, obrigado.

MENINO: - Aposto que ele só pensa em você. E aposto mais ainda, que ele só aguenta tudo o que está passando por que te ama.

SCULLY: - ? Como assim?

Scully fica olhando pro garoto.

MENINO: - Qual seu nome?

SCULLY: - Dana.

MENINO: - Dana... Eu tenho uma amiga chamada Dana, que mora do outro lado da cidade... Ela é tão bonita! Acho que gosto dela. Shi, preciso ir. Ou minha mãe me põe de castigo!

O menino desce da amurada. Corre pro campo. Scully fica olhando pra ele.


Residência de Ellen – 7:13 P.M.

Scully olha pra Ellen, falando de boca cheia.

SCULLY: - Você ainda colabora comigo! Vou chegar a cem quilos se ficar aqui mais um dia!

ELLEN: - Gostou do jantar?

SCULLY: - Hum... adoro esse suflê que você faz! Me dá a receita.

ELLEN: - Segredo! Esse eu só vou fazer de novo quando me apresentar o Skinner. Se não... (RI COMO BRUXA) ... não terá a receita!

As duas riem.

SCULLY: - Sabe que encontrei um garotinho esquisito hoje?

ELLEN: - Onde?

SCULLY: - Na ponte.

ELLEN: - Sempre tem garotinhos esquisitos por lá. As crianças adoram brincar por ali, caçar sapos, colher flores, andar de bicicleta. Há espaço pra isso. Seu afilhado vive por lá também.

SCULLY: - Conhece algum deles que tenha o apelido de Sore?

ELLEN: - ... Não me lembro. Conheço eles, mas não sei os nomes ou os ‘nomes de guerra’ de todos. Tem o Mun-há, que é um garoto jamaicano, com aquelas tranças... Tem o Pikachú, o Bolão, o Crazy Dog... o seu afilhado por exemplo é o Cavernoso.

SCULLY: - (RINDO/ INCRÉDULA) Cavernoso?

ELLEN: - Sim, porque ele adora contar histórias grotescas e assar marshmallows.

SCULLY: - Acho que então ele é afilhado do Mulder.

ELLEN: - Por que o chama pelo sobrenome? Não acha que isso distancia um pouco?

SCULLY: - Não sei chamá-lo pelo nome, além do fato de que ele odeia o nome. Me parece que Fox e Mulder são duas pessoas diferentes. Mulder é mais íntimo.

Ellen levanta-se. Scully a ajuda com a louça.

ELLEN: - E como foi pra você? Dana, fico pensando o quanto é difícil quando isso acontece entre dois amigos. Aposto que não foi fácil.

SCULLY: - Não. Pra ele foi mais perturbador. Mulder é uma pessoa cheia de problemas, Ellen. Ele carrega mais tabus e estigmas do que eu.

ELLEN: - (DEBOCHADA) Nossa! Como isso aconteceu então?

SCULLY: - (SORRINDO) Aos poucos. Aos passos. Depois foi amadurecendo. Sinto que nesses dois anos, a cada dia, nós dois nos descobrimos melhor. No início ninguém sabia de nada. Escondemos isso de todos por um bom tempo, pra não chamar a atenção. Depois os amigos dele descobriram... Mas ainda assim, temos de ser sigilosos no FBI, esconder isso das pessoas... Já tentaram usar nosso relacionamento contra nós. Sabe que existem regras.

ELLEN: - Deve ser difícil ficar escondendo isso.

SCULLY: - No início me parecia um pesadelo. Depois a gente relaxou. Até demais, sabe? Depois tivemos de ficar escondidos de novo pra não chamar a atenção... Não é um romance, Ellen. Parece mais uma aventura. Não pelo sentimento, mas pela situação.

Ellen prepara um chá.

ELLEN: - E ele tá feliz com esse filho?

SCULLY: - Tá. Com tudo o que aconteceu, foi um choque no início. Mas aos poucos ele foi ficando mais e mais feliz por termos um filho. Sinto falta dele, Ellen. Não sei mais ficar sem o Mulder. Quero viver a vida toda do lado dele e quero morrer do lado dele. Porque se ele morrer, eu acho que morrerei de desgosto.

ELLEN: - ...

SCULLY: - Nunca senti isso, não dessa maneira. É mais forte do que eu. Temos algo tão bonito. Aprendemos um com o outro. Aos poucos vamos nos soltando, como duas pessoas que se descobrem. E sempre há algo mais a descobrir.

ELLEN: - Como assim?

Scully senta-se.

SCULLY: - Sei lá, Ellen. Sexo, por exemplo. No início era um medo enorme. Eu ficava maluca só pra ver se causava sensação de liberdade pra ele. Só eu o procurava. Aos poucos ele começou a ceder. Acho que agora, não há mais essa neurose entre a gente. Esse medo.

ELLEN: - Não deveria haver, Dana. Tudo bem que eram amigos, mas vocês tinham a certeza de que se amavam. Isso já não dava confiança o suficiente pra se entregarem?

SCULLY: - Dava confiança, Ellen. Confiança, segurança... Mas dava medo também. Acho que era vergonha. Sei lá. Uma coisa comum em envolvimentos entre adolescentes e não adultos. Mas isso fazia parte de nós dois. Era como se aquilo precisasse ser feito passo a passo, entende? Se tínhamos algo mais forte, o sexo era só um complemento que podia esperar. Descobri que eu e Mulder somos mais adolescentes do que pensávamos.

ELLEN: - Me parece mais uma definição de romance utópico. Daqueles filmes antigos, onde tudo era amor, todas as barreiras se superavam e no final, aí sim, os apaixonados iam pra cama. Isso é uma coisa feminina. Mulheres sempre querem a conquista, depois o sexo. Mas eu não aguentaria essa situação!

SCULLY: - Ele já havia me conquistado. Havia espaço pra isso. Mas ambos sabíamos que era tão forte que precisava ser aos poucos, Ellen. Além do que Mulder tem uma alma feminina. (SORRI) Ás vezes brinco com ele, dizendo que ele é mais mulher do que eu. Eu sou um pouco mais ‘pele’. Ele é pele, mas é mais coração. Muito esquisito pra um homem, eu sei. Mas isso é uma das coisas que me fizeram ficar mais apaixonada por ele. E de pensar que eu achava ele um conquistador inveterado. Se eu sou racional no trabalho, ele é racional no amor.

Ellen serve o chá. Senta-se.

ELLEN: - Sério?

SCULLY: - Pra ele tudo é conquistado aos poucos. Tudo tem de ser perfeito. Ele se entrega de corpo e alma. E ele é cheio de neuroses que eu listaria por dois dias. Teve más experiências. Acho que isso o deixou meio inseguro.

ELLEN: - Bom, até agora você só me deu as qualidades!

SCULLY: - (RINDO) Não, ele tem defeitos. Muitos defeitos. Alguns porque ele desconhece... Por exemplo, eu brigava com ele pela bagunça. Então percebi que ele era bagunceiro porque nunca ensinaram coisas pra ele.

ELLEN: - Tipo...

SCULLY: - Colocar o sanduíche num prato.

ELLEN: - Ah!

SCULLY: - Ele limpava os farelos, então eu, com a maior paciência dizia: Mulder, não é mais fácil pegar um prato?

Ellen ri. Scully ri com ela.

SCULLY: - Ciumento. Mulder diz que não é ciumento, mas ele é. Não tanto quanto eu. ... Explosivo. Tem mania de descontar a raiva nos móveis... Desatento... Hum... Impulsivo demais... Invocado. Mulder é muito invocado. Quando fica furioso, sai da frente. Já aprendi que posso discutir com ele por meses, que ele fica quieto. Mas sei que um dia, ele sai fora de si e me devolve o troco.

ELLEN: - ... Mas qual o pior defeito do ‘bobo’?

SCULLY: - ... (CULPADA) O pior defeito que ele tem é o costume de me poupar dos sofrimentos, carregando tudo sozinho, quieto, dentro de si.

ELLEN: - ... Acha isso um defeito?

SCULLY: - ... Acho que isso é um ato de amor puro. Mas causa muita dor pra ele. Se dividimos a felicidade, penso que deveríamos dividir a tristeza... Mas até ele sabe que os homens desmoronam... (SORRI) O que eu mais gosto nele é quando ele desmorona.

ELLEN: - Credo!

SCULLY: - Não, por favor, não que eu fique feliz com isso! Na verdade, eu me sinto forte, me sinto importante pra ele. Porque sei que ele chora no meu ombro e que não tem vergonha disso. É onde eu cometo um ato de amor puro.

ELLEN: - Acho que encontrou um bom marido...

SCULLY: - Marido? A gente brinca com isso, Ellen. Na verdade, não conseguimos achar um termo pra definir nossa relação. O dia todo somos parceiros, de noite somos amantes. Finais de semana somos um casal. Sei lá. Amigos, parceiros, amantes, companheiros... Não dá pra resumir numa palavra.

ELLEN: - Se eu tivesse que resumir o que tive com meu marido, seria casamento. Só. No sentido mais comum da palavra. Nós nunca fomos amigos, parceiros... Fomos amantes, mas amigos...

SCULLY: - Ellen, não tentaram se reconciliar? Muitas vezes a falta de diálogo franco e aberto dificulta as coisas.

ELLEN: - Ele não era um Mulder, Dana, que senta na sua frente e abre o jogo... Nossas vidas e experiências também eram diferentes, mas ele não queria compartilhar. Não vou jogar a culpa toda nele, porque quando um casamento acaba, a culpa é dos dois. Mas estávamos no estágio de que conversar era algo impossível. Tentamos salvar um relacionamento tarde demais. A conversa não era habitual. Depois de tantos anos, isso se torna difícil de virar hábito.

SCULLY: - ...

ELLEN: - Acho que ambos erramos. Ele chegava estressado do trabalho e eu estava estressada de casa e filho. Ele queria conversar sobre seus problemas no trabalho e eu sobre meus problemas com a casa. Um não ouvia o outro, mas ambos falavam seus problemas. Ele sentiu que não tinha uma parceira e eu senti que não tinha um companheiro. Então ele achou alguém com quem pudesse conversar. E eu achei um emprego e colegas pra dividir meus anseios. Então chegávamos os dois estressados e cansados e nada havia pra ser dito. Precisávamos dar atenção ao nosso filho.

SCULLY: - ...

ELLEN: - Muitas vezes eu o pegava sentado no jardim, no meio da madrugada. Chorando. E eu chorava porque ele não me ouvia. Na verdade, havia um certo egoísmo no ar. Então ele foi embora com aquela mulher. Me deixou a casa, o carro... Foi morar com ela.

Scully sente pena de Ellen.

ELLEN: - Não a culpo. Ela deu ouvidos à ele, coisa que eu nunca fiz. Talvez ela seja mais mulher do que eu. Ela cuida da casa, mas tem tempo pra ele. Eu não conseguia as duas coisas. Mas encaro assim: ele também não era a pessoa certa pra mim. Conheço maridos que chegam em casa e escutam suas esposas, levam café da manhã na cama aos sábados e saem pelo menos uma vez por semana pra irem juntos ao cinema, ao restaurante preferido... Ou até nem saem, mas fazem coisas juntos. Tipo cozinhar, conversar, ver TV...

SCULLY: - ...

ELLEN: - Acho que não fui premiada, amiga. Mas isso não significa que ainda não vou ter alguém legal do meu lado. Eu quero ter. Só estou dando um tempo pra esse coração assustado.

SCULLY: - Ellen, não dê tempo demais. E não procure demais. Conselho dessa sua amiga aqui. Algumas vezes, ele está do seu lado, mas você finge que não vê porque tem medo de que seja ele mesmo. E ele nunca é aquilo que você queria, o perfeito. Ele pode ser feio e ser maravilhoso, pode ser bonito e ser insensível. Pode ser companheiro e ser um desastre na cozinha!

As duas riem.

ELLEN: - É, Dana. Mas se ele me ouvir, pouco me importa se seja um desastre na cozinha, feio, pobre ou impotente! A gente sabe que sexo faz parte da vida e que é muito bom. Mas a gente sabe que o sentimento e a cumplicidade são maiores que tudo. O amor... o resto, é conseqüência.

SCULLY: - Sabe qual é o nosso defeito? Ambas acreditamos naquele amor que as pessoas dizem existir. Aquele amor perfeito, eterno... Ah, sei lá. Mas eu acho que encontrei um amor de verdade.

ELLEN: - O cupido te flechou, amiga. E foi certeiro.

SCULLY: - É, ele me flechou. Mas vai flechar você. Talvez esteja só dando um tempo, até achar o coração masculino certo para flechar também.

ELLEN: - Cupido... Que bom se cupidos existissem.


BLOCO 4:

4:56 P.M.

Scully sentada numa pedra, na ribanceira ao lado da ponte.

Fade out.


FLASH BACK: Ela lembra de Mulder a abraçando por trás, naquela cabana, enquanto olhavam pela janela.

MULDER: - (SÉRIO) Sabe que andei falando com esse cara aí e ele me disse que você é muito mais do que ele merece. Ele se pergunta se é digno de ter uma criatura tão meiga, tão singela, tão cúmplice perto dele. Ele não se acha à altura dela, figurativamente...

SCULLY: - (SORRINDO) Hum... Fala mais o que esse cara pensa, Mulder.

MULDER: - Ele acredita que tirou o bilhete premiado da vida. Ele sabe que não é uma pessoa fácil de amar, que tem mais defeitos do que qualidades, sabe que é um estúpido e que se afunda numa jornada onde, quase sempre, coloca sua busca em primeiro lugar. Ele sabe que não diz coisas bonitas pra ela, mas ele quer aprender a dizer isso. Ele quer aprender a amá-la. Ele se pega olhando pra ela, estudando-a... Ele quer saber tudo sobre ela. Porque afinal, ela é a engrenagem que o move. Basta ela dizer: levanta e anda. E ele levanta-se e anda. Quando ele cai, o que acontece muitas vezes, quando ele chora, quando ele pensa que a vida é dura pra ele, ela tá ali, secando as lágrimas dele, estendendo suas mãos, tirando-o da lama... Ela o salvou. Ele estava morrendo, mas viu o brilho da vida naqueles olhos azuis.

Ela vira-se pra ele, fazendo um beiço de quem segura o chôro.

SCULLY: - (EMOCIONADA) Mulder... Essa foi a coisa mais linda que você já me disse.

MULDER: - Tô melhorando?

Ela fecha os olhos e sorri.

MULDER: - ... É estranho demonstrar sentimentos, Scully... Mas falar essas coisas pra você me fazem bem... sei lá. Fico mais leve, vejo a vida com outros olhos... menos noir...

SCULLY: - Sol e lua. Somos sol e lua.

MULDER: - Eu poderia me transformar também em sol, se você assim quisesse.

SCULLY: - Não existe luz sem trevas, nem terra sem água, nem vida sem morte. Tudo se completa. Sol e lua se completam. Se completam pra ser um só.

Fade in.


TEMPO REAL:

O menino vem correndo pelo campo, com a mochila nas costas, braços abertos, imitando um avião. Atravessa a ponte. Pára. Scully continua compenetrada.

MENINO: - Oi de novo!

SCULLY: - (SAINDO DOS PENSAMENTOS/ SORRI) Oi!

MENINO: - Ainda tá jogando moedas aí? Você é uma milionária excêntrica?

SCULLY: - (RI) Não. Estou observando os peixinhos.

O menino desce a ribanceira e espia pra dentro do riacho.

MENINO: - É, tem muitos peixinhos aí.

SCULLY: - E você? O que está fazendo?

MENINO: - Brincando.

O menino tira a mochila. Senta-se ao lado de Scully.

MENINO: - Uma vez, meu pai me contou uma história de uma mulher morta que assombrava uma rua. Você não é um fantasma que assombra essa ponte, né?

SCULLY: - (RINDO) Por quê?

MENINO: - Porque tá sempre aqui.

SCULLY: - Gosto daqui. Tem perfume, tem água, flores, peixes. Tem paz.

MENINO: - Qual é o seu signo?

SCULLY: - Peixes.

MENINO: - Peixes? Vou contar a origem da constelação de peixes.

SCULLY: - Hum, tem uma história?

MENINO: - Bem, havia Tífon, um monstro, filho da Mãe Terra e responsável pelos ventos fortes e tufões. Ele era feio, muito feio. Pense no cara mais feio que conhece e multiplique por mil. Dos quadris para baixo ele era formado por serpentes enrodilhadas em seus braços. Argh! Nojento! Os braços eram longos e cobriam léguas! Terminavam em cabeças de serpentes.

SCULLY: - Nossa!

MENINO: - Um dia, Afrodite, ou Vênus, se preferir, saiu com seu filho Cupido. Eles passeavam pelas margens do rio Eufrates quando se depararam com o enraivecido Tífon. Então, pra fugir dele, os dois se disfarçaram de peixes e por isso Zeus criou a constelação de peixes para marcar o episódio.

SCULLY: - Gosta de mitologia?

MENINO: - Eu adoro mitologia. Tiro dez em tudo!

Scully sorri.

SCULLY: - Então por isso a constelação de peixes...

MENINO: - Você olha muito pro céu?

SCULLY: - Algumas vezes.

MENINO: - Puxa, devia comprar aquelas lunetas bem grandes, sabe? Pra poder ver as estrelas. Eu queria ser como o Pequeno Príncipe, que viajava pelos planetas...

SCULLY: - Gosta do Pequeno Príncipe?

MENINO: - Meu livro predileto.

SCULLY: - Também gosto daquele livro.

MENINO: - Você mente.

SCULLY: - Eu? Por quê?

MENINO: - Não engane. Crianças sentem quando os adultos mentem. Você vem aqui por que fica pensando no seu marido. Por que você o ama.

SCULLY: - ...

MENINO: - A coisa da ponte. Li num livro de psicologia. A ponte é o que separa vocês dois, por isso você sente-se bem aqui, na esperança de que ele apareça do outro lado da ponte e que vocês fiquem juntos de novo. Tá no seu inconsciente, mas é isso.

SCULLY: - Olha, Sore, você tem uma boa teoria. Quem sabe, quando crescer, vai ser um agente do FBI?

MENINO: - Por quê? (OS OLHOS BRILHAM) Você é agente do FBI?
SCULLY: - Sou.

MENINO: - Ah, tá brincando!

Scully tira a credencial. Mostra pra ele. O menino a segura nas mãos, olhando com olhos brilhantes.

MENINO: - Uau!!! Você é policial! Já atirou em alguém?

SCULLY: - Hum, isso não é legal.

MENINO: - Não é legal pros bandidos!

Scully passa a mão nos cabelos dele.

SCULLY: - Não vou discutir com você. Já vi que vou perder!

MENINO: - Eu também gosto de atirar. Mas nunca peguei uma arma de fogo de verdade.

SCULLY: - E peça à Deus pra nunca pegar uma. Quando entrei no FBI, sempre pedia pra nunca ter de usar a minha arma contra alguém.

MENINO: - Mas teve de usá-la?

SCULLY: - Infelizmente, Sore. Há pessoas muito malvadas nesse mundo.

MENINO: - Ninguém nasce malvado. O mal não é da natureza humana. As pessoas embrutecem seus corações e aprendem a ser más. Tudo é questão da falta de amor. A falta de amor gera a maldade. Amor dos outros, amor próprio...

SCULLY: - Hum, você é cheio de teorias?

MENINO: - Na verdade, se as pessoas se amassem, tudo seria mais fácil. Não é tão bom a gente amar? Pra odiar alguém requer força extrema. Pra amar é tão fácil.

O menino entrega a credencial pra ela. Scully a guarda. O menino pega umas pedrinhas e começa a jogar na água.

MENINO: - Tenta isso. É divertido.

Scully pega pedrinhas e atira também.

MENINO: - Amanhã, se você vier aqui, traz pedacinhos de pão. Os peixes vem na beirinha comê-los.

SCULLY: - Boa ideia.

MENINO: - Pão salgado. Eles não gostam muito de pães doces. São peixes habituados à vida light.

Scully sorri. O menino pega a mochila e sai correndo. Scully fica o admirando, derrubando lágrimas. Acaricia sua barriga. Olha pro céu.


Residência de Ellen – 1:51 A.M.

As duas deitadas na cama, assistindo TV.

ELLEN: - Antônio Banderas... esse sim valeria a pena.

SCULLY: - Acho aquela carinha de menino tão sexy...

ELLEN: - Você sempre foi tarada por homens com cara de menino.

SCULLY: - (RI)

ELLEN: - Nem precisa dizer.

As duas se olham e falam em coro.

ELLEN e SCULLY: - Mulder é assim!

As duas começam a rir.

ELLEN: - E o Robin? Nunca mais o viu?

SCULLY: - Hum... Ano passado, no meu aniversário surpresa. O Bill o convidou.

ELLEN: - O Bill! Como vai o Bill?

SCULLY: - Casou, tem um garotinho. A esposa dele é fantástica.

ELLEN: - Nem dá pra acreditar! Se o Bill achou alguém, eu também posso!

As duas riem.

ELLEN: - E o Charles? Como vai a namorada dele?

SCULLY: - Namorada, esposa, mulher? Sei lá, aquilo é um rolo só... Um vai e volta sem fim.

ELLEN: - E o menino?

SCULLY: - Ele é quem sofre. Pobrezinho do Will.

ELLEN: - Charles sempre foi bonito. Eu sempre fui doida pelo seu irmão.

SCULLY: - Tá se candidatando? Aposto que ficaria louca se passasse um dia do lado dele.

ELLEN: - Continua esotérico?

SCULLY: - Cada vez mais.

ELLEN: - Bom, como você disse, talvez o príncipe nunca seja perfeito...

SCULLY: - ... Vi aquele garotinho de novo.

ELLEN: - Qual o apelido mesmo?

SCULLY: - Sore.

ELLEN: -... Acho que o conheço. Tem cabelos crespos, louro, bonitinho o danado.

SCULLY: - Isso mesmo.

ELLEN: - Eu o via com os meninos. Mas faz tempo que não o vejo. Não sei onde mora. Ele nem frequenta a mesma escola.

SCULLY: - Olho pra ele e penso no meu filho. Será que vou ser uma boa mãe? Será que vou conseguir ter diálogo com ele?

ELLEN: - Claro que vai, Dana. Você passou na academia do FBI. Eu já te disse que isso é o melhor treino pra uma mãe.

SCULLY: - (RINDO) Eu quero ser uma boa mãe.

ELLEN: - Vai ser.

SCULLY: - Ellen, eu e Mulder convidamos o Skinner para padrinho. Mas estamos sem uma madrinha.

Ellen olha pra ela.

ELLEN: - Está me convidando?

SCULLY: - Quem mais eu convidaria a não ser a única amiga que tive na vida?

ELLEN: - Ô, Dana! Eu fico lisonjeada com isso!

SCULLY: - ...

ELLEN: - (DEBOCHADA) Mas só aceito porque vou ficar do lado desse tal Skinner... Pode ser um começo...


9:24 A.M.

Ellen olha pra Scully, que está do lado de fora, segurando uma mala.

ELLEN: - Tem certeza?

SCULLY: - Preciso ir, amiga. Foi ótimo conversar com você, mas eu tenho de ir.

ELLEN: - Poderia ficar comigo até ter essa criança. Eu cuidaria de vocês.

As duas se abraçam.

ELLEN: - Esperarei sua ligação.

SCULLY: - Ligarei.

ELLEN: - O que falta pro enxoval?

SCULLY: - Quase tudo. Mas não se preocupe com isso. Meu filho não vai ter uma vida muito comum.

Scully olha emocionada pra Ellen.

SCULLY: - Fará isso por mim? Tem certeza de que o que eu pedi não é demais?

ELLEN: - Sabe que eu faria muito mais. Ficar com seu filho até que encontre Mulder é muito pouco que me pede. Você confia muito em mim pra tomar uma atitude dessas, Dana. Então, sei que nossa amizade é muito mais do que foi na adolescência. Somos duas mulheres agora. A vida muda. Mas ainda assim, estamos ligadas uma na outra, mesmo que não nos vejamos sempre.

SCULLY: - Penso em você todos os dias, Ellen.

ELLEN: - Sabe que a vida nos separa, Dana. Mas o amor que temos não. Ele fica no coração. Amizades existem à distância. E nem por isso são menos importantes do que as que ficam por perto.

SCULLY: - Obrigado, amiga.

ELLEN: - Vai conseguir sozinha?

SCULLY: - Eu ligo pra você quando ele estiver pronto pra nascer. Não vou conseguir ter um filho sozinha. Eu... eu confesso, Ellen, estou com medo. (SORRI) Juro que estou com medo.

ELLEN: - Seguro sua mão, Dana. Como segurou na minha. Como me ajudou quando eu estava grávida, com todos aqueles problemas. Você estava ali. Você me ajudou a trazer meu filho ao mundo. Quero ajudá-la também.

As duas se abraçam de novo, em lágrimas. Scully entra no carro. Ellen acena pra ela.

ELLEN: - Boa sorte, Dana! Rezarei por você. Que os anjos te acompanhem.

Scully liga o carro. Acena pra Ellen. Sai. Ellen observa o carro até ele dobrar a esquina. Seca as lágrimas. Entra em casa.

Scully pára o carro perto da ponte. Desce. Procura o menino com os olhos. O menino vem correndo pelo campo florido, atravessa a ponte e olha pra ela, respirando cansado.

MENINO: - Onde vai?

SCULLY: - Preciso ir embora.

MENINO: - Vai voltar?

SCULLY: - Com certeza.

MENINO: - Não trouxe o pão pros peixinhos?

SCULLY: - Me esqueci!

MENINO: - Ah, tudo bem. Eles não estão com tanta fome. A mãe natureza cuida deles.

SCULLY: - Sore, obrigado por ser meu amigo.

Scully estende a mão. O menino toca na barriga de Scully e ela sente o bebê mexer-se. Olha pro menino, surpresa. Ele a abraça, dificultado pelo tamanho da barriga de Scully. Ela o abraça também. Ele a solta.

MENINO: - Sempre serei seu amigo. Você é uma boa moça.

SCULLY: - (SORRI) Diga à sua mãe que ela tem um filho maravilhoso.

MENINO: - Como eu disse, minha mãe é o amor, e ela sabe disso.

SCULLY: - ...

MENINO: - E você tem o amor dentro de você. Então sabe que será muito feliz na sua vida.

SCULLY: - Obrigada.

MENINO: - Você transborda amor e não sabe o quanto. Nunca se esqueça de que o amor vem primeiro. Se não fosse pelo amor, Eros não existiria.

Scully olha pra ele, intrigada. O menino abre a mochila.

MENINO: - Tenho um presente pra você se lembrar de mim. Toda a vez que olhar pra isso, lembre-se de que eu estou com você onde você for.

O menino tira um broche dourado da mochila. Entrega pra Scully. Scully abaixa a cabeça e examina o broche nas mãos.

SCULLY: - É uma flecha... O que significa, Sore?

Scully ergue a cabeça. Não vê o menino. O procura com os olhos. Ele desapareceu. Scully olha pro pequeno broche dourado em forma de flecha.

SCULLY: - Sore... S-O-R-E... E-R-O-S... Eros?

Scully continua olhando pro jardim. Mas não vê o menino. Sorri. Entra no carro.


10:09 A.M.

Scully sentada na poltrona de um trem, olhando pela janela, enquanto acaricia a barriga.

SCULLY (OFF): - Mulder, acho que hoje um Arquivo X me encontrou... Eros ou Cupido... filho de Afrodite, a deusa do amor, que regia o amor que une todas as criaturas vivas e inspira todas as criações da natureza. Cupido era filho do feio e desajeitado Vulcano. Foi concebido para se tornar o deus responsável por reunir os diferentes elementos do universo, possibilitando o desenvolvimento da vida. Segundo a mitologia, havia uma ligação profunda entre Eros e Afrodite. Ele veio para instilar nos mortais e nos deuses, o vírus do amor.

Scully sorri.

SCULLY (OFF): - Por isso ele me disse que era filho do amor. E que o Amor precede Eros. O Amor gerou Eros. Eros é conseqüência do Amor. Então é verdade, Mulder. O que temos é amor. Eros foi conseqüência. Por isso, tudo entre nós é tão lindo e tão profundo. Tão verdadeiro.

Scully recosta-se e fecha os olhos.

SCULLY (OFF): - E agora eu sinto que gero o amor. Sinto que destilo amor. Sinto que eu vou te encontrar, nem que leve a minha vida toda. Porque o amor é mais forte que a morte. Lembro-me do Livro dos Cânticos, que uma vez nós dois lemos um para o outro...

Scully olha os campos pela janela. Recita em pensamento os versos bíblicos.

SCULLY (OFF): - ... Como a macieira entre as árvores da floresta, assim é o meu amado entre os outros homens. Eu me sinto feliz nos seus braços, e os seus carinhos são doces para mim... O meu querido é meu, e eu sou dele... Noites e noites, na minha cama, procurei o meu amado; procurei, porém não o encontrei. Então me levantei e andei por toda a cidade, pelas ruas e pelas praças. Eu procurei o meu amado; procurei, mas não o pude achar. Os guardas que patrulham a cidade me encontraram, e eu perguntei: ’Vocês viram o meu amado?’ E, logo que saí de perto deles, eu o encontrei... Grave meu nome no seu coração e no anel que está no seu dedo. O amor é tão poderoso como a morte; e a paixão é tão forte como a sepultura. O amor e a paixão explodem em chamas e queimam como fogo furioso. Nenhuma quantidade de água pode apagar o amor, e nenhum rio pode afogá-lo. Se alguém quisesse comprar o amor e por ele oferecesse as suas riquezas, receberia somente o desprezo.

Scully fecha os olhos. Afaga a barriga com carinho. Abre os olhos e vê a paisagem pela janela do trem.

X

18/06/2000

6 de Agosto de 2019 às 17:14 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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