S03#15 - SENTINELLE'S PICTURES Seguir história

lara-one Lara One

Nossos agentes são designados para investigar o desaparecimento de um quadro. Mas seria apenas uma obra de arte? Até onde nossa mente viaja quando observamos uma pintura abstrata? Pode ela nos levar ao caminho que nunca tomamos em nossa vida?


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S03#15 - SENTINELLE'S PICTURES

INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Museu Maitland – Orlando – Flórida – 11:29 P.M.

Vários homens fortões. Uns carregam quadros, outros os penduram na parede. Tracy, o organizador da exposição, vestido num terno bem folgado e cor-de-rosa, com echarpe roxa, orienta os homens que circulam por ali.

TRACY : - Não, não, não! Tomem cuidado com isso, seus insensíveis brutamontes!

Um deles quase deixa um quadro cair.

TRACY : - Ah, meu Deus, que horror! Quebre isso e eu quebro o resto na sua cabeça!

Eles continuam nos seus afazeres. Um sujeito aproxima-se de Tracy.

DARYL: - O que foi?

TRACY : - Estou e-s-t-a-r-r-e-c-i-d-a! Como pôde contratar esse bando de insensíveis pra uma coleção tão rara quanto esta? Insensíveis, porém, vitaminados.

DARYL: - Relaxe, Tracy. Eles são profissionais.

TRACY : - Profissionais? Só se forem profissionais de outras coisas, simpático, porque até agora só me deram convulsões!

DARYL: - Acha que vai atrair o público?

TRACY : - Claro que vai. Mas me lembre de que, na próxima vez em que ‘eu’ conseguir trazer uma exposição dessas de Paris pra cá, que ‘eu’ não traga para o seu museu! Deveria ter exposto os quadros dentro da Disney, pra crianças melequentas de sorvete. Seria menos perigoso!

DARYL: - Acho as pinturas fantásticas. Nunca vi nada igual, são realistas, intrigantes...

TRACY : - Isto é o abstrato, meu querido. Isto é arte. Você olha pra eles e pode interpretar o que quiser. É como admirar um Salvador Dali. É como admirar a inconstância humana, os elementos intrigantes e distorcidos das nossas fantasias, nossos sonhos... (SUSPIRA) Isto é arte. Realmente é.

Dois dos homens entram com um quadro enorme. Tracy olha pra eles.

TRACY : - Tomem cuidado! Essa é a peça fundamental da exposição. É o elemento principal. Podemos dizer que é a chamada da exposição!

Daryl olha pro quadro, que está sendo pendurado na parede. O quadro vai do chão até quase o teto.

DARYL: - O que é isso?

Close do quadro. Há uma porta pintada em tamanho natural, semi-aberta, flutuando num fundo escuro. A porta parece ser muito pesada e da fresta aberta brota uma luz dourada, não revelando o que há atrás dela. Os homens saem. Tracy olha pra Daryl.

TRACY : - Ah, deixe tudo como está que eu mesma vou arrumar isso daqui amanhã. Está um horror! Vai é espantar o público!

Os dois saem. Daryl desliga as luzes e fecha a porta. Ouve-se o barulho das chaves trancando-a.

[O silêncio dentro da sala é enorme. Até que o som do ranger de uma porta abrindo-se é ouvido.]

[A escuridão só é interrompida por uma luz dourada que sai do quadro e toma parte da sala.]

VINHETA DE ABERTURA


BLOCO 1:

Apartamento de Scully – 8:33 A.M.

Scully acorda-se. Olha pra cama vazia. Vê um bilhete sobre o travesseiro. Pega-o. Lê.

MULDER (OFF): - Depois do desmaio de ontem no corredor do FBI, acho melhor você descansar hoje, por isso não te acordei. Se acontecer algo interessante eu ligo. Acho que hoje é dia de tirar pó aqui no porão... Fique longe de encrencas. Te amo. Mulder.

Scully larga o bilhete, sorri. Levanta-se, veste um robe e vai pra sala, com os cabelos todos desgrenhados. Vê Frohike na cozinha, fazendo café.

SCULLY: - (CURIOSA) O que está fazendo no meu apartamento?

FROHIKE: - Tomando conta de você.

SCULLY: - E desde quando eu preciso de babá?

FROHIKE: - Mulder me pediu pra não deixar você sozinha. Vamos nos revezar.

SCULLY: - E se Mulder tiver de viajar?

FROHIKE: - O Skinner ficará com você à noite.

Scully entra na cozinha. Senta-se.

SCULLY: - Impressão minha ou o meu filho tem cinco pais? Me sinto a mulher mais importante do mundo tendo cinco homens pra me proteger...

FROHIKE: - Estou fazendo um bom café da manhã.

SCULLY: - Não quero, tô sem fome.

FROHIKE: - Precisa se alimentar direito.

SCULLY: - Desde quando você é meu médico?

FROHIKE: - Não sou seu médico. São ordens do Dr. Mulder.

Frohike aponta pra geladeira. Há um bilhete pendurado. Scully levanta-se, lê o bilhete em voz alta.

SCULLY: - Nada de porcarias. Joguei todos os seus diets fora, inclusive aquela droga de gelado de arroz. Coma sorvete... Meu filho vai ser uma criança normal. Se ele quiser, tem sementes de girassol no armário. Coma o que ele pedir. E ‘não me teste’!

Scully abre a geladeira.

SCULLY: - Eu não acredito! Ele jogou tudo fora! Eu não vou comer essas coisas daqui, cheias de calorias...

FROHIKE: - Você agora come por dois.

Scully fecha a geladeira. Senta-se na cadeira.

SCULLY: - Tenho a nítida sensação de que vocês pensam que mulheres grávidas têm que parecer um caminhão tanque!

FROHIKE: - Não reclame. Quer torradas?

SCULLY: - Não. (MANHOSA) Ah, Frohike, vamos fazer uma coisa... Já que quer tanto me ajudar, vamos tomar um bom sorvete, bem grande, no shopping, enquanto fazemos compras. Preciso de roupas, estou ficando sufocada! Nada mais entra no meu corpo!

FROHIKE: - Tá bem. Vamos fazer compras. Mas leve sua arma.

Scully levanta-se, toda empolgada e corre pro quarto.

FROHIKE: - (GRITA) Pelo menos tome um suco! Ou quer que essa criança nasça de boca aberta?


Arquivos X – 10:19 A.M.

Skinner entra. Mulder está sentado, digitando alguma coisa.

SKINNER: - Mulder, terminou o relatório?

MULDER: - (DEBOCHADO) Estou no desfecho da história. Há um clímax aqui e te garanto um final bem patético.

SKINNER: - Pelo jeito está mais calmo.

Mulder pára de digitar. Recosta-se na cadeira.

MULDER: - Estou. Pedi aos rapazes pra ficarem com ela. Skinner, isso tem uma grade lição pra minha vida pessoal.

SKINNER: - Que lição?

MULDER: - Não confie em ninguém. Apenas nos amigos que você achou que nunca tinha. Porque agora, vejo que tenho.

SKINNER: - Tenho um caso pra você. Outro pra Scully.

MULDER: - Eles não perdem tempo.

SKINNER: - Mandei outros agentes no lugar de vocês. Mas o caso que havia pra eles continua comigo.

MULDER: - Eu e a Scully cuidaremos disso. Contanto que estejamos juntos, não me importa qual bomba seja.

SKINNER: - Nem fazer vigília de obras de arte?

MULDER: - (PÂNICO) ... Tá. Qualquer coisa.

SKINNER: - Duas passagens pra Orlando, na Flórida.

MULDER: - Mickey Mouse, tio? Vamos escoltar o Mickey Mouse? Eu adoro o Mickey Mouse! Tinha um chapéu do clube do Mickey e...

SKINNER: - Não, Mulder. Vai vigiar um museu. Parece que roubaram um item da coleção ontem à noite. O quadro mais valioso. E acham que os ladrões vão voltar. Por via das dúvidas... Quero que investigue o desaparecimento do quadro e não tire os olhos dos outros.

MULDER: - Mas posso dar uma voltinha na montanha russa?

SKINNER: - Não levando a Scully, tudo bem. Ou quer que ela vomite a criança?

MULDER: - Acho que é melhor esquecer a montanha russa...


Apartamento de Scully – 12:47 P.M.

Mulder entra.

MULDER: - (GRITA) Scully!

Mulder a procura pelo apartamento. Volta pra sala. Entra na cozinha. Vê um bilhete na geladeira.

SCULLY (OFF): - Fui comprar roupas pra um caminhão tanque. Volto logo. Frohike foi comigo. Vamos nos encontrar com o Langly e o Byers. Te amo. Tem um lanche pra você no microondas. Coisas de ‘esposa’. Scully.

Mulder ri. Larga o bilhete sobre a mesa. Batidas na porta. Mulder vai atender. Há um entregador de pizza.

ENTREGADOR: - Agente Mulder?

MULDER: - Sim.

ENTREGADOR: - Seu pedido.

MULDER: - Pedido? Eu não pedi pizza.

ENTREGADOR: - Com os cumprimentos do senhor Giovanni.

Mulder fica intrigado. Pega a caixa de pizza. Entrega uma gorjeta pro rapaz e fecha a porta. Vai pra cozinha. Coloca a caixa sobre a mesa. Abre. Vê uma pizza. Ergue a pizza e vê um bilhete dentro de um plástico. Mulder pega o bilhete, rindo.

MULDER: - Hoje é o dia dos bilhetes...

Mulder começa a ler.

MULDER: - ...”Fox, dia 23, 7 da noite, neste local. Preciso conversar e sei que você também. Beijos. Sam.”

Mulder ri.

MULDER: - É... Irmã de raposa, raposa é...

Mulder guarda o bilhete no bolso. Scully entra. Atrás dela, os pistoleiros, cheios de caixas e sacolas, derrubando um monte de coisas pelo caminho. Mulder fica olhando pra eles, em pânico.

MULDER: - O que houve por aqui? Levaram a loja toda?

SCULLY: - Não, só algumas ‘coisinhas básicas’.

BYERS: - Scully, onde colocamos essa pilha de ‘coisinhas básicas’?

SCULLY: - Podem colocar no sofá.

Scully olha pra pizza.

SCULLY: - Não acredito, Mulder! Preferiu uma pizza do que o meu lanche?

MULDER: - Não, eu não... Depois te explico. Pegue algumas ‘coisinhas básicas’, e vamos pra Orlando. Básicas, tá? Somente básicas.

Ela vai para o quarto. Mulder olha pra eles.

MULDER: - Acho que vocês vão acostumá-la mal.

FROHIKE: - Ora, Mulder, até que enfim vamos ter uma criança por aqui.

LANGLY: - Vou ensiná-lo a entrar nos sistemas do governo. Vamos jogar RPG e...

MULDER: - Ei, ei, ei! Vão fazer um pra vocês, esse é meu. Agora dêem o fora daqui.

LANGLY: - Isso é pizza?

MULDER: - Podem ficar com ela.

LANGLY: - Só espero que a criança tenha o nariz dela...

BYERS: - Será que vai ser menino ou menina?

Mulder começa a ficar triste. Frohike percebe.

FROHIKE: - Bom, vamos andando.

Frohike empurra Byers e Langly porta à fora. Langly carregando a pizza e comendo uma fatia. Frohike olha pra Mulder.

FROHIKE: - Acho que tem algo pra me contar. Mas eu sou paciente. Quando quiser, sabe onde estou.

MULDER: - ...

FROHIKE: - Não creio em milagres, Mulder. Não que não creia em Deus, mas creio muito mais nas maldades humanas.

Frohike sai. Mulder fica olhando pras sacolas na sala, triste. Scully entra na cozinha.

SCULLY: - O que foi?

Ele sorri, tentando animá-la.

MULDER: - Nada. Já tenho uma mala no carro. Pegue as suas coisas.

SCULLY: - Vamos de carro?

MULDER: - Não. Tio Skinner nos deu passagens de avião. Acho que ele tá ficando bonzinho e não é comigo. Acho que ele tem uma queda por você.

SCULLY: - Ciúmes?

Mulder ri.

MULDER: - Brincadeira, Scully. Sabe o quanto o Skinner gosta da gente. Estou surpreso com as coisas que ele tá fazendo.

SCULLY: - Mulder, importa-se se ele for o padrinho do bebê? Acho que ele merece.

MULDER: - ... (TENSO) ... Claro que merece. Tá, vai logo, pegue o que precisa.

SCULLY: - Tá.

Ela vai pra sala, revira as sacolas. Mulder fica olhando pra felicidade dela e fecha os olhos, entristecido. Põe a mão sobre os lábios e segura as lágrimas.

MULDER (PENSANDO): - Preciso ser forte... Preciso ser muito forte. Não vou me apegar...

Scully volta pra cozinha.

SCULLY: - Só comprei minhas roupas, tá? As coisas do bebê nós vamos comprar juntos.

MULDER: - (ASSUSTADO) Tudo isso? Achei que já tinha comprado o enxoval todo!

SCULLY: - (RINDO) Vou ser a grávida mais bonita e elegante da cidade.

MULDER: - ...

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - Nada, eu... Eu só tô tentando me acostumar com essa novidade.

SCULLY: - Mulder, acho melhor se acostumar logo!

Scully abre a blusa. Mostra uma barriga já se desenvolvendo.

SCULLY: - Tá vendo? Quer tocar no seu filho?

Mulder afasta-se dela, disfarçando.

MULDER: - Scully, vamos logo! Vamos perder o avião.

Scully vai pro quarto. Mulder vai pro banheiro. Fecha a porta. Senta-se no chão e chora calado.

MULDER (OFF): - Eu não posso me apegar... eu não posso... Ou eu vou cair com ela e quem vai segurar isso tudo?


Museu Maitland – Orlando – Flórida – 7:21 P.M.

Scully observa as obras de arte. Usa uma bata bem folgada por sobre as calças. Mulder conversa com Daryl.

DARYL: - Acredite, quando nós fechamos a sala, o quadro estava bem ali, naquela parede!

MULDER: - Nós quem?

DARYL: - Eu e Tracy. Ele é o responsável pela exposição. Teve um ataque de histeria que tivemos de levá-lo ao hospital.

MULDER: - (INTRIGADO) Histeria?

Tracy entra, num terno verde-abacate, com echarpe bege claro. Mulder olha pra ele, perplexo. Segura o riso.

MULDER: - Ah! Entendi.

DARYL: - Tracy, o FBI chegou.

Tracy ergue os braços, como dando graças.

TRACY : - Oh, meu Deus, até que enfim!

Scully olha pra Tracy. Olha pra Mulder. Aproxima-se deles. Tracy olha pra Mulder, enquanto fala e faz gestos com as mãos.

TRACY : - Olha simpático e vitaminado agente, a coisa por aqui vai ficar muito estressante se você não achar esse quadro pra minzinha. Estou uma p-i-l-h-a! Acredite...

DARYL: - Tracy, este é o agente Mulder e esta, a agente Scully.

TRACY : - (SORRINDO) Olá, simpática! (EMOCIONADO) Ah, ela tá esperando um bebêzinho... Que bonitinho!

Tracy aproxima-se de Scully e põe a mão sobre sua barriga.

TRACY : - Hum, é menino ou menina?

SCULLY: - (SORRINDO) Não sei. Pra dizer a verdade, prefiro a surpresa.

TRACY : - Quantos meses?

SCULLY: - Quatro.

Tracy olha pra ela. Afasta-se. A analisa de cima a baixo. Scully olha pra Mulder, erguendo as sobrancelhas e fazendo um beiço de surpresa.

TRACY : - Hum, você está radiante, menina! Você está linda com essa barriga! Deveria sair por aí mostrando ela pra todo mundo!

Scully olha pra Mulder. Mulder segura o riso, abaixa a cabeça. Daryl olha pra Tracy.

DARYL: - Tracy, eles ficarão aqui durante a noite. Investigarão o caso e ficarão tomando conta dos seus quadros.

TRACY : - (INCRÉDULO) Eles? Não! Ele fica. Ela não pode ficar aqui, nesse estado! Vocês homens são todos uns insensíveis! Não estão vendo que ela vai ter um filhinho? Ela devia estar em casa tecendo meinhas de lã e descansando as pernas!

Scully fica convencida. Mulder abaixa a cabeça, rindo.

SCULLY: - Eu preciso ficar aqui.

TRACY : - Precisa nada! Deixe que o grandão aí fique. Acho que ele pode fazer isso por você.

SCULLY: - (DESCONSOLADA) Mas sou agente federal. Tenho ordens. Infelizmente, tenho que ficar.

TRACY : - Certo. Se vai ficar, pelo menos vou trazer uma poltrona confortável, petiscos, frutas, sucos, cobertor e travesseiro...

Mulder começa a rir. Tracy o encara.

TRACY : - Odeio vocês homens! Não sabem o quanto este é um momento muito especial na vida de uma mulher!

Tracy agarra Scully pelo braço.

TRACY : - Venha, ‘agente mamãezinha’. Vamos tomar uma vitamina. Aposto que seu filho deve estar com fome. Crianças comem muito, ela vai começar a se alimentar do seu cálcio, precisa repô-lo com urgência. Bebês são sugadores de vitaminas...

Tracy sai, carregando Scully pelo braço. Scully fica olhando pra Mulder e rindo.

Daryl olha pra Mulder.

DARYL: - Não repare. Histeria pura. E eu tenho que ficar aturando esses malucos por aqui. Ele acha que é mulher!

MULDER: - Gostei dele. Ele é legal.

DARYL: - Espere mais um tempo e vamos ver se continuará com a mesma opinião. Aviso: Nunca, mas nunca o chame de gay. Ele vai dizer que não é gay, é ‘mulherzinha’.


BLOCO 2:

11:17 P.M.

Scully, deitada num sofá confortável, escorada num travesseiro, com um cobertor por cima, de pijama, comendo uma maçã. Ao lado dela, uma mesa com várias frutas e petiscos.

SCULLY: - Quer?

Corta pra Mulder, observando os quadros.

MULDER: - Não. Mas já estou com inveja dessa atenção toda só pra você. Queria estar grávido também.

SCULLY: - Ora, Mulder, você não ficaria nada bonito com dois metros de altura e uma barriga enorme como a do Arnold Schwarzenegger, em Júnior.

MULDER: - É, mas minha barriga tá crescendo junto com a sua.

SCULLY: - A sua sai com exercícios... (MORDE A MAÇÃ, FALANDO DE BOCA CHEIA) O que está olhando nessa parede?

Mulder tira uma lente de aumento do bolso e observa a parede onde estava o quadro.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Mulder, se não percebeu, aí não tem nenhum quadro.

MULDER: - (SORRI DEBOCHADO) Engraçadinha... Scully, tem uma marca na parede. O contorno do quadro está aqui. Quase imperceptível, mas está. O que não é lógico, porque quadros só deixam marcas em paredes se estão há muitos anos pendurados. Este estava há apenas algumas horas.

SCULLY: - Alguma teoria?

MULDER: - Radiação.

SCULLY: - (ASSUSTADA) Radiação?

Ela senta-se no sofá, nervosa. Mulder olha pra ela.

MULDER: - Relaxa, Scully.

SCULLY: - Mulder, por favor. Acho que deveria entrar logo em licença ou ir pra Quântico. Espero que esse lugar não seja assombrado ou vou parir aqui mesmo!

MULDER: - Bom, pelo menos você é médica.

SCULLY: - Mulder, sem piadas, isso é sério. Os Arquivos X são muito perigosos pra uma mulher grávida.

MULDER: - Como você tá sensível, hein, Scully? Eu sei disso. Se quiser sair de licença, não me importo. Mas você vai ficar o dia todo com os Pistoleiros.

SCULLY: - E você?

MULDER: - Te pego à noite. Ou pago o aluguel de um quarto pro Frohike.

SCULLY: - Mulder, isso tudo é necessário?

MULDER: - ...

SCULLY: - Tá, sem perguntas. Imagino que deve estar pior do que estava. Antes tinha medo de me pegarem. Agora tem dois pra cuidar... Mulder, eu sei me defender, tá? Não banque o machão, isso é desgastante.

Scully deita-se novamente, cobrindo-se com o cobertor.

SCULLY: - Bom, pelo menos nunca dormi num museu. Esta é a primeira vez.

MULDER: - ... Vamos dar uma volta por aí e ver obras de arte?

Ela levanta-se empolgada. Veste as pantufas de ursinho. Mulder olha incrédulo.

MULDER: - O que é isso?

SCULLY: - Pantufas. Presente da Tracy.

Mulder balança a cabeça.

SCULLY: - Alguém tem que me mimar, não é? Já que você não faz isso mesmo.

MULDER: - Ah, pobrezinha...

Mulder aproxima-se dela. Agacha-se. Olha em seus olhos.

MULDER: - Vou mimar você. O que quer que eu faça? Quer que procure alguma comida exótica na madrugada?

SCULLY: - (DENGOSA) Não. Quero que cuide de mim.

MULDER: - (DENGOSO) Estou cuidando de você.

SCULLY: - Mas está tão longe... Mulder, você não me toca, você parece que tem medo de mim. Estou com seu filho aqui dentro, não um alienígena do óleo negro.

MULDER: - (PÂNICO)

SCULLY: - Mulder, por favor! Foi uma piada.

MULDER: - (TENSO) Scully, sem piadas desse tipo, por favor. Não me faça enfartar aqui.

Ela põe a mão no peito dele.

SCULLY: - (ASSUSTADA) Mulder, seu coração disparou!

MULDER: - (NERVOSO) Eu tô falando, Scully.

SCULLY: - Mulder, tire a ideia da cabeça de que você é alienígena!

MULDER: - ... Scully, e se eles implantaram a criança em você?

SCULLY: - Não fizeram isso. Mulder, por favor! Acha que eu não poderia ficar grávida? Você é o responsável por isso. Viu, só? Isso é o que dá ficar me molestando a noite inteira!

MULDER: - Scully, mas eles tiraram todos os seus óvulos! E pelo que eu sei, a mulher já nasce com todos os óvulos que terá durante toda a sua vida!

SCULLY: - Sei disso, Mulder... Há alguns cientistas novos que discordam dessa teoria, mas... Isto foi um milagre, Mulder. Eu duvidei Dele, e ele me mostrou que estava errada.

MULDER: - Você é médica. Você não pode acreditar nisso.

SCULLY: - Acredito, Mulder... Há explicações científicas pra isto. Confie em mim. Eu sei a natureza real dessa criança.

MULDER: - ?

SCULLY: - (TENSA) Eu... Eu não falei, não quis te assustar. Mas sabe quando estávamos investigando aquele caso da xerife Shelby?

MULDER: - Nem me lembre daquilo, Scully. Fico arrepiado de medo...

SCULLY: - ... Eu... Eu procurei um médico no hospital, enquanto aguardava os testes feitos com Phoebe Marshall... Eu estava nervosa e tensa, não só por ciúmes de você... Eu havia percebido que... menstruei naquele mês, Mulder. E isso não fazia sentido.

Mulder dá um sorriso.

MULDER: - Sério?

SCULLY: - Sério. Então, se havia um, poderia haver outro, não acha? Amadureceram com o tempo.

Mulder senta-se no chão, rindo sozinho.

SCULLY: - (CURIOSA) O que foi?

MULDER: - Scully, tô começando a acreditar nesse seu Deus...

SCULLY: - Mais calmo?

MULDER: - Um pouco... Mas ainda assim é meu filho. Eles vão querer tomá-lo de mim.

SCULLY: - Mulder, ele tem um pai e uma mãe superprotetora! Eles não terão chances. E o que iam querer com essa criança?

MULDER: - ...

SCULLY: - ... Quero um beijinho. Estou muito sensível.

Mulder a beija, suavemente. Ela agarra-o pelos cabelos o puxando.

MULDER: - Scully!

Mulder afasta-se dela. Levanta-se, assustado.

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - ... Vamos ver as obras de arte, tá legal?

SCULLY: - Estou vendo uma obra de arte.

MULDER: - Respeite o nosso filho.

SCULLY: - Eu não acredito! Mulder, estou grávida, não com doenças venéreas!

Ele sai da sala, suando frio. Ela ri.

SCULLY: - Eu não acredito! Ô, Mulder!

Ela sai atrás dele, gritando.

SCULLY: - Mulder! Quem te disse que mulheres grávidas não podem fazer sexo? Mulder, vem, cá! Mulder me escuta! Mulder, é desejo!!!


1:34 A.M.

Os dois entram na sala. Mulder fica parado, olhando pra parede.

SCULLY: - O que foi?

Scully olha pra parede. O quadro está lá novamente. Os dois puxam as armas.

MULDER: - Vá por ali, vou por aqui. Grite se vir alguém.

SCULLY: - Tá.

Eles se separam.

Corta pra Scully. Ela caminha cautelosamente pelo corredor, segurando a arma. Mexe na fechadura de uma porta. Trancada. Examina a outra. Trancada. Scully ouve barulhos vindo da sala de exposição. Vira-se.

SCULLY: - Mulder?

Sem resposta. Scully volta pelo corredor. Segura a arma firmemente, ajeitando nas mãos. Os braços contra o peito. Vira-se rapidamente, apontando a arma pra dentro da sala. Nada. Scully vira-se rapidamente apontando pra trás da porta. Nada. Ela observa atentamente todo o lugar. Vê um unicórnio branco no fundo da sala. Scully arregala os olhos, incrédula. Aproxima-se do animal. Toca-o.

SCULLY: - De onde você veio? Unicórnios nem existem!

Scully continua segurando a arma.

Som do ranger de uma porta. Barulho de porta batendo-se.

Scully vira-se depressa e vê a porta da sala aberta. Caminha até a porta, passando pelo quadro.

Close do quadro. A porta pintada agora está fechada. Scully não percebe.


2:11 A.M.

Mulder, sentado no sofá. Scully abraçada nele, com os pés sobre o sofá. Mulder está sorrindo. Os dois olham pro unicórnio que está comendo uma maçã.

MULDER: - De onde isso veio?

SCULLY: - Mulder, isso está contra todas as explicações científicas que eu posso te dar.

MULDER: - Uau, Scully! Acho que você tem uma descoberta fantástica pro mundo científico.

SCULLY: - É bonitinho, não é? E é bem mansinho. Acho que ele quer mais maçã.

MULDER: - Não tá pensando em levá-lo pro seu apartamento como bichinho de estimação...

SCULLY: - Você tem peixinhos. Eu tenho unicórnio.

MULDER: - Quem disse que é seu?

SCULLY: - Eu o achei, não tem nenhuma placa de identificação no pescoço, portanto é meu. A não ser que ache algum anúncio dizendo: ‘procura-se unicórnio perdido na Flórida. Atende pelo nome de Uni’.

Mulder olha pra ela.

MULDER: - Acho que você está mais iluminada e engraçada, sabia? Essa gravidez te deixou mais linda.

SCULLY: - Hum... Vai, mima bastante. Eu gosto.

MULDER: - (SORRI)

Mulder a abraça com mais força. Fecha os olhos.

MULDER (OFF): - Que desgraçado! Ele armou tudo tão bem pra que ela nunca desconfiasse de uma inseminação. Patife sujo! Aposto que quando ela negociou a troca das provas que pegou no pentágono por uma reversão, ele percebeu que ela seria a mãe ideal... Ele não mentiria. Ele disse que não havia reversão. Acho que nós dois fomos abduzidos realmente naquela noite. As luzes que vi, já eram tarde demais. Eles já haviam feito.

Scully fecha os olhos. Mulder continua em deduções.

MULDER (OFF): - Colocaram um óvulo nela pra que ela pensasse que ainda tinha algum... Queriam ser cautelosos, se ela desconfiasse, abortaria... Ela é medica, precisa de provas... Roubaram meus genes e os guardaram pra depois armar aquela em Knoxville... Velho esperto... Despertou as minhas atenções com a clone, com o chip... Ele sabia que se ela estivesse próxima de mim, eu desconfiaria. Por isso não agiu no Maine. Esperou. Tirou a memória dela. Armou aquela encenação toda. Mas ela tava morrendo... Isso não faz sentido. Ou ele calculava que eu ia descobrir, assim como eu calculo os passos dele... Ou ele desistiu. Claro! Talvez tivesse desistido... Não, mas... Tem alguma coisa aí que não se encaixa.

Scully está dormindo. Mulder levanta-se e a ajeita no sofá. Coloca o travesseiro debaixo da cabeça dela e a cobre com o cobertor. Beija-a na testa.

MULDER (OFF): - Seja o que for, eu não vou mais dormir. Ele quer essa criança. E meu instinto me diz que vai precisar se livrar de mim para pegá-la. Ele sabe que eu sei. Ele sabe quem eu sou. Preciso ter cuidado. Ciladas virão.

Mulder olha pro quadro. Fisionomia de intriga. Aproxima-se. Passa a mão na tinta.

MULDER (OFF): - Engraçado. Juro que era uma porta aberta. Céus! Devo estar maluco. Não dormir direito causa alucinações.

Mulder afasta-se do quadro. Olha pras outras pinturas. Vê a assinatura com tinta vermelha: Sentinelle Passé.

Mulder tira do bolso um frasco de pílulas. Olha pra Scully. Ela dorme. Mulder toma duas pílulas. Fecha os olhos.

MULDER (OFF): - Preciso ficar acordado... preciso ficar acordado.

Mulder caminha, de um lado pra outro. De olhos fechados. Abre os olhos rapidamente.

MULDER (OFF): - Uau! Isso é rápido mesmo.

Mulder olha algumas esculturas. Caminha pela sala. Observa outros quadros.

MULDER (OFF): - Cara estranho. Pinturas estranhas... Pode-se deduzir o que quiser com isso... É como viajar para o fundo da mente, buscando coisas que você não queria mais. Medos que enterrou... Sentinelle... Será homem ou mulher? Muito dúbio.

Mulder olha pra outro quadro.

MULDER (OFF): - Bem, esse aqui me parece menos aterrador. Diria que é como entrar num sonho... Mesmo assim os elementos simbólicos do passado. Esse tal de Sentinelle deveria ter tido problemas pra conviver com o passado. A arte é a manifestação do subconsciente.

Barulho do ranger de porta. Mulder vira-se. Vê a luz dourada invadir a sala. Mulder se desespera. Puxa a arma e corre pra perto de Scully. Segura-a pelo braço. Então percebe que a porta no quadro se abre lentamente. Mulder solta o braço de Scully, olhando assustado pro quadro. O unicórnio pula e entra através da porta. Mulder fecha os olhos e balança a cabeça.

MULDER: - Acho que o efeito dessa droga é alucinógeno...

Mulder abre os olhos. A porta continua abrindo-se, como se o convidasse para entrar. Mulder caminha até o quadro. Coloca a mão e a mão transpassa a porta. Mulder fecha os olhos, sentindo uma brisa passar por seus cabelos. Sorri. Mulder entra no quadro. A porta se fecha. A luz se dissipa.

Mulder sai num jardim florido. O sol brilha intensamente. Mulder olha pra trás. A porta está fechada, solta no nada. Mulder caminha, olhando a natureza. Fecha os olhos, inspira fundo.

MULDER: - Perfume de rosas... Isso lembra minha mãe.

TEENA: - Fox!

Mulder vira-se. Vê a casa dos Vinhedos. Teena planta algumas rosas no jardim.

TEENA: - Fox, eu não pedi pra me trazer a pá?

Mulder sorri. Os olhos enchem-se de lágrimas. Ele vê uma pázinha no chão. Pega-a. Aproxima-se.

MULDER: - Mãe?

Teena agachada, olha pra ele.

TEENA: - O que houve, Fox? Parece um bobo!

Mulder entrega a pá. Olha pra ela.

MULDER: - O que está fazendo?

TEENA: - Vou plantar aquelas mudas de rosas que ganhei de sua tia Mimi.

MULDER: - Mas eu tinha 10 anos quando você as plantou!

TEENA: - E continua tendo dez anos. Fox, o que há com você hoje?

Mulder entende. Sorri.

MULDER: - Nada mãe.

TEENA: - Ande. Está atrasado pra escola.

MULDER: - Não, mãe. Hoje eu não vou à escola.

TEENA: - Mas e o projeto de ciências? Passou a noite toda em cima daquilo pra apresentar sua teoria sobre magnetismo!

MULDER: - Não importa, mãe. Eu quero ficar com você. Todo o tempo que eu puder.

Teena olha pra ele.

TEENA: - Tem certeza de que não está com febre?

MULDER: - (SORRINDO) Não, mãe. Nunca estive melhor na minha vida.

Mulder abraça-se nela. Teena se desvencilha. Ele insiste. Ela dá um sorriso encabulado.

TEENA: - Pare com isso, Fox!

MULDER: - Ah, mãe, quantas vezes eu quis te abraçar... Sei que você é durona, sempre soube. Mas eu poderia ter sido mais complacente com sua dor. Agora eu te entendo.

TEENA: - Fox, o que andou comendo? Não tomou o licor do seu pai, não é mesmo?

Mulder beija-a na testa.

TEENA: - (SORRINDO) Fox, me largue! Preciso terminar isso.

MULDER: - Posso te ajudar?

TEENA: - Desde quando você se interessa pelo jardim? Nem pra cortar grama você serve!

Ele sorri. Pega a muda de rosa e entrega pra ela.

MULDER: - Eu cavo. Você planta.

TEENA: - Acha que vão nascer?

MULDER: - Vão brotar muitas rosas daí, mãe. Você tem as mãos abençoadas pra isso.

Ela sorri.

TEENA: - Acho que são champanhe. A minha cor preferida.

Mulder começa a cavar um buraco, sentado no chão.

TEENA: - Fox, vai sujar suas calças!

MULDER: - Deixa pra lá, mãe. A vida tem que ser vivida a cada momento. Porque depois, eles não voltam mais.

Os dois ficam ali, rindo e plantando rosas, sujando-se de terra. Um carro estaciona. Mulder vira-se. Vê Bill, descendo do carro. Apressado, nervoso.

BILL: - Oi pra vocês.

Bill entra na casa. Mulder levanta-se. Vai atrás dele.


BLOCO 3:

Corta pra dentro da casa. Bill serve um copo de bebida. Mulder olha pra ele.

MULDER: - Do que tem medo, pai? Por que está nervoso?

BILL: - (VIRA-SE) Ah, Fox! Não vi você aí.

Mulder aproxima-se dele.

MULDER: - Como foi seu dia?

BILL: - Estressante como sempre.

MULDER: - Pai, beber não vai adiantar nada.

BILL: - Fox, beber é algo que os adultos fazem. Você não entenderia.

Bill senta-se no sofá.

BILL: - Fox, pode ligar a TV? Gostaria de saber quando vão criar alguma coisa que se possa ligar a TV e mudar de canal enquanto se está sentado.

Mulder sorri. Liga a TV pra ele. Muda para o canal do telejornal.

MULDER: - O seu canal preferido.

BILL: - Não vai pra escola? Não tinha feira de ciências?

MULDER: - Não, pai. Vou ficar aqui com você e assistir TV.

BILL: - ???

Mulder senta-se ao lado de Bill. Bill olha pra TV. Mulder olha pra Bill, ternamente. Bill percebe e olha pra ele.

BILL: - Fox? Alguma coisa errada?

MULDER: - Não. Eu só amo você. Com todos os problemas que tivemos, eu ainda amo você.

BILL: - Puxa, coisa boa de se ouvir de um filho. Impressão minha ou o meu garoto está começando a ficar adulto?

Bill coloca o braço por sobre os ombros de Mulder. Os dois ficam abraçados, olhando TV. Mulder fecha os olhos, derrubando lágrimas.

BILL: - Viu só? Eu sabia que os Yankees iam se dar mal nessa temporada. Eu te falei.

MULDER: - Falou, pai. Você me falou.

Teena entra, tirando as luvas.

TEENA: - Não vai voltar pro trabalho hoje?

BILL: - Não. Hoje tenho folga.

TEENA: - Preferia que estivesse fora daqui.

Teena vai pra cozinha. Bill levanta-se e vai atrás dela. Mulder vai atrás deles. Fica parado na porta da cozinha. Os dois discutem.

TEENA: - Não na frente das crianças!

Bill vira-se.

BILL: - Fox, saia daqui. Eu e sua mãe temos coisas a conversar.

Mulder não sai. Bill vira-se pra Teena.

BILL: - Por que tem que tirar minha autoridade na frente do meu filho?

TEENA: - Como se você se importasse com os seus filhos!

Mulder aproxima-se dos dois.

MULDER: - Mãe, que tal se eu te ajudasse a fazer brownies?

BILL: - É, faz tempo que não como brownies de chocolate.

MULDER: - Pai, devia fazer dieta. Os brownies são pra mim.

BILL: - Acha que vou dividir os brownies com você?

MULDER: - E por que não dividiria?

BILL: - Sabe que sua mãe faz os melhores brownies do mundo e eu não os divido com ninguém.

MULDER: - Viu, Dona Teena. Vamos ter de fazer bastante. Não há negociação. Quem mandou casar com um sujeito glutão? Você o pegou pela barriga.

Teena sorri.

MULDER: - Tá, pai. Se quer brownies vai ter de ajudar também. Alcança a farinha.

BILL: - Onde está?

TEENA: - Na porta da esquerda.

BILL: - Teena, acho que precisamos comprar mais farinha.

TEENA: - Pra essa vez vai dar.

BILL: - Tenho de me lembrar disso...

Bill entrega a farinha pra Teena. Teena bate alguns ovos numa tigela. Mulder olha pros dois, segurando lágrimas. Os admirando.

BILL: - Você faz os melhores brownies do mundo. Devia patentear essa receita.

TEENA: - Deixo isso com você. Eu sou apenas uma dona de casa.

BILL: - Uma grande dona de casa.

Mulder cruza os braços, num sorriso, os observando.

BILL: - Sabia que as donas de casa são importantes? Imagine uma casa onde não há uma mulher cuidadosa, caprichosa... Se eu vivesse sozinho, isso aqui seria um lixo.

TEENA: - Tenho certeza disso. Põe a farinha. Aos poucos.... Bill! Aos poucos!

BILL: - ... Acho que exagerei.

TEENA: - Tudo bem, vou ter de fazer muitos pros dois comilões dessa casa. Fox, me traz o leite! E depois vá chamar sua irmã.

Mulder abre a geladeira. Pega uma garrafa de leite. Vira-se pra entregá-la. Pára. Olha pros dois, trocando um beijo. Mulder sorri em lágrimas. Um rapaz loiro e baixo entra, segurando uma bola de basquete.

PETE: - Mulder, não vai jogar?

Mulder vira-se pra ele. Vira-se para os pais, que não estão mais ali. Mulder olha pro rapaz de novo.

MULDER: - (INCRÉDULO) Pete?

PETE: - Shii, Mulder. Tá legal?

Mulder sorri.

PETE: - Vamos jogar um pouco. Preciso estudar pra prova de física amanhã.

MULDER: - Tá. Vamos.

Os dois saem pela porta dos fundos. Pete joga a bola pra Mulder.

PETE: - Mulder, pelo amor de Deus! Tira esses óculos do rosto!

MULDER: - Óculos?

Mulder põe as mãos no rosto, mas está sem óculos. Então ele entende que os outros o vêem como ele era.

PETE: - Acha que vai conseguir garotas no colegial usando isso na cara?

Mulder sorri. Os dois começam a jogar, enquanto conversam.

PETE: - Meu amigo, quantas vezes tenho que te dizer? Se eu tivesse o teu porte atlético, a tua altura e essa cara, eu tinha milhões de garotas no banco de trás do meu carro. Ficar se escondendo do passado atrás de lentes não vai resolver nada.

MULDER: - Como vai a Sunny?

PETE: - A gente saiu. Dizem que sempre tem um par de meias pra um sapato velho. Vou no baile com ela. E você? Convidou alguém?

MULDER: - Não. Não vou.

Pete aproxima-se, quicando a bola. Olha pra ele.

PETE: - Mulder, como não vai no baile de formatura?

MULDER: - Não tenho com quem ir.

PETE: - Tira esses óculos, corta esse cabelo e dá uma geral. Vai ver que candidatas não vão faltar.

MULDER: - Não quero ir. Não gosto de festas...

PETE: - Mulder, sei que sua irmã foi sequestrada. Mas a vida continua. Não pode ficar aí se culpando. Reage.

Mulder olha pra Pete.

MULDER: - Pensando bem, Pete... Acho que tenho vontade de ver o que eu perdi.

PETE: - Ahn?

MULDER: - Se deve aproveitar os momentos, não é mesmo?

Corta pra Mulder, num baile de formatura. Mulder olha pra faixa escrito: Turma de 1977. O salão está cheio de gente. Mulder olha pra algumas pessoas mais velhas.

MULDER: - (SORRI) Foi isso então que eu perdi? ... Não! Professora Gilbert... Eu odiava a senhora... Mas até que é bom vê-la de novo.

Mulder vê Pete dançando com Sunny. Sorri.

MULDER: - ... Pete, Sunny... Não, o desgraçado do MacDowell... Se me provocar hoje, eu juro que esmurro você, palhaço.

Uma garota, com um rabo de cavalo, aproxima-se dele.

KAREN: - Mulder, você está muito bonito.

MULDER: - Karen?

KAREN: - Obrigado por me convidar. Apesar de que todas as garotas riram quando disse que viria ao baile com você. Deixei de vir com o Ted... Sempre achei você bonito, inteligente... Fiquei surpresa por você ter vindo. Você nunca se mistura, não é?

Mulder sorri.

KAREN: - Eu... Eu olhava pra você no fundo da sala e ficava imaginando que você devia ser bem bonito, sem aqueles óculos...

MULDER: - Quer dançar, Karen?

KAREN: - Você dança? Nossa, Mulder! Estou... estou profundamente surpresa com você! O que aconteceu?

MULDER: - Acho que isso chama-se viva o que nunca viveu.

KAREN: - Criando juízo, é? Ou vai fazer Filosofia?

Os dois dançam. As garotas todas olham impressionadas pra Mulder. Karen sorri.

KAREN: - Viu só? Monte de invejosas. Me invejem agora!

MULDER: - (RINDO) ...

KAREN: - Pra onde vai? Já sabe qual universidade?

MULDER: - Pra Oxford. Fazer Psicologia.

KAREN: - Acho que escolheu a carreira certa!

MULDER: - (SORRI) E você?

KAREN: - Consegui uma bolsa para a UCLA. Matemática.

MULDER: - Combina com você. Sempre tirei o segundo lugar na turma por sua culpa.

KAREN: - (RI) É mas, diferença mínima. E em História você arrebenta. Apesar de que a senhora Gilbert te odeia.

MULDER: - É, ela me odeia.

Pete aproxima-se.

PETE: - Que tal se a gente atravessasse a cidade e fosse pra um lugar mais legal? Tem um bar muito quente, rola Stones, Bowie...

MULDER: - Tudo bem.

PETE: - Ai. Gente, vamos aproveitar que o Mulder tá de bom humor. Nem acredito que ele veio!

Pete sai de mãos dadas com Sunny. Mulder sai de mãos dadas com Karen.

Mulder percebe que eles estão num bar. Numa mesa ao fundo, alguns novatos da marinha fazem festa. Pete beija Sunny. Karen olha timidamente pra Mulder. Mulder sorri pra ela.

MULDER: - Tô curioso. Sempre foi apaixonada por mim?

KAREN: -... Gosto dos garotos tímidos, que ficam excluídos da turma...

MULDER: - ... Como eu fui idiota! Nunca poderia imaginar, sabia?

KAREN: - Por quê?

MULDER: - Sei lá, você era... você é tão bonita, os caras ficavam assoviando pras suas pernas e uivando pelos corredores... Você saiu com o MacDowell, o atleta do time de futebol condecorado com milhões de medalhas...

KAREN: - Ele é um otário. Odeio tarados! Eles só falam, falam e nada. Não sabem tratar uma garota... Só querem sexo. Tudo bem, estamos em época de liberdade sexual. Mas eu ainda gosto de sentir alguma coisa pela pessoa.

Mulder a beija suavemente, um beijo de adolescente. Afasta os lábios dela. Ela dá um sorriso. Mulder levanta-se. Estende a mão pra ela.

MULDER: - Quer dançar?

KAREN: - Quero.

Os dois dançam uma música lenta. Mulder apoia seu rosto nos cabelos dela, fecha os olhos.

MULDER: - (RINDO) Me sinto como um adolescente.

KAREN: - Você é um adolescente.

MULDER: - Sabe que eu era apaixonado por você?

KAREN: - (RINDO) Sério?

Os dois se olham.

MULDER: - Mas imagina: O cara mais CDF e esquisito da turma querendo atenção da mais linda da escola? Ah, não. Eu não ia passar pelo ridículo, levar um fora seu e ser motivo de risada da escola toda.

KAREN: - Mulder! Por que nunca me falou?

MULDER: - Como eu disse, às vezes é preciso viver o momento. Ou nunca se vai saber o que poderia ter acontecido.

Um rapaz de farda cutuca Mulder.

BILL: - Ô, crianção, sai pra lá, eu danço com a menina.

Mulder vira-se, indignado.

MULDER: - O que pensa que... (SORRI) Bill? Bill Scully?

BILL: - Sim. Te conheço?

Mulder sorri.

BILL: - Então, garota, quer dançar com um cara de verdade? Um marinheiro? Ou vai dançar com esse idiota aí?

KAREN: - Acho que você é o único idiota por aqui. Vê se desaparece!

Mulder sorri. Solta Karen.

MULDER: - Eu não acredito! (RI) Eu não acredito!

Bill olha invocado pra ele. Mulder continua surpreso.

BILL: - Você é louco, cara?

MULDER: - Não. Não tanto quanto você vai ser um dia.

Bill mete um soco em Mulder. Pete solta a Sunny e parte pra cima de Bill. A confusão começa. Bill agarra Mulder e mete outro soco. Mulder cai contra a parede e desmaia.


Mulder acorda-se numa cama. Pete olha pra ele. Pete veste uma camisa com estampas de flores e um medalhão no pescoço. Mulder olha pra ele e sorri.

PETE: - Achei melhor nem te levar pra casa, cara. A tua mãe vai fazer outro estardalhaço, como daquela vez que a gente pegou o carro e ‘um poste’ demoliu com ele.

MULDER: - ... Ai!

Mulder senta-se na cama.

PETE: - Meus pais foram trabalhar, nem percebam nada. Liguei pra sua mãe e disse que você dormiria aqui. Tá melhor?

MULDER: - Tô.

PETE: - A polícia levou aquele marinheiro metido a besta. Acho que ele vai ter de ficar preso na Marinha por um bom tempo.

MULDER: - ...

PETE: - E vai tomar uma surra do pai dele. O velho também é da marinha.

Mulder ri.

MULDER: - Pete, quantas coisas a gente deixa de escolher na vida, sabia?

PETE: - Ahn?

MULDER: - Nada. Quero ver onde isso vai dar.

PETE: - Vai dar em rolo. O pai do cara é tenebroso! Mas é gente fina. Ligou e pediu que você ligasse pra ele. Quer se desculpar pelo filho.

Mulder dá um pulo da cama. Olha pra Pete.

MULDER: - Me dá o número. Rápido!

PETE: - Credo! Ô Mulder, acho que a batida na sua cabeça te afetou os miolos. Cara, tem certeza de que não fumou unzinho? Ou anda atacando meu estoque?

Mulder pega o telefone. Pete entrega um papel. Mulder disca, segurando a emoção e um sorriso.

MULDER: - Pete, quantos anos eu tenho?

PETE: - Tá doido, é cara?

MULDER: - Pete!

PETE: - 17, seu imbecil! Mulder, tem certeza de que o fumo não te afetou?

O telefone chama. Uma voz de criança atende.

SCULLY: - Residência dos Scully.

MULDER: - Quem fala?

SCULLY: - Dana.

MULDER: - ... Dana...

SCULLY: - ...

MULDER: - Dana, meu nome é Fox e...

SCULLY: - Ah, já sei. Só um pouquinho, meu pai tá chegando.

MULDER: - Dana... É irmã do Bill?

SCULLY: - Sou. Vou passar pro papai.

Mulder sorri. Desliga. Olha pra Pete.

MULDER: - (SORRI) Acho que ela tem uns 12 ou 13...

PETE: - Do que tá falando? Mulder, cê tá legal, bicho? Acho que bateu a cuca mesmo.

MULDER: - Acho melhor ir pra casa.

PETE: - Sua mãe vai te encher de novo. Você só apronta!

MULDER: - Eu me entendo com ela.

Corta pra Mulder saindo da casa de Pete. Entra no jardim da sua casa. Bill está saindo de carro. Olha pra ele.

BILL: - O que aprontou agora?

MULDER: - Uma briguinha...

BILL: - Por mulher?

MULDER: - É. Tinha mulher na história.

BILL: - (SORRI) Esse é o meu garoto!

Bill acelera o carro e sai. Mulder dá um sorriso. Caminha lentamente, com as mãos nos bolsos. Olha pra casa. Respira fundo.

MULDER: - Quer dizer que eu poderia ter te conhecido se tivesse ido naquele maldito baile! Scully, como as coisas são... Por que eu não fui naquele baile? Tudo bem, você era criança ainda. Mas eu esperaria. Ah, eu esperaria!

Mulder fecha os olhos. Abre-os. Está no campus de uma Universidade. Mulder percebe os livros de biologia debaixo de seu braço. Sorri.

MULDER: - Hum, faculdade de Biologia... Quer dizer que não fui pra Londres...

Mulder fica parado, observando. Catatônico. A atenção dele volta-se para uma turma de adolescentes que passam fazendo a maior algazarra. Uma entre eles, lhe chama a atenção.

MULDER: - (SURPRESO) Scully?

Mulder percebe um rapaz, de mãos dadas com ela. Eles passam por Mulder.

ROBIN: - Ei, pode nos dizer onde fica o bar?

MULDER: - Acho que naquela direção.

ROBIN: - Aí, turma, vamos pro bar. Lugar chato esse! Não estudarei aqui nem que me matem! Olha só a cara dos alunos!

Mulder sorri. Scully olha pra ele. Mulder sorri pra ela. Ela retribui um sorriso.

ROBIN: - Vamos, Dana.

Robin a puxa, ela vai caminhando, olhando pra Mulder. Mulder acena pra ela. Ela fica vermelha e vira o rosto pra frente.

MULDER: - (RINDO DELE MESMO) Não... Pela idade daqueles amigos... Scully, você é muito nova pra mim. E não vai dar muito certo. Se não fui pra Londres, é sinal de que ainda sou virgem!

Mulder sai rindo. Pára.

MULDER: - Acho que vou até o bar. (MAQUIAVÉLICO) Ah, eu vou!

Mulder segura firme os livros, põe a mão no bolso. Sai assoviando.

MULDER: - Ah, que saudade desse tempo! Tudo era tão menos complicado! Acho que eu é que complicava as coisas...

Mulder entra no bar. Vê Scully e sua turma, numa mesa, rindo e falando alto. Mulder senta-se na mesa ao lado. Coloca os livros. Scully olha pra ele. Cochicha com uma amiga. As duas abaixam a cabeça e riem. Mulder abaixa a cabeça e ri.

MULDER: - Scully, sempre uma menina má...

Scully olha pra Robin. Cochicha algo pra ele. Robin levanta-se. Mulder olha pra ela. Scully olha pra ele, rindo, como adolescente boba. A amiga cochicha algo. Ela censura a amiga. A amiga a cutuca. As outras olham pra Mulder. Um dos rapazes, que está de costas pra Mulder, percebe e olha pra elas.

AMIGO: - Ô, suas patetas! Deixem o cara em paz! Ou acham que um universitário vai querer olhar pras espinhas colegiais de vocês?

Scully o fulmina com os olhos.

AMIGO: - Vou falar com o Robin sobre isso...

Mulder pega um guardanapo da mesa e escreve algo. Scully fica observando ele com o rabo dos olhos. A amiga fica olhando pra Mulder. Mulder levanta-se. Scully abaixa a cabeça. Mulder ergue o guardanapo sem os rapazes verem. Sacode-o e aponta pra Scully. A amiga dela acena com a cabeça rindo. Mulder pega os livros e deixa o guardanapo sobre a mesa. Passa pela mesa e dá mais uma olhada pra Scully. Ela olha pra ele. Mulder pisca o olho e sai do bar. Caminha até a praça em frente. Senta-se num banco.

MULDER: - Vamos ver... Vamos ver se funcionou... Mulder seu safado! Ela é só uma garotinha... Mas é a Scully!


BLOCO 4:

Mulder ainda sentado no banco. Vê os rapazes saindo. Eles vão embora. Vê Scully e a amiga saindo do bar. Scully olha pra ele. Sai de fininho. A amiga a segura pelo braço. Mulder disfarça o riso, olhando pro lado.

MULDER: - Culpa e desejo...

A amiga dá o braço e vem puxando Scully até o banco.

ELLEN: - Oi!

Mulder olha pra elas.

MULDER: - Oi.

ELLEN: - Bem, Dana, acho que já vou. Tenho compromissos.

SCULLY: - Ellen, você...

ELLEN: - Adeus.

A amiga sai rindo. Scully fica parada, na frente de Mulder, morrendo de vergonha. Mulder olha pra ela.

MULDER: - Vai ficar aí olhando pra mim ou vai sentar e conversar.

SCULLY: - ... E-eu...

MULDER: - Senta aí. Desculpe o bilhete, não quis criar tumulto por nada. Só simpatizei com você. Queria saber se é caloura.

Ela fica mais calma. Senta-se longe dele.

SCULLY: - Não, ainda faltam dois anos. Só estamos conhecendo a universidade, sabe? Faz parte do programa escolar de bolsas... Você faz o quê?

MULDER: - Psico... Biologia. E você? O que quer fazer?

SCULLY: - Quero fazer medicina. Mas acho que estou sonhando muito alto.

MULDER: - Aposto que será uma ótima médica.

SCULLY: - (SORRI) Obrigado.

MULDER: - Ah! Mulder, meu nome é Mulder.

SCULLY: - Dana. Dana Scully.

Os dois se cumprimentam.

MULDER: - Seu namorado? Aquele garoto era o seu namorado?

SCULLY: - É. O Robin.

MULDER: - Mora por aqui?

SCULLY: - Moro. Moro no condomínio militar. Meu pai é militar.

MULDER: - Sei disso.

SCULLY: - Como sabe?

MULDER: - Seu irmão, há alguns anos me esmurrou num bar em Rhode Island.

Ela sorri.

SCULLY: - Fox?

MULDER: - Viu? Sobrevivi.

SCULLY: - Como sabia que era eu?

MULDER: - Apenas deduzi. Não conheço muitas Danas por aí.

SCULLY: - Puxa! Está bem longe de casa! Está morando sozinho?

MULDER: - ... É. Estou.

SCULLY: - Puxa, não quer ir conhecer meu pai? Ele adoraria se desculpar pessoalmente. Por que desligou daquela vez?

MULDER: - Minha mãe não sabia de nada. Tive de desligar.

SCULLY: - Poderia almoçar com a minha família.

MULDER: - Adoraria.

Ela sorri.

SCULLY: - Legal. Vou te dar o endereço.

MULDER: - E o Bill?

SCULLY: - Ah, ele tá servindo em Port Fourchon. Não se preocupe. Tem uma caneta?

Mulder entrega o livro e a caneta pra ela. Ela escreve algo na contracapa.

SCULLY: - Não tem como errar. É perto daqui.

Scully entrega o livro e a caneta. Levanta-se.

SCULLY: - Bom... Acho que vou indo.

MULDER: - Tá.

SCULLY: - Me liga. Vou combinar com a família. Eles não vão dizer não. Afinal, te devem desculpas.

MULDER: - Tá legal.

Scully sai. Mulder fica a admirando. Ela ainda olha pra trás, dando um sorriso. Mulder acena pra ela. Ela acena. Vira o rosto e sai correndo.

MULDER: - (RINDO) Deus! Por que eu fui pra Londres! Por que dei ouvidos pra minha mãe? Por que quis sair correndo de casa, ir pra longe deles? Eu sou um idiota! Eu sabia que devia ter feito biologia! Eu podia superar! Burro! Idiota!

Mulder olha pro livro. Levanta-se. Joga os outros livros na lixeira. Segura o livro com o endereço de Scully nas mãos.

MULDER: - Podia ter sido feliz muito antes. Fui um imbecil! Quanta dor e tristeza eu poderia ter evitado? Tanto pra mim quanto pra ela.

Mulder fecha os olhos, segurando o livro firmemente. Abre os olhos. Ainda está com o livro, mas está parado na frente da casa de Scully. É noite. Mulder caminha até a casa. Toca a campainha. Ellen abre a porta. Usa uma calça jeans e camiseta de listras colada. Vira-se pra trás.

ELLEN: - (GRITA) Fox chegou!

Mulder olha pra ela com surpresa.

ELLEN: - Entra, Fox. A festa tá animada, mas não dá pra pôr música alta. É uma zona militar, sacou? Ninguém pode desconfiar de nada.

Mulder entra. Percebe que tem uma festa. Vê Charles, num canto, abraçado com uma garota.

ELLEN: - Não se preocupe, os pais da Dana tão viajando.

MULDER: - Ah!

ELLEN: - O Bill tá longe, eles levaram a tagarela fofoqueira da Melissa. Ah! E o Robin não tá aí. Não falamos da festa pra ele.

Mulder sorri.

ELLEN: - Vou te dar um conselho. A Dana é meio indecisa, tá? Não espere por ela.

Ellen, disfarçadamente passa algumas camisinhas pra Mulder. Mulder fica pasmo, olhando pra ela. Ellen sai e aproxima-se de um cara. Os dois começam a trocar beijos.

MULDER: - (PASMO) Scully... Acho que devia selecionar melhor suas amizades...

Scully desce as escadas. Camiseta vermelha e mini-saia jeans. Sapatos altos de salto fino. Mulder olha apatetado pra ela.

MULDER: - Quem diria! A sóbria e séria agente Scully.

Scully aproxima-se dele.

SCULLY: - Puxa, achei que não viria.

MULDER: - Por que não viria?

SCULLY: - Ah, você tem mais o quê fazer do que vir em festas de adolescentes.

MULDER: - Não, eu preciso me divertir.

SCULLY: - Com essa gente?

MULDER: - São seus amigos.

SCULLY: - É, eu sei, mas às vezes eles me irritam. Quer conversar em outro lugar?

MULDER: - Tá.

SCULLY: - Vamos pra cozinha.

Ela sai. Mulder fica olhando pras pernas dela.

MULDER (PENSANDO): - Deus, Scully! Você sempre teve pernas bonitas...

Os dois entram na cozinha. Scully fecha a porta.

SCULLY: - Quer uma cerveja?

MULDER: - Não.

Ela abre a geladeira e pega uma lata. Abre e começa a beber.

SCULLY: - Ah, confessa! Aposto que não tinha nada melhor pra fazer mesmo. Nenhuma garota pra sair?

MULDER: - Não tenho namorada.

SCULLY: - Eu sei, você vive dizendo isso, mas... numa universidade? Que tipo de cara é você?

MULDER: - Diferente.

SCULLY: - (ASSUSTADA) Ai, você não é adepto da ‘seita David Bowie’...

MULDER: - Quê?

SCULLY: - É uma gíria que minha turma usa pra designar os ‘indecisos’...

MULDER: - Não! Eu gosto de garotas.

Mulder escora-se no balcão da pia.

SCULLY: - Olha, Mulder, eu combinei de me encontrar com o Robin. Ele deve estar passando por aqui daqui à pouco. Peço desculpas, tá, por deixar você aí. Mas não posso faltar nesse encontro. Quero que você diga pra Ellen que não me viu sair, ok?

MULDER: - Por quê?

SCULLY: - Porque ela não acredita que eu... Ah, deixa pra lá.

MULDER: - Fala.

SCULLY: - ... (VERMELHA)

MULDER: - Ah, qual é? Pensei que eu fosse seu amigo.

SCULLY: - Você vai rir de mim.

MULDER: - Como pode saber se vou rir de você se nem me falou o que é?

SCULLY: - ... Eu também sou diferente. Mas de outro jeito... E não tô gostando mais que as minhas amigas fiquem rindo de mim porque sou... virgem.

MULDER: - (INCRÉDULO) Qual é o problema?

SCULLY: - Como assim? Hoje em dia, garotas de 14 anos não são mais virgens! Elas me chamam de doente! E eu não quero que fiquem rindo de mim!

MULDER: - Scul... Dana, acho que isso é uma coisa muito particular sua e ninguém tem nada a ver com isso. Você vai saber a hora. Deixa elas de lado.

SCULLY: - É, a hora é hoje. Por isso vou sair com o Robin. Assim, eu tenho o que contar pra elas e então, elas vão me aceitar como normal na fraternidade.

Ela sai da cozinha. Mulder ergue as sobrancelhas. Batidas na porta da cozinha. Mulder abre a porta. Vê Robin.

ROBIN: - Oi, Fox. Pode chamar a Dana?

Mulder olha pra trás maquiavélico.

MULDER: - A Dana não tá. Ela disse que te encontrava na tua casa.

ROBIN: - Na minha casa? Mas a gente combinou que...

MULDER: - É, palhaço, cai fora!

Mulder empurra Robin e fecha a porta. Dá um sorriso.

MULDER: - Não, nesse destino aqui você tá fora, meu filho. Não vou te dar a chance duas vezes...

Scully entra na cozinha.

SCULLY: - Nada do Robin?

MULDER: - Não, mas um amigo dele teve aqui e disse que o Robin adiou o encontro.

SCULLY: - (CHATEADA) Por quê?

MULDER: - Parece que está com dor de cabeça, diarréia, sei lá. Acho que tem uma epidemia por aí.

SCULLY: - Ah, pobrezinho! Acho que devo ir ver como ele está e...

MULDER: - (CÍNICO) Não, ele já tá tomando remédios. O médico disse que é contagioso. Ô, Dana que tal dançar comigo? Já que o Robin não vem mesmo?

Scully despede-se dos amigos. Ellen lhe cochicha.

ELLEN: - Vai nessa, sua burra!

SCULLY: - Pára!

ELLEN: - Ele não é um garoto inexperiente...

SCULLY: - Ellen, pára! Nós somos amigos e ele serve pra meu irmão mais velho!

ELLEN: - E daí? Não é seu irmão mais velho e tem uma bundinha ...

SCULLY: - (ENVERGONHADA) Ellen, pára! Vai embora!

Eles saem. Scully fecha a porta. Mulder está sentado no sofá. Scully olha pra ele. Coloca as mãos pra trás, meio encabulada. Mulder olha pra ela.

SCULLY: - Não vai embora?

MULDER: - (DEBOCHADO) Tá me dispensando, é?

SCULLY: - (SORRI TÍMIDA) Não, é que...

MULDER: - Dana, não sou nenhum calhorda.

SCULLY: - ... Desculpe... Bem, que idéia a minha! Você é um homem, tem várias garotas da sua idade...

MULDER: - ...

SCULLY: - (COMPLEXADA) E eu sou criança pra você... E feia... E cheia de sardas.

MULDER: - Você não é feia. Você é linda!

SCULLY: - ... (SÉRIA/ TÍMIDA)

Ela liga a TV. Senta-se no sofá. Longe dele. Mulder ri.

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - Nada. A situação é estranha.

SCULLY: - ...

MULDER: - Gosta do Robin?

SCULLY: - É. Gosto. Mas não sou mais louca por ele.

MULDER: - Gosto de você. Não sabe o quanto eu te amo.

SCULLY: - Mas mal me conhece!

MULDER: - Não. Eu te conheço muito mais do que você pensa. Sei que tem desejos, mas tem culpa. Sei que é dominada pela razão, embora tenha sua fé. Sei que é frágil, mas tenta ser forte.

Ela olha assustada pra ele.

SCULLY: - (CURIOSA) Como sabe tanto sobre mim?

MULDER: - Porque te aprendi. Porque amo aprender você.

Ela sorri. Senta-se mais próximo dele. Mulder põe o braço sobre ela. Ela muda de assunto, embaraçada, tensa. Fica catatônica, imóvel.

SCULLY: - Vai começar um filme legal.

MULDER: - Se quer dormir, eu vou embora.

SCULLY: - ...

MULDER: - ...

SCULLY: - (OLHANDO PRA TV) Quero que fique.

Mulder olha pra ela. Ela continua olhando nervosa pra TV.

SCULLY: - Acho que gosto de você também. Você me dá tanta segurança, gosto de ficar com você. Você é inteligente, tem assunto, não é como esses garotos bobos. Pra dizer a verdade, eu... eu estou apaixonada por você. Mas sei que isso é impossível.

MULDER: - Por quê?

SCULLY: - Por vários fatores. Um deles é que você vai rir e dizer que isso é amor platônico de adolescente por um cara mais velho. Depois, vai fingir que acredita e quando conseguir o que quiser vai me dispensar porque fui fácil e porque sou boba demais pra você. E por último, você é muito lindo pra ficar com a Gata Borralheira.

MULDER: - Meu Deus! Pára de ser racional um pouquinho! Por que acha que eu pensaria todas essas coisas? É mais fácil fugir e supor coisas a meu respeito do que acreditar no que eu digo? E quer saber, a Gata Borralheira era um princesa, apenas escondia a sua beleza.

SCULLY: - Tá me cantando?

MULDER: - Acho que estou. Pra dizer a verdade, estou. E pra ser mais sincero ainda, eu queria subir agora pra aquele quarto e fazer amor com você. Mas já aviso, não tenho experiência alguma.

Ela olha pra ele com surpresa, sorrindo. Agora ele é quem olha pra TV, encabulado.

SCULLY: - Sério? De que planeta você veio?

MULDER: - De longe, muito longe. De uma outra dimensão. Acredite. Mas não quero te forçar a nada.

SCULLY: - ... Eu... Se você começar, eu não vou recusar...

Ela fica olhando pra TV. Mulder segura a mão dela.

MULDER: - Se tiver que rolar, vai rolar. Afinal, quem pode saber?

Ela deita a cabeça no ombro dele. Mulder fecha os olhos.

MULDER: - Ah, Scu... Dana. Por que isso é tão difícil com você? Em qualquer dimensão, em qualquer tempo ou espaço, isso sempre é difícil com você!

Ela olha pra ele. Mulder olha pra ela. Aproxima seus lábios dos dela. Ela fecha os olhos. Mulder a beija suavemente.

MULDER: - Eu te amo, Dana. Acredite. Nosso destino juntos estava traçado em qualquer direção que seguíssemos.

Ela o envolve nos braços e deita-se no sofá, puxando-o pra cima de seu corpo. Mulder fecha os olhos.


Mulder abre os olhos e percebe que está no jardim. Mulder olha pra porta suspensa.

MULDER: - Tá bom, Sentinelle. Se é isso que quer saber, me arrependo de não ter ido ao baile. Se eu soubesse disso tudo, teria ido ao maldito baile. Agora, me deixa sair daqui. Tenho que voltar pra realidade. Pra escolha errada que fiz.

A porta não se abre. Mulder escuta vozes atrás de si. Vira-se. Vê um quarto de hospital. Vê o Canceroso fumando e vê a si mesmo fumando também, enquanto derruba lágrimas. Mulder olha com incredulidade.

CANCEROSO: - Meu filho, estou feliz que esteja trabalhando pra mim. Não se preocupe, as crianças ficarão bem.

MULDER: - ... Preciso trabalhar ou vou enlouquecer. Ela era tudo o que eu tinha!

CANCEROSO: - Começaremos o projeto amanhã. Você ficará encarregado de tudo, afinal confio em você. Sabe como transplantar aqueles genes. Vamos continuar com os híbridos. Sem você, nada disso teria sido possível.

Os dois saem do quarto. Mulder olha pra ele mesmo e para o Canceroso. Percebe a cama de hospital. Scully está morta. Mulder vira-se atordoado pra porta.

MULDER: - (ASSUSTADO) Não, Sentinelle. Eu não me arrependo de nada do que fiz. Não mesmo. Estou no caminho certo. Obrigado pela certeza.

A porta abre-se. Mulder atravessa.


Mulder sai na sala do museu. Com o livro de biologia na mão. Mulder olha pro livro. Sorri, aliviado. Scully entra na sala.

SCULLY: - (NERVOSA) Mulder, onde estava? Estou feito louca andando pra cima e pra baixo nesse museu tentando te encontrar!

Mulder abraça-se nela. Beija-a apaixonadamente. Scully fica assustada.

SCULLY: - Mulder, o que houve? De onde tirou esse livro?

Scully pega o livro. Olha na contracapa.

SCULLY: - O que o endereço da antiga casa de meus pais faz aqui? E com a minha letra? Nunca escrevi isso!

MULDER: - Ainda bem, Scully! Ainda bem!

Barulho de porta batendo-se. Scully olha pro quadro. A porta está fechada.

SCULLY: - Mulder, nem me explique, quero sair agora daqui!

MULDER: - Concordo com você, Scully.

Os dois saem da sala, correndo. Uma luz projeta-se pra fora da sala. Eles nem olham pra trás. Mulder pega a chave do bolso e abre a porta do museu. Os dois saem. Mulder bate a porta. Respira tenso. Escora-se de costas na porta. Scully também.

SCULLY: - Mulder, o que era aquilo?

MULDER: - O caminho que não seguimos.

SCULLY: - ???

MULDER: - (RINDO) Sabe que fui seu primeiro homem?

SCULLY: - (SEM ENTENDER) Ahn?

MULDER: - E você foi minha primeira mulher?

SCULLY: - (INCRÉDULA) Mulder, o quê andou bebendo?

MULDER: - (RINDO SOZINHO) E que foi maravilhoso? Mágico?

SCULLY: - Mulder, que história é essa?

Ele a puxa pela mão. Eles descem as escadas conversando.

MULDER: - Vamos embora daqui, Scully. Te conto tudo no caminho.

SCULLY: - Onde foi parar o unicórnio?

MULDER: - De volta ao lugar de onde saiu. Scully, você tem uma amiga chamada Ellen?

SCULLY: - É a mãe do meu afilhado. Por quê?

MULDER: - (RI) Nada. Absolutamente nada.

SCULLY: - ...

MULDER: - Linda mini-saia que você usava aos 14 anos.

SCULLY: - Como sabe que eu usava mini-saia aos 14 aos?

MULDER: - (DEBOCHADO) Festinhas escondidas... O Charles dava cobertura...

SCULLY: - Mulder? Como sabe disso?

Os dois entram no carro. Ela atira o livro no banco de trás. Sorri.

SCULLY: - Vai ter que me explicar, Mulder! Sou curiosa!

MULDER: - Vamos pra longe daqui.

SCULLY: - Mulder, tem a ver com o quadro? Você leu o nome do autor das pinturas?

MULDER: - Sentinelle.

SCULLY: - Sentinelle Passé. Sabe o que significa isso em francês?

MULDER: - Não.

SCULLY: - Sentinela do passado.

MULDER: - Scully, quero sair daqui!

Mulder liga o carro e acelera. O carro perde-se no horizonte. Corta para o museu. Câmera de aproximação pelo corredor até a porta da sala de exposição. Aproximação até o quadro.

Som de risos grotescos e assustadores.

A porta abre-se novamente.


X


17/06/2000

5 de Agosto de 2019 às 00:43 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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